Membra

José Horta Manzano

De vez em quando, a gente hesita na hora de especificar o gênero gramatical de certas palavras. Quando a palavra termina em o (ou a), é quase certo que seja masculina (ou feminina). No entanto, se acabar em e, aí pode complicar.

Em certos casos, os falantes oscilam entre os dois gêneros, o que leva a Academia, num rasgo de magnanimidade, a admitir ambos. É o que acontece com as estrangeiras omelete e fondue. De fato, segundo os dicionários, tanto o omelete quanto a omelete são formas legítimas. O mesmo vale para fondue.

Nossa língua não é a única a sofrer esse tipo de engasgo. Em francês, há um caso curioso. Para designar a parteira, usa-se o termo sage-femme, onde sage=sábio(a) e femme=mulher. Portanto, ao pé da letra, mulher-sábia. Acontece que, estes últimos anos, alguns homens têm escolhido essa profissão. Fazem o curso, recebem o diploma e podem exercer. Como chamá-los? Sage-homme? Depois de certa hesitação e muita discussão, ficou sage-femme mesmo. Não deixa de ser peculiar um homem exercer a profissão de mulher-sábia.

O inglês também tem um caso semelhante. As enfermeiras, tradicionalmente mulheres, foram chamadas com uma palavra francesa: nurse. Trata-se da adaptação à fonética inglesa do francês nourrice (=ama de leite). A palavra transmite a ideia de alguém que cuida. Como no caso das parteiras, um dia homens começaram também a escolher essa profissão. Como chamá-los? O inglês optou por male-nurse (male = macho, masculino).

Há um caso curioso também em Portugal. Naquele país, a diarista (empregada doméstica que não mora no emprego) é chamada de mulher-a-dias. A prosperidade dos últimos anos atraiu importante corrente imigratória formada por indivíduos sem formação profissional. Na falta de outra opção, homens também têm procurado emprego de diarista. Como chamá-los? Homens-a-dias? O martelo ainda não foi batido. O futuro dirá que solução foi adotada.

Em português, há palavras que, por mais que a gente não queira, só admitem um gênero. É o caso de ídolo, por exemplo. Nada de “minha ídola”. Falando de uma mulher, fica: “Aquela atriz é meu ídolo”. O mesmo rigor se aplica a membro. Dizer “ela é membra do Conselho Olímpico” dói no ouvido. Diferentemente do que decidiu o estagiário ao redigir a chamada estampada acima, mais vale manter a pose: “Ela é membro do Conselho Olímpico”. Fica melhor.

Observação 1
O VOLP (Vocabulário editado pela Academia Brasileira de Letras) não admite o feminino membra. O Houaiss, no entanto, abona o verbete, especificando que é forma pouco usada. Devia ter dito também que é forma não recomendada. Pelo menos, por enquanto. Mas a língua evolui. Amanhã, talvez.

Observação 2
O recorte de jornal me foi enviado por Aldo Bizzocchi, linguista e atento leitor. Fica aqui meu agradecimento.