O cancelamento

Visite a Rússia
Antes que Putin visite você

 

José Horta Manzano

O que ninguém ousava imaginar até poucas semanas atrás ficou claro: a intenção de Vladímir Putin é cancelar a Ucrânia. Estou utilizando o verbo no sentido atual, como ele vem sendo usado nas redes sociais quando se quer “botar alguém fora do jogo”. O objetivo de Putin é o cancelamento da Ucrânia. Ele quer que ela deixe de existir como país e se transforme em província russa.

A Federação Russa é formada por 85 regiões administrativas. Parte delas tem autonomia limitada, enquanto a maioria é governada por interventor enviado diretamente por Moscou. Putin quer transformar a Ucrânia na 86ª região administrativa da federação. E com interventor nomeado.

Por quê?

É preciso voltar algumas décadas e dar uma espiada na “carreira” do personagem que hoje manda e desmanda naquele país. De origem humilde, o jovem Vladímir foi, na escola, aluno medíocre e briguento. Violento, os esportes de luta corporal sempre o atraíram. No fim da adolescência, procurou emprego no KGB – os serviços de espionagem externa, o equivalente soviético da CIA americana.

Sua folha de serviços é a de um obscuro funcionário. Guardadas as devidas proporções, lembra a passagem de Bolsonaro pelo Exército. Putin foi enviado a Dresden (na Alemanha Oriental, então satélite de Moscou), onde permaneceu alguns anos e aprendeu a língua alemã. Com o desmonte da União Soviética, no início dos anos 1990, voltou a Leningrado (hoje São Petersburgo), sua cidade natal.

Retornado à pátria, Putin põe um pé na política. Em pouco tempo, tornou-se assessor de Anatoli Sobtchak, prefeito da cidade. Segundo más linguas, Sobtchak era o “chefe da máfia de São Petersburgo”. Putin tornou-se seu braço direito. Daí para a frente, sua ascensão se acelerou. Não é difícil entender por quê.

Já na segunda metade dos anos 1990, conseguiu ser admitido como assessor de Boris Eltsin, presidente o país. No fim dos anos 1990, Eltsin estava sofrendo pesadas acusações de corrupção e enriquecimento ilícito. Para escapar à justiça, bolou um plano.

Em primeiro lugar, nomeou Vladímir Putin para o cargo de “chefe do governo” e propôs um pacto. Ele, Eltsin, renunciaria à presidência e Putin assumiria no seu lugar. Em troca, Putin assinaria um decreto concedendo imunidade total ao predecessor, o que o livraria de todo processo judicial. Eltsin renunciou em 31 de dezembro de 1999. Naquele mesmo dia, Putin assumiu e assinou o decreto, tal como combinado. Coisas da Rússia. Só da Rússia?…

Naquele momento, Putin era visto como um presidente fantoche, uma marionete manipulada, uma figura inócua e passageira. Quem pensou assim enganou-se pesadamente. O rapaz era vivo e, tendo nas mãos as rédeas do poder, não soltou mais. No fim deste ano, vão se completar 23 anos desde o dia em que subiu ao trono.

Na verdade, o povo russo nunca viveu sob regime democrático. Do feudalismo tsarista, passou à ditadura soviética. Tão acostumados estão a essa opacidade do andar de cima, que não estavam preocupados que o poder estivesse nas mãos de Putin ou de um outro. Isso não era importante, como não é até hoje. Importante mesmo, naquele momento, é que as prateleiras de lojas e supermercados estavam abastecidas. Povo de barriga cheia não faz revolução.

Na Rússia, o poder é vertical, de tipo mafioso: quem manda é o capo, os outros obedecem. (Acaba de me ocorrer a frase de Pazuello.) Não há instituições como conhecemos no nosso mundinho, imperfeito mas democrático. Não há Congresso nem Justiça como conhecemos. O Parlamento e a Justiça estão enfeudados ao chefe. Processos são viciados, oponentes são assassinados ou condenados a pesadas penas de prisão. Toda divergência é silenciada pela violência. A informação é controlada pelo Estado. Não há mídia independente. Só se faz o que seu mestre autoriza. Putin é a versão moderna de um Luís 14, um rei-sol anacrônico que destoa dos ideais de nosso mundo ocidental.

O poder corrompe, como diz o adágio. Putin enfiou na cachola que vai ficar na História como aquele que restaurou a glória do Império Russo dos tempos de antigamente. A conquista da Ucrânia é apenas o primeiro passo. A mídia tem descrito como “guerra” os acontecimentos destes dois dias. Não é a melhor descrição. Não se trata de guerra, mas de invasão pura e simples. Invasão de um país soberano por um outro país soberano. A última vez em que a Europa assistiu a uma barbaridade desse tipo faz 80 anos. O invasor chamava-se Adolf Hitler. Todos sabem como a aventura terminou.

A grande preocupação de Bolsonaro, nosso aprendiz de ditador, é escapar da justiça. Com esse objetivo, tem tentado cooptar as Forças Armadas e aparelhar tribunais. Nossas instituições são mais resilientes que as da Rússia, mas… tudo tem limite. Se nosso aprendiz for deixado à vontade mais algum tempo, podemos chegar a um momento de inflexão, um ponto de não-retorno.

Para se livrarem do perigo, a única arma que os brasileiros têm é o voto. Em outubro, a independência de nossas instituições democráticas depende da decisão dos eleitores. Não haverá segunda chance.

Observação
Não podemos esquecer que, semana passada, o capitão se solidarizou com a causa russa. Declarou isso diante de Vladímir Putin e das câmeras. Até hoje não se retratou. A conclusão é evidente: concorda com o cancelamento da Ucrânia e com todos os males que advirão dessa atrocidade. Nosso perigo mora no Planalto.

Um pensamento sobre “O cancelamento

  1. Pingback: José Horta Manzano, do blog BrasilDeLonge | Caetano de Campos

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