Leva eu!

 

 

 

José Horta Manzano

Nos anos 1960, um grupo vocal de nove componentes ficou bastante conhecido. Era Nilo Amaro com seus Cantores de Ébano, nome que fazia referência ao fato de serem todos negros. O som do conjunto era afinado e harmônico. O maior sucesso deles foi a toada Leva eu, sodade.

Cada vez que ouço ou leio a informação de que Fulano vai ao STF ou que afiliados ao Partido Não Sei das Quantas vão ao STF, me lembro da música. A letra era assim:

Ô leva eu, minha sodade,
Que eu também quero ir, minha sodade,
Quando chego na ladeira, tenho medo de cair
Leva eu, leva eu, minha sodade.

Já que eles vão (ao STF), eu também quero ir, ora. Leva eu!

Falando sério, que falta de imaginação, não? Com tanto verbo à disposição, repetem sempre o mesmo. De tanto usar, vai gastar.

Caso um dia o distinto leitor tenha de redigir um artigo informando que, digamos, os deputados “vão” ao STF, aqui ficam algumas sugestões. É pra variar um pouco.

Os deputados apelam para o STF
Os deputados invocam o STF
Os deputados dirigem-se ao STF
Os deputados recorrem ao STF
Os deputados buscam o STF
Os deputados procuram o STF

Se for feriado, que é dia de vestir roupa bonita, há formas que dão o recado com maior elegância.

Os deputados acodem-se do STF
Os deputados valem-se do STF
Os deputados socorrem-se do STF

Procure escapar do verbo ir. Um pouco de variedade não faz mal a ninguém.

As milhões

José Horta Manzano

Do latim, herdamos coisas boas, sem sombra de dúvida. Mas junto vieram uns espinhos. Os gêneros gramaticais, por exemplo. Pra que atribuir gênero às coisas? Só Júpiter sabe.  Por que uma porta é feminina enquanto um portal é masculino? São sutilezas que só fazem atrapalhar. Ah, que inveja do inglês, que conseguiu desatar esse nó há séculos. Mas os gêneros gramaticais fazem parte de nossa língua e somos obrigados a lidar com eles.

A desastrosa inação do governo federal gerou uma situação de angústia em que a vacinação ocupa o lugar central. Assisti ao Jornal Nacional, coisa que não fazia havia décadas. Por acaso, descobri que as edições antigas ficam disponíveis no YouTube. Na deste sábado, notícias relativas à vacinação preenchem metade do tempo; a outra metade é dedicada às trapalhadas do presidente e a notícias variadas. Imagino que, pouco mais pouco menos, sejam essas as proporções todos os dias.

Não só o jornal da tevê fala de vacina. O assunto está em todas as bocas e a mídia acompanha. Já vi várias vezes algum escriba se exprimir assim: “as 30 milhões de doses foram prometidas”; e também assim: “são dadas como certas 42 milhões de doses”.

Há que distinguir entre fala coloquial e artigo de jornal. Na fala de todos os dias, é permitido omitir um plural aqui e ali, tomar um atalho e esquecer o verbo, estropiar algum gênero gramatical. Ninguém vai olhar feio. Já na escrita séria, são caminhos a evitar. Um escorregão pode, às vezes, comprometer a seriedade de todo um artigo.

Por sua natureza substantiva, o numeral milhão é percebido como masculino. Ninguém dirá “uma milhão”, não é? Pois a regra que vale para “um milhão” vale para qualquer outra quantidade expressa em milhões. Ao fim e ao cabo, milhão será sempre percebido e tratado como se ao gênero masculino pertencesse.

Admito que soa esquisito escrever que os 30 milhões de doses foram prometidas”, mas assim são as coisas; se milhão pede o artigo no masculino, não há jeito de escapar. Reestruturar o trecho é uma solução. Para deixar a frase menos bizarra, o jeito é reescrevê-la. Pode-se reformular, por exemplo, assim: “as doses prometidas, que deverão ser da ordem de 30 milhões”. Pronto, o recado foi dado sem agressão à concordância.

Coragem, gente! Um pouco de criatividade não faz mal a ninguém.