Olha o lobo!

José Horta Manzano

O lobo representa um dos medos ancestrais da humanidade. Desde que o mundo é mundo, o animal é associado ao perigo. Solitário ou, pior ainda, quando ataca em malta, o lobo pode dizimar um rebanho de ovelhas.

Esse canídeo ocorre somente em partes do Hemisfério Norte. Na Europa ocidental, a população de lobos diminuiu ao longo dos séculos, até ficar hoje restrita a regiões de montanha como os Pireneus, os Apeninos e os Alpes. Calcula-se que existam hoje, em toda a cadeia alpina suíça, cerca de 50 lobos, não mais.

É interessante observar que, embora a maioria dos cidadãos atuais nunca tenha visto um lobo, o medo atávico do animal persiste. Esse pavor se reflete numa expressão que os franceses usam com frequência. “À force de crier au loup”. A tradução dá mais ou menos isto: “De tanto gritar ‘Olha o lobo!’”.

Nessa expressão, o lobo representa um perigo ou um risco qualquer. Gritar ‘olha o lobo’ é linguagem simbólica para dar o alerta. Usa-se essa expressão quando alguém repetidamente chama a atenção para um perigo inexistente. Quem costuma fazer isso, no dia em que estiver realmente em perigo e precisar de ajuda, ninguém vai lhe dar crédito. Ingleses (“to cry wolf”), italianos (“a forza di gridare al lupo”) e espanhóis (“a fuerza de gritar lobo”) têm frase equivalente.

A analogia é com uma fábula do grego Esopo, criada alguns séculos antes de Cristo, na qual um menino se divertia gritando por ajuda porque seu rebanho estaria sendo atacado por um lobo. O povo da aldeia acorria pra ajudar, em seguida iam todos embora chateados e decepcionados de ver que era mentira. Por mais duas ou três vezes, o menino pregou a peça nos vizinhos. No dia em que o rebanho foi realmente atacado por uma malta de lobos, o menino gritou, mas ninguém mais se abalou.

Essa historinha me veio à mente hoje de manhã quando eu escutava, na rádio suíça, a entrevista de uma representante do sindicato dos proprietários de restaurante. O âncora opinou que, fosse qual fosse a ajuda governamental pra compensar o prejuízo devido ao confinamento, proprietários de restaurante nunca pareciam estar satisfeitos. Chateada, a entrevistada se insurgiu e retrucou: “Não estamos reclamando; afinal, não somos o Neymar da crise”.

Entendi que, no imaginário europeu, o nome do jogador já está irremediavelmente associado à trapaça. Fiquei pensando no moço. Tão jovem, tão talentoso, tão rico e, ao mesmo tempo, tão empacado. Como é que pode? Com muita frequência (e nem sempre por razão válida), o moço se atira ao chão, rola no gramado, faz cara de dor. Seu comportamento chorão lembra o do menino da fábula grega. No dia em que a dor for verdadeira, periga ninguém acreditar.

Ainda que Neymar se corrigisse hoje, a julgar pelo comentário que ouvi no rádio, acho que já é tarde. Cria fama e deita-te na cama – como se dizia antigamente. A fama está criada.

De buldogues e coleiras

José Horta Manzano

Você sabia?

Nos desenhos animados, cachorro feroz é geralmente representado como um buldogue de dentes arreganhados e com uma coleira salpicada de pontas de metal. Fica a impressão de que os dentes e a coleira são apenas efeitos cênicos pra reforçar a ferocidade do animal. Quanto aos dentes, isso é verdade. Mas no caso da coleira, a história é outra.

Desde a Antiguidade, o homem tem utilizado o cão para acompanhá-lo na caça e principalmente para tomar conta do rebanho. Um dos grandes perigos que o cão corre é ser atacado por seus primos selvagens, os lobos, que costumam atacar mordendo na garganta.

Já na Grécia antiga, os pastores tiveram a ideia de acrescentar pregos à coleira dos cães de guarda para protegê-los contra ataque de lobos.

Em zonas montanhosas da Europa onde os lobos estão presentes até hoje, os pastores põem esse tipo de coleira no cachorro que cuida do rebanho.