As últimas do doutor

José Horta Manzano

Teto baixo
Outro dia, apontei a baixa altura do pé direito dos salões de Brasília como causa (ou, pelo menos, agravante) do ambiente de opressão que reina por lá. O semblante torturado de nosso presidente transmite angústia contagiante.

Repare o distinto leitor na imagem tomada quando do pronunciamento que doutor Bolsonaro fez na terça-feira, 24 de março. Falo daquele em que Sua Excelência atacou os governadores, a imprensa e mais meio mundo, além de aconselhar os brasileiros a ignorarem o autoconfinamento. O teto do cômodo é aflitivamente baixo ou será impressão minha?

Teleprompter
Em primeiro plano, aparece o ponto eletrônico da marca Autoscript, um aparelho chamado teleprompter. Um equipamento dessa categoria não sai por menos de 15 mil dólares. É que nosso bom doutor, deixado sem uma cola escrita, é incapaz de se exprimir com um mínimo de coerência. Sem essa muleta, o homem seria ainda mais perigoso do que, de natureza, já é. É por isso, pra não gaguejar nem dar vexame gordo, que ele lê o discurso que vai desfilando pela tela do prompter.

Doutor Bolsonaro, o pé direito e o teleprompter

Confinamento
Nosso doutor quer que o recolhimento à residência se restrinja aos idosos – categoria da qual, aliás, ele faz parte. Segundo seu raciocínio emperrado, dado que só os velhos costumam desenvolver quadro grave do Covid-19, são eles os únicos a terem de cumprir quarentena.

Ora vejam. Não lhe passou pela cabeça que crianças podem ser portadoras sãs. Quando apanham o vírus, permanecem assintomáticas, mas podem contaminar. Crianças na escola, tanto em classe quanto no pátio de recreio, correm, brigam, se agarram, se abraçam. Um único aluninho atingido pelo vírus é capaz de contaminar toda a classe. Em seguida, cada um levará a doença pra seu respectivo lar. Adultos e idosos entram na fila do contágio – uma fila que avança rápido. E a doença vai tomando conta do país.

E pensar que tem gente aplaudindo a fala do presidente.

Templos
O último boletim oficial indica que, na França, 25.233 cidadãos já foram contaminados e 1.331 já sucumbiram. No país, o Covid-19 mata atualmente uma pessoa a cada 4 minutos. Não se sabe direito como o vírus entrou no país. O que se sabe é que o foco inicial de irradiação da epidemia apareceu em Mulhouse, pequena cidade da Alsácia, região descentrada, nos confins do país, perto da fronteira com a Suíça e com a Alemanha. À primeira vista, não é lá que se esperaria encontrar concentração de contaminados.

Investigações feitas, descobriu-se que os primeiros contágios ocorreram num templo neopentecostal. Um encontro especial dos adeptos fez que gente tenha vindo não só do lugar, mas de regiões vizinhas. Naquele espaço apinhado, pelo menos um dos fiéis havia de estar contaminado. A partir do primeiro contágio, a doença se alastrou. A região da Alsácia, que normalmente não é ponto concorrido de visitantes do mundo todo, tem hoje tantos doentes quanto a região de Paris. Até os países próximos (Suíça, Alemanha e Luxemburgo) têm acolhido doentes franceses da região, visto que as abarrotadas UTIs locais não dão mais conta de receber pacientes novos.

Doutor Bolsonaro assinou decreto permitindo que templos e igrejas recebam fiéis que, imagina-se, darão as mãos e se abraçarão. É que o mesquinho interesse eleitoral fala mais alto. Pouco importa ao doutor que os templos se transformem em ponto de irradiação da doença, acarretando sofrimento e morte. O que interessa é agradar aos adeptos, que ele enxerga como sua base eleitoral.

Vamos torcer para que nenhum fiel contagiado assista a culto nenhum. Se isso ocorrer, já se sabe qual pode ser o resultado.

Quarentena

José Horta Manzano

Temos novena para Santo Antônio. Temos dezena (de 10 unidades). Temos trezena para Santa Brígida. Temos quinzena, que corresponde a duas semanas ou, grosso modo, à metade de um mês. Temos vintena, que se usa para exprimir quantidade ao redor de 20 unidades. Temos ainda centena.

As pessoas suspeitas de estarem contaminadas pelo coronavírus devem cumprir 14 dias de confinamento. Todos, sem exceção, dizem que o indivíduo está de quarentena. O ano de 2020 marcará um pico de uso desse termo.

Bem, errado, propriamente, não está. Só que a palavra quarentena, nesse caso, está sendo utilizada por ampla extensão de sentido. Na origem, quarentena é o período de 40 dias, tempo de resguardo estabelecido desde a Antiguidade. No caso de a quarentena durar 14 dias, por que não usar quatorzena (ou catorzena)? O termo exprime exatamente o que tem de exprimir.

O Volp traz quatorzeno (ou catorzeno), um numeral que indica o décimo quarto de uma série. A partir daí, pelo menos foneticamente, a porta está aberta para que se ouse quatorzena (ou catorzena) para o período de resguardo de 14 dias.

Observação
Dizemos: quatro, quarenta, quarentena, quatrocentos, quadrado, quadragésimo, quatriênio, quatrilhão, quarto, quadra, quadrante, quadrar, quadratura, quadriculado, quadríceps, quadrifólio – e muitos outros da mesma família. Como veem, todos começam com qua.

O patinho feio, único a escapar do qua, é o 14. Na hora de dar-lhe nome, damos preferência a catorze, com ca. (Quatorze é forma menos comum.) Curioso, não?

Publicado originalmente no blogue Língua de Casa.

Mentes embotadas

José Horta Manzano

É impressionante como a ignorância dá filhotes. Não se passa uma semana sem que o Planalto lance nova barbaridade, filha da ignorância. A mancada de hoje bate às portas da crueldade. É negação de um dos princípios básicos da democracia: o Estado tem o dever de amparar os membros mais frágeis da sociedade.

Algumas dezenas de conterrâneos nossos vivem nas cercanias de Wuhan, o ponto central da epidemia de pneumonia viral que está assustando o planeta. Nenhum deles está lá a mando do governo; cada um terá razões pessoais: paixão, estudo ou trabalho. Todos os dias, nossos patrícios veem amigos expatriados sendo recolhidos pelo país de origem. Os EUA, o Japão, a Alemanha, a França, a Espanha, a Bélgica, a Holanda, a Itália, a Suíça e muitos outros já cuidaram de repatriar seus filhos e tirá-los do olho do furacão.

Nossos conterrâneos, sentindo-se abandonados, juntaram-se e produziram um vídeo conjunto, em que rogam ao presidente da República que dê um jeito de tirá-los de lá. Sem ajuda, não conseguem sair. Os transportes estão todos paralisados; nada de trem, ônibus ou avião. Estão de mãos atadas, à mercê da boa vontade de doutor Bolsonaro. Sabem o que ele fez?

Nosso solerte presidente declarou-se «muito preocupado». Foi só. Negou ajuda aos patrícios. Disse que nenhum avião será encomendado pelo governo brasileiro, nem avião da FAB, nem fretado. Alegou que custa muito caro. Tentou escapar da responsabilidade ao explicar que precisa da aprovação do Congresso. (O Congresso não precisou aprovar a requisição do jato da FAB que levou um auxiliar de ministro à Índia – mas essa é uma outra história.)

Bolsonaro encerrou o assunto e matou a charada ao declarar-se receoso de que aquele punhado de expatriados venha contaminar 200 milhões de brasileiros. Não disse, mas todos entenderam: «Foram para esse país comunista porque quiseram; agora, que se virem; não tenho nada que ver com isso.»

Não sei como Donald Trump, Angela Merkel e outros fizeram para evitar contaminar milhões de cidadãos seus ao repatriar os conterrâneos em dificuldade. Deram um jeito. Sei, no entanto, como fez a França. Requisitou uma espécie de colônia de férias, à beira-mar, desocupada nesta época do ano. Conforme vão chegando os franceses vindos de Wuhan, vão sendo acomodados no lugar. Hoje já chegou o segundo avião, com mais uma leva de cento e tantas pessoas. Vão ficar lá por 14 dias, que é o prazo após o qual não há mais risco de contágio. Alimentados e bem tratados, podem circular dentro do perímetro da colônia; só não podem sair. Concordo que não é a maneira mais agradável de passar férias, mas é sempre melhor do que ficar confinado dentro de casa na China.

Os aviões fretados pela França trazem também cidadãos de países vizinhos. Belgas, holandeses e luxemburgueses estão sendo trazidos assim. O Brasil tem vizinhos que, muito provavelmente, têm cidadãos perdidos naquela lonjura. Nestas horas, a prática diplomática ensina que se deve consultar Buenos Aires, Montevidéu, Assunção, Santiago e propor uma ‘rachadinha’ – no bom sentido, naturalmente. Cada uma paga na proporção do número de cidadãos repatriados. O avião faz escala aqui, depois ali e acolá até chegar ao destino final definido pelas autoridades sanitárias brasileiras.

Bom, “isso aí” é o que ocorreria se tivéssemos um governo normal. Desgraçadamente, não temos. Portanto, os conterrâneos desgarrados que se virem, que o governo está se lixando procês.

E parem com essa história, que já deu. Agora, silêncio, porque os graúdos do Planalto estão preparando a próxima live. Pô! Essas picuinhas de brasileiro em país comunista atrapalham pra caramba, taoquei?

Comissão de Ética Pública

PraiaCláudio Humberto (*)

Plano secreto do Planalto, ao qual esta coluna teve acesso, prevê uma manobra que obrigaria os cofres públicos a bancar o “governo paralelo” anunciado por Dilma após seu afastamento.

A ideia é nomear ainda no governo atual, antes do dia 11 (data de votação do impeachment), os membros do futuro “governo paralelo”. Ao serem demitidos pelo novo governo, pedirão o “direito a quarentena remunerada” por 4 meses.

A Comissão de Ética Pública da Presidência da República tem papel essencial para fazer os cofres públicos bancarem o governo paralelo. O esquema prevê aprovação da quarentena pela Comissão, alegando inviabilidade de os demitidos obterem empregos. Quatro meses de “quarentena remunerada” serão suficientes para bancar o governo paralelo, avalia a cúpula do PT no Planalto.

Há antecedentes. Suspeito de corrupção no governo, ex-ministro Antonio Palocci obteve “quarentena remunerada” devidamente avalizada pela Comissão de Ética Pública.

(*) Cláudio Humberto, bem informado jornalista, publica coluna diária no Diário do Poder.

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Praia 2Nota deste blogueiro
É surpreendente que, em quase 14 anos de atividade, o governo popular não tenha estendido, a todos os que perdem o emprego, direito a uma quarentena remunerada. A lógica mais elementar ensina que o pequeno assalariado tem mais necessidade desse benefício do que membros do governo federal.

Observe-se que a comissão a que se alude é a de Ética Pública(!). Sustentada com nosso dinheiro, distinto leitor.