Vizinho incômodo

José Horta Manzano

Guerras, brigas, embates e enfrentamentos sempre deixam vítimas colaterais. Nos tempos de antigamente, quando a mortandade entre os combatentes era exponencial, vítimas indiretas eram quantidade desprezível. Ninguém se preocupava com elas. Hoje a coisa mudou. As guerras modernas, com seus bombardeamentos ditos «cirúrgicos», deixam poucas baixas entre combatentes. Paradoxalmente, o estrago maior se dá entre inocentes, gente que estava no lugar errado na hora errada.

Conflitos bélicos não são os únicos a vitimar gente que não tinha nada que ver com a briga. Estava lendo uma reportagem ‒ cômica se não fosse trágica ‒ que descreve a delicada situação dos condôminos do edifício Solaris, no Guarujá. É aquele prédio, hoje célebre, que a justiça afirma ser do Lula enquanto nosso guia jura jamais ter sido o dono.

Prédio «do Lula», Guarujá (SP)

No julgamento do caso, doutor Moro condenou o antigo presidente a dez anos de cadeia. Ordenou também o confisco do famoso apartamento de três andares. Com elevador interno, o cúmulo do chique! Para todos os efeitos, a menos que sobrevenha decisão contrária, a unidade pertence agora ao patrimônio público. Em resumo, cada um de nós é proprietário de uma fração ideal do apê. Regozijemo-nos, irmãos!

Comecei este artigo falando de vítimas colaterais. No caso do famigerado triplex, são os coproprietários, os donos dos demais apartamentos do prédio. Faz alguns anos que vivem na berlinda. Seus apês se desvalorizaram dramaticamente. A calçada anda cheia de turistas e curiosos loucos para tirar uma selfie diante do «prédio do Lula». O prédio anda tão depreciado que, em pleno mês de férias, muitos apartamentos estão vazios. Proprietários desanimados desistem de frequentar aquele elefante branco.

E tem mais. As despesas de condomínio referentes ao triplex não estão sendo pagas há tempos, o que obriga os demais condôminos a cobrir o rombo. O bom senso ensina que, ao confiscar o imóvel, o poder público se apoderou do bem mas, ao mesmo tempo, herdou dívidas, litígios e eventuais pendências judiciais. Não se pode ficar com o filé e deixar o osso para os outros. A lógica exige que o erário pague os atrasados, assuma os conflitos e regularize a situação.

Ter sido vizinho de um Lula já é castigo suficiente. Ter de levar a mão ao bolso para cobrir dívida de condenado por lavagem de dinheiro é insuportável.

A decepção e a euforia

José Horta Manzano

Doutor Sergio Moro escolheu o dia 12 de julho para pronunciar sua decisão no primeiro processo criminal que visa um ex-presidente do Brasil desde a instauração do regime republicano. E condenou pesado: quase dez anos atrás das grades. Fossem nossos costumes em matéria de aplicação de penas análogos aos de países civilizados, o condenado já estaria no xilindró. Mas, sacumé, somos um povo cordial.

Não deve passar de coincidência, mas um 12 de julho ‒ não tão antigo assim ‒ já foi ocasião de comoção nacional. Nós já esquecemos, mas os franceses se lembram muitíssimo bem. Nessa mesma data, em 1998, a França conquistou a Copa do Mundo de futebol no imponente Stade de France pelo placar incontestável de 3 a 0. Ganharam da prestigiosa equipe de Ronaldo e Romário, um feito e tanto.

A mídia francesa hoje fala do Lula evidentemente. (A mídia do mundo inteiro fala.) Mais que isso, dá cobertura à visita de Mister Trump, que pousou em Paris hoje de manhã como convidado de honra para a festa nacional do 14 de julho. E, naturalmente, todos comemoram a façanha do 12 de julho de 1998. Principalmente porque não se repetiu.

Frase do dia — 338

«O Brasil chegou ao paroxismo de ver um ex-presidente recorrer a uma candidatura como estratégia de defesa. Afinal, com a rejeição nas alturas, o vaidoso Lula jamais se arriscaria a perder nas urnas novamente, como ocorreu em 1989, 94 e 98.»

Vera Magalhães, jornalista, analista política, colunista e radialista.

Em todas as línguas

José Horta Manzano

News, Austrália

Clarín, Argentina

Der Spiegel, Alemanha

De Redactie, Bélgica

Nachrichten, Áustria

Le Monde, França

The Guardian, Inglaterra

Nova, Bulgária

El Comercio, Peru

Deník, República Tcheca

La Repubblica, Itália

De Morgen, Holanda

TVN24, Polônia

Público, Portugal

Stiri, Romênia

Agência Tass, Rússia

Sveriges Radio, Suécia

Tages Anzeiger, Suíça

Bir Gün, Turquia

Hrodmadske, Ucrânia

The Washington Post, EUA

Channel News Asia, Singapura

South China Morning Post, Hong Kong (China)

Cuba Sí, Cuba

Radio New Zealand, Nova Zelândia

Al Jazeera, Catar

HVG, Hungria

Telegram, Croácia

Irish Times, Irlanda

15min, Lituânia

Politis News, Grécia

Dagens Næringsliv, Noruega

DW, Indonésia

EWN, África do Sul

El Universal, Venezuela

Baú de memórias ‒ 4

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Volto hoje a abrir meu baú de memórias para relembrar experiências vividas em torno de um de meus temas favoritos: os fenômenos paranormais, transcendentais ou de cunho espiritual.

Desde muito pequena, eu já experimentava a sensação de que havia mais mistérios entre o céu e a terra do que poderia supor minha galopante imaginação. Contavam meus pais que, apesar de conviver com quatro irmãos dentro de um apartamento pequeno, sempre fui uma criança retraída e solitária, que preferia passar as tardes em longos diálogos com um amigo imaginário.

Filha de mineiro e criada com a ajuda de auxiliares domésticas nordestinas, fui exposta desde muito cedo a todo tipo de lendas e crendices. Minha avidez pela leitura logo permitiu que outros personagens míticos passassem a compor novas facetas do meu universo mental. A rígida formação religiosa que recebi, calcada no Velho Testamento, encarregou-se de completar o quadro, trazendo à tona o lado sombrio e aterrorizante do mundo além dos sentidos, povoando meu cotidiano com relatos de possessão demoníaca e incorporação de espíritos.

Centenas de vezes ao longo de minha infância e adolescência, benzedeiras, cartomantes, ciganas e videntes cruzaram acidentalmente meu caminho. Milhares de vezes me angustiei ao sentir que era capaz de ter premonições ou experimentar transmissão de pensamento.

Em consequência dessa overdose de estímulos, acabei desenvolvendo uma espécie de estudada indiferença ou até ojeriza a tudo que não passasse pelo crivo da razão, da lógica, ou que não pudesse ser comprovado cientificamente. O medo, o ceticismo e a descrença rapidamente me levaram a me afastar em definitivo de todas as formas de ocultismo e espiritualismo.

Até que um dia um amigo insistiu para que eu o acompanhasse a um encontro com um médium espírita. Eu havia acabado de passar por uma perda afetiva importante e havia afundado em interminável estado de melancolia. Por mais que eu relutasse em acreditar que a solução do problema estivesse em outro plano, meu amigo nutria a esperança de que uma conversa com esse médium pudesse ter algum efeito terapêutico e me abrisse novas perspectivas de vida.

Ao entrar, fui logo levada para uma sala de consultas pequena, iluminada apenas por luz negra. O médium estava em pé, imóvel e em silêncio. Seus olhos pareciam irradiar hipnotizantes faíscas de luz. Incomodada com a dramaticidade daquele ambiente soturno, imaginei ter caído em uma arapuca e estar prestes a ser vítima de um farsante. Determinei-me logo de saída a não acreditar em uma única palavra que ele me dissesse.

Como se adivinhasse meus pensamentos, ele me encarou com toda a serenidade e disse apenas: “Não acredite…”. Ficou mais alguns segundos em silêncio e repetiu a frase. Quase caí de costas. Buscava desesperadamente indícios de que algo em meu corpo estivesse facilitando o recebimento da mensagem de descrença, como a contratura de músculos ou meus olhos esbugalhados. Não tive tempo para dar continuidade a minhas divagações.

Logo ele deu prosseguimento a suas sentenças enigmáticas. “Vocês, psicólogos terrenos, são muito mecanicistas…”. Minha incredulidade e irritação só faziam aumentar. Como ele podia saber que eu era psicóloga se sequer havíamos sido apresentados? Pode ser que meu amigo tenha lhe dito, pensei, tentando me tranquilizar, mas sem conseguir afastar a angústia.

“O ser humano é uma unidade bio-físio-psico-social-espiritual… Por que você não vai estudar o que acontece ao nível das sinapses com a substância negra?“. Desta vez, uma forte onda de pânico tomou conta de mim. A frase estava muito além do conhecimento rudimentar de um ilusionista, requeria conhecimento técnico especializado. Meu amigo havia me dito que o tal médium era um advogado na vida cotidiana, mas que, em estado de transe, incorporava o espírito de um médico (que só vim a saber depois que se tratava de Bezerra de Menezes).

Tentei reativar na memória, sem sucesso, as lições de fisiologia que havia tido na faculdade. Ao voltar para casa, procurando em meus manuais, verifiquei que estranhos pontos negros se aglomeram nas terminações nervosas quando um estímulo adquire caráter vital. A analogia usada para explicar a função dessa substância era a de um trem de metrô que tem prioridade e, portanto, recebe o sinal verde em todas as conexões ao longo do trajeto. Só décadas mais tarde consegui estabelecer um vínculo entre esse fenômeno e o que o médium chamava de mecanicismo das teorias psicológicas.

A intrigante experiência não parou por aí. Logo na sequência, o médium pediu que todos os presentes saíssem da sala e nos deixassem a sós. Prendi a respiração, tentando me preparar para vivências ainda mais aterrorizantes. Calmamente, ele me pediu que me deitasse em um colchão que estava no chão. Obedeci sem nem saber por quê. Ele se inclinou, pegou meu pulso com delicadeza, sem dizer absolutamente nada. Lembro apenas de ter fechado os olhos.

by Ramone Romero

Para meu supremo espanto, acordei algumas horas depois, com a sensação de que havia tido um longo e agradável sonho, sem, contudo, me lembrar de nenhum detalhe específico. Não conseguia acreditar que aquilo tivesse acontecido comigo. Na época, eu enfrentava uma crise severa de insônia e já havia tentado vários recursos para pôr fim a ela, sem sucesso. Como era possível eu ter conseguido relaxar em um ambiente estranho, na presença de uma pessoa que me inspirava temor e sem que nenhum comando específico, verbal ou não-verbal, tivesse sido dado?

Ao abrir os olhos, vi que os médiuns auxiliares estavam postados em torno do colchão, com os braços estendidos, formando um círculo de passe. Sem fazer qualquer referência ao que havia se passado, o médium pediu que me sentasse numa cadeira, com suportes metálicos para os braços. Orientou-me a me concentrar mentalmente em uma figura protetora, paternal. A imagem de Cristo apareceu diante de meus olhos. Tentei embarcar numa peregrinação religiosa, mas não fui muito longe. Prestava mais atenção aos meus descompassados batimentos cardíacos, que impediam que meu pensamento seguisse um roteiro linear.

Alguns minutos depois, tive a nítida sensação de que meus braços haviam se erguido, sem que eu os tivesse comandado. A sensação era tão forte que me vi forçada a abrir os olhos. Constatei, horrorizada, que eles estavam mesmo levantados. Literalmente perplexa, empurrei-os de novo para baixo, com força. Muitos anos depois, durante uma sessão de Kum Nye, um método de meditação do budismo tibetano, aprendi que, quando o cérebro entra em estado alfa, esse fenômeno pode ocorrer e é chamado de “movimento automático”.

Parecendo satisfeito com os resultados obtidos, o médium se sentou então em frente a uma escrivaninha e pôs-se a redigir uma receita. Olhando de relance para o papel que ele me estendeu, percebi que haviam sido prescritos alguns chás e medicamentos fitoterápicos. Com voz segura e calma, o médium me alertou que, se eu não tomasse providências, dentro de um ano estaria enfrentando uma doença grave.

A essa altura, talvez por cansaço, minha arrogância intelectual havia reocupado lugar de destaque em meu psiquismo. Cheia de ironia, comentei com meu amigo que nada daquilo fazia lógica e rasguei com fúria o papel. Exatamente um ano mais tarde eu fui diagnosticada com um câncer.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Falam de nós – 21

0-Falam de nósJosé Horta Manzano

Para começar, a notícia chata
O diário El Observador e outros veículos de Montevidéu informam que o Ministério do Interior uruguaio está reforçando a segurança na fronteira com o Brasil. Para tanto, câmeras de vídeo estão sendo instaladas. Centenas de militares e de policiais também estão sendo mobilizados. As quatro províncias que têm fronteira seca com o Brasil estão incluídas na operação, que tem até nome: Programa Gavilán ‒ Operação Gavião.

O programa já foi posto em prática e testado, aparentemente com sucesso, durante a Copa de 2014 e os JOs de 2016. Além de controle reforçado nos postos de fronteira, o Uruguai organiza também blitzes de surpresa nas estradas. A fronteira com o Brasil é classificada como uma «perigosa peneira».

O temor dos hermanos tem três razões de ser. Em primeiro lugar, procuram reprimir a entrada de cocaína no país. Em seguida, têm a intenção de proteger seus fazendeiros contra furtos de gado que ocorrem com indesejável frequência.

A terceira razão ‒ a mais preocupante ‒ tem a ver com o crime organizado brasileiro. Depois do assalto de que foi vítima uma transportadora de valores em Ciudad del Este (Paraguai), ataque atribuído ao PCC brasileiro, os uruguaios andam ressabiados. Meia dúzia de cidades de certa importância estão coladas à fronteira brasileira e podem estar na mira dos bandidos. Melhor prevenir.

Para terminar, a notícia agradável
Em 2015, aos 18 anos de idade, o paulista Felipe Levtchenko embarcou para a França para um intercâmbio escolar previsto para alguns meses. Ao chegar, não conhecia nenhuma palavra de francês. Acolhido por uma família de Perpignan (sul do país), dedicou-se de corpo e alma ao aprendizado da língua e ao que lhe ensinavam na escola.

Os começos foram difíceis. A realidade do inverno assustou o moço habituado ao clima morno dos trópicos. Pra piorar, enfrentou as tribulações de viver num mundo em que todos falam uma língua desconhecida. No entanto, passado o primeiro momento de desalento, o mergulho total ajuda. Por bem ou por mal, acaba-se entendendo o que dizem os outros.

Para resumir a história, Felipe gostou da experiência e foi ficando. Decidiu ficar até o fim do ano escolar para enfrentar os exames do «bac», que corresponde a nosso Enem. Não conseguiu passar. Seu conhecimento de francês era insuficiente.

Insistente, o rapaz decidiu repetir o último ano da escola média. Estudou novamente toda a matéria e reforçou seu aprendizado de francês. Semana passada, tentou de novo o exame final. Conseguiu a inacreditável média de 19,26(*). A façanha foi noticiada por toda a imprensa regional.

Perfeitamente integrado, Felipe pretende continuar na França. Não vai cursar uma, mas duas faculdades ao mesmo tempo. E não é a escolinha da esquina não, senhor. Por um lado, vai inscrever-se na ultrafamosa «Sciences Po» (Ciências políticas), faculdade de cujos bancos saiu boa parte da elite dirigente francesa. Por outro lado, vai cursar nada menos que… a Sorbonne, uma das universidades mais prestigiosas do mundo! «Para não abandonar a matemática» ‒ diz o rapaz.

(*) Na França, a notação não é baseada no máximo de 10, como estamos acostumados. Vai de zero a 20. A média de 19,26 sobre 20 equivale portanto a 9,63 sobre 10 ‒ nota pra ninguém botar defeito. Quando se leva em conta que o moço não conhecia uma palavra da língua até dois anos atrás, é de tirar o chapéu.

Operação desmonte

José Horta Manzano

Na Europa, assim como em outros países do Hemisfério Norte, férias escolares de verão são concedidas em julho e agosto. Quem tem criança pequena dá preferência a esses meses para espichar as pernas e tomar uma cor. Com poucas exceções, quem não tem criança se deixa contaminar e acaba fazendo a mesma coisa. O resultado é que estradas, autoestradas, ferrovias, aeroportos ficam seriamente congestionados nesta época.

Na França, tradicionalmente, o governo aproveita o torpor do verão, quando todos estão mais preocupados com praia e pastis(*), para implementar medidas antipáticas. Aumento de tarifas, proibição disto ou daquilo, «revalorização» de alíquotas de imposto, reajuste de pedágio e outras maldades entram em vigor neste período. Passam com maior facilidade.

Praia do Cap d’Ail, Côte d’Azur, França

No Brasil, não consta que o fenômeno seja tão marcado. Talvez pelo habitual alienamento da população, despejam-se baldes de ruindade o tempo todo. E tudo bem. No entanto, especificamente neste julho, que é mês de férias no Brasil também, parece que o movimento se tem acelerado. Não sei se o distinto leitor tem ressentido a mesma coisa. Tenho a forte impressão de que os do andar de cima, acuados há mais de dois anos pela Lava a Jato & congêneres, resolveram dar as mãos e agir no intuito de salvar a pele.

Em horas assim, vale tudo. O inimigo de ontem vira amigo de infância. Encontra-se, ora vejam só!, qualidades no adversário da semana passada. Partidos antagônicos se unem visando ao «bem comum». Criminosos condenados a dezenas de anos de privação de liberdade são mandados para casa. Um ministro do STF desdiz o que outro ministro do mesmo STF havia afirmado na véspera. Partidos da dita “oposição” se aliam a partidos da dita “situação”. O contingente de procuradores encarregados da Lava a Jato é amputado de metade dos membros.

Pastis, aperitivo com gosto de férias

Fica cada dia mais clara a operação de desmonte das investigações. E pensar que todo esse pessoal que lá está foi eleito pelo voto popular… É de se lamentar, mas fica a incômoda sensação de cansaço popular, de desânimo e de apatia. Não espantaria se congressistas hoje execrados fossem tranquilamente reeleitos em 2018. Do jeito que as coisas vão, os parlamentares da próxima legislatura perigam ser cópia carbono dos atuais. Se não forem os próprios.

(*) Pastis é aperitivo anisado típico do sul da França. Para os franceses ‒ que vivem, em maioria, no populoso norte do país ‒, pastis, perfume de lavanda e chiado de cigarra são indissociáveis do bom tempo de férias e de dolce far niente.

Quer ser aluno de Dilma Rousseff?

Políbio Braga (*)

O curso «A esquerda no século 21» também terá Guilherme Boulos, Olívio Dutra, Emir Sader, João Pedro Stédile e outros dinossauros da esquerda entre os professores.

As aulas da pós-graduação “A esquerda no século XXI” terão lugar em Chapecó (SC). O autor da ideia é o deputado federal José Uczai (PT-SC), professor universitário. A ex-presidente e Olívio Dutra (PT), ex-governador do Rio Grande do Sul, ficarão responsáveis pela disciplina “Partidos políticos e a esquerda brasileira”, com carga de 45 horas. O time ainda inclui Emir Sader, Jean Wyllys, Guilherme Boulos, João Pedro Stédile e, a confirmar, Jandira Feghali, Chico Alencar e Leonardo Boff.

Os interessados devem desembolsar R$ 7.200, com direito a parcelamento em até 24 meses. O curso será oferecido em parceria com a Universidade Federal da Fronteira Sul e a Fundação Perseu Abramo, controlada pelo PT e financiada com recursos do fundo partidário ‒ dinheiro público, pois. Já o diploma será expedido pelo Instituto Dom José.

Para obter o diploma de especialista em “esquerda do século 21”, será ainda necessário realizar um seminário de pesquisa (30 horas) e produzir um trabalho de conclusão (60 horas). O curso terá cerca de um ano de duração, com aulas nas sextas-feiras à noite e nos sábados na cidade do oeste catarinense.

(*) Políbio Braga é jornalista e blogueiro de grande popularidade especialmente no Sul do país.

Dignitários consternantes

José Horta Manzano

Chamada Estadão, 8 julho 2017

Consternados estamos nós, procurador, acredite. Consternados estamos nós.

Em tempo
Dignitário (com NI no meio) é a forma preferencial. Vem do latim dignitas, dignitatis. Dignatário (com NA no meio) é forma anômala, que escapa à derivação natural. Talvez seja usada entre nós para rimar com salafrário.

Atrás da fachada, nada

José Horta Manzano

Estes dias realizou-se em Hamburgo uma cúpula do G20, com participação dos países mais importantes. Os olhos do mundo inteiro estiveram cravados no acontecimento. Estávamos todos na expectativa de como seria o primeiro encontro entre Donald Trump e Vladimir Putin. Jornalistas mediram a duração do aperto de mãos entre os dois, estimando até a intensidade e a força muscular. Escrutaram o sorriso compartilhado, beberam as palavras da declaração de cada um. Quanta bobagem…

Foto de família do G20 de Hamburgo, 2017
A posição de cada um depende do tempo durante o qual vêm ocupando o cargo. Reparem que o recém-eleito Macron está na ponta, quase fora da foto.

Esse clube de parceiros díspares não tem a vocação nem a pretensão de influir no destino do planeta. Cada membro tem interesses próprios, que não necessariamente se ajustam aos dos parceiros. Além de mostrarem um PIB elevado, o que é que há em comum entre uma Argentina, uma Turquia, uma Indonésia, uma Austrália? Brasil, Arábia Saudita e Índia também integram a patota. E daí?

Na escola, todos nós já tiramos fotos de turma. Passado algum tempo, a gente revê os retratos e mal se lembra do nome dos colegas. Brics, G7, G8, G20 & congêneres dão ocasião para magníficas fotos de grupo. Todos sorriem, alinhados, perfilados, às vezes acenando, uma beleza. No entanto, ao fim e ao cabo, o que restam são as fotos e um comunicado final suficientemente vago e vazio de significado. Satisfaz a todos mas não resolve o problema de ninguém.

G20 de Hamburgo, 2017
Loja vandalizada

As verdadeiras tratativas entre países não se fazem à luz dos flashes. Grandes decisões são tomadas nos bastidores, independentemente de reuniões que servem apenas para atazanar a vida dos moradores da cidade que as hospeda. Estes dias, Hamburgo está em pé de guerra. Baderneiros profissionais vêm de longe, do estrangeiro, percorrem quilômetros com a única intenção de quebrar vitrinas, saquear, incendiar e semear pânico.

Alguém acredita que Trump e Putin já não tenham estado em contacto, bem antes da cúpula, talvez até antes da eleição presidencial americana? Alguém esperava que, por milagre de Santo Antônio, senhor Trump fosse mudar de ideia e realinhar-se com o compromisso de diminuir a emissão de gases que aumentam o efeito estufa? Alguém supunha que, num gesto de desprendimento, senhor Putin fosse abandonar a Crimeia e cedê-la à Ucrânia?

G20 de Hamburgo, 2017
Fim de festa

Não, senhores. Cimeiras desse tipo são o substitutivo atual do pão e do circo com que se brindavam os habitantes da Roma antiga. Distraem o povo, nada mais. Ainda por cima, custam verdadeira fortuna. Cada país envia alentada comitiva. São centenas, talvez milhares de pessoas que se empenham para que a festa pareça um sucesso. Melhor seria evitar esse desperdício e doar o dinheiro para mitigar o sofrimento de populações que morrem de fome na África e alhures.

Ai, minha cabeça!

José Horta Manzano

Há quem afirme que doutor Geddel Vieira Lima é delinquente inveterado(*). Dizem que começou já na adolescência e não parou até hoje. Deve haver uma parte de verdade na afirmação, tanto é que o doutor foi preso estes dias.

Os jornais dão em manchete a notícia de que o prisioneiro «tem cabeça raspada». Só de pensar, dá arrepio. Fico aqui imaginando qual terá sido o instrumento de tortura utilizado para raspar a cabeça do infeliz. Uma lixa grossa? Uma escova de piaçaba? Um ralador de queijo? Cruz-credo!

Chamada Estadão 6 jul 2017

Pois é, minha gente, em apenas três palavrinhas ‒ «tem cabeça raspada» ‒, duas impropriedades foram cometidas. Uma delas é o emprego da sintaxe inglesa. «Teve a carteira roubada», «tive o apêndice extirpado» & congêneres são frases construídas sobre base sintática estranha à nossa. Em inglês, é assim que a gente deve se exprimir. Em português, casos dessa natureza pedem a voz passiva. Melhor do que «teve a carteira roubada», será dizer que lhe roubaram a carteira. Ou que a carteira dele foi roubada, que lhe extirparam o apêndice, que seu apêndice foi extraído. E, naturalmente, que lhe cortaram o cabelo ou que seu cabelo foi cortado rentinho rentinho.

A outra impropriedade é o uso de «raspar» por «rapar». No Brasil, muitos utilizam raspar quando rapar seria mais adequado. No entanto, cada um dos verbos exprime ação diferente.

by Carl Thomas Anderson (1865-1948), desenhista americano.
Henry, o garotinho de cabeça rapada, conhecido no Brasil como Pinduca, foi criado quando o desenhista já tinha 68 anos de idade, em 1933.

Rapar é catar tudo, às vezes num único movimento. Rapa-se a cabeça (caso do doutor ora prisioneiro), rapa-se a mercadoria do camelô desprevenido, rapa-se o saldo da caderneta de poupança. O crupiê rapa as fichas dos perdedores no tapete verde. Rapa-se barba e bigode.

Raspar é outra coisa. Raspa-se um objeto ou uma superfície, ou por acidente, ou na intenção de limpar ou de eliminar alguma impureza ou excrescência. Raspa-se fundo de panela. Raspa-se a pintura da parede velha antes de aplicar nova camada. Raspa-se o carro no muro. Raspa-se casca de limão e de cenoura.

Sabemos que nossas prisões são sucursais do inferno. Mas ainda não chegamos ao ponto de raspar a cabeça de recém-chegados, esfregando até o sangue. Crueldade tem limites.

(*) Inveterado denota algo ou alguém que envelheceu. Por analogia, hábitos antigos e arraigados são ditos inveterados. A palavra descende do latim vétus, véteris (= velho).

Veterinário faz parte da mesma família. A gente se pergunta por quê. É simples. Dois milênios atrás, a medicina ainda engatinhava e o homem mal sabia cuidar de si, quanto mais dos bichos. Assim mesmo, animais domésticos ‒ principalmente o cavalo, usado como meio de transporte ‒ eram preciosos. Quando um cavalo adoecia ou sofria com uma pata quebrada, o dono mandava vir um especialista para ver se dava um jeito. A maioria das vezes, esses infortúnios acometiam animais velhos, razão pela qual o entendido era chamado veterinarius.

Vetusto, veterano, inveterar (= tornar antigo) derivam do mesmo tronco.

Separação dos Poderes

José Horta Manzano

Não é pra ser chato, mas… que remédio? Tem horas em que não há outro jeito. A Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania, alojada no Senado da República, aprovou uma proposta de emenda à Constituição. Antes de falar dela, gostaria de saber por que razão a CCJ (Comissão de Constituição e Justiça, velha de guerra) acrescentou a «cidadania» ao já pomposo título.

Que quer dizer cidadania? O dicionário diz que é a condição de cidadão. Diz também que cidadão é o sujeito que usufrui de direitos civis e políticos. Trocando em miúdos, a população é inteiramente constituída de cidadãos, exceção feita aos incapazes e àquela meia dúzia da qual tais direitos foram temporariamente retirados. Em resumo, a tal «cidadania» é, na prática, a condição de todos nós. Podiam ter feito economia. CCJ já estava de bom tamanho, não precisava de extensão. Dada a bronca, passemos à PEC.

Propõe-se mudança na forma de escolher ministro para o STF. Na efervescência atual, a alteração me parece ir no bom sentido, embora o passo seja tímido. A PEC preconiza que a escolha final continue a ser feita pelo presidente da República a partir de lista tríplice. Duas mudanças maiores são propostas.

Barão de Montesquieu (1689-1775), filósofo e homem político francês

A primeira diz respeito ao colegiado encarregado de elaborar a lista. Ele será formado por oito magistrados, entre os quais os presidentes do STF, do Superior Tribunal de Justiça, do Superior Tribunal Militar e da OAB. A segunda mudança ‒ que poderá eventualmente ser vista como inconstitucional ‒ limita o mandato de ministro do STF a dez anos sem recondução possível.

A meu ver, a proposta padece de dois defeitos congênitos. Por um lado, a limitação do mandato de juiz é assunto delicado. Aos magistrados, a Constituição garante a vitaliciedade, a inamovibilidade e a irredutibilidade de subsídios. Portanto, ainda que a limitação do mandato de ministro do STF pareça desejável, entra em choque com a lei maior.

Por outro lado, o fato de a escolha final continuar sendo prerrogativa do presidente da República deixa um gostinho desagradável de desrespeito à isonomia dos Poderes. A escolha dos magistrados do STF pelo chefe do Executivo revela subordinação do Judiciário ao presidente da República, o que não é bom sinal.

A PEC ainda tem longo caminho pela frente. Tem de passar por duas sessões no Senado para, em seguida, atravessar o filtro da Câmara. Durante a tramitação, sofrerá, sem dúvida, emendas e modificações. Em todo caso, antes de votar, suas excelências deveriam reler os escritos do barão de Montesquieu (1689-1755), o filósofo e pensador político francês que elaborou a teoria da separação dos Poderes.

Bons de briga

José Horta Manzano

Tem gente que é de briga. Falo daqueles que já entram batendo pra só depois perguntar o que está acontecendo. São personalidades que não aparecem só no cinema: a vida real está recheada de gente assim, que gosta de um pega.

Giuseppe Garibaldi

Giuseppe Garibaldi

Muitos deles ‒ a maior parte, quero crer ‒ se contenta com descarregar a agressividade física num esporte qualquer. Se for esporte de combate, melhor ainda. Está aí um traço comum entre boxeadores, praticantes de luta-livre e de outras modalidades baseadas no enfrentamento corporal.

Há os que, sabe-se lá por que razão, não chegam a canalizar numa atividade esportiva o excesso de energia que carregam por dentro. Acabam por transformar-se no chefe tirânico, no marido brutal, no profissional descontrolado. São um estorvo para quem lhes cruza o caminho.

Há, enfim, os que vão até o fim e, desdenhando lutas de mentirinha, resolvem o problema ao pé da letra: tornam-se combatentes de verdade. Viram brigadores profissionais. Alguns chegam a ficar na História. É o caso de Giuseppe Garibaldi (1807-1882).

guerra-1No tempo em que professor ensinava e aluno aprendia, contava-se a história do aventureiro que ficou conhecido como «herói dos dois mundos». Nascido em Nice, numa época em que a cidade ia dormir italiana e acordava francesa ‒ e vice-versa ‒, Garibaldi era combatente de nascença. Na Itália, deixou imagem célebre. Patriota e general, teve vida movimentada. Não rejeitava pegar em armas, o que o levou a participar de numerosos embates militares.

Em meados dos anos 1830, desembarcou no Brasil. Atraído irresistivelmente por revoluções e batalhas, tomou parte ativa na Guerra dos Farrapos, ocasião em que conheceu Ana Maria de Jesus Ribeiro, brasileira descendente de açorianos, então com 18 aninhos. É aquela que, mais tarde, ficou conhecida como Anita Garibaldi (1821-1849). Os dois tornaram-se inseparáveis companheiros de armas. Quando Giuseppe retornou à Itália, Anita o acompanhou. Para nunca mais voltar.

Rafael Lusvarghi

Rafael Lusvarghi

Dia destes, fiquei sabendo da história de um paulista de nome Rafael Lusvarghi, digno sucessor de Garibaldi. Muito jovem, já abraçou a vida militar ao engajar-se na Legião Estrangeira Francesa. Mais tarde, de volta ao Brasil, integrou a Polícia Militar por algum tempo. Quando espocou o conflito no leste da Ucrânia ‒ aquela região que luta pela independência ‒ Lusvarghi não hesitou: juntou-se aos separatistas.

Depois de muito lutar, o jovem está meio desiludido com o andamento daquela guerra, que não ata nem desata. Anda pensando em voltar ao Brasil, nem que seja por algum tempo. Talvez volte mesmo, mas é capaz de nem se estabelecer na pátria. Quem nasceu com espírito guerreiro não consegue sossegar nem ficar parado muito tempo. Em entrevista ao portal História Militar, Rafael Lusvarghi conta algumas de suas peripécias.

Interligne 18c

Quem quiser saber mais pode clicar aqui.

Estabilidade monetária

José Horta Manzano

A confiança inspirada por um país se mede pela estabilidade de seus atributos e de suas instituições. Quanto menos mudanças de regime houver, quanto menor for a inflação, quanto menos conflitos internos e externos surgirem, mais estável e confiável será a nação. A estabilidade monetária é termômetro significativo.

Poucos são os países cuja moeda tem história mais que centenária. O Reino Unido conta com a moeda mais antiga ainda em circulação. A história da libra esterlina se perde na névoa do passado. A última modificação importante ocorreu em 1971. Naquele ano, para desagrado de muitos ingleses, a subdivisão da libra, que já durava um milênio, foi alterada. Da divisão em 20 shillings de 12 pence cada um, a libra passou a ser declinada na cartilha decimal. Notas e moedas emitidas anteriormente foram pouco a pouco retiradas do circuito. Como resultado, nenhuma moeda anterior a 1971 continua em circulação.

Moeda suíça de 20 centavos ‒ anverso (ou coroa)

O Brasil, desde a independência, sobreviveu a nada menos que doze reformas monetárias, sete das quais entre 1986 e 1994. A cada vez, notas e moedas foram tiradas de circulação e substituídas. O período que vivemos desde 1994 é excepcional em nossa movimentada história monetária.

Nesse particular, a história das moedas suíças ocupa lugar singular. O franco suíço foi criado em 1850. A última modificação das moedas, que se restringiu à aparência, ocorreu nos anos 1870. De lá pra cá, embora a liga metálica se tenha modificado ‒ principalmente devido à penúria de certos metais durante as grandes guerras ‒, o aspecto delas permanece idêntico. Na aparência, nada distingue moedas do século 19, 20 ou 21.

O distinto leitor há de se espantar, mas garanto-lhe que, na Suíça, ainda circulam moedinhas cunhadas no século 19. Têm aparência idêntica às atuais e absoluta validade legal. Por terem sido muito manuseadas, algumas aparecem visivelmente gastas, meio lisas. No entanto, outras, talvez por terem dormido por décadas nalgum cofrinho ou nalguma gaveta, têm o mesmo aspecto das atuais.

Moedas suíças ‒ verso (ou cara)
clique para ampliar

Como sou curioso e gosto de antiguidades, costumo verificar a data de cunhagem das moedas, principalmente as de 10 e as de 20 centavos. Somente as que têm mais de 40, 45 anos me interessam. Com o tempo, fui juntando uma pequena coleção. As moedas que ilustram este artigo fazem parte dela. Nenhuma foi comprada em loja de numismática. Foram todas recebidas por mim como troco em lojas e supermercados.

É um bocado emocionante ter nas mãos uma moedinha feita 130 anos atrás e imaginar sua história. Por quantas mãos terá passado? Quem terão sido os possuidores? Que mercadorias terão sido pagas com ela? Terão sido perdidas, encontradas? Ah, se as moedas falassem…

Nota
Ainda hoje, procurando bem, encontram-se moedas da primeira metade do século 20. Dos anos 1800, está cada dia mais raro.

Frase do dia — 337

«A maneira de fazer política está errada. No meu entender, cultura é a maneira que eu tenho de enriquecer o meu saber. Que saber eu tenho pra ser enriquecido se eu vou tão mal na escola? Para que precisamos de um Ministério da Cultura? Melhor ter um bom ministro da Educação para ter gente que lê e depois falarmos de cultura. Fazer essas tais de Viradas Culturais no Brasil inteiro… o que elas trazem? Nada. Bebedeira. É muito mais virada etílica do que qualquer outra coisa. É uma ofensa à palavra. Elas não trazem nada.»

Pedro Herz, dono da rede de livrarias Cultura, entre as mais importantes no país.

Sem chance

José Horta Manzano

Sabemos todos que pesquisa de opinião pode ser torcida, retorcida e distorcida conforme o que se está querendo ouvir. Os especialistas no assunto conhecem bem as manhas. Há perguntas que induzem o entrevistado a dar a resposta que se deseja. A ordem em que se apresentam as opções conta. Misturar nomes conhecidos do grande público com ilustres desconhecidos também tem importância. Há mil e um truques que pesquisadores não hesitam em utilizar.

Já faz algum tempo que tenho visto sondagens focadas nas eleições presidenciais de 2018, previstas para realizar-se para daqui a um ano e três meses. É cedo demais para sondar. Além disso, tirando o eterno candidato Lula, nenhum outro se declarou formalmente. Portanto, sem ao menos saber quem vai concorrer, como é possível chegar a resultado razoável?

Achei interessante que o nome da doutora Dilma não apareça em nenhuma das pesquisas. Seus direitos políticos foram mantidos, pois não? A doutora governou o país durante cinco anos. Por que, diabos, os institutos a eliminam arbitrariamente da lista de possíveis candidatos? E que dizer de doutor Temer então? Ainda que fosse destituído ‒ o que está longe de acontecer ‒, pode candidatar-se em 2018. Assim mesmo, não aparece em nenhum cenário.

Em compensação, aparecem figuras como Luciana Genro, Eduardo Jorge e Ronaldo Caiado que, convenhamos, pouca gente conhece. Francamente, em matéria de parcialidade, a mais recente pesquisa eleitoral parece imbatível. Falando em imbatível, o Lula aparece com 30% dos votos no primeiro turno, independentemente do nome dos concorrentes. É possível que nem a inclusão da doutora e do atual presidente viesse a modificar o resultado.

Como contrapeso, saiu ontem pesquisa do Instituto Paraná. Foi divulgada pelo blogue de Lauro Jardim, alojado no jornal O Globo. Aos entrevistados não foi perguntado em quem votariam. Mais sutil, o instituto quis saber se o sondado achava que, pelas denúncias já apuradas, há motivos para o Lula ou doutor Temer serem presos. Aí vem a surpresa: 62% dos entrevistados acham que o Lula deve ir para o xilindró ‒ perto de 2 em cada 3 brasileiros! Só doutor Temer bate nosso guia. De cada 5 eleitores, 4 acham que o lugar dele também é na cadeia.

Agora comparemos. No primeiro turno, o Lula mantém, em qualquer cenário, seus 30% de eleitores fiéis. Vamos admitir. No entanto… 62% querem mais é vê-lo atrás das grades. A conclusão se impõe. Por mais que nosso guia caído apregoe, não teria possibilidade nenhuma de ser eleito caso a eleição fosse agora. Dado que será daqui a 15 meses, a situação só tende a piorar. Para ele.

Mãe coruja

José Horta Manzano

Você sabe por que razão se diz coruja daquele que mostra grande orgulho do que criou ‒ criança, obra de arte ou qualquer outra coisa? A coruja, em muitas civilizações, é associada à sabedoria. A analogia vem certamente do fato de parecer ter os olhos arregalados, como se sempre prestasse grande atenção. Mas que tem a coruja que ver com sentimento de orgulho maternal?

Pois a relação é fruto de um poema escrito pelo francês Jean de La Fontaine, que viveu de 1621 a 1695 e nos legou dezenas de historietas todas escritas em versos. Com requintado linguajar, ele utilizou esse meio para transmitir ensinamento moral. Nas fábulas de La Fontaine, tolos, orgulhosos, avarentos, invejosos, soberbos e toda espécie de malvados levam sempre uma lição, quando não um castigo.

Uma das fábulas está na origem de nossa expressão mãe coruja. Chama-se «L’aigle et le hibou» ‒ A águia e a coruja. Conta a história de duas aves de rapina: uma águia e uma coruja. Cansadas de estar sempre brigando, resolveram fazer as pazes e nunca mais atacar os filhotes uma da outra. Apreensiva, a coruja perguntou à águia se ela conhecia seus filhotinhos, que ainda viviam no ninho. A águia respondeu que não, não os conhecia.

A coruja se entristeceu e temeu pela vida dos filhinhos. A águia então pediu à coruja que descrevesse os rebentos. Sabendo como eram, caso os encontrasse, não tocaria neles. A coruja, vaidosa, deu dos filhos imagem encantadora. Disse que eram uma fofura, belos, bem feitos, os filhotes mais lindos do mundo.

Pouco tempo depois, a águia voava à cata de alimento. Estava com fome. De repente, encontra um ninho com aves novinhas e sem defesa. Observando mais de perto, descobriu que os bichinhos eram muito feios. Pareciam monstrinhos repugnantes, de aspecto sinistro, que soltavam um ruído estranho mais parecido com grunhido de porco. Pensou: «Não, estes horrorezinhos não podem ser os filhotes da coruja.» Ato contínuo, fez deles seu almoço.

Ao voltar ao ninho, a pobre coruja só encontrou as patas dos filhotes. Clamou aos céus que castigassem o malvado que tinha feito aquilo. Foi quando alguém lhe disse que tinha mais é de culpar a si mesma por ter dado à águia uma descrição dos filhinhos que não correspondia à realidade.

O português incorporou a expressão mãe coruja para designar aquela que sente enorme orgulho da própria progenitura. É curioso notar que o francês, língua na qual foi escrita a fábula, não fez a mesma coisa. A coruja continua sendo símbolo de sabedoria, nada mais. A expressão que mais se aproxima, embora não tenha significado idêntico, é «mère poule» (= mãe galinha). Em francês, indica a mãe possessiva, superprotetora. Em português, convém não utilizar a tradução literal. Periga ofender.

Advanced
Para curiosos renitentes, aqui está a versão original da fábula. A linguagem elaborada e rebuscada demanda bom conhecimento da língua.

L’aigle et le hibou

Jean de La Fontaine (1621-1695)

L’aigle et le chat-huant leurs querelles cessèrent,
Et firent tant qu’ils s’embrassèrent.
L’un jura foi de roi, l’autre foi de hibou,
Qu’ils ne se goberaient leurs petits peu ni prou.

«Connaissez-vous les miens?» dit l’oiseau de Minerve.
«Non, dit l’aigle.» «Tant pis», reprit le triste oiseau;
«Je crains en ce cas pour leur peau;
C’est hasard si je les conserve.»

«Comme vous êtes roi, vous ne considérez
Qui ni quoi ; rois et dieux mettent, quoi qu’on leur dit,
Tout en même catégorie
Adieu mes nourrissons, si vous les rencontrez.»
«Peignez-les-moi, dit l’aigle, ou bien me les montrez;
Je n’y toucherai de ma vie.»

Le hibou repartit: «Mes petits sont mignons,
Beaux, bien faits, et jolis sur tous leurs compagnons:
Vous les reconnaîtrez sans peine à cette marque.
N’allez pas l’oublier; retenez-la si bien
Que chez moi la maudite Parque
N’entre point par votre moyen.»

Il advint qu’au hibou Dieu donna géniture.
De façon qu’un beau soir qu’il était en pâture,
Notre aigle aperçut d’aventure,
Dans les coins d’une roche dure,
Ou dans les trous d’une masure
(Je ne sais pas lequel des deux),
De petits monstres fort hideux,

Rechignés, un air triste, une voix de Mégère.
«Ces enfants ne sont pas» dit l’aigle «à notre ami.
Croquons-les.» Le galant n’en fit pas à demi;
Ses repas ne sont point repas à la légère.

Le hibou, de retour, ne trouve que les pieds
De ses chers nourrissons, hélas!, pour toute chose.
Il se plaint et les dieux sont par lui suppliés
De punir le brigand qui de son deuil est cause.

Quelqu’un lui dit alors: «N’en accuse que toi,
Ou plutôt la commune loi
Qui veut qu’on trouve son semblable
Beau, bien fait, et sur tous aimable.
Tu fis de tes enfants à l’aigle ce portrait:
En avaient-ils le moindre trait?»

O porta-aviões

José Horta Manzano

Você sabia?

Faz uns três meses, a Marinha do Brasil anunciou a desativação do porta-aviões nacional. Eu disse «do» de propósito: só temos um. E olhe lá, comprado de ocasião e à prestação. Pra que servia mesmo? Vamos primeiro aos considerandos pra chegar aos finalmentes.

Desde que o Brasil anunciou que vai devolver a carteirinha de sócio, o clube de países cuja frota conta com pelo menos um navio porta-aviões encolheu ainda mais: restam apenas oito membros. O total mundial de embarcações desse tipo é atualmente de apenas 18 unidades, 12 das quais pertencem aos EUA. A Itália e a Índia têm duas embarcações cada uma. E os demais se contentam com um único porta-aviões.

Porta-aviões São Paulo

Os únicos fabricantes desse tipo especialíssimo de nave estão nos Estados Unidos, na Itália, na França e na Rússia. A Espanha possui um canteiro naval capaz de produzir embarcações de uso múltiplo, ditas «navio anfíbio de ataque». Dado que carregam aviões e são capazes de servir de campo de decolagem e de pouso, costumam ser contabilizadas na categoria de porta-aviões. E é só. A marinha espanhola possui um navio dessa categoria. Nem a China, que já mandou astronauta ao espaço, produziu porta-aviões até hoje. Vai ficar para o futuro.

Tanto a Índia quanto a China utilizam embarcações de fabricação russa, compradas de segunda mão. A Tailândia possui o modelo espanhol. Nosso porta-aviões São Paulo, cuja aposentadoria acaba de ser anunciada, é de fabricação francesa. Antes de ser comprado pela Marinha do Brasil, levava o nome de Foch, em homenagem a um marechal francês herói da Primeira Guerra.

É compreensível que os Estados Unidos, em conformidade com sua qualidade de potência bélica maior, dedique especial importância a esse tipo de navio. Permite garantir a presença militar do país em numerosos pontos do globo simultaneamente. A França, dona de territórios e ilhas ao redor do planeta, é outra que precisa contar com porta-aviões. Aliás, no caso francês, é até surpreendente que se contentem com um único exemplar. Curiosamente, a Rússia, cujas ambições militares são notórias, só tem um porta-aviões ‒ mas está produzindo um segundo.

Porta-aviões São Paulo

E o do Brasil, para que serviu e para que serve? Comprado de segunda mão e desatualizado, não há de ter tido grande serventia. Sua manutenção tornou-se tão dispendiosa que a Marinha decidiu se separar dele e vendê-lo como sucata. Sua recuperação sairia tão cara quanto a compra de um novo.

Além de Fernando de Noronha e da Trindade, não temos ilhas nem territórios a defender além-mar. Tampouco temos pretensão a nos elevar à categoria de potência militar de primeira categoria. Portanto… pra que nos serve um porta-aviões?

Acredito ‒ e espero ‒ que vamos deixar de lado esse tipo de luxo caríssimo e desnecessário. A imensa verba que a compra e a manutenção de um porta-aviões consome será mais bem canalizada se servir, por exemplo, para a defesa estratégica da rede de comunicação das Forças Armadas. Nos tempos atuais, um ataque de piratas informáticos (em português: hackers) pode causar estrago maior que um tiro de canhão.