Membra

José Horta Manzano

De vez em quando, a gente hesita na hora de especificar o gênero gramatical de certas palavras. Quando a palavra termina em o (ou a), é quase certo que seja masculina (ou feminina). No entanto, se acabar em e, aí pode complicar.

Em certos casos, os falantes oscilam entre os dois gêneros, o que leva a Academia, num rasgo de magnanimidade, a admitir ambos. É o que acontece com as estrangeiras omelete e fondue. De fato, segundo os dicionários, tanto o omelete quanto a omelete são formas legítimas. O mesmo vale para fondue.

Nossa língua não é a única a sofrer esse tipo de engasgo. Em francês, há um caso curioso. Para designar a parteira, usa-se o termo sage-femme, onde sage=sábio(a) e femme=mulher. Portanto, ao pé da letra, mulher-sábia. Acontece que, estes últimos anos, alguns homens têm escolhido essa profissão. Fazem o curso, recebem o diploma e podem exercer. Como chamá-los? Sage-homme? Depois de certa hesitação e muita discussão, ficou sage-femme mesmo. Não deixa de ser peculiar um homem exercer a profissão de mulher-sábia.

O inglês também tem um caso semelhante. As enfermeiras, tradicionalmente mulheres, foram chamadas com uma palavra francesa: nurse. Trata-se da adaptação à fonética inglesa do francês nourrice (=ama de leite). A palavra transmite a ideia de alguém que cuida. Como no caso das parteiras, um dia homens começaram também a escolher essa profissão. Como chamá-los? O inglês optou por male-nurse (male = macho, masculino).

Há um caso curioso também em Portugal. Naquele país, a diarista (empregada doméstica que não mora no emprego) é chamada de mulher-a-dias. A prosperidade dos últimos anos atraiu importante corrente imigratória formada por indivíduos sem formação profissional. Na falta de outra opção, homens também têm procurado emprego de diarista. Como chamá-los? Homens-a-dias? O martelo ainda não foi batido. O futuro dirá que solução foi adotada.

Em português, há palavras que, por mais que a gente não queira, só admitem um gênero. É o caso de ídolo, por exemplo. Nada de “minha ídola”. Falando de uma mulher, fica: “Aquela atriz é meu ídolo”. O mesmo rigor se aplica a membro. Dizer “ela é membra do Conselho Olímpico” dói no ouvido. Diferentemente do que decidiu o estagiário ao redigir a chamada estampada acima, mais vale manter a pose: “Ela é membro do Conselho Olímpico”. Fica melhor.

Observação 1
O VOLP (Vocabulário editado pela Academia Brasileira de Letras) não admite o feminino membra. O Houaiss, no entanto, abona o verbete, especificando que é forma pouco usada. Devia ter dito também que é forma não recomendada. Pelo menos, por enquanto. Mas a língua evolui. Amanhã, talvez.

Observação 2
O recorte de jornal me foi enviado por Aldo Bizzocchi, linguista e atento leitor. Fica aqui meu agradecimento.

Perigo vermelho

José Horta Manzano

Consultei o Regulamento Disciplinar do Exército, código oficializado em agosto de 2002 na forma de decreto-lei. Com 74 artigos, ele é extenso, mas claro e preciso.

Faz alguns dias, por ocasião de uma manifestação de rua, Eduardo Pazuello subiu ao palanque do presidente. Não precisa ser versado nas artes jurídicas pra entender, após rápida vista d’olhos ao regulamento, que o general transgrediu. A disciplina é valor essencial da carreira. Na visão militar, todo desvio de conduta, fosse ele pequeno, exige punição.

Pois não foi o que ocorreu. Depois de tergiversar por dias e dias, o alto-comando do Exército decidiu não decidir. Resolveram que o general não transgrediu e que tudo fica por isso mesmo. Soou estranho. A inabitual condescendência não encontra justificativa no regulamento. Portanto, a razão tem de ser procurada alhures.

Para entender, convém voltar meio século, ao tempo em que a Guerra Fria determinava o destino do planeta e assombrava muita gente. No Brasil, a justificativa que disparou o golpe de 64 e que perpassou todo o período da ditadura militar foi defender o país contra a ameaça comunista. Ao apagar das luzes do regime militar, quando se extinguia a repressão, surgiu o PT como encarnação do perigo vermelho.

Treze anos de governos petistas mostraram que, de comunistas, eles não têm nada – se é que um dia tiveram. Estão mais é pra oportunistas, trambiqueiros e desonestos. No entanto, tudo indica que, nos círculos militares, a mensagem não chegou. Tem-se a impressão de que as autoridades militares estacionaram nos anos 70 e continuam a enxergar o PT como a encarnação do perigo vermelho que um dia ainda há de implantar o comunismo no Brasil. E o Lula, naturalmente, é seu símbolo maior.

A absolvição de Pazuello se inscreve nessa lógica: contra o comunismo, Bolsonaro surge como o melhor antídoto. Daí apoiarem integralmente o capitão e dobrarem-se cegamente a seus caprichos. Há sinceridade na luta dos militares, mas há sobretudo grande ingenuidade. Eles parecem ter dificuldade em entender que o Muro de Berlim caiu em 1989, que o mundo mudou, que o combate hoje é outro.

Até onde darão apoio a Bolsonaro? Será que toda a cúpula militar enxerga o mundo pela mesma luneta? Será que todos concordariam com a quebra das instituições em favor de um capitão arrivista, a fim de proteger o país contra o Lula?

Não tenho a resposta. As sugestões do distinto leitor são bem-vindas. Cartas para a redação, por favor. E bom fim de semana a todos.

Leva eu!

 

 

 

José Horta Manzano

Nos anos 1960, um grupo vocal de nove componentes ficou bastante conhecido. Era Nilo Amaro com seus Cantores de Ébano, nome que fazia referência ao fato de serem todos negros. O som do conjunto era afinado e harmônico. O maior sucesso deles foi a toada Leva eu, sodade.

Cada vez que ouço ou leio a informação de que Fulano vai ao STF ou que afiliados ao Partido Não Sei das Quantas vão ao STF, me lembro da música. A letra era assim:

Ô leva eu, minha sodade,
Que eu também quero ir, minha sodade,
Quando chego na ladeira, tenho medo de cair
Leva eu, leva eu, minha sodade.

Já que eles vão (ao STF), eu também quero ir, ora. Leva eu!

Falando sério, que falta de imaginação, não? Com tanto verbo à disposição, repetem sempre o mesmo. De tanto usar, vai gastar.

Caso um dia o distinto leitor tenha de redigir um artigo informando que, digamos, os deputados “vão” ao STF, aqui ficam algumas sugestões. É pra variar um pouco.

Os deputados apelam para o STF
Os deputados invocam o STF
Os deputados dirigem-se ao STF
Os deputados recorrem ao STF
Os deputados buscam o STF
Os deputados procuram o STF

Se for feriado, que é dia de vestir roupa bonita, há formas que dão o recado com maior elegância.

Os deputados acodem-se do STF
Os deputados valem-se do STF
Os deputados socorrem-se do STF

Procure escapar do verbo ir. Um pouco de variedade não faz mal a ninguém.

Traição

Manchete da Folha, 3 junho 2021

José Horta Manzano

É inacreditável observar trem de subúrbio: por mais cheio que esteja, sempre cabe mais um. É também impressionante observar a corda dos caprichos de Bolsonaro: por mais que ele estique, ela não se rompe e continua, galharda, à espera de mais um puxão. Mas nada é eterno, nem a corda, nem muito menos Bolsonaro. Mais dia, menos dia, um deles vai ter de ceder: ou o presidente pula fora, ou a corda arrebenta. O que acaba dando no mesmo.

Pelas minhas contas (a não ser que nova barbaridade tenha surgido hoje de manhã), o puxão mais recente que ele deu na corda foi ontem. Ao representar o tradicional papel de desaforado, que os devotos tanto apreciam, ele se saiu com a pérola que está aí na manchete da Folha.

Depois de 30 anos pendurado nas tetas da República, o capitão está de tal modo distante da vida real que já não se dá conta de que o Brasil está habitado por um povo – por sinal, aquele que o elegeu. E que esse povo é constituído, em imensa maioria, de famílias pobres, para as quais um real é um real.

Bolsonaro passou três décadas auferindo polpudos vencimentos de parlamentar (sem falar dos extras, ‘rachados’ ou não). Promovido a presidente, faz dois anos e meio que não precisa mais nem fazer conta. À sua passagem, as portas se abrem, os serviçais se inclinam, automóveis e aviões estão sempre à espera para conduzi-lo aonde desejar. Já não tem contas a pagar – luz, água, combustível, restaurante, feira, supermercado, empregados, secretárias, seguranças. Tornou-se o habitante mais poderoso e mais privilegiado do território.

Se, para um indivíduo com a cabeça medianamente no lugar, esse estilo de vida pode dar vertigem, imagine para um mequetrefe como o capitão. É perdição na certa. O infeliz, cuja formação mental e moral já não era lá essas coisas, perdeu todo contacto com a vida real.

Daí a impossibilidade de reconectar-se com o povo a quem jurou servir. Ele se refere a “essa gente” como se se referisse a habitantes do planeta Marte. Não consegue ligar uma coisa à outra, ou seja, aqueles que imploram por uns caraminguás para poderem se alimentar são os mesmos que lhe deram o voto em 2018.

Se trair cônjuge já é feio, trair os milhões de pessoas que se jurou servir é o quê?

Voto auditável

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 29 maio 2021.

É perceptível a desconfiança que todas as falas de Jair Bolsonaro suscitam. Nós, os que já nos demos conta de que o capitão profere uma bobagem atrás da outra, tendemos a jogar no lixo tudo o que ele disse, está dizendo ou vier a dizer. Nem adianta conferir, que nada presta.

No entanto, talvez não seja essa a melhor atitude. Por mais que um indivíduo tenha ideias embaçadas, sempre pode brotar, de quando em quando, uma proposição mais consistente. Antes de descartar, convém verificar.

Está na ordem do dia a discussão sobre o “voto auditável”, também conhecido como “voto impresso”. Num primeiro momento, cheguei a acreditar que a ideia, mal explicada, fosse de abandonar a urna eletrônica e ressuscitar a velha cédula de papel. Tendo em vista a quantidade de gente fina reclamando que isso seria um retrocesso, vejo que muitos pensaram como eu.

Com o passar das semanas, creio ter entendido a proposta do capitão. O que ele quer é que uma impressora seja acoplada a cada urna eletrônica. Assim que o eleitor apertar o código de seu candidato e mandar um “confirma”, o sistema faz duas coisas: registra eletronicamente o voto e imprime o nome do candidato escolhido. Nessas alturas, o eleitor tem o direito de conferir o papelzinho – só conferir, sem poder tocar o papelito.

Se estiver de acordo, dá sua autorização para a finalização do voto. Se não estiver, aí já não sei o que a lei vai prever. Talvez o cidadão tenha de pôr a mão na cabeça e começar a gritar. Será um problemão porque, sendo o voto secreto, ninguém mais, a não ser o votante, tem direito a entrar na cabine. Enfim, os parlamentares, que são inteligentes, hão de encontrar uma saída. Quando a gente quer, sempre dá um jeito, não é?

Tirando a complicação que eventual enguiço da maquineta possa causar, o sistema não é de todo ruim. À primeira vista, a gente até que poderia se espantar: “Ora, por que é que quase todos estão descartando a novidade? Só porque a ideia vem do capitão?”

Bom, isso é à primeira vista. Após reflexão, vem a segunda vista. E aí as coisas começam a clarear. Já deve fazer algum tempo que Bolsonaro se deu conta de que terá dificuldades nas eleições de 2022. A reeleição, tão almejada, está longe de ser garantida. Com sorte (e muito marketing), ele chegará ao segundo turno. É aí que a porca vai torcer o rabinho.

Seja qual for o adversário, Lula ou um outro, o páreo vai ser dureza. As chances do capitão são magrinhas. Suponhamos que, anunciados os resultados, ele seja declarado perdedor. (Ele já há de ter feito essa suposição.) Como é que fica? Chama o “seu” exército e bota os tanques nas ruas? Convoca os baixas- patentes das PMs para prender governadores e tomar de assalto as metrópoles? Manda um bolsonarinho com um cabo e dois soldados fechar o Supremo? Por menos esclarecido que seja, nosso presidente já deve ter entendido que o caminho não pode ser esse.

Talvez ele tenha se inspirado na novela que foi a apuração das presidenciais americanas de 2000, quando George Bush Jr ganhou no tapetão, por decisão da Suprema Corte, depois de um mês de batalha jurídico-eleitoral. Com nossa urna eletrônica tradicional, é impossível seguir os passos de Bush. Já com cem milhões de papelitos, a coisa fica viável. Basta pedir a milhares de cupinchas que entrem com questionamento junto a todos os tribunais eleitorais do país, estado por estado. Imaginem o estrago que isso provocaria. Juntas de apuração teriam de se reunir às pressas, como nos anos 1950, com todos os riscos que o manuseio das (mini)cédulas comporta. Aí, sim, estará aberto o caminho para fraudes, falcatruas e votos-fantasma, exatamente como nos velhos tempos.

Eis por que o “voto auditável” é uma falsa boa ideia. Uma proposta que, apesar da aparência inocente, abriria as portas para gente mal intencionada tumultuar o processo. Os tempos atuais já estão suficientemente conturbados por si só. Além disso, nosso sistema de votação já deu provas suficientes de funcionar bem. Não vale a pena introduzir uma novidade que, além de não ajudar, pode complicar o processo. Que Bolsonaro procure ganhar a eleição baseado nos próprios méritos e não amparado por parceiros interessados e interesseiros.

Olha o lobo!

José Horta Manzano

O lobo representa um dos medos ancestrais da humanidade. Desde que o mundo é mundo, o animal é associado ao perigo. Solitário ou, pior ainda, quando ataca em malta, o lobo pode dizimar um rebanho de ovelhas.

Esse canídeo ocorre somente em partes do Hemisfério Norte. Na Europa ocidental, a população de lobos diminuiu ao longo dos séculos, até ficar hoje restrita a regiões de montanha como os Pireneus, os Apeninos e os Alpes. Calcula-se que existam hoje, em toda a cadeia alpina suíça, cerca de 50 lobos, não mais.

É interessante observar que, embora a maioria dos cidadãos atuais nunca tenha visto um lobo, o medo atávico do animal persiste. Esse pavor se reflete numa expressão que os franceses usam com frequência. “À force de crier au loup”. A tradução dá mais ou menos isto: “De tanto gritar ‘Olha o lobo!’”.

Nessa expressão, o lobo representa um perigo ou um risco qualquer. Gritar ‘olha o lobo’ é linguagem simbólica para dar o alerta. Usa-se essa expressão quando alguém repetidamente chama a atenção para um perigo inexistente. Quem costuma fazer isso, no dia em que estiver realmente em perigo e precisar de ajuda, ninguém vai lhe dar crédito. Ingleses (“to cry wolf”), italianos (“a forza di gridare al lupo”) e espanhóis (“a fuerza de gritar lobo”) têm frase equivalente.

A analogia é com uma fábula do grego Esopo, criada alguns séculos antes de Cristo, na qual um menino se divertia gritando por ajuda porque seu rebanho estaria sendo atacado por um lobo. O povo da aldeia acorria pra ajudar, em seguida iam todos embora chateados e decepcionados de ver que era mentira. Por mais duas ou três vezes, o menino pregou a peça nos vizinhos. No dia em que o rebanho foi realmente atacado por uma malta de lobos, o menino gritou, mas ninguém mais se abalou.

Essa historinha me veio à mente hoje de manhã quando eu escutava, na rádio suíça, a entrevista de uma representante do sindicato dos proprietários de restaurante. O âncora opinou que, fosse qual fosse a ajuda governamental pra compensar o prejuízo devido ao confinamento, proprietários de restaurante nunca pareciam estar satisfeitos. Chateada, a entrevistada se insurgiu e retrucou: “Não estamos reclamando; afinal, não somos o Neymar da crise”.

Entendi que, no imaginário europeu, o nome do jogador já está irremediavelmente associado à trapaça. Fiquei pensando no moço. Tão jovem, tão talentoso, tão rico e, ao mesmo tempo, tão empacado. Como é que pode? Com muita frequência (e nem sempre por razão válida), o moço se atira ao chão, rola no gramado, faz cara de dor. Seu comportamento chorão lembra o do menino da fábula grega. No dia em que a dor for verdadeira, periga ninguém acreditar.

Ainda que Neymar se corrigisse hoje, a julgar pelo comentário que ouvi no rádio, acho que já é tarde. Cria fama e deita-te na cama – como se dizia antigamente. A fama está criada.

Amazonas

Carlos Brickmann (*)

Bolsonaro não foi ao Amazonas quando lá morriam pessoas por falta de oxigênio. Mas agora foi, com farta comitiva, para inaugurar uma ponte de madeira de 18 metros por seis – no Interior, seria chamada de “pinguela”.

Lá gravou uma live defendendo a cloroquina, chamando-a de “aquele remédio que ofereci à ema”. Esqueceu de contar que a ema, indignada, o bicou.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

Preparando o terreno

Tribunal Penal Internacional

José Horta Manzano

Diante do recrudescimento da pandemia, alguns governadores decidiram instaurar toque de recolher e confinamento, medidas excepcionais destinadas a frear o alastramento do contágio.

Ato contínuo, Bolsonaro entrou com ação no Supremo Tribunal Federal contra os governadores. Alega o presidente que as medidas são inconstitucionais, visto terem sido decretadas pelo Executivo estadual, sem o voto e a aprovação da respectiva Assembleia. Segundo ele, os governadores, sozinhos, não têm poder para decretar esse tipo de medida. A ação presidencial está sendo apreciada no STF. O sorteio determinou que seja distribuída ao ministro Luís Roberto Barroso.

Nosso presidente está executando um passe de equilibrista. Ao dar entrada da ação no STF, arrisca degradar ainda mais sua imagem de patrocinador de genocídio. De fato, os brasileiros que ainda conseguem pensar com a própria cabeça veem a gesticulação do presidente com horror.

“Já não bastam os 460 mil mortos? Esse homem ainda quer mais?”

Estão todos ansiosos para que o ministro Barroso dê liminar autorizando os governadores a levar adiante as medidas. E para que o pleno do STF, se for o caso, confirme.

“Não é possível! Parece que esse estropício quer realmente terminar como réu por genocídio no Tribunal Penal Internacional!”

O que acabo de expor é a história tal com é vista no mercado oficial. Faz sentido, parece bonitinha e está bem embalada. Só que, no mercado paralelo, a ação presidencial é um ardil carregado de segundas intenções.

Bolsonaro está se lixando para a constitucionalidade ou não das decisões dos governadores. Não é esse o ponto. O que ele quer é outra coisa. Ao acionar o STF, ele está seguindo um plano bem mais cabeludo. A depender do teor e da fundamentação da decisão que o ministro Barroso vier a tomar, importante passo estará sendo dado na concretização do golpe que Bolsonaro tem em mente.

Suponhamos que o STF decida que o Executivo estadual tem o direito de decretar medidas de restrição das liberdades individuais sem consultar o Legislativo. O bom senso indica que, por extensão, o mesmo raciocínio pode ser aplicado ao nível federal. Assim, o presidente se sentirá livre de dispensar aprovação da Câmara para decretar, ele também, o mesmo tipo de medidas.

A decretação do estado de sítio, fixação do capitão, entra nessa categoria. Também é medida restritiva, a ser tomada quando a situação o exija – exatamente como toque de recolher e confinamento.

Portanto, se governador pode sozinho, presidente também pode sozinho. Com jurisprudência firmada pelo Supremo. E agora, José?

Saltitante

José Horta Manzano

Leio no jornal que nosso valoroso capitão, em sua laive de ontem, apostrofou um senador da República. Tratou-o como se mulher fosse – numa evidente ofensa homofóbica. Referindo-se à comissão que toca a CPI da Cloroquina, disse: “Agora, tem uma saltitante na comissão que queria me convocar. É brincadeira, né? Ô, saltitante, está de brincadeira. Não tem o que fazer não, saltitante?”.

A comissão é composta unicamente de senadores, à exclusão de toda senadora. Portanto, ficou claro que a afronta era dirigida a um homem, donde a conclusão que se tratava de insulto homofóbico. Até aí, todos foram.

Só que a imprensa foi mais longe. Chegou à conclusão de que o insultado era Randolfe Rodrigues, senador pelo Amapá. É possível que seja, mas, a meu ver, a imprensa errou. Errou ao dar uma mãozinha ao presidente. Explico.

Bolsonaro é um sujeito covarde. Valentão quando está cercado de seguranças ou quando se exprime através das lentes de uma câmera, o homem se péla de medo de ter de responder por seus atos. Aliás, todo esse inferno que os brasileiros estão tendo de aturar há dois anos decorre do pavor que ele tem de chegar ao fim do mandato, não ser reeleito, e ser um dia despertado pela chegada do japonês da Federal. (É por isso que sonha com manter o poder até o fim de seus dias.)

O capitão imagina que, ao não dar nome ao boi, estará a salvo de toda acusação de injúria. É por isso que eu digo que a imprensa erra ao dar-lhe uma ajudazinha. Em vez de facilitar a vida do ofensor rasteiro, deviam mais é contar o episódio do jeitinho que ocorreu: sem mencionar nome de ninguém. Se assim tivessem procedido, teriam alcançado três objetivos: 1) teriam mantido fidelidade aos fatos; 2) o senador em questão não teria visto seu nome associado a uma ofensa de pinguço; 3) o presidente teria ficado falando sozinho.

Acredito que os jornalistas de bom senso deviam redobrar a atenção. É importante ter sempre em mente que estão reportando atos e fatos de um sujeito traiçoeiro. É indispensável refletir antes de facilitar os desvarios do capitão. Ele não passa de um ser covarde, um indivíduo que se oculta por detrás de escudos que ele julga intransponíveis.

Ele é o exemplo cuspido e escarrado do tradicional dito português: “Feito de vilão – atira a pedra e esconde a mão”.

CPI aguarda explodir?

Chamada O Globo, 27 mai 2021

José Horta Manzano

“Witzel é bomba contra o Planalto que CPI aguarda explosão”

É o que diz a chamada do jornal. Frase esquisita, não? A gente até que entende o que o estagiário quis dizer, mas o título parece meio torto.

Consertar é fácil. É até curioso que o autor da frase não tenha pensado nisso. Basta mudar uma palavra. Quer ver?

“Witzel é bomba contra o Planalto, que CPI aguarda explodir

Pronto. Explodir no lugar de explosão, e o problema está resolvido.

Só que tomei o cuidado de acrescentar uma vírgula. Nesse caso, faz diferença. Sem ela, dá-se o recado de que a CPI está aguardando a explosão do Planalto. Cruz-credo! Os senadores estão exaltados, mas não a esse ponto. Enfim, acredito que não.

Paralelismo

José Horta Manzano

Muitas palavras têm sido criadas desde que a pandemia se instalou. É normal. Atos e fatos novos tendem a ser descritos por palavras novas. Em alguns casos, termos antigos que andavam esquecidos no dicionário se reabilitam e ressurgem pimpões e empertigados.

A própria palavra pandemia é um bom exemplo. De uso pra lá de restrito nos tempos de antigamente, voltou a circular com vigor assim que esse novo coronavírus se alastrou pelo planeta.

A palavra aparece em francês (pandémie), na altura dos anos 1750. Com pequenas adaptações, foi pouco a pouco adotada pelas demais línguas. É interessante notar que a língua inglesa, embora também conte com a palavra pandemia, dá preferência a pandemic, que é adjetivo na origem, mas substantivado nesse caso (pandemic disease = doença pandêmica).

Em nossa língua, uma palavra que andava meio fora de circulação e que ressurgiu agora é o adjetivo presencial. Ouve-se falar em aulas presenciais, por oposição a aulas à distância. É curioso constatar que ninguém, que eu tenha visto, ousou utilizar o antônimo natural de presencial, que é distancial.

É verdade que o adjetivo distancial não está dicionarizado. Mas não vejo razão pra esperar que apareça no Aurélio ou no Houaiss. Dicionários não impõem nem abolem palavras; eles só registram o que estiver em uso.

Por mim, se a aula (ou a conferência, a consulta, a conversa) não for presencial será distancial. Paralelismo não faz mal.

Transtorno de personalidade

José Horta Manzano

Um time notável, que reúne juristas de peso e professores de Direito e Ética, entrou com ação civil ordinária junto ao STF. Requerem que Jair Bolsonaro seja submetido a minuciosa perícia médica a fim de averiguar a presença nele de transtorno de personalidade que o incapacite para o cargo. O sorteio indicou Gilmar Mendes para a relatoria do processo.

É permitido duvidar que a coisa prospere. Ainda assim, não custa sonhar. Se fosse adiante, a verificação havia certamente de constatar distúrbio feio. A interdição por problemas mentais seria o melhor caminho para alijar essa estrovenga do Planalto.

Todos sabem que o homem é perturbado da cachola, mas falta um laudo oficial, com assinatura de junta médica e firma reconhecida. Impeachment é sempre uma solução política, que alguns podem até enxergar como golpe. Já uma interdição por incapacidade cognitiva daria um cala-boca a todos – doença mental atestada por junta independente e apartidária é fato indiscutível. Contra ela, não há recurso possível.

A ação desses juristas traz à atualidade um debate que já devia ter sido feito desde a redemocratização: o da qualificação de pretendentes a cargo eletivo, seja ele do Executivo ou do Legislativo.

Na iniciativa privada, todo candidato a um emprego passa necessariamente por um exame de avaliação. Informal nas pequenas empresas, ele cresce em forma e estrutura conforme a importância da firma.

Também no funcionalismo, tirando os que ocupam efêmeros cargos ditos “de confiança”, é obrigatório prestar concurso público e ser aprovado.

A aferição da aptidão dos pretendentes também se faz em outros momentos da vida civil: na hora de tirar a carteira de motorista, por exemplo. Todo candidato deve ser bem-sucedido num teste psicotécnico em que sua capacidade de tomada de decisões, seu raciocínio lógico e seu controle emocional são testados.

Acredito que é importante aplicar o mesmo princípio a todo candidato a posto eletivo – vereador, prefeito, deputado, governador, senador e, acima de tudo, presidente da República.

Um candidato habilidoso e com boa lábia pode enganar meio mundo, como tem acontecido com tanta frequência; trapacear num teste bem estruturado são outros quinhentos. Que se institua um exame para verificar o equilíbrio e a integridade psíquica de cada postulante.

Ninguém concordaria em entregar o volante de um veículo a um indivíduo mentalmente perturbado, pois não? Como é então possível entregar as rédeas da nação a um desequilibrado?

É verdade que, desde os tempos do folclórico Jânio Quadros, não tínhamos tido um desequilibrado na Presidência. Tivemos simpáticos e antipáticos, honestos e desonestos, inteligentes e empacados, mas não tivemos nenhum psicopata. Talvez, por isso, a decisão de colocar um filtro antes mesmo do registro da candidatura tenha ficado de molho todos esses anos.

Mas agora o tempo chegou. Estamos sentindo na pele o resultado de termos entregado a direção do país a um ser mentalmente transtornado. É uma catástrofe que teria sido evitada com um simples teste psicotécnico aplicado no momento do registro da candidatura.

O modelo, o melhor momento e as modalidades serão acertados por quem entende do riscado. O importante é começar a pensar nisso já, a fim de evitar termos de reviver, no futuro, um desastre como o atual.

No mesmo barco

Laboratório Labor Spiez, Suíça

José Horta Manzano

A pandemia desencadeada pelo atual coronavírus é um divisor de águas entre um passado em que cada um se virava sozinho e um futuro em que o combate a esse tipo de praga será obrigatoriamente coordenado em nível mundial.

O que vemos atualmente é um pandemônio dentro da pandemia. Em outras palavras, a ausência de gerenciamento global deu origem a um Deus nos acuda, em que todos saíram chamuscados – grandes e pequenos, ricos e pobres, previdentes e descuidados. O fruto da desorganização é amargo para todos.

Países que, ao surgir da pandemia, se encontravam sob governo populista acabaram sofrendo ainda mais que os outros – é o caso dos EUA e do Brasil, que pagaram preço altíssimo em vidas humanas. Mas até nações com tradição de disciplina tiveram problemas graves, como foi o caso da Bélgica e do Reino Unido.

O Uruguai, que é talvez o país mais civilizado da América do Sul, está, neste momento, na pior classificação entre os vizinhos. A atual onda epidêmica está comendo feio por lá. No mesmo balaio está o Japão, com ameaça cada dia mais presente de anulação dos Jogos Olímpicos.

Portanto, já se vê que governo democrático (não populista), disciplina e riqueza não são garantia suficiente de bons resultados no enfrentamento de pandemias. Quando cada um esperneia no próprio ritmo, sem se coordenar com os demais, joga-se esforço pelo ralo.

Nessa óptica, está na ordem do dia a criação de um tratado contra pandemias. A discussão está germinando na União Europeia e visa a que todos estejam mais bem preparados para a próxima praga. Que virá, isso é certeza.

A ideia é confiar a organização à OMS (Organização Mundial da Saúde), que, com seus 194 membros, congrega praticamente todos os países do planeta. Fabrico, atribuição e destino de doses excedentes de vacina, por exemplo, deveriam ser coordenadas por um organismo central em vez de ficar a cargo de cada nação individualmente.

A Suíça já se comprometeu solenemente a dar sua contribuição. Vai utilizar um laboratório ultrassofisticado e ultraprotegido já existente, instalado na cidade de Spiez (Cantão de Berna), especializado em manipular substâncias de alto risco. Nova ala será erguida para acolher um depósito mundial do coronavírus e de outros agentes patogênicos. E tudo pago com dinheiro dos contribuintes suíços, sem financiamento internacional. A OMS aplaudiu a iniciativa.

De qualquer maneira, enquanto a população do último país não estiver imunizada, o resto do planeta não estará protegido. Quanto mais tempo o vírus correr solto num determinado país, maior será o risco de surgirem variantes resistentes às vacinas. Pessoas circulam o tempo todo. Vírus não têm passaporte, zombam de fronteiras e não costumam abrir as malas na alfândega. Estamos todos no mesmo barco. É dar as mãos ou dar as mãos.

Rápido como um raio

José Horta Manzano

No dia 23 de maio de 2021, participou da macabra “motociata”(*) promovida pelo Presidente da República em algumas cidades do país para comemorar os cerca de 500 mil mortos vítimas da covid. O ato – inspirado no passeio de moto promovido pelo líder fascista Benito Mussolini em 1933 para impressionar a população – ajudou a causar aglomerações por onde passou e a disseminar a doença entre mais brasileiros. A foto de Tarcísio na garupa da moto do Presidente foi destaque no jornal britânico The Guardian, que classificou o evento como “obsceno”.

O parágrafo acima não saiu da minha fábrica. Foi acrescentado às pressas, de ontem para hoje, na biografia de doutor Tarcísio Gomes de Freitas na Wikipédia. Carioca de 1975, o biografado é ministro da Infraestrutura do governo Bolsonaro. Sua carreira política começou quando foi nomeado diretor executivo do DNIT, no governo Dilma Rousseff. Militar da reserva, aderiu ao governo Bolsonaro e agora é apresentado como possível candidato do capitão ao governo de São Paulo. Como se vê, notícia ruim corre o mundo rápido como um raio.

Neologismos
(*)Motociata é termo ultrarrecente. Até outro dia, para fazer contraponto a “carreata”, usava-se “motociclata”. São todos neologismos. A palavra carreata já está dicionarizada; as outras duas, ainda não.

Carreata me parece termo simpático e de formação legítima (carro + [e]ata). Já motociata, além de lembrar negociata, é de formação esquisita.

Para seguir o modelo de carreata (carro + [e]ata), precisava ser moteata (moto + [e]ata), palavra que também soa mal.

Assim, melhor mesmo é conservar motociclata (motociclo + ata). Soa bem e diz o que quer dizer.

Mas isso é só minha opinião. Se o povo consagrar motociata, vamos de motociata. É gaiata, mas… que remédio?

Beijo planetário

Eduardo Affonso (*)

Volta e meia alguém olha atravessado quando escrevo “leiaute”, “becape” ou “apigreide” – possivelmente uma pessoa que não se avexa de escrever “futebol”, “nocaute” e “sanduíche”.

Deve se achar um craque no idioma, me esnobando sem saber que “craque” se escrevia “crack” no tempo em que “gol” era “goal”, “beque” era “back” e “pênalti” era “penalty”. E possivelmente ignorando que esnobar venha de “snob”.

Quem é contra a invasão das palavras estrangeiras (ou do seu aportuguesamento) parece desconsiderar que todas as línguas do mundo se tocam, como se falar fosse um enorme beijo planetário.

As palavras saltam de uma língua para outra, gotículas de saliva circulando em beijos mais ou menos ardentes, dependendo da afinidade entre os falantes. E o português é uma língua que beija bem.

Quando falamos “azul”, estamos falando árabe. E quando folheamos um almanaque, procuramos um alfaiate, subimos uma alvenaria, colocamos um fio de azeite, espetamos um alfinete na almofada, anotamos um algarismo.

Falamos francês quando vamos ao balé, usamos casaco marrom, fazemos uma maquete com vidro fumê, quando comemos um croquete ou pedimos uma omelete ao garçom; quando acendemos o abajur pra tomar um champanhe reclinados no divã ou quando um sutiã provoca um frisson.

Falamos tupi ao pedir um açaí, um suco de abacaxi ou de pitanga; quando vemos um urubu ou um sabiá, ficamos de tocaia, votamos no Tiririca, botamos o braço na tipoia, armamos um sururu, comemos mandioca (ou aipim), regamos uma samambaia, deixamos a peteca cair. Quando comemos moqueca capixaba, tocamos cuíca, cantamos a Garota de Ipanema.

Dá pra imaginar a Bahia sem a capoeira, o acarajé, o dendê, o vatapá, o axé, o afoxé, os orixás, o agogô, os atabaques, os abadás, os babalorixás, as mandingas, os balangandãs? Tudo isso veio no coração dos infames “navios negreiros”.

As palavras estrangeiras sempre entraram sem pedir licença, feito um tsunami. E muitas vezes nos pegando de surpresa, como numa blitz.

Posso estar falando grego, e estou mesmo. Sou ateu, apoio a eutanásia, gosto de metáforas, adoro bibliotecas, detesto conversar ao telefone, já passei por várias cirurgias. E não consigo imaginar que palavras usaríamos para a pizza, a lasanha, o risoto, se a máfia da língua italiana não tivesse contrabandeado esse vocabulário junto com a sua culinária.

Há, claro, os exageros. Ninguém precisa de um “delivery” se pode fazer uma “entrega”, ou anunciar uma “sale” se se trata de uma “liquidação”. Pra quê sair pra night de bike, se dava tranquilamente pra sair pra noite de bicicleta?

Mas a língua portuguesa também se insinua dentro das bocas falantes de outros idiomas. Os japoneses chamam capitão de “kapitan”, copo de “koppu”, pão de “pan”, sabão de “shabon”. Tudo culpa nossa. Como o café, que deixou de ser apenas o grão e a bebida, para ser também o lugar onde é bebido. E a banana, tão fácil de pronunciar quanto de descascar, e que por isso foi incorporada tal e qual a um sem-fim de idiomas. E o caju, que virou “cashew” em inglês (eles nunca iam acertar a pronúncia mesmo).

“Fetish” vem do nosso fetiche, e não o contrário. “Mandarim”, seja o idioma, seja o funcionário que manda, vem do portuguesíssimo verbo “mandar”. O americano chama melaço de “molasses”, mosquito de “mosquito” e piranha, de “piranha” – não chega a ser a conquista da América, mas é um começo.

Tudo isso é a propósito do 5 de maio, Dia da Língua Portuguesa(1), cada vez mais inculta e nem por isso menos bela. Uma língua viva, vibrante, maleável, promíscua – vai de boca em boca, bebendo de todas as fontes, lambendo o que vê pela frente.

Mais de oitocentos anos, e com um tesão de vinte e poucos.

(1) Texto preparado para um 5 de maio.

(*) Eduardo Affonso é arquiteto, colunista do jornal O Globo e blogueiro.