Kit covid

José Horta Manzano

As autoridades japonesas estão monitorando de perto tudo o que diz respeito à organização dos Jogos Olímpicos, que terão lugar no país daqui a um mês.

Neste domingo, apresentaram a Vila Olímpica à imprensa e anunciaram as mais recentes medidas de proteção dos atletas. Entre elas, estão a instalação de uma clínica especializada no estudo da febre, assim como a distribuição de um kit covid.

O estojo anticovid contém álcool em gel e sabonete medicinal. Pode parecer uma evidência, mas não há que esquecer que o país vai receber atletas de quase 200 países – e nem todos têm hábitos de higiene suficientes para protegê-los nestes tempos de pandemia.

Se nosso capitão, em vez de investir tempo, esforço e dinheiro em remédios milagrosos, tivesse, desde o começo, mandado distribuir sabonete e álcool em gel a toda a população – jovens e velhos, ricos e pobres, urbanos e rurais –, certamente não estaríamos hoje chorando a morte do quingentésimo milésimo(*) brasileiro.

Num país de pobres, só mandar lavar as mãos não funciona – o cidadão às vezes não tem dinheiro nem pra comer. Precisa dar o sabão. É mais eficaz que cloroquina.

(*) = 500.000°

Tratamento precoce

“Kit covid”

José Horta Manzano

Não posso saber qual era a intenção das autoridades que conceberam o “kit covid”. Não está claro, pelo menos para mim, se a intenção era curar ou prevenir a doença – se os remédios são curativos ou preventivos.

Não foi boa ideia dar ao coquetel de remédios o nome de “tratamento precoce”. Pra começar, precoce é palavra um tanto ambígua, visto que seu significado pode variar dependendo do contexto. Além disso, o termo não pertence à língua de todos os dias, ou seja, muita gente simplesmente não sabe o que significa.

No meu entendimento, para que a expressão “tratamento precoce” faça sentido, é preciso que o paciente já esteja doente, isto é, que já tenha contraído o vírus. Não se trata alguém que ainda não está doente.

Admitindo que a intenção dos criadores fosse tratar os doentes em estágio precoce, é preciso constatar que muitos estão entendendo que o famigerado “kit covid” é um preventivo, isto é, uma espécie de imunizante que se toma para não ficar doente.

Agora dá pra entender por que há tantos infelizes sofrendo as consequências de ter tomado os medicamentos do “kit”. Elas podem ser violentas. Há quem passe a sofrer insuficiência hepática, renal ou cardíaca. Há quem entre para a fila dos transplantes. Há muitos que infelizmente não resistem e acabam falecendo.

Entre os que sofrem essas consequências, deve haver muitos que, sem haver contraído covid, ingeriram os medicamentos do “kit” como preventivo. É trágico imaginar que, pensando escapar de um mal, recebam o terrível abraço de outra doença que os acompanhará até o túmulo.

Ontem, dia 18, o jornal O Globo publicou artigo esclarecedor que conta a pressão que autoridades vêm exercendo sobre o corpo médico lotado em hospitais por todo o país. O texto em pdf está aqui à disposição do distinto leitor.

Kit covid

José Horta Manzano

Meses atrás, sob instigação de nosso doutor presidente, o Ministério da Saúde havia encomendado caminhões de hidroxicloroquina e de azitromicina para entregar aos estados a título de «tratamento precoce» da covid-19.

Os governadores, mais chegados às orientações da ciência do que o presidente, recusaram-se a fornecer as drogas à população. A montanha de comprimidos encalhou nos armazéns federais. Para esvaziar os galpões, o governo federal planeja despachar os remédios para as farmácias populares, com a ordem de distribui-los gratuitamente a quem pedir.

Na França, logo que a epidemia estourou, um médico do Hospital Universitário de Marselha lançou a ideia de usar hidroxicloroquina combinada com azitromicina em pacientes com covid. Fez, por sua conta, um estudo com apenas uma vintena de (jovens) pacientes seus. Concluiu que o remédio era eficaz, visto que nenhum dos doentes desenvolveu um quadro grave. Vaidoso, convocou a imprensa e foi à televisão divulgar sua descoberta. Teve seu momento de glória e ficou conhecido no país.

As autoridades sanitárias se debruçaram sobre o caso. Depois de analisar os considerandos e os finalmentes, concluíram que a administração dessa combinação de remédios, além de não ter eficiência comprovada por teste de larga escala, é problemática. De fato, exige acompanhamento médico rigoroso e contínuo, pelo risco de importantes efeitos secundários. Desde então, ficou proibido administrar essa combinação de drogas como «preventivo» de covid ou mesmo como «tratamento precoce». Unicamente pacientes hospitalizados podem receber o tratamento.

by Nando Motta, músico e ilustrador

A azitromicina é um antibiótico. Sabe-se que a ingestão indiscriminada de antibióticos favorece o aparecimento de resistência no organismo. No futuro, quando o paciente realmente precisar, esse medicamento poderá não fazer efeito.

Quanto à hidroxicloroquina, contraindicações e efeitos secundários são da pesada. Insuficiência cardíaca, arritmia ventricular, lesões da retina, hipoglicemia, convulsões, vertigens estão entre eles. Não são drogas a serem distribuídas a quem pedir, como se fossem balas de açúcar.

Ao administrar essas drogas ao paciente internado, a intenção é evitar que a doença evolua para um quadro grave. É importante repetir que a combinação de cloroquina e azitromicina não cura a covid-19. Até o momento, não foi descoberto nenhum remédio para curar essa doença.

Na minha opinião, a atitude de nosso governo federal é temerária. Em outras terras, antibióticos só são vendidos com apresentação de receita médica. A ideia do governo brasileiro de distribuir indiscriminadamente drogas que deveriam ser controladas é porta aberta para o surgimento de um problema nacional de saúde: uma legião de cidadãos resistentes a uma classe de antibióticos. Sabe-se que essa situação favorece o aparecimento de superbactérias que não cedem a nenhum tratamento. Uma calamidade.

Um último detalhe
Relatório da Anvisa informa que 72% dos ingredientes básicos que compõem os medicamentos vendidos no Brasil são produzidos na China (37%) e na Índia (35%). De genuinamente nacional mesmo, só a embalagem e a bula, se tanto. Alguém precisa contar a nosso doutor presidente que, com o «kit covid», a China ganha mais que ele.