Realidade paralela

José Horta Manzano

Ao subir à Presidência, doutor Bolsonaro carregou consigo um apanhado de indivíduos. À medida que se passaram os primeiros meses de mandato, como é natural, os elementos que não afinavam com o grupo foram sendo expurgados. Inversamente, como ímã poderoso, o núcleo atraiu adeptos de última hora.

O curioso é que – não, curioso não é adjetivo que caiba aqui; vamos recomeçar. O afligente é que os indivíduos expelidos eram justamente os que, por seu histórico profissional, garantiam seriedade e profissionalismo ao conjunto. Dizem que foi o próprio chefe a expulsá-los, por se sentir ofuscado por eles.

Dessa acomodação, sobrou um conjunto com características surpreendentes. Por um lado, cresceu como se tivesse tomado fermento. Entre assessores de primeiro, segundo e terceiro escalão, são milhares de apadrinhados instalados em sinecuras, a sugar o dinheiro suado da população. Por outro, o grupo é heterogêneo, com gente de variadas origens, unidos por uma característica comum: o descolamento da realidade nacional e a subserviência ao padrinho.

Mais e mais, se tem qualificado o descolamento em que esse pessoal vive de realidade paralela.

Será?
Realidade paralela, expressão traduzida diretamente do inglês, tem sido geralmente aplicada à física quântica, onde convive com noções distantes do homem comum: antimatéria, violação de simetria, universo espelho.

Não me parece expressão adequada para descrever o comportamento dos apadrinhados do doutor. Duas linhas (ou dois pensamentos, ou duas ideias, ou duas vidas) paralelas são aquelas que caminham lado a lado, equidistantes, regulares. Não são esses os modos de nosso presidente nem do cardume que lhe faz escolta. Realidade paralela é conceito elevado demais, inalcançável para aquela gente terra a terra.

A irregularidade ziguezagueante do percurso de todos eles faz mais lembrar um bate-cabeça ou um barata-voa. Se se fizer questão de usar a palavra realidade, que se diga que vivem numa realidade divergente. É bom lembrar que divergir é o oposto de convergir.

O propósito de um grupo coeso, coerente e bem intencionado é sempre a convergência em direção a um objetivo comum. No entanto, a característica marcante de nossos dirigentes é a divergência escancarada, em que interesses pessoais passarão sempre à frente dos interesses do Estado.

Cada um vive a própria realidade, que, de paralela, não tem nada. Essa multiplicidade de interesses pessoais dissonantes, cada um apontando numa direção diferente, resulta em realidades divergentes.

Cada um tem a sua, e vamos em frente, que Deus ajuda. E a pandemia que se lixe.

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