Habebimus novum papam! (*)

José Horta Manzano

Clemente IV ― papa francês nascido em Nîmes ― faleceu em 1271. Como de costume, os cardeais se reuniram para escolher um sucessor. As deliberações se eternizavam. Passavam-se as semanas, os meses, e nada de decisão. Os cardeais eleitores continuavam a reunir-se, a discutir, a pelejar, sem conseguir chegar a um acordo.

Depois de 3 anos (três anos!), o segundo escalão da Igreja e também os fiéis já não aguentavam mais. Parecia brincadeira! Alguém teve então a astuciosa ideia de trancar o colegiado de cardeais numa sala e proibi-los de sair enquanto não tivessem chegado a um acordo sobre o sucessor do papa Clemente.

A palavra conclave, que chegou até nossos dias, tem origem exatamente nesse episódio digno do parlamento de certas repúblicas de bananas. A expressão latina cum clave quer dizer, literalmente, com chave. Ficaram Suas Eminências trancados à chave. E alimentados a pão e água.Chave

Foi medida eficaz: em brevíssimo tempo, o italiano Tebaldo Visconti foi eleito por seus pares. Adotou o nome de Gregório X e reinou até falecer, uns 5 anos mais tarde.

Por determinação do próprio Gregório, a tradição foi mantida e permanece até nossos dias: chegada a hora de escolher o novo chefe da Igreja Católica, os cardeais são simbolicamente trancados numa sala do Vaticano. O magro regime de pão e água, por demasiado espartano, foi atenuado. Hoje são servidas refeições normais. Talvez por receio de voltar à antiga dieta, os eleitores nunca mais deixaram que as discussões durassem tanto tempo.

Um novo conclave está para ser convocado, questão de poucas semanas. Vista a idade provecta de muitos dos participantes, o cardápio dificilmente incluirá feijoada, torresmo pururuca ou salada de pepino. Um franguinho ou um peixe grelhado serão provavelmente servidos. Peixe será mais adequado, dado que os debates cairão em plena Quaresma.

Subitamente, muita gente descobriu uma repentina vocação para vaticanista. Cada um vem com sua análise. Uns falam de complô, de conspiração, de golpe de estado. Outros lamentam o que consideram decisão abrupta, repentina e incompreensível do atual ocupante do trono de São Pedro. Há mesmo quem evoque pressões políticas, como se vivêssemos ainda no tempo dos Habsburgos. Li até artigos que especulam sobre intrigas palacianas, como se os Borgias ainda reinassem.

Na minha humilde opinião, a realidade é bem menos complexa. As explicações mais simples são às vezes as mais difíceis de encontrar. Os dois mais recentes papas foram os primeiros não italianos a ocupar o cume da hierarquia no último meio milênio. O mundo havia-se acostumado ao comportamento de personalidades italianas. O arrebatamento e a paixão são componentes essenciais da alma latina. Todo aquele que “chegou lá” pisa até no pescoço da mãe, como se diz maldosamente, para manter seu poder, sua visibilidade e seus privilégios.

O dignitário que antecedeu Bento XVI, embora não fosse italiano, era dono de personalidade pra lá de especial. Não cabe aqui discutir as razões que o terão levado a agarrar-se ao cargo até o último suspiro.

Já nosso simpático Joseph Alois Ratzinger ― sorridente, de olhos vivos e andar saltitante ― é, antes de tudo, um teutônico típico. Alemães, suíços, austríacos, holandeses e outros povos do espaço germânico carregam certos traços comuns. Um dos mais marcantes é a visão realista. Para eles, o ofício que exercem, antes de ser uma missão, é um trabalho, uma obrigação. Não costumam considerar-se insubstituíveis. Encaram a alternância e a sucessão como coisas naturais da vida, bem longe de nossa visão messiânica.

No meu entender, a decisão tomada por Bento XVI se inscreve nessa lógica. A partir do momento em que não me sinto mais à altura de exercer minhas funções, abdico e deixo que alguém em melhores condições tome meu lugar. Sem mágoas.

O papa tomou uma decisão de bom senso. Mostrou desapego. Deu a prova de que não se considera ungido pelo Altíssimo para flutuar acima do bem e do mal.

Pode-se discutir sobre os caminhos que preconizou para seu rebanho. Uns dirão que era retrógrado, conservador, inflexível. Outros replicarão que deu os pequenos passos que podia dar, sem pretender forçar suas ovelhas a uma guinada demasiado brusca.

A verdade é que cumpriu seu mandato. Chegou a um ponto em que a saúde não lhe permite ir além. Na impossibilidade de transmitir suas responsabilidades a um parente, um suplente, um vice ou um irmão ― como sói acontecer em certos lugares que conhecemos bem ― simplesmente apresentou sua demissão e vai-se embora.

Tomara certos dinossauros de nossa maltratada República seguissem seu exemplo.

(*) Teremos novo papa!

São Valentim

José Horta Manzano

Você sabia?

Em muitos lugares do mundo, no dia 14 de fevereiro se festeja São Valentim, o patrono dos namorados. Que caia numa segunda-feira, numa quinta, num domingo, ou em qualquer outro dia da semana, é festa fixa, será comemorada sempre naquele mesmo dia.

Os franceses e outros europeus não apreciam muito que se diga, mas, segundo vários pesquisadores, a festa de São Valentim é de origem inglesa. Poderia ser alemã, russa ou chinesa, mas parece que é britânica mesmo, desde a Idade Média, que é que se há de fazer?

Alguns autores consideram que o «Valentine‘s day» é o que os romanos chamavam Lupercale, festival dedicado a Lupercus, deus da fertilidade. A demonstração cabal não foi feita, mas faz sentido.

Como sabem todos os meus eruditos leitores, a crueza do inverno no hemisfério norte aperta justamente na virada do ano, dezembro, janeiro, fevereiro, por aí. Diferentemente do Brasil, as diferenças de temperatura e de paisagem são muito marcantes por aqui. A partir de novembro, a temperatura começa a cair, o sol se faz raro, amanhece mais tarde e anoitece bem cedo, as árvores perdem as folhas, os pássaros desaparecem, um lençol branco de neve recobre frequentemente a terra.

Hoje em dia ― é coisa recente, de algumas dezenas de anos para cá ― temos casas aquecidas, máquinas para tirar a neve dos caminhos e das estradas, até rampas de saída de garagem com aquecimento no chão para evitar a formação de gelo. Luxos inimagináveis até há bem pouco tempo. Já houve até quem dissesse que a luz elétrica revogou a noite. Um exagero, certamente. Se bem que…Coração

Reza a tradição que, em meados de fevereiro, quando os dias começam a se alongar, os passarinhos nidificam. Antes disso, naturalmente têm de formar pares, que nenhum pássaro constrói ninho individual. Então, começa aquela cantoria, uns piam, alguns gralham, outros cantam melodias surpreendentes. Tudo isso para seduzir uma parceira. É o que chamamos a «estação dos amores», a vida que renasce.

Faz séculos que os ingleses festejam seu Valentine’s day. No princípio, era uma festa do tipo «liberou geral». Ô, mentes sujas, não é necessariamente o que estão pensando! Era um dia em que os rapazes tímidos se sentiam liberados para declarar sua paixão pela amada. Um bilhetinho, um recado, um sorriso, qualquer um desses sinais valia declaração. Só isso.

Até 40 ou 50 anos atrás,  a festa ainda não representava oportunidade comercial na Europa. Foi a partir dos anos 60 ou 70 que os comerciantes começaram a enxergar aí uma excelente ocasião para aumentar seu movimento. Ainda estes dias ouvi uma entrevista gravada em 1962 com uma florista parisiense. O repórter perguntava se seus negócios aumentavam com a aproximação do dia 14. A resposta foi um «não» redondo ― para ela, não mudava nada.

Hoje muda. E muito. Nos dias que antecedem a festa, as vendas de flores, de chocolates, de joias, de tudo o que possa servir aos que querem declarar seu amor aumentam consideravelmente. E tem mais. Se, antigamente, a ocasião era aproveitada unicamente pelos que queriam se declarar, hoje vale também para os que querem confirmar seus sentimentos pela pessoa amada. Jovens, maduros e velhinhos trocam presentinhos. Os comerciantes aplaudem de pé.

Quanto à origem do santo, do Valentim propriamente dito, a controvérsia é inextricável. Há pelo menos sete versões diferentes. Ele teria existido, não teria existido, seria um mártir, teria morrido de morte natural, seria um eremita, seria um camponês beato. No fundo, hoje em dia, poucos estão preocupados em saber quem foi o santo que emprestou seu nome ao dia.

Não é impossível que nunca tenha existido, que seja apenas uma lenda. Valentim é descendente direto do latino valere, que também deu valor, valente e valioso. O renascer primaveril é vigoroso, vem cheio de promessas. Para quem atravessou o inverno ― frio, longo e desnudado ― tem muito valor.

Objetos e decorações em forma de coração podem não ser tão valiosos, mas são onipresentes por esta época. Aos namorados que apreciam a paz, é recomendado que, por nada deste mundo, esqueçam de comprar uma lembrancinha para a amada.

ENGRISH AROUND THE WORLD ― 2a. parte

José Horta Manzano

Agradeço aos estoicos que se esforçaram em ler o post de ontem. Não é à toa que justamente aqueles que residem fora do País formaram a maioria. Hão de estar menos envolvidos pelo grande evento carnavalesco.

Quero lhes contar como é o Carnaval por aqui, mas hoje não dá tempo. Fica para a próxima.

Para este ‘sábado de folia’, mais algumas pérolas.

Não entendo 2
From a brochure of a car rental firm in Tokyo:
When passenger of foot heave in sight, tootle the horn. Trumpet him melodiously at first, but if he still obstacles your passage then tootle him with vigor.

In an advertisement by a Hong Kong dentist:
Teeth extracted by the latest methodists.

A translated sentence from a Russian chess book:
A lot of water has been passed under the bridge since this variation has been played.

In a Rome laundry:
Ladies, leave your clothes here and spend the afternoon having a good time.

In a Slovakian tourist agency:
Take one of our horse-driven city tours – we guarantee no miscarriages.

Advertisement for donkey rides in Thailand:
Would you like to ride on your own ass?

On the faucet in a Finnish washroom:
To stop the drip, turn cock to right.

In the window of a Swedish furrier:
Fur coats made for ladies from their own skin.

On the box of a clockwork toy made in China:
Guaranteed to work throughout its useful life.

Detour sign in Kyushi, Japan:
STOP. Drive sideways.

In a Swiss mountain inn:
Special today ― No ice cream.

In a Bangkok temple:
It is forbidden to enter a woman even a foreigner if dressed as a man.

In a Tokyo bar:
Special cocktails for the ladies with nuts.

In a Copenhagen airline ticket office:
We take your bags and send them in all directions.

On the door of a Moscow hotel room:
If this is your first visit to this country, you are welcome to it.

In a Norwegian cocktail lounge:
Ladies are requested not to have children in the bar.

At a Budapest zoo:
Please do not feed the animals. If you have any suitable food, give it to the guard on duty.

In the office of a Romanian doctor:
Specialist in women and other diseases.

In an Acapulco hotel:
The manager has personally passed all the water served here.

In a Tokyo shop:
Our nylons cost more than common, but you’ll find they are best in the long run.

From a Japanese information booklet about using a hotel air conditioner:
Cooles and heates: if you want just condition of warm in your room, please control yourself.

Two signs from a Majorcan shop entrance:
English well talking. Here speeching American.

Outside a Paris dress shop:
Dresses for street walking.

At the entrance of a Nairobi building:
Mental health prevention center.

Y se acabó!

ENGRISH AROUND THE WORLD ― 1a. parte

José Horta Manzano

O Carnaval está aí, minha gente! É hora de esquecer, nem que seja por alguns dias, as agruras da vida real.

Cem anos atrás, quando nossa festa maior ainda se confundia com o entrudo, não havia internet. Mas todo cidadão medianamente escolarizado possuía alguns rudimentos de francês, língua dominante da época. Minha avó sabia até a letra da Marseillaise ― na sua visão muito pessoal, entenda-se.

Hoje em dia, somos quase todos navegantes da rede. O mundo mudou, o francês foi suplantado pelo inglês, e todos os que se aventuram na internet têm de ter, queiram ou não, alguns rudimentos de inglês. Se não, estão perdidos.

Vamos aproveitar estes dias para atenuar a dureza do quotidiano. Vamos observar um pouco como se ajeitam outros povos para se comunicar numa língua que nem sempre lhes é familiar. Diversão garantida.

Quem preferir, pode mudar de canal e torcer por sua escola preferida no desfile da avenida. Ou do sambódromo.Não entendo

Dry cleaners in Bangkok:
Drop your trousers here for best results.

In a Nairobi restaurant:
Customers who find our waitresses rude ought to see the Manager.

On the grounds of a private school:
No trespassing without permission.

On an Arctic River highway:
TAKE NOTICE: When this sign is under water, this road is impassable.

On a sign in Japan:
Do not lean on gate for it occurs you Trouble.

On a poster at Fight Illiteracy:
Are you an adult that cannot read? If so, we can help.

In a City restaurant:
Open seven days a week and weekends.

A sign seen on an automatic restroom hand dryer:
DO NOT ACTIVATE WITH WET HANDS!

On a Japanese hotel’s website:
Beautiful green, seasonal flowers, and carps in the pond are waiting for you.
Is the public bath hot spring?
Tofu is made of soybeans, water, and magnesium chloride.
Here is tasteful Kyoto that you have been thinking of!
The link is free and there is not getting in touch on the occasion of the link in this page, being necessary.
Is there a laundry machine? Yes. It is on the roof top of our hotel.

In a maternity ward:
NO CHILDREN ALLOWED.

In a cemetery:
Persons are prohibited from picking flowers from any but their own graves.

Sign in Japanese public bath:
Foreign guests are requested not to pull cock in tub.

Tokyo hotel’s rules and regulations:
Guests are requested not to smoke or do other disgusting behaviours in bed.

Hotel room notice in Chiang-Mai, Thailand:
Please do not bring solicitors into your room.

Hotel brochure in Italy:
This hotel is renowned for its peace and solitude. In fact, crowds from all over the world flock here to enjoy its solitude.

In a Shanghai Hotel:
Is forbitten to steal hotel towels please.
If you are not person to do such thing is please not to read notis.

In another Chinese hotel room:
Please to bathe inside the tub.

In a Bucharest hotel lobby:
The lift is being fixed for the next day. During that time we regret that you will be unbearable.

In a Leipzig elevator:
Do not enter the lift backwards, and only when lit up.

In a Belgrade hotel elevator:
To move the cabin, push button for wishing floor. If the cabin should enter more persons, each one should press a number of wishing floor. Driving is then going  alphabetically by national order.

In a Paris hotel elevator:
Please leave your values at the front desk.

In a hotel in Athens:
Visitors are expected to complain at the office between the hours of 9 and 11 a.m. daily.

In a Serbian hotel:
The flattening of underwear with pleasure is the job of the chambermaid.

In a Japanese hotel:
You are invited to take advantage of the chambermaid.

In the lobby of a Moscow hotel across from a Russian Orthodox monastery:
You are welcome to visit the cemetery where famous Russian composers, artists, and writers are buried daily except thursday.

In an Austrian hotel catering to skiers:
Not to perambulate the corridors in the hours of repose in the boots of ascension.

On the menu of a Swiss restaurant:
Our wines leave you nothing to hope for.

On the menu of a Polish hotel:
Aalad a firm’s own make; limpid red beet soup with cheesy dumplings in the form of a finger; roasted duck let loose; beef rashers beaten up in the country people’s fashion.

In a Hong Kong supermarket:
For your convenience, we recommend courteous, efficient self-service.

Outside a Hong Kong tailor shop:
Ladies may have a fit upstairs.

In a Rhodes tailor shop:
Order your summers suit. Because is big rush we will execute customers in strict rotation.

From a Russian Weekly:
There will be a Moscow Exhibition of Arts by 15,000 Russian Federation painters and sculptors. These were executed over the past two years.

In an East African newspaper:
A new swimming pool is rapidly taking shape since the contractors have thrown in the bulk of their workers.

In a Vienna hotel:
In case of fire, do your utmost to alarm the hotel porter.

A sign posted in Germany’s Black Forest:
It is strictly forbidden on our Black Forest camping site that people of different sex, for instance, men and women, live together in one tent unless they are married with each other for that purpose.

In a Zurich hotel:
Because of the impropriety of entertaining guests of the opposite sex in the bedroom, it is suggested that the lobby be used for this purpose.

Amanhã tem mais.

Plágio?

José Horta Manzano

Os dicionários informam que plágio é o ato de apresentar, como de sua própria autoria, obra intelectual produzida por outra pessoa. Tanto faz que seja texto, pintura, desenho, música, foto. Há que convir que a definição é ao mesmo tempo precisa e vaga.

Sua precisão está na clareza: apresentar como seu algo que foi feito por outro, não resta dúvida, é apropriação indébita, roubo.radio 1

No entanto, quando nos referimos a obras musicais, entram dois complicadores: a inspiração e o tempo de execução da obra. Não é impossível que dois compositores tenham na mesma época inspiração semelhante e que, em toda honestidade, escrevam peças musicais muito parecidas. Há mais: existem casos em que apenas trechos de uma peça guardam certa semelhança com passagens de obra alheia.

Já houve quem acusasse o grande Tom Jobim de plagiar o não menos grande Cole Porter. De fato, os primeiros compassos do Samba de uma nota só lembram muito o início de Night and day. No entanto, algumas notas mais adiante, as obras seguem caminhos tão diversos que fica afastada a ideia de pura e simples cópia. Por mim, Jobim está absolvido.

Os mais antigos talvez se lembrem de uma canção de autoria de Dolores Duran (1930-1959), composta em 1958. Chamava-se Castigo. O nome é pouco evocador, mas muita gente deve se lembrar da letra: «A gente briga, diz tanta coisa que não quer dizer, briga pensando que não vai sofrer (…)». Marisa Gata Mansa foi a primeira a gravar. Maysa ― que ainda era Maysa Matarazzo ― fez do samba-canção seu cavalo de batalha.

Fiquei conhecendo, algum tempo atrás, um bolero mexicano composto por Wello Rivas (1913-1990). Ok, ok, a simples menção ao termo bolero, hoje, incomoda. Nossa estética musical se modificou. Mas não vamos perder de vista que a própria Dolores Duran ― que, apesar do nome artístico hispanizante, se chamava Adiléia Silva da Rocha ― iniciou sua carreira cantando… boleros.

A composição a que me refiro se chama Llegaste tarde. Por mais que tenha procurado, não consegui encontrar o ano de lançamento. Quando ouvi pela primeira vez a composição de Rivas, fiquei um bocado surpreso. A primeira parte guarda semelhanças intrigantes com o Castigo de nossa Dolores. Mesma linha melódica, mesma harmonia.

Será coincidência ou plágio? Se for cópia, quem terá copiado quem? Dolores já se foi há mais de meio século. Rivas também já fez sua travessia faz mais de 20 anos. Llegamos demasiado tarde. Não saberemos nunca.radio 3

Para quem quiser conferir, há registros no youtube. O caminho é este aqui:

Gravação de Castigo, por Taiguara

Gravação de Llegaste tarde, por Amparo Montes

Gravação de Castigo, por Roberto Luna

Gravação de Llegaste tarde, por Los Soberanos

Arrastão europeu

José Horta Manzano

Imaginamos todos que arrastão seja exclusividade tupiniquim, coisa nossa, exclusividade nacional. Pois vou mostrar ao distinto leitor e à graciosa leitora que estão enganados.

A antiga arte da pirataria atingiu seu apogeu lá pelos anos 1700. Falo daquela de cinema, de espadachins com tapa-olho preto, daquela que nos inspirava temor, respeito e até ― convenhamos ― uma certa admiração. Essa, feliz ou infelizmente, acabTGV 1ou.

Nos tempos áureos, piratas eram aqueles que agiam por conta própria, empresários autônomos, como diríamos hoje. Já corsários obravam a mando e por conta de terceiros. O mandatário tanto podia ser o rei da Inglaterra, como o da França ou o mandachuva de outro lugar qualquer.

Um ponto comum unia os atacantes: sabiam o que buscavam. Coisa pouca não lhes interessava. Arriscavam pesado, mas, sabiam escolher o alvo. Se conseguissem vencer a batalha, a recompensa era garantida e farta.

Os tempos passaram. Ouro e pedras preciosas já não são transportados por via marítima. Hoje vão por avião e seguem percurso ultraprotegido, com escolta de agentes de óculos escuros e fones de ouvido, tudo vigiado por câmeras e snipers. Piratear avião para roubar-lhe o conteúdo? Podia ficar bem em filmes dos anos 70. Hoje, nem pensar.

Já vão longe os tempos de Ronald Biggs e seu milionário assalto ao trem pagador. Já vão longe? Talvez nem tanto…

Jornais da França informam que, talvez por não contarem com nenhuma Iemanjá a festejar, uns 30 pequenos delinquentes juvenis escolheram o dia 2 de fevereiro para assaltar um trem. Não um trem qualquer, faça-me o favor: um trem-bala. Sim, senhor.

Os membros da quadrilha mirim promoveram uma vaquinha, mas ela não deve ter rendido o suficiente para comprar bilhetes para todos. Tomaram, então, a decisão de não embarcar no trem como passageiros, mas de obrigá-lo a parar nalgum ponto do percurso.Capitão Gancho

Não foi difícil. Conseguiram lanternas vermelhas, do tipo utilizado pelas estradas de ferro francesas para assinalar perigo grave logo à frente. Instalaram as luzes ao longo da linha. Os maquinistas têm instrução categórica de imobilizar a composição à vista dessas lanternas. É sinal de emergência extrema.

Parado o trem, assim que os responsáveis pela segurança se deram conta de que não se tratava de acidente, mas de um assalto, acionaram o dispositivo que tranca imediatamente todas as portas dos vagões de passageiros. Por mais que o bando tenha tentado forçá-las, não tiveram sucesso. A invasão do trem-bala foi assim evitada. A polícia veio em seguida e carregou boa parte dos frustrados atacantes ao distrito.

Quem quiser conferir, leia aqui, aqui ou aqui.

Qualquer semelhança com um arrastão tupiquim não é simples coincidência. As mesmas causas costumam engendrar as mesmas consequências. A população das periferias francesas é frequentemente constituída de gente pouco instruída, de origem estrangeira, rejeitada pelo resto da população. Alguns de seus membros, mais ingênuos ou menos escrupulosos, acreditam que a violência seja o caminho mais rápido para obter o TGV 2dinheiro que lhes falta. E para adquirir os objetos que cobiçam.

Hoje há menos piratas pelo mundo. Mas que não se acanhem os novos capitães gancho, sejam eles franceses ou somalis. Caso um dia, apanhados, consigam escapar, nosso País não costuma negar asilo a fugitivos de Justiça. Se tiverem sido condenados, a acolhida será ainda mais efusiva. E se o crime tiver sido de sangue, terão direito a tapete vermelho e, quem sabe, até a um empreguinho público, uma sinecura qualquer.

Já faz tempo que nossas ‘otoridades’ perderam o senso da honra e do ridículo.

UE e Mercosul

José Horta Manzano
Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 2 janeiro 2013

Marché communCasamento só faz sentido se for completo e consumado. Se não, não passará de aliança, combinação, arreglo, confraria. É a conclusão amarga a que estão chegando os que acreditaram que a União Europeia desembocaria numa união política federal. O navio está fazendo água e, pelo jeito, o casamento não se consumará.

Assim como a extinta URSS deixou pelo caminho levas de viúvas ― algumas das quais até hoje se recusam a deixar cair a ficha ―, a União Europeia já começa a engendrar seus órfãos.

As recentes ameaças proferidas pelo primeiro-ministro britânico não deixam dúvidas: seu povo não vê mais vantagem em continuar amarrando seu destino ao do continente. Mais dia, menos dia, Londres periga anunciar o divórcio.

Mas comecemos pelo começo. As cinzas da Segunda Guerra racharam a Europa em dois campos antagônicos. A URSS acaparou um deles e tratou de amansar seu novo protetorado. A ferro e a fogo. Deixou claro que ordens do Kremlin não eram passíveis de contestação.

O outro campo ficou solto, como nau sem mastro. Faziam parte dele perdedores da guerra (Alemanha, Itália), ganhadores (Reino Unido, França) e países neutros. Para complicar, havia a sombra amiga mas acachapante dos EUA. Esse ecletismo tornava difícil designar um ponto de convergência.

Se objetivo comum havia entre as nações do bloco ocidental, era a firme determinação de enterrar de vez o espectro da guerra. Fora isso, cada um tinha suas necessidades próprias. A Alemanha, derrotada e fragmentada, sonhava com sua reunificação. A Itália, destruída e cansada de guerra, queria crescer e estancar o sangramento que a emigração maciça lhe causava. A França, a Holanda, a Bélgica tinham um projeto comum: docilizar e conter a vizinha Alemanha, que tanto mal lhes havia feito e que tanto temor ainda infundia. O Reino Unido sonhava recobrar o status de potência mundial que tinha usufruído por mais de um século. Espanha e Portugal queriam distância: seus dirigentes ambicionavam tão somente conservar o poder que tinham conquistado.Mercosul 2

Se pessoas se casam, firmas se associam, entidades se fundem, países se unem, será por imposição ou porque algum interesse comum os aproxima. De amor, o casamento europeu certamente não foi. Se foi de razão, as motivações inconfessas de cada membro acabaram por revelar-se incompatíveis.

Por que iludir-se? Como as gentes, as nações só procuram ajuda de outras quando ― e enquanto ― duram suas necessidades. Terminada a precisão, tchau e bença. Juras de amor eterno entre países não valem.

Erros foram cometidos desde que o Tratado de Roma criou o Mercado Comum em 1957. Os dirigentes não conseguiram ― ou não quiseram ― ver que ao redor da mesa se concentravam interesses divergentes e até conflitantes. Enquanto o povo se entreteve a colar os cacos dos vasos que a Segunda Guerra tinha estilhaçado, a convivência foi cordial e até pareceu confluir. A conjuntura também ajudou: até poucos anos atrás, o mundo viveu decênios de inusitado e ininterrupto crescimento econômico.

Hoje os ideais europeus parecem esgarçados. A geração é outra. Nenhum dos atuais dirigentes conheceu a guerra e seu cortejo de misérias. Nenhum viveu infância aterrorizada por passos cadenciados da soldadesca invasora. Não conheceram desemprego. Conflitos armados lhes parecem inimagináveis, coisa de gente pobre.

Eis por que a maioria dos europeus de hoje julga a união política do continente desnecessária. A UE é hoje vista mais como entrave que como solução.Euromercosul

Na crença ingênua de que todos os membros obedeceriam às orientações do Banco Central, 17 países adotaram uma moeda única. Não se preocuparam com centralizar controles e torná-los obrigatórios. Erraram feio. Livres e desimpedidos, cada um deles fez o que bem entendeu. E deu no que deu, com países inteiros à beira da falência, enquanto outros esbanjam saúde financeira. A exasperação das populações é compreensível. Uns carecem desesperadamente de ajuda, enquanto outros, considerando que não lhes toca pagar por erros alheios, torcem o nariz à ideia de levantar o tampo da burra. O balaio de gatos em que se meteram os europeus é de bom tamanho. Cabe a eles agora encontrar a saída.

Quanto a nós, com nosso Mercosul bizarro, estamos alguns passos atrás. Ainda dá para evitar o pior. Vamos torcer para que vaidades individuais de nossos mandachuvas não sobrepujem o interesse das populações. Para não perder a face, que se atenham ao simulacro de mercado comum que temos. E que parem por aí.

União política é assunto sério. Se não deu certo na URSS, nem na Europa, por que teria sucesso entre nós?

Salve-se quem puder

José Horta Manzano

Faz alguns dias, a França mandou suas tropas para o Mali.

Antes de ir mais adiante, vamos pôr as coisas claras: os habitantes do país lhe dão o nome de Mali (LÍ, com acento tônico na última sílaba). Ouvi dizer que locutores da televisão brasileira andam pronunciado Male, como se a palavra fosse paroxítona. Não me parece correto. Fico com Mali (LÍ). Afinal, quem deu o nome ao país não fomos nós.

Como todos sabem, a França e mais 26 parceiros integram um organismo supranacional chamado União Europeia, união cada vez mais estranha, em que cada um faz o que lhe apraz, no momento em que decide, da maneira que lhe parece mais conveniente, sem se preocupar com os outros sócios.

Desde que Shakespeare pôs na boca de seu Hamlet a celebérrima réplica “to be, or not to be: that’s the question”, a humanidade se deu conta de que não se pode ser e não ser ao mesmo tempo. A gente não se associa somente para as horas do bem-bom, para, em seguida, se fingir de morto quando o negócio azeda. Ultimamente, é assim que tem funcionado esta União. Desde que estourou a crise económica, já faz alguns anos, o clube navega à deriva, sem eira nem beira, tapando um buraco aqui e outro ali.

Na intervenção em terras africanas, o intuito declarado do governo francês é cortar na raiz a ameaça ― concreta ― de que terroristas fanáticos façam da região uma base, um refúgio. É uma opção militar forte, mas não destituída de lógica.

Em matéria de ingerência em países estrangeiros, há precedentes, alguns bem sucedidos, outros não.Marché commun

Nos anos 60, os EUA intervieram no distante Vietnã com o mesmo propósito. Acabou em desastre.

Canhões soviéticos calaram revoluções na Hungria (1956) e na Tchecoslováquia (1968). Conseguiram o que queriam. Tudo viria a desmoronar junto com o Muro de Berlim, anos mais tarde, mas essa já é uma outra história.

Há muitos e muitos outros exemplos de intromissão na casa dos outros. Mas cada caso é um caso, não vamos explorá-los todos neste espaço.

Voltando ao problema do Mali, os 26 parceiros da França ― falo dos demais membros da União Europeia ― já declararam que não enviarão reforço militar. Se Paris tomou essa decisão com desenvoltura e sem consultar os sócios, que siga seu caminho solitário até o fim.

Não discuto sobre a conveniência da decisão francesa. Soberano, seu governo fez o que achava que devia. O que me surpreende é o fato de a União, após mais de 50 anos de convivência, ainda ser incapaz de combinar antes de agir.

Cada dia fica mais claro que este agrupamento de países está perdendo sua razão de ser. Nascido de um consenso, vai aos poucos se esfiapando, como tecido mal alinhavado.

Não faz sentido expor ao resto do planeta uma falta de coesão tão profunda. Tudo isso acaba deixando uma impressão de desordem que não bate com a imagem de civilidade e de civilização que os 27 gostariam de exibir.

Ao fim e ao cabo, não sobra mais que uma confraria de comerciantes. Que fariam seus negócios de qualquer maneira, com tratados ou sem eles.

Arrombada a porta, põe-se a tranca

José Horta Manzano

Nos idos de 1967, eu estava trabalhando na Suécia. Travei conhecimento com uma senhora muito simpática. Poliglota e inteligente, teria ali pelos 40 anos. Tinha nascido no Brasil, mas, casada com um sueco, vivia em Malmö fazia já vários anos. Vamos chamá-la senhora Almgrén, mas não posso garantir que fosse esse o nome. Passou muito tempo e já não tenho certeza.

Uma música francesa, gravada por Sacha Distel (1933-2004), estava nas paradas de sucesso, como se dizia na época. Na crista da onda, muito popular. Era ― como explicar? ― um «samba europeu». Um ritmo um tanto desengonçado que grande parte do povo do Velho Continente acreditava ser música brasileira. Aliás, muitos ainda acreditam, acreditem.

O compasso da canção, divertida e bem animada, hesitava entre cumbia, conga e rumba. Chamava-se «L’incendie à Rio», o incêndio no Rio. Meu conhecimento de francês, precário à época, não me permitia entender a letra.

Comentei com a senhora Almgrén que eu gostava muito daquela música. Maliciosamente, ela me replicou que, se eu entendesse a letra, por certo gostaria menos. Fiquei um tanto perplexo. “Ué” ― pensei ― “e por quê?”

Sacha Distel

Sacha Distel

Indulgente, minha amiga explicou que a letra relatava um incêndio imaginário numa torrefação de café no Rio de Janeiro. E descrevia a atrapalhação dos bombeiros que não encontravam as mangueiras, nem o esguicho, nem a escada. Somente no final da noite, quando todo o quarteirão estava reduzido a cinzas, os petrechos foram encontrados. Assim mesmo, os bombeiros continuavam não podendo sair do quartel porque o caminhão estava enguiçado e ninguém sabia onde estava a manivela para dar partida no motor.

Uma zombaria total, como se vê. Retratava nosso País como era visto pelos europeus, um lugar muito alegre e animado, mas totalmente bagunçado. Quem quiser recordar (ou conhecer) L’incendie à Rio, pode dar uma espiada aqui. Vem com vídeo, música e letra.

O bem informado blogue de Sonia Racy, alojado no Estadão, nos informa neste 30 de janeiro que a Câmara Federal do Brasil não tem brigadistas de incêndio. Pior que isso, a Casa não dispõe sequer de servidores treinados para casos de incêndio(!). Não acredita? Pois confira aqui.

Quando a canção de Sacha Distel fez sucesso, fazia 3 ou 4 anos que se encerrara a «Guerra da Lagosta», um daqueles conflitos sem batalha e sem sangue. Foi nessa época, dizem, que De Gaulle teria pronunciado a célebre frase «o Brasil não é um país sério». Dizem outros que jamais o general teria cometido tal afronta. Ele nunca confirmou. Tampouco desmentiu. Vamos deixar para voltar ao assunto noutra ocasião.

Neste finzinho de janeiro, passados alguns dias do pavoroso drama de Santa Maria, aparecem outros podres, aos borbotões: casas de espetáculo funcionando sem alvará, proteção contra incêndio inexistente, pessoal não treinado. Em resumo: é a ganância de braço dado com a irresponsabilidade. Se nem a Câmara ― a casa dos representantes do povo brasileiro! ― escapa do descaso, imagine o resto. Nossos 513 deputados devem, realmente, estar totalmente ocupados com outros assuntos.

É urgente que os poderosos que mandam no Brasil tomem um banho de integridade e de probidade. Queira o destino que o inconcebível drama gaúcho tenha sido a última tragédia decorrente de desleixo aliado ao descaso e à cupidez. Já está na hora levar as coisas a sério.

Que o clichê sublinhado pelo irreverente Incendie à Rio possa ser atirado à lata de lixo do passado. Para nunca mais voltar.

Os antípodas

José Horta Manzano

Você sabia?

Quando éramos crianças, qual de nós não ouviu dizer que, se cavássemos um túnel debaixo de nossos pés, bem fundo, bem bem fundo, iríamos sair no Japão? Acho que todos os guris brasileiros aprenderam essa história. Até dicionários vão na onda e citam o País do Sol Nascente como diametralmente oposto ao nosso. O Houaiss e o Aulete fazem isso. Confira o verbete antípoda no Aulete online. Assim, caso você tenha se esquecido do significado desse termo, aproveitará para refrescar a memória. Aqui.

No entanto, sinto dizer-lhes, essa afirmação não corresponde exatamente à realidade. Se conseguissem escavar esse furo interminável e chegar sãos e salvos ao outro lado ― coisa que até hoje ninguém conseguiu ― os brasileirinhos teriam uma grande decepção. Noventa por cento do território brasileiro é antípoda de algum lugar perdido no meio do Oceano Pacífico, pelas bandas do Mar da China.

Globo terrestre com sobreimpressão dos antípodas em verde claro.
crédito: procrastin.fr/blog

Somente alguns poucos habitantes das selvas amazônicas teriam alguma chance de desembocar na ilha de Bornéu, na Indonésia. Quanto aos outros, tchibum! Iriam fazer companhia aos peixes do Pacífico.

O que me inspirou este escrito foi uma competição marítima que se repete a cada 4 anos, na época do verão do Hemisfério Sul, a partir de novembro. Chama-se Vendée Globe, volta ao mundo em barco a vela, com um único marinheiro, sem assistência externa e sem escalas. Começa e termina na localidade francesa chamada Les Sables d’Olonne, na costa Atlântica. A edição deste ano acabou justamente neste 27 de janeiro, com a chegada do vencedor após 78 dias de navegação. É evento muito seguido na Europa, especialmente na França. Lembra vagamente a volta ao mundo em 90 dias imaginada por Júlio Verne.

Quando se fala em volta ao mundo, imaginamos que ela se deva fazer pelo equador da Terra, contornando-se os continentes que estiverem no meio do caminho. Pois a Vendée Globe não faz jus a essa crença. Na verdade, poderia bem chamar-se Volta da Antártida. O que fazem os concorrentes, depois de zarpar da França, é atravessar o Oceano Atlântico de alto a baixo, dar a volta ao continente antártico, «subir» de volta o Atlântico de sul a norte, e retornar ao ponto de partida.

Traçado da corrida Vendée Globe

Traçado da corrida Vendée Globe

Mas, convenhamos, falar em volta ao mundo tem muito mais charme do que falar em contornar a Antártida. Ou não?

Nota: Antípoda é palavra formada por duas raízes gregas. Anti = contra, contrário. Podos = pé. Assim, antípoda é aquele que, teoricamente, pisa um chão diametralmente oposto ao nosso.

Brrrr…

José Horta Manzano

Você sabia?

Cada país tem seus encantos e cada um se defende como pode. Chamar a atenção e atrair turistas é sempre importante.La Brévine 1

A Suíça não tem mar, nem coqueiros, nem riquezas minerais, nem indústria pesada. Até as melancias por aqui são raras, o que faz que poucos tenham a chance de passear por aí com uma delas pendurada no pescoço para causar frisson nos transeuntes.

No Brasil, São Joaquim (SC) e Campos do Jordão (SP) são polos de atração de forasteiros, que vêm unicamente para sentir aquele friozinho ― que nem sempre responde presente quando a gente quer. Pois fiquem sabendo que a Suíça também tem sua pequena Sibéria, ora pois!

É um minúsculo município de forma alongada (2km ou 3km de largura por uns 20km de comprimento), povoado por apenas 650 pessoas. Chama-se La Brévine e fica no Cantão de Neuchâtel, encarapitado nos Montes Jura, no noroeste do país. Das localidades habitadas, é a mais fria do país. A Suíça conta, naturalmente, com picos bem mais elevados e muito mais gelados. Mas, como é compreensível, ninguém mora lá.

Comparada com as alturas de São Joaquim e de Campos do Jordão, a altitude da Brévine até que é modesta: não passa muito de 1000m. O que faz a diferença é que o povoado está localizado numa bacia ― uma região côncava cercada de morros ―, situação que lhe confere um microclima pra lá de especial.La Brévine 2

Recordes de frio são frequentemente registrados ali. Principalmente no inverno, embora aconteçam esporadicamente também no verão. A condição sine qua non para que o fenômeno sobrevenha é que a noite tenha sido clara, sem nuvens e sem vento. Tem um nome que soa familiar aos paulistanos: uma inversão térmica. Sem a poluição, sem os gases de escapamento e sem a massa humana apinhada num espaço reduzido, naturalmente.

São episódios caracterizados por uma camada de ar muito frio que estagna no fundo da bacia, enquanto ar mais quente fica por cima. Algumas dezenas de metros acima do fundo do vale, a temperatura pode perfeitamente estar uns 10 graus mais elevada.

Desde que, no dia 12 de janeiro de 1987, os termômetros marcaram ali 41.8° abaixo de zero(!), o minúsculo município ganhou fama nacional e o apelido de Sibéria Suíça.

Todos os anos, desde então, o vilarejo organiza sua Festa do Frio, num sábado de janeiro. Vem gente de longe só para sentir aquela sensação picante. Este ano foi dia 26 de janeiro. Até que não estava tão frio assim: «somente» 22 graus abaixo de zero. Mas já é friagem de bom tamanho, pra ministro nenhum botar defeito.

Talvez por falta de assuntos mais relevantes, até a televisão noticiou o evento. Quem quiser se refrescar com um minuto e meio siberiano, clique aqui. E quem gostar de emoções fortes e não tiver medo de sentir uns calafrios, pode consultar uma lista de temperaturas historicamente baixas já registradas na Brévine. Aqui.Chica-bon

Vai um Chica-bon aí?

No spams!

José Horta Manzano

Avisa-me uma fiel leitora que propaganda indesejada e intempestiva tem aparecido quando se põe a ler meu blogue. Pergunta-me se decidi abrir este espaço a chamadas comerciais. A resposta é um redondo e sonoro NÃO!

Este é um cantinho onde pessoas de boa vontade se reúnem. Não é um encontro de vendilhões. Vem quem quer, não paga nada para entrar, só fica se lhe interessar. Não há nenhuma espécie de reclame, anúncio, propaganda. Nem proselitismo. Digo o que penso, da maneira que sinto, mas ninguém é obrigado a estar de pleno acordo. Para reparos, está aí o campo de comentários.

Também eu já fui vítima desses anúncios que se intrometiam, de repente, no meio de alguma leitura calma. Imaginei que outros internautas também pudessem estar sendo incomodados pelo mesmo tipo de intrusão. Dito e feito. Andei pesquisando em alguns fóruns e me dei conta de que se trata de uma praga que começa a se disseminar. É insidiosa, porque faz o leitor pensar que a propaganda foi inserida com a anuência do site onde aparece. Não é assim.

Os computadores não utilizam todos os mesmos sitemas, as mesmas versões, por isso não lhes posso dar uma receita única para livrá-los dessa coceira. Se essa intrusão estiver acontecendo com vocês, recomendo procurarem conselho em algum fórum que reúna outras vítimas. Não é difícil se desembaraçar desse mal, acreditem. Posso até dar algum bom conselho, mas prefiro não fazê-lo aqui. Se alguém estiver padecendo do mesmo ataque, que me contacte por email, e lhe direi como procedi. O endereço está lá em cima, no menu Contacto.

Este blogue não tem patrocinadores, nem mecenas, nem anunciantes, nem spammers. Não os tem e não deseja tê-los.

O general tinha razão

José Horta Manzano

Ingleses e franceses são ligados pela língua. Não, não me entendam mal, cada um tem a sua, disso sabemos. O fato é que, desde que Guilherme, duque da Normandia, juntou suas tropas, atravessou o Canal da Mancha e

The white cliffs of Dover

The white cliffs of Dover

venceu os ingleses na Batalha de Hastings, no longínquo ano de 1066, a influência da língua francesa tornou-se avassaladora nas terras conquistadas.

Estudiosos andaram fazendo as contas e chegaram à conclusão de que 70% do vocabulário inglês é de origem latina. A maior parte dessa importação maciça chegou a bordo dos navios invasores, o resto veio por via erudita.

O francês ― tal como era falado um milênio atrás ― tornou-se a língua da corte inglesa, o que lhe conferiu grande prestígio. O substrato anglo-saxão não se perdeu de todo, mas passou a ser considerado linguajar camponês. Gente fina falava a língua dos cortesãos, desprezando altaneiramente o vernáculo.

Um exemplo: cada animal já tinha, evidentemente, seu nome secular. Que estivesse sobre quatro patas ou no prato, o nome era o mesmo. Com a chegada da nova elite, os campônios guardaram a antiga denominação, mas as classes mais chegadas ao poder adotaram logo o novo nome trazido pelos conquistadores. Daí termos hoje os binômios ox/beef, pig/pork, calf/veal, sheep/mutton e tantos outros. O nome germânico permaneceu para o bicho vivo, enquanto a denominação importada ficou valendo para o animal já transformado em alimento.

Apesar de o francês ter sido a língua de cultura da Inglaterra durante três séculos e a despeito da impressionante interpenetração linguística que daí resultou, ingleses e franceses foram inimigos desde sempre.

A Entente Cordiale, um arreglo político costurado entre as potências coloniais quase 200 anos atrás, ainda na esteira do que tinha sido o turbilhão napoleônico, trouxe uma certa distensão. Ideias guerreiras foram deixadas de lado, mas uma vaga animosidade persiste até hoje. Diz-se, jocosamente, que os ingleses são os melhores inimigos dos franceses. E vice-versa.

Quando de bom humor, um inglês chamará um francês de Frenchie. Se estiver de maus bofes, vai chamá-lo de frog (=rã). Como se sabe, na França se comem coxas de rã, hábito capaz de horripilar qualquer inglês. Um francês, bem ou mal-humorado, não hesitará em epitetar o inglês de rosbif, palavra que dispensa tradução. Os dois povos vivem uma permanente relação de atração-repulsão que só Freud explica. Amam-se e repelem-se ao mesmo tempo.

Quando o Tratado de Roma inaugurou as bases do que seria o Mercado Comum Europeu e, mais tarde, a União Europeia, o Reino Unido não participou da festa. Provavelmente não quis. Estávamos ainda no fim dos anos 50, o reino insular ainda guardava seu status de grande potência mundial, controlava metade da África, tinha incontáveis possessões espalhadas pelo planeta. Achou que não lhe convinha afiliar-se a uma confraria de vizinhos.

O tempo passou, foram-se as colônias, a Grã-Bretanha entrou em crise profunda. Empobreceu. Lembrou-se então dos vizinhos, cujo mercado comum ia indo bem, e pediu para entrar.

Foi aí que entrou em cena o velho general. Falo de Charles de Gaulle, presidente da República Francesa de 1958 a 1969. Teria seus defeitos, como cada um de nós, mas pelo menos uma grande qualidade não se lhe pode negar: era visionário. Conseguia fazer abstração das minúcias do dia a dia para projetar-se no futuro e vislumbrar o que poderia acontecer se esta ou aquela decisão fosse tomada agora.

Entendeu que o Reino Unido não devia ser acolhido pela Comunidade Europeia. Inglaterra e Europa eram, no seu entender, incompatíveis. Ele enxergava as duas entidades como água e óleo: por mais que se chocalhe, acabarão se separando. O general barrou a entrada do vizinho do norte. Durante seus onze anos de mando, bateu pé firme, como quem dissesse «enquanto eu viver, a Inglaterra não entra».

Como todo mortal, um dia o general se foi. A Inglaterra ficou. Voltou a pleitear admissão no clube. Finalmente, em 1973, foi aceita.

A teimosia do velho general, que nunca explicou tim-tim por tim-tim as razões de sua recusa em aceitar o Reino Unido na Comunidade, foi intuída, anos mais tarde, por analistas. O tempo encarregou-se de deixar claro que a Inglaterra nunca teve ― e ainda não tem ― intenção de tornar-se membro de uma Europa Federal, objetivo final da UE. Seu interesse sempre se restringiu a usufruir das vantagens comerciais que a participação no bloco lhe pudesse oferecer. E vamos parando por aí.

Enquanto tudo ia bem, economia mundial de vento em popa, inflação próxima de zero, nenhuma crise à vista, as vozes divergentes permaneceram anestesiadas. Mas nada como uma crisezinha para despertar velhos ressentimentos. E não é que a crise chegou?

Estes dias, David Cameron, Primeiro-Ministro britânico prometeu que, caso seja reeleito, convocará um plebiscito para que seu povo, afinal, se pronuncie. Votarão pela permanência ou não do país na União Europeia. A notícia espocou no continente como raio em céu azul. Não se fala de outra coisa estes dias.

UEDizem uns que a fala do dirigente destinava-se tão somente a apaziguar os ânimos dos compatriotas mais radicalmente anti-europeus. Dizem outros que não é bem assim. Fato é que, naquelas plagas, promessas de Primeiro-Ministro costumam ser cumpridas. Votarão? É bem provável. Quando? Dentro de alguns anos, certamente. Que decidirão? Só Deus sabe.

Desde o século XVII, os franceses mais cultos dão ao Reino Unido o terrível apelido de Pérfida Albion. Por que pérfida? Pérfidos são os que não cumprem com sua palavra. Por que Albion? Parece que o termo tem origem na primeira visão de quem chega às ilhas britânicas atravessando o Canal da Mancha: os famosos «white cliffs of Dover», as falésias brancas de Dover. Branco em latim é albus. Daí a Albion é um pulo.

Será que os britânicos vão abandonar o barco? Será que o velho general tinha mesmo razão? O túnel que passa sob o Canal da Mancha será mesmo tapado?

Quem viver verá.

Nota: Neste artigo, para evitar repetições maçantes, usei indistintamente as expressões Inglaterra, Grã-Bretanha, Reino Unido e Ilhas Britânicas. Minhas distintas leitoras e meus eruditos leitores sabem que não são termos intercambiáveis.

O Reino Unido é composto de quatro países: Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte. A Grã-Bretanha é a ilha principal que abriga três deles, à exceção da Irlanda do Norte.  “Ilhas Britânicas” é expressão imprecisa, geograficamente pouco significativa.

Quem te viu, quem te vê

José Horta Manzano

«Je vous parle d‘un temps que les moins de vingt ans ne peuvent pas connaître». Essa é a primeira estrofe da belíssima canção ‘La Bohème’, obra de Charles Aznavour, um dos maiores letristas da língua francesa. Eu lhes falo de um tempo que os que têm menos de vinte anos não conheceram.

Também eu quero falar-lhes hoje de uma outra era, um tempo que a gente tem dificuldade em acreditar que tenha existido.

O Brasil é o gigante demográfico, industrial e econômico da América do Sul. Apesar de seus males ― que são muitos, sejamos honestos ― é o número um, sem concorrência nesta parte do mundo. No entanto, nem sempre foi assim.Para ti

Até meados do século XX, a nação preeminente do subcontinente não era nosso País, era a Argentina. Eram melhores que nós em quase tudo: poderio econômico, instrução pública, parque industrial, renda per capita, nível cultural, abertura para o mundo. Cem anos atrás, quando uma parte da população europeia, empurrada pela pobreza ou pelo espírito de aventura, tomou a decisão de emigrar, para cada um que escolhia o Brasil, dois se decidiam pela Argentina.

Em 1913, Buenos Aires já inaugurava sua primeira linha de metrô, feito que o Brasil só conseguiu igualar 60 anos mais tarde. Linhas marítimas que ligavam a Europa à capital portenha chegavam a anunciar acintosamente: «sem escala no Rio de Janeiro». As febres tropicais que se podiam contrair na capital de nossa República afastavam muita gente.

Nos anos 50, o Brasil ainda não podia se dar ao luxo de editar uma revista semanal dedicada exclusivamente ao público feminino. A Argentina já tinha a sua fazia muito tempo. Foi tentando soletrar os escritos do Para Ti, que uma velha tia-avó comprava sempre que lhe sobravam uns cobrinhos(*), que tive meu primeiro contacto com a língua de nossos vizinhos.

Nossos hermanos tinham tudo para continuar um caminho de sucesso. Era o que todos imaginavam. No entanto, não foi assim.

Que terá acontecido? Fica a impressão de que, em algum momento, alguma coisa se partiu, se interrompeu. O processo deu uma guinada. Quando e por quê? Economistas, sociólogos e cientistas políticos têm proposto explicações para essa deterioração. Não sendo especialista, não me cai bem especular. Não me resta senão constatar.

Fiquei surpreendido e, por que não dizê-lo, entristecido com uma reportagem transmitida pelo jornal da tevê suíça do dia 22 de janeiro. Conta a terrível história de uma mulher jovem, imigrante argentina vivendo atualmente em Genebra, na clandestinidade. A pobre gostaria de voltar para seu país, mas não tem dinheiro para comprar o bilhete.

A fim de obter a quantia necessária, a infeliz criatura propôs vender um de seus rins ou, eventualmente, uma parte de seu fígado. Uma história desatinada, inacreditável, de deixar boquiaberto.

Embora nunca tendo tido de enfrentar essa situação, creio saber que nossas representações diplomáticas têm obrigação de conceder uma passagem de volta a brasileiros que se encontrem em apuros no estrangeiro, como parece ser o caso dessa desventurada senhora.

Evidentemente, o bilhete de passagem posto à disposição do cidadão em dificuldade pelas autoridades consulares brasileiras nunca será dado de mão beijada. O repatriado não se safará com um simples «muito obrigado». Parece que nem mesmo um “Deus lhe pague” basta. O indivíduo terá de reembolsar o erário. Se não o fizer, dificilmente obterá novo passaporte.

Antes de mais nada, seria útil investigar a fundo a história dessa doadora singular. A ser verdadeira, é preocupante. Desconheço a regulamentação argentina no que tange à assistência que prestam a seus nacionais em caso de dificuldades no exterior. Tudo parece indicar que as leis de lá são diferentes das nossas. Como é que pode?Rico e pobre

Que o país vizinho esteja em situação econômica mais que complicada, disso sabemos todos. Mas que abandonem seus cidadãos ao deus-dará, obrigados a roçar atos desesperados como a ablação consentida de um órgão(!), aí já estamos passando dos limites. Entramos no cenário do salve-se quem puder.

De qualquer maneira, a lei suíça não permite a comercialização de órgãos. Doação, sim; venda, nunca. Portanto, não é por esse meio que a infortunada moça obterá sua passagem. Na Suíça, seus órgãos estarão salvaguardados.

Já disse alguém que uma nação só é grande quando consegue proteger seus cidadãos mais frágeis. Se, no Brasil, ainda temos um bom caminho a percorrer, parece que nossos hermanos estão metidos numa verdadeira camisa de onze varas.

Quem quiser assistir ao bloco de 2½ minutos do jornal suíço (em francês), clique aqui.

(*) O nome da pequena quantia de dinheiro que se leva no bolso varia com o tempo. O que hoje dizemos “uns trocados” já se chamou “manolitas” e, antes disso, “uns cobrinhos”. Fazia referência às moedas de menor valor, então feitas de cobre.

Crime & castigo

José Horta Manzano

Andei lendo um artigo do sisudo Financial Times sobre práticas quase-legais, comuns no Brasil. A revista tenta explicar a seus leitores o que é e como funciona o jeitinho brasileiro. Poucos devem ter entendido. Palavras são insuficientes para descrever uma realidade da qual o leitor está muito afastado.

Achado não é roubado. Taí um provérbio perfeitamente plausível e aceito no Brasil, mas incompreensível para muitos povos, entre eles os europeus do norte. Para um alemão (ou um inglês, ou um suíço, ou um finlandês, ou um belga), o fato de alguém ter encontrado um objeto perdido por outro indivíduo não lhe confere posse automática.

Uma pessoa é possuidora daquilo que lhe tiver sido vendido, dado de presente, doado. Pode até apossar-se do que tiver sido atirado ao lixo. Mas não tem ― ou não deveria ter ― direito de propriedade sobre objeto a cuja posse o dono legítimo não tenha renunciado. O provérbio achado não é roubado pode servir para ladrões, não para gente honesta.

Disco de estacionamento

Disco de estacionamento

Leis variam conforme o lugar do planeta. O que é permitido aqui pode perfeitamente ser proibido ali, e vice-versa. Diferenças refletem a diversidade cultural entre países e regiões. No entanto, um princípio é básico e universal: leis são feitas para serem cumpridas.

Na teoria, pelo menos, é assim. Mas por que é que a teoria funciona em certos lugares e não em outros? Por que será que alguns povos cumprem virtuosamente os preceitos legais, enquanto outros são mais laxistas e convivem com jeitinhos?

A resposta está no empenho de cada sociedade em fazer que a lei seja cumprida. Quando há concordância sobre o fato de que as normas devem ser respeitadas, a própria comunidade se encarrega de coibir desvios. Em palavras mais chãs: quando todos entendem que a lei deve ser cumprida, uns vigiam os outros.

Uma vez, anos atrás, deixei o carro num lugar onde o estacionamento era permitido durante 15 horas. Parava-se o veículo e punha-se um disco horário, visível do lado de fora, indicando a hora de chegada. As 15 horas expiravam à 3h da madrugada, mas eu tinha intenção de ficar até as 8h da manhã. Que fazer? Pensei: «mas que bobagem, nenhum guarda vai aparecer para multar às 4h da madrugada, numa rua residencial, escura e tranquila». Fui dormir tranquilo, sem imaginar que havia cometido um erro de avaliação. Um guarda veio no meio da noite e grudou o desagradável papelzinho no para-brisa. Resultado: paguei a multa e nunca mais bobeei em matéria de estacionamento. A quase certeza de ser sancionado inibe o cidadão na hora de descumprir regulamentos.

Alguns meses atrás, recebi uma multa por excesso de velocidade. Fui flagrado por um radar. Não havia como reclamar: dia, hora, minuto e lugar exato estavam anotados e fotografados. Um detalhe: o excesso foi de… 1 km/h (um quilômetro por hora!). Não adiantava reclamar. Paguei. Dura lex, sed lex.

Quero ainda contar uma aventura acontecida com um conhecido meu, faz já alguns anos, no tempo em que telefones de bolso não existiam. Ele tinha estacionado na rua, junto à calçada, com um carro atrás e outro na frente. Na hora de ir embora, fez uma manobra desastrada e amassou de leve o para-choque de um dos que estavam estacionados. Em casos como esse, o costume aqui é deixar um cartão de visitas, um papelzinho, um recado qualquer, preso no vidro do carro atingido. O autor do descuido deixa-se um pedido de desculpas e seus próprios dados, para que o dono do outro carro possa entrar em contacto com vistas ao ressarcimento.

Meu conhecido não tinha cartão, nem papel à disposição. Teve, então, uma ideia. Memorizou o número da placa do carro acidentado. Chegando em casa, ligou imediatamente para a polícia, identificou-se, contou o que tinha acontecido e deu o número da placa que havia decorado. O policial disse-lhe textualmente: «ainda bem que o senhor ligou, porque já tínhamos recebido três denúncias feitas por pessoas que testemunharam o ocorrido».Acusação

.:oOo:.

Espantoso para quem não está acostumado, não é? Pois é assim que funciona. Costumo dizer que um alemão (ou um sueco, ou um holandês, ou um austríaco) não é mais nem menos honesto do que um brasileiro. Se ele cumpre as leis, é porque sabe que, se não o fizer, dificilmente se livrará da sanção. Se não for flagrado pela autoridade, não escapará da vigilância da sociedade.

No dia ― ainda muito distante ― em que os brasileiros se compenetrarem de que fazem todos parte da mesma sociedade, no dia em que se derem conta de que o malfeito de um prejudica a comunidade inteira, a criminalidade e o jeitinho entrarão em queda acelerada.

Mas ainda vai levar tempo, que ninguém se afobe. Até lá, muita água ainda vai correr pelo Amazonas.

Estalactite

Estalactite 2José Horta Manzano

Você sabia?

Estalactite, sabemos todos o que é. Damos esse nome àquelas curiosas formações encontradas principalmente no interior de grotas úmidas. São como colunas, como cones invertidos ― de cabeça para baixo, com a base presa no teto.

O nome, que soa tão científico, entrou na língua pela via erudita. Começou a ser mencionado cerca de 200 anos atrás, mas só foi dicionarizado bem mais tarde. Provém de uma raiz grega ― stalaktos ― que significa gotejante, aquilo que escorre gota a gota.

No dia a dia, usamos palavras descendentes dessa mesma família. Entre outras, instilar e destilar. Ambas trazem embutida a ideia de gota a gota, pouco a pouco.

Nas grutas, as estalactites são formadas por precipitação de matéria calcária. Muito lentamente, gotículas de água escorrem pelas colunas. Com o passar do tempo, a água evapora e o cálcio solidifica. Resultam imagens um tanto fantasmagóricas, mas, ainda assim, belíssimas. Daquelas que nos remetem a antigos desenhos animados.

Nestes tempos em que crianças não hesitam em trucidar criaturas monstruosas em jogos de computador, uma floresta de estalactites não deve mais assustar ninguém. Mas garanto-lhes que esses cones invertidos já cumpriram seu papel atemorizante na mente de muitos dos adultos em que nos convertemos.Estalactite 4

Não é só em grutas e cavernas que se encontram formações desse tipo. No inverno, caprichos climáticos de latitudes mais frias proporcionam às vezes espetáculos impressionantes.

Após uma boa nevada, às vezes o sol aparece. Seus raios, embora tênues, podem ser suficientes para derreter uma parte da neve acumulada. O resultado é um filete d’água que goteja de telhados, de amuretas, de rochedos. Quando não há vento, as gotículas vão-se congelando à medida que escorrem. Formam-se então estalactites de gelo, de muita beleza.

Não resistem muito tempo, mas encantam os olhos. O que é bom dura pouco.Estalactite 5

Da nacionalidade

Passaporte BRJosé Horta Manzano

Universidades costumam distribuir ― nem sempre judiciosamente ― títulos de doutor honoris causa a cidadãos preeminentes. Poíticos e artistas são as escolhas mais frequentes. É um excelente investimento: não custa grande coisa, aumenta a visibilidade da universidade e bajula um figurão.

A mim sempre pareceu uma homenagem inadequada. Um título de doutor se consegue depois de muita luta, de grande esforço, de enorme dedicação, de incontáveis sacrifícios. É um atestado de capacidade e, principalmente, de mérito. Não fica bem distribuí-lo como mimo a figurões. Chega a humilhar os que transpiraram para chegar lá.

Outro costume me chama a atenção. É a outorga do título de cidadão honorário de um município. O afago foi instituído com bastante lógica, para saudar pessoas que, embora sendo originárias de um município, tenham trazido benefícios a outro. Este último mostra seu reconhecimento ao forasteiro, em homenagem pública.

Outra coisa é distribuir títulos de cidadão honorário a torto e a direito a figurões da política ou do mundo do espetáculo. Em geral, são gente que pouco ou nada fez em prol do município outorgante. É menos grave que um título de doutor dado a quem não merece, concedo. Mas não deixa de ser um escárnio com relação à população do município.

Jornais do mundo inteiro, entre eles o francês Le Monde nos informam que uma nova modalidade de homenagem está sendo inaugurada estes dias: a distribuição de passaportes. O ator francês Gérard Depardieu acaba de receber um passaporte russo. Foi-lhe concedido por simples decreto do presidente Putin. Antes disso, a ligação do ator com a Rússia se resumia a três pontos: ter decorado às pressas algumas palavras do idioma local; ter tido um pai comunista; ter recentemente representado o papel de Rasputin num filme girado no país. Mais nada.

Nem todos os russos apreciaram. Gérard Depardieu enalteceu a “grande democracia” russa, fato que enfureceu muita gente. Por outro lado, o ator tem a fama de «lever le coude» (= levantar o cotovelo), expressão caseira que os franceses usam para apontar alguém que exagera na bebida. Um dos simpatizantes de Putin ― cineasta russo nacionalista ― não apreciou a prenda ofertada pelo presidente ao ator. Sarcasticamente, comentou: «teremos um alcoólatra a mais!».

Um artigo do Estadão online nos informa que, indagado pelo entrevistador, Gérard Depardieu respondeu que sim, aceitaria de bom grado um passaporte brasileiro, se o documento lhe fosse oferecido.

Que se distribuam, a torto e a direito, títulos honoríficos de doutor ou que se espalhem títulos de cidadão deste ou daquele município já são práticas discutíveis. Agora, que se instale a moda de oferecer nacionalidade por capricho presidencial já estamos passando dos limites.

A nacionalidade ― sua aquisição e sua perda ― estão perfeitamente definidas em nossa Constituição e em leis complementares. Outorgá-la não é, nem pode ser, direito privativo e discricionário do chefe do executivo. Para obtê-la, há um caminho a ser trilhado.

Para casos de urgente necessidade de caráter humanitário, há outros expedientes à disposição das autoridades. A concessão da nacionalidade não é mimo que se ofereça, sem mais nem menos, a figuras populares.

Nacionalidade não é brinde, é bem mais sério que isso.

A origem e o biscoito

José Horta Manzano

Você sabia?

Os documentos suíços nunca mostram o lugar de nascimento do cidadão. Para nós, parece estranho, não é? Vou-lhes dizer o porquê.

Antes de ser cidadão suíço, um indivíduo terá de ser cidadão de um município suíço. Como cada município está inserido num cantão, a pessoa terá também a cidadania daquele cantão. A cidadania suíça nada mais é que a consequência, o coroamento, a consagração.

Em outras palavras: a Confederação Helvética não concede cidadania a ninguém. Ela apenas reconhece o direito daqueles que já possuem a cidadania de um município e de um cantão. Cidadania de um município é também conhecida como burguesia. Um cidadão de Berna é um burguês de Berna, detém a burguesia bernesa.

Portanto, claro está que o candidato à nacionalidade suíça terá de começar por obter a burguesia de um município. As leis não são uniformes e podem variar um pouco de um cantão a outro. Em geral, exige-se do candidato que tenha vivido 12 anos no país, dos quais os 3 últimos no município do qual solicita a burguesia. E que tenha residido durante os 5 últimos anos no respectivo cantão.

É um percurso longo e complicado. Costuma levar 3 anos. Começa por um período de «inquérito de vizinhança», durante o qual a polícia vai visitar pessoalmente vizinhos do candidato, para saber o que pensam dele, quais são suas qualidades e seus defeitos conhecidos, se está bem inserido na sociedade local, coisas desse tipo.

Alguns meses depois, autoridades municipais virão visitar o postulante. Com dia e hora marcada, naturalmente. Querem conferir com seus próprios olhos onde e como vive o estrangeiro. Farão perguntas de caráter pessoal: que livros a pessoa lê, que tipo de comida come, quais são suas atividades de lazer, quem são seus amigos. É a continuação do inquérito, só que desta vez o inquirido é o próprio candidato.

Em certos cantões, há mais um passo: o exame oral. O candidato será chamado diante de uma banca examinadora composta de vereadores para responder a perguntas sobre a organização política do país.

Seus conhecimentos serão então julgados, ao mesmo tempo que se avaliarão seus conhecimentos da língua local. Eu já soube de gente que, sentindo-se humilhada num ambiente que lembra um tribunal, abandonou o recinto. E desistiu da naturalização.

Passaporte suíço

Passaporte suíço

Depois disso tudo, os vereadores (aqui chamados conselheiros municipais) se reunirão para decidir, com base em todo o processo, se concedem ou não a cidadania municipal ao pretendente. Se anuírem, o processo sobe ao nível cantonal. A partir daí, o andamento é mais burocrático. Uma vez a aceitação confirmada pelo cantão, o processo sobe ao nível da Confederação. Alguns meses depois, o novo cidadão será chamado a prestar juramento numa sessão solene.

Pronto, agora dá para entender por que o lugar de nascimento não aparece nos documentos suíços, não é? Simplesmente porque não tem a menor importância. Os filhos de suíços herdam automáticamente a burguesia do pai, que, essa sim, aparece nos documentos.

Com o passar dos séculos e a mobilidade da população, chega-se hoje a situações interessantes, onde um cidadão é originário de um município no qual nunca pôs os pés. E provavelmente nunca os porá.

A vantagem de se conservar essa noção de lugar de origem é que todos os atos e acontecimentos da vida civil são duplamente registrados: onde ocorreram e também no município do qual o cidadão detém a burguesia. Assim, uma rápida consulta ao arquivo do lugar de origem basta para se obter todo o histórico familiar: nascimentos, casamentos, divórcios, nascimento de filhos, falecimentos.

O lugar de nascimento não tem nenhuma incidência nesse sistema e não altera a origem de cada um, daí não ser mencionado em nenhum documento suíço. Com a sabedoria dos antigos, já dizia um velho tio meu que «gato que nasce no forno não é biscoito».

Madame ou Mademoiselle?

Você sabia ?

José Horta Manzano

Por mais que se considerem progressistas e ‘prafrentex’, os franceses são bastante conservadores. No trato com terceiros, a coisa sobressai. Há dois níveis de tratamento: tu e vous, ambos da segunda pessoa.

O tu, mais íntimo, é utilizado em família, entre camaradas de escola, entre adolescentes. É usado também no círculo de algumas associações sindicais ou profissionais, ainda que às vezes soe forçado. Tu denota intimidade. Quando a gente se dirige a alguém com quem não tem intimidade, o tu soa artificial, obrigatório. O vous, mais formal, usa-se nos demais casos ― a maioria.

O uso da terceira pessoa, em voga até um século atrás, é hoje considerado preciosismo démodé. Simbolizava um excessivo respeito que já passou de moda. Frases como «Madame est servie» (A Senhora está servida = o jantar está na mesa), dita por serviçais, só é ouvida hoje em dia em filmes históricos. De toda maneira, poucos são os que ainda se podem dar ao luxo de pagar empregados domésticos.

As regras de uso de tu e de vous são muito rígidas. Há casos, comuns por aqui, que deixariam qualquer brasileiro boquiaberto. Suponhamos que um seu colega de escritório se sente habitualmente à mesa ao lado da sua. Se a empresa funcionar, como a maioria, à moda antiga, você e seu colega perigam passar 20 anos sentando-se todos os dias um ao lado do outro e chamando-se reciprocamente de vous mais o sobrenome. Bonjour, Monsieur Dupont! Bonjour, Monsieur Dubois! Esquisito para nós, não? Imagine só: bom dia, senhor Silva! Bom dia, senhor Souza!

Se o ambiente de trabalho for menos rígido, talvez você se sinta autorizado a chamar seu colega pelo nome. Nesse caso, teremos: Bonjour, Jean! Bonjour Paul! Mas não se engane: continuarão a se dizer vous até o fim dos tempos. Jamais ousarão transpor o muro invisível que retém as pessoas e as impede de entrar na intimidade da outra.

O que acabo de descrever é o caso genérico, representativo do estado de espírito mais disseminado. Evidentemente, há situações particulares em que o relacionamento pode funcionar de outra maneira.Bagues 1

Um homem será sempre chamado Monsieur. Basta haver saído da adolescência. Pouco importa se é casado ou não. Será sempre Monsieur. Já o mesmo não ocorre com uma mulher, não me pergunte por quê. Chegada à idade adulta, ela se apresentará como Madame, se já for casada. Ou como Mademoiselle, se não o o for. E assim será chamada. Atenção: esse termo de tratamento será sempre seguido pelo sobrenome. Se não, fica parecendo nome de vidente ou daquelas que os antigos chamavam «mulheres de vida fácil».

Mas o tempo passa e os costumes mudam. Faz anos que movimentos feministas denunciam a flagrante diferença de tratamento entre homens e mulheres. Por que todos têm de saber se uma mulher é casada ou não? Por que os homens escapam a toda inquirição sobre seu estado civil?

Depois de muita luta, senhoras e senhoritas conseguiram que uma lei fosse votada para acabar com essa diferença. Embora já estivesse em vigor desde fevereiro do ano passado, o instituto legal só alguns dias atrás foi definitivamente referendado pelo Conseil d’Etat, a mais elevada jurisdição administrativa do Estado francês.

Uma lei, por mais que queiram seus instigadores, não consegue mudar mentalidades da noite para o dia. Não se pode proibir que formas consagradas por anos de uso popular desapareçam por encanto. O que o novo regulamento determina é que, nos documentos oficiais, seja abolida a diferença entre casadas e solteiras. A partir de agora, todas as mulheres serão chamadas Madame. Ponto e basta.

Isso vale para o Imposto de Renda, a conta de eletricidade, o IPTU, documentos de identidade, passaporte, carteira de motorista, enfim, tudo o que for documento oficial. A notícia saiu no jornal 20 Minutes de 28 de dezembro. Para quem quiser conferir, está aqui. Em francês.

Para mudar as mentalidades, ainda vai levar um tempinho. Modos de pensar não se mudam por decreto.

O mofo nobre

Vinhedo de Bordeaux

Vinhedo de Bordeaux: denominações de origem controladas

Você sabia?

José Horta Manzano

Mofou, tem de jogar fora. Tem mesmo? Nem sempre. Há males que vêm para bem.

Na Idade Média, uma das atividades favoritas dos senhores feudais era a guerra. Por um sim, por um não, juntavam seus vassalos e partiam para medir forças com um outro senhor.

O século XVI já anunciava outros tempos, mas certos hábitos antigos continuavam arraigados. Conta uma lenda que, por aqueles tempos, um proprietário de terras de Sauternes, região de Bordeaux (França) foi à guerra. Como imaginava estar logo de volta, deixou ordens claras: fazia questão de que esperassem sua chegada para iniciar a vindima, a colheita das uvas.

Botrytis 1

Botrytis Cinerea, o mofo nobre

As coisas não correram exatamente como pensava o senhor. A contenda se prolongou e não lhe foi possível voltar a tempo para a colheita. Intimidados, seus camponeses não ousaram tocar nas uvas enquanto o patrão não tivesse retornado.

Quando finalmente voltou a suas terras, o proprietário constatou que as uvas, ainda não apanhadas, estavam já meio mofadas. Perdido por perdido, decidiu que a vindima se fizesse assim mesmo.

As uvas foram colhidas, pisadas, e o processo de vinificação foi lançado. Alguns meses depois, a abertura da primeira barrica trouxe uma surpresa muito agradável: o vinho, habitualmente medíocre e bastante ácido, desta vez parecia um néctar feito no céu. Licoroso, docinho, frutado, um luxo!

Os proprietários da região logo se deram conta de que o fato de haver esperado que as uvas mofassem tinha provocado aquela magia. Empiricamente, adotaram a nova técnica.

Passaram-se os séculos, e se manteve a técnica de só colher as uvas depois de engrouvinharem, adquirindo aspecto de uva-passa. Os enólogos têm hoje explicação científica para a miraculosa transmutação de um vinho à toa em delícia rara. Descobriram que, sob certas condições de umidade e temperatura, colônias de fungos microscópicos do gênero Botrytis Cinerea podem se formar. O microclima da região de Sauternes se caracteriza justamente por nevoeiros úmidos no início do outono, um pouco antes da época da vindima.

Esse fungo, quando afeta outras frutas, é catastrófico: toda a colheita pode estar comprometida. No entanto, quando ataca as vinhas, faz que a água dos bagos se evapore, aumentando a concentração de açúcar. Provoca o chamado mofo nobre. O resultado é um vinho naturalmente doce e ligeiramente licoroso. A cor da bebida também se altera, tornando-se um elegante amarelo alaranjado. Ambré, como dizem os franceses.

Como acompanhamento de um queijo roquefort, um gole de Sauternes é uma dádiva. O sabor ligeiramente açucarado suaviza a aspereza do queijo de ovelha. É um fecho excelente para uma refeição de réveillon.

A consumir com moderação, naturalmente.

Sauternes

Sauternes de diversos viticultores