O prepotente e o capacho

José Horta Manzano

Interferência do poder público no esporte, sempre houve. Desde o prefeito que “compra” o árbitro com o dinheiro da prefeitura, até o presidente do país que, discretamente, avisa que não aceitará nenhum outro vencedor do campeonato nacional que não seja o time para o qual ele torce.

Às vezes dá certo, às vezes não. O problema é a extrema dificuldade de se denunciarem fatos assim com base em provas irrefutáveis. Essas interferências costumam tomar dois caminhos: ameaça ou “compra” (corrupção).

Já quando se trata de Copa do Mundo, fica mais complicado. Dada a visibilidade desse evento, qualquer interferência fica escancarada, Embora tenha acontecido no passado, a última vez foi há quase meio século.

Não se tem notícias de que Hitler tenha tentado meter o bedelho nas copas de 1934 e 1938, mas sabe-se que Mussolini interferiu. Principalmente na Copa de 1934, sediada pela Itália, há forte suspeita de intervenção do “Duce”, embora a história não tenha guardado prova. Coincidência ou não, a Itália venceu aquela edição.

Foi em 1978, na Copa da Argentina, que a mão pesada da ditadura ficou mais evidente. Se não serve de prova, pelo menos é forte indício. O pecado, desta feita, foi a corrupção, com dinheiro grosso rolando por baixo da mesa. A uma certa altura, a Argentina precisava vencer o Peru por uma diferença de pelo menos quatro gols a fim de deixar o Brasil para trás e chegar à final.

No torneio, até então, a defesa peruana havia se mostrado forte. Pois justamente no jogo contra a Argentina abriram o bico e concederam vitória aos albicelestes pelo inacreditável placar de 6 a 0. Com isso, a Argentina foi à final e, derrotando os holandeses, sagrou-se campeã do mundo.

Prova, não há. Mas há forte suspeita de corrupção. Depois desse episódio, nâo se registraram, em Copas do Mundo, outros eventos dignos de nota. Isso foi até ontem.

Durante o jogo contra a Bósnia, um atacante dos EUA deu um pisão pra valer no pé de um adversário. Depois de consultar o VAR, o árbitro deu cartão vermelho ao agressor, o que significa suspensão para o próximo jogo. Uns gostaram da expulsão, outros não, mas ficou por isso mesmo.

Alertado para o fato de o melhor atacante americano estar suspenso para o próximo jogo, Donald Trump não hesitou: ligou para seu amigo Gianni Infantino, presidente da FIFA, e exigiu anulação do cartão vermelho. Em ato de submissão desbragada, Infantino acedeu ao pedido de Trump: o cartão foi anulado, e o atacante americano poderá jogar a próxima partida.

Inconformados, jornais do mundo inteiro denunciaram o escândalo. Se, no passado, havia suspeita de interferência do poder na Copa, desta vez há denúncias até no ultrassério The New York Times. E Trump ainda se manifestou louvando a FIFA por ter corrigido uma “enorme injustiça”.

É lamentável essa intervenção descarada. Demonstra que, do encontro de um homem prepotente (Trump) com um homem com vocação para capacho (Infantino), não se pode esperar nada de sério. O esporte mundial não ganhou nada com o ocorrido. A credibilidade da FIFA sai do episódio ainda mais arranhada do que de costume.

Infantino, que é candidato à sua própria sucessão na presidência da FIFA, certamente está contando com o apoio de delegações asiáticas e africanas que, contra um punhado de dólares, costumam dar seus votos a ele.

A meu ver, está brincando com fogo. As delegações mais fortes e que mais contribuem para a saúde financeira da FIFA são as europeias, que não hão de apreciar ser participantes de jogo tão abertamente sujo.

Açougueiro da Bósnia

Folha

Estadão

O Tempo

José Horta Manzano

Séculos atrás, açougue era o nome do estabelecimento onde reses eram abatidas e desmembradas para posterior consumo. A prática continua, mas o nome do estabelecimento mudou: hoje se diz matadouro. Em nossos dias, açougue designa apenas a loja que vende carne. Açougueiro, por consequência, é o indivíduo que lá prepara a mercadoria e atende aos clientes.

Em inglês é diferente. O termo butcher serve para designar tanto o funcionário do açougue quanto o do matadouro. Ao dar a Ratko Mladić a alcunha de “Butcher of Bosnia”, não o estão comparando ao açougueiro da esquina, mas a um funcionário do abatedouro, um matador, aquele cuja função é abater animais. A imagem é contundente, especialmente porque o referido senhor não era propriamente funcionário de um matadouro. Fazia por gosto. E com gente. Dá até arrepio.

Ao traduzir “Butcher of Bosnia” por “Açougueiro da Bósnia”, toda a dramaticidade da expressão inglesa se perde. Mais adequada será dar-lhe a alcunha de “Carniceiro da Bósnia”.

Butcher
A palavra inglesa é a adaptação fonética do francês boucher. Na Idade Média, quando foi importado, o termo designava o homem que abatia reses para, em seguida, vender a carne no varejo. Um serviço completo, do pasto ao prato.

No francês atual, a palavra corresponde a nosso açougueiro. Em inglês, todavia, butcher mantém os dois sentidos – o homem que abate e o que vende são designados pelo mesmo termo.

Eis por que, em inglês, faz sentido dizer que nosso gentil personagem é um “butcher”. No Brasil, para guardar o mesmo impacto, temos de dizer “carniceiro”.

Nota final
Um genocidário não perde por esperar. A justiça acaba por alcançá-lo, nem que seja um quarto de século depois.