Três sustos

José Horta Manzano

Você sabia?

Troglodita 3Primeiro susto
Se alguém, na França, lhe propuser visitar uma maison troglodyte – casa troglodita, não deve o distinto leitor se assustar. Não imagine que o cicerone vá conduzi-lo a lugar não recomendável a pessoas de boa família.

A língua francesa de hoje reserva o adjetivo troglodita para construções – em geral habitáveis, mas não necessariamente – que têm a particularidade de serem escavadas no flanco de parede rochosa. É o que, na Espanha, chamam cuevas.

Troglodita 2Troglodita 1Ideal para os sem-teto medievais, abrigos desse tipo vêm sendo aproveitados para acolher turistas em busca de alojamento fora do corriqueiro. Quando bem ajeitadas, as casas trogloditas pode exibir charme incomum.

Na Idade Média, até castelos trogloditas foram construídos. Em vales estreitos, o aproveitamento da parede rochosa fazia ganhar espaço. Os fundos do imóvel já estavam prontos, só faltava a frente. Duro mesmo devia ser a escavação no muque.

Interligne 18gSegundo susto
Ainda na França, se um conhecido se apresentar como personne ordinaire – pessoa ordinária, não tome isso como confissão de criminoso. No francês atual, ordinário é o contrário de extraordinário. Aplica-se a tudo o que é comum, corriqueiro, usual. Seu amigo está simplesmente afirmando que é pessoa comum, sem atributos especiais.

Croissant 1Se você entrar numa boulangerie e pedir um croissant, virá a pergunta obrigatória: beurre ou ordinaire? – de manteiga ou comum? Encomende o que lhe apetecer. No entanto, gordura por gordura, mais vale ficar com o de manteiga. Já que vai engordar, que seja com mais gosto.

Interligne 18gLeão 1Terceiro susto
Le lion est le roi des animaux significa o leão é o rei dos animais. Muitos e muitos anos atrás, no tempo em que a escola brasileira dava aulas de francês, esse era um dos provérbios mais apreciados por estudantes engraçadinhos. (Falando nisso, acabo de cometer pleonasmo: todo estudante é engraçadinho por natureza.)

Como a pronúncia soa «leliôn é lerruá dezanimô», a gente costumava dizer que o leão ia urrar, desanimou. Brincadeira de criança antiga. Já faz tempo que deve ter perdido a graça.

A sizuda «Pátria Educadora», coisa séria pra valer, não tolera mais esse tipo de troça. A partir de agora, a escola se compromete a ensinar, e o aluno, a aprender.

O avental inglês

José Horta Manzano

Você sabia?

Nappe 1Houve tempos em que o homem comia com as mãos, sentado no chão. Não devia ser confortável nem prático. Se um pedaço da comida escapasse da mão, imaginem: rolava direto pra poeira. Disgusting…

Assim que suas faculdades lhe permitiram, a humanidade tratou de fabricar um suporte que separasse o alimento do chão. Degrau por degrau, a ideia evoluiu até que surgiu a mesa. O objeto nos é hoje tão familiar que fica difícil imaginar que um dia possa não ter existido.

Mas ninguém segura o progresso. Na Idade Média, famílias abastadas sentiram necessidade de acrescentar uma camada entre a mesa e a comida. A toalha foi a solução. Sua maciez dava um quê de sofisticação.

No entanto, ainda que aumentasse o conforto, a toalha se sujava muito rapidamente. Depois de uma refeição, já guardava marcas de gordura. O problema tinha de ser resolvido.

Nappe 3A grande ideia – em vigor até hoje – foi acrescentar uma segunda peça de tecido por sobre a toalha a fim de protegê-la. Essa peça, de dimensões mais modestas e de qualidade inferior, era mais fácil de lavar.

Foi na França que a novidade apareceu. A toalha de mesa era (e ainda é) chamada nappe. Dizem que o termo, de origem fenícia, já tinha sido usado pelos romanos com a forma mappa. Temos um resquício em nossa língua: é o guardanapo, palavra que descende da mesma raíz.

Nappe 2A peça de tecido de proteção da toalha foi vista como toalhinha. Onde nós usamos inho e zinho para indicar diminutivo, a língua francesa prefere os finais ette ou on. A toalhinha passou a ser conhecida como un napperon, forma diminutiva de nappe.

Faz mil anos, quando a cultura francesa encharcou as ilhas britânicas, a toalha e a toalhinha foram junto. Espertos, os ingleses encontraram nova utilidade para a toalhinha. Perceberam que, se protegia a toalha, também era excelente para proteger a roupa de quem servia à mesa. E adotaram o costume de amarrar uma toalhinha à cintura.

Avental 1

Apron

Que nome dar à novidade? Ouviam os castelães dizerem «un napperon», que soa «anaprôn». Acharam de bom-tom usar o mesmo nome. Pouco familiarizados com a gramática francesa, adaptaram a novidade à fonética inglesa.

Conservaram o artigo indefinido «an», mas não se deram conta de que napperon também começava com n. É por isso que dizem «an apron». Sem o artigo, é simplesmente «apron», palavra em uso até os dias atuais.

O objeto perdeu uma letra, mas fique o distinto leitor tranquilo: avental inglês protege tão bem quanto o nosso.

De gatos e pássaros

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 6 dez° 2014

«Quando non c‘è il gatto, i topi ballano» – quando o gato não está, os ratos fazem a festa. Aprendi esse provérbio, faz muitos anos, com um velho comandante da Marinha italiana. Havia lutado nas duas Grandes Guerras e, naquela altura, já estava reformado. Dono de aguçado senso de humor, quando lhe perguntavam sobre a guerra, costumava retrucar com um meio sorriso: «Qual delas? A que ganhamos ou a que perdemos?» É que tinha combatido tanto no primeiro conflito mundial – que seu país havia vencido – quanto no segundo, que terminou no desastre que conhecemos.

Fiat ElbaAdaptando o ditado à atualidade brasileira, é forçoso admitir que os gatos andam meio distraídos. Também, pudera: com a avalanche de notícias assombrosas que o saqueio à Petrobrás tem provocado, a realidade fica distorcida e a mente, atordoada. Diz-se que, quando uma pessoa morre de acidente, é um drama; quando meia dúzia perecem, é uma tragédia; quando dez mil perdem a vida, é estatística. A espoliação da estatal está nesse patamar.

Como se sabe, cada novo escândalo relega o anterior ao esquecimento. O assalto à petroleira é de tal magnitude que chega a ofuscar fatos que, em tempos normais, teriam subido à ribalta. Vão longe os tempos em que o velho Adhemar de Barros amargou processo criminal por ter-se apoderado de uma urna marajoara, pote de barro pertencente ao patrimônio coletivo. E aquele antigo presidente, então, atropelado por um Fiat Elba? Bons tempos…

Bruja 4A comilança anda inflacionada. Hoje, figurão que se contentar com propina abaixo de dez milhões faz papel de bocó. Nem o «sub do sub» – parodiando o linguajar peculiar de antigo presidente – se vende por menos. Enquanto isso…

… enquanto isso, os ratos estão fazendo a festa. Sorrateira, a obra de desconstrução nacional continua. Vai-se comendo pelas bordas, que é para não dar na vista. A grande mídia, fascinada pela inacreditável feira de indecência que povoa o andar de cima, não tem tempo (nem ânimo) de se ater a miudezas.

Bruja 3Em pleno período eleitoral, um deputado fez arrepiante revelação ao plenário da Assembleia Legislativa de Goiás. Denunciou a perniciosidade de um «kit folclórico» distribuído a aluninhos de 6 anos da rede escolar pública de Goiânia. Segundo o deputado, o material ostenta a (outrora) prestigiosa chancela do MEC. Um mês e meio depois, a acusação foi repercutida na Câmara Federal – sinal evidente de que a queixa não havia surtido efeito.

Segundo a Agência Câmara de Notícias, que divulga a denúncia do parlamentar federal, a cartilha dá receitas de magia negra, notadamente um desconcertante «feitiço para transformar criança em passarinho». O «kit» insta os pequeninos a reunir penas de pássaro preto, água benta e alpiste. Prescreve que as penas sejam arrancadas do pássaro vivo enquanto estiver cantando. Em seguida, penas, água benta e alpiste devem ser misturados num caldeirão. Enquanto mexe, a criança deve repetir a fórmula mágica «passarinho quer pousar, não deu, quebrou a coluna».

Brujo 1Chocado, distinto leitor? Eu também. É estarrecedor, como diria nossa presidente, um verdadeiro atentado. Não atino qual possa ser o objetivo dos preclaros autores dessa insídia. Permita-me duvidar que a «receita» tenha sido inserida na cartilha unicamente para divertir os pequeninos.

Num primeiro escorregão, o livrinho incita à crueldade contra animais, prática abjecta, condenada no mundo civilizado. Na contramão do decoro ecológico, patrocina a extinção de toda uma família de aves, como se a diversidade biológica fosse assunto de somenos. Pior: abre caminho para que um pequerrucho imaginoso, julgando-se transformado em ave, se atire pela janela. (O alvo são crianças de seis aninhos!) Para coroar, ao associar água benta a práticas de feitiçaria, o «kit» lança dardo envenenado a um símbolo da religião mais praticada no País. Em outros tempos, tal sacrilégio levaria os autores à fogueira.

Rato 2Não tenho a ingenuidade de imaginar que a água benta tenha entrado na receita por descuido. Estará aí a ponta do fio que, emaranhado, deu esse novelo bizarro? De alguns anos para cá, os fatos têm mostrado que o inimaginável se tornou corriqueiro no Brasil. Donde se pode inferir que o intuito tenha sido assestar mais um preciso golpe de picareta na desconstrução do que nos resta de princípios decentes. A marcha em direção à Idade Média segue galharda.

A grande mídia não se alvoroçou. A Igreja não se manifestou. Sociedades protetoras de animais não se agitaram. Devo estar eu fazendo papel de bocó. Quer saber? Que os ratos façam a festa.

 

De plebiscitos e referendos

José Horta Manzano

Mais de uma vez já abordei, neste espaço, o tema plebiscito x referendo. Como voltou às manchetes, volto eu ao assunto. Nossa presidente, talvez aconselhada por algum assessor de ideia fixa, bate com frequência nessa tecla. Nos momentos de grande tensão, costuma subir ao palanque e bradar por um plebiscito.

Aconteceu na sequência das manifestações de junho 2013 e voltou a ocorrer agora, na emoção de sua surpreendente reeleição. Ainda não captei qual será a real intenção por detrás da palavra mágica.

Plebiscito… O termo deve tocar alguma corda sensível no fundo da alma da presidente – ou do assessor que lhe sopra nos ouvidos. Parece ser a panaceia, aquele remédio universal recomendado para todos os males. Um problema? Organiza-se um plebiscito e pronto! A felicidade geral se instala e os problemas desaparecem. Antes fosse.

Ao ter notícia da vontade presidencial, o presidente do Senado logo retrucou que um referendo seria mais adequado. Plebiscito ou referendo? Enquanto não captamos o intuito dos caciques, vamos dar uma espiada no significado das duas palavras. Ambas nos vêm direto do latim por via erudita. São conceitos que a Idade Média anestesiou e que só voltaram à luz no século XVII.

Roma – senado

Roma – senado

Plebiscito é consulta direta ao povo. A palavra é composta de plebis (a plebe, o povo) + scitum (de sciscere = decretar, aprovar). Para os romanos, uma lei era dita plebiscitária quando tivesse sido feita por todos os cidadãos, incluindo aqueles que, em princípio, não estavam qualificados para participar do processo legislativo. Em resumo, era consulta ao povão, coisa rara naqueles tempos.

Referendo é conceito mais recente. Em algumas democracias – na Suíça, por exemplo – aceita-se que uma lei votada pelo parlamento seja contestada pelos cidadãos. Em casos assim, organiza-se um referendo, para que o povo aprove ou repudie a lei já votada. No fundo, um referendo é sempre um plebiscito. Mas um plebiscito nem sempre é referendário.

Senador romano

Senador romano

A meu ver, no caso de uma ampla reforma política como a que o Brasil está a exigir, não cabem nem plebiscito nem referendo. Reforma política é assunto árduo, técnico, composto de várias facetas. Tem de ser estudada por especialistas, pesada, analisada, emendada. Não faz sentido pedir ao povo que dê opinião sobre cada artigo, cada parágrafo, cada alínea. É um despropósito.

Consulta direta ao povo tem de ser simples. Os cidadãos devem responder por um sim ou por um não. Como proceder no caso de uma reforma política?

O Congresso existe exatamente para representar a população. Câmara Federal e Senado acabam de ser renovados. Que se aproveite essa nova leva de parlamentares e que se lhes dê o encargo de elaborar a reforma.

Não há necessidade de plebiscito nem de referendo. Ao eleger o novo Congresso, os eleitores já deram carta branca a seus representantes. Aquela gente é paga exatamente para isso.

Sem sanduíche

José Horta Manzano

Doris Dudler, suíça de 54 aninhos, habitante do Cantão de São Galo(*), está desempregada há mais de um ano. Combativa, não está parada esperando que alguém faça algo por ela. Já tentou encontrar emprego por diversos meios: enviou currículos com vídeo, distribuiu santinhos nas esquinas, apresentou-se publicamente. Foi chamada para diversas entrevistas, mas não conseguiu uma colocação até hoje. Já ouviu sonoros nãos mais de 200 vezes.

Determinada, tomou decisão incomum: decidiu tornar-se mulher-sanduíche e passear pela cidade com um cartaz na frente e outro atrás anunciando seus dons de excelente secretária. Mas, atenção!, na Suíça ninguém pode sair por aí fazendo o que lhe der na telha sem ter recebido a devida licença.

Homem sanduiche

Homem-sanduíche     –    Foto: Carlos Romão

Para conseguir autorização para a autopromoção, Doris procurou a polícia local. Pasmem os distintos leitores: seu pedido foi recusado. O motivo? As autoridades policiais acreditam que, se tivessem aceitado a solicitação da moça, teriam de conceder igual direito a todos os que viessem a fazer o mesmo pedido no futuro. E a cidadezinha perigava tornar-se uma barraquinha de sanduíches, se é que me posso exprimir assim.

A moça ainda insistiu argumentando que, no Cantão de Berna, autorizações semelhantes já tinham sido concedidas. A resposta veio brutal: «Aqui estamos em São Galo, não em Berna».

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(*) São Galo, monge francês, viveu na Idade Média (489-554). Canonizado pela Igreja Católica, tem sua festa celebrada dia 1° de julho. Diferentemente do que ocorre com Pedro, Antônio e João, seu nome saiu de moda há séculos. Ou você conhece alguém chamado Galo?

Basta, por favor!

José Horta Manzano

Notícia boa não vende jornal, daí ser relegada a rodapé de página. Notícia ruim faz a alegria de todo editor. Quanto pior, maior será a manchete. É da vida.

Esta semana, saiu o assustador resultado de uma pesquisa sobre a percepção que têm os brasileiros de mulher vestida com panos mais exíguos. Segundo o Ipea, 2 em cada 3 brasileiros, na impossibilidade de despachar as pecadoras para a fogueira, acham justo e correto que seu castigo seja o assédio sexual.

Para quem vive no exterior, é dose cavalar. É daquele tipo de notícia que você torce para o vizinho do lado não ter ficado sabendo. Dá vergonha de cumprimentá-lo no elevador no dia seguinte. É muito desagradável você ver seu país de origem nivelado a um Afeganistão qualquer.

Passados 2 ou 3 dias ― catapum! ― lá vem o desmentido. Não era bem isso, o resultado foi lido pelo avesso. Como é que é? Duas versões para a mesma pesquisa? Será que se pode acreditar nalguma delas?

Sondagens de intenção de voto se chocam às vezes com a realidade. Abertas as urnas, vem o desmentido. Embora irritante, é, até certo ponto, compreensível. Por alguma razão, os eleitores não terão sido sinceros em suas respostas ou, quem sabe, terão mudado de ideia na hora agá.

Crédito: Caio Leal, AFP

Crédito: Caio Leal, AFP

Já o presente caso é de outra safra. Os entrevistados não mudaram de ideia. Foram os pesquisadores que, incompetentes, se embananaram.

É inacreditável a leviandade, a displicência, a irresponsabilidade com que informações desse calibre são dadas a público. Dizer que «nove entre dez estrelas do cinema preferem tal sabonete» não traz consequências, é informação inócua. Agora, proclamar que 2/3 dos brasileiros ainda pensam como na Idade Média é muitíssimo mais grave, é constatação acachapante.

Uma informação dessa importância deveria ter passado por várias peneiras finas antes de vir a público. Com todas as notícias ruins ― mas verdadeiras ― que têm circulado fora do Brasil estas semanas que antecedem a «Copa das copas», não precisávamos de falsas informações. O que temos de ruim já basta, é favor não acrescentar mais uma camada.

É tarde demais para desmentir. O mal está feito. A notícia de que o povo brasileiro ainda vive nas trevas já deu a volta ao mundo.

Desgraçadamente, se todos publicaram a incrível informação, nem todos publicarão o desmentido. Melhor subir pela escada, que o risco de cruzar o vizinho é menor.

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Quem tiver tempo a perder vai encontrar aqui um flagrante do alastramento da espantosa notícia pela mídia internacional.

Interligne vertical 12Itália
França
Espanha
Suíça
EUA
Reino Unido
Alemanha
Suécia
Emirados Árabes

Pangeia 2

Para quem apreciou o mapa da Pangeia, aqui está a versão original, em alta resolução. Cortesia do autor, Massimo Pietrobon. Clicando duas vezes, um mapa bem mais detalhado deveria aparecer. Em princípio. Com informática, nunca se sabe o que pode acontecer.

Pangeia ― alta resolução

Pangeia ― alta resolução

Pangeia

José Horta Manzano

Aprendemos na escola que a Idade Média terminou faz quase 600 anos. Temos até a data exata: 29 de maio de 1453, uma terça-feira, dia em que Constantinopla, a capital do Império Bizantino, se rendeu ao exército turco otomano. É raro que a História marque com tal precisão uma mudança de era.

Bem, o fim da Idade Média não significa que o mundo se encontrou de ponta-cabeça no dia seguinte. As mudanças foram paulatinas. A saga da navegação em alto-mar engatinhava. As áreas linguísticas e culturais europeias já começavam a delinear as fronteiras nacionais que só surgiriam bem mais tarde.

Timidamente, o mundo foi deixando de se dividir entre os que sabiam e os que não sabiam. Até meio milênio atrás, o saber era um valor absoluto. Quem sabia, sabia tudo, era versado em todas as artes, todas a ciências, todas as línguas. Segundo seu caráter, cada sábio tinha seu campo de preferência, o que não o impedia de perambular por outras searas.

Pangeia by Massimo Pietrobon

Pangeia
by Massimo Pietrobon

Leonardo da Vinci(*) é o mais acabado exemplo de sábio medieval ― tocava todos os instrumentos da orquestra. De lá para cá, a comunicação entre grupos humanos foi se intensificando, terras novas foram descobertas, conceitos foram surgindo, o espectro do conhecimento foi-se alargando. O fato é que, pouco a pouco, tornou-se impossível para um só homem, por mais genial que seja, abarcar toda a sapiência. Inexoravelmente, foram-se delimitando campos específicos, cada letrado especializou-se na área onde se sentia mais à vontade.

Hoje em dia, a especialização tem levado a excessos. Em medicina, por exemplo, está cada vez mais difícil encontrar um generalista. Cada profissional se dedica a uma área específica e não costuma se aventurar em campo alheio. Isso pode ter seu lado bom, mas, para o paciente, a peregrinação é meio complicada.

É raro, mas de vez em quando acontece de a gente topar com algum remanescente da Idade Média. É o caso de Massimo Pietrobon, cidadão do mundo, originário da mesma terra que viu nascer Leonardo. Poliglota, um pouco artista, um pouco cientista, um pouco desenhista, um pouco globe-trotter, um pouco visionário, um pouco maluco, Pietrobon é uma fábrica de ideias ― às vezes absurdas.

Pangeia ― detalhe by Massimo Pietrobon

Pangeia ― detalhe
by Massimo Pietrobon

Todos já ouvimos falar num hipotético continente primitivo, ao qual os cientistas deram o nome de Pangeia. De sua fragmentação, milhões de anos atrás, teriam surgido os continentes que conhecemos hoje. Pietrobon decidiu ir mais longe. Recolheu o resultado dos estudos científicos e botou no papel a representação gráfica do que poderia ter sido o globo terrestre com seu continente único. Foi mais longe. Desenhou o contorno dos países atuais.

O resultado é primoroso. Se os continentes não tivessem derivado, muitos brasileiros poderiam facilmente realizar seu sonho maior. Dado que os EUA praticamente encostavam no Amapá, a viagem até a Disneylândia poderia ser feita… a pé! Mas nada é perfeito. O Brasil não teria costa marítima, ao contrário da Suíça. Não se pode ter tudo.

Para quem quiser fazer uma visita a esse extraterrestre, deixo os endereços. Aqui e aqui. Quem quiser pode também ver Pangeia em resolução mais elevada. Aqui.

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No Brasil, dizemos Leonardo da Vinci, como os italianos. Fica a impressão de que Vinci é o sobrenome do homem. Não é bem assim. A preposição italiana da indica procedência, proveniência. O sábio chamava-se Leonardo. Tinha nascido num lugarejo ― que é hoje uma cidadezinha ― chamado Vinci, perto de Florença. Daí dizerem Leonardo da Vinci. Deveríamos dizer Leonardo de Vinci. Mas acho que é tarde demais para mudar. Fica assim mesmo.

Serviço militar

José Horta Manzano

Pas d’argent, pas de suisses ― sem dinheiro, nada de suíços. Está aí uma frase feita que muita gente por aqui repete sem saber exatamente o que significa.

Se eu disser que italiano fala com as mãos, todos entendem o que quero dizer. E, até certo ponto não deixa de ser verdade: diferentemente de um inglês ou de um escandinavo, o italiano gesticula ao falar. Certos gestos são tão característicos e expressivos que chegam a dispensar palavras.

Guarda pontifical Vaticano

Guarda pontifical
Vaticano

Posso também dizer que japonês é discreto. A ideia é clara e corresponde à realidade. Como os demais orientais, os nativos do país do Sol Levante tendem a ser discretos.

Mas… e a história dos suíços e do dinheiro? De onde vem isso? Engana-se quem imaginar que tenha alguma coisa que ver com segredo bancário ou com as toneladas de ouro armazenadas nos cofres do país. A expressão é muito mais antiga. Data da Idade Média, de um período em que ainda não havia um sistema bancário como conhecemos hoje.

Naqueles tempos, os habitantes destas montanhas penavam para sobreviver. Da terra, pouco adequada para o plantio, nem sempre a colheita era bastante para alimentar a população. Na ausência de indústrias, de riquezas minerais e de todo meio de subsistência que não fosse a pobre agricultura e a magra pecuária, a única solução para muitos jovens era a emigração.

Na Europa, o Reino da França foi um dos primeiros a se unificarem. Foram pioneiros em formar um país na acepção que conhecemos hoje ― com governo centralizado e leis que se aplicam a um vasto território. Muitos jovens suíços se dirigiam para lá. Nem todos, evidentemente. E que iam fazer?

Agricultores não faziam falta, que era essa a ocupação primordial de todo vivente. Pois os montanheses alpinos, gente rude e afeita a viver em condições precárias, vendiam seus serviços como mercenários ― guerreiros de aluguel. Guerras, naquele tempo, não faltavam. De religião ou de conquista, os conflitos eram constantes. E todos eles precisavam de combatentes leais e decididos.

Guarda pontifical Vaticano

Guarda pontifical
Vaticano

Os mercenários suíços ganharam fama na Europa inteira. Eram conhecidos por sua coragem e por sua bravura. Eram duros no combate. Levavam muito a sério a arte da guerra, uma verdadeira atividade profissional. Serviam a quem pagasse melhor, desprovidos de todo sentimento de patriotismo.

Daí vem a expressão pas d’argent, pas de suisses. Somente os senhores que tivessem como pagar podiam contratar combatentes helvéticos. Os outros ficavam a lamber sabão. Um resquício daqueles tempos é a Guarda Suíça do Vaticano. Vestem-se ainda como na época em que foram contratados pela primeira vez.

Diferentemente do que acontece em outros países adiantados, o serviço militar ainda é obrigatório na Suíça. E parece que vai continuar sendo. Está programada para daqui a um mês uma consulta popular sobre a ab-rogação da obrigatoriedade do serviço militar. As pesquisas indicam que, salvo espetacular reviravolta, no dia 22 de setembro a maioria do povo deverá decidir pela manutenção do statu quo.

Só uma precisão: hoje em dia, ficou mais difícil encontrar mercenários suíços.

O Brasil e a Idade Média

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 3 de agosto de 2013

A História não se repete. Acontecimentos novos podem até evocar situações passadas, mas cada caso é um caso.

Em novembro de 1923, um punhado de indivíduos se reuniram numa cervejaria de Munique para encenar o que lhes parecia o ato final de um rocambolesco plano de tomada do Estado alemão pela força. O golpe foi um rotundo fracasso. Vistos como loucos mansos, os cabeças, presos e processados, foram condenados a penas leves. Quis o destino que, dez anos mais tarde, o chefe da malta, um certo Adolf Hitler, fosse içado ao posto máximo da nação. O resto da história todos conhecem.

Nos primeiros anos do século XX, um jovem italiano, violento e rebelde, fugiu de seu país e ganhou a Suíça. Más línguas afirmam que era para escapar do serviço militar. Em território helvético, o moço turbulento continuou fazendo das suas. Rebelde e arruaceiro, viveu de expedientes e chegou até a ser preso por vadiagem. Voltou à Itália em 1904. Quis o destino que, dezoito anos e muitas peripécias mais tarde, nosso impetuoso anarco-sociossindicalista ― Benito Mussolini era seu nome ― se visse alçado à função de chefe do governo. Sabem todos o que veio depois.

Caravela portuguesa

Caravela portuguesa

A tentativa de tomada do quartel cubano de Moncada, levada a cabo em 1953 por uma turma de jovens iluminados, todos no vigor de seus 30 anos, foi um desastre total. Prisão, tortura, degredo dos rebeldes remanescentes foi o resultado. Naquele momento, ninguém imaginou que o chefe do grupo, um certo Fidel Castro, havia de se tornar senhor absoluto do país 6 anos mais tarde. Os capítulos seguintes são conhecidos.

Faz pouco mais de um mês, o Brasil foi palco de um fenômeno desconcertante. Dirigentes boquiabertos assistiram a passeatas espontâneas formadas por gente comum. Não eram revolucionários nem putschistas. Não pretendiam derrubar o regime, muito menos tomar o poder. Não eram movidos por ideologia. Não carregavam armas. À exceção de grupelhos insignificantes de energúmenos imbecis, protestaram pacificamente.

Agora sossegaram. Mas que ninguém se engane: os acontecimentos de junho foram um divisor de águas. Daqui a um século, baixada a poeira, a História dará a 2013 a mesma importância que dá hoje a 1822 ou 1889. A sagacidade caseira do inefável Conselheiro Acácio ensina que as consequências, naturalmente, vêm sempre depois.

O brasileiro é um povo de sorte. No espaço de pouco mais de 10 anos, teve duas ocasiões de dar um salto à frente, na boa direção. A primeira foi quando Lula da Silva chegou ao posto máximo da República. Dono de apoio quase unânime do povo e de seus representantes, não lhe teria sido difícil impor as reformas indispensáveis para curar a esquizofrenia do País. Pareceu a todos que, finalmente, o Brasil deixaria de ter um pé na modernidade e outro ancorado na Idade Média.

Estava na hora de banir traços antediluvianos tais como o paternalismo, o nepotismo, o cartorialismo, o rigor reservado ao vulgo enquanto privilegiados são tratados com leniência. Queríamos todos ver desaparecer a desigualdade entre os do andar de cima e os do andar de baixo. Queríamos ver o fim de anacronismos que não combinam com o mundo civilizado.

Desgraçadamente, nenhuma reforma radical foi empreendida que acelerasse nosso processo civilizatório. Os donos do poder agiram como o cirurgião que anestesia o paciente mas esquece de operá-lo. Ninaram o povo com doces sonhos de grandeza, mas não se deram ao trabalho de eliminar os tumores que minam a sociedade. Entre mercurocromo e curativos, descuraram-se de servir ao povo. Usaram a arraia-miúda como massa de manobra e, insolentes, dela se serviram. Os protestos são a prova patente da ineficiência e do fracasso da atual maneira de governar.

Castelo medieval

Castelo medieval

Mas temos sorte. Diferentemente de Alemanha, Itália e Cuba, temos uma segunda chance. Nossa «revolução» não tem cabeças nem porta-bandeiras. Não prenuncia episódios violentos nem sangrentos. As demandas do povo brasileiro, a anos-luz da luta de classes, não são ideológicas, nem sectárias, nem elitistas, nem sindicais.

Medidas pontuais podem gerar alguma curta trégua, mas não resolverão o problema. O brasileiro, farto de que lhe zombem das fuças, quer ser tratado com dignidade. Plebiscitos e referendos não condizem com a situação atual. O povo já disse o que quer. Do governo, não se espera que faça mais perguntas, mas que dê as respostas que esperamos todos. E logo.

O governo que se dizia «popular», no fundo, não o era. Popular é o movimento que a todos surpreendeu, essa energia espontânea e sem lideranças. Estamos vivendo o começo do fim do Brasil medieval.

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De municípios

José Horta Manzano

Você sabia?

No Brasil, é comum os termos município e cidade aparecerem como sinônimos. Em outras partes do mundo, essa equiparação soa estranha. Dependendo do país, o conceito de cidade varia.

Municípios suíços

Municípios suíços

Na Suíça, a lei é clara: um povoado passa a ser chamado de cidade (=ville) a partir do momento em que sua população atinge 10 mil pessoas. Abaixo disso, o nome é vilarejo (=village).

Na Bélgica, no Canadá e no Reino Unido, a denominação de cidade é uma honraria concedida pelo poder central. O número de habitantes pouco importa. Por aquelas bandas, ainda vigora o mesmo sistema do Brasil colonial. Todos nós já aprendemos algum dia, na aula de História, que tal localidade foi elevada a vila ou elevada à categoria de vila por real decreto chegado direto de Lisboa.

Na Algéria, o critério é o número de habitantes, como na Suíça. Naquele país, aglomerados de mais de 20 mil pessoas têm direito à denominação de cidade.

Vilarejo Crédito: Jamyshots.com

Vilarejo
Crédito: Jamyshots.com

No Reino Unido, ainda vale a antiga tradição ibérica, a mesma do Brasil de antigamente. Não é cidade quem quer. Para ostentar o título de city, o município tem de ter obtido do monarca uma letter patent. É honraria concedida com parcimônia. As mais antigas datam da Idade Média. As mais recentes foram outorgadas por Elisabeth II por ocasião de seu jubileu de diamante, no ano passado. Assim mesmo, somente 51 municípios ingleses têm direito ao título de cidade.

Nos Estados Unidos, não há esse rigor na atribuição de estatuto a vilas, vilarejos e cidades. De um povoado de 500 habitantes, não se dirá que é uma city. Mas ninguém cairá da cadeira se você chamar town ou city um aglomerado de meio milhão de viventes. Fica, assim, ao gosto do freguês.

Na França ― ah! o país das regulamentações rigorosas ― a lei não deixa margem a dúvida. O INSEE (Instituto Nacional de Estatísticas e Estudos Econômicos), o IBGE gaulês, ditou norma clara e precisa: um município deixa de ser chamado vilarejo (=village) e passa à categoria de cidade (=ville) quando sua população ultrapassa 2000 habitantes. Mas há uma segunda condição: a zona habitada tem de ser contínua. As casas não podem estar distantes umas das outras mais de 200 metros. Se houver quebra na continuidade, cai por terra o direito ao título de cidade. A sede do município será chamada de vilarejo (=village) e cada pequeno povoado isolado, embora dentro do mesmo município, será conhecido como hameau (=lugarejo, aldeia, arraial)(*).Interligne 13

No Brasil, desde que foi votada a Constituição de 1988, políticos enxergaram vantagens e oportunidades de negócios na criação de municípios. Vantagens para eles, naturalmente.

Cidade imaginária

Cidade imaginária

Estive lendo hoje sobre a onda atual de desmembrar municípios existentes para criar novos. É iniciativa pra lá de discutível. No entanto, a proximidade das eleições incentiva esse tipo de «bondade». Mais que possível, é altamente provável que um exército de novos municípios apareça nos próximos meses.

Na Europa, temos assistido a um movimento inverso. Mais instruídos, os cidadãos resistem a acatar bovinamente caprichos e casuísmos vindos do andar de cima.

Na França há hoje 1500 municípios a menos do que em 1920. E isso não é resultado de eventuais territórios perdidos em guerras. É produto da junção voluntária de pequenas comunidades. Os cidadãos fizeram as contas e chegaram à conclusão de que o aumento da arrecadação e as economias de gestão compensavam amplamente a perda de autonomia.

Hameau Crédito: kako.artblog.fr

Hameau
Crédito: kako.artblog.fr

Não precisa ser nenhum gênio financeiro para se dar conta de que dois prefeitos custam mais que um. Duas câmaras, dois conjuntos de vereadores, duas estruturas de arrecadação de impostos municipais ― essa duplicidade vai ter de ser sustentada. E o dinheiro tem de sair do bolso de alguém. No final, quem acaba pagando é o próprio povo. A população do País é chamada a contribuir para o favorecimento de grupos políticos amigos do rei.

A atitude dos atuais mandachuvas brasileiros confirma que pouco mudou desde o Brasil colônia. Lugarejos continuam a ser elevados a vila, exatamente como na Idade Média. Nossos políticos têm dificuldade para se dar conta de que o povo já não é tão alienado como naquele tempo de trevas.

É bom que acordem a tempo.Interligne 18

(*) O francês hameau é termo de origem germânica. Descende da mesma raíz que deu ham em inglês, hem em neerlandês e heim em alemão e norueguês. Birmingham, Arnhem, Mannheim, Trondheim são todos primos. Em inglês, o diminutivo de ham é… hamlet. Lembra alguém, não?

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A polícia e o fio dental

José Horta Manzano

Setecentos anos atrás, os europeus começavam a despertar do longo período de semiletargia que hoje chamamos Idade Média. O mundo moderno engatinhava. Pouco a pouco, a necessidade de instituições formais e organizadas foi-se fazendo premente. Entre elas, a criação de tribunais.

Não havemos de esquecer que, à época, o poder eclesial abarcava tanto o espiritual quanto o secular. Um foro estável e sistemático era, assim, duplamente oportuno.

Em 1331, durante o pontificado de João XXII, foi instituído o Tribunal Rotæ Romanæ, mais conhecido como Sacra Rota, Tribunal da Rota ou simplesmente Rota. Dizem que o nome curioso tem origem na disposição dos juízes, sentados em volta de quem estivesse sendo inquirido.

Sabemos todos que o poder temporal da Igreja esgarçou-se com o passar dos séculos, reduzindo-se hoje ao território vaticano. O Tribunal da Rota, apesar disso, continua lá, firme e forte. Já não lhe cabe julgar feiticeiros, hereges ou apóstatas. Exceptuando-se crimes cometidos no interior da Santa Sé, a Rota está hoje para os fiéis como o STF está para os cidadãos brasileiros. É o tribunal máximo. Seu poder restringe-se, naturalmente, ao julgamento de transgressões do direito canônico.

Rota Romana

Entre outras atribuições, o Tribunal da Rota tem o poder de anular casamentos religiosos. Prestemos bastante atenção. O doutrina católica considera que o matrimônio é sacramento único e indissolúvel. Portanto, a Rota não tem o poder de «desfazer» ou «dissolver» casamentos. Não é um tribunal secular onde se discutem casos de divórcio. Seu único poder é de estatuir que um casamento era nulo ab initio, desde o começo. Em outras palavras, a Rota se determinado casamento foi válido ou não. Se chegarem à conclusão de que o par nunca formou um casal aos olhos da Igreja, isso significa que o casamento nunca existiu. Estarão, assim, ambos os antigos noivos livres para contrair matrimônio religioso. Sem peso na consciência.

Há uma boa dezena de razões pelas quais uma união pode ser considerada nula. Entre elas, um caso de casamento forçado, combinado contra a vontade de um dos contraentes. O caso (raro) de erro de pessoa pode também ser invocado como motivo de nulidade. Algo do tipo “pensei estar-me casando com Fulano, mas depois descobri que ele era Beltrano”. Há ainda outras motivações pitorescas. Uma razão à qual por vezes se recorre é o dolo. Configura-se o dolo quando um dos nubentes esconde voluntariamente do outro algum fato que, se conhecido, teria dissuadido o parceiro de se casar.

Cheguei a conhecer pelo menos um caso que terminou em anulação de casamento por motivo de dolo. Aconteceu nos anos 50 com pessoa que cheguei a conhecer. Para encurtar a história, digo logo: na noite de núpcias o noivo descobriu que a noiva não era mais virgem. Teimoso, o marido fez questão de apelar para o Tribunal da Rota Romana para reclamar a anulação do casamento. Custou-lhe anos de esforço, muito dinheiro, viagens a Roma. Mas conseguiu. Aos olhos da Igreja, voltou a ser solteiro. A história escandalizou metade da cidade, mas os tempos eram outros.

Mais de meio século se passou. Sou incapaz de dizer se a Rota ainda considera que a não virgindade da noiva seja alegação válida para pedido de anulação de casamento. Na cabeça da maioria da população, certamente não é mais assim.

.:oOo:.Bagues 3

Com espanto, li hoje no Correio Braziliense que um edital lançado pela Polícia Civil da Bahia acendeu uma polêmica danada. Um concurso para preenchimento de 600 vagas foi anunciado. Entre as exigências estão, naturalmente, acuidade visual, boa saúde, senso cromático (ausência de daltonismo), equilíbrio psíquico. Muito mais assombrosa é a quase exigência de … virgindade. Comprovada por exame ou assinada e carimbada por médico com registro no CRM.

Desconfiado de que se tratasse de primeiro de abril, fui conferir. Pois não é que a Folha de São Paulo confirma?

E eu que pensava que homens e mulheres eram considerados iguais perante nossa Constituição. Fico matutando como é que comprovarão micoses, fungos e outros bichos nos candidatos do sexo masculino. Quiçá uma declaração de virgindade emitida por oficial de justiça com fé pública e firma reconhecida?

A coisa tá preta, como diria o outro! Fosse no Afeganistão ou na Arábia, daria para entender. No país do fio dental, do carnaval e do samba, pega mal.

Brasil, país de todos. Desde que sejam virgens, naturalmente.