Na semana que passou

Carlos Brickmann (*)

Frente a frente
Seria ótimo promover uma acareação entre três membros do Governo: o publicitário Fábio Wajngarten, que disse que Bolsonaro ignorou ofertas de vacinas; o diplomata Ernesto Araújo, que confirmou a ordem do presidente de negociar a importação de cloroquina; e Pazuello. É provável que a tal “síndrome vasovagal”, que dizem que teve e levou à interrupção da sessão da CPI, acabe sendo chamada pelo nome mais popular.

Dilmismo bolsonarista
O então deputado Jair Bolsonaro disse que, para o país tomar jeito, era preciso que morressem umas 30 mil pessoas. Donde se conclui que o general Pazuello atingiu a meta, dobrou a meta e dobrou-a de novo até ser afastado.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

Imorrível

Ascânio Seleme (*)

Nosso presidente é tão extra ordinário que chegou ao ponto de dizer uma barbaridade diante de câmeras e microfones sem ruborizar. Ele disse ser “imorrível, imbroxável e incomível”. A declaração, abusada e grosseira, prova mais uma vez que Bolsonaro é mesmo um mentiroso.

(*) Ascânio Seleme é jornalista. Trecho de artigo publicado no jornal O Globo de 22 maio 2021.

De conversa em conversa

José Horta Manzano

FHC e o Lula almoçaram juntos. E posaram para foto. E todos os veículos deram a notícia na primeira página. Assim que fiquei sabendo do encontro, minha primeira reação foi de perplexidade. “Como é que pode?”, pensei. “Parece que os dois perderam a cabeça! Com a idade, estão ficando de miolo mole.”

Dando uma vista d’olhos na imprensa, encontrei análises e reflexões sobre o almoço dos idosos. Analistas políticos reprovam. A reação generalizada é de rejeição. Cada um expõe as razões à sua maneira, mas todos torcem o nariz.

Parei pra pensar. E me lembrei de um episódio ocorrido muito tempo atrás, no final dos anos 1970, quando eu trabalhava na filial brasileira de uma indústria americana. Um belo dia, recebemos a visita de um figurão, um americano vindo direto da matriz. Dois dias depois, em reunião informal com os gerentes brasileiros, ele pediu informação sobre nosso principal concorrente, uma outra fábrica também situada em São Paulo, que produzia artigos semelhantes aos nossos.

Demos as informações. Ele então lança: “Quero ir visitá-los”. Estupor geral. Como assim? Visitar a concorrência? “E por que não?”, pergunta o estrangeiro. “Eu tomo um táxi, vou até lá, me apresento, digo em que firma trabalho, e peço pra encontrar o diretor”. Não foi fácil convencê-lo de que, no Brasil, as coisas não funcionavam daquela maneira. Não me lembro mais se ele acabou indo ou se ficou só na intenção.

Seria temerário generalizar a partir de um único caso. Mas ficou visível, no peculiar episódio da visita do americano, que o brasileiro tende a erguer barreiras que nem sempre têm razão de ser. Sem saber exatamente por que, a gente inventa que isto não pode, que aquilo não se faz, que aquiloutro não convém. São bloqueios que a gente faz por automatismo, sem pensar e sem medir.

No fundo, qual seria o motivo a nos proibir de ter uma conversa com um concorrente? Transpondo o raciocínio para o campo político, qual seria o motivo para FHC e o Lula se darem as costas e fazerem biquinho?

Volta e meia, soltamos o adágio “É conversando que a gente se entende”. Todos concordam com ele. No entanto, na hora agá, quando dois ex-presidentes que são vistos como adversários, se dispõem a trocar ideias, vem aquela torrente de protestos indignados. Não dá pra entender.

Pensando bem, acho que os dois fizeram muito bem de se encontrar, pouco importando as reclamações dos devotos deste ou daquele campo. O Brasil anda muito compartimentado. Vivemos num regime rigoroso que determina: ou você é deste lado, ou então só pode ser do outro; os daqui não podem conversar com os de lá; e vice-versa. Por que essa rijeza?

No encontro entre dois líderes políticos de correntes diferentes, realmente não vejo ameaça à democracia nem às instituições. Nem à moral, nem aos bons costumes. Tampouco vejo traição ou declaração de fidelidade. Acho que não se deve dar aos fatos mais importância do que eles têm. Não há motivo para dramatizar.

Que todos continuem a se encontrar e a conversar! É bem mais sadio do que ficar encastelado na própria bolha. Se, em vez de insultar inimigos imaginários, o capitão se dispusesse a bater um papo com eles, o Brasil estaria hoje menos crispado, e nós todos teríamos muito a ganhar. Afinal, é conversando que a gente se entende.

Inocular

José Horta Manzano

Assisti com estes olhos que a terra há de comer. Sou testemunha ocular da história!

Todo o mundo sabe que ocular tem a ver com olho. Pra confirmar, estão aí o oculista, o binóculo e os óculos. Ah! Já que falamos de óculos, atenção, juventude! É bom lembrar que óculos é substantivo plural. Assim, o artigo vai sempre para o plural: os óculos. O óculo (no singular) existe, mas é outra coisa: uma luneta de alcance, que serve para observar com um olho só. Mas vamos voltar ao assunto do dia.

Nesta hora em que todos procuram se vacinar, circula também outro termo aparentado: inocular. Que se saiba, ninguém jamais tomou vacina no olho. Qual é, então, a relação entre a inoculação e os olhos?

De origem antiga, a palavra descende de um latim tardio inoculare. Descreve uma técnica de enxerto de roseira, em que um broto é seccionado da planta-mãe e atado ao caule que vai receber o transplante. A operação serve para desenvolver novas variedades de rosas. O broto, que tem forma arredondada, lembra um olho, daí o nome da técnica.

No início dos anos 1800, começou a popularizar-se o princípio da vacina, novidade para a época. Consistia em injetar pequena quantidade do vírus da varíola para imunizar as pessoas. Para dar nome à nova técnica, a medicina tomou emprestado o verbo latino. Os ingleses, pioneiros nesse campo, passaram a utilizar o verbo to inoculate (= inocular), seguindo a imagem de introduzir um corpo estranho, exatamente como os jardineiros fazem com as roseiras. As outras línguas acompanharam o raciocício.

Fui inoculado? Não! O que é inoculado é a vacina, não a pessoa.

Fica assim:
O enfermeiro inocula a vacina e imuniza o paciente.
A vacina foi inoculada e o paciente ficou imunizado.

O general e a gravata

José Horta Manzano

Curioso para conhecer Pazuello, o ex-ministro que eu nunca tinha tido oportunidade de ver nem de ouvir, fui dar uma espiada em seu depoimento de ontem na CPI. Devo admitir que fiquei um tanto decepcionado. Depois de tudo o que já li sobre ele, imaginava dar de cara com um General Trovão, um Figueiredo dos tempos atuais, um líder do tipo “deixa comigo, que eu mato e arrebento”. Em vez disso, o homem está mais pra Zangado, um dos anões que rodeavam a Branca de Neve, aquele que nunca sorria. Parece um Zangado falante, mas sempre de maus bofes.

Na foto tirada durante o depoimento, o general aparece de olhos fortemente avermelhados. Fica a nítida impressão de ele não ter dormido na noite anterior – o que poderia explicar o quase-desmaio que sofreu à tarde. É difícil imaginar que ele tenha passado a noite se agitando num baile funk, mas é concebível que tenha ficado acordado até altas horas recapitulando as respostas que lhe tinham sido aconselhadas pelos media trainers contratados pelo Planalto. Pode ser também que, nervoso, tenha simplesmente perdido o sono.

Fiquei surpreso com a inabilidade dos senadores para conduzir o interrogatório. O próprio interrogado parecia mais bem preparado que eles, quando deveria ser exatamente o contrário. Os inquiridores é que tinham de surpreender o convocado com perguntas inesperadas, incisivas e inescapáveis. Em vez disso, notei certa displicência entre os parlamentares, como se estivessem surpresos pelo fato de o general dar respostas firmes sem tropeçar. É verdade que senador não está necessariamente formado para a função de promotor público, mas a CPI tem como se fazer assessorar por especialistas trabalhando em tempo real. Se não o fez, foi porque não quis.

Fiquei encantado com a gravata do general. Não me esqueço de quando esse modelo foi apresentado ao mundo. Foi em Copenhague (Dinamarca), em outubro de 2009, no dia em que o Comitê Olímpico Internacional anunciou que atribuía ao Rio de Janeiro a organização das Olimpíadas 2016. Representando o Brasil, um grupo eufórico estava presente. Quando souberam do resultado, soltaram gritos e deram pulos de contentamento. Na época, a gente imaginou que fosse por patriotismo. Usavam todos esse modelo de gravata.

Como modelo, até que ela não é feia, com as cores da bandeira. Só que os primeiros usuários, além de não serem modelos de desfile de moda, tampouco eram o que se pode chamar de modelo de virtude. Os figurões mais proeminentes estão na foto acima, todos devidamente engravatados com o mesmo modelito do general. Vamos ver quem são. Da esquerda para a direita.

Eduardo Paes
Atual prefeito do Rio, é o único em atividade neste momento. Não chegou a ser preso, mas a lista das acusações de corrupção que o perseguem é longa como um dia sem comer.

Sergio Cabral
Foi governador do Rio. Condenado por corrupção e outros crimes, não só passou pela casa prisão, como ainda está lá. Condenado a mais de 200 anos de privação de liberdade, ainda deve permanecer encarcerado por algum tempo.

Carlos Arthur Nuzman
Era o presidente do Comitê Olímpico Brasileiro à época. Acusado de corrupção, passou pela casa prisão em 2017.

Lula da Silva
Foi presidente do Brasil. Condenado por corrupção e outros crimes, passou pela casa prisão, onde purgou mais de ano e meio.

Orlando Silva
Dos retratados, este parece ser o mais maneiro. Foi ministro do Esporte. Teve problemas com a justiça por ter comido uma tapioca de R$ 8,30 e posto na conta da Viúva. Visto que é arraia miúda demais, não passou pela casa prisão.

Não conheço o sexto cavalheiro.

Tendo em vista a folha corrida dos primeiros portadores da gravata verde-amarela, vale indagar que motivo levou o general a enrolar essa gravata de corruptos em torno do pescoço ontem. Algumas suposições:

• Ele não assistiu à cerimônia de 2009, portanto não sabe que os que lançaram a moda são personagens pouco recomendáveis, pra dizer o mínimo.

• Imaginando que ia acabar preso, já veio paramentado para seguir os passos dos que o precederam.

• A coisa é o que parece: sabe-se lá por que, vestiu a gravata em homenagem à bandidagem.

• Distraído, saiu de casa de camisa aberta, como quem se prepara para um passeio num shopping de Manaus. Foi Bolsonaro que, ao vê-lo descamisado, emprestou sua gravata de estimação.

Pode ser alguma dessas razões. Ou nenhuma das anteriores. O distinto leitor o que acha?

O felino de nome estropiado

José Horta Manzano

George-Louis Leclerc, conde de Buffon (1707-1788) foi um naturalista, biólogo, cosmólogo, matemático, filósofo e escritor francês. Brilhante intelectual, viveu numa época estimulante em que quase tudo estava ainda por descobrir e inventar. Era um tempo em que o conhecimento não estava à disposição de todos, como hoje. Sem internet e sem Wikipedia, quem buscasse o saber tinha de suar camisa.

A obra do conde sugere que ele tenha sido grande viajante, daqueles que deram a volta ao mundo. É impressão. Tirando o país natal, só viajou à Inglaterra e à Itália. Estudo, observação e talento fizeram o resto.

Buffon conseguiu a proeza de descrever espécimes exóticos da fauna mundial sem ter nunca saído da Europa. Assim foi com a onça-parda, espécie difusa em todo o continente americano, do Canadá à Patagônia. Conforme a língua, o nome do felino varia. O termo espanhol – puma – foi adotado pela maioria das línguas. Já o francês e o inglês seguiram caminho diferente. E é esse caminho que tem a ver com nosso conde francês.

A história marca que os primeiros europeus a terem contacto com a onça-parda foram os portugueses. Como é o caso de muitos animais da nova terra, os europeus recolheram e adotaram o nome indígena, que era suçuarana. Foi com esse nome que o felino chegou ao conhecimento de Buffon. Só que, nesse ponto, houve um probleminha de grafia.

Diferentemente de quase todas as outras, a língua portuguesa tem cê cedilha. Por falta de familiaridade, a cedilha é muitas vezes esquecida pelo caminho. Assim como os Gonçalves, quando deixam a terra natal, costumam virar Goncalves, o nome da onça foi mutilado. Naqueles longínquos anos 1500, o nome suçuarana (mais provavelmente çuçuarana) chegou à França como cuguacuarana, devido à perda da cedilha e à confusão das consoantes s, c e g.

À medida que os séculos passaram, o comprido nome do bicho foi sendo podado e corroído até desembocar no couguar do francês atual. Em algum ponto do caminho, os britânicos tomaram a forma emprestada e ainda reduziram um bocadinho mais. Ficou cougar, palavra utilizada até hoje em inglês pra dar nome ao bicho. Até que ficou elegante e, principalmente, mais fácil de pronunciar do que o original tupi. O termo soa tão bem que já foi usado até pra nome de modelo de automóvel (Mercury Cougar); aliás, um carro com certa presença.

Trata-se de um dos numerosos casos em que uma palavra exótica, transportada pelo português, veio enriquecer outras línguas europeias.

Eu somos?

Chamada Estadão

José Horta Manzano

À primeira vista, a frase parece correta. Na releitura, dá pra perceber que algo está fora de lugar. E está.

O verbo tem de concordar com o sujeito. Sujeito no singular exige verbo também no singular. E vice-versa.

O sujeito da frase é desinformação, que está no singular; portanto, o verbo também tem de estar.

Retificando:
Desinformação nas redes sociais inflama conflito israelense-palestino.

A pátria amada e a macacada

José Horta Manzano

Por ocasião do depoimento do general Pazuello(*), que deve ser dado daqui a dois dias (se, até lá, ninguém levantar alguma questão de embargos infringentes), me vem à mente uma traquinagem de meu tempo de estudante.

Lá se vão muitas décadas, quando os generais ainda nem haviam instalado a ditadura, a gente se sentia livre de fazer troça com todo o mundo, inclusive com os militares. Ainda bem que deu tempo, porque, logo em seguida, os tanques sairiam às ruas e brincadeiras desse tipo seriam tiradas de circulação por 20 anos.

Talvez o distinto leitor conheça a Canção do Exército – no youtube aqui. É aquela que começa assim: “Nós somos da pátria a guarda, fiéis soldados por ela amados”. Pois é, uma das características do adolescente é a irreverência. Minha geração não escapou, como nenhuma escapa.

Aprendemos a cantar esse hino, não me lembro por que razão. Terá sido dado pelo professor Caldeira, de Canto Orfeônico. O que sei é que fizemos uma paródia e estropiamos a letra. No pedaço em que diz:

Porém se a pátria amada
for um dia ultrajada,
lutaremos sem temor.

A gente cantava:

Porém se a pátria amada
precisar da macacada,
ó meu Deus, que maçada!

Bom, essa era a letra light, cantada quando havia crianças na sala. Na (nossa) versão original heavy, as palavras eram um pouco mais encorpadas:

Porém se a pátria amada
precisar da macacada,
puxa a cerda, que caçada!

No último verso, escrevi sons que lembram as palavras originais; cada um que use a imaginação pra descobrir o que está por trás da tarja preta.

Na época, cantar assim era uma ousadia; hoje, principalmente depois que o bolsonarismo espalhou pelo país seus modos rasteiros, ninguém mais se choca por tão pouco. No entanto, por mais que nosso presidente baixe o nível, não consigo acompanhar. Continuo me comportando como se houvesse permanentemente senhoras na sala. Não é na minha idade que vou começar a soltar palavrão por aí. Talquei?

Como eu dizia lá no começo, o comportamento do general Pazuello me fez lembrar a paródia dos ginasianos dos anos 1960. Ao tentar se esconder pra não ter de revelar seus “malfeitos”, o ex-ministro prova ter no ombro muita estrela pra pouca valentia. Sua conduta combina com nossos versinhos:

Porém se a pátria amada
precisar da macacada,
puxa a cerda, que caçada!

Se Pazuello estivesse no lugar do general Eisenhower, aquele que comandou o exército americano na Europa durante a Segunda Guerra, teria se escondido, e hoje estaríamos todos falando alemão. (Que é, sem dúvida, uma bela língua, mas o problema não é esse.)

(*) Para conhecer a origem e o significado do sobrenome do general, leia o artigo que escrevi em março último.

Clubes se proliferam?

José Horta Manzano

Quem escreveu a chamada bobeou. Proliferar não é verbo pronominal. É intransitivo, ou seja, não admite objeto. Portanto, alguma coisa simplesmente prolifera. Além disso, no trecho “ganham mais leitores”, o “mais” sobra.

Retificando:
Clubes de assinatura de livros ganham leitores e proliferam na pandemia.

Vagabundo

El vagabundo
by Mónica Caruncho Fontela, artista espanhola

José Horta Manzano

No andar de cima, os convivas – todos copiosamente sustentados com nosso dinheiro – continuam a encenação. A incessante troca de casais é de rigor. Inimigos de anteontem, que tinham justamente feito as pazes ontem, tornam a apontar-se mutuamente os estilingues. Amigos desde a infância, duas excelências hoje se viram a cara. Outras duas, que não se falavam havia anos, hoje surgem de braço dado. E o povão vibra sem se dar conta de que a intenção era justamente esta: divertir a galeria, nada mais.

Tem a CPI da Covid (ou “da Cloroquina”, como receiam os devotos do capitão). Lá também, o alvoroço segue firme. Talvez eu não devesse dizer “lá também”, mas “lá principalmente”. Ora, é a vitrine maior, o horário nobre daquele palco de hipocrisia! Excelência que se preze tem o dever de se agitar na hora e no lugar certo.

Entre as encenações da semana, um distinto parlamentar botou pedra um pouco maior no estilingue, apontou para um colega e mandou: “Vagabundo!”. Ao que o atingido, com impressionante presença de espírito, respondeu de pronto: “Vagabundo é você!”. Diálogo edificante, foi uma finura que só.

É inadequado duas excelências usarem pedras tão grandes para lapidar-se mutuamente. Acho até que o calibre das pedrinhas devia ser fixado por lei. A partir de tal e tal diâmetro, não pode, porque fica feio e baixa o nível.

Vagus e bundus
Deixando de lado as ironias, vamos aos fatos. Vagabundo – de onde vem esse bicho? Pois a palavra já existia em latim (vagabundus). É composta de vagus (errante, sem destino) e de bundus (que tem propensão a).

A raiz do primeiro elemento aparece em numerosas palavras nossas: vagar e vaguear (ir sem destino), divagar (soltar o pensamento), vagante, extravagante, vago (impreciso), noctívago (que passeia à noite sem destino preciso).

O segundo elemento (bundo) também reaparece em palavras como nauseabundo, meditabundo, moribundo. Há muitas outras, mas, no Brasil, tendemos a evitar essa terminação por sua semelhança com bunda, palavra que, no meu tempo, convinha evitar quando havia senhoras na sala.

Por último, é interessante notar que o termo vagabundo, se está presente nas demais línguas latinas, não tem o mesmo peso em cada uma delas. Em português, chamar alguém de vagabundo é ofensa na certa. Significa que esse alguém é desocupado, gandaieiro, preguiçoso, vadio. A palavra tem sentido fortemente pejorativo.

Em italiano, embora não seja propriamente um elogio, vagabondo também não é ofensa pesada. Para ofender mesmo, precisaria dizer: “vagabondaccio”. Tirando essa variante pejorativa, a palavra é muito usada no sentido figurado: “pensieri vagabondi” = pensamentos vagabundos (ou seja, que vagueiam).

Em francês, a palavra vagabond não faz parte das pedradas que se possam dar em alguém. O verbo vagabonder (=vagabundear) é até simpático; pode servir para descrever, por exemplo, um fim de semana que alguém passou sem fazer nada, só passeando.

Até alguns anos atrás, a rádio suíça tinha um programa chamado “L’humeur vagabonde” = O humor vagabundo. Era um programa interessante, de uma hora de duração. Como o título indica, não havia um tema fixo. A cada semana, falava-se de um assunto diferente, a biografia de alguém, uma viagem a um lugar interessante, um acontecimento histórico.

Se fossem passar essa emissão no Brasil, teriam de modificar o título. Vagabundo, francamente, não dá. É expressão privativa de certas excelências.

Resenha da semana

Ascânio Seleme (*)

Vagabundo
Alertado pela pesquisa Datafolha que perde feio para Lula no Nordeste, Bolsonaro viajou para Alagoas e chamou para ciceroneá-lo o prefeito de Maceió, o famoso JHS, o presidente da Câmara, o ilibado Arthur Lira, e o ex-presidente de triste memória Fernando Collor de Mello. O presidente é mesmo um político de visão.

Quem dá mais
Os desvios do Mensalão do governo Lula chegaram a R$ 101 milhões, de acordo com contabilidade da Polícia Federal e de peritos do Tribunal de Contas da União. A operação, que consistia em comprar apoio político com dinheiro público, durou cerca de um ano. O Tratoraço de Bolsonaro, que tem a mesmíssima finalidade, irrigou o apoio político com R$ 3 bilhões. O senador Fernando Bezerra, da tropa de choque do governo na CPI da Covid, levou sozinho R$ 125 milhões, 25% a mais do que o Mensalão inteiro.

Além de ser 30 vezes maior do que o cala-boca petista, o caraminguá bolsonarista foi despejado em parcela única. O Mensalão foi o grande escândalo da gestão de Lula. O Tratoraço é só mais um dos diversos crimes cometidos pelo governo Bolsonaro.

(*) Ascânio Seleme é jornalista. Trecho de artigo publicado no jornal O Globo de 15 maio 2021.

Tuíte – 20

José Horta Manzano
Nos círculos bolsonaristas, a CPI atualmente em cartaz no Senado Federal é chamada de CPI da Cloroquina.

Bobinhos. O Brasil inteiro já sabia que o que se busca saber é o número de mortos provocados pelo empenho do Capitão Cloriquina, do General Cloroquina e de todos os Cloroquininhas. Ninguém ousava dizer em voz alta, mas os ingênuos estão abrindo o jogo.

Como se costuma dizer, “quem não tem competência não se estabelece”. Esse pessoal não conhecia o ditado.

O rasgado e o esgarçado

by Anne ‘Adene’ Derenne (1983-), desenhista francesa

 

José Horta Manzano

Parece maldição. Faz 20 anos que, na hora da eleição presidencial, a gente é obrigado a votar contra. Já vai longe o tempo em que cada um saía de casa, votava no candidato de sua preferência e voltava tranquilamente pra esperar a apuração, sempre torcendo pra seu preferido. Mesmo sabendo que ele tinha pouca chance, votava-se nele assim mesmo. Se outro ganhasse, a gente não gostava, mas acabava se conformando. Que remédio?

Desde que o lulopetismo se agarrou ao poder, muitos de nós deixaram de escolher candidato e passaram a votar contra. São já cinco eleições presidenciais em que não se dá mais o voto ao candidato preferido, mas vota-se contra. Contra quem? Contra aquele que não se quer de jeito nenhum. No meu caso, contra o lulopetismo, nos últimos anos.

Dois anos atrás, quando houve a troca da guarda e entrou esse que está aí, muita gente pensou que, doravante, tudo passasse a ser melhor. Que horror, minha gente!

Este governo não governa. Passa metade do tempo assaltando o erário e roubando nosso dinheiro para comprar parlamentares, militares, magistrados e emissoras de tevê. E passa a outra metade do tempo estudando como se esquivar das escabrosas revelações quotidianas e das acusações diárias de crimes.

Do jeito que vão as coisas – e a pesquisa Datafolha confirma – no ano que vem teremos um problemão. A menos que surja um candidato forte e crie uma terceira via, a final será entre o genocida e o cachaceiro.

Pra escolher entre um e outro nem precisava eleição – cara ou coroa era a mesma coisa.

À mesa dos tiranos

José Horta Manzano

Monsieur Christian Roudaut, jornalista francês, lançou recentemente um livro com o título “À la table des tyrans” (À mesa dos tiranos). Baseada em pesquisas e entrevistas, a obra expõe os hábitos alimentares de meia dúzia de autocratas do século 20, tanto nas refeições particulares de todos os dias quanto nos banquetes com pompa e convidados de marca.

O chinês Mao Tse-tung, o alemão Adolf Hitler, o centroafricano Jean-Bedel Bokassa, o soviético Josef Stalin, o romeno Nicolae Ceaușescu e o iraquiano Saddam Hussein são os dirigentes analisados.

Numa interessante retrospectiva, o autor revisita os banquetes suntuosos de Bokassa, o curioso vegetarianismo de Hitler, a comida pseudorrevolucionária de Mao, as bebedeiras de Ceaușescu, os aterradores jantares de Stalin, ocasiões em que, a depender dos humores do chefe, qualquer assessor podia sair dali direto para um campo de concentração na Sibéria. Ou pior.

Monsieur Roudaut chega à conclusão de que, na hora das comidas, o denominador comum entre todos eles é o medo. Acometidos da mesma paranoia que castiga todos os tiranos, tinham medo de ser envenenados. Alguns dispunham de provadores que experimentavam o prato antes do chefe. Stalin, por exemplo, abria pessoalmente suas garrafas de vinho, pra garantir que ninguém pudesse introduzir nada ali dentro. Bokassa, o africano, sempre evitou contratar cozinheiros de seu país, preferindo os europeus. Hitler, sabe-se lá por que, não tinha provadores, mas provadoras.

O autor constata também que todos os autocratas analisados, sem exceção, viveram períodos de insegurança alimentar. Cinco deles, enfrentaram a fome já na infância. Quanto a Adolf Hitler, os primeiros anos se desenrolaram sem problemas; foi na mocidade que o dinheiro faltou e a fome apertou. A organização de banquetes com tudo de bom e de melhor parece ser, para todos eles, uma compensação dos momentos de privação. É como se tomassem uma desforra sobre o passado.

A população dos países cujos tiranos são retratados no livro atravessavam um período de penúria generalizada – chegando à insegurança alimentar – na época em que os autocratas estavam no poder. Posteriormente, alguns desses países se safaram, como a Alemanha e a Rússia. Outros continuam mergulhados em miséria. São países em que problemas estruturais não permitem acabar com a fome crônica. No Brasil, sabemos o que isso significa.

Não sei se nosso presidente terá passado por privações na infância. Seu banquete de Dia das Mães com picanha a 1800 reais o quilo tende a responder que sim.

Venda de sentença

José Horta Manzano

A PF solicitou ao STF que abra inquérito para apurar a veracidade das alegações de Sérgio Cabral. O antigo governador do Rio, condenado a mais de 340 anos de cadeia e atualmente preso, fez acordo de colaboração premiada. Entre outras revelações, acusa o ministro Dias Toffoli, do STF, de ter recebido R$ 4 milhões para dar sentença favorável a dois prefeitos, em processos no TSE.

Não convém prejulgar. É prudente desconfiar das palavras de um indivíduo condenado a tantos anos de calabouço. A soma das penas que lhe foram impostas é de fazer inveja a muito capo mafioso. Até Madoff, aquele estelionatário americano que ludibriou meio mundo e lhes extorquiu bilhões, recebeu pena mais suave: “apenas” 180 anos.

No entanto… costuma-se dizer que “onde tem fumaça, tem fogo”. E se a denúncia de Cabral for verdadeira? Acho que não saberemos nunca. Não acredito que a investigação de eventuais “malfeitos” de Toffoli prospere. Na hierarquia da República, ministro do STF detém cargo elevado demais pra ser incomodado. Assim mesmo, vale conjecturar – sai de graça e não faz mal a ninguém.

Em termos simples, Toffoli está sendo acusado de venda de sentença, talvez o pior crime que um magistrado possa cometer. Ao tirar vantagem do cargo público para mercadejar veredicto, o juiz comete um crime execrável. A venda de sentença é a perversão da razão de ser do Poder Judiciário. Dessa forma, não ganha o processo quem tem razão, mas quem paga mais. É ato de traição à toga. É ato de agressão ao povo que lhe paga o ordenado. É ato de corrupção daninho, que estremece todo o edifício das instituições.

Talvez o distinto leitor se lembre da Operação Anaconda, desencadeada quase 20 anos atrás. Ela desbaratou uma quadrilha de venda de sentenças que envolvia um juiz federal, agentes, delegados, advogados, doleiros. Uma eficiente organização criminosa. O juiz federal, Rocha Mattos, passou na cadeia 8 dos 12 anos a que foi condenado. Recentemente, já liberado, recebeu nova condenação, desta feita a 17 anos de prisão por lavagem de dinheiro e evasão de divisas. Entrou com recurso e aguarda em liberdade.

Na minha opinião pessoal, acho que, se a acusação de Sérgio Cabral for confirmada – digo bem: se for confirmada –, Dias Toffoli mereceria seguir o caminho do juiz da Anaconda e ser condenado a um bom período atrás das grades. Mas, sinceramente, não acredito que essa história prospere. Os que haveriam de julgá-lo vão se assustar. Afinal, muita gente do andar de cima tem o rabo preso. Não convém puxar o fio da meada.

Vacinação – 9 maio 2021

José Horta Manzano

Volta e meia, algum dos luminares do governo se vangloria da rapidez do processo de vacinação anticovid, gargarejando que o Brasil é o 6° país que mais vacinou. Bolsonaro – que justiça seja feita! – escapou dessa. Pela simples razão de ele jamais pronunciar a palavra vacina. Por seu lado, ministros e assessores, que são valentes e não têm medo de agulha, deitam falação. Mas distorcem a realidade.

Com mais de 200 milhões de habitantes (grande parte dos quais espremidos em insalubres megalópoles), é natural que o número de vacinados no Brasil seja expressivo. De fato é. O balanço de 9 de maio indica que quase 47 milhões de cidadãos já receberam pelo menos uma dose do imunizante.

Dito assim, parece enorme. Mas há que relativizar. Esse número milionário representa, na realidade, apenas 22% da população total, ou seja, apenas um em cada cinco habitantes do território nacional recebeu pelo menos uma dose. A imunização avança tímida. Ainda há muito por vir.

Pelo critério de doses aplicadas por 100 habitantes, bem mais realista que números absolutos, o Brasil se classifica em 78° lugar num total de 196 países, com 22,05 doses.

Os primeiros 15 lugares da lista são ocupados por ilhas e pequenos países pouco populosos. Assim mesmo, há alguns “penetras” nessa faixa. Sobressaem Israel, os Emirados Árabes e, surpreendentemente, o Chile, classificado em 12° lugar, com 82,15 doses aplicadas por 100 habitantes.

Reino Unido e EUA, que aparecem antes da 20ª posição, também estão muito bem colocados. Seguem-se os países europeus. Uruguai, onde já foram aplicadas 57,73 doses por 100 habitantes, também merece destaque.

Na faixa em que se situa nosso país – a dos que já aplicaram entre 20 e 30 doses por 100 habitantes –, Turquia, Marrocos, China e Argentina nos fazem companhia.

O que dá angústia é ver países ultrapopulosos como Egito, Congo e Vietnã, cada um com cerca de 100 milhões de habitantes, ainda estacionados nas últimas posições, sem terem aplicado nem uma dose. Perigam tornar-se viveiros de novas cepas, quiçá resistentes às vacinas atuais. Se isso acontecer, o mundo pode ir se preparando para a 4ª onda, a 5ª, a 6ª…

Para quem tiver curiosidade de ver a lista completa, deixei o pdf à disposição aqui, no site deste blogue.