Abertura na política externa

José Horta Manzano

Sem dúvida, é sempre mais fácil lidar e conversar com gente que compartilha nossas ideias. No entanto, de um chefe de Estado, espera-se mais que a opção pela facilidade. No fundo, não precisa ter qualidades especiais para tratar com “amigos” – isso está ao alcance de qualquer um. Somente os grandes estadistas conseguem trocar ideias de maneira civilizada com adversários ou desafetos.

Lula da Silva não é o primeiro nem o último lider a torcer o nariz para chefes estrangeiros cujas ideias não coincidam com as suas. Bolsonaro, seu antecessor, bem que procurou aproximar-se de seus pares, mas em geral foi rejeitado. Já com Lula é diferente. Sua fama de “pai dos pobres” o precede e consegue abrir-lhe portas que, para um outro, permaneceriam fechadas.

Em seus primeiros dois mandatos, um Luiz Inácio deslumbrado rodou mundo e foi, com encanto e volúpia, ao encontro de reis, príncipes e todos os que o quisessem receber. E todos queriam. Já neste terceiro governo, sabe-se lá por que razão – a lassitude própria da idade que avança ou a mágoa de ter passado pela casa prisão –, o fato é que o velho demiurgo parece mais emburrado, mais rígido e menos disposto a tratar com os que não professem sua visão de mundo.

Em vez de facilitar-lhe a existência, esse agarramento a princípios por vezes obsoletos fecha-lhe portas. E, por via de consequência, bota o barco brasileiro em águas mortas, de calmaria, de não avanço, transformando nosso país em ostra que se recolhesse à própria solidão.

Há males que vêm pra bem, costuma-se dizer. O vendaval Trump, que chacoalhou o mundo e, em especial modo, nosso país, terá tido ao menos o mérito de mostrar a nossos estrategos que pular de cabeça na fantasia do tal “Sul Global” é inútil e perigoso. Nada de bom pode sair de um balaio de gatos que inclui China, Índia, Rússia e nenhum país ocidental. O terceiro-mundismo podia cair bem nos anos 1970 de Gamal Nasser, Indira Gandhi e Jozip Bros Tito. Hoje, como dizer, está meio démodé.

Em política externa, não há amigos, há interesses. Acho completamente estúpido ver cúpulas do Mercosul em que um chefe de Estado não comparece porque “não se dá” com outro. Ora, não estamos falando de festa de batizado de sobrinho, gente. O nível é (ou deveria ser) mais elevado.

Me alegra ver que Lula, e os que lhe sopram sugestões ao ouvido, estão finalmente despertando para a realidade. Dirigentes passam, Estados permanecem. Há que passar por cima do fato de tal governante ser de direita e tal outro de esquerda. Tanto faz. Todos temos interesses comuns.

Nunca é tarde demais para fazer o certo. Que continuem nessa via.

Morrer pela Groenlândia

Nuuk, capital da Groenlândia

José Horta Manzano

Ao pé das montanhas geladas da Groenlândia estão para ser delineados parâmetros para o convívio das nações neste 21° século. A depender do que aconteça nas próximas semanas e meses, o futuro da humanidade dará um tímido passo adiante ou regredirá dois séculos e sacramentará a vigência da lei do mais forte.

Passado o pesadelo da Segunda Guerra Mundial, a quase totalidade dos países se reuniram na recém-criada ONU para pôr ordem no tabuleiro e fixar regras que evitassem conflitos e guerras. Essas regras nem sempre foram respeitadas, mas permaneceram, por décadas, como balizas de como as coisas deveriam ser.

De lá pra cá, a integridade e a soberania nacional nem sempre foram respeitadas.

Em 1950, a China, por ordem de Mao, invadiu o Tibet que, após longo período de distúrbios, acabou anexado pelo invasor e se tornou parte integrante da República Popular.

Em 1979, foi a União Soviética a invadir o Afeganistão; Moscou só mandou retirar suas tropas depois de 9 anos de ocupação.

Os Estados Unidos, por seu lado, mantiveram a tradição de invadir ou intervir, por curtos períodos, em numerosos países; tirando a guerra do Vietnã, que durou doze anos, as outras intervenções foram mais breves, da Coreia à Líbia.

Ao ameaçar tomar posse da Groenlândia, Donald Trump eleva a novo patamar o desrespeito à soberania de países estrangeiros. A Otan, tratado de defesa mútua ligando EUA, Canadá e quase todos os países europeus, estipula que o ataque armado a um dos países signatários será considerado um ataque a todos os outros, que, por seu lado, se comprometem a defender o atacado.

O tratado não prevê a invasão de um país membro por tropas de outro país membro. Caso os EUA de Trump cumpram sua ameaça de tomar a Groenlândia pela força, não faz sentido pensar num confronto EUA x todos os demais países membros. Primeiro, por uma questão ética e segundo, porque a força militar americana é superior à de todos os signatários da Otan reunidos. Os europeus não estão dispostos a mandar sua juventude ao campo de batalha morrer pela Groenlândia.

A Dinamarca é a proprietária daquela imensidão gelada. Por mais que seja civilizada e rica, a Dinamarca é um país pequenino, do tamanho do estado do Rio de Janeiro, com 6 milhões de habitantes. Imagino que, se a proprietária da Groenlândia fosse o Reino Unido ou a França, países mais fortes que possuem a arma nuclear, Trump pensaria duas vezes antes de ameaçar tomar o território à força.

Estes dias, há muito movimento em torno do assunto. Um detalhe absurdo é de se notar: oito países da Otan estão mandando tropas para defender a Groenlândia de um ataque americano: Alemanha, Reino Unido, França, Suécia, Noruega, Finlândia, Holanda e Estônia. A Europa se defendendo de ataque militar americano! É surreal. São tropas reduzidas, de valor simbólico, mas demonstram a disposição dos europeus de não permitirem que Washington leve um pedaço de seu território.

Trump, que tem em mãos a força bruta, é imprevisível. Se ele decidir que quer porque quer levar a Groenlândia, ninguém poderá detê-lo. Se isso ocorrer, a conquista de território alheio pela força estará, daqui pra diante, autorizada.

Só nos resta apreciar a movimentação e torcer para que o pior não aconteça.

Política pelo espalhafato

Oceano Ártico

José Horta Manzano

Como político, Donald Trump é inclassificável. Não se encaixa em nenhum modelo habitual. Autoritário é, mas não atinge os cumes a que chega um Putin; Trump sabe quando é chegado o momento de dar meia-volta. Personalista também é, mas ainda está para aparecer um líder que não o seja. A ignorância é outra de suas características, mas não é um não saber incurável que um bom assessoramento não possa mitigar.

O que distingue a personalidade de Trump são as palavras e os atos espalhafatosos, imoderados, apesar disso assumidos plenamente. Ordena ações militares pontuais que surpreendem e assustam, sem necessariamente resolver problemas.

O bombardeio do Irã, em junho de 2025, foi espetacular, mas passou longe de eliminar as instalações nucleares do país. Assustou, mas, de resto, foi pra inglês ver.

Ainda outro dia, anunciou ter bombardeado posições da guerrilha islamita em território sírio. Todo o mundo sabe que guerrilha não se combate com bombas lançadas por aviões.

A armada que Trump enviou para as costas venezuelanas era digna de uma batalha naval – que nunca houve, justamente por não estar no programa. A frota de guerra permaneceu semanas inteiras até que uma noite um comando foi mandado a Caracas, entrou atirando e capturou o presidente do país. Goste-se dele ou não, era o presidente, ainda que sua eleição fosse contestada. Para escárnio do mundo, o sequestrado foi levado para os Estados Unidos e lá exibido como animal de feira, mãos algemadas, pés entravados, macacão cor de abóbora. Por pouco, os curiosos não lhe lançaram bananas e pipocas. Dez dias depois, Trump declarou entender-se bem com a peona chavista que substituiu o ditador venezuelano. E tudo bem, que a vida segue. Moral da história? Tire a conclusão que lhe agradar.

Como se vê, o espalhafato é componente essencial da política trumpista. Há que conceder-lhe o mérito de atrair em permanência as atenções para sua pessoa.

Desde que assumiu o mandato, um ano atrás, Trump apregoa a quem quiser ouvir que a Groenlândia “tem de ser” americana, doa a quem doer. Se não for pelas boas, será pelas más, – promete ele. Volta e meia, torna a repetir o mantra da Groenlândia.

Não é de hoje que os Estados Unidos estão interessados em adquirir a Groenlândia. Faz século e meio que estão tentando. Mas é fácil entender por que razão o interesse cresceu dramaticamente nos tempos atuais. O aquecimento global (que Trump garante ser balela) está aí, só não vê quem não quer. Com os gelos eternos do topo do globo derretendo a olhos vistos, imensas possibilidades se abrem.

Novas vias navegáveis, antes bloqueadas por uma calota de gelo, começam a se abrir. O derretimento do gelo groenlandês tem duas consequências imediatas. A primeira é a subida do nível dos oceanos, e a inundação progressiva de baixios costeiros no mundo todo. A segunda é o afloramento de terras e rochas da Groenlândia, antes cobertas de neve e gelo, abrindo a possibilidade de exploração de suas imensas riquezas minerais.

Acostumados que estamos a ver o mapa-múndi tradicional, com as Américas à esquerda e a Ásia à direita, nos parece que a América do Norte e a Rússia estão muito distantes. E que a Groenlândia não tem a ver nem com esta nem com aquela. Basta mudar o ponto de vista e desenhar o planisfério com o Polo Norte no centro (ver ilustração). Agora, sim, dá pra entender que a Groenlândia é uma imensa ilha situada bem no meio do caminho entre a América do Norte e a Rússia. A distância do Canadá para o norte da Rússia (= a largura do Oceano Ártico) é de menos de 2.000km. Um pulinho.

Fica, agora, mais claro o porquê do interesse obsessivo de Trump pela ilha dinamarquesa. Tenho palpite que, com ou sem espalhafato, o presidente americano vai acabar conseguindo o que deseja.

Três semanas atrás, por acaso alguém imaginaria que, em uma noite, Maduro seria capturado e exfiltrado da Venezuela para nunca mais voltar?

A assombração da Rússia

Artigo publicado no Correio Braziliense de 29 outubro 2025

José Horta Manzano

Todo país com pretensões ao status de potência global tem de seguir o receituário tradicional, do qual não é possível escapar.

Em primeiro lugar, é preciso ter uma superfície que lhe garanta massa crítica. Se, ao longo da história, países de território pouco imponente chegaram a se impor em campanhas bélicas, a série de vitórias não sobreviveu à escassez de alimentos e matérias primas decorrente da falta de châo.

Em seguida, o candidato a potência tem de investir na indústria bélica. É o que sempre fizeram países tradicionalmente poderosos, e é o que tentam fazer candidatos prejudicados pela pouca extensão territorial, como a Coreia do Norte e o Irã.

Em terceiro lugar, toda potência mundial que se preze tem de contar com população importante. Veja-se o caso da China, cuja população, após décadas de “política do filho único”, decidiu adotar política natalista. Países que miram ao status de potência global não podem se permitir conviver com decréscimo populacional.

A Rússia de Vladimir Putin, herdeira da grande, forte e temida União Soviética, vem empenhando todas as forças na recuperação do prestígio de antanho. De fato, o desmonte da URSS, no início da década de 1990, deu lugar a anos conturbados, durante os quais saltaram à vista as enormes dificuldades que a competição forçada com o Ocidente havia provocado no país.

Em seu reinado, que já dura um quarto de século, Putin se propôs dois objetivos primordiais: 1) permanecer no poder e 2) restabelecer a grandeza do antigo império russo. O boné MAGA de Trump, uma vez transliterado, cairia bem como mote putiniano para a Rússia de hoje, algo como Make Russia Great Again.

Se tivesse vislumbrado o desastre que a campanha da Ucrânia estava por ocasionar, Putin talvez tivesse deixado a ideia de molho para momento mais propício. Na luta para recobrar o status de potência global, perdido há 35 anos, o ditador russo conta com dois aliados fiéis: a imensa superfície e o potencial bélico de seu país. Da área, não se discute, visto que se trata do maior país do mundo. Da indústria bélica, tampouco, visto o poder de dissuasão de seu arsenal nuclear.

Mas essa conta não fecha. Para complementá-la, um forte contingente populacional está faltando. Se a Rússia já assistia a um declínio de seu número de habitantes estas últimas décadas, a agressão contra a Ucrânia e a guerra que daí decorreu vêm agravando a crise. Um levantamento vazado do ministério russo da Defesa no começo do mês informa que, entre os combatentes, 280 mil perdas teriam sido registradas só nos primeiros nove meses deste ano. Note-se que os mortos são em geral homens jovens, na faixa dos 25 a 39 anos, idade em que se entra de pé firme na vida ativa de trabalho.

Sangria adicional está ocorrendo em outra camada da população, na classe média superior. Os homens em idade de ser recrutados fogem do país e emigram para países da vizinhança ou até para o sul da Ásia ou para a Europa. Algumas projeções estimam essa emigração a um milhão de cidadãos só nos primeiros dois anos da guerra.

Um cruel círculo vicioso está formado. Quanto mais tempo dura a guerra, maior será o fluxo emigratório e mais dramáticas serão as perdas humanas. Uma guerra de trincheiras, como essa, precisa de carne de canhão, o que tende a causar maior morticínio entre os conscritos e a encorajar a emigração. A seguirem as coisas como estão, não é tão já que Putin porá fim ao espectro do despovoamento de seu país.

A voluntariosa entrada de tanques de guerra russos em direção a Kiev nos primeiros dias da invasão botou medo em muita gente. Muitos imaginaram rever o grande exército vermelho, aquele que tinha fincado a bandeira da URSS no topo do Reichstag, em Berlim, em 1945. No entanto, contrariando todos os prognósticos, os corajosos ucranianos conseguiram a proeza de repelir os tanques e salvar a capital de seu país.

A força bélica da Rússia reside em seu arsenal de mísseis e de ogivas. A imagem que se tem das tropas de solo saiu meio arranhada depois da campanha (e da retirada) de Kiev.

O melhor impulso que Putin poderia dar a seus sonhos de grandeza seria decretar já o fim das hostilidades, equipar e treinar melhor seus soldados e adotar uma política de abertura do país à imigração. Sem essas medidas, sua quimera de reaver a grande Rússia estará cada dia mais distante da realidade.

Assimetria que já não surpreende

José Horta Manzano

Em meio à avalanche diária de informações, certos fatos passam despercebidos não por serem irrelevantes, mas por nos parecerem normais. A naturalização da anormalidade é um fenômeno perigoso, especialmente quando ela envolve a guerra. Um exemplo disso pode ser encontrado no recorte de jornal estampado logo aqui acima:


“Putin faz maior ataque aéreo e acelera nova ofensiva; Kiev alveja base.”


À primeira vista, parece apenas mais uma atualização sobre a guerra entre Rússia e Ucrânia. Mas, num olhar mais atento, salta aos olhos uma assimetria sutil — e reveladora.

A frase começa com a menção direta ao nome de um líder: “Putin faz maior ataque aéreo”. Não se trata da Rússia, do Exército Russo ou de uma decisão coletiva. É Putin, em pessoa. A manchete atribui a ele, com todas as letras, a responsabilidade direta por uma ação militar de grande escala. Já no segundo trecho, “Kiev alveja base”, a linguagem muda. A capital ucraniana é mencionada de forma impessoal, quase geográfica. O nome de Zelenski, presidente da Ucrânia, sequer aparece.

Por que isso acontece? A resposta talvez seja mais simples — e mais incômoda — do que parece. O mundo já naturalizou a figura de Vladimir Putin como uma espécie de senhor absoluto da guerra, alguém que age conforme a própria vontade, sem freios internos ou externos. A guerra na Ucrânia, nesse imaginário coletivo, não é entre dois Estados, tampouco entre dois projetos políticos. É uma guerra iniciada e sustentada pela vontade de um único homem. E essa percepção está embutida até mesmo nas estruturas linguísticas mais banais, como a escolha de palavras em uma manchete de jornal.

Essa assimetria não é apenas jornalística — ela é política, simbólica e moral. Ao personalizar os ataques russos em Putin, a narrativa constrói uma figura de vilão clássico, quase caricatural. E ao impessoalizar os ataques ucranianos, retira de Zelenski a responsabilidade ativa no conflito, ainda que defensiva. Assim, Putin aparece como o agente solitário da destruição, enquanto Kiev (ou a Ucrânia) surge como vítima reativa, um ente quase sem rosto, que tenta apenas sobreviver.

Não se trata aqui de questionar quem é o agressor e quem é a vítima — para observadores de boa fé, a distinção é clara e óbvia. Trata-se, sim, de observar como, mesmo em detalhes aparentemente neutros, a linguagem revela o quanto já aceitamos certas premissas. A guerra, afinal, não deveria depender da vontade de um homem só.

Sob o risco de ressuscitar os tempos sombrios de Hitler e Stalin, o fato de essa banalização soar hoje natural deveria, no mínimo, nos preocupar.

Os rebeldes que derrubaram o ditador sanguinário

Síria – estradas de rodagem

José Horta Manzano

Uma boa metade da Síria é desértica, sem plantação, sem mato, quase sem gente. A rede ferroviária é limitada e não permite a circulação de pessoas e mercadorias por todos os rincões. Resta a malha rodoviária, cuja coluna vertebral é um eixo de 500 km, que atravessa todo o país na direção Norte-Sul e interliga as maiores cidades.

Esse eixo principal é constituído de excelentes autoestradas – com duas pistas mais acostamento em cada sentido, separados por um canteiro central. Foi essa estrada que permitiu aos rebeldes libertar, em apenas 12 dias, uma cidade atrás da outra, até chegarem a Damasco, a capital, no sul do país.

Sabe-se que a Rússia mantém bases militares no país incluindo uma base naval, a única que os russos têm no Mediterrâneo, e que lhes permite evitar os estreitos turcos. Sabe-se que a Rússia tem sido forte aliada do extinto regime do clã Al-Assad – aliás, o ditador só se segurou no poder até a semana passada em decorrência do apoio militar russo.

Aí vem o espanto. Como é possível que um grupo de rebeldes armados de simples metralhadoras tenha conseguido a façanha de passar 12 dias viajando de autoestrada aproveitando para libertar todas as grandes cidades do caminho, sem ser jamais incomodado pelo exército russo? Está aí um mistério que talvez um dia venha a ser esclarecido.

Vejo duas hipóteses. A primeira é que tenha havido um acerto prévio, combinado entre russos e rebeldes. (É sempre bom combinar com os russos.) Mas a hipótese me parece pouco plausível, visto que os rebeldes não estavam em condições de garantir aos russos a continuidade da autorização de funcionamento das bases militares. Os russos não abandonariam assim, tão facilmente, as bases instaladas na Síria.

Há uma segunda hipótese, que é a mais provável. A facilidade com que os rebeldes percorreram os 500 km de estrada em menos de 2 semanas, libertando cidades, vilas e vilarejos pelo caminho, só foi possível pelo fato de a Rússia estar impossibilitada de defender a ditadura do aliado Assad. Acompanharam os acontecimentos de braços atados, horrorizados mas impotentes. E por quê?

É que o intenso esforço militar que têm feito na guerra que estourou após terem invadido a Ucrânia os deixou mais diminuídos do que se imaginava. Tropas, aviões, tanques e munições que estavam estacionados na Síria já faz tempo que foram levados à Ucrânia. A atual presença russa na Síria é virtual, baseada numa imagem e não na realidade do terreno.

Com um único avião, a Rússia poderia ter bombardeado a autoestrada à frente dos rebeldes, derrubando duas ou três pontes ou viadutos. Isso teria parado a ofensiva, o ditador continuaria no trono e os russos permaneceriam no comando do país. É permitido supor que não tenham tido à mão esse simples avião bombardeiro.

A conclusão é que o temido exército russo está em condições piores do que se imaginava. Isso é ótima notícia para os ucranianos, num momento em que se aproximam as negociações de paz.

Asilo na embaixada

Embaixada da Rússia em Brasília
Painel no saguão monumental

José Horta Manzano

Cutucado por jornalistas, Jair Bolsonaro acenou com a possibilidade de refugiar-se numa embaixada. Foi um balão de ensaio que ele soltou, não se sabe bem com que intenção.

A ‘ameaça’, se assim se pode qualificar a fala do figurão agora penalmente indiciado, me fez cogitar. Fazer o quê numa embaixada? E que embaixada escolher?

Parece que faz um tempão, mas foi este ano, em março, que Bolsonaro entrou de mala e cuia na embaixada da Hungria em Brasília, crente de que sua “amizade” com Viktor Orbán fosse lhe garantir tratamento VIP. De mala e cuia é expressão, que na verdade ele não levou roupa de cama nem alimento. Lá se instalou, sem pedir licença, com o sentimento de quem acha que tudo lhe é devido.

A tragicomédia durou dois dias, o tempo de o embaixador pedir instruções a Budapest. Que fazer com o incômodo visitante? Antes que a coisa caísse na voz do povo, Bolsonaro foi gentilmente convidado a retirar-se do local. Asilo? Não é possível.

Para que a notícia entrasse no domínio público pela grande porta, entregaram ao The New York Times, considerado o jornal mais importante do mundo, o relato do acontecido, acompanhado das imagens do circuito interno. Pra ninguém botar defeito. Todos puderam ficar sabendo que o candidato ao asilo tinha entrado por livre e espontânea vontade, sem coação.

À porta da embaixada da Hungria é que Bolsonaro não bate mais. Não quer levar outro desacato. Que embaixada(s) nosso ex-presidente indiciado poderia escolher agora? Vejamos.

Estados Unidos
Precisaria primeiro atravessar as portas do prédio. Não entra lá quem quer. Se lhe permitissem entrar, é de apostar num cenário à la húngara, ou seja, com um asilo sumariamente negado. Com ou sem Trump na Casa Branca, ninguém – nem Donald Trump – quer importar um trambolho incontrolável como Bolsonaro. O melhor a fazer é cortar o mal pela raíz, não permitindo a entrada dele sequer na embaixada. (Dependesse de mim, é o que seria feito.)

Países do mundo ocidental
Nas outras democracias ocidentais, calculo que o raciocínio seja o mesmo. Portanto, Alemanha, Canadá, Japão, França, Romênia, Austrália & semelhantes entram neste capítulo.

Argentina
Depois de eliminar o Ocidente democrático, sobram as ditaduras, a América Latina, a África e o sudeste da Ásia. Não imagino Bolsonaro batendo à porta da Argentina. Milei reina por enquanto mas… e amanhã?

África, Ásia
África? Ásia? Não consta que o ex-presidente se sentisse bem na África. No sudeste da Ásia (Tailândia, Filipinas, Nova Guiné)? Você acha?

China, Rússia, Índia
Eliminados todos os anteriores, quem é que sobrou? As ditaduras mais fechadas, que combinam com a alma e o espírito de Jair Messias. O nome principal é a Rússia. Seus satélites também entram na lista: Casaquistão, Bielo-Rússia, e os outros. Tirando a Rússia, o último refúgio possível seria a China ou a Índia.

Bolsonaro e seus filhos já trataram Pequim de todos os nomes e já lhe atribuíram todos os defeitos possíveis, a começar por “comunistas”. Com que cara vão agora pedir favor aos chineses? Quanto à Índia, é exótica demais.

Espremido o limão, quem é que sobrou? A Rússia, não vejo outro país. Se quiser escapar de Alexandre de Moraes, é para lá que deve ir. Mas não convém ir entrando assim na embaixada sem mais nem menos, como ele fez com a Hungria. Precisa antes combinar com os russos.

Troca de prisioneiros

Desde a Guerra Fria, a ponte Glienicke, em Berlim, foi apelidada de “Ponte dos Espiões”. Era o local onde se faziam trocas de prisioneiros. Cada preso liberado saía caminhando de um lado, encontravam-se no meio da ponte e, sem uma palavra, continuavam a pé ao encontro dos seus.

 

José Horta Manzano

A Agência Bloomberg acaba de informar que uma múltipla troca de prisioneiros está em curso neste momento. Estão envolvidos quatro países: Rússia, Estados Unidos, Alemanha e Bielo-Rússia. Não foi publicado o rol de todos os envolvidos, mas sabe-se que o jornalista americano Gershkovitch e seu compatriota Whelan, antigo militar, fazem parte dos que serão libertados para cumprir o trato.

O jornalista americano Evan Gershkovitch trabalhava na cidade de Ekaterinburg (Rússia) quando foi detido em março 2023. Acusado de crime de espionagem, está preso até hoje. Mês passado, foi condenado a 16 anos de encarceramento em regime severo. Tudo indica que seu julgamento foi apressado para permitir a conclusão final do acordo de troca.

Outro envolvido é o jornalista e político russo-britânico Vladímir Kara-Murza, que cumpre pena de 25 anos de prisão na Sibéria por ter manifestado publicamente sua oposição à guerra na Ucrânia.

Pode-se supor que os EUA e a Alemanha estejam libertando cidadãos condenados por espionagem em favor da Rússia, ora entregues em troca dos ocidentais que estão deixando os gulags russos.

Trocas de prisioneiros eram relativamente frequentes na Guerra Fria. Volta e meia, espiões de um lado eram liberados em troca de espiões do outro lado. O fim da União Soviética significou boa diminuição desse fluxo. Mas, embora sem o cerimonial do passado, ele continua, bastando ver a múltipla troca atual.

Esse escambo de condenados até que poderia ser uma solução para o desenlace do atual drama político venezuelano. Só que não vai dar, pois Maduro & asseclas provavelmente não aceitariam ser trocados e terminar em cárceres no “Império”. De toda maneira, não estão presos, portanto não faz sentido falar em troca de condenados.

Se a pressão interna e externa aumentar ao ponto de se tornar insuportável, não há lugar para acordos na Venezuela. Só resta aos atuais mandatários a solução do exílio. No mundo atual, poucas opções se oferecem ao narcoditador. Terá de escolher entre Cuba e Nicarágua, se quiser ficar perto da pátria, no mesmo torpor equatorial.

Se não se importar de atravessar o oceano, sempre pode ir para a Rússia. Mas parece que o clima de lá nem sempre permite sair à rua de chapéu de boiadeiro e camisa vermelha.

Além do que, no dia em que Putin for apeado do poder, como é que fica? Melhor o Caribe acolhedor.

Preparando a paz na Ucrânia – 1a. parte

Bürgenstock, Suíça: local da conferência

José Horta Manzano

Em 2023, a reunião anual do G7 teve lugar em terra japonesa. Como frequentemente acontece, Lula foi convidado a ocupar uma poltrona sobressalente. Questionado por jornalistas sobre a guerra decorrente da invasão russa à Ucrânia, Luiz Inácio deu sua lição:


“Tenho repetido quase à exaustão que é preciso falar da paz. Nenhuma solução será duradoura se não for baseada no diálogo. Precisamos trabalhar para criar espaço para negociações”, afirmou.


Trabalhar para criar espaço para negociações – foram as sábias palavras de seu evangelho. Nenhum dirigente político bem-intencionado discordaria. Lula tem razão. No momento atual, com os canhões ainda troando e os tanques sulcando campos que costumavam ver brotar espigas de trigo, é complicado convocar uma conferência entre as partes com vistas ao fim das hostilidades.

A Rússia reclama para si a totalidade da Ucrânia, que considera sua propriedade. A Ucrânia, invadida de surpresa por terra, mar e ar pelo exército russo, não faz mais que se defender de forças estrangeiras que ocuparam seu território.

Paz, para a Rússia, significa rendição incondicional da Ucrânia e anexação do território ucraniano à Rússia. Paz, para a Ucrânia, significa a imediata retirada das forças russas de seu território.

Nessas circunstâncias, fica complicado colocar face a face, em volta de uma mesa, negociadores russos e ucranianos. No momento atual, a reivindicação de uma parte é inaceitável para a outra. E vice-versa.

Para se chegar a uma reunião séria e objetiva entre Rússia e Ucrânia, os países patrocinadores da paz vão ter de gastar muita conversa, usar muito poder de convicção, fazer algumas ameaças veladas nos bastidores. Não vai ser fácil nem rápido.

Para dar início a essa maratona de conversas e negociações, que perigam levar anos, a Suíça organizou uma conferência preparatória para a qual praticamente todos os países foram convidados, com duas notáveis exceções: a Rússia e a China. A Rússia, porque já tem declarado querer a rendição incondicional da Ucrânia, exigência incompatível com negociações que ainda nem começaram. E a China, porque já fez saber que não aceitaria o convite.

Durante a conferência

A conferência para preparar a paz na Ucrânia realizou-se nos dias 14 e 15 de junho num cenário de cartão postal, num centro de conferências situado no alto de um penhasco com vertiginosa vista para um lago. No total, uma centena de países e organizações internacionais mandaram representantes. Entre chefes de Estado e chefes de governo, eram 57. A vice-presidente dos EUA e o líder de praticamente todos os países europeus estavam presentes. Entre os latino-americanos, diversos presidentes compareceram: Argentina, Chile, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, Equador, Guatemala.

Por coincidência, Lula esteve pertinho dali na véspera da conferência. Estava, como no ano passado, ocupando uma poltrona sobressalente na reunião de 2024 do G7, realizada este ano na Itália, para a qual tinha sido convidado pela primeira-ministra Giorgia Meloni. Será difícil alegar incompatibilidade de agenda para não dar uma esticada até terras alpinas (até Meloni foi à conferência preparatória da paz na Ucrânia). Assim mesmo, Lula preferiu embarcar em seu jatão A330 da FAB, avião grande, que tem maior autonomia que o pequenino Aerolula. Sem escalas, levantou voo em Bríndisi (Itália) e pousou em Brasília.

O Brasil pediu para não ser contado como participante à conferência da Suíça. Solicitou ser inscrito como “observador”. Não mandou presidente, nem vice, nem ministro nenhum. Nosso país foi representado pela embaixadora do Brasil na Suíça. Fiquei com impressão de que inscrever-se como “observador” foi pretexto para não ter de assinar a declaração final (que poderia conter algum parágrafo em desacordo com o atual Itamaraty, de Lula e Amorim).

Agora vem a pergunta: Senhor presidente, com que então, aquela história de “Trabalhar para criar espaço para negociações”, repetida “à exaustão” por Vossa Excelência, era só gogó pra inglês ouvir? Que história é essa de sair de fininho justamente na hora em que finalmente se realizou a primeira conferência preparatória para a paz na Ucrânia? Medo de desagradar a seu amigo Putin?

Quem fica sempre em cima do muro um dia se desconcentra e acaba caindo. Além do vexame, pode se machucar. Que a duplinha Lulamorim se cuide!

Parabéns, chefe!

José Horta Manzano

Fica cada dia mais claro que tanto Lula quanto o PT estacionaram na era soviética, uma época em que, por falta de internet, a comunicação circulava de forma lenta e muito mais restrita que hoje.

Putin venceu uma pseudoeleição, uma votação de cartas marcadas, com os adversários mais fortes fora do páreo: afogados na própria banheira, tombados do terraço do apartamento ou simplesmente encarcerados nalguma masmorra perto do Polo Norte.

Apenas conhecido o resultado, o PT se apressou a parabenizar o presidente russo reeleito. Usou expressões elogiosas como “resultado expressivo”, “participação popular impressionante”, “momento importante e especial para o país”. Faz sentido. O partido, que ainda não se deu conta da queda do Muro de Berlim, continua afagando o Kremlin, como se lá ainda reinasse Josef Stalin, o “pai dos pobres” (o original).

Lula, como sabemos, não resiste a uma ocasião de dar uma boa escorregada. Viu a casca de banana e correu antes da passagem do gari. Mandou escrever uma carta de congratulações ao companheiro Putin em nome do povo brasileiro.

Com essa atitude, fez companhia aos dirigentes de Venezuela, Cuba, Nicarágua, China e mais alguns ao redor do planeta. Os líderes de países democráticos, por seu lado, manifestaram pesar e preocupação por uma eleição classificada como “farsa eleitoral”.

Francamente, este Lula versão 2022 é o mesmo que o de 2002, só que descomplexado. Nos dois primeiros mandatos, Luiz Inácio se segurou, tentou enfiar o terno presidencial e, bem ou mal, deixou de herança para o mundo uma imagem simpática de político pacífico e de pai dos pobres.

É que, nos dois primeiros mandatos, um Lula mais jovem tinha conseguido se conter e, a seu modo, se apropriar do estilo que se espera de um presidente. Depois disso, houve a humilhação da prisão e as trevas da era bolsonárica. Lula voltou à corrida eleitoral sabendo que este seria seu derradeiro período na Presidência, quer dure um mandato ou dois.

Assim sendo, parece ter se soltado de vez. O que vimos antes foi um Luiz Inácio tentando ser Mister Da Silva. Hoje ele se contenta de ser apenas Lula.

Legalização do aborto

Anos 1970
Simone Veil apresenta sua PEC à Assembleia Nacional (Paris)

José Horta Manzano

A legalização do aborto é tema sensível em numerosas sociedades, especialmente por roçar proibições de caráter religioso. Até cem anos atrás, a interrupção voluntária de gravidez não estava legalizada em nenhum país.

A hoje extinta União Soviética (Rússia) foi a pioneira. Já em 1920, Lenin suprime a penalização do aborto voluntário. Poucos anos mais tarde, em 1936, Stalin, o novo ditador, ressuscita a antiga proibição. Foi somente após sua morte, vinte anos mais tarde, que o aborto voluntário voltou a ser aprovado, para pôr freio à mortandade decorrente dos milhares de abortos clandestinos praticados a cada ano.

Timidamente, outros países foram acompanhando o movimento, autorizando a interrupção de gravidez em casos específicos (estupro, ameaça à saúde da mãe, risco de malformação do feto).

Em 1971, o presidente francês Giscard d’Estaing encarregou Simone Veil, sua ministra da Saúde, de defender a legalização diante do Parlamento. A defesa feita pela ministra foi tão veemente que as câmaras aprovaram o texto por folgada maioria. A nova lei, aprovada em caráter experimental por quatro anos, foi confirmada em 1975 e, com algumas adaptações, está em vigor até hoje.

O governo francês tem acompanhado com preocupação a saga vivida estes últimos anos pelos Estados Unidos nesse campo, com retrocessos fomentados pela Suprema Corte e acatados por estados mais conservadores. Para blindar a lei francesa e evitar que o retrocesso americano aconteça na França no futuro, o presidente Macron está atualmente propondo uma solução preventiva.

Trata-se de um projeto de alteração da Constituição (o que nós chamamos PEC – Projeto de Emenda à Constituição). A intenção é inscrever o direito ao aborto voluntário na Constituição, o que servirá como garantia de perenidade.

Enquanto isso, em nosso país, o casamento entre pessoas do mesmo sexo não está nem ao menos escrito em lei. Nem em lei nem muito menos na Constituição.

Até hoje, a coisa funciona com base num arreglo patrocinado pelas autoridades judiciárias. Os parlamentares, eleitos para fazer as leis, preferiram se esquivar e deixar que a Justiça resolva por eles. Enquanto isso, se queixam do STF, a quem acusam de “ativismo”. Vá entender.

Suas Excelências, os parlamentares, não têm tempo para gastar com essas minúcias. Cada um deles continua preferindo se dedicar em tempo integral a encontrar novos meios de cavar dinheiro público para sua própria paróquia.

Lula e Zelenski

José Horta Manzano


“Ukrainian soldiers are doing with their blood what the U.N. Security Council should do by its voting”.

“Soldados ucranianos estão fazendo com o próprio sangue o que o Conselho de Segurança da ONU deveria fazer pelo voto”.


Essa foi uma das frases mais impactantes do discurso pronunciado ontem por Volodímir Zelenski no púlpito das Nações Unidas.

Não há como discordar. A ONU foi criada, ao final do segundo conflito mundial, justamente com o objetivo de evitar novas guerras. Praticamente todos os países ao redor do globo são membros da organização, dos mais poderosos ao mais desvalidos.

De 1945 para cá, muitos conflitos estouraram. Embora tenham matado muita gente – e cada morte sempre poderia ter sido evitada –, os embates não autorizados pela ONU têm sido relativamente localizados.

Contudo, a invasão da Ucrânia pelo exército russo deu início a uma guerra de grandes proporções, totalmente ilegal e não autorizada pelas Nações Unidas. Assim mesmo, o Conselho de Segurança falhou.

Entender é fácil: a Rússia, que é o país agressor, tem direito de vetar qualquer resolução do C.S. que não lhe agrade, um privilégio concedido unicamente a cinco membros da organização: EUA, França, Reino Unido, China e a própria Rússia.

Esse poder de veto é arma de dois gumes. Por um lado, garante que uma das grandes potências que o detêm bloqueie toda decisão tresloucada ou cabeluda que pudesse ser tomada. Por outro lado, garante que não seja tomada nenhuma decisão que colida com os interesses de um dos cinco membros privilegiados.

No caso da guerra na Ucrânia, uma resolução do C.S. impondo o fim das hostilidades iria contra os interesses russos, eis por que um texto assim não tem chance de passar. Seria vetado pela Rússia.

Não sei se Lula da Silva se deu conta de que sua birra contra o Conselho de Segurança empata com a visão que Zelenski tem dessa instituição. Ambos os dirigentes entendem que passou o tempo em que cinco países tinham o direito de tutelar os demais. Zelenski pede a anulação do direito de veto russo, enquanto Lula pede uma reforma geral do Conselho. Elas por elas, os dois pedem a mesma coisa.

Em vez de bancar o difícil, fazer biquinho e menosprezar o baixinho que dirige a Ucrânia, nosso presidente (que também não é nenhum gigante) devia aproveitar a maré e se associar ao colega de Kiev, pelo menos nessa cruzada em favor de uma repensada geral da “governança mundial” – termo que aquece o coração de Luiz Inácio.

Neste ano e meio de destemida resistência à invasão russa, Zelenski, apesar da cara feia, granjeou um imenso capital de simpatia. Lula, que de cara feia também entende, é outro que (ainda) carrega um balde de simpatia e admiração.

Se se dessem as mãos, juntando o capital de um com o balde do outro, é certo que dariam um passo mais decisivo em direção ao objetivo de ambos: uma boa reformulada do Conselho de Segurança da ONU.

Ânimo, Lula, às vezes precisa fazer um esforço!

Amor à mesa

José Horta Manzano

A fronteira entre a Coreia do Norte e a Rússia tem comprimento de escassos 17 quilômetros. Pois é ela que permite ao ditador norte-coreano, Kim Jong-un visitar Vladímir Pútin. Paranoico como todo ditador Mr. Kim não põe os pés em avião.

(Considerando o que aconteceu outro dia com Evguêni Prigôjin, do Grupo Wagner, que caiu junto com seu avião num “acidente” ocorrido em espaço aéreo russo, o coreano até que tem razão – com Pútin, nunca se sabe.)

Ao não entrar em avião, Mr. Kim só tem uma opção para viajar: o trem. Desse modo, só pode ir de visita a seus dois vizinhos de parede: a China e a Rússia (graças aos 17km de fronteira).

Mandou fazer um trem blindado, coisa que não se via desde os tempos da Revolução Paulista de 1932. Assim, estará protegido caso algum camponês exaltado resolva dar-lhe uma estilingada. E lá se foi ver o colega russo.

Foi bem recebido. O Washington Post nos traz o cardápio do banquete. Serviram uma certa massa recheada de “carangueijo”. Falar de guerra enquanto se come “carangueijo” é indigestão na certa.

Banquete com queijo?
Perfeito!

Banquete com beijo?
Bem, entre aqueles dois, tudo pode acontecer. Há gosto pra tudo.

Banquete com carangueijo?
Evite! Tem o poder de arruinar qualquer negociação. Prefira sempre caranguejo, o legítimo.

Mercenário

José Horta Manzano

Domingo passado, a Rússia levou um tremendo susto por causa de um golpe de Estado que não foi. É verdade que gorou, mas deve ter dado um nó nos miolos da cleptocracia instalada há décadas no Kremlin. De quebra, trouxe inquietação ao planeta inteiro.

Se a Rússia não fosse dona de imenso arsenal atômico, suas brigas intestinas não mereceriam mais que três linhas de rodapé. No entanto, vista a coleção de mísseis e bombas que entopem seus depósitos de armas, é melhor andar na pontinha dos pés e procurar não irritar o autocrata que controla o país. Mormente porque, como todo líder autoritário, Pútin é paranóico e imprevisível.

O episódio do golpe fracassado trouxe às manchetes uma daquelas palavras que não se usam todos os dias: mercenário. Vindo de um remoto indo-europeu, o étimo desembocou no termo latino merx, e de lá formou numerosa família que se espalhou por línguas de todo o globo.

Mercenário designa o combatente que se engaja por dinheiro. É o profissional que não escolhe causa; defende qualquer uma, desde que lhe paguem o soldo. O Grupo Wagner é uma organização paramilitar (um exército bis) que recruta mercenários para defender os interesses da Rússia. Seu campo de ação preferencial é o continente africano, destino de múltiplos investimentos russos em negócios nem sempre confessáveis.

Ao longo dos anos, o grupo tem sido acusado de violências, roubos, estupros, sequestros, crimes de guerra e até crimes contra a humanidade. Muitos de seus integrantes foram recrutados em prisões russas. Evguêni Prigôjin, o fundador, frequentou durante décadas o círculo mais próximo a Vladímir Pútin. O ditador, aliás, foi quem incentivou a formação do Grupo Wagner. O golpe fracassado de domingo é interessante exemplo de monstro que se volta contra seu criador.

Mercenário, como se vê, não é flor que se cheire. Um outro exemplo de mercenário é o matador de aluguel, aquele que executa mediante contrato. Mas respire: a numerosa família (etimológica) à qual pertence o mercenário também conta com parentes de respeito. Veja abaixo outros membros ilustres.

Mercado
mercadoria, mercador, mercadista, mercadeiro, mercadologia, mercadejar, mercadante, mercadinho

Merce
mercenário, merceeiro, mercearia, merceólogo, mercerização, merceologista

Comércio
Comercial, comerciante, comerciário, comercialista, comercialismo, comercializar, comerciar, comercinho

Mercar
mercancia, mercantil, mercante, mercantilístico, mercantismo, mercantista, mercantilice

E muitos outros.

Na república mercantil em que vivemos, onde leis são votadas contra favores em espécie, um vigoroso mercenarismo está presente por toda parte. Principalmente na cobertura (top floor).

Ecos do G7

José Horta Manzano

Artigo publicado no Correio Braziliense de 27 maio 2023


“Nós, os líderes do Grupo dos Sete (G7), […] estamos tomando medidas concretas para apoiar a Ucrânia pelo tempo que for necessário em face da guerra ilegal de agressão da Rússia.”


Essas são as primeiras palavras do comunicado final da cúpula do G7, havida recentemente em Hiroshima. O longo texto, firmado pelos dirigentes das democracias que integram o grupo, se estende por 19.000 palavras distribuídas em 66 tópicos. A abrangência do documento é vasta: valores comuns, não proliferação de armas nucleares, tensões na região indo-pacífica, economia global e dezenas de outros pontos. Assim mesmo, a menção à “guerra de agressão da Rússia” em primeiríssimo lugar mostra a importância que ela assumiu aos olhos das democracias mais maduras.

O Brasil, em nome de sabe-se lá que doutrina, está em dissonância com a unanimidade exibida pelas três dezenas de países que compõem o dito “Ocidente”. Em março passado, comentando decisões estabanadas do governo brasileiro, uma agência de notícias comentou: “Nas últimas semanas, o Brasil de Lula enviou uma delegação à Venezuela, recusou-se a assinar uma resolução da ONU condenando as violações dos direitos humanos na Nicarágua, permitiu que navios de guerra iranianos atracassem no Rio de Janeiro e recusou-se a enviar armas para a Ucrânia, em guerra com a Rússia”. Como se vê, depois do calamitoso quadriênio Bolsonaro, o Brasil é escrutado com atenção.

Quanto à guerra na Ucrânia, Lula permanece mergulhado num negativismo obstinado, incapaz de enxergar a realidade cristalina: a Ucrânia, país independente, livre e soberano, foi brutalmente invadida por tropas russas, em guerra de conquista territorial. Parece que Luiz Inácio (e assessores) são os últimos que resistem a admitir isso. Nosso presidente insiste em enroscar-se com declarações tiradas do bolso do colete. Já disse que “a decisão pelo conflito foi tomada por dois países”, um descalabro. Referindo-se à Crimeia, já declarou que “a Ucrânia, também, não pode querer tudo”, outra barbaridade. “Não cabe a mim decidir de quem é a Crimeia ou o Donbas”, declarou um Lula esquecido de que o Brasil foi um dos primeiros, trinta anos atrás, a reconhecer a Ucrânia, dentro de suas fronteiras oficiais.

Luiz Inácio persiste em apregoar sua crença num mundo multipolar, sem potência dominante. Sua guerra particular contra o dólar americano mostra isso. Quer Lula goste ou não, sua sonhada utopia está cada dia mais longe. A impressionante evolução da China, impensável vinte anos atrás, embaralhou as cartas do jogo mundial. Os EUA não estão em declínio, apesar do que Lula da Silva possa almejar. A Rússia, essa sim, tem decaído. Portanto, não é preciso consultar uma bola de cristal para saber como será o equilíbrio de forças nas próximas décadas: teremos a volta da guerra fria – que já aponta na esquina. De um lado, a China e seus aliados; de outro, os Estados Unidos e o “Ocidente”.

O país de Putin, empobrecido, desprestigiado e privado de projeção internacional, será fatalmente atraído para a órbita da China, país do qual está se tornando vassalo. Sem o amparo chinês, a Rússia teria enorme dificuldade para sobreviver. Essa nova e previsível divisão do equilíbrio mundial entre dois polos (EUA e China) está por trás da intensa movimentação da diplomacia comercial mundial destes últimos anos. Países de peso territorial, populacional e econômico estão sendo cortejados. Está aí a razão do convite de participação estendido a Brasil, Vietnã, Indonésia, União Africana, Coreia do Sul e outros.

Lula já deu um grande passo ao declarar, em discurso oficial no G7, que o Brasil condena a violação do território da Ucrânia. Por fim, um posicionamento menos inquietante. O bom senso informa que nosso país, por sua história, língua e cultura, faz parte do mundo ocidental. Por mais que respeitemos a civilização chinesa e a russa, não descendemos de lá. A árvore genealógica de nosso povo nos prende ao mundo atlântico, na encruzilhada África, Europa e América.

Lula e o Itamaraty precisam reconhecer que um país invadido por tropas estrangeiras tem o direito (e o dever) de se defender. Ajudá-lo a repelir o invasor não é “tomar um lado”; é respeito ao direito internacional.

Presidente! Deixe de lado a vaidade de ser aquele que pôs fim à guerra – quimera que não se realizará. Mostre empatia para com os infelizes ucranianos e reponha o Brasil nos trilhos da civilização! O futuro vai lhe agradecer.

Dois pra lá, dois pra cá – 2

Chamada – Folha de São Paulo

José Horta Manzano

Nem toda notícia sai nos jornais. A não ser que haja vazamento, comunicações “top secret” entre personagens dos altos círculos do poder (nacional ou internacional) passam longe das manchetes.

O caso dos falsos atestados de vacinação está aí para provar. A grande dúvida sempre foi se Bolsonaro tinha ou não tinha tomado vacina. Foi preciso a Polícia Federal quebrar certos segredos para descobrir o que ninguém jamais havia imaginado: no andar de cima, as autoridades que deviam cuidar do país estavam forjando atestados falsos de vacinação, como num filme noir francês em que falsários trabalham num subsolo, à meia-luz, fabricando dinheiro ilegal.

As inacreditáveis declarações de Lula sobre a guerra na Ucrânia horrorizaram os países democráticos. Em seguida, elas sumiram das manchetes. Mas não se engane! Nossos parceiros norte-americanos e europeus não se esqueceram nem pretendem deixar barato. Pressões irresistíveis devem estar atazanando Luiz Inácio, exortando-o a reconsiderar sua posição.

E é o que ele está tentando fazer. A contragosto, diga-se. Anda de banda feito caranguejo. Nessa matéria, age como quem fala mais por obrigação que por convicção. Percebe-se que está acuado, encostado à parede. Suas bravatas de moleque estão lhe custando caro.

Com meia dúzia de frases de botequim, Lula conseguiu destruir a imagem simpática e amena que o planeta havia guardado dele após dois mandatos e uma passagem pela casa prisão. Foi uma pena. Aquelas frases desgraçadas ecoaram forte e fizeram soar o alerta vermelho na chancelaria de todos os países democráticos.

Como é que é? Lula, o simpático pai dos pobres, que se posiciona do lado da Rússia de Putin e da China de Xi Jinping? Lula, o humanista, que desdenha a gravidade da invasão da Ucrânia e o sofrimento da população bombardeada? De repente, o posicionamento esdrúxulo de Luiz Inácio virou pesadelo para muitos dirigentes estrangeiros. E agora? Como encarar um Brasil que desliza para o lado obscuro da História?

Num primeiro momento, imaginei que, ao pronunciar as frases desconcertantes, nosso presidente estivesse num momento de mau humor ou talvez inebriado por estar de novo viajando de aerolula em terras estrangeiras. É incrível como dirigentes, quando estão longe de casa, se sentem à vontade para dizer besteira, na crença de que não haverá consequências.

Estes dias, dei de cara com o recorte que reproduzi acima, na entrada deste artigo. O jornal cita uma fala de Celso Amorim, nosso inoxidável “assessor especial de política externa”. Com a arrogante superioridade de quem está pra perder a paciência, o assessor informa que o Brasil pode até se dignar de socorrer os beligerantes, mas só o fará quando ambos “se cansarem da guerra”.

Além de exalar soberba, a frase é de uma maldade inominável. Amorim renega seu passado de diplomata de alto nível e desce ao nível do chefe. Luiz Inácio disse que “quando um não quer, dois não brigam”. Agora vem seu “assessor especial” prometer ajuda quando país agressor e país agredido “se cansarem de guerra” – frase terrível de desdém pela infelicidade de um povo agredido. Uma falta de empatia tão grande choca.

Meditei. O que estará ocorrendo? Será que as tristes falas de Lula já refletiam, desde o começo, o ponto de vista do “assessor especial”? Se assim for, Lula agiu como papagaio de Amorim. Ou será que, para agradar ao chefe, o “assessor especial” é que teria jogado ao lixo os ensinamentos angariados nos tempos em que era diplomata, para adotar o antiamericanismo primitivo de Luiz Inácio?

Seja como for, o retrato é dramático. Um presidente escorrega feio, leva um pito internacional e tenta recuar andando de costas com visível desconforto. Na contramão, um “assessor especial” volta de uma visita a Kiev requentando as besteiras do chefe e colocando-as de volta no balcão das “commodities” brasileiras. Para que todos vejam.

São dois pra lá, dois pra cá. Até que não seria dramático se o papel de nosso país na cena internacional fosse dançar bolero. Mas, na medida que o Brasil abandona aliados e se aproxima de Estados criminosos, nosso desempenho está mais pra valsa do adeus.

O mundo encolheu

José Horta Manzano

Algumas semanas atrás, em 18 de março, o Tribunal Penal International (ICC, International Criminal Court), sediado na Haia (Holanda), lançou um mandado internacional de captura contra o cidadão Vladímir Putin, ditador da Rússia.

Ele é acusado de crime de guerra por haver deportado ilegalmente crianças ucranianas para a Rússia. Assim que a notícia chegou a Moscou, o Kremlin manifestou seu desdém e alegou que “a Rússia não reconhece esse tribunal, portanto o mandado de captura não tem validade”.

O chato é que, ainda que a Rússia tenha imediatamente abandonado o tratado, renegando a própria assinatura, a ordem de captura continua válida no território de todos os países membros.

Em verde: países membros

E eles são muitos. A ilustração mostra em verde os países que assinaram e ratificaram o tratado. Repare que o Canadá e a América Latina quase inteira são estados membros (só escapam os EUA e as ditaduras). Europa idem. Boa parte dos países africanos segue na mesma linha. Japão, Austrália, Nova Zelândia e Mongólia fecham a fila dos membros.

O jornal digital Kyiv Post, bastião das liberdades da Ucrânia publicado em inglês, acompanha com interesse tudo o que se publica sobre a Rússia e especialmente o ditador Putin. No número deste 1° de maio, estampa a manchete “A África do Sul faz um alerta: Putin poderia ser detido em caso de visita”.

Em seguida, vem a explicação. É que uma cúpula dos membros do Brics está prevista para agosto, a desenrolar-se em Durban, África do Sul. Lula provavelmente comparecerá. Mas com antecedência, o governo sul-africano já avisou que, caso compareça à cúpula, Vladímir Putin poderá ser preso.

O primeiro-ministro da província de Southern Cape mostrou-se aborrecido com a decisão do governo sul-africano de convidar Putin apesar do mandado de prisão. Mas afirmou que, assim que o ditador russo desembarcasse do avião, cumpriria a lei: daria ordem à polícia local para prendê-lo e guardá-lo em custódia à espera de extradição em direção à Holanda.

Putin que se cuide. Na Rússia, ele manda. Fora do país, está na lista de criminosos procurados.

Que coisa, não? Nem bandido do andar de cima consegue mais se esconder. O mundo parece que encolheu.

O tapete vermelho

José Horta Manzano

O sistema de governo chinês – fechado, autoritário, repressivo, implacável – há de ser oprimente para os cidadãos do país, tanto para gente comum quanto para os graduados do regime, que temem a todo momento cair em desgraça. Para o brasileiro, é inimaginável viver sob um regime assim. Nem nos tempos mais duros de nossa ditadura, o rolo compressor do governo militar chegou a esmagar a população com o rigor e o método com que a ditadura do partido único faz com os chineses.

Assim mesmo, toda moeda tem duas faces. Apesar do hermetismo das decisões da cúpula dirigente chinesa, o planejamento do futuro do país continua em marcha. Com dança de cadeiras ou sem elas, os dirigentes seguem rigorosamente a política de Estado traçada para as próximas décadas. Estabelecido a longo prazo e cumprido com precisão metódica, é esse planejamento que permitiu à China, nos últimos 30 anos, galgar posições em numerosas áreas.

Lula está na China, acompanhado por caudalosa comitiva (que lotou dois Airbus). À sua chegada, o tapete vermelho não foi estendido só na pista: subiu as escadas até a porta do Aerolula. Esse afago é reservado aos grandes visitantes.

Analistas estrangeiros enxergam a visita de Lula como uma jogada de mestre no tabuleiro mundial, com o objetivo de valorizar o Brasil na disputa entre a China e os EUA. Pode até ser. Primeiro, precisa ver se Lula entendeu isso ou se está só sendo traído por seu antiamericanismo.

Estamos diante de um caso curioso. Não acredito que nosso presidente morra de amores por Pequim. Durante seus dois primeiros mandatos, Lula mostrou que, em matéria de política internacional, seu interesse se concentra na América Latina. Fora das Américas, o mundo lhe parece longínquo e de parco interesse. É minha análise pessoal.

A birra do ex-metalúrgico é com os Estados Unidos. Desde a juventude, Lula encasquetou que sua missão era tentar se opor à potência e à interferência dos americanos (de olhos azuis, lembra?), tanto em nossas vizinhanças quanto no resto do planeta. O mundo mudou muito nesse meio século, mas Lula persiste.

Presidente de novo, Lula retomou a cartilha antiga. Começou afirmando que, na invasão da Ucrânia pelos russos, os dois lados eram culpados. Curiosa acusação para alguém que pretende ser o mediador do conflito. Na pressa de mostrar a língua aos EUA, acabou desagradando a russos e ucranianos.

Pequim dispõe de bons analistas de geopolítica. A cúpula do país entendeu que nosso país é uma peça importante no xadrez mundial, e que convém afagar e conquistar como aliado. Por seu lado, Luiz Inácio também entendeu que a ascensão da China no panorama internacional desbancou qualquer pretendente ao pódio. Nem Rússia, nem Índia, nem Europa. Os dois grandes são agora os Estados Unidos e a China.

Para os dirigentes chineses, conquistar o Brasil não é tarefa inatingível. Um tapete vermelho bem fofo e uma recepção sorridente e calorosa fazem milagres – não precisa nem colar de diamantes. Quanto a Lula, entendeu que Pequim será excelente aliado em sua cruzada antiamericanista.

Temos, assim, o casamento da fome com a vontade de comer. Eu te ajudo, você me ajuda. Não é uma beleza, este mundo?

A democracia resiste

by Marcos “Quinho” de Souza Ravelli (1969-), desenhista mineiro

 

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense de 28 janeiro 2023

Há sinais de recuperação da democracia ao redor do globo. Embora tímidos, acanhados e quase imperceptíveis, apontam para o lado positivo. Vamos a alguns deles.

A China, entre os países importantes, é o que tem o regime mais controlado e hermético, apesar de ser mais autoritário que comunista. Na comparação, a vida na Rússia – país onde até o vocabulário do cidadão é escrutado pra vigiar que nunca associe o nome ‘Ucrânia’ à palavra ‘guerra’ – parece solta e jovial.

Pois foi essa China que nos deu, no fim do ano passado, inesperada mostra de que o rigor das regras sociais pode ser afrouxado pela pressão popular. Quase três anos de confinamento estrito, por motivo de covid, estavam fazendo mal à economia e, sobretudo, à população. Parece que a transmissão dos jogos da Copa do Mundo deu origem à ira popular. A visão de estádios cheios de gente sorridente e sem máscara foi a gota d’água. Manifestações de indignação se alevantaram nas metrópoles chinesas, com coro de “Fora, Xi Jinping!” – afronta insuportável. Poucos dias bastaram para o rigoroso regime de “covid zero” ser abolido.

No Irã, faz meses que a população manifesta seu desagrado com o rigor da ditadura dos aiatolás. O triste destino de uma jovem que morreu enquanto detida pela polícia da moralidade pelo motivo de não usar direito o véu obrigatório foi o estopim da revolta popular. Dia após dia, a obstinada e corajosa juventude iraniana manifesta nas ruas sua insatisfação com o regime. A dura repressão já deixou centenas de cadáveres, mas a ira da população tem se mostrado à altura da mão pesada do governo. Em mais de quarenta anos de regime teocrático, é a primeira vez que o povo se queixa com tal intensidade. Pode bem ser o primeiro passo para a queda da ditadura.

Nos EUA, o campo antidemocrático liderado por Donald Trump sofreu profundo revés nas eleições de “mid-term”. Quando todos já se resignavam de assistir a uma arrasadora onda de eleitos trumpistas, o eleitorado democrata deu um sobressalto e limitou as perdas. A volta do bilionário à Presidência ficou um pouco mais problemática.

Na Itália, a primeira-ministra Giorgia Meloni vem se saindo melhor que o figurino. Ao assumir a chefia do governo, abjurou Mussolini e o fascismo, regime pelo qual havia demonstrado simpatia no passado. Juntou-se aos demais países da Otan e deu seu apoio ao envio de armas para que os ucranianos defendam seu território contra o invasor russo. Em uma palavra, a Signora Meloni civilizou-se. Fez desaparecer o lado assustador da extrema-direita. Caminha na boa direção.

No Brasil, as últimas semanas de 2022 e as primeiras deste ano foram turbulentas. Jair Bolsonaro, quando presidente, passou anos prevenindo o distinto público de que, se não fosse reeleito, se insurgiria contra o resultado das eleições. Numa preparação do que estaria por vir, chegou a avisar, ao corpo diplomático lotado em Brasília, a vulnerabilidade de nossas urnas eletrônicas.

Quando as eleições chegaram e o capitão foi derrotado, forte apreensão tomou conta da população não fanatizada. E agora? Será que o perdedor nos condenará a regredir a uma era de botas na calçada e brucutus no asfalto?

Em outros tempos, talvez a pólvora tivesse assumido o protagonismo e o país tivesse de novo mergulhado nas trevas. Numa mostra de que o horizonte nacional já está desanuviado de aventuras desse tipo, Bolsonaro emburrou, enclausurou-se no palácio e lá ficou dois meses – calado para o público externo, mas certamente ativíssimo na preparação do sonhado golpe.

O resto, todo o mundo sabe. Bolsonaro fugiu, e o 8 de janeiro viu o “Exército da Loucura” em ação. Quebraram vidros, mas não quebraram a lealdade de uma maioria de fardados responsáveis. Derrubaram peças de arte, mas não derrubaram a Lei Maior. Subiram no alto de palácios, mas não atingiram o topo do poder. O Brasil balançou mas não cedeu.

Agora, o espetáculo que nos proporcionam um ex-presidente homiziado no exterior, invasores rastaqueras na cadeia e financiadores acuados traz uma lufada de ar puro a nossa nação. É a prova de que, na hora agá, nossa democracia não se rompeu.