Desinformação

Folha de São Paulo

 

José Horta Manzano

Vivemos a época do “politicamente correto”. No fundo, que bicho é esse? É a arte de encontrar palavras suaves pra descrever uma realidade que a gente tenta eclipsar. É o jeito de girar em torno do objetivo pra dizer, no final, a mesma coisa. Em palavras cruas, o “politicamente correto” não deixa de ser um tipo de fingimento, de hipocrisia, de impostura.

Não é de hoje que se usam expressões politicamente corretas. Só que, antigamente, não eram a seita dominante. A gente usava sem se dar conta. Ao dizer “João é um rapaz de cor”, “Maria está conservada”, “Joana está um pouco forte de corpo”, estávamos trilhando caminhos politicamente corretos antes da moda.

Hoje é religião oficial, que nos obriga a cumprir direitinho os ritos, que é pra não ser condenado à execração pública. No entanto, adotar a religião do “politicamente correto” não implica fazer reforma integral do vocabulário a fim de eliminar palavras de sentido negativo. Não há que exagerar.

Segundo a chamada de jornal que reproduzo acima, “Bolsonaro desinforma ao dizer que as vacinas anticovid são experimentais”. Não concordo com a expressão. Não há por que recorrer a formulações suaves para traduzir o que disse o capitão. Praticar negacionismo explícito, quando uma tenebrosa pandemia está em curso, é ato grave. A meu ver, quem ajuda a abafar a realidade torna-se cúmplice do negacionismo presidencial.

A língua oferece uma dúzia de verbos que se aplicam melhor para descrever a atitude do presidente: enganar, ludibriar, engodar, falsear, enrolar e tantos outros.

Consertando a manchete, temos:

“Bolsonaro engana ao dizer que as vacinas anticovid são experimentais.”
“Bolsonaro engazupa ao dizer que as vacinas anticovid são experimentais.”
“Bolsonaro tapeia ao dizer que as vacinas anticovid são experimentais.”
“Bolsonaro engrupe ao dizer que as vacinas anticovid são experimentais.”

Etc.

Desinformar & desinformação
O verbo desinformar entrou só recentemente na linguagem de todos os dias. Nos anos 1960, não existia. O que se via às vezes era a palavra desinformação – que tinha, naquela época, o sentido de desconhecimento.

Ex: “Nota-se que, no meio estudantil, há grande desinformação quanto à recente reforma curricular”.

Foi só a partir dos anos 1970 que desinformar começou a fazer raras aparições na imprensa, já com o sentido que lhe atribuimos hoje. Um dos primeiros a usar esse verbo foi justamente o então sindicalista Luiz Inácio da Silva, o Lula, numa entrevista de julho de 1986 em que criticava a imprensa e acusava um determinado jornal de desinformar (=enganar) o público.

Como se vê, críticas à imprensa não são exclusividade de simpatizantes desta ou daquela corrente política. O expediente é velho como o mundo: quando não se aprecia a notícia, a culpa é sempre do mensageiro.