Renascendo das cinzas

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Dor de dente 1Quando se espreme um abcesso, é inevitável que uma torrente de pus seja lançada para todos os lados. Por mais constrangedor e nauseante que possa parecer o processo, é a única medida recomendada pelos especialistas médicos para aliviar a dor, o inchaço e a inflamação. Uma vez eliminada toda a carga de pus – e um pouco de sangue, que costuma vir junto – basta fazer a assepsia do local para restaurar as condições ideais que deem início ao processo de cicatrização.

Assistimos domingo, estupefatos, ao estouro de mais um abcesso político que insistia em combalir e fazer padecer o organismo da sociedade civil. O volume de toxinas lançado foi tal e tamanho que muitos preferiram não ver o término do processo.

Hoje de manhã, um pouco mais aliviados com a descompressão experimentada, nos percebemos ávidos pela decretação urgente de assepsia profunda no corpo político brasileiro. Ainda enojada, a maioria da população se dá conta de que o tecido parlamentar abriga múltiplos outros abcessos. Mais grave, que as mãos dos próprios médicos responsáveis pela assepsia estão contaminadas. Agora, inquietas, as pessoas buscam-se umas às outras para debater como foi que nos permitimos chegar a esse grau de degradação.

Band-aid 1Um belo momento para reflexão e mea culpa coletivo. Fomos nós mesmos, não há como negar, os responsáveis pela entrada de tantas bactérias e germes em nossa circulação sanguínea. Não percebemos a tempo que nossa epiderme cidadã ainda estava em processo de regeneração das fissuras causadas por décadas de exceção. Sabíamos que havíamos queimado etapas, mas achávamos que era preciso esconjurar os tempos sombrios que passamos vivendo em meio ao lixo da história. Apostamos na esperança de adoção de hábitos políticos mais higiênicos e em nossa capacidade de construir uma sociedade mais afastada da promiscuidade ideológica. Quando os ventos dos tempos de bonança sopraram, soltamos um pouco mais o nó da gravata, nos acomodamos confortavelmente no sofá, abrimos uma cerveja e ligamos a televisão para afastar ao menos temporariamente a dura realidade.

O preço da liberdade é a eterna vigilância, já disse alguém. Embora soubéssemos disso, confiávamos que acordaríamos de nossa merecida soneca com mais garra para vigiar os passos de nossos novos conselheiros. A musculatura relaxada, todavia, não nos permitiu manter a vigília. Aos poucos, fomo-nos tornando mais complacentes com velhos hábitos insalubres e voltando a frequentar ambientes poluídos. Não instalamos os filtros recomendados para purificar o ar da alfabetização política. A reinfestação foi inevitável.

Sol 2Culpa de nossa ingenuidade, de nossa imprevisão? Talvez, mas ainda prefiro acreditar que tudo o que é humano é provisório, imperfeito, limitado. Já aconteceu antes e vai acontecer de novo, com certeza. Não temos a sabedoria dos deuses nem a paciência dos santos. Hora de lamber as feridas, lavá-las com água oxigenada, fortalecer nosso sistema imunológico com doses diárias de conversação e tolerância.

Aliás, o consenso que começa a nascer ‒ de que é imprescindível superar divisões, juntar razão e emoção para enfrentar o difícil trabalho de desintoxicação ‒ é a mais reconfortante e comovente notícia do dia.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Voltando ao assunto…

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Remedio 1Acabo de ler a notícia de que a presidente da República sancionou lei que libera a produção e a venda da fosfoetanolamina. Se estou feliz? Não, não estou. Ao contrário, estou assustada com as possíveis consequências do açodamento com que ela foi liberada e quero explicar meus motivos.

Outro dia, um jornalista escreveu artigo defendendo a ideia de que é possível estar certo pelas razões erradas. Ele se referia ao cenário político brasileiro e à incrível debandada de parlamentares que compunham a base de apoio da presidente. Ele estava certo, suponho, mas não é a isso que me refiro hoje.

Na reportagem que informava a liberação da chamada “pílula do câncer”, o autor afirma com todas as letras que, “apesar de estudos científicos não terem apontado nenhuma eficácia dessa substância”, a Casa Civil teria recomendado a liberação “para evitar qualquer ameaça de desgaste (e de perda de votos) às vésperas da votação do impeachment na Câmara”.

Farmacia 2Infelizmente, é assim que nosso país funciona. Tanto os congressistas, que aprovaram apressadamente a liberação da droga sem consulta aos órgãos médicos competentes, quanto o executivo federal operaram ‒ tudo leva a crer ‒ fazendo cortesia com chapéu alheio. Como afirma um oncologista do Instituto Brasileiro de Controle do Câncer ouvido na reportagem, a pílula “não deve ser assunto político”. Assino embaixo. Os pacientes de câncer e seus familiares não merecem que se lide irrefletidamente com sua saúde e sua qualidade de vida.

Aonde quero chegar? Quero apenas refletir sobre os meandros burocráticos que cerceiam a pesquisa médica brasileira e, nesse contexto, analisar mais em profundidade o papel da Anvisa. Que não nos faltam cientistas de alto padrão é fato sabido por todos. Que instituições de ponta no ensino e na pesquisa médica como a USP e o Instituto Oswaldo Cruz alcançaram reconhecimento internacional por sua qualidade, também. Onde está então o problema?

Posso estar enganada, mas me parece que a Vigilância Sanitária brasileira entende como missão principal a de reinventar a roda todos os dias. Basta lançar um olhar desapaixonado para o que aconteceu há alguns meses com o canabidiol. Apesar de vários estudos científicos internacionais terem apontado a importância dessa droga no controle da epilepsia e outros transtornos neurológicos, a Anvisa não se deu por vencida por meses e anos a fio, permitindo que médicos que o receitassem e pacientes que o importassem continuassem sob ameaça de prisão por tráfico de drogas. Depois, acuada diante de tantas evidências de sua eficácia, foi liberando aos poucos a importação da droga, pretendendo fazer crer que pesquisas médicas nacionais em andamento estavam chegando aos mesmos resultados.

Injeção 1Há alguns anos, a Anvisa já havia se lançado impávida à tarefa de disciplinar a comercialização de medicamentos homeopáticos. Impôs aos laboratórios a anexação de bula com indicação de uso de cada substância, dosagem, efeitos colaterais, etc., fazendo de conta que desconhecia o fato de que um mesmo medicamento homeopático pode ser – e é – usado há séculos para diversas doenças, sem relação umas com as outras. A critério do médico, é claro.

Sou leiga no assunto e não posso me pretender imparcial diante dessa iniciativa, já que na época eu era paciente da medicina antroposófica e minha cachorra estava sendo tratada com sucesso com uma injeção contra o câncer desenvolvida por um laboratório suíço e comercializada havia mais de duas décadas no Brasil (eu mesma já a havia tomado, com igual sucesso). Em decorrência da postura irredutível da Anvisa, a tal injeção foi retirada de circulação e sua importação proibida, levando ao desespero e desamparo milhares de doentes de câncer da noite para o dia. Não sei o que aconteceu com os humanos. Minha cachorra morreu.

Voltando à fosfoetanolamina, suspeito que, se o químico que desenvolveu a pílula há mais de 20 anos fosse um pesquisador estrangeiro, a Anvisa já teria se interessado em promover por conta própria estudos mais aprofundados. Acredito também que a USP teria pensado duas vezes antes de tratar um profissional formado pela própria instituição de curandeiro e determinar a lacração do laboratório que produzia a droga.

Hospital 1Isso sem considerar que eventual comprovação da eficácia da pílula do câncer poderia colocar em polvorosa poderosas indústrias farmacêuticas multinacionais, ameaçadas de perder a hegemonia no combate ao câncer e seus fantásticos lucros. E pensar que o tal químico tupiniquim, além de ter feito uma descoberta de fundo de quintal, distribuía o medicamento gratuitamente, por acreditar cegamente no próprio trabalho.

Não pretendo insinuar que todos os cientistas, pesquisadores e médicos que se colocaram acidamente contra a fosfoetanolamina tenham se deixado abater pela pressão de grupos internacionais. Mas que, inadvertidamente, ajudaram a corroborar a tese de que sofremos da síndrome de vira-latas, lá isso está claro. A começar pela constatação de que havia menos fosfoetanolamina nas pílulas do que o alardeado e a presença de “resíduos” de outras substâncias. Ora, doutores, por que não investigar cientificamente a atuação da substância pura nas células malignas e determinar a dosagem ideal antes de afirmar que a droga não faz nenhum efeito ou tem menor eficácia que a de outras drogas já comercializadas?

Remedio 2Na sequência, me causou espécie saber que especialistas brasileiros tenham se deixado envolver em intensa polêmica a respeito da distribuição da droga como suplemento alimentar. Não ‒ diziam irados os opositores ‒ estaríamos tentando cobrir o sol com peneira, o produto continuaria a ser usado como medicamento. Afinal, doutores, desculpem a petulância de perguntar: que males (além da automedicação) poderiam advir se isso acontecesse? A fosfoetanolamina apresenta ou não efeitos colaterais indesejados? É tóxica para o organismo, interage e atrapalha a ação de outras substâncias anticancerígenas?

A resposta? Ninguém sabe, até mesmo porque a pesquisa da fosfoetanolamina ainda não avançou para a fase de testes clínicos em humanos…

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Sofismas e atos falhos

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Se vivo estivesse e se acionado fosse para nos ajudar a interpretar o cenário brasileiro atual, Sigmund Freud estaria intensamente atarefado por estes dias. Além dos múltiplos atendimentos no divã particular, provavelmente estaria às voltas com um sem número de convites para palestras e aulas magnas nas principais universidades do país.

Einstein e FreudSa correspondência com Albert Einstein estaria ainda roubando preciosos minutos de seu tempo, assim como consultas a livros de mitologia, sociologia, antropologia e religião para tentar responder às questões agudas propostas pelo pai da Relatividade, pertinentes à psicologia das massas e aos tempos de crise na civilização. Freud seria forçado a sair de sua área de especialidade para fazer eco ao alerta de Einstein de que “é reduzido o número daqueles que veem com os próprios olhos e sentem com o próprio coração, mas da sua força dependerá que os homens tendam ou não a cair no estado amorfo para onde parece caminhar hoje uma multidão cega”. Mesmo assim, o velho Freud talvez vibrasse com sua sábia conclusão de que “não podemos desesperar dos homens, pois nós próprios somos homens”.

Sartre 1Se aos dois se juntasse ainda Jean-Paul Sartre, é provável que as conversas sobre nossa inexorável condenação ao inferno da convivência humana e suas tentativas de explicação de nosso sem-destino existencial varassem as madrugadas e durassem semanas.

Uso abusivo de sofismas, atos falhos, lapsos de linguagem, crises de histeria individual e coletiva, mania de perseguição baseada em tramas rocambolescas que dariam inveja aos mais renomados novelistas de costumes, apego à vitimização, personagens megalômanos, psicopatas e sociopatas, compulsão no uso de palavras de ordem, obsessão por temas políticos e judiciais, voluntarismo no desejo de implementação de mudanças, manipulação afetiva e chantagem emocional para atrair aliados, comportamento de horda, etc. – experimentamos em nossa pele a cada novo dia todo um tratado de psiquiatria, psicanálise e psicologia. Tudo isso sem mencionar três síndromes preocupantes: a de Rei Sol ou síndrome Luís XIV (“L’État c’est moi”) e a síndrome de Luís XV, o Amado (“Aprés moi, le déluge”) que grassam entre os governantes, assim como a Síndrome de Estocolmo que se dissemina entre a parcela desassistida da população.

Luis XIVÉsquilo, dramaturgo da Grécia antiga, já havia nos advertido pioneiramente que, em tempos de guerra, a primeira vítima é sempre a verdade. E foi além, penetrando um pouco mais nos meandros do conturbado psiquismo humano: “Falseando a verdade, a maioria dos homens prefere antes parecer a ser”.

Nietzsche certamente se apressaria em juntar forças com esses pensadores para agregar que “aquele que se sabe profundo esforça-se por ser claro; aquele que gostaria de parecer profundo à multidão esforça-se por ser obscuro… porque a multidão acredita ser profundo tudo aquilo de que não consegue ver o fundo”. Sem dúvida, um poderoso consolo para todos nós que assistimos assoberbados ao presente festival de esgrima verbal, com proliferação de sofismas e atos falhos.

O dicionário pode nos socorrer para entendermos as motivações em curso:

Sofisma
Argumento ou raciocínio concebido com o objetivo de produzir a ilusão da verdade que, embora simule um acordo com as regras da lógica, apresenta na realidade uma estrutura interna inconsistente, incorreta e deliberadamente enganosa; argumentação capciosa, concebida com a intenção de induzir em erro, o que supõe má-fé por parte daquele que o apresenta.

Ato falho
Fenômeno descrito por Sigmund Freud, que se caracteriza por erro na fala, na escrita, na memória ou numa ação física, que permite inferir a existência de desejo reprimido, e a respeito do qual não se pode dizer, portanto, que tenha ocorrido acidentalmente por distração ou cansaço; formação de compromisso entre o inconsciente e o consciente.

Cabe a cada um dos que me leem elencar os casos mais emblemáticos e seus exemplos favoritos em cada uma dessas categorias. Mas, reflitamos um pouco, o que é preciso fazer para colocar um ponto final nessa fase de involução civilizatória e curar nossas doenças anímicas?

Brasil mapa 3Depois de muito pensar, tenho a propor uma solução salomônica: vamos dividir o Brasil ao meio e entregar cada parte a um dos lados da disputa. O objetivo desse novo Tratado de Tordesilhas será, é claro, identificar quem ama mais sua pátria e quem veste melhor o uniforme de estadista. A divisão poderá ser feita horizontalmente, fixando a linha de fronteira por exemplo na altura de Brasília, ou verticalmente, usando a mesma referência. Uma Assembleia Constituinte será naturalmente convocada fora do Congresso, contando com a ajuda especializada de intelectuais de todos os matizes ideológicos para a elaboração das novas cartas magnas. Através de plebiscito, a população escolherá as novas formas de governo e de representação política apresentadas pelos sábios da nação. Aos poucos, definiremos também as formas de convivência mais satisfatórias entre o Brasil do Norte e o Brasil do Sul (ou Brasil do Leste e Brasil do Oeste) e construiremos novos laços com outros países. A definição da moeda, da língua nacional e da preferência por um estado laico ou religioso em cada novo país serão outras preocupações na sequência.

Pensando bem, a principal desvantagem dessa linha de raciocínio é que, além de dar um trabalho danado para recomeçar do zero, continuaríamos divididos. A favor de minha proposta, só o alívio que sentiríamos todos com a reconceituação daquilo em que consiste nossa cidadania.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Carta para minha mãe

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Criança 8Vem aqui, mãe, precisamos conversar, olhos nos olhos. Hoje eu preciso desabafar, abrir o peito e lhe dizer tudo que não ousei colocar em palavras enquanto você estava viva. Sabe, não foi nada fácil para mim viver ao seu lado, ser sua filha. Além de nossas diferenças irreconciliáveis de personalidade, pesou muito também o seu jeito duro de amar.

Lembro das muitas vezes em que lhe pedi colo, fragilizada, e você me rechaçou dizendo que eu já estava grandinha demais para ser carregada. Eu não entendia o porquê. Aos trancos e barrancos, cresci acreditando que só poderia contar comigo mesma caso me visse num beco sem saída. Pior ainda, sentindo que não podia confiar nem em minha própria capacidade de superação se não dispusesse de uma rede de proteção.

Criança 10A bem da verdade, confesso que até hoje só encontro coragem para entrar em ação diante do inevitável. Se der para ignorar a sensação de falta de chão, faço corpo mole, disfarço, finjo que não é comigo. Se não der, respiro fundo e vou em frente destemida. Por outro lado, até hoje não consigo evitar o choro quando vejo alguém vencer um desafio difícil se apoiando nos gritos de estímulo da torcida. E eu sempre quis, mãe, que você fosse a ‘cheerleader’ de minha torcida particular. Infelizmente, da pista onde estava em criança, eu não conseguia visualizar sua figura imperial, seu ar de esfinge pronta a me devorar se eu não decifrasse suas reais intenções.

Sofri muito também, admito, com a falta de beijos e de abraços. Buscava desesperadamente alguém que me suprisse com uma mínima quantidade de afeto para compensar a aridez emocional que sentia em você. Apesar disso, estranhamente nunca pude esconder meu menosprezo pelas pessoas melosas que se apresentavam como capacitadas a me servir de mãe substituta. O que eu queria mesmo, percebo agora, era merecer manifestações de afeto e torcida despudorada de gente desacostumada a arroubos passionais, como você.

Criança 7Houve momentos, é claro, em que eu senti que você se orgulhava de mim, seja por minha determinação em não desistir de nenhuma luta, seja por minha obstinação em reafirmar meus pontos de vista e sentimentos. Houve ainda, admito emocionada, outros momentos em que fui ao chão depois de ter apanhado muito da vida e você me estendeu a mão silenciosamente, me colocando de novo em pé sem cobrar nada em troca de seu gesto nobre.

Um dia, já adulta, me dei conta de que tinha criado uma armadura para me defender das emoções ternas. Passou a ser difícil para mim também abrir os braços e acolher carinhosamente quem me pedisse colo. O mais paradoxal, mãe, é que toda essa dureza interna acabou me servindo de base para a escolha de profissão. Ela não me impediu de me transformar em defensora dos fracos e oprimidos, ainda que eu jamais tenha sentido o impulso de passar a mão na cabeça dos muitos desvalidos da sorte que atravessaram o meu caminho, exatamente como você fazia comigo.

Acho que nunca lhe contei que, graças a você, aprendi a admirar as pessoas “difíceis”. Sabe aquele tipo de pessoa que não angaria simpatias por seu jeito rude, que lhe diz as verdades mais duras sem se preocupar em ferir sentimentos? Pois então, mãe, descobri que são exatamente essas pessoas que nos ajudam a estruturar nosso caráter, a entrar em contato com nossa força interna, a moldar nosso jeito de estar no mundo como cordeiros em pele de lobo.

Criança 9Você me chamava de onça, lembra? Hoje posso lhe confessar com orgulho que aprendi a lidar com minha natureza selvagem de felino. Posso assumir sem hipocrisia minha condição de gatinho assustado quando subo em árvores muito altas e, ao mesmo tempo, a de onça feroz quando minhas crias são ameaçadas.

Depois que você se foi, descobri maravilhada que eu sempre estive pronta para cavalgar o touro bravo da vida, segurando firme em seus cornos. Por mais esquisito que isso possa soar, percebi naquele 7 de abril ‒ há exatos 18 anos ‒ que é como se eu a tivesse engolido, absorvido sua força e desenvolvido autoconfiança, numa gestação às avessas.

O buraco causado por sua ausência foi parcialmente tapado não com gatos, mas com as lambidas e abraços das minhas cachorras. Com elas aprendi a me deixar extravasar amorosamente sem temer o ridículo. Redescobri a alegria e o prazer do contato de corpos. Mesmo não podendo mais tocar o seu, quero que você saiba que a lição mais poderosa que aprendi com seu jeito de ser foi a de que a verdadeira presença nunca é física, é espiritual. Hoje meu coração mole pulsa feliz dentro da carcaça de ferro que construí para mim. E me divirto desafiando outras pessoas a se valerem de um abridor de latas para tentar soltar o animal domesticado que vive dentro de mim.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Pensamentos soltos

Cabeçalho 9Myrthes Suplicy Vieira (*)

A gente já teve um presidente que preferiu sair da vida para entrar na história. Agora estamos às voltas com uma que luta bravamente para sair da história e cair na vida.

Ué! Se os fins justificam os meios para os atuais ocupantes do poder central, por que agora eles se insurgem contra os meios utilizados por seus adversários para conseguir o fim tão desejado pela maior parte da população?

Historia 1Parece que os ameaçados de perder o título de poderosos de plantão aderiram com tudo à estratégia do “Vai que cola!”. Pode ser só uma impressão mas, sem dúvida, eles nos estão dando uma verdadeira aula de interpretação de textos escritos e falados. No quesito interpretação de intenções, então, só se pode aplaudir de pé. As aulas são definitivamente um comovente e mobilizador espetáculo.

Na novilíngua implantada com sucesso em nosso território, a expressão “Não vai ter golpe” tem sido, de longe, a mais inspiradora para demover críticos do governo dentro e fora de nossas fronteiras. Só perde para o mote “Em defesa da democracia”.

Embora este último esteja apenas dando seus primeiros passos, já mostra todo seu potencial para abalar as convicções daqueles que julgavam estar lutando pela mesma causa. A história estará a favor de qual dos lados?

Historia 2Defensores do fisiologismo, do clientelismo e do golpismo, tremei! É chegada a hora de colocar todas as cartas na mesa. Nossa corte suprema está a postos para banir da vida pública todos aqueles que tentam quebrar o pacto do Estado de Direito, da legalidade democrática e da probidade administrativa…

Ei, você aí, ouviu o que eu disse? Para de prestar atenção aos grampos que vazaram seletivamente. Não adianta pedir arrego nem se esconder na barra da toga daquele magistrado golpista. Nós é que vamos fazer justiça!

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Mudando de assunto…

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Dois artigos abordando direta ou indiretamente a relação entre câncer e psiquismo chamaram minha atenção nestes últimos dias.

O primeiro, um vídeo de Dráuzio Varella, no qual ele afirma enfático que “não há nenhuma possibilidade” de que distúrbios de caráter estritamente psicológico possam provocar “mutações genéticas”. En passant, ele ainda discorre sobre a falta de comprovação científica de que a religiosidade ou a espiritualidade possam interferir positivamente para a cura do câncer. Diz ainda, com ar paternalista de desaprovação, que as tentativas de associar o aparecimento de um tumor cancerígeno a aspectos psicológicos e a não resposta ao tratamento à “falta de vontade” do paciente são duplamente cruéis, já que instilam culpa em uma pessoa já combalida pela doença.

Doente 1O segundo, um artigo publicado na Folha de São Paulo por Marcelo Leite, no qual ele contesta asperamente a decisão de juízes do STF e de congressistas no sentido de liberar a produção e distribuição da fosfoetanolamina. Ao longo de seu arrazoado, ele equipara a assim chamada “pílula do câncer” a coisas como barbatana de tubarão, cogumelo do sol e maca peruana e conclui autocraticamente: “São pseudomedicamentos que se aproveitam da credulidade e do desespero dos enfermos e de seus parentes para vender uma esperança desumana”. Mais para a frente, ele argumenta ainda que as pessoas que aprovaram o uso dessa droga sem o aval da Vigilância Sanitária são “os mesmos que não pensam duas vezes antes de desperdiçar milhões do contribuinte quando forçam o SUS a pagar terapias duvidosas com células-tronco e que tais em países asiáticos”.

Um minuto de silêncio para absorver o impacto dessas informações e para lamentar a morte do verdadeiro espírito científico. Tudo isso em dois sentidos principais: o primeiro, aquele que considera que só se pode chamar de “ciência” as investigações quantitativas; o segundo, aquele que ignora que resultados obtidos em um estudo podem ser contestados por outros, dependendo da premissa de base, da acurácia dos instrumentos utilizados e dos conhecimentos vigentes à época de cada estudo. Ai, Santo Einstein, que seria de ti nas mãos desses iluminados?

Doente 3Respeito o desejo que esses doutores manifestam de proteger incautos de curandeiros e de falsas promessas. Não posso deixar, no entanto, que eminências pardas da medicina alopática mexam impunemente num vespeiro do qual faço parte. Reconheço a veracidade desta ou daquela afirmação isolada, admito que sua indignação pode ser legítima, mas pasmo com a ligeireza intelectual com que esses senhores estabelecem conexões entre fatores absolutamente díspares. Para mim, é como alardear que está provado cientificamente que baratas não ouvem pelas pernas, já que um estudo controlado mostrou que elas não saem do lugar quando expostas a ruídos altos, sem mencionar que suas pernas foram previamente arrancadas uma a uma.

Seres humanos não são máquinas de laboratório. Não possuem apenas corpos físicos que podem ser submetidos a estímulos físico-químicos para anotação de reações orgânicas. Gostemos ou não, humanos contam também com todo um aparato psíquico que interage e influencia decisivamente suas reações orgânicas a esses mesmos estímulos. E, pouca gente se dá conta disso, há uma proibição ética universal de testar reações psíquicas em laboratório.

Todo cientista que se orgulhe desse título conhece muito bem o assim chamado “efeito placebo”. Para quem nunca ouviu falar dele, eu explico: o simples fato de estar recebendo uma pílula (de açúcar ou substância inerte) – ou, de forma mais insidiosa, o simples fato de estar recebendo atenção de pesquisadores médicos ‒ pode fazer com que o paciente experimente “cura” de seus sintomas. Em outras palavras, a crença psicológica – ou ato de fé, para religiosos e espiritualistas ‒ de que se está recebendo a resposta desejada para dar fim ao sofrimento humano é tão forte que é capaz de promover alterações orgânicas importantes, na mesma direção da droga que está sendo pesquisada.

Se isso é verdade facilmente constatável no caso de tratamentos experimentais, por qual razão a interferência psíquica não seria verdadeira para determinar o aparecimento de doenças, inclusive as que implicam mutações genéticas, como o câncer? Wilhelm Reich, um médico, psicanalista e cientista natural, dissidente de Freud, dedicou boa parte de sua vida ao estudo da sexualidade humana e do câncer. Já na primeira metade do século 20, ele conceituou o câncer como uma espécie de “desistência” da pessoa frente aos desafios da realidade (os contornos psicanalíticos dessa tese podem ser conhecidos mais em detalhe em seus livros) e afirmou que o órgão afetado será sempre simbólico dessa desistência.

Doente 2Que as emoções humanas interferem no sistema imunológico é fato sabido há mais de meio século. Que depressão e culpa são fatores intervenientes e críticos para o rebaixamento das defesas orgânicas também. Que pacientes acometidos por câncer e outras doenças terminais podem ter expectativas de vida mais altas e maior probabilidade de remissão de seus quadros graças a suas atitudes, crenças, estilos de vida e perspectivas espirituais são outras descobertas científicas relevantes, como o demonstrou à exaustão o médico americano Carl Simonton. A esperança de um futuro melhor é parte constituinte e indissociável do psiquismo humano saudável.

Emprestar paternalisticamente à credulidade de leigos alguns resultados favoráveis obtidos no consumo de certas substâncias ou em tratamentos experimentais é uma atitude que, a meu ver, não ajuda a identificar as causas nem a aprender a lidar com o sofrimento físico, a dor psicológica e o desalento espiritual da humanidade. Um pouco de humildade para encarar a complexa estrutura multifatorial humana me parece fundamental para fazer avançar o conhecimento científico. Mal não faz. Como diz um ditado popular, arrogância e água benta cada um pega o quanto aguenta.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Meu Deus! Devo estar ficando louca! Não há como considerar normal que uma pessoa consiga compreender e lançar olhar compassivo aos dois lados de uma disputa, sem se posicionar automaticamente em cima do muro ou como defensora enrustida e hipócrita de uma das partes.

Vejo como verdadeiras certas afirmações de Dilma e de integrantes de seu partido, de sua base aliada e de seu governo, assim como constato que muitas pessoas engajadas na luta para derrubá-los estão também dizendo a verdade. É verdade que o golpe militar de 64 começou com uma passeata de 100 mil pessoas protestando contra o caos e a corrupção. Também é verdade que ela pagou um preço alto por ter participado da luta pela reconstrução democrática, mas isso não serve – ou não deveria servir – de salvo-conduto para isentá-la de punição por eventuais transgressões. A bem da verdade, dói-me que políticos que já militaram em grupos de esquerda apoiem medidas insanas ao chegar ao poder, como o controle social da mídia ou o sequestro da poupança nacional, como tentou Dilma e o fez Zélia, apenas porque sentem que já pagaram “pedágio” a governos autoritários. Não fui torturada nos porões do regime, mas talvez meus ouvidos o estejam sendo agora, e de forma mais insidiosa, por me saber livre para pensar e chegar a conclusões próprias.

Zélia Cardoso de Mello & Dilma Vana Rousseff

Zélia Cardoso de Mello & Dilma Vana Rousseff

Reprovo certas atitudes espetaculosas de Moro, da mesma forma que me sinto profundamente desconfortável com a desfaçatez e a pretensa superioridade moral de Gilmar Mendes, de Teori e de Rodrigo Janot. A coragem de Joaquim Barbosa para dar nome aos bois me fascinava, ainda que me incomodasse por sua rispidez, da mesma forma que me inquieta sobremaneira a leveza e despreocupação ética do atual presidente do STF.

Acho legítimo que a Globo, que sabidamente apoiou a ditadura militar e distorceu informes jornalísticos para ocultar sua conivência com ela, mude historicamente de posição e utilize agora seu vasto poderio de comunicação para divulgar os sucessivos escândalos políticos, como de resto o fazem todos os demais órgãos de imprensa, com um grau semelhante tanto de imparcialidade quanto de espetacularização.

Marcha da Família com Deus pela Liberdade São Paulo, 19 março 1964

Marcha da Família com Deus pela Liberdade
São Paulo, 19 março 1964

Solidarizo-me com quem se sente enganado, traído por seus governantes, exausto de ser espoliado e sai às ruas clamando por transformação urgente, sem que forçosamente tenha de chamá-los de fascistas ou sugerir que eles aceitam servir gostosa e irracionalmente de massa de manobra para golpes contra a democracia. Acolho em meu peito a raiva e a frustração das pessoas que vêm militando há décadas ao lado do partido governante para implementar certos avanços sociais, sem me sentir obrigada a tachá-las de cegas, canalhas, corruptas ou inimigas do povo brasileiro.

Condeno veemente as manobras de Cunha, tanto para acelerar o processo de impeachment de Dilma quanto para evitar sua própria cassação. Não aceito que Renan se faça de desentendido, repetindo o discurso de Dilma sem se dar sequer ao trabalho de disfarçar o desejo de salvar a própria pele. Considero vergonhoso e humilhante que políticos enlameados até a raiz dos cabelos, como Maluf e Collor, posem de estadistas e ganhem assento na comissão que vai julgar o atual desgoverno. Jamais apoiaria um governo Temer construído à revelia dos anseios da população, em aliança com o PSDB ou outros partidos oportunistas de oposição, simplesmente por achar que ele seria um mal menor.

Não entendo, por mais que me esforce, o que significa ser de esquerda ou de direita no mundo atual, que dirá no Brasil. Não posso acreditar que uma seja detentora da verdadeira consciência social e outra composta só por uma elite nojenta, desprovida de valores éticos, já que suas práticas de governo se têm mostrado indistinguíveis. Não sei o que é ser elite, nem o que é ser povo, quando se empresta apressada e generalizadamente a ambos o caráter de alienação.

Fernando Collor de Mello & Paulo Salim Maluf

Fernando Collor de Mello & Paulo Salim Maluf

Também não compreendo porque artistas do peso de um Chico Buarque, Caetano Veloso ou Gilberto Gil devam ser xingados, perseguidos e difamados simplesmente porque ousam manifestar suas crenças livremente, mesmo que anteriormente tenham se manifestado a favor de ditadores ou da censura a biografias não autorizadas. Posso lamentar, talvez, que sua sensibilidade poética não tenha se espraiado para uma visão de mundo mais de acordo com a minha ou a dos que protestam nas ruas, mas me parece impossível negar sua capacidade de discernimento.

Sou mulher, profissional liberal aposentada, de terceira idade. Nunca me senti representada por Dilma só porque ela também é mulher. Embora tenha acreditado lá atrás no tempo que as mulheres fossem portadoras de maior capacidade de gerir, servir, cuidar e amar, não foi isso que constatei ao analisar a vida e o governo de Indira Gandhi, Margareth Thatcher ou Cristina Kirchner. Não me parece lógico, portanto, me aliar irrefletidamente a qualquer uma que prometa um mundo mais igualitário, generoso e includente só por ter dois cromossomos X.

Da mesma forma, abri as portas de minha carreira profissional, enfrentando um mundo masculino organizado, poderoso e discriminador. Nunca me senti menos inteligente, menos capaz de suportar pressões nem menos sensível às demandas da realidade. Nunca busquei proteção ou defesa em meus chefes e colegas masculinos quando acusada de estar exagerando ou emocionalmente desequilibrada por estar sujeita à flutuação hormonal típica do gênero feminino, assim como não fui chorar no banheiro nessas ocasiões.

Indira Gandhi & Margaret Thatcher

Indira Gandhi & Margaret Thatcher

Respirei fundo quando fui excluída do mercado de trabalho por causa de minha idade, por compreender que a reciclagem da mão de obra é natural e desejável. Reuni as forças que me sobravam para encontrar um trabalho que ainda pudesse ser considerado útil pelas empresas e capaz de acrescentar um pouco mais de dignidade à minha vida de aposentada.

Sou exceção? Talvez. Numa curva estatística de distribuição normal, devo ser. Mas, se o critério for o de condições intelectuais, psicológicas ou morais para assumir que em casa onde falta pão todo mundo grita e ninguém tem razão, devo estar absolutamente dentro da média da população. Tenho dito.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Ignomínia

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Há meses venho tentando não me imiscuir no complexo debate político que atormenta, acabrunha e indigna milhares de brasileiros. Usei de muitos estratagemas para evitar colocar com todas as letras minha opinião pessoal, desde ironias, diálogos imaginários com minhas cachorras, até construção de fábulas e parábolas.

Camelo 2Hoje, no entanto, sinto a necessidade, a urgência mesmo, de externar meus pontos de vista pessoais e propor algumas reflexões. Não tenho feito outra coisa ao longo das últimas semanas a não ser acompanhar vorazmente todos os informes jornalísticos, análises de especialistas, opiniões de pessoas envolvidas direta ou indiretamente com os dois lados da questão. Como um camelo, bebi toda a água disponível como preparativo para enfrentar a travessia deste deserto ético. Consumi toda a carne ideológica dos discursos a favor e contra cada um dos protagonistas da crise tal qual um leão faminto. Reservo-me agora o direito de regurgitar, vomitar e excretar os resíduos desse festim político a partir de uma perspectiva humana – a minha.

Começo por abordar o lado “direito” do conflito, em suas duas acepções: tanto a postura dos responsáveis pelo ordenamento jurídico brasileiro quanto a de todos os que se opõem à visão ideológica da esquerda. Preciso dizer que considero deveras preocupante que um juiz extrapole de suas funções constitucionais para trazer à luz as perversões de nossos atuais mandatários e guarde silêncio obsequioso quanto às distorções de caráter de outros tantos personagens da atual cena política. Tenho verdadeira ojeriza a salvadores da pátria, venham de onde vierem e independente dos mantos com que se cubram. Também tenho pavor dos que vestem suas togas, atendo-se aos detalhes eminentemente técnicos para emitir este ou aquele parecer e desconsiderando os aspectos mais propriamente morais da legislação em vigor. Sinto pânico ao constatar que muitos estão dispostos a acobertar os desvios de conduta dos que integram seu lado só para ajudar a destruir seus opositores. Os fins, me parece, não justificam os meios para nenhuma das partes deste ‘imbróglio’.

Esquerda x direita 1Como ainda não consigo identificar com clareza as motivações que se ocultam sob suas posições, adoto uma tática que sempre me valeu ao longo de minha vida profissional: chamo para mim mesma a solução do dilema. Em outras palavras, pergunto-me o que faria caso coubesse a mim julgar a causa tendo em mãos dados explosivos, capazes de fazer a balança pender mais para um dos lados do conflito. Já vivi situações desse tipo e confesso que quase sempre optei por oferecer armas de defesa à parte que me parecia mais fragilizada no momento. Se isso foi legal ou não, moral ou não, não sei. Simplesmente considero que uma das pulsões humanas mais poderosas é a de tentar evitar o predomínio da lei das selvas e promover uma disputa civilizada.

Quanto ao lado “esquerdo” da presente crise, só posso me alegrar com a decretação do fim da apatia da população brasileira diante da política – com “p” minúsculo ou maiúsculo. Sabemos todos, ainda que não o confessemos, que somos um povo pouco afeito ao debate de ideias e crédulos quanto à possibilidade de soluções mágicas para todo e qualquer confronto. Somos o país das revoluções sem sangue, a pátria dos cordiais, o reino da contemporização festeira e festiva. O caráter e o propósito ideológico dos protagonistas da esquerda dirigente já estavam desvelados muito antes de eles terem assumido o poder. Se a população não os identificou a tempo, se a imprensa não os enfocou com a seriedade necessária e se os intelectuais de todos os matizes não apontaram em profundidade suas implicações, não há como escapar do fato inelutável de que somos parte do problema. Mais uma vez, pergunto: o que você teria feito lá atrás se fosse chamado a escolher um governante sabendo-se cidadão de segunda classe, desprovido de direitos, integrante de uma minoria ou faminto de reconhecimento de seus valores? E se fosse membro da imprensa, responsável pelo setor de política durante os períodos eleitorais, divulgaria ou não as informações privilegiadas de que dispusesse? E se, desde sempre, integrasse a elite intelectual e fosse afeito a análises econômicas, sociais e políticas, nacionais e internacionais, ousaria estabelecer claramente comparações, limitações e sequelas?

Esquerda x direita 2Que atire a primeira pedra quem se sentir acima das paixões humanas, ora bolas. Acusar uns aos outros pela miopia do passado decididamente não ajuda, a meu ver, a ampliar o campo visual de ninguém para encontrar saídas que pareçam mais sensatas no futuro.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Mosteiro Brasil

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Câmera abre, revelando aos poucos o rico interior da capela de um monastério.
Fumaça de velas e incenso ressaltam o clima místico.
Ao fundo, coral de monges beneditinos entoando suave canto gregoriano matinal.

Interligne 34

Monge auxiliar: Prior, está aí um jornalista querendo lhe falar.

Prior: Faça-o entrar, irmão, e encaminhe-o para meu gabinete.

Jornalista: Bom dia, prior. Vim entrevistá-lo sobre o projeto de abertura do novo mosteiro no Brasil.

Prior: Ah, meu filho, estamos entusiasmados com esse projeto. O prédio está praticamente concluído e já contamos com muitas adesões tanto de patrocinadores quanto de diáconos. Vai ficar uma beleza.

Jornalista: Há detalhes que me intrigam. Ouvi dizer que o mosteiro apenas abrigará leigos recém-convertidos à ordem religiosa. Queria entender o porquê da opção pelo Brasil, justo num período tão crítico de instabilidade política e social, além de aguda crise moral.

Prior: Pois foi exatamente por isso que o escolhemos. Talvez o senhor não saiba, mas os valores cristãos estão renascendo por lá. A providência divina tem operado verdadeiros milagres, principalmente na cúpula política do país. Depois de secular descaso, as virtudes cristãs vicejam novamente, como lírios no pântano.

Monastere 2Jornalista: Como assim? Pode explicar melhor?

Prior: Claro, meu filho. Antes, explico que dar hospedagem a peregrinos e viajantes é princípio basilar de nossa congregação. Serão sempre bem-vindos todos os que demonstrarem continência, obediência, capacidade de servir a Deus pela oração e pelo trabalho em prol da comunidade. “Ora et labora” é nosso lema.

Jornalista: Mas, prior, não há também certos requisitos morais para que leigos atuem como diáconos e possam ser acolhidos no mosteiro?

Prior: Sem dúvida. Nossa tradição exige que sejam homens respeitáveis e de palavra, não inclinados ao vinho nem à ganância sórdida e que guardem o mistério da fé com a consciência limpa.

Jornalista: E o senhor conseguiu encontrar candidatos com esse perfil?

Prior: Surpreendentemente, sim. A primeira pessoa que nos procurou rogando esquecimento de seus desvios do caminho do Senhor e proclamando o desejo de voltar a servir à comunidade foi justamente um dos governantes máximos daquele país. Tivemos uma longa conversa. Ele estava deveras machucado, a alma sangrando por causa da dura perseguição que sofreu. Disse-me que, apesar de tantas e tamanhas injustiças, sentia-se de alma limpa para recomeçar. Alegou mesmo que se considerava a alma mais pura do planeta. Fiquei profundamente comovido com tal capacidade de superação.

Jornalista: E o senhor acreditou nele? Não lhe pareceu exagero retórico?

Moine 1Prior: Acreditei, meu filho. Examinei friamente cada uma das graves acusações que lhe fazem e pedi provas de sua inocência. A minhas perguntas, respondeu sempre com humildade e contrição. Convenci-me de que foi vítima da própria ingenuidade. Veja bem, ele estava comprometido com a missão de tirar milhões da miséria e se descuidou da honorabilidade de seus auxiliares diretos. Ninguém fez mais pelos pobres do país do que ele. Botou comida na mesa dos humildes, ajudou a dar casa e até passagem de avião para visitarem a família. Além disso, colocou-se à nossa disposição para atrair novos investidores para o mosteiro, já que tem grande experiência administrativa e realiza frequentes palestras internacionais.

Jornalista: Mas… E quanto às acusações de que teria recebido privilégios de empresários que tinham contrato com o governo?

Prior: Mais uma acusação que não se sustenta. Sua atuação benemérita junto à classe operária gerou muita gratidão. Tudo o que recebeu de volta dos muitos amigos que fez foram pequenos mimos, como hospedagem gratuita na cidade, no campo ou na praia.

Jornalista: Além dele, o senhor acolheu também como futuros diáconos do Mosteiro Brasil a sucessora desse governante, um senador que foi líder do governo e um ministro de Estado, não é mesmo?

Prior: Perfeitamente. Todos eles imbuídos da mesma boa-fé e da vontade de servir ao próximo, sem reservas. Todos vítimas de incompreensão por terem mexido com os privilégios seculares das elites. A primeira, mesmo tendo multiplicado programas sociais, foi vilipendiada com acusações de incompetência, dificuldade de se expressar, acobertamento de corrupção e interferência nos demais poderes da República. O segundo, só porque, por questões humanitárias, ofereceu ajuda a um empresário encarcerado, foi afastado do cargo e caluniado. O último, vítima de um embaraçoso mal-entendido apenas porque estendeu a mão ao segundo. Meu coração se enche de alegria com esses exemplos. Eles se mostraram capazes de passar por cima dos erros de seus irmãos, numa demonstração de genuína generosidade cristã.

Monastere 1Jornalista: Uma última pergunta. Parece que já há casos de ministros do Judiciário solicitando acolhimento no novo mosteiro. É verdade?

Prior: É verdade, meu filho. Foram acusados de se deixar influenciar por agentes políticos e tomar decisões para favorecê-los. Não nos cabe julgar os insondáveis motivos que levam um ser humano a optar por este ou por aquele caminho, que dirá um juiz. De qualquer forma, ainda aguardamos a decisão final de nossos superiores. Nosso quadro de diáconos deverá estar completo em breve com a chegada de muitos parlamentares brasileiros…

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Perspectivas caninas

Reflexões para um 13 de março

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Manif 4Como sabem todos que me são próximos, a convivência com minhas cachorras ensinou-me muitas coisas. A lição mais comovente e mobilizadora que aprendi com elas foi a surpreendente capacidade de distinguir e reagir à qualidade da energia de quem as cerca. Meu coração se enche de esperança de que um dia nós, humanos, estejamos igualmente habilitados a nos valermos dessa estratégia de formação de vínculos.

Explico melhor aonde quero chegar: nossos pets são, sabidamente, capazes de perceber e responder de pronto ao que os espiritualistas chamam de “energias sutis” de seus donos. Se o dono está triste, o animal vai se deitar a seus pés e permanecer imóvel e em silêncio por muitas horas. Se o dono está alegre, ele vai procurar todos os estímulos à volta para propor brincadeiras e passatempos agradáveis. Se o dono está nervoso ou irritado, é muito provável que o animal se agite também e lata sem parar, reproduzindo em escala animal o grau de tensão que sente no ar. Se o dono está combalido, deprimido ou se sentindo impotente, o mais provável é que o animal busque máxima proximidade corpórea e durma com a cabeça apoiada sobre o peito ou joelhos de seu dono, dando e recebendo o calor do contato.

Manif 13Hoje o dia pareceu-me ter amanhecido com um misto intrigante de céu de brigadeiro e nuvens carregadas indicativas de que uma chuva benfazeja estava sendo gestada. Sem saber como reagir às nuances climáticas deste dia histórico e apostar se este seria um dia de celebração geral ou de conflagração generalizada, resolvi consultar minhas cachorras para descobrir como o mundo animal está enxergando as perspectivas que se descortinam para nosso país.

Molly, minha cachorra mais velha e filósofa por natureza, aprumou-se, cruzou as patas dianteiras como uma verdadeira “lady” e deu início às suas considerações. Como de hábito, suas palavras vinham embaladas por sua profunda veia poética:

Crédito: Yogi.centerblog.net

Crédito: Yogi.centerblog.net

“Nós, os cães, não conhecemos passado e futuro. Vivemos apenas o momento presente, com tudo o que ele carrega consigo em termos de possibilidades em botão. O que para vocês soa como limitação, para nós é música libertadora. Graças a essas diferentes condições, talvez seja mais difícil para vocês enxergar o rumo a ser tomado a cada dia se se deixarem contaminar pelos ressentimentos do passado e pela ansiedade de fazer o novo acontecer. O único conselho que posso lhe dar é: não se deixe impressionar em demasia por palavras e números. Eles são importantes, sim, mas podem ser enganadores, na própria medida em que distraem das mensagens que seu coração dita. É preciso prestar atenção também à direção dos ventos, aos odores que impregnam o ar, às cores e sons da natureza, assim como ao brilho e às sombras nos olhos dos que estão à sua volta. Depois, é necessário indagar-se por quais motivos você faz – ou não – parte desse panorama. Você bem sabe que é preciso coragem para não submergir sob a força esmagadora das crenças da maioria, bem como para engolir a dor terrível de se saber minoria. Por tudo o que você já me disse, está claro que o principal trunfo do Brasil é sua enorme diversidade étnica, racial, geográfica, econômica, religiosa e política. Se, historicamente, nada disso foi capaz de abalar a união da nação, me parece que há pouco a temer doravante. Lembre-se que as divergências humanas funcionam como um fermento, tanto para inspirar o crescimento do diálogo e da tolerância quanto para iluminar os meandros escuros das próprias convicções. A convergência, por outro lado, só pode ser entendida pontualmente. Insistir na busca de unanimidade de pontos de vista, na luta pelo triunfo do pensamento único, é indicativo de miopia e alienação”.

Respirei fundo quando Molly parou de falar, na tentativa de absorver ao menos parcialmente tantas questões. Voltei-me, então para a Aisha, minha cachorra mais nova e espevitada, que a tudo assistia parecendo um tanto amuada. Quando a incentivei a manifestar suas impressões, aproximou-se de mim com delicadeza, abanando o rabo e, de cabeça baixa, num quase resmungo, começou a falar:

Cachorro 7“Você quase nunca pergunta minha opinião quando o assunto é sério. Me incomoda um pouco que você só dê ouvidos à voz da Molly, por ela ser mais formal e contida. Eu posso parecer alienada e fútil, mas também tenho muita coisa a dizer. Por outro lado, alegra-me o fato de você não colocar sobre minhas costas o peso das reflexões compulsórias. A seriedade para encarar o mundo pode ser necessária às vezes, mas a leveza e o bom humor também são indispensáveis. Eu não gosto de fazer de conta que sou educada, culta e comportada só para inglês ver. Para mim, a vida tem de ser vivida com alegria. Você sabe que o que torna meus dias felizes é saracotear por aí, encontrar pessoas – principalmente as crianças que têm uma energia parecida com a minha – e brincar com outros cachorros. Não me sobra muito tempo para filosofias de botequim. O bom da vida é poder dançar conforme a música. Se pudesse, eu voaria junto com as borboletas e os passarinhos e me juntaria aos golfinhos e às baleias para viajar para longe, conhecer outros mundos. Quando não há mais ninguém por perto, eu me viro para me entreter sozinha com outras coisas. Não é lá muito agradável, mas dá para passar o tempo. Agora, o que dá sentido mesmo para minha vida é poder brincar junto. Se lhe vale de alguma coisa meu conselho, levante-se, vá para a rua e faça o máximo de barulho que puder junto com todo mundo que lá está. Se não adiantar, pelo menos você vai voltar para casa cansada e vai poder dormir o sono dos anjos”.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

S.M.J.

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Era assim que um antigo colega de trabalho colocava o ponto final em todos os seus comunicados, fossem eles dirigidos a seus subordinados, pares ou superiores. Mineiro das antigas, pernóstico, de fala empolada e escrita mais ainda, ele fazia questão de evidenciar seus conhecimentos jurídicos, apesar de não trabalhar na área. Talvez quisesse também ressaltar sua humildade e liberalidade no trato com os demais.

SMJ 5Muita gente que recebia seus escritos ficava se perguntando que raios significavam aquelas três letrinhas. Não querendo passar recibo da própria ignorância, faziam de conta que aquilo era apenas mais uma de suas esquisitices e calavam-se. Até que um dia um subordinado recém-contratado resolveu perguntar a um colega qual era o significado de S.M.J. Tentando evitar o constrangimento de admitir que não sabia, o colega riu e acrescentou, aprofundando o mistério: “Isso é coisa dele”. A resposta só fez aumentar a curiosidade do rapaz e logo a investigação dos reais motivos da inserção daquelas três letras espalhou-se pelo departamento todo como um rastilho de pólvora.

SMJ 1aReunidos na hora do almoço ou em torno do café, os funcionários daquela figura exótica se revezavam sugerindo possíveis interpretações, a maioria das quais era prontamente descartada. O importante, alegavam eles, era encontrar um significado que não pudesse ser facilmente desmentido, nem mesmo pelo próprio. Foi quando um dos participantes daquelas divertidas reuniões lembrou de certas características físicas do chefe que, se aliadas à sua postura formal, jogavam alguma luz para a solução do quebra-cabeça: o queixo alongado, a boca grande com dentes pontiagudos, a pele enrugada, os olhos saltados e o hábito de dormitar várias vezes por dia. Foi o que bastou. O mistério estava resolvido: daquele dia em diante, assumiu-se oficialmente que as três letras significavam literalmente “Sua Majestade, o Jacaré”.

SMJ 4Ontem, ao assistir ao pronunciamento de nossa estimada mandatária-mor, durante o qual, sem pestanejar e sem corar, ela afirmou que “a oposição não pode sistematicamente dividir o país”, lembrei-me da estória acima e concluí um tanto a contragosto que, numa democracia, cada um pode adotar a óptica que quiser para interpretar os fatos. Faz parte do psiquismo humano o desejo de nos isentarmos de responsabilidade por eventuais atuações catastróficas e projetar em terceiros ‒ ou em certas circunstâncias da realidade externa – a culpa pelo mau jeito.

Em psicologia, isso tem até nome próprio: egodistonia. Em palavras comuns do cotidiano, significa apenas que não reconhecemos como nossas características psicológicas que são condenadas socialmente ou que nos envergonham diante do tribunal de nossa consciência.

SMJ 2Outra lição básica e tradicional da psicologia diz respeito à necessidade de recorrer frequentemente a autoelogios. Nos manuais da profissão, esse impulso é sempre associado ao traço de baixa autoestima. Quando sentimos que não recebemos o reconhecimento devido por aquilo que julgamos mérito e, do lado de dentro, não encontramos nada para amenizar a dor da rejeição alheia, adiantamo-nos aos fatos e proclamamos nossa superioridade moral, intelectual ou sensitiva. Infelizmente para a pessoa que utiliza a estratégia, o resultado quase sempre é o de reforçar a resistência de terceiros e, indiretamente, aprofundar ainda mais a sensação de desvalia e isolamento. Isso é evidenciado até mesmo no ditado popular que diz que “elogio em boca própria é vitupério”.

SMJ 3É muito provável que você seja capaz de identificar em seu círculo mais próximo de relações pessoas que parecem ter o poder de desequilibrar emocionalmente todos à sua volta. Embora, à primeira vista, pareçam ser gentis e afáveis, esse tipo de personagem revela rapidamente sua alma tosca e cínica tão logo algum julgamento mais crítico seja lançado contra ele. Com voz calma e pausada, respiração tranquila, meio sorriso estampado nos lábios, eles contra-atacam com pesado sarcasmo a qualquer acusação, o que, com o passar dos minutos, acaba provocando total descontrole emocional e agressividade crescente em quem está diante deles.

Quando isso acontece, essas criaturas perpetram sua façanha final: você é quem passa a receber olhares de desaprovação e a enfrentar o ônus de ser considerado histérico, desequilibrado, descompensado, desqualificado para a convivência harmônica com desiguais. Uma tática infalível em qualquer circunstância.

SMJ 6Já passei por esse tipo de situação e sei o quanto dói. Escapar da armadilha requer a perseverança de um verdadeiro Hércules. Por isso, engolindo em seco e me esforçando para me posicionar acima dos humores da galera, preciso fazer um comunicado: sinto que está sendo gestada uma tentativa de golpe contra as instituições democráticas de nosso país. É, é isso mesmo que você leu. Sem querer relativizar o impacto de minha afirmação, digo “tentativa” porque não acredito que nenhum golpe venha a ser concretizado de fato. De qualquer forma, creio que muito sangue, suor e lágrimas ainda vão rolar sob o céu azul anil de nossa pátria. Confrontos violentos me parecem inevitáveis, ainda que me pareçam um preço justo a pagar pela verdade que liberta.

O que virá depois? Talvez, provavelmente, a simples constatação de que “o inferno são os outros”. Salvo Melhor Juízo.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Meu anjo

Anjo 1Myrthes Suplicy Vieira (*)

Conto sempre para as pessoas mais próximas – para as desconhecidas, não, porque não quero passar por louca – que sinto uma forte presença espiritual ao meu lado sempre que tenho de escrever. Na minha cabeça, trata-se de uma figura masculina poderosa, mas cheia de compaixão. Eu o chamo de “meu anjo”.

Não, ele não é um anjo da guarda comum, desses que se esfalfam por aí para salvar seus protegidos de atropelamentos, quedas, incêndios, bala perdida, etc. Ao contrário, ele já me colocou várias vezes no olho de furacões e em muitas saias justas. Não faz isso por maldade, já que é um ser do bem, mas porque gosta de me desafiar. Fica em pé às minhas costas, impávido e solene, esperando para ver se eu consigo contornar sozinha os obstáculos que enfrento no dia a dia e, quando jogo a toalha, entra em ação me acalmando, como se me dissesse “respira fundo e aprende como se faz”.

Anjo 5Ele atua na minha vida como consultor e conselheiro para assuntos linguísticos. Pode ser de ajuda num número incontável de situações, já que é articulado, culto, sábio, poliglota, versátil, dono de saber enciclopédico e está sempre de bom humor.

Ele não fala comigo. Apenas cochicha no meu ouvido as palavras que procuro em desespero quando tenho de redigir algum texto. Sugere termos coloquiais em outros idiomas quando estou às voltas com minhas traduções e quero impressionar. Alerta para as consequências negativas dos meus exageros, mas também me incita a não ter medo de optar por expressões provocativas. Já chegou a me soprar frases inteiras. Muitas vezes o ritmo de seus ditados é tão intenso que eu me sinto mergulhada numa atmosfera de psicografia – ou, melhor dizendo, de “psicodigitação”. Meu único trabalho é tentar copiar com a máxima rapidez possível as palavras que fluem como se estivéssemos conversando.

Anjo 2Não erra nunca. Certa vez, eu estava à beira de um ataque de nervos tentando passar para o inglês um texto muito complexo, fora da minha área de especialidade. Ele então cochichou no meu ouvido uma palavra que eu desconhecia. Aflita e sem tempo para conferir, digitei a palavra e concluí o trabalho. Mais tarde, ao revisar o texto, fui procurar no dicionário a palavra para ter certeza de que ela se encaixava bem na frase. Um arrepio frio percorreu minha coluna de alto a baixo quando constatei que era a palavra precisa, a mais adequada para transmitir com elegância a mensagem que eu queria.

Outra de suas especialidades é inspirar ideias e projetos sempre que minha criatividade está em baixa. Quando meu cérebro se agita para encontrar saídas para situações difíceis com que me deparo, uma lampadazinha se acende magicamente na minha cabeça. Corro para o computador e começo a digitar febrilmente uma série de lembretes – a respeito de autores, livros, conexões com outros temas, etc. – para investigar mais tarde, com calma. Depois, basta acionar um mecanismo de busca qualquer na rede mundial de computadores para encontrar as referências de que preciso ou investigar nos dicionários possíveis significados das palavras que elenquei ou as ilações que precisam ser mais bem compreendidas.

Anjo 4É nesses instantes que meu anjo entra na área de sua máxima ‘expertise’. Coloca no meu caminho uma série de pistas, assim como quem não quer nada. As pistas podem vir sob forma de uma conversa casual com um vizinho ou amigo, uma experiência na natureza, um comportamento inesperado de minhas cachorras, um livro que surge inesperadamente na minha frente, ou até uma reportagem na televisão.

Foi o que aconteceu ontem. Eu tinha ido dormir com uma sensação de impotência e incredulidade frente aos acontecimentos trágicos do dia. Acordei, porém, maravilhada e embalada por um discurso para lá de otimista de meu anjo. Suas palavras eram tão sábias e doces que me pareciam estrofes de um poema. Falava de esperança, incentivava a procurar novos ângulos de visão para atacar velhos problemas, instilava fé na capacidade de adaptação e superação que é típica do humano. Aconselhava a ir além das aparências e descobrir os sentimentos que estão por trás da realidade violenta de nossos dias.

Anjo 3A mensagem que julguei ter recebido e que me encheu de alegria foi, em resumo, a de que é chegado, enfim, o tempo da delicadeza. As reações exacerbadas de tudo e de todos à nossa volta nada mais são do que meros indicativos de que um ciclo se finda. Já não há mais espaço para dicotomias nem para o maniqueísmo. De agora em diante, seremos todos convidados a nos posicionar ao longo de um contínuo que vai do branco ao negro, do masculino ao feminino, da razão à emoção, da certeza à dúvida. Novas nuances de significados se abrirão diante de nossos olhos atônitos. Bem e mal se misturam e se diluem num oceano de possibilidades de aconchego e de tolerância.

Eu, que sempre fui tão catastrofista, mesmo a contragosto me deixo levar por essa delicada cantiga de despertar. Extasiada, ainda sentindo a onda de esperança evolucionária bater forte no meu peito, só consigo torcer para que outros anjos, ao passar por perto, a ouçam também e digam amém.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

A brasilidade em tempos de folia

Myrthes Suplicy Vieira (*)

O que define a brasilidade aos olhos de um estrangeiro?

Futebol 3Eu diria que, se fossemos investigar há algumas décadas como outros povos conceituam nossa cidadania, três fatores seriam elencados em uníssono: futebol/Pelé, café e samba. O tempo passou, muita coisa mudou sob nosso céu de anil e outras percepções foram sendo agregadas para ajudar a formar um painel ilustrativo de nosso país varonil: exotismo tropical (sol, calor, belas paisagens de praia, campo e florestas), povo amistoso, alegre, tolerante e musical, belas mulheres desinibidas e semidesnudas, etc.

Décadas mais tarde, nuvens de chumbo passaram a cobrir os céus deste paraíso tropical e o quadro geral ganhou contornos tenebrosos para além de nossas fronteiras: o lar da corrupção, o campeão no ranking da insegurança pública, o berço das mais diversas endemias e epidemias, o abrigo de malfeitores internacionais, anão diplomático, o lugar no qual a elite é perversa e o povo é domado. Constrangedor, não é? Mas, tudo bem, deixa estar. Afinal, minha gente, é Carnaval! Vamos para a rua festejar!

by Fabio Teixeira, desenhista carioca

by Fabio Teixeira, desenhista carioca

Para os que não sabem o que isso significa no contexto do imaginário nacional, eu explico: antes de mais nada, Carnaval é o espaço da fantasia, da utopia e da autoafirmação nacional. Durante quatro dias, a pirâmide social se achata, papéis sexuais são invertidos, o machismo é suspenso temporariamente, a hipocrisia social desmancha-se no calor dos corpos em êxtase. O país todo se detém mesmerizado para assistir à deslumbrante parada de luzes e sons. Economia e política perdem totalmente seus significados. Não há “sofrência” amorosa que se sustente, não há negativismo capaz de toldar a alegria geral, não há preocupação com o futuro capaz de desbotar as cores da festa. Tudo o que se quer é que o mundo inteiro caia de joelhos diante de nossa criatividade, nossa genialidade, nossa capacidade de superação. Vira-latas são mais belos, mais resistentes, mais amorosos e mais simpáticos do que outras raças, bradamos a plenos pulmões.

Entender um brasileiro que não goste de Carnaval, que não se sinta tentado a jogar tudo para o alto e cair de boca na folia, é coisa que gringo nenhum consegue fazer. Cá para nós, também não há brasileiro que não pense que seus compatriotas avessos ao samba são ruins da cabeça ou doente dos pés. Pois bem, feliz ou infelizmente, esse é o meu caso.

Café 5Trancafiada em casa, tento fazer de conta que o mundo é normal lá fora. Ligo a televisão, ansiosa para mergulhar de cabeça em outra dimensão que exale um pouco de racionalidade, sensatez e compostura. Ledo engano! A mercadoria que você procura não está disponível no momento, alertam todas as emissoras, inclusive os assim chamados canais educativos. Talvez seja essa a época em que o pensamento único seja mais glorificado e incensado.

Nem mesmo os telejornais escapam do delírio geral. Encurtados para não atrapalhar a cobertura dos desfiles nas principais capitais, eles passam atabalhoadamente de um tema para outro, sem aprofundar nenhum. Terremoto atingiu cidade no interior de Mato Grosso? Ai, que hora mais ingrata para acontecer isso! Dilma se suicidou para evitar a cassação? Nossa, não esperava por isso, mas prometo que na Quarta-feira de Cinzas vou entrar na internet para ver os detalhes do velório e as discussões sobre quem vai ser o sucessor. O Lula assumiu que se lambuzou todo com o melaço que nunca havia comido antes e entrou para um convento franciscano, doando todos os seus bens para a caridade? Poxa, se ele tivesse feito isso antes eu ainda votaria nele! O Papa Francisco assumiu que é gay e decretou que, de agora em diante, só haverá mulheres à testa da igreja? Que bom, eu sempre achei esse cara sensacional, mesmo ele sendo argentino. O dólar foi cotado a 8 reais e a CPMF foi aprovada? Isso não me abala em nada, eu já tinha cancelado mesmo minha viagem para Miami.

Samba 3Nada ganha destaque, nada consegue prender a atenção do telespectador por mais de dois minutos. Uma vez transpostos os temas chatos do cotidiano, a mídia toda abre enormes espaços para o deslumbramento da rainha de bateria, para o escândalo causado por uma socialite que tirou toda a roupa em plena avenida, para a descontração dos blocos de rua. E dá-lhe festa.

Quem não se deu ao trabalho de assistir aos desfiles, não precisa se preocupar. Basta acessar a Internet para ver um resumo dos melhores momentos de cada escola, as fotos mais constrangedoras, as chamadas mais empolgantes do que ainda está por vir. Nas redes sociais, bem ao lado das fotos da participação doméstica na folia, comentários irados de quem dela não fez parte: Já imaginou uma multidão dessas saindo às ruas para protestar? Por que as mulheres aceitam fazer esse papel? Depois se queixam da violência…

Carnaval 1Quer um conselho? Não tente entender nem explicar nada, nem para os moralistas de plantão nem para os estrangeiros atônitos. Somos secularmente o país da improvisação. Depois damos um jeito de colocar a casa em ordem de novo.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Ética e utilidade pública

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Mesmo sem ter sido chamada, quero meter o bedelho nessa disputa entre o veterinário que resolveu dar plantões gratuitos para atender a população carente e os Conselhos de Medicina Veterinária ‒ Regional e Federal.

Sinto-me qualificada para dar alguns pitacos nessa questão, uma vez que desfruto de longa experiência de convívio com cães e veterinários de todos os tipos. Já enfrentei muitos conflitos com profissionais míopes e mesquinhos. Já disse com todas as letras a vários que a medicina veterinária herdou muito pouco dos méritos da medicina humana e todos os seus defeitos. Nas duas áreas de especialização, não é nada incomum encontrar aquilo que chamo de “mecânicos de corpos”, que se limitam a tentar consertar sintomas de mau funcionamento orgânico pedindo uma lista infindável de exames desnecessários, caros e, por vezes, dolorosos.

Cachorro 26Alguns exemplos ilustrativos do que quero dizer. Certa vez precisei localizar um veterinário que se dispusesse a adotar um tratamento alternativo para combater a leucemia de minha cachorra, que consistia em combinar a quimioterapia convencional com um medicamento antroposófico. Uma das médicas que consultei recusou-se terminantemente a atender o caso, alegando que, caso o tratamento desse certo, eu iria dizer que o mérito era da medicina alternativa e, se desse errado, eu culparia a quimioterapia e ela. Ponto para a insensibilidade.

De outra vez, uma amiga próxima viu um cachorro passando mal bem em frente a um consultório veterinário vizinho e foi correndo até lá solicitar atendimento de urgência. O profissional em questão sequer se deu ao trabalho de olhar para o pobre infeliz. Dirigindo-se à mulher aflita, disse calmamente que só o atenderia se ela se dispusesse a pagar pelo tratamento, já que se tratava de um animal de rua. Placar até aqui: insensibilidade 2 x profissionalismo 0.

O jogo não termina aí, felizmente. Posso dar testemunho do espírito de grandeza, nobreza de alma, solidariedade e compaixão de vários outros médicos veterinários. Já passei por situações comoventes em que esses profissionais largaram tudo o que estavam fazendo para atender a uma emergência com meus animais, abriram suas agendas gentilmente para encaixar uma consulta ou gastaram um bom tempo ao telefone respondendo a meus temores, dúvidas ou, ainda, discutindo opções de tratamento que eu poderia utilizar por conta própria – sem cobrar a mais por isso e, algumas vezes, aceitando que eu pagasse dias mais tarde ou parcelando o pagamento.

Cachorro 27Voltando ao caso em questão, acho que, dessa disputa, há no mínimo um efeito colateral positivo a comemorar: ficamos sabendo todos que o Conselho de Medicina Veterinária existe e nos enfronhamos com alguns detalhes do código de ética dos profissionais da área. Somente o fato de esse conselho de classe ter despertado de seu sono secular e ter vindo a público dizer o que pensa dos desafios da realidade brasileira já é um superavanço. Quem duvidar pode acessar o site do emérito Conselho paulista e tentar encontrar nele algum espaço para fazer contato, registrar uma reclamação ou esclarecer uma dúvida. Quem encontrar qualquer forma de transpor o muro da solene indiferença com que a população é tratada concorre a um saco de ração premium de 15 quilos!

Algumas perguntas não querem calar na minha cabeça. Onde estão os fiscais do Conselho para verificar as condições higiênicas e o tipo de ingredientes usados por muitos fabricantes de ração para cães e gatos e para afiançar que as promessas contidas nas embalagens e nos anúncios publicitários correspondem à verdade? Onde estão os auditores do Conselho para monitorar os preços escorchantes praticados pelos fabricantes de medicamentos veterinários, produtos de higiene e limpeza especializados, petiscos e acessórios e determinar se a relação custo-benefício é realmente satisfatória? Por que o conselho não se incomoda com a prática quase universal de misturar a administração de clínicas veterinárias com a de pet shops?

Cachorro 29A reação do presidente do Conselho paulista, ao reafirmar que não se pode considerar como de utilidade pública o atendimento gratuito se o profissional não estiver vinculado a uma ONG ou instituição de benemerência e ameaçar punir o “infrator”, lembrou-me a que teve um arcebispo da Igreja Católica em um caso famoso ocorrido no nordeste do Brasil há alguns anos. Uma menina de apenas 10 anos, estuprada pelo próprio padastro, havia engravidado. Aflita, a mãe da garota procurou um ginecologista para se aconselhar. O médico garantiu à mulher que a gestação era de alto risco, já que o corpo esquálido da menina não conseguiria sustentar o feto até o final da gravidez. Concordaram ambos que o melhor caminho a ser seguido seria um aborto. A mãe, penalizada e indignada, autorizou a cirurgia. Quando o sacerdote soube do acontecido, resolveu excomungar de uma só penada a mãe, a menina e o médico. Ao ser interpelado sobre a razão de haver excluído o agressor da pena de excomunhão, candidamente alegou que o crime por ele cometido era de menor gravidade, já que não atentava contra a vida.

Na minha santa ingenuidade, eu acreditava que os ministros da Igreja Católica eram escolhidos para defender a alma de seus fiéis e não seus corpos. Como convencer, então, uma autoridade eclesiástica de que o que havia ocorrido era, na verdade, o assassinato de uma alma infantil? Fiquei tão indignada naquela ocasião quanto estou agora. Da mesma forma, eu ingenuamente acreditava que a missão do Conselho era defender o bem-estar animal e não proteger humanos acomodados de eventual “concorrência desleal”. Será que o código de ética da categoria não contempla nem penas por omissão de socorro, como acontece com médicos de gente? Recorri até ao dicionário para tentar entender os meandros semânticos da expressão “utilidade pública” e constatei, horrorizada, que é de fato preciso que o governo reconheça o caráter benemérito de uma instituição (não pessoa) para conceder a ela algumas regalias.

Cachorro 28Pensando bem, faz sentido, ao menos no que tange à lógica humana e à lógica comercial. Nossas leis também não são feitas para premiar os justos e os de bom coração, mas sim para impedir o avanço dos oportunistas e malfeitores. O que é de estranhar ‒ e lamentar amargamente ‒ é que os dignos representantes do Conselho de Medicina Veterinária não tenham aprendido nada com seus clientes e pacientes. Se um dia eles não tiverem nada mais importante para fazer, aconselho que assistam a milhares de vídeos que circulam todos os dias na internet a respeito de ética animal.

Auxiliar semelhantes – sejam eles da mesma espécie ou não – em situação de fragilidade ou de perigo iminente, mesmo que para isso seja preciso oferecer a própria vida, é cláusula pétrea de toda Constituição animal.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Os problemas da esquerdização mental

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Demorou, mas tive um súbito insight a respeito do que anda acontecendo de errado com o mundo. Não, não estou me referindo a doutrinas políticas de esquerda, como o comunismo e o socialismo. Acredito apenas ter encontrado um fator importante em nossa forma de pensar o mundo capaz de explicar os muitos desarranjos que a humanidade vem sofrendo ao longo das últimas décadas.

by Marie-Joseph Orgiazzi (1945-1998), artista francesa

by Marie-Joseph Orgiazzi (1945-1998), artista francesa

O tema tem ocupado minha mente há muito tempo. Por que, me perguntava eu, a civilização humana – no sentido de cultura e harmonia social – parece estar definhando e involuindo? Se a ciência progride a olhos vistos, apresentando a cada dia novas respostas para problemas que atormentam a sociedade desde priscas eras, por que o grau de alienação e solidão das pessoas parece só crescer? Se a tecnologia desenvolve a cada dia novos ‘gadgets’ que facilitam o cotidiano como nunca havíamos sonhado ser possível, por que eles vêm sendo usados primordialmente para encapsular as pessoas em mundinhos cada vez mais particulares, ao invés de reforçar e ampliar nossos laços afetivos? Por que a violência, a intolerância e o desejo de extermínio dos diferentes ocupam as manchetes dos jornais diariamente, enquanto a solidariedade, a compaixão e a generosidade só fazem perder cada vez mais valor de mercado?

A pista que me faltava veio através de uma frase do poeta Ferreira Gullar: “Só existe generosidade onde há utopia”. O raciocínio pode ser complicado e longo, mas me serviu de ponto de partida crucial para elaborar minha tese. Para explicá-la, preciso recorrer à teoria dos dois cérebros, uma teoria desenvolvida pelo cientista americano e ganhador do Prêmio Nobel de medicina de 1981, Roger W. Sperry. Para os que ainda não a conhecem, descrevo em mais detalhes algumas de suas implicações.

by Marie-Joseph Orgiazzi (1945-1998), artista francesa

by Marie-Joseph Orgiazzi (1945-1998), artista francesa

Segundo os estudos de Sperry, o hemisfério cerebral esquerdo seria aquele que processa de forma linear, analítica, lógica e racional as informações, enquanto o hemisfério direito estaria envolvido nos processos de síntese, intuição e no manejo de sensações, sendo capaz de apreender a realidade de forma global e instantânea.

Em função dessas características, vários mitos foram criados e disseminados ao longo do tempo em torno da teoria. Um exemplo marcante: o hemisfério esquerdo passou a ser descrito como ‘cérebro masculino’ ou ‘cérebro matemático’, já que é nele que ocorre o processamento de palavras e números. O hemisfério direito, por sua vez, passou a ser associado com o universo feminino, uma vez que a matéria-prima com que opera seriam as imagens, as metáforas e a estética.

by Marie-Joseph Orgiazzi (1945-1998), artista francesa

by Marie-Joseph Orgiazzi (1945-1998), artista francesa

A teoria sofreu uma série infindável de revisões e contestações desde que veio a público. Os conceitos de especialização e lateralização das funções mentais eram incômodos demais quando se tratava de explicar de que maneira os dois hemisférios se articulam para atuar de forma coesa no cotidiano de uma pessoa normal. Afinal, confabulavam seus opositores, ninguém pensa com metade de seu cérebro apenas.

Estudos de ressonância realizados posteriormente mostraram ser possível identificar áreas que são ativadas nos dois lobos cerebrais mesmo quando a operação mental é, em princípio, atributo especializado de apenas um deles ‒ como o processamento da fala, por exemplo.

Outra série de pesquisas buscava identificar e explorar eventuais diferenças na forma como destros e canhotos ativam circuitos neuronais para realizar uma mesma operação, considerando que o lado esquerdo do cérebro controla o lado direito do corpo e vice-versa. Essas pesquisas foram fundamentais para destruir vários dos mitos criados em torno da teoria ao determinarem que os hemisférios não atuam de forma autônoma. Razão e emoção caminham de mãos dadas na espécie humana, para o bem e para o mal. Equilíbrio, como sempre ensinaram os orientais, é o único caminho.

by Marie-Joseph Orgiazzi (1945-1998), artista francesa

by Marie-Joseph Orgiazzi (1945-1998), artista francesa

Mesmo assim, voltando à minha tese, senti o impulso de elencar mudanças de paradigma ocorridas principalmente no sistema educacional e no campo científico ao longo do último século que poderiam ter a ver com o uso mais intensivo do cérebro esquerdo. Só para facilitar a compreensão de onde quero chegar, listo alguns exemplos que me ocorreram:

Interligne vertical 16 3Kf• Da valorização e do ensino prioritário da filosofia e das assim chamadas “humanidades” (ciências sociais, qualitativas), avançamos progressivamente para o culto das ciências quantitativas como base mais eficaz para explicar o comportamento humano. Esquizofrenia, depressão, câncer, tendência ao alcoolismo e ao abuso de drogas – só para citar algumas das preocupações contemporâneas – deixaram de ser crivados pela ótica das ciências humanas e sua causa passou a ser buscada em locais específicos dos genes. Escolas passaram a enfocar a transmissão de conteúdos técnicos especializados, deixando em segundo plano a proposição de atividades artísticas (como música, dança, pintura, trabalhos manuais, teatro, etc.);

• Junto com o novo paradigma das ciências exatas, assistimos extasiados ao florescimento e multiplicação explosiva de novas tecnologias. Inteligência artificial transformou-se aos poucos em sonho de consumo universal. Celulares, computadores e robôs passaram a ocupar uma posição central em nosso cotidiano e, com a criação das redes sociais, muitos passaram a delegar a máquinas a tarefa de registrar suas memórias e seus aprendizados, criar e fortalecer suas relações afetivas. As consequências estão à mostra para quem quiser estuda-las;

• No campo político, o final do século XX decretou o fim das ideologias. O pragmatismo político passou a comer pelas beiradas o desejo de construção de um mundo mais igualitário. O sonho da primavera árabe nunca evoluiu para sonhos de verão. Movimentos terroristas ganharam corpo e fôlego e os danos por eles causados são contados com horror apenas numericamente, sem que políticas de inclusão tenham sido desenvolvidas. Crise de refugiados convive com crise de representatividade dos governantes em todo o mundo. Movimentos de resistência civil crescem e minguam praticamente de acordo com as fases da lua;

• No campo religioso, o pragmatismo também mostrou ser capaz de substituir progressivamente o desejo de transcendência. Mais importante é verbalizar o amor a Deus do que praticar a comunhão entre os homens. Mais decisiva a ideia de garantir a sobrevivência neste plano do que lutar para alcançar a vida eterna.

Em tempo, uma piada circula pela internet: diferentemente do que acontece com outros hinos nacionais que enfatizam a fidelidade canina à pátria, o nosso começa com um descomprometido “ouviram…” como se não tivéssemos nada com isso.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

O astral ataca de novo

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Minha relação com o plano astral nem sempre é das mais cordiais. Às vezes percebo um sinal de que ele está tentando entrar em contato e me enviar uma mensagem, mas, por diversas razões, prefiro ignorar. É em momentos como esse que ele mostra sua força e cria situações que me forçam a parar o que estiver fazendo e prestar atenção, mesmo a contragosto, ao que ele tem a dizer.

Falta de tempo, medo ou simples voluntarismo da minha parte são os motivos mais frequentes. Especialmente quando tenho uma premonição e não quero que os fatos aziagos se concretizem, costumo espantá-la de minha cabeça cantando, lendo um livro ou assistindo televisão. Em vão. As cenas ficam rolando na tela da minha mente até que, cansada, eu decida acender uma vela ou pedir ajuda a alguém mais entendido, na tentativa de esconjurar a desgraça que está por vir.

Astral 1Outras vezes, a mensagem vem cifrada e me falta paciência para tentar decodificá-la. Acontece quase sempre quando tenho de interpretar sonhos estranhos, mas muito vívidos, que me intrigam. Passo dias relembrando detalhes, tentando estabelecer relação com fatos ocorridos ao longo do dia ou ousando interpretações psicanalíticas. Aos poucos, a necessidade de explicação vai perdendo intensidade, a rotina predomina e eu acabo incorporando o fenômeno à minha lista de “percepções a investigar”.

Já me aconteceu, no entanto, tropeçar em pistas aparentemente sem sentido durante o dia. O exemplo mais dolorido que me ocorre nessa categoria é o que descrevo a seguir.

Certa vez, há muitos anos, decidi assistir a uma palestra sobre o tema de vidas passadas. A palestrante era uma psicóloga, o que me tranquilizava parcialmente quanto à possibilidade de estar entrando numa cilada. Cheguei ao local um tanto adiantada. A sala estava totalmente vazia e, por falta do que fazer, comecei a explorar visualmente o lugar. No quadro negro à minha frente havia uma anotação: “Além do Cérebro, S. Grof”. Mesmo sem outras indicações, concluí que se tratava de um livro sugerido e, quase mecanicamente, anotei os dados em meu caderno.

Astral 2As pessoas começaram a chegar, a palestra interessante e divertida transcorreu sem percalços e sem que fosse feita qualquer menção ao tal livro – do qual, aliás, eu já tinha me esquecido. Várias semanas se passaram. Na época eu trabalhava no centro da cidade e, a poucas quadras de distância, havia uma livraria que eu costumava visitar na hora do almoço. Naquele dia, eu me dirigi, como de hábito, à prateleira dos livros de psicologia e psiquiatria.

O vendedor, velho conhecido, me acompanhava para falar dos lançamentos. Como o dia estava muito quente e a conversa se arrastou, ele apoiou a lateral do corpo na prateleira e dobrou o joelho, em sinal de cansaço. Nada em especial chamou minha atenção e, quando eu já me preparava para sair, ele levou o corpo à frente num gesto brusco, a prateleira se desequilibrou e lá do alto caiu um livro exatamente sobre o alto da minha cabeça.

Fiquei tonta por alguns segundos e o vendedor, envergonhado, tentava de todas as formas se desculpar e me consolar. Quando me recompus, disse a ele em tom de brincadeira que eu precisava, no mínimo, ver a capa do livro para descobrir se havia valido a pena ter experimentado todo aquele impacto. Quase tive uma síncope ao ler o título: Além do Cérebro, de Stanislav Grof! Até hoje não sei dizer com precisão qual foi a intenção do astral em me submeter a essa experiência, já que o livro faz referência apenas a imagens mentais associadas à vida intrauterina e a cada fase do parto.

Porto 3Outro exemplo, desta vez mais leve e divertido, aconteceu há poucas semanas. Eu dirigia meu carro distraída, confabulando com meus botões se eu devia ou não insistir na ideia de publicar meu livro. Embora eu me sentisse satisfeita com o conteúdo e com o título que dei a ele, temia ser ridicularizada por meus pares ou pelo público em potencial, dado o caráter inusitado da abordagem que escolhi.

O farol fechou e eu, ainda envolta em divagações, vi a curta distância um rapaz bem vestido indo de carro em carro para pedir dinheiro. Assustada, fechei a janela, tranquei as portas e disse para mim mesma que não daria dinheiro algum a ele, qualquer que fosse o motivo que ele me apresentasse. Quando ele se aproximou, abriu um largo sorriso e, com toda a educação possível, pediu que eu abrisse uma fresta de janela para que pudéssemos conversar. Sem graça, acedi. Ele me olhou bem no fundo dos olhos e disse com voz confiante: «Estou angariando donativos para publicar meu livro. Quero muito que isso aconteça, mas não tenho condições de financiar o projeto. Você gostaria de participar?»

Livro 4Não preciso nem dizer que, envergonhada, abri a carteira e dei o dinheiro que ele pedia. A mensagem do astral era clara demais para ser ignorada. Como retribuição ao meu gesto de boa vontade, ele me estendeu um leque de marcadores de livros e pediu que eu escolhesse um como brinde. Respondi que tanto fazia, qualquer um serviria. Cuidadosamente ele retirou um a esmo e me entregou. Agradeci, o sinal abriu e eu fui embora.

Ao estacionar o carro, vi o marcador sobre o banco e o peguei para guardar na bolsa. Era propaganda de uma editora. Curiosa, consultei os detalhes da obra que estava sendo divulgada. Mais uma vez, o espírito zombeteiro do astral que me rege se fazia valer e funcionava como uma espécie de tapa na minha cara. O título do livro era simplesmente Nada é por acaso.

Interligne 18h

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Fim de ano na Terra Brasilis

Myrthes Suplicy Vieira (*)

É um pesadelo, só pode ser. Meu coração bate mais acelerado do que de costume. Sinto a boca seca, o peito apertado, a musculatura tensa de braços e pernas e o desejo incontrolável de fugir ou me esconder.

O medo de que, na virada do ano, não haja um dia seguinte é meu velho conhecido. Todo fim de ano, a despeito do calor sufocante, sinto o vento gélido do final dos tempos me rondando. É um medo parecido com aquele que os velhos marinheiros portugueses deviam sentir ao se aventurar por mares nunca dantes navegados, temendo despencar no abismo da quadratura da terra.

by Ame Sauvage, artista francesa

by Ame Sauvage, artista francesa

Este ano, porém, há algo de podre no ar que ajuda a reforçar meu habitual desconforto. Em todos os planos da vida nacional, respira-se um ar denso de degradação moral, torpor, constrangimento e profundíssimo cansaço. É como se estivéssemos todos amontoados no fundo do cenário, assistindo impotentes o desenrolar de uma pornochanchada de péssimo gosto. A cada nova performance acrobática, nossos corações e pulmões se comprimem ainda mais na busca desesperada pelo oxigênio da dignidade e da conciliação. A realidade tenebrosa, francamente indecente, estende seus tentáculos e nos enreda a todos num cipoal orgiástico do qual preferiríamos poder nos livrar.

As revelações bombásticas se sucedem e explodem sobre nossa cabeça com a força de tiros de canhão. Eu, que sempre me esforcei para não parecer moralista, sucumbo à indignação geral e exijo em troca da minha delação a cabeça de João Batista. Quando a seguro em minhas mãos, percebo, no entanto, que nem mesmo ela pode me servir de amuleto para esconjurar o fato de que sou natural de Sodoma e Gomorra.

by Ame Sauvage, artista francesa

by Ame Sauvage, artista francesa

Sento-me no sofá da sala para assistir ao noticiário da televisão, com o coração aos pulos, na ânsia de conhecer os detalhes escabrosos do escândalo mais recente. Na tela, juízes de toga, de peito estufado e empertigados em suas cadeiras de espaldar alto, leem com voz monocórdia seus pareceres legais. De repente, talvez como resultado daquele som monótono e do mormaço, começo a alucinar. A tela da tevê funde-se com insólitas imagens mentais. Penetro num labirinto de escatologias.

Diante dos meus olhos atônitos desfilam personagens e cenas grotescas. Juízes, advogados e réus falam todos ao mesmo tempo em salas de tribunal lotadas. Cada um que toma a palavra o faz com pretensa autoridade técnica, escandindo as palavras, brandindo argumentos e alterando o tom de voz em momentos cruciais. Esforço inútil, ninguém ouve, ninguém compreende, ninguém se interessa. Estão todos se preparando para, quando chegar a sua vez de falar, apresentar o arrazoado definitivo, o detalhe técnico que escapou à atenção dos demais, as palavras capazes de gerar máximo impacto.

A seriedade do ambiente não é circunstancial, como se poderia pensar à primeira vista. Há um indisfarçável odor libidinoso no ar. As palavras vão sendo manipuladas ‒ bolinadas mesmo ‒ por cada orador. Depois, vão sendo enfileiradas com afinco num crescendo de tensão para que explodam ao final como fogos de artifício. Mas o orgasmo não acontece, o alívio da tensão não vem, é preciso recomeçar mais uma vez e sempre.

by Ame Sauvage, artista francesa

by Ame Sauvage, artista francesa

Bruxas voam pelos ares sentadas em suas vassouras e gritam com voz esganiçada que o fundo do poço ainda não foi alcançado, que a descarga não virá nem agora nem nunca. As pragas que nos assolam já não são mais as sete bíblicas. Frutificaram, multiplicaram-se e se transformaram em pragas emocionais. Os gafanhotos da concupiscência agora atacam e devastam plantações inteiras de dinheiro e poder. Os sapos da intolerância entoam seus cânticos de acasalamento nos brejos que criamos em nosso seio.

Figuras esdrúxulas, de peito estufado e queixo erguido, revezam-se diante de microfones imaginários e vão elencando, uma a uma, suas transgressões, com a mesma indiferença de quem prepara uma lista de supermercado. Não há misericórdia, não há compaixão, não há arrependimento em seus olhos. Eles estão vazios, baços, sem vida.

Pelas ruas, multidões vagueiam acabrunhadas e sem direção. A aridez inclemente do clima é espelho a refletir os embates de tantas mentes, corpos e almas áridos. A desesperança ressecou tudo, criou couraças, estancou o fluxo de vontades. A tecnologia ainda tenta seduzir com novas respostas para perguntas que já não podem ser formuladas. Clima de deserto na terra e no âmago de cada um.

by Ame Sauvage, artista francesa

by Ame Sauvage, artista francesa

Um profeta coberto de andrajos abre espaço em meio à multidão. De cabeça baixa, ele chora e, em tom acusador, alerta os passantes para o perigo de rompimento de novas barragens emocionais. A lama acumulada no coração das pessoas, diz ele, precisa continuar sendo expelida até que a natureza humana reencontre seu equilíbrio e volte a se purificar.

Saio à rua cambaleante e esbarro com uma mulher grávida sentada na calçada, já em meio às dores do parto. Ela me pede ajuda em pânico. Estendo as mãos para amparar o recém-nascido que desponta e constato que ele tem a cabeça pequena demais. Ligo para o hospital mais próximo e peço uma ambulância. O atendente, com voz indiferente, diz que a única disponível quebrou no mês passado e que não há dinheiro para consertá-la.

Eu ainda tento argumentar que é Natal, que é preciso acolher com todas as honras o deus que renasce, mesmo que defeituoso na origem. Em vão. Olho em volta, desanimada e penso com meus botões: será que ainda vale a pena gestar novos deuses e tentar salvar esta humanidade?

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(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Almas nobres e impolutas

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Discurso 2Esperou que fotógrafos e repórteres se arranjassem à sua volta e ligassem seus equipamentos. Quando todos silenciaram, ele se postou em frente às câmeras, o pescoço levemente curvado para a frente, olhos fixos na lente, o rosto ligeiramente erguido e impassível. Pensou com seus botões: “Estou pronto, nervos sob controle. Eu sabia que meus anos de dedicação ao pôquer me seriam de grande valia num momento como este”.

Com voz firme mas um tanto lacônica, deu a notícia bombástica pela qual todos esperavam. Respirou fundo, esperou alguns segundos para que o burburinho arrefecesse, e continuou: “Não me dá nenhuma felicidade [adotar esta ação]… Maldito Freud e seus lapsos linguísticos inconscientes, esbravejou consigo mesmo. Com cara de paisagem, insistiu na declaração de seu caráter impoluto: “Os motivos foram puramente técnicos, não me move nenhum propósito político…”

Fez nova pausa para dialogar com seus botões: “Por que será que as pessoas negam tanto suas motivações políticas? Por que essa palavra soa como algo sujo, inconveniente, despropositado? Sou político, ora bolas, e me orgulho de dominar todas as técnicas de persuasão para atingir meus objetivos. Que se danem todos, vou em frente”.

Discurso 3Continuou historiando brevemente as razões para sua decisão. Enfatizou o grande volume de demandas, o prazo exíguo que lhe era concedido legalmente para análise delas, os erros perpetrados por alguns dos demandantes, os acertos da proposta acolhida. Acelerou um pouco a fala, na esperança de causar máximo impacto com o ‘grand finale’ escolhido.

Com um meio sorriso concluiu, destemido: “Não me restou outra saída, a não ser atender aos reclamos populares”. Fez a derradeira pausa para auscultar sua voz interna e parabenizou-se triunfante: “É minha consagração como estadista! Desta vez, acho que me superei. Quero ver alguém ousar me desmentir. Tenho todos os números e detalhes técnicos para provar minha postura equidistante, a despeito de tanta passionalidade demonstrada por meus adversários”.

Deu o comunicado por encerrado e foi-se embora.

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Resoluta, ela dirigiu-se ao microfone com passos firmes, acompanhada por todo seu séquito. Quando todos já estavam perfilados e a atmosfera ao redor já ganhara ares solenes, abaixou levemente a cabeça e consultou a si mesma em pensamento: “Tenho que parecer serena, custe o que custar. Não posso hesitar, não posso me deixar abater, não posso transpirar nem autoritarismo nem desejo de vingança. Sei quem sou e até onde posso chegar. Já passei por momentos piores, mais dolorosos. Pairo acima do bem e do mal, ainda que tenham me colocado no olho do furacão mais uma vez”.

Dilma 1Seu assessor direto fez um pequeno gesto de aprovação, como se quisesse lhe infundir mais confiança. Afinal, a roupa escolhida a dedo e impecavelmente bem passada ajudava a passar a mensagem de mulher destemida, acostumada a pôr tudo preto no branco. A maquiagem perfeita para reforçar a imagem de jovem senhora com os olhos ainda cheios de esperança em dias melhores. Joias e acessórios arrematando com precisão o perfil de pessoa dona de si.

Só um pequeno detalhe havia escapado aos cuidados de seus consultores de estilo: por debaixo da grossa camada de maquiagem, enegrecidas e fundas olheiras desvelavam o peso de tantos dias e noites de angústia, de apreensão.

Iniciou o pronunciamento com voz um tanto hesitante: “Recebi indignada a notícia…”. Repreendeu-se de imediato por não ter conseguido encontrar o tom certo, capaz de afiançar a todos que o sentimento de indignação realmente a tomava por inteiro. A frase tinha saído espremida na garganta por causa do colossal esforço de autocontenção, e seu corpo desvitalizado traíra a intenção de comunicar que estava pronta para qualquer combate.

Respirou fundo, tentando recompor-se, e prosseguiu: “Não há nenhuma consistência…”. Congratulou-se intimamente: o tom agora era o correto, o desejado. Mais animada, enfatizou: “Eu nunca…não sou….não tenho…não paira sobre mim nenhuma suspeita…não omiti…”. Parou por alguns segundos, perguntando-se se as seguidas negativas a estavam ajudando de fato a contrapor-se a seu adversário e a reforçar seus proclames de inocência ou se poderiam ser interpretadas como sinal de fragilidade.

Dilma Lula CunhaDecidiu agregar um tom de ironia a suas palavras, tentando esboçar um sorriso. Não conseguiu. Os músculos da face paralisados pela tensão não permitiram. O rosto contorceu-se num ricto. Atabalhoadamente, historiou em breves palavras os contornos da chantagem política a que sentia estar sendo submetida e deu prosseguimento aos autoelogios: “…meu compromisso inquestionável com a coisa pública…”. Será, perguntou-se mais uma vez, que os tribunais deste país acreditam sem qualquer dúvida razoável no caráter nobre de minha gestão? Será que meus assessores não exageram quando dizem que ainda há tempo e recursos para virar o jogo? E se….

Espantou as dúvidas com um leve meneio de cabeça e finalizou, arfante, como se aconselhasse a si mesma: “Não vamos nos intimidar, vamos agir com serenidade…”

Interligne 18h

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

A era DDD: demônios em dose dupla

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Rudolf SteinerDe todas as parábolas que já me contaram um dia, uma me despertou interesse especial. Segundo a Antroposofia, definida por seu criador Rudof Steiner como ‘ciência espiritual’ que tem ramificações nos campos da medicina, educação e agricultura, a humanidade é acossada continuamente por dois demônios: Árimã e Satã.

Esses dois seres ardilosos agiriam em estreita parceria, ainda que, superficialmente, possam parecer inimigos. Numa espécie de mecanismo de pêndulo, eles se alternam para atrair o homem para suas respectivas áreas de domínio. Satã, por seu lado, prometendo o poder material e os prazeres carnais. Árimã, por outro, prometendo o poder espiritual e os prazeres transcendentais. Dessa forma, quando a pessoa respira aliviada, acreditando que escapou das garras de um deles, já caiu sem o perceber na esfera de influência do outro.

Polarite 6Steiner conceitua o homem como um ser que tem a cabeça no céu e os pés firmemente plantados no inferno. Misto de criatura escrava dos desejos animais e, ao mesmo tempo, eterno aspirante à iluminação e à bem-aventurança. Sem dúvida, uma comovente analogia da dupla natureza humana, capaz de aprofundar a compreensão a respeito de nosso funcionamento psíquico.

Polarite 2Enquanto Satã age para o homem afundar cada vez mais no plano material e extrair seu gozo da conquista de poder, dinheiro e sexo, Árimã o convida a asceticamente virar as costas para os prazeres mundanos, purificar o corpo para encontrar paz interior e poder experimentar, então, as glórias espirituais. Sugado com força igual por esses dois ímãs, o homem teria como missão de vida a tarefa de manter-se equidistante – daí sua postura vertical, ao contrário da dos animais – tentando buscar o equilíbrio possível entre todas essas pulsões.

Polarite 5Essa história voltou com força à minha cabeça quando eu tentava encontrar um ponto de apoio intelectual para entender recentes acontecimentos em nosso país e no mundo. Corrupção, descalabro moral, intolerância social, religiosa e política, desastres ambientais, terrorismo, guerras separatistas, lutas fratricidas, disseminação do egocentrismo, miopia no trato das diferenças, morte do altruísmo – a lista é interminável e permite supor que esta já é, sem dúvida, uma das eras mais prolíficas para a dupla demoníaca em toda a história da humanidade.

Polarite 4Totalitárias de ambos os lados, as facções extremistas que atuam ao lado de Árimã perseguem com interminável voracidade assassina tudo o que representa movimento de expansão, contato, acolhimento, alegria, prazer, confraternização, conciliação ou coexistência pacífica neste plano, já que não toleram o prazer que a proximidade de corpos provoca. Já as que se aliaram a Satã atormentam incansavelmente a mente dos que aspiram secretamente a se regalar num festival orgástico de acumulação de riquezas e tráfico de influência, mesmo que isso seja conseguido às custas do sangue, suor e lágrimas dos demais à sua volta.

Polarite 3Difícil dizer qual das duas pulsões é mais cruel e danosa para o psiquismo humano. Para mim, o que encanta nessa parábola é a revelação da parceria não explicitada entre os dois polos. Ao contrário do que sustentam todas as demais vertentes religiosas, esta afirma com todas as letras que não é só o desejo do gozo material que é diabólico. Também a aspiração de posse de bens espirituais pode ser vista como demoníaca, se o foco do indivíduo está no ego e não no ‘self’ – ou, em outras palavras, se ele busca o céu só para si e não para toda a humanidade.

A mão que mata por negar comida e água é a mesma que aniquila negando liberdade de expressão e de autoafirmação. A cabeça que engendra planos mirabolantes para destruir corpos é a mesma que não se constrange em destruir almas.

Polarite 1Controle, subjugação e domínio absoluto sobre o corpo, os pensamentos, os sentimentos e o espírito do outro são as aspirações-chave não só do terrorista que se explode em via pública, mas também do homem que violenta e mata a mulher amada, do adulto que seduz sexualmente crianças, dos jovens que praticam bullying contra colegas, do cidadão que agride moral ou fisicamente pessoas de outras raças, estratos sociais, crenças ou orientação sexual, do político que desvia verbas públicas destinadas ao atendimento da população carente, do religioso que apedreja e desqualifica os praticantes de outra fé, do homem que envenena os cursos de água, polui o ar e a terra e destrói florestas.

Assim caminha a humanidade nessa nossa era DDD….

Interligne 18h

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.