Alô alô, marciano

José Horta Manzano

France-Info é canal de informação contínua pertencente ao conglomerado de emissoras públicas da França. Pode ser captada pela tevê, pelo rádio e pelo site online.

No site do canal, pode-se ver uma notícia desconcertante, vinda de Porto Alegre:


“Apoiadores de Jair Bolsonaro pedem aos extraterrestres que ‘salvem’ o país”.


Acompanha um vídeo de alguns segundos mostrando uma roda de gente, todos devidamente paramentados de verde-amarelo, cada um com seu celular em cima do cocuruto.

Cada integrante do estranho rodeio mantém seu telefone virado pra cima em modo farolete. Todos cantam uma melopeia que não consigo identificar enquanto abanam a mão sobre a tela do telefone na intenção de mandar mensagens ao espaço.

É um arremedo dos sinais de fumaça que índios americanos emitiam em filmes de caubói, lembra? Só que os sinais dos índios eram ritmados e coerentes, e transmitiam um recado, enquanto os de Porto Alegre são desconexos.

France-Info descreve a cena como surreal e explica que ôvnis teriam sido avistados no céu da capital gaúcha estes últimos tempos, o que explica o assanhamento dos participantes do bizarro rito encantatório.

Rezas, simpatias e superstições geralmente se fazem em ambiente apropriado, seja em casa, na igreja, no terreiro ou no templo – longe de olhares infiéis. É assaz raro ver demonstração pública de tamanha credulidade. Eu não duvidaria de que, entre os participantes, haja até algum que acredite na mágica. É de uma ingenuidade comovente.

Credulidade

José Horta Manzano

Com o passar dos anos, a gente vai amadurecendo e perdendo certas ilusões. Perder ilusões é chato. O mundo fica mais terra a terra, pão pão queijo queijo. O lado bom disso tudo é que a gente acaba ficando mais blindado contra algumas armadilhas.

Fico impressionado com a credulidade de tanta gente fina. A historinha que li hoje é divertida. Antes de mais nada, precisa saber que Itu, situada a 100km de São Paulo, é conhecida como a cidade dos exageros. Não sei bem quem foi o iniciador dessa legenda urbana, o fato é que funciona como apelo turístico. Todos sabem que Itu é o lugar onde tudo é grande.

Estes dias, um jovem resolveu fazer uma brincadeira. Postou nas redes uma foto com seu cartão de vacinação. Disse que tinha ido a Itu tomar vacina e que lhe tinham dado um cartão enorme. Na montagem, realmente o documento cobre metade do corpo do rapaz. E não é que muita gente acreditou?

A postagem ‘viralizou’, como se diz. Pelo que conta o jovem, “algumas pessoas disseram até que dava pra ter comprado mais vacina com o valor gasto na impressão da carteira de vacinação”.

Pode um negócio desses? Dá até medo de ver a que ponto o povo acredita em tudo o que contam. É comovente, mas também inquietante. A gente começa a entender a razão pela qual tanta gente bota fé nas lorotas do capitão.

Como é que se faz pra ensinar à juventude que não convém acreditar em tudo o que se vê, nem em tudo o que se ouve ou lê? É urgente encontrar solução.

Do jeito que está, vamos direto pro buraco. Com fábricas de notícias falsas brotando por toda parte (inclusive e principalmente no Planalto), a juventude vai estar cada vez mais desorientada.

Qui se ressemble

José Horta Manzano

O comportamento das autoridades brasileiras continua assombroso. Chegou a hora de perguntar se há um limite.

Acredito que seja do conhecimento de todos que um templo dito «de Salomão» foi inaugurado em São Paulo. Já me referi a esse assunto dias atrás. Está aqui .

Que fique bem claro: este não é um panfleto anticlerical. Continuo acreditando que assuntos religiosos residem no foro íntimo de cada um e de lá não deveriam sair. Se uma seita conseguiu juntar os quase 700 milhões de reais que custou a construção desse edifício, good for them ― sorte deles. Como se dizia antes da autocensura que hoje vigora: eles, que são brancos, que se entendam.

Imagino que parte desses milhões tenha saído do bolso de gente simples de espírito e escassa de finanças. É a prova do sucesso espetacular de um casamento perfeito entre populismo e messianismo. Mas não é esse o ponto que quero hoje abordar.

Todos os jornais denunciaram, uns dois ou três dias antes da inauguração, o fato de a autorização de construir ter sido expedida com base em dados fraudulentos. Os empresários, para escapar das restrições inerentes a construções novas, alegaram que se tratava da reforma de prédio existente.

by Júnior Lopes, desenhista paraense

by Júnior Lopes, desenhista paraense

Na verdade, o alegado prédio já havia sido demolido anos antes. Nada mais restava senão um terreno nu. Com essa declaração falsa, a seita logrou burlar a regulamentação de zoneamento e, ainda por cima, economizar alguns milhões em emolumentos.

Autorização de construir alicerçada por declaração ardilosa ― como qualquer um pode imaginar ― não tem validade, é nula. As autoridades competentes podem entrar com ação demolitória.

O embuste foi anunciado aos quatro ventos dias antes da inauguração. Apesar disso, as mais altas autoridades da República fizeram questão de comparecer à cerimônia. Estavam lá a presidente do país, o governador do estado, o prefeito da cidade, o vice-presidente do STF, magistrados, militares, parlamentares, ministros.

Todos aqueles medalhões mandaram ao povo um recado claro: a lei é feita para deserdados. Pobres e remediados são os que têm de obedecer. Já empresários bilionários não estão sujeitos a esses incômodos. Estão acima da lei comum.

Os figurões vieram «prestigiar» o empresário trapaceiro. Qui se ressemble s’assemble, dizem os franceses ― os semelhantes se atraem. É de deixar de queixo caído.

Pra terminar, fica uma pergunta: cá entre nós, alguém acredita que haverá ordem de demolição?

E mais uma, de última hora: será que o prestígio do Lula anda tão baixo que se esqueceram de convidá-lo?

Interligne 18bVídeo da inauguração
Um novo «Reino de Deus» in Deutsche Welle