Pijânio

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 25 julho 2020.

Há pontos de contacto entre o governo de doutor Bolsonaro e a passagem meteórica do folclórico Jânio Quadros pela Presidência. Ainda que não se enquadrasse no figurino de pessoa de fino trato, Jânio não descia à profunda vulgaridade do presidente atual. Esse não é, por certo, ponto de afinidade entre os dois. O populismo de Quadros se resumia a subir ao palanque de comícios, cabelo desgrenhado, mordiscando um sanduíche de mortadela, a reclamar da carestia. Diferentemente de Bolsonaro, Jânio era o que hoje se costuma chamar de ‘workaholic’, termo inestético que define um viciado em trabalho. Era o primeiro a chegar ao Planalto e o último a sair. Portanto, o apego ao batente tampouco era ponto comum entre os dois.

Jânio teve a sabedoria de escolher os titulares de seu enxuto ministério (13 pastas) entre profissionais de alto nível. Ainda não era moda trapacear com currículo, o que facilitava a seleção. Cattete Pinheiro, ministro da Saúde, era médico sanitarista e senhor de longa experiência; Brígido Tinoco, da Educação, era membro da Academia Fluminense de Letras e autor de uma dezena de livros; Afonso Arinos de Mello Franco, das Relações Exteriores, era imortal pela Academia Brasileira de Letras e autor de mais de 30 obras. Não, a escolha de ministros tampouco foi o ponto comum entre Jânio e Bolsonaro.

O verdadeiro ponto de encontro entre os dois presidentes é este: o pendor para cuidar do particular em detrimento do global. Incipiente em Jânio, essa tendência de cuidar do detalhe e perder de vista o principal foi potencializada por Bolsonaro. Tivesse ficado mais que sete curtos meses no cargo, talvez o presidente-relâmpago de 1961 tivesse elevado a tendência ao pedestal de política de Estado. Não deu tempo.

As estrepolias de Bolsonaro, por serem recentes, estão na camada de cima da memória de todos. Se bem que, de tão numerosas, algumas pérolas acabam rolando para o esquecimento. Logo no início do mandato, o doutor propôs-se a transformar um santuário ecológico da costa fluminense num polo turístico; mostrou-se disposto a vedar o financiamento de filmes que não lhe agradassem; atracou-se pessoalmente com jornalistas e órgãos da imprensa. Enfim, cuidou de muita miudeza, mandando o principal para fora do tabuleiro.

Última Hora (RJ), 27 março 1961

Voluntarioso mas sem visão de conjunto, Jânio preferia seguir a própria intuição, caminho arriscado. Um belo dia, resolveu ditar moda. Não ficou claro de onde tirou a ideia. (Com JQ, nem tudo era claro.) Baixou um decreto criando uma espécie de farda, uma vestimenta uniformizada para uso dos funcionários federais, do presidente da República ao mais humilde. Dependendo do olhar de cada um, o ‘slack’ – esse era o nome da indumentária – deixava impressão diferente: podia lembrar o traje civil obrigatório na China, o uniforme do indiano Nehru, a roupa do egípcio Nasser, a ‘guayabera’ centro-americana.

A ordem presidencial determinava o uso, mas não previa financiamento. Cada um que se virasse. Os mais abastados torceram o nariz para o modelo, que lhes parecia vulgar. Os mais pobres se perguntaram de onde haviam de tirar dinheiro para comprar o uniforme. Um ou outro funcionário graduado – querendo agradar ao chefe – adotou logo a novidade. Jornalistas eram mais severos. Advertiam: «Esqueça-se o presidente de uniformes e de outras pequenas coisas e volte suas vistas para os grandes problemas do Brasil!» ou ainda «Acorde e medite, presidente, para que sua prometida ‘revolução’ não se reduza ao uso do ‘slack’!».

A permanência de Jânio na Presidência foi curta demais para apurar se a moda do ‘pijânio’ pegou. É de duvidar que pegasse. Ninguém gosta de novidades impostas de cima pra baixo. Essa rejeição se repete hoje quando Bolsonaro, que doutor não é, transpõe os limites de suas funções e se põe a fazer propaganda de remédio. Essa, nem um excêntrico Jânio ousou. Portar o uniforme janista era apenas questão de bom ou mau gosto. Já o tratamento preconizado por Bolsonaro é desaconselhado por autoridades médicas mundiais por representar risco para a saúde. Para JQ, é tarde; mas para Bolsonaro vale o conselho: cuide, presidente, que sua passagem pelo Planalto deixe rastro mais nobre que o do charlatanismo.

Azul e rosa

José Horta Manzano

Como peixe, o homem morre pela boca. Já disse e repito que está faltando coordenação à comunicação do novo governo federal. Falar, qualquer um fala. Dizer coisa com coisa, discorrer com lógica dentro de uma fala coerente é outra coisa. Medida importante e urgente a ser tomada pelo novo presidente é a designação de porta-voz oficial. Quanto aos demais assessores, devem manter boca fechada. Dá mais certo.

A peripécia mais recente foi protagonizada pela ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos ‒ aquela senhora da goiabeira, por ela chamada ‘pé de goiaba’. Entre risos e oba-oba, falando para plateia amestrada, limitou a paleta cromática do vestuário infantil: «meninas usam rosa e meninos usam azul». E pronto.

Deu um forrobodó dos diabos. Feministas, sexistas, fabricantes de roupa de criança ‒ todos subiram nas tamancas. Como ousa a ministra ditar a moda infantil? «Fui mal interpretada» ‒ desculpou-se ela, lançando mão do surrado pretexto de quem disse o que não devia e se vê obrigada a desdizer-se.

A trapalhada vai-se perder na poeira do caminho, enterrada que será pelos incontáveis quiproquos que estão por vir. Mas, já que estamos falando de vestuário infantil, vamos aproveitar a deixa.

Apesar do gosto restrito da ministra da goiabeira, a paleta de cores é vasta e compreende milhares de nuances. Mais importante do que padronizar roupa de bebê, no entanto, será normalizar a vestimenta de escolares. Pelas vantagens que acarreta, será importante pensar em impor o uso do uniforme a alunos da escola pública. Não será novidade: em muitas partes do mundo é assim que funciona. Entre nós, costumava ser assim num passado não muito distante.

O uniforme é fator importante para mitigar efeitos desagradáveis provocados pela diferença de poder aquisitivo entre alunos oriundos de diferentes classes sociais. Escola não deveria ser lugar para desfile de roupa de luxo. A família de cada aluno fica encarregada de providenciar o uniforme do pequerrucho, seguindo rigorosamente o modelo estabelecido. Em caso de impossibilidade financeira demonstrada deste ou daquele estudante, o Estado tomará a seu cargo a compra do fardamento. Em casa, menino pode se vestir de azul ou de cor-de-rosa, ao gosto do freguês. Na escola, só de uniforme.