Conversa de cachorro

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Minha cachorra mais velha e mais sábia me chamou para conversar. Tenho notado, disse ela como introdução, que você anda um tanto ressabiada, irritada mesmo com os últimos acontecimentos políticos, não é verdade?

Nuvens 2Amuada, respondi que estava me sentindo cansada com tanto vai e vem nos humores da população e dos governantes. Acho que a desesperança tomou conta de mim, admiti constrangida.

A cachorra aprumou-se e continuou: Vocês não têm um ditado que diz que, para quem não sabe aonde quer ir, nenhum vento é favorável? Pois então, sinto que você está perdida em divagações sobre o que vai acontecer do lado de fora e não se dá conta de que o mais importante é encontrar um caminho interno. Você não acha que já está mais do que na hora de parar de ficar apontando a responsabilidade de outras pessoas pela escolha do atual curso de ação e começar a se investir desse mesmo poder?

by Alex Gregory, desenhista americano

by Alex Gregory, desenhista americano

Fez uma pausa estratégica para me dar tempo para pensar e prosseguiu num tom professoral: Lembra quando eu lhe disse que, entre nós, não há questionamentos sobre a capacidade do líder? Se um líder de matilha nos conduzisse para a beira de um precipício ou para lugares onde não haja comida nem água – coisa inimaginável para nossas mentes, diga-se de passagem – a matilha simplesmente deixaria de segui-lo.

Briga 5Mas, interrompi, as coisas não são tão simples assim entre nós humanos. Há sempre alguns que continuam seguindo o líder mesmo quando os sinais de que ele está se aproximando de um beco sem saída já são evidentes. Nossa matilha então se divide e tem início uma verdadeira guerra de opiniões, cada um querendo seguir para um lado.

Presta atenção, continuou enfática a cachorra. Você está confundindo liderança com chefia e isso não é nada bom. Em qualquer espécie, se um dirigente não consegue envolver e comprometer todos os membros de um grupo, então ele não é líder de ninguém. Pode até concentrar o poder por um tempo, mas, se não souber abrir caminhos, será rapidamente abandonado e descartado. A indecisão ou fragilidade do condutor só faz abrir caminho para ferozes lutas internas e ele próprio acaba correndo o risco de ser despedaçado durante um confronto qualquer.

Pois é, disse eu, eu acho que é exatamente isso o que está acontecendo agora. Já enfrentei muitos problemas em meu trabalho de consultoria organizacional por causa disso. Muitos executivos insistem em acreditar que o bom líder é aquele que produz resultados e eu já levei muita mordida por discordar e afirmar que líder é aquele que alcançou a excelência no gerenciamento de processos. É preciso que cada membro do grupo se sinta incentivado a buscar por conta própria maneiras de garantir autonomia, responsabilização e visão altruística. As competências críticas para garantir a sobrevida do grupo não podem ser prerrogativa apenas do dirigente. Se as pessoas não assumirem o próprio poder de escolha e decisão, não há esperança. Como dizem os orientais, quando dois elefantes brigam quem paga é a floresta.

by Leo Cullum (1942-2010), desenhista americano

by Leo Cullum (1942-2010), desenhista americano

Se você sabe de tudo isso, provocou minha cachorra, por que se desespera? Chame para si mesma a tarefa de desenvolver novos processos de envolvimento e comprometimento de todos com o mundo político. Você estudou para isso. Acho que já estou velha e cansada demais para absorver uma missão tão gigantesca e complexa como essa, repliquei aborrecida.

Guia 1A missão da velhice, alfinetou uma vez mais minha cachorra, não é pôr-se em marcha intempestivamente, mas sim iluminar possíveis novos caminhos. Intimidada, fiquei sem resposta por algum tempo. Não queria passar recibo da minha falta de humildade. Foi então que lembrei de uma matriz de concordância-confiança que me foi apresentada por uma amiga querida como ferramenta para desenvolver pensamento estratégico. A concordância, dizia ela, flutua muito ao sabor do tema em pauta. A confiança, por outro lado, tende a ser muito mais estável ao longo do tempo. No entanto, se por um acidente qualquer, for quebrada, revela sua natureza de cristal delicado. Se ele se parte, por maior que seja o esforço para consertá-lo, jamais voltará a ser como antes.

Uma onda de energia repentinamente tomou conta de mim. É isso, repeti para mim mesma em voz alta: “Caminhante, não há caminhos. O caminho se faz ao caminhar.”

Só mesmo uma cachorra para me lembrar que sou, antes de mais nada, um animal.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Oligarquia lavada a jato

Elio Gáspari (*)

«A doutora Dilma está diante de fenômeno histórico: a Lava-Jato feriu o coração da oligarquia brasileira. Tanto burocratas oniscientes como empresários onipotentes estão encarcerados em Curitiba.

Enquanto isso, prosseguem as investigações em torno da lista de Rodrigo Janot, e não há razões para supor que o Supremo Tribunal Federal seja bonzinho com a turma do foro especial.

Marciano 1Quando a doutora se comporta como se a Lava-Jato fosse coisa de marcianos, pois “não respeito delatores”, ela atravessa a rua para se juntar à oligarquia ameaçada.

Essa oligarquia é muito mais esperta que ela. Fabricou Fernando Collor e entregou-o aos caras-pintadas. Dispensou os militares e aplaudiu Tancredo Neves.»

(*) Excerto de artigo do jornalista Elio Gáspari publicado no Jornal O Globo, 9 ago 2015. Para ler na íntegra, clique aqui.

Carta-renúncia

Cláudio Humberto (*)

Apesar de ter declarado que “suporta a pressão”, a presidente Dilma já teria preparado uma carta-renúncia. Fontes do Palácio do Planalto garantem que a redação da carta não foi um ato solitário, como é comum nesses casos. Dilma teria contado com a ajuda de dois de seus ministros mais próximos: Aloizio Mercadante (Casa Civil) e José Eduardo Cardozo (Justiça) – apesar de ambos serem contrários à ideia.

Panelaço 3Confirmada a renúncia de Dilma, o vice-presidente Michel Temer assumiria imediatamente o comando do Executivo.

Além da renúncia, há outras hipóteses para a saída de Dilma: representação da oposição por crime financeiro e ação na Justiça Eleitoral.

Se prosperar a representação da oposição na Procuradoria-Geral da República por crimes financeiros, Dilma poderia ser cassada.

Já a ação eleitoral por financiamento ilegal de campanha pode culminar no cancelamento do registro da chapa. Assim, cairiam Dilma e Temer.

(*) Cláudio Humberto, bem informado jornalista, publica coluna diária no Diário do Poder.

A elite pensante e o descaso com a violência

Guy Franco (*)

Assalto 7Antes dos meus 10 anos de idade, minha casa foi invadida duas vezes. Coisa que nunca me esqueço, os bandidos gritando com meus avós, querendo dinheiro, eletrônicos, a Variant marrom do meu vô – e eu no meu quarto me torturando sem poder fazer nada. Nas semanas seguintes, acordava no meio da noite com qualquer barulho e via na sombra das árvores, através das cortinas, a forma de pessoas invadindo a casa.

O tempo passou, comecei a andar de ônibus sozinho. Entre os 13 e os 17, fui assaltado pelo menos cinco vezes. Já fui assaltado na rua e em ônibus, em grupo e sozinho, indo e voltando da escola, por drogados, por menores – quase sempre por menores. Me levaram dinheiro, passes e um boné. No tempo em que eu estudava, bastava que moleques passassem por baixo da roleta do ônibus para a viagem deixar de ser tranquila. O cobrador nada fazia.

Assalto 6Aos 20, no caminho do trabalho, dois sujeitos numa moto me roubaram. Eles queriam a minha mochila. Um olhava para o outro e dizia: “mata ele, mata ele”. Eu me lembro do desespero da minha mãe, que estava comigo. Desde então, não posso ver moto com passageiro na garupa perto de mim. O frio na espinha é inevitável.

Depois disso, ainda fui assaltado mais algumas vezes: me levaram celulares, documentos e quase me roubaram uma câmera de vídeo. Por sorte, só apanhei uma vez, de marginais, perto de estação de metrô. Tendo sofrido tantos assaltos, sou sensível à questão da violência. E observo que é assim com muita gente, principalmente com quem já passou por algo parecido.

by Élcio "Edra" D.R.Amorim desenhista mineiro

by Élcio “Edra” D.R.Amorim
desenhista mineiro

Assalto 8Estatisticamente, uma pessoa está sofrendo algum tipo de violência neste instante em algum ponto do país. Até antes do almoço, mais de 70 terão sido assassinadas. Enquanto isso, a elite bem pensante está mais preocupada em atacar quem não limpa a própria privada. Intelectual adora falar mal dos bravos cidadãos da classe média e se cala sobre a violência sofrida por gente como você e eu.

Daí a vergonha que tenho de abrir o jornal para ler a elite pensante. Não moro no Jardim Paulista, no Leblon ou no bairro chique do cartunista engajado, onde o risco de ser roubado e assassinado é oito vezes menor do que em Americanópolis.

Assalto 5O descaso é uma afronta a quem vive com medo da violência. Fingir que nada acontece é o tema preferido de nossa elite intelectual. O país tem os índices de criminalidade mais grotescos do mundo. A elite intelectual, no entanto, não gosta que se lembre disso. Qualquer proposta mais dura que apareça contra a violência passa por fascismo – isso quando não cai no papo ridículo de que o bandido é a vitima ou que punição não resolve nada. Aí é melhor sair de perto mesmo.

Eu me disponho a não discutir com quem ignora os índices de violência do país. Assaltos? Estupros? Homicídios? O importante é fazer bonito entre os leitores All Star e discutir o uso de linguagem ofensiva em programas humorísticos.

(*) Guy Franco mantém blogue alojado no Yahoo.

Síndrome de insensibilidade perceptual

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Globo 2Um distúrbio alarmante vem se disseminando como praga nos cinco continentes. Apesar dos esforços empreendidos por pesquisadores científicos em várias partes do mundo, ainda não foi possível determinar sua causa. Embora não represente um fenômeno novo para a neurociência, os cientistas estão intrigados com o rápido alastramento do transtorno.

Sabe-se apenas que o distúrbio atinge indiscriminadamente homens e mulheres, jovens e idosos. Pressupõe-se que os casos mais graves estejam relacionados à negligência afetivo-emocional na tenra infância, ainda que não se descarte a possibilidade de ela ser decorrente também dos altos níveis de estresse nas grandes cidades e da alta competitividade no mundo profissional.

O principal sintoma observado é a incapacidade do portador da síndrome no sentido de perceber as conotações simbólico-afetivas das imagens que visualiza. Alguns estudos indicaram uma possível falha na comunicação entre os neurônios do lobo occipital e os do sistema límbico, que mimetiza lesões nos corpos amigdaloides.

by Shaina Craft

by Shaina Craft, artista americana

É fato conhecido que, entre humanos, uma lesão nas amígdalas do sistema límbico faz com que o indivíduo perca o sentido afetivo da informação vinda de fora, tornando-o indiscriminativo e emocionalmente indiferente. Ou seja, embora do ponto de vista cognitivo o sujeito seja capaz de identificar e categorizar corretamente o objeto visualizado, é-lhe impossível apreender as conotações simbólico-afetivas do mesmo.

Em função dessa indiferença afetiva, pesquisadores ingleses batizaram a síndrome como “Insensitive Perceptual Misjudgement Syndrome” [IPMS]

Alguns dos casos mais recentes e notórios registrados nos últimos meses são os seguintes:

Interligne vertical 17eUm dentista americano realizava um safári no Zimbábue e, ao olhar pela mira de seu fuzil de caça, viu só um leão velho e o matou. Na realidade, tratava-se de Cecil, o amado animal-símbolo de um país e de todo o continente.

Interligne vertical 17dUm colono judeu, buscando retaliar o que entendia ser agressões sofridas pelos seus, atirou uma bomba incendiária pela janela de uma casa e viu só uma residência palestina. Na realidade, tratava-se do lar de um bebê de 1 ano de idade.

Interligne vertical 17cIntegrantes do Isis, o autodenominado Estado Islâmico, entregaram a uma criança a tarefa de justiçar um homem, que viam só como infiel. Na realidade, tratava-se de um grupo de seres humanos.

Interligne vertical 17bNo calor da torcida no estádio de futebol, o homem atirou uma banana em direção a um dos jogadores, já que viu só um macaco. Na realidade, tratava-se de um esportista jovem e hábil, aclamado por seus concidadãos.

Bandeira olhoO ministro Levy e a presidente Dilma dirigiram-se à plateia para explicar a necessidade de ajuste fiscal e viram só contribuintes e analfabetos políticos. Na realidade, eram cidadãos brasileiros.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

A estranha escolha de Lula

Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa (*)

Lula, o sabe-tudo, deveria rezar em praça pública: “Eu pecador me confesso…”

Como é que ele teve coragem de nos enfiar goela abaixo essa senhora capaz de, em relação ao Pronatec, declarar num palanque: “Não vamos colocar uma meta e quando atingirmos ela, nós dobraremos a meta”.

Além do dilmês que arrebenta com nossa língua, dona Dilma não se acanha em dizer que quando atingirmos o nada, vamos multiplicá-lo por dois?

by Alberto Correia de Alpino F° Desenhista capixaba

by Alberto Correia de Alpino F°
Desenhista capixaba

Ele a escolheu, dizem, por ter ficado fascinado pelo modo como ela pilotava um laptop. É o tal negócio, em terra de cego quem tem um olho é rei…

Dona Dilma, além de perita em manejar as novas tecnologias e no uso do Power Point, é uma feminista daquelas de não ter pejo em pedir – bem, tentou exigir, mas nessa não levou a melhor – que todos os seus auxiliares se dirijam ou se refiram a ela como “a presidenta”.

Fiquei à espera de um auxiliar mais atilado que lhe dissesse: «Isso eu só faço se a senhora chamar o Lula de “presidento”». Mas qual, esperei em vão.

Em julho do ano passado, uns três meses antes da reeleição, durante a campanha para a qual dona Dilma e seu marqueteiro fiaram histórias do arco da velha para enrolar o distinto eleitorado – com o maior sucesso, diga-se a bem da verdade – uma mulher, analista de um banco de grande porte, o Santander, cujo dono era um amigão do Lula, fez jus ao cargo que ocupava e ao salário que recebia e advertiu, por e-mail, seus clientes preferenciais sobre as previsões que fazia para um segundo governo Dilma Rousseff.

Sinara Polycarpo Figueiredo, a analista, em uma mensagem eletrônica, dizia que uma eventual reeleição da presidente pioraria o quadro econômico no país. Que a bolsa iria cair, os juros subir e o câmbio se desvalorizar. Ou seja, a economia iria se deteriorar.

by Rubens (Rubz), desenhista paulista

by Rubens (Rubz), desenhista paulista

Lula, ao ser informado da análise, com a categoria que lhe é peculiar, em um discurso na 14ᵃ plenária da Central Única dos Trabalhadores, ressaltou que não há outro país em que o Santander lucre tanto como no Brasil e questionou ainda o fato da funcionária que escreveu o informe ter chegado a um cargo de chefia: “Essa moça que falou [isso] não entende porra nenhuma de Brasil e de governo Dilma Rousseff. Manter uma mulher dessas em cargo de chefia é sinceramente… Pode mandar embora e dar o bônus dela pra mim, que eu sei como é que eu falo”, completou.

Conselho que o Santander, com a rapidez dos que amam o poder, seguiu de imediato. Demitiu a analista! Não sei se deu o bônus ao Lula. Quero crer que não chegou a tanto.

Não sou, nem nunca fui, feminista. Minha teoria é a seguinte: somos diferentes, os homens das mulheres, em dezenas de coisas, todas da maior importância. Menos intelectualmente. Nesse caso, tendo as mesmas condições para desenvolver nosso intelecto, somos absolutamente iguais.

Mas se eu fosse uma ardente feminista, o que eu faria diante de uma mulher que, evidentemente, entendia do que falava, como agora está fartamente provado? Ia convidá-la para fazer parte de minha equipe, ora se ia…

by Nélson Nunes Martins, desenhista mineiro

by Nélson Nunes Martins,
desenhista mineiro

Não se trata de acreditar em bola de cristal ou em querer bancar a profetisa do passado, mas de um fato comprovado: o cliente do Santander que seguiu os conselhos de Sinara se deu bem. Os clientes do Lula quebraram a cara.

Segundo matéria no Estadão de 28/12/2014, Sinara Polycarpo Figueiredo entrou com ação na Justiça do Trabalho contra o Santander. Não sei no que deu esse processo. Mas de uma coisa eu sei: torço por Sinara.

Interligne 18c

(*) Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa, professora, tradutora e escritora, é filha do grande Adoniran Barbosa. Escreve semanalmente para o Blog do Noblat, alojado no portal d’O Globo.

Aplicação

Francisco de Paula Horta Manzano (*)

Bebida 3O Walmir sempre fora um sujeito boa-praça, simples e simpático. Era um brasileiro típico da chamada classe média, que tem esse nome justamente porque precisa fazer média com todo mundo pra poder se manter em equilíbrio. Principalmente com os credores.

Um dia foi até o banco onde mantinha uma conta. Lá chegando, foi direto procurar pelo gerente. Gerente era o que não faltava por ali. Ele procurava um para fazer aplicações. Pediram que aguardasse. Pacientemente aguardou.

O ponteiro grande do relógio ia quase completando sua volta quando lhe pediram que se sentasse em frente a um funcionário que já o aguardava do outro lado da mesa cheia de papéis. Ficava no saguão, junto a um monte de outras mesas, todas iguais, tipo vala comum, daquelas que servem para atender aos que têm cara de ter, no máximo, 3 ou – se muito – 4 dígitos na conta.

– Pois bem, seu…

– Walmir.

– Então, seu Walmir. De que o senhor está precisando?

A pergunta fazia sentido. O Walmir tinha cara de empréstimo.

– Bom, eu gostaria de fazer uma aplicação.

– Muito bem, uma aplicação. Escolheu o banco certo. Aplicação em quê? Poupança talvez?

– Na verdade, eu não sei dizer em quê. É justamente por isso que eu vim aqui. Para me aconselhar sobre o assunto.

– Bom, bom… Para aplicações pequenas, para quantias populares, aconselhamos mesmo a poupança. Rende bem e é fácil de lidar. O senhor vai ganhar sempre. Nosso banco certamente vai ajudar o senhor a lucrar sempre.

Banco 5O Walmir ajeitou-se melhor em sua cadeira. Prosseguiu:

– É que eu estou pensando em fazer uma aplicaçãozinha um pouco maior, sabe?

– Rã-rãnnn… Maior? Maior quanto?

– Bom, ainda não sei ao certo, mas é coisa por volta de uns 20 milhões talvez.

Reverência 2Nesta altura do campeonato, o gerente agitou-se todo em sua giroflex e imediatamente convidou o Walmir para acompanhá-lo até sua sala, no andar superior, onde poderiam conversar mais sossegadamente. Conforme subiam as escadas, o Walmir também ia sendo promovido. Chegou lá em cima e já era o doutor Walmir. O fato de ele nunca ter cursado faculdade e muito menos ter defendido tese era irrelevante. Uma pessoa que faz uma aplicação com um número tão robusto tem de ser tratada por doutor.

O gerente foi logo oferecendo água, café, ou, se preferisse, um uísque. Era só pedir. O Walmir preferiu o uísque, apesar de ainda ser de manhã. Foi logo servido.

– Bom, doutor Walmir, eu aconselharia aplicar esse dinheiro em CDBs ou em RDBs, mas não é bom colocar tudo num só tipo de aplicação, sabe como é. Não é seguro, sabe?

O Walmir deu um gole no uísque, enquanto pensava. O gerente prosseguiu:

– Aliás, quero que o senhor me desculpe pela sugestão da aplicação em poupança. Com essa correria do banco, num primeiro momento não percebi que falava com uma pessoa de tão alta estirpe. Espero que não esteja ofendido.

– Sei, sei… Se eu aplicar em CDBs, por exemplo, quanto me renderia?

O gerente tocou a fazer contas e mais contas, calculou e recalculou, passando o resultado ao doutor Walmir.

O Walmir pensou um pouco e aventou a hipótese de aplicar na bolsa. Queria saber, em tese, quanto lhe renderia.

O gerente imediatamente fez cálculos hipotéticos, levando em consideração o tipo de ações, o prazo da transação, a direção do vento, a pressão do ar, se iria chover ou não. Juntou um pouco de sal, passou tudo numa peneira fina e respondeu que ainda seria mais negócio investir nos CDBs ou nos RDBs mesmo. Mostrou todos os cálculos feitos no papel.

Jogo 2Indeciso, o Walmir indagou sobre a hipótese de aplicar metade num tipo de negócio e a outra metade noutro tipo.

– O senhor diz, assim, uns 10 milhões para cada uma?

O Walmir fez que sim com a cabeça. E lá foi o gerente refazer os cálculos enquanto o doutor Walmir bebericava o uísque.

O gerente tornou a mostrar todos os exaustivos planos traçados no papel. O doutor Walmir olhou atentamente cada um dos resultados, estudando qual o negócio mais vantajoso.

– Doutor Walmir, desculpe-me a pergunta, mas o senhor tem idéia de quando pretende efetivar o depósito para podermos fazer esse seu patrimônio crescer e crescer sem que o senhor tenha qualquer trabalho?

– Ainda não sei direito, mas provavelmente na semana que vem. Eu acabei de fazer o jogo da MegaSena acumulada ainda há pouco. Se eu ganhar, e com certeza desta vez eu vou ganhar, volto aqui e a gente vai fazer tudo do jeitinho que o senhor me explicou.

Jogo 1Dito isso, o copo de uísque foi discretamente retirado da frente do doutor Walmir, que agora voltou a ser tratado por seu Walmir mesmo e convidado a voltar ao banco quando – e se – tivesse o dinheiro.

“E me dá licença, que eu tenho outros negócios a tratar agora. Bom dia” – disse o gerente, apontando-lhe a porta, por onde o Walmir saiu desacompanhado.

Naquele mês constou em seu extrato um débito referente a “serviços extras”. Após investigação, revelou tratar-se do uísque servido.

(*) Francisco de Paula Horta Manzano (1951-2006), escritor, cronista e articulista.

Atenção ao Zé

Cláudio Humberto (*)

by Renato L. C. Aroeira desenhista carioca

by Renato L. C. Aroeira
desenhista carioca

Após haver abandonado José Dirceu nos tempos do julgamento do mensalão e não se ter mais preocupado com ele desde então, o ex-presidente Lula recomendou à cúpula do PT, esta semana, “dar atenção ao Zé”, seu antigo ministro da Casa Civil. Ele teme que Dirceu feche acordo de delação premiada para não voltar à cadeia.

Até lulistas “religiosos” concordam: eventual delação de Dirceu pode levar Lula a conhecer o significado de um longo período na Papuda.

(*) Cláudio Humberto, bem informado jornalista, publica coluna diária no Diário do Poder.

Convite

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Certa vez participei de uma vivência terapêutica muito interessante. As pessoas presentes, sentadas em círculo no chão, eram estimuladas a olhar para aquela que estivesse imediatamente à sua frente e imaginar seu nome e sua profissão, baseando-se tão somente na aparência, tom de voz e postura corporal. Além de muito divertida, essa experiência mostrou ser também muito reveladora – não tanto pelos acertos e erros nas projeções feitas (que propiciavam boas gargalhadas), mas principalmente pelo que evidenciava a respeito dos preconceitos, estereótipos e valores que povoam nosso próprio universo mental.

Ontem à noite, assistindo a um pronunciamento do ministro Levy, tive um súbito insight. A postura daquele homem, seu olhar cansado, sua voz baixa e seu discurso lento e cuidadoso, como o de quem procura causar o menor impacto negativo possível com o que tem a dizer, evidenciavam sua verdadeira profissão: agente funerário. Podia até visualizá-lo sugerindo um determinado padrão de caixão que supunha estar dentro do orçamento da família e cuidando em fazer pequenas pausas para auscultar se sua indicação era recebida com agrado ou desagrado.

Terapia 1A fantasia me deliciou e decidi estendê-la para outras figuras públicas que têm frequentado o noticiário nacional. Dei tratos à bola para escapar dos parâmetros de estilo de vida já conhecidos e compus os seguintes personagens:

Interligne vertical 14Dilma
Gosta de ser chamada de Dona Terezinha. Contadora de estórias e agente de disciplina num acampamento de férias juvenil. Doceira de mão cheia, olhar curioso e bonachão, preocupa-se em agradar, mas sem abrir mão do desejo de ser respeitada e obedecida.

Interligne vertical 14Lula
É conhecido como Manezinho da Embolada, graças a seus dotes de cantador. Controlador de um salão de bingo. Responsável pela recepção dos convidados, pelo anúncio dos premiados e pela confraternização que segue a entrega dos prêmios. Gosta de se destacar no trabalho mas, na vida privada, é um tanto taciturno e resmungão.

Interligne vertical 14Cunha
Seu nome é Ricardo. Corretor de imóveis de alto padrão, apesar da infância pobre e do baixo traquejo social. Chama a si todas as responsabilidades pelo atendimento pleno dos clientes e esforça-se por demonstrar alta credibilidade, expertise técnica e bom gosto.

Interligne vertical 14Haddad
Amélio é adestrador e passeador de cães. Tem muita experiência acumulada com cachorros difíceis, porte atlético e muita paciência para lidar com filhotes, mas não consegue disfarçar sua desesperança em termos de evolução na carreira profissional. Adoraria poder jogar tudo para o alto, mas falta-lhe energia para recomeçar. Pondera se, afinal, já não estaria em tempo de começar a adestrar os donos dos cães-clientes.

Interligne vertical 14Renan
Prefere ser chamado pelo sobrenome, Machado. Agenciador de modelos e gigolô aposentado. Não gosta de frequentar eventos sociais, preferindo envolver-se com as tratativas comerciais e com o controle disciplinar de suas contratadas. A vida o endureceu um pouco para se envolver com os segredos de alcova.

Interligne vertical 14Celso Mello
Padre Gérson é capelão de uma igrejinha de fazenda e responsável pela doutrinação religiosa dos filhos dos peões. Adora contar parábolas a seus pequenos fiéis, mas sente-se estimulado mesmo quando é convidado a fazer parte dos almoços de domingo na casa grande. Empenha-se com afinco em dissimular a tentação de ceder aos pecados da gula e da luxúria.

Interligne 18b

Terapia 2O cansaço que experimentei ao final de algumas horas me fez interromper o jogo de fabulações, embora eu ainda sinta o desejo de explorar outras possibilidades.

Em função disso, quero convidar a todos a me ajudarem com suas percepções a compor o perfil psicológico de outros nomes emblemáticos do cenário nacional e internacional. Aqueles que aceitarem o desafio certamente vão poder se dar conta do quanto este jogo é capaz de estimular nossa sensibilidade, nossa criatividade e nosso senso de humor.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Viagem astral educativa

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Ultimamente tenho tido experiências astrais muito impressionantes. Claro que eu poderia chamá-las de sonhos mas algo me diz que são mais do que isso. Os indícios são muitos. Em primeiro lugar, viajo por lugares totalmente desconhecidos mas que, nem por isso, podem ser descritos como menos realistas do que os que conheço. Nesses lugares, encontro pessoas que também ignoro. Algumas, mesmo assim, conversam comigo como se fôssemos velhos amigos.

by Antonio Carbona, desenhista francês

by Antonio Carbona, desenhista francês

Outras vezes o cenário e os eventos ocorridos durante essas viagens são surrealistas. Já sonhei, por exemplo, com um enorme gato flutuando pelos céus como se fosse uma pipa feita de papel-arroz, enquanto minha mãe, já falecida, pilotava um pequeno avião e me dizia que eu precisava esperar um pouco porque ela estava se desviando dos obstáculos. De outra, experimentei a angustiante sensação de estar subindo a pé uma ladeira impossível de ser escalada sem o uso de cordas e ganchos. Sentia a textura do asfalto, o cheiro, o calor do meu corpo e podia visualizar outras pessoas a meu lado, inclusive uma criança, transpirando na mesma tentativa. Já visitei em sonho a “Escola do Não Ver”, aparentemente localizada em um país do Oriente, onde humanos e animais de várias espécies se destruíam, alinhadas em blocos.

Há poucas semanas, acordei me sentindo muito cansada e me ouvi dizendo a mim mesma: “É claro que você está cansada. Afinal, você foi visitar o mundo dos mortos”. Arrepiada, rejeitei a ideia não só por não ter restado nenhum sinal de minha passagem por outro universo mas também porque me desagrada a possibilidade. Já tive experiências de contato astral com pessoas mortas e elas me deixaram uma sensação de inutilidade da tentativa de comunicação, já que nada novo me foi revelado ou acrescentado ao que eu já sabia.

Tive inclusive, desde minha infância, experiências premonitórias. No dia em que minha avó morreu, acordei assustada e olhei em volta do quarto procurando pelas razões da minha angústia. Em frente à minha cama havia uma cadeira dessas antigas, de braço e espaldar alto. Minha avó estava sentada nela e me sorria, tamborilando levemente com os dedos no braço da cadeira, como era seu hábito, como se me dissesse: “Relaxe, está tudo bem, eu estou bem”. Foi uma sensação tão doce e pacificadora que tudo me pareceu normal e eu voltei a dormir.

Sonho 1Agora vem a experiência mais perturbadora a que chamo de educativa. Há poucos dias, acordei com uma palavra na mente: “exegese”. Só isso, mais nada. Nenhuma imagem, nenhuma sensação física, nenhuma explicação. Intrigada, levantei da cama, peguei o dicionário e procurei aflita o significado. Não me lembrava dele, embora já conhecesse a palavra. Também não conseguia recordar do momento em que tinha visto essa palavra pela última vez – e era isso o que mais me intrigava. No dia anterior ela certamente não tinha frequentado meu cérebro. Reproduzo a seguir o texto do dicionário, antes de continuar navegando pelo tema das viagens astrais: “Comentário ou dissertação para esclarecimento ou minuciosa interpretação de um texto ou de uma palavra [aplica-se de modo especial em relação à Bíblia, à gramática, às leis]. Por extensão, explicação ou interpretação de obra literária ou artística, de um sonho, etc.”

Quase enfartei. Traduzindo, minha viagem astral me propunha um desafio: antes de se deixar enredar em imagens, sons, odores, sensações corpóreas e quejandos, é preciso enfocar as possíveis interpretações para os eventos que percorrem seu universo mental. Bingo! Tal qual um Freud redivivo, eu me via às voltas não com a interpretação de sonhos mas sim com a interpretação de viagens astrais. Meu espírito – ou minha alma, se preferirem – estava sedento de novas experiências, novos conceitos, novos temas. Ansiava por estabelecer contato com pessoas e seres que ainda não faziam parte do meu círculo de relações, estava carente de frequentar outros universos. Em resumo, tudo funcionava como uma espécie de compensação para a chatice e mesmice de minha vida cotidiana, daí o cansaço.

Sonho 2As interpretações religiosas do catolicismo e do espiritismo não se aplicavam às minhas sensações e, por isso, não convenciam. As interpretações da psicologia mecanicista sobre restos diurnos também eram frágeis demais para permitir o descortinamento do meu universo mental. Se não se tratava de nenhum surto psicótico nem de possessão demoníaca, era preciso buscar novas ilações.

Lembrei-me de repente de um verso de Fernando Pessoa: “De que serve uma sensação se há uma razão exterior para ela?” E, na sequência, dizia ele: “porque a alma humana é um abismo”. É isso, concluo agradecida. Não há exegese conhecida para os desvarios da minha alma e, ainda assim, como é bom me lançar nesse abismo de peito aberto e sem rede de segurança!

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Maioridade e maturidade

Myrthes Suplicy Vieira (*)

by Geraldo "Passofundo" Fernandes, desenhista gaúcho

by Geraldo “Passofundo” Fernandes, desenhista gaúcho

Maioridade penal: eis aí um daqueles temas cujo debate gera, como dizem os ingleses, mais calor do que propriamente luz. Fácil é arregimentar argumentos contra e a favor de sua redução. Difícil me parece ser encontrar um caminho legal que pareça justo a ambas as partes para lidar com a crescente onda de violência no país.

Durante as recentes manifestações contrárias à redução da maioridade penal pude ver um cartaz onde se lia: “Para que punir se podemos educar?” Boa pergunta! Se estamos aptos a oferecer a nossos menores uma educação de qualidade capaz de sensibilizá-los para sua responsabilidade na promoção do bem estar social, por que não o fazemos? E, caso alguém acredite que isso já está sendo feito, por que não estamos obtendo os resultados desejados?

Penetrando um pouco mais nessa polêmica, já há consenso no país quanto ao que significa educar? A quem pertence essa tarefa? Frequentar uma instituição de ensino é critério suficiente? Há já um número suficiente de escolas públicas de qualidade para acolher todos os que delas precisam? Se a educação não se restringe à escola, que outros passos estão sendo dados para envolver os demais segmentos culturais, sociais e políticos?

Faltam muitas informações não só sobre essas questões mas também e principalmente sobre os projetos de reeducação e reinserção social de menores infratores. Você sabe a que tipo de medidas socioeducativas são expostos esses menores? Quais são mesmo as taxas de reincidência? Como é feito, se isso acontece, o acompanhamento psicossocial dos adolescentes que já atingiram a maioridade legal e que tenham delinquido antes dela?

Prison 5Quero jogar um pouco mais de gasolina nessa fogueira. Não é preciso ser nenhum especialista em comportamento humano para traçar o perfil psicológico padrão de um adolescente. Sensação de imortalidade, rebeldia, desejo de se destacar do grupo de referência (qualquer que seja o meio para atingir esse objetivo), impulso permanente de expandir os próprios limites e aceitação dos riscos.

Pois é, está claro que maioridade é uma coisa e maturidade outra bem distinta. Não é à toa que cientistas comportamentais vêm se esforçando em apontar as diferenças entre inteligência racional (capacidade de discernimento entre o que é certo ou errado) e inteligência emocional (capacidade de controlar impulsos e projetar consequências dos próprios atos). Se você duvida que essa seja uma tarefa relevante, por favor responda às perguntas abaixo.

Com que idade você acha que seu filho (ou filha) pode começar a agredir verbalmente outros membros da família? A partir de qual idade ele ou ela estaria autorizado a pegar o dinheiro que estava sobre a mesa da sala e usar em proveito próprio sem dizer nada a ninguém? A partir de qual faixa etária, ele ou ela estaria liberado para agredir fisicamente irmãos, praticar ‘bullying’ com colegas de escola, torturar o gato ou cachorro da família? Com que idade você diria que ele ou ela pode começar a impor seus desejos e crenças a seus parceiros sexuais?

by Constantin Ciosu, desenhista romeno

by Constantin Ciosu, desenhista romeno

Se você respondeu a essas questões com um número – não importa qual – certamente vai se ver às voltas com um sem número de problemas que o forçarão a rever seu conceito pessoal de paternidade responsável.

Alguém já disse que educar é frustrar. A meu ver, é também a colocação de limites, o estabelecimento de uma linha divisória entre o que a autoridade familiar considera tolerável e os comportamentos julgados inadmissíveis por colocarem em risco a própria integridade ou a de terceiros.

by Edvaldo Rodrigues, desenhista paulista

by Edvaldo Rodrigues, desenhista paulista

À idade cronológica não corresponde forçosamente a mesma idade mental. Da mesma forma, à inteligência mental não corresponde o mesmo patamar de inteligência emocional. Conhecemos todos pessoas que, do dia em que nascem até seu último suspiro, são incapazes de conviver harmoniosamente em sociedade.

Colocar os interesses pessoais à frente do respeito devido a quem atravessa nosso caminho é sintoma claro de imaturidade emocional. Se a ela se agrega um quadro de permissividade social, a solução dos conflitos fica cada vez mais distante. Na adolescência, a inconformidade com a colocação de limites vem quase sempre embalada em desvios de conduta social, já que o mote dessa fase de vida é a autoexperimentação. Porres homéricos, consumo de drogas, rachas de automóvel, brigas na rua, vandalismo, práticas sexuais inconsequentes. Sinta-se à vontade para incluir outros exemplos do desejo quase incontrolável do jovem de se autoafirmar acima e além de qualquer outra forma de controle social.

A pergunta crucial que está sendo feita neste momento é se o jovem com idade inferior à constitucionalmente definida como maioridade legal deve ou não responder pelas consequências de seus atos.

Para mim, há uma diferença gritante entre responsabilizar e punir. Se não recai sobre a minha cabeça a necessidade de reparar ou compensar eventuais transtornos que eu possa ter causado voluntária ou involuntariamente a terceiros, não tenho como avançar em meu processo de amadurecimento psicológico.

Tribunal 5O que precisamos discutir com urgência é de que forma essa reparação pode e deve ser feita. Já está suficientemente claro para todos que não basta trancafiar infratores – tenham a idade que tiverem – jogar fora a chave e fazer de conta que não haverá efeitos colaterais indesejáveis.

Adotar a tática do avestruz e deslocar as atenções para a complexa questão carcerária brasileira é, a meu ver, uma decisão tão ou mais irresponsável do que a própria delinquência juvenil que se pretende combater.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Corte moderno

Francisco de Paula Horta Manzano (*)

Lá pelos idos anos 70, eu não poderia ser considerado exatamente um fã de visitas ao barbeiro, a quem hoje chamam cabeleireiro. Nos dias de hoje, moderninhos toda a vida, ainda existem os salões de barbearia, que só atendem a homens e os salões de beleza, que dão atendimento a mulheres. Há ainda os chamados unisex, que eu não imagino a quem atendam. Coisas dos tempos.

Naquela época, eu ia a um salão de barbeiro lá muito de vez em quando, geralmente quando minha mãe ameaçava me deserdar, ameaça que só fui descobrir muito tempo mais tarde não ser verdadeira, pois nunca houve herança nenhuma. Mas, na época, funcionava sempre.

Enfim, era até interessante quando eu ia cortar o cabelo. As más línguas diziam que eu ia, na verdade, podar os cabelos. Intriga apenas. Eu ia cortá-los mesmo. Mas era, de fato, interessante. Meus sobrinhos, pequenos àquela época, ficavam ansiosos esperando por minha volta, na esperança de ter sido encontrado algum dos carrinhos de brinquedo deles em meio a minha longa e farta cabeleira enfim cortada (ou podada, se preferirem).

Barbeiro 3Mas os tempos mudaram. Hoje eu vou frequentemente ao barbeiro e desconfio que ele só trocou de carro este ano graças a minhas repetidas visitas. Agora ando torcendo para que ele troque a tesoura, que já não corta mais nem água. O pente ainda é um daqueles Carioca, banguela de alguns dentes. Calculo que deve datar de quando ele (o barbeiro) ainda era mocinho. Agora ambos são velhinhos, o barbeiro e o pente.

Ainda na semana passada, fiz minha mais recente visita ao salão. É um salão antigo, tradicional. O barbeiro é velhinho, já sofreu derrame e treme muito, justamente com a mão direita, o que, para quem não o conhece, pode assustar um pouco, uma vez que ele é destro. Mas, por hábito, após frequentar o mesmo lugar por anos e anos, confesso que me afeiçoei ao profissional e talvez até sentisse falta dele se um outro mexesse em meus cabelos sem que a mão tremesse. Acharia muito estranho.

O salão é uma festa permanente com todo aquele pessoal que vai apenas para conversar, contar piadas, contar mentiras, fazer hora. Uma opção inclusive para aqueles que querem chegar um pouco mais tarde em casa, fugindo da sogra. E eu lá, ajudando o seu Antenor a trocar de carro. Assim é o salão O Pente de Ouro. Luxuoso, não se pode dizer que seja, mas pelo menos nome pomposo, isso com certeza ele tem.

Barbeiro 2Em minha mais recente aventura (é literalmente uma aventura) n’O Pente de Ouro, cheguei, cumprimentei todos os presentes, um a um, e levei certo tempo até descobrir quem realmente esperava para ser atendido e quem apenas se escondia da sogra.

Depois de algum tempo, consegui finalmente sentar-me na cadeira para ser atendido. Tirei meus óculos e meu aparelho de surdez. As pernas não tirei porque, por enquanto, ainda são minhas mesmo. (E procuro aproveitar bem enquanto elas ainda o são!) Estava pronto para ser atendido. Eu disse que queria que ele desse apenas uma aparadinha. Ele perguntou se eu não gostaria de um corte mais moderninho, uma coisa assim mais ou menos entre Ronaldinho e Chico César quem sabe. Eu agradeci pelo oferecimento, mas insisti que queria apenas uma aparadinha.

Já sem meus óculos, portanto, sem ter como enxergar a mim mesmo no espelho, ainda tive a cadeira virada de tal forma que fiquei de costas para o dito. Cá entre nós, comecei a sentir um certo temor naquela hora.

Ele me perguntou alguma coisa sobre como deveria cortar na parte de trás da cabeça, mas eu, já sem aparelho para surdez, não entendi direito e, antes que eu pedisse para repetir a pergunta, ele empurrou minha cabeça para a frente, forçando o pescoço para baixo, de forma que eu não consegui mais falar. Mesmo que falasse, não seria ouvido daquele jeito.

Barbeiro 1E ele continuava a cortar, fazendo pequena pausa a cada duas ou três tesouradas para olhar para o lado, segurando o pente e a tesoura no ar, enquanto fazia algum comentário em voz muito alta e animada com o pessoal que estava por lá. Ele conversava, a prestação, sobre futebol, mulher, sogra, política. E fofocava, coisa que a gente acha que só ocorre em salão de mulheres. Assim continuou até que eu percebi que ele se afastou um pouco de mim, foi até perto do colega, barbeiro da cadeira ao lado, e cochichou alguma coisa enquanto os dois olhavam para mim. Percebi um movimento negativo da cabeça de um dos dois, não soube definir qual deles – os dois eram apenas vultos para mim, sem óculos naquela hora. Aquilo me causou um mau pressentimento. Mesmo assim, continuei firme em meu lugar.

Quando ele voltou para continuar o corte moderninho, percebi que não falava mais com o pessoal do salão. Agora se concentrava no trabalho como deveria ter feito desde o início. Apenas dava algumas tesouradas, assim meio no ar, como se tentasse aparar um pouco mais aqui e ali, parecendo não saber mais onde deveria cortar.

Não demorou muito até que ele fez minha cadeira voltar à posição inicial, de frente para o espelho. Quando finalmente consegui pôr meus óculos, dei-me conta de que minha cabeça estava com uma aparência muito semelhante a, eu diria, uma pizza calabresa com orelhas…

Pizza 1Só após reposicionar meu aparelho de surdez consegui ouvir a voz dele, agora baixinha, meio sem jeito, me dizendo que, com aquele sol todo de verão, seria aconselhável eu usar um chapéu bem grande para me proteger. Considerando o corte que ele havia feito, ficou patente que a sugestão do chapéu era para me proteger, sim, não do sol mas do ridículo. Com certeza.

Era uma daquelas situações em que você percebe logo que o melhor que tem a fazer é resignar-se e ficar quieto, pois não vai adiantar nada dizer ou fazer o que seja. Definitivus est.

Despedi-me e ainda agradeci. Tive dificuldade em fazê-lo aceitar o pagamento. Ele deve ter achado injusto deixar-me pagar por aquilo. Para minha tristeza, eu estava a pé e assim voltei para casa. Agradeci a Deus por não ter encontrado nenhum conhecido pelo caminho.

Agora, caso precisem de mim, continuo em casa tentando descobrir onde foi que guardei o chapéu que usei no último baile do cafona a que compareci, muitos anos atrás, mas que agora vai ficar até bonitinho em meu cocuruto. Pelo menos até eu conseguir consumir um pouco da cobertura da pizza. Aceita uma linguicinha?

(*) Francisco de Paula Horta Manzano (1951-2006), escritor, cronista e articulista.

Carta aberta ao gato do José

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Cachorro 22Prezado amigo felino,

Sabíamos que você, gato inspirado,
Estava deveras acabrunhado e curioso
Dos motivos do tal instituto ter entrado
Em um sono misterioso

Alvíssaras, prezado companheiro,
Folgamos em lhe dizer que o pessoal acordou
E colocou mais brasa no braseiro
Através de duas pesquisas o fim do governo indicou

Informam que a rejeição subiu, como já sabíamos todos
E que a oposição seu patrimônio manteve intacto
E esperavam, impávidos, com esses dados causar impacto
Resgatar sua credibilidade junto aos tolos

Mas, oh, quanta ingenuidade
Já mais ninguém aguenta
Constatar a desdita da presidenta
E desacreditar no fim de sua impunidade

Só faltou explicar
Se, para tudo isso, contribuiu o ocorrido na Venezuela
Ou se o que eles buscavam era só confirmar
Que o Brasil não mais comporta esse bando de Zé Arruela.

Em tempo, será que o Papa Francisco podia
Rezar uma missa de réquiem e colocar um ponto final nessa agonia?

Um abraço carinhoso de suas amigas cachorras.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Governo concordou

Cláudio Humberto (*)

O governo Dilma soube com antecedência dos planos do governo venezuelano de destacar um grupo de militares à paisana, passando por manifestantes, para hostilizar os senadores que foram a Caracas visitar presos políticos. Também a embaixada brasileira demonstrou saber da operação de intimidação: diplomatas tinham ordem para não acompanhar os senadores na van que seria alvo dos milicianos.

by Roque Sponholz, desenhista paranaense

by Roque Sponholz, desenhista paranaense

O embaixador brasileiro Ruy Pereira entrou no avião dos senadores antes que desembarcassem, cumprimentou-os e “vazou”.

Os pilotos da FAB que conduziram os senadores foram avisados pelas autoridades venezuelanas para preparar o voo de volta imediatamente.

Após o desembarque dos senadores em Caracas, os pilotos da FAB foram de novo abordados e aconselhados a “nem almoçar” na cidade.

O grupo de senadores de oposição foi a Caracas visitar presos políticos venezuelanos, mas mal conseguiu sair do aeroporto.

(*) Cláudio Humberto, bem informado jornalista, publica coluna diária no Diário do Poder.

Ooops!

Carlos Brickmann (*)

MitraCerto dia, alguém liberou, na France Presse de Paris, a prematura notícia da morte do papa Paulo VI. Na Rádio Bandeirantes, uma das principais emissoras do país, o excelente locutor Lourival Pacheco, que estava no ar, deu a informação.

A emissora já entrava com o aparato fúnebre (biografia, música sacra, personalidades dando depoimentos sobre a perda, prognósticos sobre os possíveis sucessores) quando chegou de Paris a informação de que tudo tinha sido um engano.

Lourival Pacheco, preocupado em esclarecer a situação para os ouvintes, empostou sua esplêndida voz e corrigiu: “Lamentamos informar que, infelizmente, o papa não morreu”.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação. Publica a Coluna Carlos Brickmann em numerosos jornais. O texto aqui reproduzido é fragmento da coluna.

 

Um TOC de bondade

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Criança 3Desculpem-me por destruir algumas ilusões à medida que descrevo minha problemática emocional. Eu não sou boazinha. Nunca fui e nunca quis ser. Apesar de meus pais terem me estimulado durante toda a minha infância a manifestar gestos de solidariedade, nunca correspondi à altura. Medo, covardia e timidez exagerada fizeram de mim uma pessoa voltada para dentro, preocupada mais em me livrar de sensações desagradáveis do que em propriamente estender a mão a quem dela necessitasse.

Generosa talvez eu tenha sido em algumas ocasiões. Se estou diante da escolha de fazer o bem a quem me pede algo com delicadeza ou reagir com indiferença e virar as costas, opto no mais das vezes por aceder ao convite do meu lado generoso. Mas, que fique bem claro: desde que isso não me custe nada!

Ser apontada como uma pessoa boa é algo que me causa desconforto, me constrange e me envergonha. O elogio soa sempre aos meus ouvidos como sinônimo de trouxa, de pessoa que aceita de bom grado ser usada.

Criança 2Sei que não sou boa porque detecto sinais claros de irritação dentro de mim sempre que alguém, que já me pediu outras coisas várias vezes anteriormente, me coloca diante de um beco sem saída para negar o favor pedido. É isso, aceitei no passado ser usada por terceiros porque não queria macular minha imagem. Imagem de quê? De boazinha, é claro. Como qualquer outra pessoa na mesma situação, achei que poderia atrair afeto se me comportasse segundo as expectativas. E, quando a primeira pessoa me elogiou em resposta, isso virou um vício, uma obsessão, uma compulsão.

A coisa só começou a mudar quando percebi que, quando essa mesma pessoa não estava precisada de outros favores, ela deixava de manifestar afeto por mim. Eventualmente, algumas até se recusavam a me fazer favores em retribuição. E eu não podia retrucar, não podia cobrar nada porque estava implícito que eu havia acedido graciosamente.

Em resumo, foi então que me dei conta de que eu havia me tornado refém das migalhas de afeto que podia recolher pelo caminho se parecesse boazinha. O que eu não havia percebido desde o início era que as pessoas devem ser amadas pelo que são e não por qualquer coisa que possam fazer.

Papai Noel 2Quando a luz se fez, já era tarde. Meu TOC [transtorno obsessivo-compulsivo] já estava instalado. Como me afirmar e dizer não a novos pedidos se imediatamente começava a imaginar mil desgraças prontas a recair sobre minha cabeça caso a recusa se concretizasse? Culpa da formação religiosa católica de minha família, sem dúvida. Se você não for bondosa, não vai ganhar o céu. Se você não se comportar direitinho o ano todo, Papai Noel não vai lhe trazer nenhum presente.

E lá ia eu, mais uma vez, mesmo contrariada, me forçar a fazer o que não queria. Sufocar minha revolta no peito e na garganta, abaixar a cabeça e colocar um sorrisinho amarelo no canto da boca. Tentar afastar do meu cérebro a pergunta angustiante: até quando, meu Deus?

Jovem 1Não me entendam mal. Quero, sem dúvida, ser útil, poder me colocar a serviço de outras pessoas, mas não tenho estômago para me comportar como uma gueixa ou como um simulacro de Madre Teresa de Calcutá. Não aspiro à santificação e não tenho nenhum apego ao masoquismo. Quero aprender a me doar com a alegria das pessoas livres, com a leveza das borboletas, com a ingenuidade das crianças. Acima de tudo, quero acreditar no poder transformador da minha própria integridade.

Tentando fazer o bem a quem está fora, tornei-me cruel com o que está dentro. Deus e o diabo numa disputa feroz encenada na arena que sou eu. Que mérito haverá, me pergunto, na bondade exercida de má vontade, à contre-cœur? Não seria melhor, mais justo, ser maldosa de alma limpa?

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

O vaso e o cachepô

Francisco de Paula Horta Manzano (*)

Flor 1Uma crônica com um título desses fica até com cara de fábula. Mas não é. Trata-se de caso que realmente aconteceu.

Contaram-me essa história como verdadeira e não tenho por que duvidar, pois a relatar-me foi o próprio dr. Venâncio Prates, homem de meia-idade (que já teve, com certeza, 1/4 de idade e um dia ainda há de ter idade inteira), sujeito boa-praça, que leva muito a sério seus cabelos grisalhos – os que ainda lhe restam e que agora observam, lá do alto, a barriga um tanto volumosa a comprometer um bocado a estética do conjunto.

Disse-me que a esposa, dona Ilda, à semelhança de tantas outras, adorava plantas. Frequentava exposições, admirava e elogiava o capricho da natureza na feitura das flores, umas mais belas que as outras, o que sempre a deixava sem saber definir qual a sua predileta, tantas as cores e as formas. Tamanha beleza e tanta variedade enchiam-lhe os olhos.

Foi num Dia dos Namorados que o dr. Prates teve a infeliz idéia de comprar um pequeno vaso com florezinhas muito delicadas, até bonitinhas mesmo. Tinha bom gosto para escolher, e não havia de existir melhor presente para a esposa.

Pois bem, deu-lhe o tal vaso. A mulher ficou radiante e passou uns 5 ou 6 dias agradecendo de tanto que gostou. Mas (e quase sempre há um “mas” para fazer a coisa desandar)… e o cachepô? Um recipiente desses melhoraria e muito o vaso, faria com que as flores ficassem ainda mais bonitas – achava dona Ilda. Um vaso sem cachepô está fadado ao insucesso, ao abandono, ao esquecimento.

Como de costume, dr. Prates atendeu logo ao desejo de sua amada. Um ou dois dias depois, apareceu em casa com um cachepô que, de fato, valorizou mais ainda o presente.

Um “mas” bastava? Claro que sim, se se tratasse de pessoa, digamos, normal. Já dona Ilda, com tanto tempo disponível para conjecturar, conseguia elaborar idéias mais profundas a partir de um simples vaso, agora reforçado pelo cachepô.

by Ewa Helzen, artista de Malta

by Ewa Helzen, artista de Malta

Achou que talvez fosse a cor da sala que não estivesse lá combinando muito bem com as flores, que, aliás, continuavam muito bonitas, embora parecessem já não ornar tão bem com o ambiente.

O dr. Prates não demorou a tomar a decisão de pintar a sala de estar. Claro que, logo em seguida, descobriu que a sala de jantar não podia ficar com a pintura velha e logo deu-lhe nova pintura também. Acatando sugestão da amada esposa, os quartos também foram pintados, o que obrigou, por conseqüência, a aplicar pintura nova ao resto da casa, sem esquecer, naturalmente, o lado de fora.

Feito tudo isso, dona Ilda, que continuava a cuidar muito bem das flores (que bem poderiam ser chamadas de Eva, pois foi por onde tudo começou), a sra. Prates – dizia eu – que tinha tempo de sobra para observar as coisas, após longa, acurada e minuciosa observação dos tons, do tamanho e do formato das flores do vasinho predileto, chegou à conclusão que, na verdade, era a casa que não combinava com a elegância e distinção das flores. Flores tão únicas, como jamais vira em sua vida. E depois, não era só isso, havia também que considerar o valor sentimental que elas representavam.

Não demorou muito e o dr. Prates, apesar das frustradas tentativas de demover a esposa da nova idéia (sem sucesso apesar de alentada argumentação), procurou nova casa, mais ampla, espaçosa (e mais cara também, claro) mas que, enfim, estaria perfeitamente apta a acolher, numa das salas, aquele vaso de flores dentro do cachepô.

Agora era hora de sossegar, mas (olha o “mas” aí de novo…) alguma coisa ainda inquietava o pobre dr. Prates (a esta altura, literalmente mais pobre mesmo, depois dos gastos consentidos). Conhecendo a esposa de longo relacionamento, ou seja, de muitos outros carnavais, pressentia ele que algo mais ainda estava por vir.

Flor 2O dr. Venâncio Prates me confiou, depois de longo e profundo suspiro, que, preocupado com o conforto da esposa, comprou na semana passada uma almofadinha nova, para ela se sentar no banco do automóvel quando for dirigir.

A almofadinha até que ficou muito legalzinha, mas… (quem diria, hein, outro “mas”!), ele me disse que esta semana estão procurando um modelo novo de carro para comprar. Zero, é claro. E a almofadinha vai ter que ficar uma graça no carro novo.

(*) Francisco de Paula Horta Manzano (1951-2006), escritor, cronista e articulista.

Lei de palanque

Cláudio Humberto (*)

Justiça 3

Candidato a prefeito de Catolé do Rocha (PB) nos anos 60, Benedito Alves Fernandes, o Biu Fernandes, encerrou a campanha usando a famosa expressão do direito Dura lex sed lex – a lei é dura, mas é a lei. Como o povão não entendeu, Biu resolveu traduzir a frase: “Lutarei até morrer!”.

Hoje ele é deputado estadual pelo Democratas. Biu pode não saber o significado da expressão em latim, mas já deve ter aprendido que, para certos políticos, como diria Fernando Sabino, a expressão mais adequada é “dura lex sed latex” – a lei é dura, mas estica.

(*) Cláudio Humberto, jornalista, publica coluna diária no Diário do Poder.