A coisa e o nome da coisa

José Horta Manzano

Minha avó jamais pronunciou a palavra câncer, o nome da doença. Quando lhe perguntavam de que tinha morrido fulana, costumava responder: “Foi daquela doença horrorosa que a gente nem gosta de falar o nome”. E logo encerrava o assunto e mudava de conversa.

Em fase terminal, câncer é doença muito sofrida. Se hoje em dia ainda é assim, imagine nos tempos de antigamente. Tratamentos balbuciavam, analgésicos não eram poderosos como hoje. Só de pensar, dava medo.

Desde que aprendeu a falar e a dar nome a seres e coisas, o ser humano demonstrou ser altamente supersticioso. Dizer em voz alta o nome de seres maléficos ou de coisas desagradáveis era perigoso: podia chamar desgraça.

Assim como os antigos sentiam (e os modernos continuam sentindo) pavor do câncer, há muitos que evitam pronunciar a palavra morte ou o verbo morrer. Para contornar, os mais poéticos dizem que fulano descansou, que expirou, que nos deixou, que se foi. Os mais crus dirão que abotoou o paletó, que vestiu o pijama de madeira, que bateu as botas. Religiosos ou reencarnacionistas preferirão dizer que voltou para a casa do Pai ou simplesmente que desencarnou.

No Brasil – mas não só –, há os que jamais pronunciam a palavra diabo. É que nunca se sabe – ao ouvir seu nome pronunciado em voz alta, belzebu pode até achar que está sendo chamado. Melhor evitar. Há uma série impressionante de substitutivos, que vão desde o corriqueiro demônio até o requintado príncipe das trevas, passando pelo cão-tinhoso, lúcifer, satanás, maldito, cornudo, tentador, pai do mal e tantos outros.

Os povos latinos e mediterrâneos parecem ter especial aversão à raposa. É verdade que o canídeo opera de noite, quando todos estão recolhidos, e pode fazer estrago grande num galinheiro. Das línguas da família latina, apenas o italiano continua a utilizar palavra derivada do original: usam volpe, uma adaptação fonética da vulpes latina. (É curioso notar o paralelismo entre a vulpes latina, que quer dizer raposa, e o Wolf germânico, que designa o lobo. Mas essa já é outra história.)

Na Idade Média, todo lar criava algumas galinhas para seu sustento. Evitavam pronunciar o nome da raposa, num esforço para evitar que ela se sentisse convocada a dizimar o galinheiro. Todos deram um apelido à vulpes latina.

O catalão diz guineu, palavra de origem incerta. O francês escolheu renard, em referência a uma fábula medieval. O espanhol prefere zorro, termo que, segundo uns, provém do vasco, e, segundo outros, tem origem na língua portuguesa, de um antigo adjetivo zorro, que significava ocioso, folgado, vagabundo. Quanto a nós, dizemos raposa (=rabosa), em alusão ao imponente rabo do animal, que parece espanador felpudo.

Ah, como seria prático se, quando a gente quer afugentar uma realidade, bastasse mudar-lhe o nome! Por mim, mudava já o nome do presidente da República. E o de todos os que até agora se apresentaram para suceder-lhe. Assim, afastava toda essa gente. Que fossem cantar noutra freguesia e deixassem campo livre para gente bem-intencionada.

Z de Zorro

José Horta Manzano

Quando se entra num cômodo, o olho será irresistivelmente atraído para o que houver de vermelho: uma almofada, um quadro, um livro. Não se trata de gostar ou deixar de gostar desta ou daquela cor; simplesmente é assim. Certas cores atraem mais que outras. Com as letras do alfabeto ocorre fenômeno semelhante. Umas são mais atraentes que outras. Umas são mais sexy que outras, como diriam os ingleses.

Uma das letras que maior atração exercem é o Z. Muito tempo atrás, quando a televisão engatinhava, a criançada acompanhava um seriado americano cujo herói era um cavaleiro mascarado chamado Zorro – só os anciãos devem se lembrar. (Diga-se que zorro, em espanhol, é a raposa.) A característica do mascarado era surgir de repente, sempre para castigar os maus, salvar os mais frágeis, marcar o Z de Zorro com a ponta da espada e, em seguida, desaparecer cavalgando.

Por que deram ao protagonista esse nome? Acredito que a letra Z tenha sido fator determinante. Um Z traçado com três golpes de espada é símbolo forte e viril. Um S, por exemplo, não faria o mesmo efeito.

A língua russa utiliza o alfabeto cirílico. Algumas letras são iguais às nossas, mas não todas. Nosso Z não existe no alfabeto russo. O som zê é representado por uma letra que lembra o número 3. No entanto, na Rússia destes tempos de guerra, o Z está se tornando um símbolo fortíssimo. Tornou-se o sinal que distingue todos os que apoiam a invasão da Ucrânia.

Crédito imagem: Reuters

Como surgiu esse símbolo? Ninguém sabe ao certo. O que se sabe é que, de repente, em duas semanas, passou ao primeiro plano, está por toda parte. Na Rússia, em princípio. Há várias teorias que procuram explicar o aparecimento e o significado do Z, que é, repito, letra estranha ao alfabeto usado no país.

Explicações fervilham nas redes sociais russas. No começo, alguns chegaram a imaginar que o Z fosse um número 2 estilizado, usado pra marcar o 22/2/22, dia em que a Rússia assinou um “tratado de amizade” com as províncias separatistas da Ucrânia – o prenúncio da guerra que estouraria dois dias depois.

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A explicação mais aceita atualmente é de que o Z é utilizado para inibir o “fogo amigo”. Todos os veículos militares se parecem. Para destacar os que lhe pertencem, o exército vermelho decidiu marcar os seus com esse sinal. Tentam assim evitar que um tanque russo atire em outro tanque russo.

Eu vejo um problema. A coisa vai, mas a coisa também vem. Explico. Se o Z evita que os russos se massacrem entre si, informa, por outro lado, aos ucranianos quais são os veículos inimigos. Neste último caso, funciona como licença de alvejar: “Ah, esse aí é russo! Pode atirar!”.

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O fato é que o símbolo aparece por toda parte na Rússia, não só nos veículos militares. Pontos de ônibus, anúncios luminosos, camisetas. Ele aparece até bordado em capotes, blusas e paletós usados por executivos. Não só as redes sociais como também o próprio governo estão incentivando a propagação do Z.

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Numa competição realizada estes dias no Catar, um jovem ginasta russo subiu ao pódio exibindo um Z bordado na camiseta. Para piorar a situação, ao lado dele estava justamente um atleta ucraniano. O russo está sofrendo sanções disciplinares aplicadas pela Federação Internacional de Ginástica.

Certas más línguas acreditam que o Z poderia simbolizar Zelenski, o presidente da Ucrânia, alvo principal da invasão russa. Mas não deve passar de especulação.