No mundo que se delineia, eu quase ficaria feliz de não ter filhos

Laurent Sagalovitsch (*)

Que eu saiba, não tenho filhos. Apesar dos repetidos apelos de minhas inúmeras parceiras (duas), eu nunca quis ter. Me faltava pique. Eu estava muito alheio, muito sintonizado com minhas próprias ansiedades para pensar em produzir um herdeiro ou uma descendência. E eu não tinha certeza – ainda não tenho – de que a vida vale a pena ser vivida.

Para mim, era responsabilidade demais. Que direito tinha eu de impor a uma criatura inocente o fardo de viver, de abraçar uma existência que inevitavelmente acabaria numa campa dum cemitério municipal onde, desde tempos imemoriais, os mortos são amontoados? A alegria de seu nascimento teria sido ofuscada pela certeza de sua morte. Assim sendo, raciocinei como o grande otimista que nunca deixei de ser ao longo da vida.

Insisto que, se me comportei assim, não foi com o objetivo de não sobrecarregar o planeta com outro nascimento. Eu não estava motivado por nenhuma ideologia que não fosse preservar minha saúde mental e viver de acordo com o que me parecia ser uma filosofia de vida. O tormento de viver num mundo abandonado à própria sorte, em que Deus se afasta da razão e nos deixa sós e indefesos diante dos mistérios insondáveis do universo, me pareceu um motivo a mais para recusar a procriação.

Quando olho para o espetáculo que o mundo nos tem oferecido ultimamente, fico aliviado por ter agido como agi. Não sei como me sentiria hoje se uma ou duas crianças estivessem me acompanhando na estrada da vida. Decerto eu ficaria aterrorizado. Paralisado de angústia. Atordoado diante dos obstáculos que se levantariam diante delas. Com sentimento de culpa e grande tristeza só de pensar que elas teriam de viver num mundo que perdeu a bússola.

Os desafios para aqueles que sobreviverão a nós são inúmeros. Não somente terão de lidar com desregramentos climáticos em uma escala sem precedentes – aumento das temperaturas, elevação do nível do mar, migração de populações, secas recorrentes, incêndios gigantescos – mas também terão de enfrentar os perigos de guerras residuais que podem degenerar em conflito nuclear a qualquer momento.

Tudo isso tendo, como pano de fundo, sociedades civis profundamente divididas, em que valores progressistas e recuos nacionalistas estão em constante conflito, batalhas titânicas cujo vencedor ninguém saberia hoje prever. Para um número significativo de indivíduos, e em particular para os mais jovens, a própria noção de democracia perdeu sua essência, substituída por uma irrefreável necessidade de autoridade, pelo desejo de ter um líder – um homem providencial capaz do melhor, mas também certamente do pior.

Ainda que a gente procure não escurecer ainda mais o quadro, a evidência está diante de nós: o mundo de amanhã não será um mar de rosas. Teremos de lutar contra o obscurantismo, o conspiracionismo, o retorno do nacionalismo com sua ciranda de loucuras identitárias.

A necessidade de fazer mudanças radicais de comportamento para conter os efeitos do desregramento climático trará uma série de aborrecimentos que vão impactar as liberdades individuais. Essas mudanças vão acabar causando todo tipo de desordem, desde a recusa em obedecer a leis e regras até o desejo de negar o óbvio, com o risco de tornar a crise ambiental ainda pior.

A guerra provocada neste momento pela Rússia entreabre a porta de um mundo largado à própria sorte, no qual até a idéia de um apocalipse nuclear parece ter se tornado uma possibilidade como outra qualquer. Um cenário que ontem parecia inconcebível – uma guerra de conquista territorial nas fronteiras da Zona do Euro – está se desenrolando diante de nossos olhos. Com a possibilidade de ser apenas o prelúdio de novas conquistas.

E tudo isso acontece no final de uma pandemia que nos terá obrigado a nos confinar, a nos vacinar, a usar máscaras e a contar mortos aos milhões, sem a garantia de que outros vírus, ainda mais mortais, não venham perturbar novamente o curso de nossas vidas.

Basta, não aguento mais.

Dito isso, vou me deitar.

Psiu, crianças, silêncio! Papai está dormindo.

(*) Laurent Sagalovitsch é escritor e articulista franco-canadense.

Traduzido do original francês por este blogueiro.

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