Bolsonaro: a imbroxabilidade desvendada

José Horta Manzano

Bruno Meyerfeld é um escritor e jornalista franco-brasileiro. É o correspondente no Brasil do jornal Le Monde, quotidiano francês de referência. Acaba de lançar novo livro, redigido em francês, com o título Cauchemar brésilien – Pesadelo brasileiro. A ilustração mostra a capa da obra.

Fruto de acurado trabalho de investigação jornalística, o livro, ainda sem edição brasileira, retrata a história da ascensão de Jair Messias Bolsonaro, desde a infância até a Presidência. A obra está cheia de historietas interessantes – algumas conhecidas, outras menos – todas girando em torno da vida do capitão.

O público francês vê em Bolsonaro apenas um incansável destruidor da floresta amazônica. O livro trata de esclarecer que Bolsonaro é muito mais que isso – mais e pior. Narra suas obsessões, sua incrustada paranoia, suas transgressões, sua ojeriza às minorias (pretos, mestiços, homossexuais, índios), sua misoginia, seu comportamento mortífero perante a epidemia de covid. E muito mais.

Entre as revelações, aparece uma muito interessante. Lá pelas tantas, depois de descrever as noites arrastadas que um presidente insônico passa a perambular pelos corredores do Alvorada nas horas mortas, o autor continua:

«En plus de ses soucis de sommeil, [Jair Bolsonaro] souffre également de ‘dysfonction érectile’. Il est un utilisateur régulier de Cialis, ce vasodilatateur concurrent du Viagra. Et ne s’en cache nullement. La présidence, cela fait ‘débander même les super-héros’.»

«Além do problema de insônia, [Jair Bolsonaro] sofre também de ‘disfunção erétil’. Ele é cliente regular de Cialis, vasodilatador concorrente do Viagra. E não se preocupa em esconder. A presidência deixa ‘até um super-herói broxa’.»

Sensacionalismo não é o forte do jornal Le Monde nem de seus jornalistas. Se o autor citou essa peculiaridade do presidente do Brasil e assinou embaixo, é porque checou a informação junto a fontes confiáveis.

Sabendo disso, a gente agora começa a entender por que o capitão concordou com a distribuição de Viagra para oficiais das Forças Armadas. E fica também claro o porquê de ele se referir continuadamente à própria ‘imbroxabilidade’. Compreende-se. Apoiado no braço amigo do Cialis, não precisa ser super-herói: qualquer um consegue.

No fundo, ele parece mais é estar em marcha acelerada para a impotência total. Se é que já não chegou lá.

Se você estiver em Paris
Está marcada para este 12 de setembro a noite de autógrafos do lançamento do livro Cauchemar brésilien. Será no Bar Cultural 61, Paris 19ème, a partir das 19 horas.

Potenzmittel

José Horta Manzano


“Problemas de ereção?
O governo brasileiro aprova remédio contra a impotência para o Exército”


O Frankfurter Allgemeine, jornal alemão de referência, não perdoou. Além da manchete reproduzida acima – ilustrada com sugestiva foto que sugere um Bolsonaro submisso aos fardados –, contou o resto da história.

“Além das acusações de corrupção, o governo do presidente Jair Bolsonaro é alvo de zombaria e de sátiras. O Exército teria adquirido, em grande quantidade e a preços exorbitantes, comprimidos para a virilidade.”

O diário alemão não foi o único a caçoar. A mídia europeia em peso, num espírito situado entre a surpresa e a ironia, também deu a notícia.

O fato é que, nesta parte do mundo em que vivo, nenhum plano de saúde – do mais básico ao mais sofisticado – cobre remédios contra a impotência. Há de ser porque as autoridades da Saúde Pública consideram que disfunções eréteis decorrentes do envelhecimento não são consideradas patológicas, mas simples fatos da vida.

Por aqui, quem desejar revigorar seu desempenho sexual tem de consultar o médico, pedir receita e comprar o remédio pagando do próprio bolso sem direito a reembolso. Não sei se no Brasil os planos médicos são mais camaradas. Parece que, entre nossos fardados, é assim que funciona.

Seja como for, a compra de milhares de comprimidos desse tipo de remédio pelas Forças Armadas da República do Brasil pega mal pra caramba. Dá ensejo a duas reflexões.

Ou os engalonados de mais idade estão usando dinheiro do povo para seu conforto na cama; ou os recrutas, que deviam ser o retrato da virilidade e do vigor das Forças, estão dando precoces e inquietantes sinais de impotência.

Ora, minha gente, as Forças Armadas de um país não somente têm de ser fortes, mas também têm de parecer fortes. Virilidade é termo que combina com força, coragem, destreza, masculinidade. Distribuir à tropa comprimidos para combater problemas de ereção é um baita arranhão na virilidade dos uniformizados. A encomenda desses remédios, feita em escala industrial, passou um rolo compressor por cima da imagem da tropa. Os brios daquela juventude armada deve ter levado um baque.

Agora todos os brasileiros têm o direito de se preocupar. Suponha por um momento que, amanhã, nosso território fosse invadido. Como é que ia ficar? Quem nos defenderia? Um exército de brochas?

Não acredita? Pois até mês e pouco atrás, ninguém no mundo acreditaria na invasão da Ucrânia. No entanto, taí…

Observação
O título faz alusão ao nome carinhoso que a língua alemã dá a esse tipo de medicamento: pílulas de potência.