Traição

Manchete da Folha, 3 junho 2021

José Horta Manzano

É inacreditável observar trem de subúrbio: por mais cheio que esteja, sempre cabe mais um. É também impressionante observar a corda dos caprichos de Bolsonaro: por mais que ele estique, ela não se rompe e continua, galharda, à espera de mais um puxão. Mas nada é eterno, nem a corda, nem muito menos Bolsonaro. Mais dia, menos dia, um deles vai ter de ceder: ou o presidente pula fora, ou a corda arrebenta. O que acaba dando no mesmo.

Pelas minhas contas (a não ser que nova barbaridade tenha surgido hoje de manhã), o puxão mais recente que ele deu na corda foi ontem. Ao representar o tradicional papel de desaforado, que os devotos tanto apreciam, ele se saiu com a pérola que está aí na manchete da Folha.

Depois de 30 anos pendurado nas tetas da República, o capitão está de tal modo distante da vida real que já não se dá conta de que o Brasil está habitado por um povo – por sinal, aquele que o elegeu. E que esse povo é constituído, em imensa maioria, de famílias pobres, para as quais um real é um real.

Bolsonaro passou três décadas auferindo polpudos vencimentos de parlamentar (sem falar dos extras, ‘rachados’ ou não). Promovido a presidente, faz dois anos e meio que não precisa mais nem fazer conta. À sua passagem, as portas se abrem, os serviçais se inclinam, automóveis e aviões estão sempre à espera para conduzi-lo aonde desejar. Já não tem contas a pagar – luz, água, combustível, restaurante, feira, supermercado, empregados, secretárias, seguranças. Tornou-se o habitante mais poderoso e mais privilegiado do território.

Se, para um indivíduo com a cabeça medianamente no lugar, esse estilo de vida pode dar vertigem, imagine para um mequetrefe como o capitão. É perdição na certa. O infeliz, cuja formação mental e moral já não era lá essas coisas, perdeu todo contacto com a vida real.

Daí a impossibilidade de reconectar-se com o povo a quem jurou servir. Ele se refere a “essa gente” como se se referisse a habitantes do planeta Marte. Não consegue ligar uma coisa à outra, ou seja, aqueles que imploram por uns caraminguás para poderem se alimentar são os mesmos que lhe deram o voto em 2018.

Se trair cônjuge já é feio, trair os milhões de pessoas que se jurou servir é o quê?

Tuíte – 19

José Horta Manzano
“– Lamento, pessoal, quer que continue (o auxílio emergencial), vai quebrar o Brasil […]”

Meus distintos leitores, que são todos fãs do presidente, certamente assistiram ao vivo à ‘live’ de ontem. Por problemas de diferença de fuso horário, não tive ocasião de assistir, mas os jornais de hoje me socorreram. Foi de lá que tirei a simpática citação acima.

“Vai quebrar o Brasil”, disse ele. Confesso que a declaração – que não foi conversa de botequim, mas pronunciamento à nação – me deixou perplexo. Como é possível dizer que o auxílio de emergência vai quebrar o Brasil, se ainda outro dia ele mesmo anunciou que o país já estava quebrado?

Vai ver que, de lá pra cá, já consertaram. Ou então ele entrou pr’a escola da desacreditada Dilma Rousseff, que de vez em quando soltava o bordão: “– FHC quebrou o país três vezes”.