Empresas que abandonam a Rússia

José Horta Manzano

Não sei se Vladímir Putin tem o hábito de roer as unhas. Se tiver, há de estar com os dedos em carne viva estes dias. Deve estar maldizendo a hora em que teve a estrambótica ideia de invadir a vizinha Ucrânia. Decerto imaginava que, se o resto do mundo aplicasse alguma sanção em retaliação à invasão, seriam apenas medidas cosméticas, pra inglês ver, nada de sério. Errou feio.

Se alguém tiver curiosidade em dar uma espiada, aqui está uma lista interessante, que converti ao formato pdf. Preparada pela School of Management da Universidade de Yale (USA) e atualizada em 9 março 2022, ela elenca 300 importantes empresas ou entidades que tomaram atitude drástica. A maioria delas suspendeu, até segunda ordem, toda atividade relacionada à Rússia.

Aparecem muitas que já sabemos: Fifa, COI, BBC, McDonald’s, Visa, Mastercard, PayPal. Mas há outras que não saíram nas manchetes. A lista é impressionante. Até o estatal Banco da China reduziu o acesso da Rússia ao mercado de capitais. EBay não despacha mais para a Rússia. O Festival Eurovisão da Canção, que se realiza todo mês de maio e é esperado ansiosamente por todos os países do continente, não aceitará mais a participação da Rússia.

Para consultar o pdf, clique aqui.

Visto no passaporte

José Horta Manzano

Com frequência, ouvem-se reclamações de brasileiros que têm de tirar visto para viajar. Diga-se que, em geral, se trata de viagem aos EUA.

É verdade que é uma chatice. Mas sempre tem gente em pior situação que nós. Veja nos mapas reproduzidos abaixo a situação dos russos. Em matéria de viagem, não podem dar dois passos sem precisar de visto.

Em certa medida, isso explica por que os mais abastados empenham fortunas em países que garantem um “golden visa” (visto dourado, ou seja, autorização automática e permanente de residência) aos que comprarem imóveis ou se propuserem a investir valor significativo.

Portugal e Reino Unido estão entre eles. Dizem que pequenos países, como Chipre e Malta, chegam a “vender” a nacionalidade a estrangeiros muito ricos, que, com isso, se tornam cidadãos da União Europeia e ganham o direito de circular pelo mundo todo livres dessas dores de cabeça.

 

 

Vistos exigidos de cidadãos russos

clique para ampliar

 

 

Vistos exigidos de cidadãos brasileiros

clique para ampliar

 

Disclaimer: Essas informações são dadas a título ilustrativo. O blogue não se responsabiliza pela exatidão nem pela atualização dos dados. Para ter certeza, o melhor é consultar seu agente de viagens ou o consulado do país a visitar.

Z de Zorro

José Horta Manzano

Quando se entra num cômodo, o olho será irresistivelmente atraído para o que houver de vermelho: uma almofada, um quadro, um livro. Não se trata de gostar ou deixar de gostar desta ou daquela cor; simplesmente é assim. Certas cores atraem mais que outras. Com as letras do alfabeto ocorre fenômeno semelhante. Umas são mais atraentes que outras. Umas são mais sexy que outras, como diriam os ingleses.

Uma das letras que maior atração exercem é o Z. Muito tempo atrás, quando a televisão engatinhava, a criançada acompanhava um seriado americano cujo herói era um cavaleiro mascarado chamado Zorro – só os anciãos devem se lembrar. (Diga-se que zorro, em espanhol, é a raposa.) A característica do mascarado era surgir de repente, sempre para castigar os maus, salvar os mais frágeis, marcar o Z de Zorro com a ponta da espada e, em seguida, desaparecer cavalgando.

Por que deram ao protagonista esse nome? Acredito que a letra Z tenha sido fator determinante. Um Z traçado com três golpes de espada é símbolo forte e viril. Um S, por exemplo, não faria o mesmo efeito.

A língua russa utiliza o alfabeto cirílico. Algumas letras são iguais às nossas, mas não todas. Nosso Z não existe no alfabeto russo. O som zê é representado por uma letra que lembra o número 3. No entanto, na Rússia destes tempos de guerra, o Z está se tornando um símbolo fortíssimo. Tornou-se o sinal que distingue todos os que apoiam a invasão da Ucrânia.

Crédito imagem: Reuters

Como surgiu esse símbolo? Ninguém sabe ao certo. O que se sabe é que, de repente, em duas semanas, passou ao primeiro plano, está por toda parte. Na Rússia, em princípio. Há várias teorias que procuram explicar o aparecimento e o significado do Z, que é, repito, letra estranha ao alfabeto usado no país.

Explicações fervilham nas redes sociais russas. No começo, alguns chegaram a imaginar que o Z fosse um número 2 estilizado, usado pra marcar o 22/2/22, dia em que a Rússia assinou um “tratado de amizade” com as províncias separatistas da Ucrânia – o prenúncio da guerra que estouraria dois dias depois.

Crédito imagem: Reuters

A explicação mais aceita atualmente é de que o Z é utilizado para inibir o “fogo amigo”. Todos os veículos militares se parecem. Para destacar os que lhe pertencem, o exército vermelho decidiu marcar os seus com esse sinal. Tentam assim evitar que um tanque russo atire em outro tanque russo.

Eu vejo um problema. A coisa vai, mas a coisa também vem. Explico. Se o Z evita que os russos se massacrem entre si, informa, por outro lado, aos ucranianos quais são os veículos inimigos. Neste último caso, funciona como licença de alvejar: “Ah, esse aí é russo! Pode atirar!”.

Crédito imagem: Reuters

O fato é que o símbolo aparece por toda parte na Rússia, não só nos veículos militares. Pontos de ônibus, anúncios luminosos, camisetas. Ele aparece até bordado em capotes, blusas e paletós usados por executivos. Não só as redes sociais como também o próprio governo estão incentivando a propagação do Z.

Crédito imagem: Reuters

Numa competição realizada estes dias no Catar, um jovem ginasta russo subiu ao pódio exibindo um Z bordado na camiseta. Para piorar a situação, ao lado dele estava justamente um atleta ucraniano. O russo está sofrendo sanções disciplinares aplicadas pela Federação Internacional de Ginástica.

Certas más línguas acreditam que o Z poderia simbolizar Zelenski, o presidente da Ucrânia, alvo principal da invasão russa. Mas não deve passar de especulação.

No mundo que se delineia, eu quase ficaria feliz de não ter filhos

Laurent Sagalovitsch (*)

Que eu saiba, não tenho filhos. Apesar dos repetidos apelos de minhas inúmeras parceiras (duas), eu nunca quis ter. Me faltava pique. Eu estava muito alheio, muito sintonizado com minhas próprias ansiedades para pensar em produzir um herdeiro ou uma descendência. E eu não tinha certeza – ainda não tenho – de que a vida vale a pena ser vivida.

Para mim, era responsabilidade demais. Que direito tinha eu de impor a uma criatura inocente o fardo de viver, de abraçar uma existência que inevitavelmente acabaria numa campa dum cemitério municipal onde, desde tempos imemoriais, os mortos são amontoados? A alegria de seu nascimento teria sido ofuscada pela certeza de sua morte. Assim sendo, raciocinei como o grande otimista que nunca deixei de ser ao longo da vida.

Insisto que, se me comportei assim, não foi com o objetivo de não sobrecarregar o planeta com outro nascimento. Eu não estava motivado por nenhuma ideologia que não fosse preservar minha saúde mental e viver de acordo com o que me parecia ser uma filosofia de vida. O tormento de viver num mundo abandonado à própria sorte, em que Deus se afasta da razão e nos deixa sós e indefesos diante dos mistérios insondáveis do universo, me pareceu um motivo a mais para recusar a procriação.

Quando olho para o espetáculo que o mundo nos tem oferecido ultimamente, fico aliviado por ter agido como agi. Não sei como me sentiria hoje se uma ou duas crianças estivessem me acompanhando na estrada da vida. Decerto eu ficaria aterrorizado. Paralisado de angústia. Atordoado diante dos obstáculos que se levantariam diante delas. Com sentimento de culpa e grande tristeza só de pensar que elas teriam de viver num mundo que perdeu a bússola.

Os desafios para aqueles que sobreviverão a nós são inúmeros. Não somente terão de lidar com desregramentos climáticos em uma escala sem precedentes – aumento das temperaturas, elevação do nível do mar, migração de populações, secas recorrentes, incêndios gigantescos – mas também terão de enfrentar os perigos de guerras residuais que podem degenerar em conflito nuclear a qualquer momento.

Tudo isso tendo, como pano de fundo, sociedades civis profundamente divididas, em que valores progressistas e recuos nacionalistas estão em constante conflito, batalhas titânicas cujo vencedor ninguém saberia hoje prever. Para um número significativo de indivíduos, e em particular para os mais jovens, a própria noção de democracia perdeu sua essência, substituída por uma irrefreável necessidade de autoridade, pelo desejo de ter um líder – um homem providencial capaz do melhor, mas também certamente do pior.

Ainda que a gente procure não escurecer ainda mais o quadro, a evidência está diante de nós: o mundo de amanhã não será um mar de rosas. Teremos de lutar contra o obscurantismo, o conspiracionismo, o retorno do nacionalismo com sua ciranda de loucuras identitárias.

A necessidade de fazer mudanças radicais de comportamento para conter os efeitos do desregramento climático trará uma série de aborrecimentos que vão impactar as liberdades individuais. Essas mudanças vão acabar causando todo tipo de desordem, desde a recusa em obedecer a leis e regras até o desejo de negar o óbvio, com o risco de tornar a crise ambiental ainda pior.

A guerra provocada neste momento pela Rússia entreabre a porta de um mundo largado à própria sorte, no qual até a idéia de um apocalipse nuclear parece ter se tornado uma possibilidade como outra qualquer. Um cenário que ontem parecia inconcebível – uma guerra de conquista territorial nas fronteiras da Zona do Euro – está se desenrolando diante de nossos olhos. Com a possibilidade de ser apenas o prelúdio de novas conquistas.

E tudo isso acontece no final de uma pandemia que nos terá obrigado a nos confinar, a nos vacinar, a usar máscaras e a contar mortos aos milhões, sem a garantia de que outros vírus, ainda mais mortais, não venham perturbar novamente o curso de nossas vidas.

Basta, não aguento mais.

Dito isso, vou me deitar.

Psiu, crianças, silêncio! Papai está dormindo.

(*) Laurent Sagalovitsch é escritor e articulista franco-canadense.

Traduzido do original francês por este blogueiro.

A coragem da velhinha da boina

José Horta Manzano

Todos os que se opuseram frontalmente a Vladímir Putin ou foram assassinados ou estão presos. Sobrou um pacifista aqui, um iluminado ali, um resmungão acolá. Nos tempos atuais, ser iluminado, universalista, saudosista, resmungão ou vegano ainda passa. Mas falar em pacifismo em tempo de guerra é pecado mortal.

A polícia do Estado putiniano mantém sempre olho vivo nesses perigosos agitadores. Ao menor sinal, são imediatamente retirados de circulação antes que contaminem outros cidadãos.

Faz alguns dias, Putin fez aprovar novíssima lei que pune com até 15 anos de cadeia quem ousar se opor à invasão da Ucrânia. A mera utilização da palavra guerra (Война = vainá) pode levar o petulante a ser enquadrado como “terrorista” e a incorrer no mesmo artigo de lei.

Com tantos oponentes presos ou envenenados, uma velhinha pequenina, Yelena Osipova, tornou-se o rosto da frágil oposição ao regime. Aos 77 anos de idade, a velha senhora é figura conhecida na Rússia. Dedicou toda a sua vida a manifestar-se firmemente contrária à guerra e especialmente às armas atômicas.

Na semana que passou, Yelena decidiu enfrentar mais uma vez o frio de São Petersburgo, segunda maior cidade do país, que é, por coincidência, o lugar de origem de Putin e também o seu. Desenhou à mão dois cartazes com slogans pacifistas, enrolou um cachecol em volta do pescoço, cobriu a cabeça com uma boina e foi até o centro da cidade. De pé, em silêncio, passou alguns minutos exibindo seus escritos aos passantes.

O título principal de seus cartazes dizia: нет ядерному оружию во всем мире (=Não às armas nucleares no mundo todo). Em países normais, o espetáculo seria considerado excentricidade inocente de uma pessoa senil. Na ditadura de Putin, porém, as coisas não funcionam exatamente assim. Tudo o que possa, de perto ou de longe, se assemelhar a um desejo de que as “operações especiais” na Ucrânia logo terminem é passível de ser enquadrado no novo conceito de “terrorismo”. Na verdade, trata-se de indisfarçado terrorismo de Estado, isso sim.

Não demorou muito para uma meia dúzia de policiais acorrerem, cada um medindo o dobro da altura da velhinha. Sob aplausos de populares, ela foi levada embora de braço dado com dois “sordado”. Decerto por estarem sendo filmados, trataram a senhora com delicadeza. Pelo menos, diante das câmeras. Depois disso, não se teve mais notícia de Yelena Osipova.

O vídeo de 39 segundos divulgado pelo Tweeter por um jornalista deu a volta ao mundo. Agora que a poeira está baixando, não seria impensável que a velha senhora fosse condenada a passar uns anos nalguma masmorra de Putin. Vindo dele, nada mais espanta.

Marinheiros ou ratos

Eduardo Affonso (*)

Não fosse a Argentina estar sob uma ditadura nos anos 1970, talvez Alfredo Astiz tivesse sido apenas mais um militar da Marinha – hoje na reserva, tomando mate com os amigos no Clube Naval. Não fossem o despudor e a corrupção dos governos petistas, talvez Jair Messias Bolsonaro continuasse a ser só um deputado do baixíssimo clero – hoje num churrasco com os filhos na Barra da Tijuca, contando piadas de quinta série e discutindo pequenos golpes contra o Erário. Mas havia uma ditadura no caminho de Astiz, e sua vocação se revelou: torturador e assassino. Havia um PT no caminho de Bolsonaro. A retórica o tirou do pelotão dos candidatos folclóricos, e uma facada o levou ao Palácio do Planalto.

“A ocasião faz o furto; o ladrão já nasce feito”, escreveu Machado de Assis. Feito, mas inconcluso – depende de meios, motivo e oportunidade.

Volodimir Zelenski era, até outro dia, desconhecido fora dos círculos onde se discute geopolítica. Poderia ter sido advogado (é formado em Direito), ter permanecido como ator e diretor (foi um humorista popularíssimo em seu país) – mas fundou um partido e assumiu, na vida real, o papel que interpretava na ficção, o de presidente. No caminho de Zelenski havia uma pedreira: Vladimir Putin. Que, não fosse por uma perestroica em seu caminho, poderia estar aposentado como agente da KGB, tomando vodca numa dacha com os velhos camaradas e falando mal do capitalismo.

“Eu sou eu e minha circunstância e, se não salvo a ela, não me salvo a mim”, escreveu Ortega y Gasset. A circunstância tragou Astiz, que sequestrava e torturava opositores do regime, e os atirava, vivos, ao mar. Deu pedestal a Bolsonaro, que passara a vida ao rés do chão – um pedestal para o qual lhe faltam estatura, compostura, decoro. Abriu caminho para que o Putin burocrata desaguasse no déspota que manda matar quantos ameacem seu poder, no megalomaníaco que pode empurrar o planeta a uma catástrofe nuclear. E fez de Zelenski o líder improvável, o herói inesperado na resistência a uma tirania.

Lula – “é inadmissível que um país se julgue no direito de instalar bases militares em torno de outros países” x “é absolutamente inadmissível que um país reaja invadindo outro país” – e Bolsonaro –“somos solidários à Rússia” x “não vamos tomar partido” – estão cada vez mais próximos um do outro na tibieza e na ambiguidade e mais distantes de se salvar e às suas circunstâncias. Na cola desses dois, o momento tem se encarregado de unir os antiamericanos atávicos e os de ocasião, irmanados no mantra de que é a Otan o grande satã, que na invasão da Ucrânia não há mocinhos nem bandidos, que o caso é “complexo”. Vai mostrar quem acredita na soberania e autodeterminação dos povos, na solução pacífica de conflitos, no respeito às leis internacionais – e quem não.

“É na tempestade em alto-mar que se sabe, de fato, quem é marinheiro, quem é rato”, reza o ditado. A tempestade na Ucrânia é nossa circunstância; nos oferece os meios, os motivos, a oportunidade. E tem nos permitido ver, por inteiro, quem é rato, quem é marinheiro.

(*) Eduardo Affonso é arquiteto, colunista do jornal O Globo e blogueiro.

Pertinho

José Horta Manzano

Vista do Brasil, a Guerra de Putin parece distante. Continua valendo o que se acreditava durante o regime militar: o Brasil é uma “ilha de prosperidade” cercada por um tenebroso “mar de intranquilidade”.

A visão umbilical (de quem olha para o próprio umbigo) prosseguiu durante o período lulopetista. As consequências , se chegarem, virão como “uma marolinha”, garantiu um dia o Lula, então presidente da República, ao se referir à crise de 2008, aquela que estrangulou o mundo todo. Brasil incluído.

A alienação continua na era bolsonárica. Incapaz de se dar conta de que o mundo está mudando rapidamente, o capitão continua prestando vassalagem ao ditador russo. Está mais preocupado com a falta de fertilizantes, que pode afetar os negócios de seus amigos, do que com o futuro da humanidade que se delineia.

Os habitantes do continente americano estão, de fato, bem longe do conflito. Têm o direito de se sentir pouco envolvidos na crise. A Ucrânia, de fato, fica pra lá de onde Judas perdeu as botas. Já para os que vivem em território europeu, são outros quinhentos. Para dar uma ideia de grandeza, estão aqui algumas comparações.

Antes de mais nada, tenha-se em mente que aviões e mísseis costumam viajar em linha reta. As indicações que dou abaixo são todas em linha reta.

Pois é bom saber que Zurique (Suíça) está mais perto de Kyiv (capital da Ucrânia) do que São Paulo de Brasília. De Zurique a Kyiv são 1.635 km, enquanto de São Paulo a Brasília são 1.748 km.

Berlim (Alemanha) fica a apenas 800 km de Lviv (Ucrânia). Dá menos que de Belo Horizonte a Curitiba (820 km).

Até o país europeu mais distante da Ucrânia não está tão longe assim. Lisboa (Portugal) está a 2.890 km de Lviv (Ucrânia). Isso dá menos que Belém – Florianópolis: 2.910 km.

Essa é a razão pela qual, aqui na Europa, não se fala em outra coisa. A Guerra de Putin ocupa todo o espaço midiático, da manhã à noite. Ao abrir o olho de manhã, todo europeu agarra o celular (ou liga o rádio, para os mais tradicionais) pra saber a quantas anda a loucura do ditador russo. Ninguém está tranquilo. As notícias do front são as primeiras (e as mais longas) de qualquer jornal escrito ou falado.

Dependendo da decisão do desequilibrado que dirige o Kremlin, o conflito tanto pode se resumir à destruição da infeliz Ucrânia, como também pode pôr em perigo a vida no planeta. Ou ambos.

Como é mesmo que se invoca São Benedito em ucraniano? Святий Бенедикт!

A Amazônia é nossa

Amazônia: um condomínio de 8 coproprietários

José Horta Manzano

Nosso capitão continua imerso em confusão mental. Não tem capacidade de entender o que se passa fora de sua bolha. Se o que acontece no Brasil já lhe escapa, o que ocorre na martirizada Ucrânia está totalmente fora de seu alcance.

Bolsonaro, que não lê e só se informa pelo que contam seus aduladores pelas redes sociais, não sabe os comos e os porquês do que se passa no mundo. Rússia, para ele, é aquele país muito grande, em que ele passou um frio danado ao descer do avião, por ter esquecido de perguntar qual era a temperatura externa.

Deve-se lembrar também que a Rússia é o país onde outro dia ele teve de dar as narinas cinco vezes ao teste anticovid, mas em seguida foi recebido como um rei por um baixinho de nome meio cômico que até parece palavrão. Deve saber ainda que seus amigos agrotrogloditas brasileiros importam fertilizantes da Rússia. Afora isso, não deve saber grande coisa. Pelo que se vê, seus áulicos também não.

Nem de longe ele consegue perceber que nosso planeta se encontra em uma daquelas esquinas cruciais da História, num daqueles momentos em que o futuro da humanidade nas próximas décadas está sendo equacionado.

Talvez não lhe tenham contado que, dois dias atrás, quando a assembleia geral da ONU aprovou uma moção exigindo a retirada imediata das tropas russas da Ucrânia, apenas 5 dos 193 países-membros se opuseram. O Brasil aprovou a moção, decerto à revelia do próprio Bolsonaro.

Reconheço que, ao escrever os parágrafos acima, forcei um pouco nas tintas. Pouco. O exagero é leve. A verdade não está muito longe. Acho até injusto espalhar a responsabilidade pelos membros do clã e da equipe do capitão. Se ele mostrasse interesse, tenho certeza de que encontraria rapidamente assessores bem informados e solícitos, prontos a esclarecer. O problema é que ele não quer. E ponto final, talquei?

O mundo está atento a cada fragmento de informação que chega do front. Noite passada, bombas caíram a alguns metros da maior central nuclear da Europa, no sul da Ucrânia, com 6 reatores e geração total de 6.000 megawatts (Angra 1 gera 640 megawatts). Mais de um milhão de cidadãos daquele país já encontraram refúgio nos países vizinhos, onde estão sendo acolhidos com carinho. Ontem, o presidente da França, depois de passar hora e meia (contadas no relógio) em conversa telefônica com Putin, fez comentário assustador: “O pior ainda está por vir”.

Enquanto isso, nosso esclarecido capitão continua firme em seu fascínio por Putin. Parece até que tem atração por homens poderosos – Trump, de estatura avantajada, e agora Putin, menos dotado pela natureza, com seu metro e setenta. Ainda ontem, fez declaração agradecida ao ditador russo. Confessou estar feliz pelo cala-boca que Putin teria dado ao mundo sobre uma suposta e irreal internacionalização da Amazônia brasileira.

Pouco inteirado da realidade, Bolsonaro acredita que as expressões Amazônia e Amazônia brasileira são sinônimas. Não são. A Amazônia – falo da floresta integral, ou do que resta dela – se estende por 8 países. O Brasil tem, portanto, 7 sócios nessa região. A internacionalização, seja lá o que isso possa significar, da Amazônia é irrealizável. Teria de expropriar parte do território de 8 países, um dos quais é a própria França (Guiana Francesa). Seria um quebra-cabeça impossível de resolver.

Embora a espoliação da Amazônia brasileira seja o pesadelo número 1 de muito general, e do próprio Bolsonaro, ela é inviável. Inviável não: ela acontece diariamente. A espoliação vem sendo praticada por garimpeiros, madeireiros e grileiros ilegais, nas barbas do andar de cima. Ou com sua cumplicidade.

Portanto, quem tiver contacto com o capitão faça a fineza de informá-lo que não precisa reverenciar Putin, visto que não é a Amazônia brasileira que está prestes a ser ocupada por sabe-se lá que exército. É o mundo que está diante de uma encruzilhada. O embate é entre a democracia e a autocracia oligárquica. Estamos decidindo em que mundo queremos viver.

Não convém confiar em autocratas. A Ucrânia também acreditava que os russos eram um país-irmão. Até que um dia os mísseis de Putin começaram a derrubar prédios e seus tanques de guerra invadiram o país.

No dia em que zunirem os mísseis de Putin, o que é que Bolsonaro vai fazer? Pedir ajuda a quem, se já se indispôs com todos?

O sonho dos tsares

clique para ampliar

José Horta Manzano

Putin é mentalmente desequilibrado, mas não chega a ser suicida. (Pelo menos, é o que se espera.) A estas alturas, há de ter entendido que subjugar a Ucrânia será tarefa complicada, talvez impossível. O país periga virar um atoleiro como foi o Vietnã para os americanos.

Ninguém, talvez nem o próprio Putin, sabe que rumo tomará essa guerra. Perdido por perdido, o que interessa agora é agarrar a parte do território ucraniano que interessa a Moscou.

O imenso território da Rússia equivale ao dobro do nosso. O país, muito extenso de leste a oeste, cobre nada menos que 11 fusos horários. Apesar disso, a Rússia sofre um problema secular: a posição encravada e a falta de saída para mares quentes não lhe permitem movimentar a frota naval o ano todo.

Na face norte, o país tem longo litoral banhado pelo Oceano Ártico. O problema é que o mar está congelado boa parte do ano. Nenhum navio passa.

Uma parte da face leste da Rússia é livre de gelo, mas o porto de Vladivostok, que lá se encontra, está a 10 mil quilômetros de Moscou e do grosso da população e das indústrias do país.

A face oeste, a mais próxima do centro de gravitação do país, está “bloqueada” pela Europa. Desde o tempo dos tsares, o sonho geopolítico russo foi expandir seu território para o lado europeu. A cada guerra, procuravam se apossar de mais um trecho de litoral. Foi assim que ficaram com parte do litoral da Finlândia, da Polônia e, mais recentemente, da própria Ucrânia, quando anexaram a Crimeia.

Putin certamente encampou o antigo sonho nacional. A atual invasão da Ucrânia parece ser a primeira batalha de uma guerra de conquista de território. Seu plano devia ir muito mais longe. Imaginava que os europeus não conseguissem se entender e cada país reagisse por si. Não contava com a encarnada resistência dos ucranianos. Não acreditava que as sanções fossem atingir sua economia tão duramente. Não botava fé na repulsa que sua guerra causaria ao redor do globo.

Não deu muito certo. Diante da realidade que frustra seus sonhos de conquista rápida e sem resistência, deve estar tentando encontrar o melhor meio de abandonar (por enquanto) o plano inicial, sem perder a face. Estará considerando que, se se contentar em abocanhar um bom trecho do litoral da Ucrânia ninguém vai reclamar. A hora é agora.

Repare no mapa acima. Vê-se a península da Crimeia (hachurada em branco e rosa), totalmente circundada pelo mar, que já foi anexada de facto em 2014. Nota-se que as províncias separatistas do leste estão ocupadas e praticamente anexadas. O oeste do país, na direção da Polônia e da Romênia, está intocado, sem bombardeio e sem invasão.

Quanto ao litoral, fica claro que as tropas se empenham em ocupar toda a região costeira. Se conseguirem fazer a junção entre Donetsk e Kherson – e sem dúvida vão conseguir –, a Rússia será a única dona do Mar de Azov. De quebra, fica com o porto ucraniano de Mariupol, com todas as suas instalações. Conhecendo Putin, não parece impossível que ele ouse anexar todo o litoral ucraniano, privando assim o país de saída para o mar.

No Brasil, tem gente que se engasga com camarão mas sobrevive. Na Rússia, parece que veneno se vende em supermercado, tão grande é o número de oponentes ao regime que, acidentalmente, ingerem uma dose – e não sobrevivem. Putin que se cuide.

Quando sair (ou “for saído”) do Kremlin, ele terá conseguido transformar em realidade uma parte do velho sonho imperial russo. A não ser que seu desequilíbrio mental seja mais forte do que se imagina e ele decida atacar algum país da Otan. Se isso acontecer, será a Terceira Guerra Mundial em ação.

Kyiv, não Kiev

Kyiv, não Kiev
Logo da campanha de 2019

José Horta Manzano

Em 2019, o Ministério de Relações Exteriores da Ucrânia lançou uma campanha de informação sobre a grafia do nome da capital do país.

O mundo foi informado de que a forma Kiev corresponde à transliteração (transposição para o alfabeto latino) do nome que os russos dão à cidade. Em caracteres cirílicos segundo a variante russa, é КИЕВ. O governo da Ucrânia solicitou que se passasse a usar a transliteração a partir do nome original ucraniano: Kyiv, que, em caracteres cirílicos segundo a variante ucraniana, é КИЇВ.

O governo dos EUA aquiesceu ao pedido e logo adotou a forma ucraniana do nome da capital. O New York Times foi atrás e oficializou a forma Kyiv. A inglesa BBC veio a seguir. Fora do mundo anglo-saxônico, o pedido da Ucrânia tem sido ignorado. Franceses, espanhóis e brasileiros continuam escrevendo e lendo Kiev.

Nestes tempos de uma Ucrânia martirizada pela covarde invasão russa, não custa chamar-lhes a capital como eles pedem. Este blogueiro, embora não conte com a equipe de revisores do governo americano nem do New York Times, vai ficar atento. Não custa.

O mal que Bolsonaro nos faz

Em azul: países que condenaram a invasão russa
Em vermelho: países que aprovaram
Em amarelo: países que ficaram em cima do muro
Crédito infográfico: Le Temps, Genève

José Horta Manzano

A Guerra de Putin, como vem sendo apropriadamente descrita por vários órgãos de imprensa, tem feito efeito de um tsunami: repentino, violento, não deixa escapar ninguém, cada um se protege no lugar que escolhe. Há quem corra para o morro, mas há alguns que correm para a praia.

Coisas nunca vistas têm acontecido. Desde que Adolf Hitler invadiu metade da Europa, na virada dos anos 1930 para a década seguinte, nada de parecido tinha voltado a ocorrer.

Em 48 horas, a Alemanha encontrou saída legal que lhe permita enviar armas a zona de guerra – ato inconcebível até a semana passada.

Após pequena hesitação inicial, o Conselho Federal Suíço (o Executivo colegiado) decidiu arranhar a histórica neutralidade do país, em vigor desde o Congresso de Viena, de 1815. Essa brecha, que permitiu a Berna opor-se à Guerra de Putin e designar Moscou como agressor, deu base legal para a adesão total da Suíça às sanções aplicadas pela União Europeia.

Os países da União Europeia inteira, mais a Suíça, fecharam seu espaço aéreo para todo e qualquer avião russo. Aviões de carreira e jatinhos privados esbarram na mesma proibição.

A China, que, faz poucas semanas, tinha recebido Vladímir Putin com tapete vermelho e juras de amor, começa a tomar suas distâncias de Moscou. É sintomático da visão longa que os chineses têm do futuro. O que a Rússia está fazendo na Ucrânia é exatamente o que a China gostaria de fazer em Taiwan. No entanto, Pequim prefere esperar. Não gostaria de sofrer as duríssimas sanções aplicadas a Moscou. Taiwan fica para quando der.

A Finlândia e a Suécia, que sempre preferiram manter-se neutras e nunca aderiram à Otan, dão sinais de rever sua posição. Quer Putin goste ou não, a realidade atual na Ucrânia mostra que abrigar-se sob o guarda-chuva do Tratado do Atlântico Norte não é mau negócio. Não há que esquecer que a Rússia é vizinha de parede da Finlândia, com 1.340 km de fronteira terrestre, em terreno absolutamente plano. Com um Putin no trono, nunca se sabe.

A perspectiva de escassez de gás e de petróleo, matérias primas que a Rússia exporta em quantidade, está levando a Europa a reconsiderar rapidamente sua matriz energética. Em vez de depender da Rússia, os europeus terão de encontrar, da noite para o dia, outro fornecedor. A longo prazo, quem vai sentir os efeitos duradouros é a própria Rússia.

É de apostar que todos os países europeus, que tinham afrouxado seus investimentos militares desde a queda do Muro de Berlim, voltem a dedicar maior fatia do orçamento a despesas bélicas. É o rearmamento em marcha forçada.

Como se vê, que Putin anexe a Ucrânia ou que aquilo se transforme num atoleiro como o Vietnã, pouco importa. A loucura de Putin teve o condão de despertar um medo que todos imaginavam morto e enterrado há 30 anos. Durante todo o período da Guerra Fria, que durou 45 anos, o mundo ocidental cultivou o pavor dos russos. Agora, justamente quando todos começavam a esquecer e considerar a Rússia como um país normal e igual aos outros, catapum! Eis que a estupidez de um autocrata de visão limitada nos traz de volta um passado de pesadelo.

Desde já, a Rússia já está excluída do conjunto das nações civilizadas. E por décadas. E a Guerra de Putin, tenha ela o desenlace que tiver, terá dado um resultado positivo: pôs a Ucrânia no mapa. Um país obscuro, perdido nos confins das estepes, pobre, do qual ninguém sabia grande coisa, agora entrou para o time dos países europeus. E não é impossível que, dentro de algum tempo, seja aceito como membro da União Europeia. E até da Otan. Ou será otimismo demais?

Enquanto isso, o Planalto resiste. No infográfico que aparece na abertura, os países que condenaram a invasão russa aparecem em azul – coincidentemente, são os mais civilizados e avançados. Em vermelho, estão os que aprovam Moscou. Em amarelo, aparece a turma que ficou em cima do muro, incluindo o Brasil de Bolsonaro, naturalmente.

Repare que estamos em má companhia. Na América Latina, nossos companheiros são Cuba, Nicarágua e Bolívia. Em seguida, vêm a China, a Índia, o sudeste asiático, o Irã, as autocracias petroleiras árabes e a África praticamente inteira.

Como dizia um antigo chanceler do capitão, o Brasil tem orgulho de ser pária. Bolsonaro segue o ensinamento à risca.

O humorista e o imbecil

Manchete do jornal russo Ria Novosti
28 fev° 2022

José Horta Manzano

Francamente, Bolsonaro não perde uma oportunidade para escancarar sua estupidez. Sua estreiteza mental é tão impressionante, que às vezes a gente acha que ele está brincando. Parece que sua visão de mundo, bitolada por natureza, se afunila a cada dia que passa.

Num momento em que o mundo civilizado se movimenta para mostrar a Putin que ele errou ao invadir a Ucrânia, lá vai nosso capitão defender o ditador. E aproveita o ensejo para desmerecer, gratuitamente, o presidente da Ucrânia, eleito democraticamente por seu povo.

A mídia russa, enfeudada a Putin, não tem liberdade para publicar nada que possa desagradar ao capo. A manchete de ontem do Ria Novosti, que reproduzo acima, narra uma frase de Bolsonaro:


«Bolsonaro declara que os ucranianos “confiam em um humorista para determinar o destino da nação”»


Na arte de fazer inimigos, o capitão é imbatível. Imprudente, não se dá conta de que, ao pronunciar com desdém a palavra “comediante”, ele está ofendendo por tabela todos os humoristas, cômicos e comediantes do planeta. O néscio não sabe que o “comediante” que ele despreza tem-se revelado ser providencial chefe de guerra, um homem corajoso e combativo, um esteio, uma referência para um povo martirizado pela covarde invasão de Putin. Não se pode afirmar que Bolsonaro agiria com tanta dignidade se estivesse no lugar do “comediante”.

A mente estreita do capitão não lhe permite enxergar que, ao fixar seu empenho na importação de fertilizantes, está se posicionando na contracorrente do mundo civilizado. Todos os países que estão condenando a Rússia e impondo sanções econômicas ao país também comerciam com o país dirigido por Putin. Todos vão sofrer em maior ou menor escala. Há países, na Europa principalmente, cuja dependência da Rússia é bem maior que a do Brasil. No entanto, todos entenderam que a hora é grave e que o equilíbrio mundial está ameaçado. Eis por que aderiram ao embargo.

O espaço aéreo europeu está fechado para aviões russos. Os haveres dos bilionários oligarcas próximos de Putin estão congelados, indisponíveis. As reservas do Banco Central russo também estão bloqueadas. A própria Fifa excluiu a Rússia de toda competição de futebol – coisa nunca vista! A onda de solidariedade que se levanta em todos os países europeus é impressionante. Doações se amontoam nos centros de coleta; para acolher refugiados, cada um oferece o que pode: uma casa de campo, um quarto, uma cama.

O ministro da Economia da França declarou nesta terça-feira que as sanções impostas pela parte civilizada do mundo vão estrangular e derrubar a economia russa. É exatamente esse o objetivo. Se der certo – e certamente vai dar –, Bolsonaro terá apostado mais uma vez no cavalo errado. Esta nova (e irresponsável) aposta vai entrar para uma longa lista que inclui candidatos derrotados no Brasil, na Argentina, na Bolívia, no Chile. E até o mais vistoso de todos: o folclórico Donald Trump.

É nas horas difíceis que se conhecem os verdadeiros líderes. Na sua terrível desgraça, os ucranianos têm hoje um consolo. Sabem que elegeram um presidente à altura do cargo. O “humorista” tem a coragem e a dignidade que sua posição exige, e que nosso capitão não tem.

Não é à toa que Volodímir Zelenski se tornou o alvo número um de Putin. Ninguém sabe como as coisas vão evoluir e como vai terminar essa infame agressão. Mas uma coisa é certa: que saia dessa vivo ou morto, o “comediante” tem lugar para sempre reservado na memória nacional ucraniana. As gerações futuras ainda vão ver estátuas do herói e estudar suas façanhas nos livros de história.

Já quanto a nosso capitão, ai, ai, ai…

O incontrolável Putin

– Você está vendo chegar alguma coisa?
– O passado!
by Patrick Chappatte (1966-), desenhista suíço

 

José Horta Manzano

Putin me lembra cada vez mais Bolsonaro. Sofrem ambos do mesmo mal. Ao adotar o terror como método de mando, recebem de volta uma submissão obsequiosa mas vazia, que lhes acaba sendo nociva.

Vladímir Putin, o obscuro buracrata de 30 anos atrás, aprendeu a dirigir seus comandados utilizando os métodos pouco ortodoxos que aprendeu com seus superiores. Os anos que passou na polícia secreta lhe ensinaram a ser dissimulado, duro e impiedoso. Os anos que passou como braço direito do chefe da máfia de São Petersburgo lhe ensinaram a impor-se pela violência desabrida e ilimitada, exatamente como fazem os chefes mafiosos.

É desse modo que Putin entende que devam ser resolvidos os conflitos: primeiro, pela dissimulação e pelo engodo; em seguida, pela violência sem rédeas.

O rapaz subiu na vida, enricou, tornou-se homem de poder. Mais temido que respeitado. Infunde o terror a seu redor. Seus áulicos se dividem em dois grupos: os do “sim” e os do “sim, senhor”.

O ditador pode até ser esperto, mas ninguém é perfeito. Ele não tem qualidades de estrategista militar – não foi formado para isso. Na sua cabeça encruada, descurou a dimensão emocional. Dado que é praticamente desprovido de emoções tem dificuldade em imaginar que os outros possam, em certas circunstâncias, agir sob o império do abalo e da comoção.

Quando expôs a seus ministros e generais o plano de invasão e anexação da Ucrânia, as reticências de alguns, se houve, terão sido tímidas. Quem é que ousa contradizer o chefão? Afinal, todos devem a ele o cargo e as benesses. (Isso me lembra alguém, mas não é o caso de mencionar aqui, que o tema é outro.)

Putin não levou em consideração, talvez por não ter aprendido, que não há nada melhor para unir um povo que um inimigo externo. Os bondosos irmãos Castro e o bigodudo Maduro aprenderam isso há séculos – eis por que não se cansam de praguejar contra o “império”. Basta mencionar o império para acender a chama patriótica no povo.

Putin provavelmente imaginava que, à vista do primeiro tanque de guerra russo, o povo ucraniano lançaria flores aos invasores e cantaria loas à glória do capo de Moscou. Deu tudo errado. A Ucrânia, minúsculo território comparado à Rússia, e o exército ucraniano, um anão comparado ao superequipado invasor, têm dado conta do recado. Até o momento em que escrevo, travam luta heroica e retêm os agressores.

Circulam na mídia cenas comoventes de chefes de família que acompanham mulher e filhos até a fronteira polonesa e, depois de deixá-los em lugar seguro, despedem-se e sobem no trem para voltar. “Quero lutar para ajudar meu país a expulsar os invasores”. É emocionante.

Ganhar o domínio dos ares é fácil, quando se possuem armas de última geração, mísseis, caças, drones. Avançar em embates urbanos é completamente diferente. E bem mais complicado. Os generais russos de 80 anos atrás sabiam disso. Levaram dias e dias para chegar ao centro de Berlim. Foram lutando casa por casa, quarteirão por quarteirão até chegar à sede do poder. Pelo que se vê, os generais de Putin esqueceram a lição. Ou o chefe lhes deu um cala-boca.

O mesmo efeito de coesão diante da ameaça se observa entre os membros da Otan e da União Europeia. Putin tentou se aproveitar das divisões internas. Imaginou que os europeus nunca chegassem a um acordo. Deu com o nariz na porta. Em 48 horas, colheu espinhos.

Os 27 membros da UE fecharam o espaço aéreo para aviões russos e cancelaram todos os voos para a Rússia. Com isso, ninguém mais vai da Europa a Moscou, a não ser que passe pelo Saara ou pela Mongólia. A Alemanha dobrou o orçamento militar, coisa nunca vista desde 1945. A moeda russa derreteu. Os jovens soldados russos enviados por Putin devem se perguntar o que é que estão fazendo na Ucrânia, atirando contra mulheres e crianças que são, no fundo, iguais a eles.

Na História moderna, não há registro de estrategista tão ruim. Só por isso, Putin merecia ser despachado de volta à própria insignificância. Um golpe de Estado na Rússia seria aplaudido no planeta. Daria um alívio ao mundo. Até que surgisse novo aprendiz. Num país de tradição autoritária como aquele, tudo é possível.

Como parar Putin?

José Horta Manzano

Muito tem sido dito sobre Vladímir Putin.

  • Que foi formado nos serviços secretos da finada União Soviética.
  • Que tem o perfil de chefe mafioso.
  • Que está sozinho no topo de um sistema vertical de governança.
  • Que tem pretensões expansionistas.
  • Que tem olhos mas não tem olhar.
  • Que o pouco que tinha de expressão facial se perdeu, congelado sob baldes de botox.
  • Que é frio, impiedoso e cruel.
  • Que sua imensa fortuna provém da espoliação do maior bilionário russo, que ele mandou condenar, num processo viciado, a pesados anos de masmorra na Sibéria.
  • Que sonha em entrar para a grande História como aquele que recompôs o Império Russo – não somente a URSS, mas o imenso império tsarista do século 19.

No empenho para alcançar o objetivo de reconstruir a Grande Rússia, a anexação da Ucrânia é apenas o primeiro passo. Certos analistas consideram altamente provável que a próxima vítima seja a Moldávia, pequeno país que faz fronteira com a Ucrânia e que tem o azar de não ser membro nem da Otan nem da União Europeia.

A partir daí, a empreitada começa a se complicar, visto que os países seguintes pertencem a uma das duas entidades (Otan ou UE), ou até às duas. Mas para Putin, que tem um dedo em cima do botão nuclear e que não se importa em ver correr sangue, isso não é problema. Será um problema para o resto do mundo. Reagir? Não reagir? Ninguém sabe como pode evoluir.

Como parar Putin?

Sanções econômicas, como se sabe, nunca derrubaram ditador nenhum. Se assim fosse, países que vivem há décadas sob pesado embargo (Cuba, Irã, Coreia do Norte, a própria Rússia) já teriam se livrado dos autocratas. Não ocorreu.

Usar a força bruta? Quem teria a ousadia de lançar um míssil sobre o Kremlin? Poderia ser o sinal de partida para o fim da humanidade.

Este blogueiro só enxerga uma saída. A possibilidade de sucesso, embora pequena, existe.

Primeira consideração
Os russos consideram os ucranianos como povo irmão. Todo russo tem um antepassado, um amigo, um vizinho, um parente ucraniano. Todo ucraniano tem um antepassado, um amigo, um vizinho, um parente russo. A ligação afetiva entre os dois povos é real.

Segunda consideração
Sabe-se que a informação na Rússia é controlada. Não existe mídia independente. Os poucos jornalistas que ousaram criticar Putin estão hoje enjaulados nas neves siberianas. Ou simplesmente repousam debaixo de uma lápide.

Terceira consideração
A imensa maioria do povo russo, que só recebe a informação oficial filtrada pelo governo, não faz a menor ideia do que está ocorrendo na Ucrânia. Não sabem que soldados russos estão morrendo. Não sabem que o país irmão está sendo atacado com mísseis. Não sabem que tanques de guerra russos passeiam pelas ruas de Kyiv. Não sabem que mulheres e crianças estão sendo trucidadas pelas tropas russas.

Se os russos soubessem o que realmente está ocorrendo, há boas chances de que se revoltassem. Se alguém tem poder de derrubar Putin e os mafiosos que o cercam não são as armas, mas o povo nas ruas. Já vimos isso duas vezes no Brasil.

Mas como levar ao povo a verdade sobre o que ocorre na Ucrânia?

Não estou capacitado a dar conselhos de informática, mas sei que há meios de “derrubar” sites e de substituir seu conteúdo. Também isso já vimos no Brasil.

Os países decentes teriam de reunir seus respectivos piratas informáticos (em português: hackers) e pedir que metessem mãos à obra – em esforço conjugado e orientado, não cada um por si. O intuito não é só “derrubar” as redes de informação russas, mas também inserir nelas informação verdadeira. Em língua russa, naturalmente.

Não me pergunte como fazer porque não saberia dizer. Mas imagino ser possível.

Só que tem uma coisa. Isso teria de ser feito rapidamente, enquanto as tropas russas ainda miram civis do país irmão. Daqui a alguns dias, quando tiverem ocupado a Ucrânia inteira e os combates tiverem cessado, será tarde demais. A invasão de uma insignificante Moldávia não é capaz de comover o coração dos russos, que não consideram os moldávios um “povo irmão”. Ou paramos Putin agora, na aventura ucraniana, ou podemos esquecer. A barreira é agora. Se ela for arrombada, ele vai se sentir livre para mandar suas tropas para onde bem entender.

Se o distinto leitor conhece algum hacker, peço-lhe a fineza de soprar-lhe a ideia ao pé do ouvido. Mas tem de ser rápido.

Notícias do front

José Horta Manzano

Com tanques de guerra russos passeando pelas avenidas de Kyiv, a população civil procura escapar. “É melhor dar por perdidos os bens, desde que nos sobre a vida” – é o reflexo coletivo.

Só no dia de ontem, sexta-feira, 50 mil ucranianos fugiram do país. Ao leste, está a Rússia, o ogro; ao norte, fica a Bielo-Rússia, cúmplice do papão; ao sul, é o Mar Negro. A única rota de fuga é na direção do oeste.

Cinco países fazem fronteira com a Ucrânia: a Polônia, a Eslováquia, a Hungria, a Romênia e a Moldávia. Com exceção da Moldávia, todos fazem parte da União Europeia. Mas quem foge de homens armados não escolhe caminho.

Na Polônia, vivem já centenas de milhares de ucranianos, talvez cheguem a um milhão e meio. São imigrantes, alguns de longa data, todos vindos em busca de melhores oportunidades. Este país será o destino mais procurado pela nova onda de refugiados. Generosa, a Polônia já declarou que aceitará todos os ucranianos que se apresentarem à fronteira.

Viktor Orbán, o ultranacionalista dirigente da Hungria, conhecido por suas posições anti-imigrantes, não há de estar encantado. Assim mesmo, decerto para não fazer feio diante dos demais dirigentes do continente, declarou que seu país está “preparado para acolhê-los com rapidez e eficiência”. Não deu mais precisões. Calcula-se que 600 mil ucranianos podem bater à porta do país nos próximos dias.

A Eslováquia, que tem alguns quilômetros de fronteira com a Ucrânia, afirma estar preparada para acolher os que vierem. Numa previsão de que os combates possam penetrar no país, as autoridades incitaram a população a doar sangue e informaram já ter preparado alojamento para até 5500 militares do exército ou da ONU.

A Romênia é o país mais pobre da União Europeia e os ucranianos sabem disso. Os poucos refugiados que penetraram no país ontem, cerca de 5300 pessoas, têm intenção de seguir viagem em direção à Tchéquia ou à Polônia.

O último vizinho, a Moldávia, não é membro da Otan nem da União Europeia. Assim mesmo, o pavor do invasor russo é tamanho, que 4000 refugiados ucranianos já atravessaram a fronteira nestas primeiras horas.

A Alemanha e a França, embora não tenham fronteira comum com a Ucrânia, já prometeram ajuda maciça aos Estados que acolherem refugiados, em especial a Polônia.

Monsieur Emmanuel Macron, presidente da França, declarou, na manhã deste sábado, que “a guerra será longa” e que “temos de estar preparados”.

O HCR (Alto-comissariado das Nações Unidas para os Refugiados) trabalha com a expectativa de até 5 milhões de ucranianos abandonarem o país e pedirem asilo no estrangeiro. Isso representa entre 11% e 12% da população do país. Aplicando a mesma proporção ao Brasil, é como se 25 milhões deixassem o país. Exceto São Paulo, nenhum estado brasileiro tem população tão grande. É um mundaréu de gente.

Resta esperar que as coisas se acalmem logo e, na hipótese mais otimista, Putin abandone suas pretensões desatinadas e chame a tropa de volta. Não custa sonhar.

“Notícias do front” era a expressão usada pela imprensa durante as guerras europeias do século passado. Todos imaginavam que a expressão pertencia aos livros de História. Engano. A insanidade de Vladímir Putin acaba de desempoeirá-la.

“Front” é palavra francesa que se traduz por linha de frente.

As sanções

José Horta Manzano

Nem só de sanções econômicas vivem os países considerados párias. Há outros tipos de castigos que podem doer bastante. Veja aqui as primeiras consequências das loucuras de Putin, o aprendiz de tsar.

No exterior

O Grand Prix da Rússia de Fórmula 1, previsto para correr em 25 de setembro deste ano em Sotchi, acaba de ser cancelado pela direção do campeonato. Grande Prêmio russo acabou, c’est fini.

A UEFA, que está para a Europa como a Conmebol está para a América do Sul, congrega 55 países. Anunciou hoje que a final da Champions League, prevista para realizar-se em São Petersburgo (Rússia) vai ser disputada no Estádio de France, em Paris. O dia não muda: 28 de maio de 2022.

É de conhecimento público que o maestro russo Valery Gergiev é fiel devoto de Putin. Antes de tomar decisão drástica, o Teatro alla Scala, de Milão, pediu que ele esclarecesse sua posição acerca das decisões do presidente russo. Enquanto isso, o prestigioso Carnegie Hall, de Nova York, não perdeu tempo e passou à frente. Anulou, no último minuto, uma série de representações que o maestro daria já neste fim de semana.

Isso é só o começo.

No interior

O Globo informa que, como vice, o general Mourão preside uma comissão de alto nível composta por vice-presidentes brasileiros e primeiros-ministros russos. A função do fórum é pôr em prática iniciativas conjuntas acertadas pelos respectivos chefes de Estado – Putin e Bolsonaro.

À vista do que está acontecendo atualmente, a realização da próxima reunião, prevista para abril próximo, está em perigo.

Vamos ver se nosso aprendiz de ditador ousa insistir no conceito de “amizade eterna” que une os dois países. Se o fizer, vai ver-se mal com a parte civilizada do mundo.

O cancelamento

Visite a Rússia
Antes que Putin visite você

 

José Horta Manzano

O que ninguém ousava imaginar até poucas semanas atrás ficou claro: a intenção de Vladímir Putin é cancelar a Ucrânia. Estou utilizando o verbo no sentido atual, como ele vem sendo usado nas redes sociais quando se quer “botar alguém fora do jogo”. O objetivo de Putin é o cancelamento da Ucrânia. Ele quer que ela deixe de existir como país e se transforme em província russa.

A Federação Russa é formada por 85 regiões administrativas. Parte delas tem autonomia limitada, enquanto a maioria é governada por interventor enviado diretamente por Moscou. Putin quer transformar a Ucrânia na 86ª região administrativa da federação. E com interventor nomeado.

Por quê?

É preciso voltar algumas décadas e dar uma espiada na “carreira” do personagem que hoje manda e desmanda naquele país. De origem humilde, o jovem Vladímir foi, na escola, aluno medíocre e briguento. Violento, os esportes de luta corporal sempre o atraíram. No fim da adolescência, procurou emprego no KGB – os serviços de espionagem externa, o equivalente soviético da CIA americana.

Sua folha de serviços é a de um obscuro funcionário. Guardadas as devidas proporções, lembra a passagem de Bolsonaro pelo Exército. Putin foi enviado a Dresden (na Alemanha Oriental, então satélite de Moscou), onde permaneceu alguns anos e aprendeu a língua alemã. Com o desmonte da União Soviética, no início dos anos 1990, voltou a Leningrado (hoje São Petersburgo), sua cidade natal.

Retornado à pátria, Putin põe um pé na política. Em pouco tempo, tornou-se assessor de Anatoli Sobtchak, prefeito da cidade. Segundo más linguas, Sobtchak era o “chefe da máfia de São Petersburgo”. Putin tornou-se seu braço direito. Daí para a frente, sua ascensão se acelerou. Não é difícil entender por quê.

Já na segunda metade dos anos 1990, conseguiu ser admitido como assessor de Boris Eltsin, presidente o país. No fim dos anos 1990, Eltsin estava sofrendo pesadas acusações de corrupção e enriquecimento ilícito. Para escapar à justiça, bolou um plano.

Em primeiro lugar, nomeou Vladímir Putin para o cargo de “chefe do governo” e propôs um pacto. Ele, Eltsin, renunciaria à presidência e Putin assumiria no seu lugar. Em troca, Putin assinaria um decreto concedendo imunidade total ao predecessor, o que o livraria de todo processo judicial. Eltsin renunciou em 31 de dezembro de 1999. Naquele mesmo dia, Putin assumiu e assinou o decreto, tal como combinado. Coisas da Rússia. Só da Rússia?…

Naquele momento, Putin era visto como um presidente fantoche, uma marionete manipulada, uma figura inócua e passageira. Quem pensou assim enganou-se pesadamente. O rapaz era vivo e, tendo nas mãos as rédeas do poder, não soltou mais. No fim deste ano, vão se completar 23 anos desde o dia em que subiu ao trono.

Na verdade, o povo russo nunca viveu sob regime democrático. Do feudalismo tsarista, passou à ditadura soviética. Tão acostumados estão a essa opacidade do andar de cima, que não estavam preocupados que o poder estivesse nas mãos de Putin ou de um outro. Isso não era importante, como não é até hoje. Importante mesmo, naquele momento, é que as prateleiras de lojas e supermercados estavam abastecidas. Povo de barriga cheia não faz revolução.

Na Rússia, o poder é vertical, de tipo mafioso: quem manda é o capo, os outros obedecem. (Acaba de me ocorrer a frase de Pazuello.) Não há instituições como conhecemos no nosso mundinho, imperfeito mas democrático. Não há Congresso nem Justiça como conhecemos. O Parlamento e a Justiça estão enfeudados ao chefe. Processos são viciados, oponentes são assassinados ou condenados a pesadas penas de prisão. Toda divergência é silenciada pela violência. A informação é controlada pelo Estado. Não há mídia independente. Só se faz o que seu mestre autoriza. Putin é a versão moderna de um Luís 14, um rei-sol anacrônico que destoa dos ideais de nosso mundo ocidental.

O poder corrompe, como diz o adágio. Putin enfiou na cachola que vai ficar na História como aquele que restaurou a glória do Império Russo dos tempos de antigamente. A conquista da Ucrânia é apenas o primeiro passo. A mídia tem descrito como “guerra” os acontecimentos destes dois dias. Não é a melhor descrição. Não se trata de guerra, mas de invasão pura e simples. Invasão de um país soberano por um outro país soberano. A última vez em que a Europa assistiu a uma barbaridade desse tipo faz 80 anos. O invasor chamava-se Adolf Hitler. Todos sabem como a aventura terminou.

A grande preocupação de Bolsonaro, nosso aprendiz de ditador, é escapar da justiça. Com esse objetivo, tem tentado cooptar as Forças Armadas e aparelhar tribunais. Nossas instituições são mais resilientes que as da Rússia, mas… tudo tem limite. Se nosso aprendiz for deixado à vontade mais algum tempo, podemos chegar a um momento de inflexão, um ponto de não-retorno.

Para se livrarem do perigo, a única arma que os brasileiros têm é o voto. Em outubro, a independência de nossas instituições democráticas depende da decisão dos eleitores. Não haverá segunda chance.

Observação
Não podemos esquecer que, semana passada, o capitão se solidarizou com a causa russa. Declarou isso diante de Vladímir Putin e das câmeras. Até hoje não se retratou. A conclusão é evidente: concorda com o cancelamento da Ucrânia e com todos os males que advirão dessa atrocidade. Nosso perigo mora no Planalto.

Palíndromo

Capicua

José Horta Manzano

Quando vi que se aproximava o dia 22/2/22 – uma combinação de números pra lá de iteressante e rara – escrevi um artigo. Publiquei dia 1° de fevereiro sob o título A escolha da data.

No post, eu dizia que, nos cartórios suíços, já estava ficando difícil marcar um casamento para essa data. Nas grandes cidades, os horários já estavam todos tomados. É que, além do véu, da grinalda e da aliança, é um charme ter uma certidão informando que o casório ocorreu num 22/2/22.

Dia destes, leio no Portal G1 que o 22 de fevereiro deste ano é um palíndromo. Como é que é? – pensei. Palíndromo? Palíndromo não é aquela palavra (ou frase) que tanto pode ser lida da esquerda para a direita quanto da direita para a esquerda? Certamente, o 22/2/22 responde a esse critério, mas… é muito mais que isso. É uma repetição de 5 números, todos iguaizinhos, fato que só ocorre de raro em raro.

Ao ver a ilustração do artigo do portal, entendi o porquê de chamarem a data de “palíndromo”. É que, enquanto este escriba ainda escreve datas à moda antiga, o mundo evoluiu e usa notação bem mais modernosa. Num dia 22 de fevereiro, enquanto continuo enxergando um 22/2, o mundo moderno só jura por um 22/02. Em vez do velho e seguro 14/9, hoje o certo é 14/09.

Para mim, é a prova de que a monotonia da máquina venceu a espontaneidade humana. Em vez de a máquina se adaptar ao modo humano de ser, é o homem que se adaptou à máquina. Mundo estranho, não acha?

Bom, deixando a ranzinzice de lado e voltando à magia do 22 de fevereiro deste ano, acho que, já que estamos mergulhando no universo dessas palavras que, francamente, não se usam todos os dias, vamos aprender certinho.

Diz-se palíndromo de palavra ou frase que pode ser lida tanto da esquerda para a direita quanto de trás pra diante. Para números, a denominação muda. Um número que responde aos mesmos critérios (leitura idêntica de cá pra lá e de lá pra cá) é uma capicua. Quem ensina é o professor Bizzocchi, num interessante artigo.

Palíndromo tem ar de ter origem grega. E tem. Já a curiosa capicua (pronuncie capicúa), de onde vem? Vem do catalão através do espanhol. É formada por cap + cua, onde cap=cabeça e cua=rabo. Com o perdão da redundância, é expressão bem expressiva.

O ensinamento que fica

Palíndromo é para palavras ou frases.

Capicua é para números.

Ao inserir um zero desnecessário antes dos algarismos, podemos nos conformar com o alinhamento exigido pelas máquinas modernas, mas liquidamos o charme de certas sequências fabulosas. Que vale um 22/02/2022 perto de um 22/2/22?

Putin & Maduro

José Horta Manzano

Semana passada, o auê em torno da vistosa excursão de Bolsonaro à Rússia foi tamanho, que um fato inquietante acabou relegado para segundo plano. Exatamente nos dias em que o capitão esteve na capital russa, com uma revoada de jornalistas brasileiros vasculhando todos os montes de neve das esquinas moscovitas atrás do capitão, algo acontecia aqui, bem mais perto de nossas fronteiras.

Foi em Caracas, Venezuela. Putin não veio pessoalmente – nem podia, visto que estava trocando figurinhas com Bolsonaro. Não veio, mas mandou Yuri Borisov, seu vice-primeiro ministro. O figurão encontrou-se com Nicolás Maduro, autocrata de nosso país vizinho.

Neste ponto, é bom lembrar que, talvez sob conselho de Donald Trump, o governo brasileiro desqualificou Maduro, anos atrás, como governante legítimo da Venezuela. Preferiu reconhecer Juan Guaidó como presidente do país. Desde então, a relação entre Maduro e Bolsonaro, que já não era lá essas coisas, azedou de vez.

Maduro, que é tão malcriado como seu par brasileiro, já tratou o presidente do Brasil de farsante, imbecil, neonazista e palhaço. Vê-se que, considerado o nível do vocabulário de cada um, os dois se equivalem.

Logo no dia da chegada do vice-premier russo a Caracas, foi publicada a razão da visita. O emissário de Putin veio assinar um acordo de cooperação militar com a Venezuela. Quem botou a boca no trombone foi o próprio Maduro, por meio de um tuíte. (Aparentemente, ele não privilegia o Telegram, a rede preferida pelo seguidores de Trump.)

Essa desabrida implantação russa em nossa fronteira deixa a impressão de estarmos de volta aos anos 1950-1960, quando a Guerra Fria opunha os bons aos malvados, obrigando cada país a escolher seu campo.

Com a rede de satélites espiões que orbitam atualmente, é inimaginável que a Rússia repita a façanha de 1962, ano em que foi apanhada com a boca na botija quando se preparava a instalar uma base de mísseis em Cuba, a 160km das costas americanas. Além do que, quem se prepara a enfrentar uma empreitada dessa envergadura não costuma anunciar nas redes sociais.

Assim mesmo, a “parceria” entre o belicoso Putin e o animoso Maduro é pra deixar qualquer governo de prontidão. Especialmente quando o consórcio cheira a enxofre e funciona na esquina de casa.