Make humanity great again

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Ao menos na língua portuguesa há sutis porém significativas diferenças entre os conceitos de grandeza e grandiosidade. Embora ambas as palavras conotem aferição quantitativa de dimensões ‒ como altura, largura, volume, extensão ou amplidão ‒ a primeira é a única a englobar também aspectos anímicos e de caráter.

Consultando dicionários da língua inglesa, constatei que nela é muito mais acanhada a referência às noções de nobreza de sentimentos e força moral que também estão implícitas na definição de grandeza. Na linguagem coloquial, ‘great’ é, em geral, usado como sinônimo de excelente/ótimo, ainda que possa denotar também algo ou alguém superior, poderoso, forte, influente, importante ou renomado.

Curiosamente, em português, é possível até brincar com os sentidos quantitativo e qualitativo do adjetivo ‘grande’ bastando para isso mudar sua posição em relação ao substantivo. Sem nos darmos ao trabalho de fazer todo um discurso ideológico, podemos dizer, por exemplo, que o Brasil é certamente um país grande, mas dificilmente chegará um dia a ser um grande país.

Dicionario 2Essas considerações me ocorreram quando vi pela primeira vez o slogan de campanha do atual presidente norte-americano. Não pude deixar de me perguntar: afinal, que tipo de promessa ele está fazendo mais especificamente e qual das duas vertentes de significado o eleitorado apreendeu? Não conheço as respostas, mas é muito provável que, se consultados, cidadãos de várias outras partes do mundo responderiam de pronto: “Ah, é típico de americano querer ser o maior e o melhor em tudo. Pura mania de grandeza!”

Estereótipos à parte, imagino que o mesmo arrepio de pavor percorreria a espinha de muita gente caso líderes políticos de outros países prometessem resgatar a supremacia nacional de forma tão arrogante e agressiva. Seja como for, o que chama minha atenção neste momento é que o inquietante projeto Trump de poder não pode ser considerado, de maneira nenhuma, um fenômeno isolado. Em diversas outras nações, governos que implementaram ações de proteção de direitos e inclusão social vêm sendo substituídos por administrações baseadas em ideário fortemente nacionalista e patrimonialista. Em paralelo, pipocam aqui e ali movimentos contrários à globalização, ao acolhimento de refugiados e de excludente caráter religioso fundamentalista.

Talvez tudo não passe do já proverbial movimento pendular da história, mas suspeito que motivações psíquicas muito mais profundas estejam em jogo. A impressão que tenho é a de que, em nossas tecnologicamente avançadas sociedades, já não há nem tempo nem espaço para as coisas do espírito. Vivemos todos na periferia de nós mesmos e alienados de nossa essência humana. Hoje em dia a formação de vínculos é essencialmente pragmática: dura o tempo da satisfação de um desejo ou do atendimento de uma necessidade. Em consequência, nossa ação no mundo deixou de ser altruísta e agora é forçosamente voluntarista.

É como se tudo que represente interesse coletivo tivesse perdido atratividade e respeito. Já aprendemos que o cobertor dos recursos do planeta é curto e que, para cobrir as demandas existenciais de terceiros, temos de aceitar o risco de ficar a descoberto no futuro. A luta pela sobrevivência é tão desigual que já não nos reconhecemos como comunidade humana. E o clima de ‘cada um por si’ ficou ainda mais tenso quando as grandes massas intuíram que nunca houve um Deus por ‒ e para ‒ todos.

É forçoso admitir que, em termos psíquicos, é de fato angustiante sabermo-nos todos no mesmo barco e descobrir que ele está prestes a afundar. Instintivamente, buscamos formas de nos proteger e de nos isolar do sofrimento geral. Se a farinha é pouca ‒ raciocinamos mesmo que a contragosto ‒ meu pirão primeiro.

Zygmunt Bauman

Zygmunt Bauman

O sociólogo e filósofo polonês Zygmunt Bauman debruçou-se sobre essa questão e postulou: “A preocupação com a administração da vida parece distanciar o ser humano da reflexão moral”. Talvez seja exatamente porque nos convencemos de que as estatísticas estão certas ‒ não há comida, água, terra nem trabalho para todos ‒, que a civilização humana está em colapso, voltando aos poucos ao estágio da barbárie. Generosidade, compaixão e outros sentimentos nobres que antigamente estavam estocados no quartinho dos fundos da alma de cada um para uso em caso de necessidade premente parecem ter, de fato, embolorado e perdido o prazo de validade.

O que fazer então para resgatar o lado luminoso da espécie e tornar o ser humano grande de novo? Recorro mais uma vez ao pensamento do filósofo e poeta Ferreira Gullar para lembrar que “só existe generosidade onde há utopia”. Ora, se até aqui não fomos capazes de superar as contradições entre capital/trabalho, liberdade/segurança, equilíbrio econômico/proteção social, parece que está mais do que na hora de engendrarmos novas utopias.

Precisamos urgentemente de um novo paradigma filosófico humanista ético que nos inspire a desenvolver:

• um sistema de governo que substitua a agonizante democracia representativa e acabe com a centralização do poder nas mãos de oligarquias;

• um sistema econômico que garanta a prosperidade de todos, impeça a concentração de riquezas nas mãos de poucos e não recorra a práticas clientelistas e assistencialistas;

• um projeto ambiental que garanta a preservação dos recursos naturais sem se chocar com os ditames racionais do assim chamado ‘progresso’;

• um sistema religioso ecumênico que não colida com crenças ateístas e agnósticas.

Uma tarefa nada desprezível. Alguém se habilita?

cachorro-41Mas calma, relaxe, não é preciso ir tão longe desde já. Nada impede que, dentro das fronteiras de nosso mundinho particular, nos comprometamos com novas regras de existência e coexistência harmônica. A milenar filosofia oriental de integração dos opostos yin-yang pode ser um bom começo.

Outra possibilidade para reacender a chama do desejo de estar a serviço do bem-estar geral é contar com a sabedoria dos cães. Totalmente indiferentes às diferenças de cor, raça, tamanho ou comportamento de dominância, eles se comprazem em cheirar o traseiro dos recém-chegados para descobrir se são ou não dignos de confiança e dar início a jogos de interação. Porque se comunicam apenas através da energia e são capazes de viver integralmente no aqui e agora, eles nos ensinam ainda que ‘é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã… porque, se você parar para pensar, na verdade não há’.

Interligne 18cNota importante
Este texto não é originalmente meu. Foi-me ditado como última mensagem de esperança por minha filósofa canina preferida, que agora brinca nos campos do Senhor.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

A era DDD: demônios em dose dupla

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Rudolf SteinerDe todas as parábolas que já me contaram um dia, uma me despertou interesse especial. Segundo a Antroposofia, definida por seu criador Rudof Steiner como ‘ciência espiritual’ que tem ramificações nos campos da medicina, educação e agricultura, a humanidade é acossada continuamente por dois demônios: Árimã e Satã.

Esses dois seres ardilosos agiriam em estreita parceria, ainda que, superficialmente, possam parecer inimigos. Numa espécie de mecanismo de pêndulo, eles se alternam para atrair o homem para suas respectivas áreas de domínio. Satã, por seu lado, prometendo o poder material e os prazeres carnais. Árimã, por outro, prometendo o poder espiritual e os prazeres transcendentais. Dessa forma, quando a pessoa respira aliviada, acreditando que escapou das garras de um deles, já caiu sem o perceber na esfera de influência do outro.

Polarite 6Steiner conceitua o homem como um ser que tem a cabeça no céu e os pés firmemente plantados no inferno. Misto de criatura escrava dos desejos animais e, ao mesmo tempo, eterno aspirante à iluminação e à bem-aventurança. Sem dúvida, uma comovente analogia da dupla natureza humana, capaz de aprofundar a compreensão a respeito de nosso funcionamento psíquico.

Polarite 2Enquanto Satã age para o homem afundar cada vez mais no plano material e extrair seu gozo da conquista de poder, dinheiro e sexo, Árimã o convida a asceticamente virar as costas para os prazeres mundanos, purificar o corpo para encontrar paz interior e poder experimentar, então, as glórias espirituais. Sugado com força igual por esses dois ímãs, o homem teria como missão de vida a tarefa de manter-se equidistante – daí sua postura vertical, ao contrário da dos animais – tentando buscar o equilíbrio possível entre todas essas pulsões.

Polarite 5Essa história voltou com força à minha cabeça quando eu tentava encontrar um ponto de apoio intelectual para entender recentes acontecimentos em nosso país e no mundo. Corrupção, descalabro moral, intolerância social, religiosa e política, desastres ambientais, terrorismo, guerras separatistas, lutas fratricidas, disseminação do egocentrismo, miopia no trato das diferenças, morte do altruísmo – a lista é interminável e permite supor que esta já é, sem dúvida, uma das eras mais prolíficas para a dupla demoníaca em toda a história da humanidade.

Polarite 4Totalitárias de ambos os lados, as facções extremistas que atuam ao lado de Árimã perseguem com interminável voracidade assassina tudo o que representa movimento de expansão, contato, acolhimento, alegria, prazer, confraternização, conciliação ou coexistência pacífica neste plano, já que não toleram o prazer que a proximidade de corpos provoca. Já as que se aliaram a Satã atormentam incansavelmente a mente dos que aspiram secretamente a se regalar num festival orgástico de acumulação de riquezas e tráfico de influência, mesmo que isso seja conseguido às custas do sangue, suor e lágrimas dos demais à sua volta.

Polarite 3Difícil dizer qual das duas pulsões é mais cruel e danosa para o psiquismo humano. Para mim, o que encanta nessa parábola é a revelação da parceria não explicitada entre os dois polos. Ao contrário do que sustentam todas as demais vertentes religiosas, esta afirma com todas as letras que não é só o desejo do gozo material que é diabólico. Também a aspiração de posse de bens espirituais pode ser vista como demoníaca, se o foco do indivíduo está no ego e não no ‘self’ – ou, em outras palavras, se ele busca o céu só para si e não para toda a humanidade.

A mão que mata por negar comida e água é a mesma que aniquila negando liberdade de expressão e de autoafirmação. A cabeça que engendra planos mirabolantes para destruir corpos é a mesma que não se constrange em destruir almas.

Polarite 1Controle, subjugação e domínio absoluto sobre o corpo, os pensamentos, os sentimentos e o espírito do outro são as aspirações-chave não só do terrorista que se explode em via pública, mas também do homem que violenta e mata a mulher amada, do adulto que seduz sexualmente crianças, dos jovens que praticam bullying contra colegas, do cidadão que agride moral ou fisicamente pessoas de outras raças, estratos sociais, crenças ou orientação sexual, do político que desvia verbas públicas destinadas ao atendimento da população carente, do religioso que apedreja e desqualifica os praticantes de outra fé, do homem que envenena os cursos de água, polui o ar e a terra e destrói florestas.

Assim caminha a humanidade nessa nossa era DDD….

Interligne 18h

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Para a felicidade geral da nação

José Horta Manzano

Quando se pergunta a qualquer candidato a posto político a razão pela qual quer ser eleito, a resposta, invariável, é o desejo de ser útil à sociedade, de contribuir para a felicidade geral da nação. É resposta batida. Quase 200 anos atrás, Pedro de Alcântara, ainda príncipe regente, já tinha tirado essa sacada da algibeira no Dia do Fico.

De tanto ouvir a mesma resposta, a gente chega quase a acreditar. É emocionante constatar a existência de tanta gente desprendida e generosa, disposta a dar de si e a sacrificar-se pelos conterrâneos. Uma meiguice.

Gato, quando se esconde, costuma esquecer o rabo de fora. É natural, o bichinho é gato. Ele não tem nem noção de ter cauda, imagine se vai agora pensar em ocultá-la. É complicado, dá pra entender.

O que dá menos pra entender é o comportamento de certos políticos. Constato, que, assim como o gato esquece fora o rabo, candidatos deixam transparecer, em certas ocasiões, um naco de personalidade que apreciariam fosse mantido encoberto.

Crédito: IbaMendes.com

Crédito: IbaMendes.com

Volta e meia se lê que o candidato A acusa seu adversário B de ter «copiado» ou, pior, «roubado» seu programa ou parte dele. É atitude reveladora de duas qualidades pouco elevadas.

Em primeiro lugar, mostra soberba. O reclamante parte do pressuposto de ser ele o único a enxergar problemas e a encontrar solução adequada. Não reconhece nos adversários capacidade para apontar as mesmas mazelas e descobrir boa solução. Haja arrogância!

Em segundo lugar, desmonta o anunciado anseio de ver desabrochar a felicidade entre seus concidadãos. Mostra que, por detrás da fachada de nobreza e altruísmo, ferve intenso o desejo de alçar-se ao poder. No fundo, não é a miséria alheia que o comove ― é, antes, a cupidez que o move.

Leio, pela enésima vez, que o entourage de um dos candidatos denuncia o adversário por plágio de seu programa. E mostra-se inconformado. Não devia. Se o desejo do candidato A de ver crescer a felicidade geral fosse sincero e pra valer, ele se alegraria ao saber que, ganhe ele ou o adversário, o vencedor será o povo.

Quando a esmola é muita, o santo desconfia. Ainda está pra aparecer candidato que ponha os interesses do eleitor antes dos seus próprios.