Tuíte – 21

José Horta Manzano
O Google não mente?

Pesquisas no Google valem o que valem. Não há garantia alguma de resultado acurado. Assim mesmo, ainda que não se possa jurar por elas, sempre dão uma indicação geral.

Acabo de fazer uma experiência caseira. Associei o termo “corrupto” ao nome dos presidentes do Brasil dos últimos 25 anos e chequei no Google quantas menções aparecem. O resultado foi um tanto surpreendente. Eu não teria apostado que aparecessem nesta ordem:

 

Dilma corrupta     :    280’000 menções

FHC corrupto       :    622’000 menções

Temer corrupto     :  1’460’000 menções

Lula corrupto      :  1’880’000 menções

Bolsonaro corrupto : 12’000’000 menções

Interessante, não é? O mais mencionado, vencedor por ampla margem, é justamente o capitão.

O nome de Bolsonaro associado à palavra “corrupto” aparece 6 vezes mais que o nome do Lula nas mesmas condições. E olhe que Lula e Temer passaram pela casa prisão, fato que aumenta a probabilidade de serem vistos como corruptos.

Bolsonaro (ainda) não passou pela Papuda. Talvez um dia. O mundo dá voltas.

Bolsonaro banana

Ruy Castro (*)

Você se esbaldou com a notícia na semana passada. O bombado deputado federal Daniel Silveira (PSL-RJ), ao ver a PF às suas portas para prendê-lo por várias e graves lambanças, tentou fugir pulando o muro de sua casa em Petrópolis. Mas, ao completar o salto, descobriu que os homens já o esperavam no outro lado do muro. Com agilidade quase circense, pulou-o de volta, sendo afinal abotoado. Uma sequência digna de comédia do cinema mudo, só faltando Sua Excelência ter voltado por um buraco no muro e passado por entre as pernas do policial.

A ideia de um deputado federal pulando muros como um ladrão de galinha deixa mal o Congresso e pior ainda o governo que ele defende —não por acaso, o de Jair Bolsonaro. Mas é perfeita para descrever o próprio governo, repetente em pular muros e pulá-los de volta diante das suspeitas, acusações e provas de suas sujeiras. Inúmeros pilantras que o compõem já tiveram oportunidade de fazer isso, dizendo e desdizendo-se ao se verem flagrados. O pulo de volta, nesses casos, é alegar um engano, atribuindo-o a um bagrinho escalado para o sacrifício.

O grande muro, no entanto, acaba de ser pulado de volta por Bolsonaro, e resta ver o que dirão seus seguidores. Eles devem se lembrar de duas de muitas falas iguais de seu imbrochável herói: “Quem manda sou eu! Eu sou um presidente que assume ônus e bônus!” (junho de 2019). E “Quem manda sou eu! Vou deixar bem claro! Eu dou liberdade para os ministros todos, mas quem manda sou eu! Quando vão nomear alguém, falam comigo! Eu tenho poder de veto, ou vou ser um presidente banana?” (agosto de 2019).

Há dias, quando o país sentiu indisfarçável cheiro de rato numa compra de vacinas por R$ 1,6 bilhão pelo Ministério da Saúde, Bolsonaro apelou para um covarde mimimi: “Não tenho como saber o que acontece nos ministérios!”.

Ao pular o muro de volta, denunciou-se. É um presidente banana.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. Seus artigos são publicados em numerosos veículos.

O tamanho é documento

Lola Pons Rodríguez

Lola Pons Rodríguez(*)

El tamaño en la lengua importa. En general lo vemos muy bien en la lengua de la clase política, que piensa que la problemática es mayor que el problema, que la temática es superior al tema y que implementar es mejor que hacer. Un aburrimiento…

Na língua, o tamanho importa. Em geral, vemos isso muito bem no linguajar da classe política, que acha que a problemática é maior que o problema, que a temática é superior ao tema e que implementar é melhor que fazer. Uma canseira…

(*) Lola Pons Rodríguez é escritora especializada em história da língua espanhola.

CPI e seus mistérios

José Horta Manzano

Nessa CPI, verdadeiro circo de absurdos montado em Brasília, saltaram ao picadeiro, na semana passada, dois misteriosos personagens. Há quem jure que formam uma dupla caipira. Mas é só impressão. Levam por sobrenome Miranda e Dominguetti.

O primeiro deles, Luís Miranda, tem um irmão que, de forma enigmática, também se chama Luís. São coisas da vida. O segundo personagem, Dominguetti, veja que coincidência, também se chama Luís. Um festival.

Miranda
É sobrenome de respeito. Tem origem no latim mirandus, que significa “que vale a pena ser admirado”. Começou a ser atribuído na Idade Média, na região das Astúrias (Espanha). De lá se espalhou pela Espanha e pelos territórios que, em algum momento, estiveram sob o domínio da coroa espanhola: Portugal, Nápoles e sul da Itália, América Latina (Brasil incluído), Filipinas.

Uma representante da grande família – Carmen Miranda – foi, durante décadas, a personagem brasileira mais popular no planeta.

Esperemos que os Luíses (Miranda) da CPI façam jus ao sobrenome e tenham comportamento admirável.

Dominguetti
Segundo a imprensa, a grafia flutua entre Dominguetti e Dominghetti. Às vezes, as duas formas se encontram dentro de um mesmo artigo.

Trata-se de sobrenome de consonância italiana. É bem possível que, depois de deixar a Itália natal, chegar ao Brasil e atravessar transcrições e adaptações conformes a nosso usos, a grafia (e o som) desse nome tenham sido alterados. O mesmo infortúnio acometeu centenas de outros nomes de imigrantes.

Não há registro da forma Dominghetti na extensa lista de sobrenomes italianos. Isso faz supor que o original possa ter sido Domenighetti, Domeneghetti, ou algum outro aparentado. São sobrenomes que derivam de formas dialetais do nome medieval Domínicus, como por exemplo Doménicus, Doménego, Domeneghini, Meneghetti. Todos se referem ao domingo, dia do Senhor. É permitido supor que o original italiano tenha sido “traduzido” para se aproximar de nosso domingo.

Resta esperar que as declarações de nosso Dominghetti sejam menos misteriosas que as origens de seu sobrenome. Essa CPI parece cada dia mais obscura, como se tivesse vindo, não pra esclarecer, mas pra confundir.

Corto cabelo e pinto

José Horta Manzano

Frases mal formuladas podem causar efeitos estranhos. O exemplo lapidar está contido nessa curiosa placa de barbearia. A foto circula na internet há anos, mas o efeito hilário continua garantido.

No caso do “Corto cabelo e pinto”, nem mesmo acrescentando uma vírgula se resolve o problema. Uma solução será: “Corto e pinto cabelo”.  Ou talvez: “Cabelo: corto e pinto”. Vi outro dia na Folha esta chamada.

Dado que eu estava, naquele momento, chegando do planeta Marte, fiquei na dúvida se o vendedor de vacinas e o líder do governo Bolsonaro eram uma só pessoa. Quê? É impossível? ¡Que va!

Nestes tempos estranhos, com o governo desregulado que é o nosso, nada mais espanta. Se um ministro do Meio Ambiente está sendo processado por ter se envolvido com contrabandistas de madeira, o líder do governo pode perfeitamente estar vendendo vacina. E faturando alto com isso. Ora, ora.

Buscando a clareza (e evitando que o freguês tenha de ler o artigo inteiro pra saber quem é quem), seria bom reformular a chamada.

Se o líder do governo e o vendedor de vacinas forem uma só pessoa, uma solução seria esta:
“CPI convoca líder do governo Bolsonaro, que vende vacinas e que denunciou propina”

Se forem duas pessoas, é melhor reformular a chamada:
“O líder do governo Bolsonaro e o vendedor de vacinas que denunciou propina são convocados por CPI”.

Assim, nenhum líder poderá botar defeito. Nenhum vendedor de vacinas também.

Os presentes de Bolsonaro

José Horta Manzano

Outro dia, em cima de um palanque, Bolsonaro exibiu uma camiseta cuja estampa pedia ao povo que votasse de novo nele em 2022. A favor dele, diga-se que a peça de roupa foi um presente que ele acabava de receber. A seu desfavor, porém, frise-se que nada o obrigava a desdobrar o acessório e exibi-lo urbi et orbi – à cidade e ao mundo. O gesto foi visto como campanha eleitoral antecipada, sujeita a sanções.

O Estadão aproveitou a deixa para fazer a conta dos presentes que o capitão recebeu. Desde que vestiu a faixa, já lhe fizeram mais de 6 mil presentes, somando objetos simples e artigos mais sofisticados, o que dá uma média de 7 por dia, sábados e domingos incluídos. Pelo regulamento, tudo é arrolado em lista mantida pelo setor de documentação da Presidência.

Entre insignificâncias como ímãs de geladeira, canetas, panelas, cafeteiras e panos de prato, há também ítens assaz significativos. Vamos citar alguns.

Identificação
Numa mostra de identificação de valores com o mandatário, o comando da Polícia Militar do RJ deu-lhe, de presente de Natal, uma baioneta. A delicadeza do mimo dá prova da meiguice de espírito que une presenteante e presenteado.

Confidencialidade
Visivelmente preocupados com vazamento de informações (ou, quem sabe, com informações que custam a vazar), 353 cidadãos lhe deram pen drives.

Prático e útil
Gravata é presente que a gente compra quando não tem ideia do que oferecer. Não sai muito caro e é útil, visto que todo homem, um dia ou outro, acaba usando. A lista já contabiliza 56 cidadãos que ofereceram gravata ao capitão. Entre os ofertantes do másculo adereço, estão os ministros Heleno e Lorenzoni. Mendonça, o advogado-geral da União, que corre atrás de uma vaga no STF, também teve a original ideia de agradar o chefe com uma gravata.

Camiseta
Só de camisetas, o capitão já tinha recebido 954 até o fim de abril. De lá pra cá, a coleção há de ter inchado. Se o distinto leitor tinha pensado em dar-lhe camiseta de presente, esqueça. As que ele ganhou já não cabem nas gavetas.

Premonição
O assessor Fábio Waingarten, aquele que foi jogado ao mar recentemente, é um visionário. Seguindo uma premonição, tinha dado ao chefe, já em janeiro passado, um colete salva-vidas. Só que o prognóstico furou: o afogado acabou sendo ele mesmo. Devia ter guardado o presente para si, talvez não afundasse.

Sem rancor
O embaixador da China no Brasil demonstrou não ser rancoroso. Apesar de todos os insultos que a nebulosa bolsonárica tem feito a seu país, presenteou o presidente com um vaso chinês em março do ano passado. Deve ser o objeto que aparece entre o presidente e a tela, na foto abaixo,

em que o mandatário mostra estar assistindo ao jogo do Brasil num canal de tevê amigo – o único a transmitir o jogo, pelo que me disseram. Expus minhas considerações sobre a foto em post separado.

Vade retro!
Cidadãos católicos, alarmados com as infidelidades de um presidente que já foi católico e hoje flerta com neopentecostais, já lhe deram 56 terços, 15 imagens de Nossa Senhora Aparecida e mais de 30 de outros santos. Até um frasco de água benta já lhe foi ofertado, que é pra ver se o capitão se emenda.

Como tem gente atrevida!
Certos gestos ousados não têm cabimento, mas tem gente que continua ousando. Talvez com boa intenção, 1.630 cidadãos cometeram o irreparável: deram um livro de presente ao presidente! Um livro! Como se sabe, o capitão associa o livro à cultura, e a cultura ao comunismo. Assim que abre o embrulho e descobre que é livro, joga longe e corre pra desinfetar as mãos. Com a chegada dessas centenas de livros, hão há mão que aguente.

Resumo da ópera
Se o distinto leitor tem intenção de fazer um mimo ao presidente, sugiro um objeto que, acredito eu, ainda não veio à cabeça de ninguém: uma vassoura. Nos tempos que correm, pode ser útil pra varrer a sujeira pra debaixo do tapete.

Para encurtar caminho

José Horta Manzano

A tendência que os falantes têm de encurtar caminho e descobrir atalhos na língua assume diferentes roupagens. Por exemplo, numerosos verbos que costumavam ser pronominais estão deixando de sê-lo.

Mais e mais frequentemente, se ouvem frases como:

“Ele não acostuma com essa vida de casado” (em vez de ele não se acostuma)

ou

“Eu não importo de ficar esperando aqui” (em vez de eu não me importo).

A atual pandemia ergueu ao palco um verbo antes menos comum: vacinar. Temos de constatar que ele também está entrando na categoria dos que vão deixando de ser pronominais.

O recorte reproduzido no início do post está aí pra provar. Diz ele que “vacinar é motivo de vergonha”. Em outros tempos, a manchete seria “tomar vacina é motivo de vergonha” ou também “vacinar-se é motivo de vergonha”. O mundo evolui, e a língua vai junto.

Mas atenção, juventude! Quem estiver mandando bilhete para a namorada pode escrever do jeito que quiser. Já quem estiver em situação mais formal é bom tomar cuidado.

Namorada dá desconto; erro em prova tira ponto!

Vacinar = dar vacina, aplicar vacina.

Vacinar-se = receber vacina, ser vacinado.

Na dúvida, diga: “tomar vacina”. É mais simples, resolve o problema, não tira pontos e, ainda por cima, protege contra a doença.

O preço a pagar

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 27 junho 2021.

Domingo 23 de maio, o voo da Ryanair partiu de Atenas no horário previsto. O trajeto até Vilna (Lituânia) não chegava a 3 horas. Já faltando meia hora para o pouso, quando o avião cruzava o espaço aéreo da Bielorrússia, um caça MIG 29 das Forças Aéreas daquele país emparelhou e ordenou ao Boeing que pousasse imediatamente. Pelo rádio, os controladores aéreos explicaram ter recebido denúncia de bomba escondida no avião, daí a ordem de aterrissagem imediata.

O piloto obedeceu. Pousou em Minsk, capital do país. Ato contínuo, policiais entraram no avião e agarraram um dos passageiros, rapaz jovem, levado enquanto protestava aos berros. Ninguém entendeu o que se passava. Em seguida, todos foram evacuados. Após inspeção das bagagens, as autoridades informaram que, não tendo sido encontrado explosivo, devia tratar-se de falso alarme. Liberado, o avião seguiu viagem – com um passageiro a menos.

Descobriu-se que o rapaz capturado pelos bielorrussos era Roman Protassevitch, de 26 anos. Autoexilado no exterior, ele tinha sido redator-chefe de uma plataforma de oposição ao regime do país, muito atuante na recente onda de contestação à reeleição do presidente Alexandre Lukachenko – o último ditador da Europa – , homem que há 27 anos controla a Bielorússia com mão de ferro. Nos calabouços do país, o rapaz há de estar passando maus momentos. Dado que é acusado de ‘terrorismo’ e que seu país é o último da Europa a aplicar a pena de morte, teme-se por seu futuro.

A União Europeia não podia deixar de punir o ato de pirataria que atingiu um de seus aparelhos voando entre dois de seus aeroportos. Em outros tempos, se declararia guerra; hoje, ataca-se o bolso. A UE anunciou que vai aplicar sanções pesadas contra a economia bielorrussa. Sete setores serão atingidos, entre os quais as exportações de potássio, tabaco e derivados de petróleo – importantes fontes de renda do país. Além disso, o ditador, sua família e uma centena de personagens do regime estão proibidos de entrar em território europeu. Seus haveres pecuniários e imobiliários serão confiscados. Os EUA, o Canadá e o Reino Unido também anunciaram sanções. Washington não vai mais conceder visto de entrada a 155 personalidades bielorrussas.

Temos hoje, no Brasil, um capitão que sonha com uma carreira de ditador. Ele tem conseguido avançar no projeto explorando o lado venal da alma humana. Cargos, títulos, promoções, verbas, aumentos de salário, benefícios têm sido distribuídos a mancheias. Essa fidalguia tem-lhe granjeado apoios importantes. Capturadas as principais instituições da República e cooptados os representantes do povo, não é impossível que nosso aprendiz de ditador realize seu sonho. O grande obstáculo serão as eleições de 2022. Com a imprudente cumplicidade do Parlamento, doutor Bolsonaro é bem capaz de conseguir, de um modo ou de outro, impugnar o resultado das urnas e melar o jogo a seu favor. Se as coisas correrem a seu contento, teremos em breve um Lukachenko tropical.

O primeiro risco vem de fora. Uma vez instalado na incômoda posição de país de governo ditatorial, o Brasil terá problemas feios. Desde a criação da ONU, ao final da última guerra, a comunidade internacional tem mostrado clara rejeição a regimes autoritários. Cuba, Coreia do Norte, Irã são exemplo de nações que sofrem sanções em virtude de não se encaixarem no Zeitgeist. No Brasil, sofreremos pesado castigo coletivo. A Bielorrússia ainda tem a Rússia, vizinha e madrinha. O Brasil-ditadura não terá vizinho nem padrinho. Se Bolsonaro e os filhos forem impedidos de viajar para o exterior, não hão de fazer caso. Já se a proibição atingir amigos, assessores e congressistas, ah, o perfume do croissant fresquinho das boulangeries parisienses há de fazer muita falta.

O segundo risco vem de dentro. Tropical ou não, autocrata é autocrata, um indivíduo paranoico, que desconfia de tudo e de todos. Sua imaginação doentia vive à cata de novos inimigos, reais ou imaginários. O capitão, com histórico de afiliação a 9 diferentes partidos, é descompromissado e volúvel. Uma vez parafusado ao trono, ninguém poderá mais se considerar a salvo, nem dormir tranquilo na certeza de que os perseguidos serão sempre os petistas, psolistas e “comunistas”. Hoje é dia do “outro”, mas amanhã esse “outro” pode ser qualquer um. Até os que hoje se enrolam na bandeira pra clamar por intervenção militar.

Teve rachadinha na vacina?

Celso Rocha de Barros (*)

Depois que Bolsonaro, de forma documentada e indiscutível, cometeu assassinato em massa contra o povo brasileiro, crimes de corrupção podem parecer menores. E, normalmente, seriam. Qualquer mãe que tenha perdido filho porque Bolsonaro não comprou vacina preferia que Bolsonaro lhe tivesse roubado a carteira.

Mas é importante lembrar que esta roubalheira aconteceu durante o assassinato em massa de 2020-2021, com dinheiro que poderia tê-lo evitado, e que talvez tenha sido parte da motivação por trás do assassinato em massa. O governo Bolsonaro pode ter matado filhos de mães brasileiras enquanto também lhes batia a carteira.

(*) Celso Rocha de Barros é doutor em sociologia pela Universidade de Oxford (Reino Unido). O texto foi extraído de artigo publicado na Folha de SP em 27 jun° 2021.

Sacrifício no altar

José Horta Manzano

Seitas e religiões antigas tinham sacrifícios rituais. O Antigo Testamento lembra a hebreus e cristãos a alegoria do quase-sacrifício de Isaac, interrompido in extremis pela chegada do anjo. Muçulmanos têm metáfora equivalente, representada pelo sacrifício de Ismael, irmão mais velho de Isaac.

Mais perto (geograficamente) de nós, temos os incas que, até a chegada dos europeus, entregavam moças adolescentes aos oficiantes para serem assassinadas e oferecidas aos deuses para que não castigassem o império com catástrofes naturais e outras pragas. Depois de escolhidas, as jovens eram, durante meses, preparadas para o grande dia do sacrifício.

Ao observar a sequência de imagens que reproduzo acima, não pude deixar de associar a cena brasiliense com os relatos sacrificiais. A simbologia está presente.

  • O menino, que ainda está longe de ter chegado à idade da razão, é ingênuo e inocente. Não tem condições de entender que sua imagem há de ficar para a posteridade como símbolo triste e involuntário da desvairada passagem do capitão pelo Planalto.
  • A maneira como o pequenino está paramentado indica que passou por preparação específica antes de ser levado ao altar – exatamente como as donzelas andinas.
  • A criança chega ainda mascarada, numa imagem que sugere a virgindade e a proteção contra todo mal externo que possa atacar o corpinho.
  • No momento supremo, o capitão age com a brutalidade que lhe é característica e arranca a proteção. É o defloramento simbólico praticado pelo Grande Sacerdote.
  • As mãos erguidas do que se supõe serem os pais do ‘sacrificado’ aparecem ocupadas em clicar freneticamente, no intuito de eternizar o instante sublime. A criança assiste, ingênua, à movimentação. Daqui a algumas décadas, quando for adulto, o menino por certo se envergonhará de ter sido um dia entregue como troféu a um miserável bufão.

A foto termina aqui. Não sei dizer se, assim que a criança voltou para o colo dos orgulhosos pais, a máscara voltou a ser instalada na posição de onde nunca devia ter sido retirada.

Tanto faz. De qualquer maneira, o mal estava feito. Se o pobrezinho não se tiver contaminado com o bafo pestilento do Grande Sacerdote, é porque tem corpo fechado e assim continuará pelo resto da vida. Pode jogar fora a máscara.

Deixa que eu pago

José Horta Manzano

Em abril de 2019, com sua costumeira meiguice, o presidente Bolsonaro esbravejou: “O Brasil não pode ser o paraíso do turismo gay. Quem quiser vir aqui fazer sexo com uma mulher, fique à vontade. Agora, não pode ficar conhecido como paraíso do mundo gay aqui dentro.”

Em julho daquele ano, sempre calçando as mesmas luvas de ternura, reincidiu: “O Brasil é uma virgem que todo tarado de fora quer. Desculpem aqui as mulheres aqui tá?”.

Referindo-se a uma jornalista, em fevereiro de 2020, soltou esta finura: “Ela queria um furo. Ela queria dar o furo!”.

Na mesma linha do presidente, seu ministro Guedes aproveitou a plateia que o acompanhava numa palestra de setembro de 2019. Entusiasmado, mandou: “Ah, o Macron falou que estão botando fogo na floresta brasileira. O presidente devolveu, falou que a mulher dele é feia’. Tudo bem, é divertido. Não tem problema nenhum, é tudo verdade, o presidente falou mesmo. E é verdade mesmo, a mulher é feia mesmo.”.

Em abril de 2019, a ministra Damares (que cuida da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos!) foi fiel ao exemplo do chefe. Numa audiência na Câmara Federal, ousou: “A mulher deve ser submissa. Dentro da doutrina cristã, sim. Dentro da doutrina cristã, lá dentro da igreja, nós entendemos que um casamento entre homem e mulher, o homem é o líder do casamento”.

São citações que aparecem, entre outras, numa ação civil em que o MPF (Ministério Público Federal) requereu que a sociedade brasileira seja ressarcida do prejuízo causado pelas falas discriminatórias e preconceituosas de membros da alta hierarquia do governo federal. A 6ª Vara Cível Federal de SP aquiesceu e condenou a União a pagar 5 milhões de reais em reparação dos danos morais coletivos contra a mulher brasileira.

Sem sombra de dúvida, o julgamento parece justo. De fato, não é normal deixar passar em branco um conjunto de insultos e deboches tão abastado que deixa a impressão de ser ataque coordenado – sabe-se lá com que intenções. No entanto, algo me parece fora do lugar. Explico.

A União Federal, em última análise, somos nós, o povo. Assim como o Exército Brasileiro (que o capitão insiste em chamar de “seu”) não pertence a nenhum indivíduo, a União também é instituição coletiva, uma extensão do povo brasileiro. A União é formada por todos nós, não somente pelo governo de passagem. Instituição permanente, ela precede os atuais governantes e lhes sucederá.

Dito isso, fica estranho obrigar a União a pagar a conta das impropriedades cometidas por membros do governo. Cobrar da União isenta os autores das infrações. Em última instância, significa cobrar de todos nós, que, com nossos impostos, sustentamos os cofres federais. O julgamento da ação deixa um quadro estranho, em que a parte lesada é condenada a ressarcir a si mesma.

Na minha opinião, o certo seria cobrar de cada agressor o preço de sua ousadia. Que se condenem os que proferiram impropérios: o capitão, dona Damares, doutor Guedes e quem mais for. Individualmente. Querer castigá-los repassando a conta para todos os contribuintes não está certo. Visto que a conta não vai pesar no bolso dos infratores, hão de sentir-se livres de continuar proferindo impropriedades.

Gente mole

José Horta Manzano

Pesquisa publicada ontem pelo Ipec revela que a polarização continua firme no cenário eleitoral. Para as presidenciais de 2022, só dois (presumíveis) candidatos têm chance: Bolsonaro e o Lula. O resto é o resto – um punhado de nomes que, juntos, perfazem 10% do eleitorado.

Me recuso a acreditar que o eleitorado brasileiro se divida entre o antigo presidente (e ex-presidiário) e o atual presidente (e talvez futuro presidiário). Não é possível que, de cada dez cidadãos, somente um recuse dar seu voto a um desses dois políticos de qualidade duvidosa, ambos situados a um passo da prisão (passada ou futura).

Continuo acreditando que nós, aqueles que rejeitamos tanto o demiurgo quanto o genocida, formamos uma maioria silenciosa. Civilizados e discretos, não nos agrada sair em passeata, gritar slogans, segurar faixas, protestar de motocicleta, soltar rojões, vestir como torcida organizada, caminhar enrolados em bandeira. Se isso não aparece nas pesquisas, é porque nenhum nome conseguiu se mostrar suficientemente forte até agora.

Os políticos não bolsonaristas e não lulistas estão dormindo no ponto. O país está num momento crítico. Se eles não se mexerem, nosso futuro periga ser cada vez mais tenebroso. Se o próximo presidente for Lula ou Bolsonaro, qualquer um dos dois, teremos a continuação do desastre atual.

Há pouca diferença entre os dois. São ambos autoritários, incultos, estatizantes, mentirosos, traiçoeiros, populistas, poltrões, corruptos, permissivos. O que os distingue é a psicopatia de Bolsonaro, fator agravante para o desempenho de qualquer mortal.

Se os verdadeiros políticos de oposição – aqueles que se opõem aos dois – não abandonarem vaidades e não se reunirem em torno de um nome comum para enfrentar a ambos, estarão dando a vitória ao Lula, de mão beijada. O barbudinho é sempre melhor que o capitão, mas será que é realmente isso que queremos?

Olimpíadas em modo covid

José Horta Manzano

O povo japonês é conhecido por seu espírito disciplinado e rigoroso. Na preparação dos Jogos Olímpicos, que o país deverá acolher dentro de um mês, as autoridades anunciaram os cuidados que os atletas de diferentes modalidades de esporte deverão tomar para estancar o alastramento da pandemia. Aqui estão alguns deles.

Lançamento de martelo
Para evitar o contacto do martelo com as mãos no momento do arremesso, deverá ser usado um estilingue.

Salto com vara
Antes de agarrar a vara, o atleta deverá calçar luvas cirúrgicas.

Pugilismo
Para evitar projeção de perdigotos no momento da luta, os boxeadores deverão manter sempre distância de um metro e meio.

Futebol
A fim de prevenir aglomerações, somente será permitida a presença de 4 jogadores em campo ao mesmo tempo. A cada 10 minutos, se fará o rodízio: saem 4, entram outros 4. E assim até o fim do jogo. (O goleiro será autorizado a permanecer.)

Ginástica
O atleta deverá desinfetar barras e argolas antes e depois de cada apresentação. Frascos de álcool 70° serão postos gratuitamente à disposição.

Luta livre
Dado que este esporte deixa os atletas ofegantes, o uso de máscara será obrigatório durante todas as provas.

Ginástica rítmica
Para evitar contacto próximo, cada ginasta executará o número separadamente. Ao final, uma montagem sincronizada de vídeo será apresentada no telão com os dois atletas.

Nado quatro estilos (medley)
Durante a prova, a cada virada, os atletas deverão lavar as mãos cuidadosamente.

As autoridades nipônicas agradecem a todos os participantes pela compreensão. E declaram sentir-se orgulhosas de tornar as Olimpíadas mais seguras.

Cambalhotas na língua

Ruy Castro (*)

Quando escuto a primeira sílaba, meus ouvidos já entram em alerta. Alguém vai dizer a palavra “especificamente”. É um dos advérbios mais em voga no momento, e cada pessoa o acentua numa sílaba diferente. Alguns carregam no “fi”: especiFIcamente. Outros fazem a língua dar uma cambalhota e põem o peso no “pe”: esPÉcificamente. E há quem tenha de dar um salto mortal sem rede para pronunciar ÉSpecificamente. Só os puristas acentuam direito o “ci”: espeCIficamente.

Outra tendência da nova fala brasileira é a desmoralização do sujeito. Lembra-se dele nos seus tempos de cartilha? O sujeito era aquele termo da oração que formava com o verbo e o predicado uma espécie de Trio Maravilhoso Regina da língua – sabonete, água de colônia e talco. Mas parece que o sujeito, ele não é mais suficiente na frase. As pessoas, elas agora o acoplam a um pronome. O resultado, ele fica assim como você está lendo. Temo que, em breve, os escritores, eles passem a fazer o mesmo em seus textos. E, quando isso acontecer, o leitor, ele vai se dar conta da monotonia da coisa. Aliás, essa monotonia, ela acontece também na língua falada. Mas as pessoas, elas ainda não acordaram para isso.

E a palavra “robusto”? No passado, robustas eram as meninas que tomavam Toddy. Hoje, abundam robustas acusações contra os bolsonaros e não acontece nada. E quem ainda tolera o “simples assim”? Nos anos 80, só os leitores de Paulo Francis, introdutor dessa expressão na língua, a usavam. Agora qualquer pazuello faz uma cara beócia e vasovagal e a emprega para explicar que um manda e outro obedece.

Por sorte, clichês agonizantes como “reto e direto”, “sem querer interromper e já interrompendo”, “zona de conforto”, “ponto fora da curva” e “tudo junto e misturado” já saíram de moda, e só os desinformados ainda os usam.

Claro que a fala do dia a dia, ela é meio assim, tudo junto e misturado, não?

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. Seus artigos são publicados em numerosos veículos.

Milagre?

José Horta Manzano

Num raro sincericídio cometido nas barbas de apoiadores entusiastas, Jair Bolsonaro confessou ontem que é milagre ter conseguido segurar-se no mandato até agora.

Apesar do apreço que tenho e da reverência que sinto para com o capitão, devo discordar. Peço vênia, Excelência!

Milagre, em nossa língua, é palavra reservada para acontecimentos benéficos, favoráveis e auspiciosos. É sempre usada em sentido positivo.

Tem sido assim desde os milagres bíblicos, em que paralíticos voltavam a caminhar, cegos recobravam a visão e multidões eram alimentadas com meia dúzia de peixes.

Milagre não é a faísca acidental que bota fogo na casa, mas a chuva que apaga o incêndio.

Como tem feito em frequentes ocasiões, Sua Excelência distorce a realidade a seu favor. O fato de ter-se mantido na Presidência até agora não é milagre. A língua oferece um balaio de termos que se adaptam melhor. À escolha:

maldição,
desgraça,
fatalidade,
desventura,
cataclismo,
desventura,
infortúnio,
sinistro,
catástrofe,
adversidade,
desdita,
calamidade,
desastre,
estrago.

A lista não é exaustiva, mas vou parar por aqui pra este post não ficar demais deprimente. Ai de nós!

Protestos

Amsterdã: protesto em letras laranja, a cor-símbolo do país

José Horta Manzano

Brasileiros que vivem no exterior, mesmo que estejam em situação apertada e passando necessidade, não recebem auxílio de Brasília. É natural. Bizarro seria se a pátria-mãe continuasse a sustentar filhos que decidiram deixar o lar e morar sozinhos.

Essa não-dependência lhes permite acompanhar com certa isenção os acontecimentos nacionais. O fascínio lulopetista, por exemplo, que arrebatou multidões em território brasileiro, pegou menos firme por aqui. O brasileiro do exterior logo se deu conta de que artifícios como a bolsa família, apesar do intenso marketing, estavam mais pra embuste eleitoreiro que pra solução radical pra extinguir a miséria.

Nas eleições de 2018, os brasileiros estavam, em maioria, decididos a dar um basta ao lulopetismo. Fosse qual fosse o candidato, votariam nele, desde que afastasse o Lula e seus companheiros. O resultado é que, apesar do histórico de sucesso do partido, somente 45% dos eleitores votaram em Haddad. Brasileiros do exterior foram ainda mais explícitos: apenas 29% dos eleitores deram seu voto ao candidato lulopetista, exprimindo nas urnas um sonoro basta!. Foi de encher de orgulho qualquer brasileiro pensante.

Tendo em vista o desastre que tem sido a gestão Bolsonaro, parece-me justo e natural que os que vivem no Brasil e que sentem na pele as consequências de um governo caótico se revoltem e se disponham a sair às ruas em passeata. Mas… e no exterior? Será que a rejeição a Bolsonaro se aplica também aos compatriotas que vivem fora? Aqueles que, em 2018, votaram em massa em Bolsonaro e lhe garantiram 71% do total dos votos eram realmente bolsonaristas ou apenas antipetistas? Está chegando a hora do “vamos ver”.

E estamos começando a ver. Foi no sábado que passou. Cento e cinquenta cidades brasileiras foram palco de passeatas e manifestações diversas em que milhares exprimiram repúdio a Bolsonaro. No mesmo dia, os brasileiros do exterior deram a resposta à dúvida que expus logo acima. A colônia estabelecida na Europa e nos EUA não se fez de rogada. Brasileiros saíram às ruas de Londres, Berlim, Lisboa, Zurique, Nova York, Paris com o mesmo ardor dos que encheram avenidas paulistanas, cariocas e soteropolitanas.

As urnas de 2022 confirmarão, mas podemos desde já nos sentir aliviados: se os brasileiros do exterior consagraram Bolsonaro em 2018, não foi pelos méritos do capitão, mas por ter encarnado a imagem do antipetista por excelência. E estamos todos assistindo à decomposição dessa imagem. Como ensinou Ary Barroso, “toda quimera se esfuma como a brancura da espuma que se desmancha na areia”.(*)

(*) Do samba-canção Risque (1953).

Kit covid

José Horta Manzano

As autoridades japonesas estão monitorando de perto tudo o que diz respeito à organização dos Jogos Olímpicos, que terão lugar no país daqui a um mês.

Neste domingo, apresentaram a Vila Olímpica à imprensa e anunciaram as mais recentes medidas de proteção dos atletas. Entre elas, estão a instalação de uma clínica especializada no estudo da febre, assim como a distribuição de um kit covid.

O estojo anticovid contém álcool em gel e sabonete medicinal. Pode parecer uma evidência, mas não há que esquecer que o país vai receber atletas de quase 200 países – e nem todos têm hábitos de higiene suficientes para protegê-los nestes tempos de pandemia.

Se nosso capitão, em vez de investir tempo, esforço e dinheiro em remédios milagrosos, tivesse, desde o começo, mandado distribuir sabonete e álcool em gel a toda a população – jovens e velhos, ricos e pobres, urbanos e rurais –, certamente não estaríamos hoje chorando a morte do quingentésimo milésimo(*) brasileiro.

Num país de pobres, só mandar lavar as mãos não funciona – o cidadão às vezes não tem dinheiro nem pra comer. Precisa dar o sabão. É mais eficaz que cloroquina.

(*) = 500.000°

Estúpido

Ascânio Seleme (*)

A declaração de Bolsonaro de que é preferível se contaminar com o coronavírus do que tomar a vacina é o ponto máximo que sua ignorância conseguiu alcançar nestes dois anos e meio de governo. Desnecessário explicar a idiotice criminosa.

É urgente que se pare o festival de besteiras que ele pronuncia diariamente nas redes sociais. Esperar por Arthur Lira não adianta. Talvez seja o caso de apelar para as redes. Por muito menos, Donald Trump foi suspenso do Facebook e banido pelo Twitter.

(*) Ascânio Seleme é jornalista. Trecho de artigo publicado no jornal O Globo de 19 junho 2021.