Ganhei mais uma!

by Kleber Sales, ilustrador.

Vera Magalhães (*)

Bolsonaro e o almirante Antonio Barra Torres, o bolsonarista no comando da Anvisa, sabotam o combate à pandemia tendo como objetivo atingir um adversário político [João Doria – ndr]. A fala do presidente é prova cabal contra si, e nela há vários indícios de que ele recebeu informações que a agência não poderia lhe fornecer.

O Supremo precisa voltar a conter os ímpetos letais de um presidente atordoado por derrotas políticas, como o péssimo desempenho de seus candidatos a prefeito de norte a sul, o fim do sopro de popularidade do auxílio emergencial, a derrota do “amigão” na América e o agravamento das evidências de crimes variados por parte de seu filho Flávio. É um pacote pesado para quem tem masculinidade frágil, mas descontar na vida da população é crime de responsabilidade.

(*) É jornalista com atuação em numerosos veículos.

Inefável presidente

José Horta Manzano

Pessoas públicas – em especial as que ocupam cargos majoritários, como prefeito, governador e presidente – vivem sob os holofotes. É natural. Se quisessem passar a vida incógnitos e abrigados pela sombra discreta de uma mangueira, não se candidatariam.

Uma vez eleitos, conquistam privilégios e mordomias que não são accessíveis à plebe. Em compensação, sua existência perde a privacidade garantida aos demais mortais. Daí dizermos que são ‘pessoas públicas’. Antigamente bastava dizer homens públicos, mas a a linguagem politicamente correta de hoje quer que se mencionem todos os gêneros, sem deixar nenhum de fora; a palavra ‘pessoa’ cumpre a exigência.

Personagens públicos têm agenda pública, são vigiados da manhã à noite, seus deslocamentos são acompanhados. Até suas férias são esquadrinhadas. Ainda que andem na linha, serão analisados e criticados. Se saírem do bom caminho, então, serão alvo de uma torrente de críticas, que podem tomar o rumo perigoso da destituição do cargo.

Políticos mais espertos, que conseguem ser discretos, escapam desse olhar desconfiado e inquiridor. Já os outros, estabanados, se expõem demais da conta. Nesta última categoria, está nosso inefável(*) presidente da República.

Se fizesse um esforço pra conter a língua, seus defeitos, que são incompatíveis com o exercício do cargo, ficariam na sombra. Ao não se dar conta disso, o moço tropeça em perna de cadeira, procura casca de banana pra escorregar, se aventura de chinelão em solo ensaboado. Resultado: dia sim, outro também, tropica. E se esborracha que dá gosto.

Idade Média: vassalo prestando juramento a seu suzerano.

Com a perda de seu mentor americano, ficou ‘aborrecido’ – é o que disse a mídia. Tenho a impressão de que o buraco é bem mais profundo que um simples aborrecimento. Para doutor Bolsonaro, a queda de Donald Trump é a notícia mais pavorosa que podia ter ouvido. Ele há de estar se sentindo muito, mas muito, deprimido.

Basta uma rápida comparação para ver que, entre os dois, há numerosos pontos comuns. ‘Falem bem, falem mal, mas falem de mim’ – é o lema de ambos. Os dois não toleram ser contraditos; assessor que não lhes disser amém será demitido. Em matéria de política externa, nenhum deles tem a mais remota ideia do que seja o frágil equilíbrio entre as nações; vai daí, tratam o assunto a bofetadas. Têm ambos a desagradável tendência a só falar para seus devotos, alheios ao fato de terem de governar todo um país. Poderia enfileirar mais uma dúzia de convergências entre eles.

Há, no entanto, um ponto em que divergem: é o olhar que cada um dirige ao outro. Trump sempre guardou altivez no trato com Bolsonaro, mostrando pouco-caso pelo brasileiro e deixando claro quem é que manda no pedaço. Já nosso presidente visitou o colega americano quatro vezes, sendo que, na última delas, ficou hospedado ‘de favor’ na propriedade particular do anfitrião – um cúmulo de despudor. Trump nunca se dignou de vir ao Brasil.

Doutor Bolsonaro sempre se conformou em ocupar posição submissa, de admirador servil, de lambe-botas do americano. Todos se lembrarão do dia em que se fez fotografar quando assistia, orgulhoso, a uma aparição do ídolo na televisão.

É por isso que, muito mais que ‘aborrecido’, Bolsonaro há de estar deprimido, aterrorizado, catastrofado. Como diria o outro, sente-se perdido como cãozinho caído do caminhão de mudança. Deve estar pensando: ‘Se aconteceu com ele, pode acontecer comigo também’. Essa ameaça é de tirar o sono.

Bolsonaro não tem jeito, que fazer? Como dizia o Barão de Itararé, «de onde menos se espera, daí é que não sai nada».

(*) Inefável é aquilo que não pode ser descrito com palavras. O termo é perfeitamente adequado a nosso presidente. A descrição de seu comportamento e de suas falas não cabe em palavras. Embora extenso, o vocabulário da língua portuguesa é finito; a imbecilidade do doutor, infelizmente, é infinita.

O termo inefável pertence a vigoroso tronco com muitas ramificações. Provém do verbo latino fari, que significa falar, dizer, conversar. Além de inefável (que não pode ser descrito com palavras), a família tem outros membros em nossa língua: afável (pessoa de conversa cortês), fama / famoso / famigerado (coisa ou pessoa falada), infante/infantil (que ainda não fala), ênfase (conceito proferido com destaque), fábula (narração inventada), fonético (que é próprio da voz), difamar / infame (falar mal, mal falado). A lista não é exaustiva.

Mais uma que ganho

José Horta Manzano

Nestes tempos de pandemia, qualquer pessoa sã de corpo e de espírito ficaria eufórica com boas notícias sobre o avanço da pesquisa de vacina. E se sentiria entristecido com notícias más.

Eu disse ‘qualquer pessoa sã de corpo e de espírito’. Não é, à evidência, o caso de doutor Bolsonaro, que festejou a suspensão dos testes de uma das vacinas, determinada em decorrência de um acidente de percurso.

A obsessão de nosso D.Quixote tupiniquim de fugir do perigoso chip comunista, que será inoculado nos brasileiros junto com essa vacina, é maior do que seu empenho em garantir a saúde do próprio povo.

Com um presidente tão amigo, quem precisa de inimigos?

Derrota concedida

José Horta Manzano

Uma expressão estrangeira mal traduzida é um problema. Se ela for repetida e repetida, dia após dia até a exaustão, torna-se um problemão.

Donald Trump, o irritante personagem que (ainda) preside o Executivo americano, tanto fez, que acabou perdendo uma reeleição que parecia uma barbada.

Nos EUA, faz duzentos anos que o candidato perdedor, por mais grosseiro que seja, apeia do cavalo, deixa de lado seus modos de caubói e cumprimenta o vencedor, desejando-lhe boa sorte.

Mas Trump é mais caubói que os outros. Além de tosco, mostra ser pouco inteligente, ao não se dar conta da imagem que deixará nos livros de história. Recusa-se a cumprimentar o vencedor.

Todos os artigos que li na mídia dizem que ele se recusa a «conceder a derrota». Bobeiam feio.

Em nossa língua, o verbo conceder não tem valor idêntico ao que tem em inglês. Não há lógica em dizer “conceder derrota”. O original «to concede defeat» será traduzido por reconhecer a derrota.

Quem preferir, pode usar também: admitir a derrota ou assumir a derrota. Ou entregar os pontos, metáfora esportiva que diz a mesma coisa.

Rachadinha

José Horta Manzano

Em texto publicado no pré-histórico ano de 2006, o jornalista Fernando Rodrigues já tratava do assunto; discorria sobre o nome que se havia de dar ao que hoje conhecemos como rachadinha. No artigo, Rodrigues explica, em detalhe, como funciona a engenhosa variante de peculato criado pela mente gananciosa de suas excelências para fraudar os próprios eleitores e enfiar no bolso nosso dinheiro. Na hora de dar nome ao crime, o jornalista hesita entre rachadinha e rachadão, sem bater o martelo.

É a menção mais antiga que encontrei ao nome dessa prática criminosa. Visto que a surrupiança é antiga, a expressão decerto havia de circular entre os praticantes do assalto. Mas ainda não era de conhecimento do distinto público, que os tempos eram mais pudibundos.

Na época, já frequentava as manchetes a expressão mensalão, criada por Roberto Jefferson, aquele que já foi deputado e mensaleiro, cassado e condenado, preso e liberado, e que hoje voltou ao convívio dos seus e tornou-se bolsonarista. Desde criancinha.

Faz alguns dias, o Ministério Público denunciou um dos bolsonarinhos, aquele que é senador (senador!). Ele é acusado de comandar uma organização criminosa – em outras palavras: chefe de quadrilha. É acusado de lavagem de dinheiro, apropriação indébita, peculato e formação de quadrilha. Coisa da pesada. Mas não está sozinho; no mesmo balaio, o MP põe 17 indivíduos: o bolsonarinho, um certo Queiroz, a esposa de um certo Queiroz e mais 14 elementos.

Quando a acusação atinge tal magnitude, não se pode mais falar em rachadinha, nome que soa inocente, quase infantil. Crime cometido por quadrilha exige nome no grau aumentativo. Recentemente, tivemos o mensalão e o petrolão. Desta vez, não pode sair por menos do que rachadão. Surrupião praticado por quadrilhão não pode ter nome em inha. É rachadão, e estamos conversados. Isso dito, ficamos no aguardo do cadeião para todos.

Chega de intermediários

Carlos Brickmann (*)

O chanceler brasileiro acredita em comunavírus, em perigo amarelo, em perigo vermelho. Talvez tenha de ser substituído por alguém que tema o perigo azul, dos democratas americanos. E que saiba negociar, entre amarelos e azuis, vantagens para o Brasil na implantação da rede 5G.

Trump fazia pressões para manter a Huawei chinesa fora da rede brasileira. Biden, não se sabe. Mas para o Brasil, que tem EUA e China como principais parceiros comerciais, é hora de fazer bons negócios com ambos. Ou, se é por ideologia, chega de intermediários: Olavo de Carvalho no Itamaraty.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

O fim

José Horta Manzano

A agilidade da informação, porporcionada pela internet, é responsável por profundas mudanças no comportamento dos indivíduos e na organização da sociedade.

É verdade que a Revolução Francesa já tinha mostrado o caminho. Só que não é fácil promover mudança quando se vive sob regime repressivo. Durante os séculos 19 e 20, praticamente todos os povos do planeta viviam sob regime autoritário – uns mais, outros menos. Nas Américas, com exceção dos EUA, golpes de Estado e ditaduras estavam na ordem do dia. Na Europa, o tom foi dado por dirigentes de mão de ferro, como Napoleão, Salazar, Stalin, Hitler, Mussolini, Franco, pra citar os mais importantes.

Atualmente, a impressionante penetração da informação, se não eliminou, pelo menos reduziu o risco de ruptura das instituições e de surgimento de salvadores da pátria.

A queda de Donald Trump, derrubado graças à resistência da grande imprensa e à circulação da informação pelas redes sociais, serve de alerta para todos os candidatos a ditador, sejam eles quais forem. Se caiu Trump – figura marcante que exalava autoconfiança e infundia segurança –, qualquer um pode cair.

Restolho

A derrota do exótico dirigente americano deve-se, sim, ao vigor das instituições de seu país; mas teria sido praticamente inviável se ainda estivéssemos meio século atrás, num tempo em que a informação circulava a passo de tartaruga.

É um alívio constatar que o surgimento desse tipo de personagem mal-intencionado está ficando cada dia mais difícil. Quanto mais adiantado for o país, menor será o risco. Trump já se foi, assim como o italiano Salvini já tinha ido. A Rússia e a China não têm jeito. São países que nunca conheceram a democracia; vai demorar.

Aqui no Brasil, sobrou um restolho(*). O risco de uma guinada autocrática desse estropício fica cada dia mais distante. Aos poucos ele vai se esbagaçar. Com o passar dos meses, vai revelando ser apenas um péssimo governante que faz malabarismos para escapar da cadeia. Já vimos esse filme e sabemos como acaba. The End.

Nota 1
(*)Restolho, palavra pouco utilizada atualmente, aparece há mil anos em textos portugueses. É termo ligado à agricultura, atividade que, a nossa civilização urbana, parece distante. Restolho é a palha seca que sobra no campo depois de terminada a ceifa. Vem de um hipotético latim vulgar *restuculum, através do espanhol restojo.

Foi usada aqui em sentido metafórico com o sentido de o resto, o que não tem serventia, o que não serve mais pra nada. É sinônimo de rebotalho.

Casa com telhado de colmo (restolho)

Nota 2
Não é verdade que restolho não sirva mais pra nada. Durante milênios, serviu para cobrir a casa dos camponeses. Ainda hoje, há muito cottage e muito chalé charmoso coberto com essa palha. Na função de telhado, o restolho se diz colmo.

Carolina do Norte e Niterói

José Horta Manzano

Para quem está acostumado com o esquema 1 eleitor = 1 voto, o sistema eleitoral americano parece surpreendente. Como é que é? Não é o mais votado que vence? Pois é, não é necessariamente o mais votado que vence. Em cinco ocasiões, ao longo da história americana, aconteceu de o vencedor ser o candidato que tinha ficado em segundo no voto popular. Da última vez, foi justamente em 2016, quando competiam Donald Trump e Hillary Clinton. Para nós, é desnorteante. É o famoso “ganha, mas não leva”.

Tudo tem um porquê. Nos tempos de antigamente, quando o sistema foi instituído, o mundo era outro. Não havia internet, nem tevê, nem rádio, nem fax, nem telex, nem telefone. Não havia nem mesmo estrada de ferro. Ainda que o território fosse menos vasto que o de agora, os EUA já eram um país enorme. Viagens eram demoradas e penosas, por estradas poeirentas ou nevadas, em veículo a tração animal.

Por essa razão, ficou combinado que, a cada 4 anos, na hora de escolher o presidente do Executivo, os eleitores de cada estado federado escolheriam, por voto popular, uma comitiva de grandes eleitores, cujo papel era representar os eleitores do estado. No dia marcado, cada unidade da federação enviaria seu grupo de grandes eleitores à capital do país. Cada grupo levava o resultado do voto de seu estado. Na época, a solução era excelente: evitava transportar papéis, borderôs, livros ou urnas.

O tempo passou, muita coisa mudou. Hoje há rádio, tevê, telefone, internet. Viaja-se de trem, de carro, de avião. As mulheres têm (já faz tempo) o direito de votar. No entanto, acomodados com um sistema secular, os americanos hesitam em alterá-lo. A cada vez que a apuração se espicha e ameaça terminar nos tribunais, volta-se ao assunto. Em seguida, as coisas se acalmam e o assunto morre. Até a próxima eleição.

by Adam Zyglis (1982-), desenhista americano

Outra particularidade da eleição americana, surpreendente para um país avançado, é a lentidão da apuração. Neste ano de pandemia, a razão da demora foi o fato de grande parte do eleitorado ter dado preferência ao voto enviado por correio em vez de se arriscar a apanhar um vírus qualquer num local apinhado.

Os estados têm bastante autonomia para fixar as regras da apuração. Alguns deles só validam as cédulas que forem recebidas até o dia do voto nacional – o que me parece correto. Já outros reconhecem votos que cheguem mais tarde; a Carolina do Norte, um caso extremo, aceita votos que deem entrada até 12 de novembro (9 dias depois da eleição). Essa medida é uma maçada, na medida que trava a proclamação do resultado nacional.

Não acredito que o esquema de eleição indireta venha a ser modificado tão cedo. Mas ouso esperar que, com o objetivo de evitar a angústia deste 2020, as normas de aceitação de votos antecipados seja revista. Dependesse de mim, só os votos recebidos o mais tardar 3 dias antes do pleito seriam validados. Assim, a comissão de apuração já poderia começar a trabalhar antecipadamente, de modo que, no dia do voto final, o resultado final sairia rapidinho.

O que eu disse acima não passa de visão de espírito, pura opinião pessoal. Como diziam os gaiatos no Rio de antigamente: ‘não sou daqui, sou de Niterói’(*).

(*) São palavras de um samba de Ataúlfo Alves e Wilson Batista, lançado em 1941 por Aracy de Almeida. No youtube aqui.

Katastrophale Corona-Politik

José Horta Manzano

Nossa percepção do som de línguas estrangeiras não é uniforme. Cada uma delas nos deixa uma impressão diferente. Em assunto técnico, por exemplo, o inglês é insuperável. Já uma história de amor, se contada em francês, fica mais picante. Se ela terminar em festa de casamento, com família e amigos em torno de uma longa mesa ao ar livre, será descrita em italiano. Se, no entanto, houver traição e vingança, convém passar para o espanhol. Acontecimentos fortes, impactantes, trovejantes, serão descritos com perfeição em alemão.

Bolsonaro: A catastrórica política do coronavírus
Der Standard, Áustria

Convenhamos que «Jair Bolsonaros katastrophale Corona-Politik» soa como bordoada e dispensa tradução. É o título de artigo publicado pelo diário austríaco Der Standard. Conta de onde vem a fixação bolsonárica pela cloroquina. Aqui estão os primeiros parágrafos.

O presidente brasileiro e seu grande modelo, Donald Trump, são responsáveis por dezenas de milhares de mortes por anunciarem uma droga ineficaz.

Em 7 de março, o presidente brasileiro Jair Bolsonaro visitou seu homólogo americano, Donald Trump, em Mar-a-Lago. Ele havia cancelado viagens planejadas para a Itália, Polônia e Hungria a conselho de seu ministro da Saúde, mas o populista de direita não queria deixar escapar a importância midiática de ser visto ao lado de seu grande modelo.

Trump deu-lhe uma caixa do medicamento antimalárico hidroxicloroquina, como o próprio Bolsonaro relatou com orgulho. “A partir daí”, lembra o ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta, demitido em abril, “ele não levou mais a sério as recomendações dos cientistas”.

Ao retornar dos Estados Unidos, 22 integrantes da delegação brasileira deram positivo.

Clique aqui quem quiser ler o artigo na íntegra (em alemão).

Make America Great Again

José Horta Manzano

Tirando toda a antipatia que me inspira o fato de os Estados Unidos se terem apoderado do nome do continente onde nasci, o slogan da candidatura Trump me surpreende.

Make America Great Again (=Faça os EUA voltarem a ser grandes) era o grito de guerra soltado pelo candidato quatro anos atrás. Foi eleito, bem ou mal governou, fez o que devia (e também o que não devia), plantou simpatias, espalhou inimizades. Chega agora ao crepúsculo do mandato. Quer ser reeleito. E qual é o slogan da nova campanha?

Você sabe. É Make America Great Again. Não é curioso? Fica a impressão de que, em quatro anos no poder, não conseguiu o intento. Sua “America” continua small. A meu ver, é confissão de fracasso.

Tinha de ter tomado o cuidado de desempoeirar o brado e transformá-lo em algo do tipo Let’s keep America great – Vamos conservar a grandeza dos EUA”. Ou coisa parecida. Transmitiria a ideia de que um passo imenso já tinha sido dado e de que agora era só questão de não deixar a peteca cair. Até candidato a vereador de Brejo Alagado costuma ser mais criativo.

Se o slogan de Trump continua o mesmo, é sinal evidente de que o objetivo não foi alcançado. Vale então a pergunta: se ele não conseguiu no primeiro mandato, que garantia dá a seus eleitores de que conseguirá no segundo?

This guy, I love him

Vera Magalhães (*)

Não que Trump esteja ligando para o Brasil ou para a família Bolsonaro. Nunca o fez a sério.

Mas o contrário não é verdade: toda a estrutura da política externa brasileira foi erigida em razão dos interesses norte-americanos, que ditaram nossa escolha para a tecnologia 5G, o destino da base de Alcântara, a política de preços de etanol, alumínio e aço, a estratégia de ingresso em organismos multilaterais, nossa política no continente (tendo a Venezuela como ponto central), e até a relação com Israel e Palestina.

by Cristina Sampaio (1960-), desenhista portuguesa

Sem Trump, ficamos a ver navios e ainda mais expostos na questão ambiental, pois Biden certamente se unirá à Europa nas cobranças veementes e na ameaça de retaliação comercial caso continuemos queimando biomas como se não houvesse amanhã.

(*) É jornalista com atuação em numerosos veículos.

Defendendo nossa Amazônia

José Horta Manzano

Ontem veio mais um sinal do delírio que domina a todos os que cercam Bolsonaro. Num tuíte assinado por ele (mas cujo estilo denuncia que o autor é outro), o presidente bate na tecla da teoria da conspiração. De novo levanta a suspeita de que potências estrangeiras estão de olho na Amazônia a fim de garantirem a segurança alimentar de seu povo. É o planeta contra o Brasil, a França em primeiro lugar!

Eu gostaria muito que esse medo pânico que Bolsonaro e seu entourage têm, de ver a Amazônia invadida e subtraída à soberania brasileira, fosse apenas jogada de marketing. Mas não é. Infelizmente, o pavor é a tal ponto real que ele e seus áulicos hão de ter pesadelos e desarranjos intestinais.

Têm medo porque são ignorantes e estão mal informados. Vamos dar uma olhada em alguns pontos.

  • Diferentemente do que pensa o doutor, o Brasil não é o único dono da floresta amazônica. Ela se espalha por 9 países, todos condôminos do mesmo bioma: Bolívia, Peru, Colômbia, Equador, Venezuela, Guiana, Suriname e França (Guiana Francesa). Se alguma potência tivesse a má ideia de ocupar aquela imensidão, arrumaria encrenca com os 9 condôminos. Entre eles, está a França, com seu poderio bélico e experiência de combate. Vai encarar?
  • Como eu disse acima, a França é dona de um pedaço da “nossa” floresta. E o que é que eles fazem com a parte que lhes cabe? Nada. Absolutamente nada. Instalaram centro espacial em Kourou (Curú), do qual grande parte de população é dependente. Afora isso, não produzem grande coisa. Não desmatam, nem criam gado. Se a França – o bicho-papão de Bolsonaro – quisesse transformar a Amazônia num grande pasto a fim de garantir sua segurança alimentar, começaria pela Guiana, pois não? Se não fizeram isso em casa, por que razão invadiriam a casa do vizinho? É puro desvario bolsonárico.
  • Se Bolsonaro & sua malta saíssem da bolha em que estão encapsulados e dessem ouvidos aos cientistas, ficariam sabendo que a destruição da floresta conduz fatalmente à desertificação de toda a região, com perturbações no clima da América do Sul inteira e reflexos até do outro lado do planeta. A umidade está intimamente ligada à permanência da vegetação. Sem vegetação, aquilo vai se transformar numa caatinga. Tanto a agricultura quanto a pecuária precisam de chuva. Sem chuva, pode dizer adeus. Amazônia vai virar caatinga. E não se fala mais nisso.
  • É impressionante ver que Bolsonaro & companheiros não conseguem entender que nenhuma potência, por maior que seja, tem capacidade de ocupar um território do tamanho da Amazônia e, na empreitada, arrumar encrenca com 9 países. Nem China, nem Rússia, nem EUA, nem Índia. Das potências menos populosas, então, nem se fala. Precisa muita gente para ocupar um território tão vasto. A Amazônia tem superfície de 5,5 milhões de km2, superior à da União Europeia. Portanto, é inocupável.

Se o distinto leitor cruzar com o presidente dia destes, dê-lhe um toque.

Imagem invertida

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 2 novembro 2020.

Este é um país em que decisões oficiais costumam ter prazo de validade curto. Em outras terras, leis e resoluções que permanecem em cartaz por décadas são a regra; entre nós, são exceção. Não se sabe se seguirá na ribalta o comovente espetáculo com que doutor Bolsonaro nos brindou faz alguns dias, quando açoitou em público seu ministro da Saúde, no sombrio episódio da compra da vacina. Terá sido encenação orquestrada, de caso pensado? Ou passageira explosão de mau humor de um presidente insônico?

Seja como for, quer saia de cena na ponta dos pés, quer termine, barulhento, no palco iluminado do STF, o caso terá sido emblemático desta presidência. Daqui a um século, quando historiadores se debruçarem sobre o ano de 2020, a devastação da pandemia será acareada com o berro do doutor. Berro, sim, pois os códigos da internet estipulam que quem escreve em letras maiúsculas está gritando. Foi o que fez o presidente quando afirmou a seus devotos que não compraria a vacina do Instituto Butantã – que ele chama, com desdém, de «vacina chinesa», por ter sido desenvolvida por laboratório chinês.

Em novembro de 1904, está fazendo 116 anos estes dias, a população do Rio de Janeiro se amotinou contra as autoridades. Fazia tempo que a insatisfação inchava. A causa maior eram as obras gigantescas de modernização, que estavam perturbando a vida de muita gente. Na remodelagem da cidade, muitos tinham perdido a moradia. Os péssimos serviços públicos também alimentavam a zanga da população. Mas a gota d’água foi mesmo a imposição da obrigatoriedade da vacina antivariólica.

Naquela época, a situação sanitária calamitosa da capital dava imagem infeliz da jovem República. Até imigrantes europeus, assustados, zapeavam o Rio e preferiam recomeçar a vida em Montevidéu ou Buenos Aires – fato que contrariava o empenho do governo. Outras doenças castigavam o povo, só que, contra a varíola, já fazia um século que havia vacina. Eis por que, na impossibilidade de resolver todos os problemas de uma vez, decidiu-se atacar por esse lado.

Revolta contra a vacina obrigatória – Rio, 1904
by Leonidas Freire (1882-1943)

O pote, já então quase cheio, entornou. A revolta acabou por envolver militares e gente que nada tinha a ver com a vacina. Até tentativa (frustrada) de golpe de Estado houve. As desordens deixaram mortos e feridos. Tão violento foi o movimento, que obrigou o governo a voltar atrás na imposição da vacina. Não se sabe se há relação de causa e consequência, mas o fato é que, quatro anos mais tarde, uma epidemia de varíola deixaria mais de 6 mil mortos.

Agora, cem anos depois, não é o povo, mas o presidente que se insurge, até com violência verbal, contra um reclamo legítimo e urgente da população. A ordem natural das coisas está invertida. O cidadão comum não está montado em cima de uma ideologia, seja ela qual for. Para esse cidadão, convencido de que só a vacinação lhe dará proteção contra o coronavírus, o importante é vacinar-se logo, pouco importando a cor do passaporte dos cientistas por trás da descoberta. Que se pergunte aos 57 milhões que deram seu voto ao presidente atual o que lhes parece mais urgente: estender o braço pra receber a vacinação liberadora, venha ela de que laboratório vier, ou espichar uma tromba, bater o pé e recusar a «vacina chinesa do Dória». Não precisa nem gastar dinheiro com pesquisa.

É significativa a assimetria entre a desavença de um século atrás e a quizila atual. Em 1904, a população se insurgiu contra uma medida imposta de cima para baixo – o que entra na ordem natural das coisas. Motins, sublevações, revoltas e revoluções costumam ocorrer como reação de insatisfação popular diante de medidas vindas de cima e percebidas como opressivas.

Em 2020, o quadro está invertido. Embora importantes, não são o incentivo de governos estaduais, nem a autorização da Anvisa, nem a pontificação do STF que ficarão na história. O que será lembrado é o descaso para com a saúde dos brasileiros patenteado pelo presidente em pessoa. O governo do Brasil de 2020 é a delirante imagem invertida daquilo que um governo teria de fazer por seu povo. Como dizia minha avó, isto aqui está de pernas pro ar.

Brincando com fogo

José Horta Manzano

A ignorância beata de Jair Bolsonaro se somou ao oportunismo criminoso do ministro Salles para gerar uma clamor planetário em torno do desmatamento. A falta de modos de ambos levantou a lebre. Talvez não fosse o que pretendiam, mas conseguiram girar os holofotes internacionais para a violência com que estão incentivando a rápida destruição, em benefício de poucos, de um patrimônio que é de todos nós.

As queimadas deste ano – acidentais ou provocadas – chocaram o mundo. Ao redor do planeta, todos os cidadãos esclarecidos, ainda que residam longe do Brasil, sentem como se a própria casa estivesse pegando fogo. É sensação assaz desconfortável.

Bolsonaro perdeu o espírito crítico, se é que ele o teve algum dia. O homem se isola de toda crítica externa. Passa os dias mergulhado nas redes sociais trocando figurinhas com seus devotos. Dizem que o único canal ainda aberto entre sua bolha e o mundo exterior é o Jornal Nacional – emissão que ele odeia, embora ela não lhe faça oposição frontal. O isolamento do presidente alimenta seu alheamento. Enquanto isso, o mundo avança.

Lá fora, o mar não está pra peixe. Risco de reeleição de Trump, atentados terroristas na França, segunda onda de covid ainda pior que a primeira – o nível de humor do planeta anda próximo de zero. Constatar que Bolsonaro, um pequeno tiranete, taca fogo na mais importante floresta equatorial do mundo é insuportável. O contragolpe vem aí.

Ainda estes dias, Les Echos, jornal francês equivalente a nosso Valor, publicou artigo emblemático. Um grupo de importantes ONGs dedicadas à preservação da natureza juntaram forças pra pressionar o mundo das finanças. Em nota, informam que a soja brasileira está entre os principais fatores de desmatamento no mundo e que, com 50% do cerrado brasileiro arrasado, seu plantio já começa a invadir a (ex-)selva amazônica.

As ONGs estão pressionando os bancos para que cortem o financiamento dos grandes negociantes internacionais de grãos que contribuírem para o desflorestamento. Esses intermediários são conhecidos pela sigla ABCD – ADM, Bunge, Cargill e Dreyfus, empresas que respondem juntas por quase 60% do comércio internacional de soja. Juntamente com o membro mais recente do clube – o chinês Cofco International – estão sentindo a pressão e já estão se preparando para deixar de comprar soja proveniente de municípios brasileiros onde o desmatamento é mais forte.

O financiamento bancário, nesse campo, é pra lá de importante. Para o comércio de grãos, somente os bancos franceses bancaram empréstimos de 9,5 bilhões de euros entre 2016 e 2019.

O que está acontecendo é muito grave para o futuro da economia brasileira de exportação. O Brasil não é o único produtor de soja. Estados Unidos, Argentina, China e Índia, que também plantam essa leguminosa, estão esfregando as mãos. Assim que a pressão da sociedade nos países importadores estiver insuportável, os negociantes serão obrigados a agir de verdade. Em vez de ficar discriminando municípios brasileiros um a um, a solução mais comercial será boicotar o Brasil e passar a comprar dos outros produtores. Com os bancos fechando a torneirinha do financiamento, essa troca de fornecedores não vai demorar.

Esse periga ser o legado que o atual governo vai deixar. Atingirá em cheio os produtores de soja; e, de tabela, a economia brasileira como um todo.