Baile das letras

Francisco de Paula Horta Manzano (*)

Foi uma daquelas idéias que no fim ninguém sabe dizer de onde surgiu. E da qual ninguém quer assumir a autoria. A maioria dos consultados a respeito concordaram em se reunir para uma espécie de, poderia assim se chamar, confraternização. Afinal, todos sempre trabalharam em equipe e, em princípio, parecia uma boa ideia.

Logo de saída, quando foram formalizar o convite, o C já foi logo dizendo que não prestaria nenhum tipo de colaboração. Poderia até participar da reunião, mas não queria ser usado, ficando mais uma vez entre duas vogais só para dar sentido à vida delas. Que fizessem o convite sem ele.

enluminure-k1Mantiveram o convite feito à letra C para participar do evento, apenas para não criar caso. E tiveram que improvisar com a letra K, que foi a solução mais próxima que encontraram. No alto, lia-se Konvite. O primo do C, o cê cedilha, ofereceu-se para a função. Todos agradeceram muito pela boa vontade, mas acharam melhor usar os préstimos do K. Mesmo porque o K, sempre tão esquecido, coitado, sentia-se orgulhoso com a honra oferecida. Além do mais, não haveria como esconder o rabinho do cê cedilha.

Tudo bem. Todo grupo sempre costuma ser dividido em alas. Sempre aparece algum ti-ti-ti. Houve até um princípio de confusão entre as vogais, que alegavam estarem cansadas de ficar dando sentido a tudo, sempre usadas pelas consoantes que, apesar de serem em maior número, sempre se mostram tão dependentes delas.

Mas a situação foi contornada pelos parênteses que, como sempre, acolheram a todos com braços e abraços apaziguadores. Alguns diziam que os parênteses só ficavam fazendo cochichinhos entre eles e que não eram confiáveis. Eles fingiram não ter entendido. Aliás, a idéia da reunião era justamente essa: promover confraternização e convivência pacífica entre todos.

enluminure-m1O M compareceu ao encontro e chegou, como sempre, antes do N. Sempre correu mais, por causa das três perninhas enquanto o companheiro andava em desvantagem, com duas. Assim que chegou à reunião, o M foi agradecer pessoalmente ao P e ao B pela deferência de serem precedidos por ele. Em detrimento do N, coitado.

A turma elogiou muito o hífen pelo trabalho que vinha desenvolvendo, sempre um fator de união que ninguém poderia deixar de reconhecer e comentar. Sempre auxiliou com sua presença a todos que um dia precisaram de sua ajuda para se unirem.

Chegou o W dando tapinhas nas costas do M, chamando-o de “colega”, fazendo-se de acróbata. Foi o que bastou para fazer com que o M fizesse verdadeiros contorcionismos com seu ego para manter a compostura.

As aspas compareceram também. Muito humildes como sempre, desculparam-se com todos os presentes. Reconheceram o trabalho e o esforço de todas para formar as palavras e elas, as aspas, sempre deixando pairar no ar alguma dúvida quanto à veracidade delas. Explicaram que não faziam isso por mal. Era apenas por força da obrigação.

Enluminure V 1Avoadas, andando ordeiramente em fila indiana, as reticências também apareceram. Na ocasião conversaram muito com todos, muito embora nunca conseguissem terminar um pensamento com muita clareza. Já a interrogação, por mais que falasse, nunca demonstrava saber de nada. Não ajudava muito. Mas como já era mais velha do que os outros ‒ tanto que utilizava uma bengalinha para caminhar por onde quer que fosse ‒ era muito respeitada no lugar. Ninguém reclamava dela.

A exclamação apareceu calçada com seu saltinho alto. Muito magrinha, alta e elegante, teve alguma dificuldade quando lhe pediram para pular para a linha de baixo. Era quase um salto mortal. A letra A, que estava por perto, teve até que dar-lhe um empurrãozinho. E ela quase formava uma entrelinha vaga, não tivesse se enganchado no anzol do S que estava logo ali também. Ela não queria se fazer de esnobe. Não era charme. Era apenas o seu jeitão, coitada. Até que ela era legal! Só não gostava muito das freqüentes insinuações que a letra i (a minúscula) lhe fazia sempre que a encontrava. Ao contrário do que dizia o i, ela não andava de cabeça pra baixo. E como o i ainda era uma criança, minúscula que era, não provocava reação mais violenta.

A turma não gostava muito era da dona Vírgula, sempre se intrometendo nas conversas, interrompendo os outros. Fazia isso a toda hora e até sem necessidade. Pior que ela, só mesmo seu irmão mais velho, o ponto e vírgula. Esse era de desanimar qualquer um.

Enluminure B 1Aquela confraternização seria de grande utilidade para as vogais, que não viam com bons olhos os acentos. A nenhum deles. Tanto os agudos, quanto os graves, os circunflexos e até mesmo o simples til. Sentiam-se incomodadas. Diziam que os acentos eram perfeitos parasitas que se apoiavam nelas sempre e com sérias intenções de modificar seu caráter. Não deixavam que elas fossem quem elas realmente eram. Não se davam realmente muito bem. Para os acentos a idéia da confraternização pareceu muito boa.

Todos pararam de conversar quando chegaram os dois pontos. Egocêntricos, sempre exigiam a atenção de quem quer que fosse. Mania de querer explicar alguma coisa. Todos paravam para ouvir. Sabiam que, depois deles, sempre vinha alguma coisa.

A reunião estava boa, juntou todos num mesmo local. De A a Z. Até o asterisco, que compareceu à festa todo despenteado. O q e o p minúsculos permaneceram um de costas para o outro, dado ainda não contarem com a maturidade das letras maiúsculas. Falando nisso, o Q ficou a maior parte do tempo procurando pelo U. Sinal de alta insegurança.

De repente, tudo terminou. Não teve jeito de seguir em frente. Nem mesmo com a intervenção (de pura boa vontade) do parágrafo, tentando dar um tempo e começar tudo de novo. Foi só aparecer o ponto final e aí sim: acabou-se a reunião. Pronto. Ponto final.

(*) Francisco de Paula Horta Manzano (1951-2006), escritor, cronista e articulista.

Para o Dia da Bandeira

José Horta Manzano

Você sabia?

A bandeira ‒ em termos crus, um pedaço de pano amarrado num cabo ‒ é símbolo forte cuja origem se perde no passado. Desde a antiguidade, vem servindo como representação de um grupo ou de uma comunidade. Pode corresponder a um regimento, uma firma comercial, um território, uma cidade, uma nação.

No topo do mastro, a bandeira indica a vitória ou a predominância do grupo representado. Arriada ou, pior, destruída ou queimada, significa a perda de soberania, a derrocada. Em momentos violentos, tanto em batalha militar quanto em manifestação de rua, assiste-se por vezes ao triste espetáculo de queima da bandeira do adversário. É reminiscência de prática ancestral, embora os atores nem sempre se deem conta do significado do ato.

bandeira-2O que pode até ser compreensível num campo de batalha é desnorteante em manifestações populares. Em recentes passeatas no Brasil, bandos de ignorantes chegaram a queimar a bandeira do próprio país(!), numa atitude descabida. É como se se autodestruíssem e aniquilassem a própria identidade. Felizmente, demonstrações de estupidez desse jaez são raras em nossa terra.

A Europa medieval criou espetáculos festivos de homenagem à bandeira. Duas ou mais comunidades se afrontavam, numa espécie de concurso, onde cada participante agitava e atirava sua bandeira ao ar para recolhê-la antes que caísse ao chão. Há séculos, a Suíça importou essa prática de países meridionais. Os encontros em que a bandeira é personagem central sobrevivem em alguns poucos países. Na Suíça, no entanto, faz parte do folclore nacional. É tradição cultivada com carinho e renovada em momentos especiais a cada ano.

Festa de lançamento de bandeiras clique para ampliar

Festa de lançamento de bandeiras
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A arte de atirar a bandeira ao ar chama-se «Fahnenschwingen» em alemão, «lancer de drapeau» em francês, «sbandieramento» em italiano. É exercício com regras rígidas. Não se joga de qualquer maneira. Consiste em agitar de um lado para outro uma bandeira de formato padronizado, em seguida lançá-la para cima e apanhá-la pelo cabo antes que caia ao chão. Parece simples, mas exige muito treino e técnica apurada.

O regulamento descreve 90 figuras, das quais cerca de 50 são executadas por ocasião de todo concurso. Frequentemente, os lançadores de bandeira são acompanhados por um conjunto de instrumentos de sopro típicos chamados trompa dos Alpes (Alphorn, cor des Alpes, corno alpino).

Corno dos Alpes clique para ampliar

Corno dos Alpes
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Nos tempos de antigamente, a trompa alpina ‒ cujo comprimento pode atingir 18 metros ‒ servia para comunicação à distância, num expediente análogo aos sinais de fumaça usado pelos índios de Hollywood. Nestes tempos de telefone celular, deixou de transmitir informações para dedicar-se unicamente a alegrar momentos festivos.

Ao vivo
O youtube traz alguns vídeos de arremesso de bandeira acompanhado por corno alpino. Quem estiver interessado pode dar uma espiada neste aqui (de 1min50) ou neste aqui (de 48 segundos).

Temer, Dilma, Lula

by Amarildo Lima, desenhista capixaba

by Amarildo Lima, desenhista capixaba

Fernando Gabeira (*)

Como entender o argumento de Temer contra a prisão de Lula? (…)

Se queria ajudar Lula, acabou prejudicando, pois associa sua liberdade não a presumível inocência, mas à fúria dos movimentos sociais. Se queria atemorizar os juízes, acabou provocando.

É duro substituir Dilma nos desastres verbais, mas Temer está fazendo todo o possível.

(*) Fernando Gabeira é jornalista. O texto reproduzido é parte de artigo publicado no Estadão de 18 nov° 2016.

Frase do dia — 321

«A avaliação no PT, escondida de Lula para não deixá-lo mais abatido, é que só os seus advogados ganham (notoriedade, claro) nas viagens ao exterior para falar mal da Justiça brasileira. A imagem de Lula só piora.”.»

Cláudio Humberto, bem informado jornalista, no Diário do Poder, 18 novembro 2016.

Ferrovia bioceânica

Train 4José Horta Manzano

Nossos manuais de História ensinam que, em 1822, o Brasil se liberou do «jugo» do rei português D. João VI e o substituiu pela dominação do filho, o também português D. Pedro I.

Fomos todos ensinados a ver aí um marco divisório a assinalar a transição de um Brasil dependente a um Brasil novo, independente, dono de seu destino. Despachados os «opressores», tudo o que andava entravado havia enfim de prosperar.

Não sei se os poucos letrados da então Lusitânia tropical encararam o momento como linha de largada para progresso e desenvolvimento. Gostaria de imaginar que sim, mas tenho dúvidas. Posto a andar com as próprias pernas, o Brasil trilhou um caminho de progresso pra lá de lento. Enquanto outras antigas colônias americanas foram capazes de entender que o futuro exigia mangas arregaçadas e trabalho, nossa elite continuou adepta do ócio, amparada pelo cômodo sistema escravagista.

DiligenciaNos mesmos anos 1820 que viram a ascensão de Dom Pedro I, os brasileiros continuavam sacolejando em carro de boi enquanto os cidadãos das antigas colônias britânicas da América do Norte já inauguravam suas primeiras estradas de ferro. É que eles haviam entendido que a coesão nacional e o avanço têm de se assentar em rapidez e facilidade de comunicação ‒ noções que só chegaram a nosso país muitas décadas depois.

Depois de mil peripécias e muito trabalho, a estrada de ferro transcontinental norte-americana foi inaugurada em 1869. A distância de quase cinco mil quilômetros entre a costa Atlântica e o Pacífico, que se percorria em um mês em diligência, passou a ser coberta em uma semana. Ainda hoje, passado século e meio, essa espinha dorsal contribui para a integração daquela região.

As primeiras ferrovias dignas desse nome só foram inauguradas no Brasil nos anos 1860, quando a América do Norte já estava coalhada de linhas férreas. Foi preciso esperar até 1877 para ver o Rio de Janeiro, então capital do país, conectado à cidade de São Paulo.

Estes últimos tempos, está sendo ressuscitado velho projeto de ligação transcontinental, por estrada de ferro, na América do Sul. A intenção é unir a costa atlântica brasileira ao Pacífico, atravessando o Peru. A China, no intuito de encurtar o percurso de suas trocas comerciais com nossa região, está muito interessada em bancar a construção da que agora leva o nome de Ferrovia Bioceânica.

Crédito infografia: Folha de São Paulo

Crédito infografia: Folha de São Paulo

Dada a precariedade de nossa malha ferroviária, o trabalho será imenso. Pelos cálculos elaborados por um consórcio chinês, a estrada levará nove anos para ser construída. Começará em Goiás, atual ponto final das estradas de ferro brasileiras. Daí, cruzará o Mato Grosso, Rondônia, o Acre e ‒ trecho mais problemático ‒ os Andes peruanos. Cinco mil quilômetros deverão ser implantados, o que não é coisa pouca.

Quem conhece nosso país ‒ com sua instabilidade crônica, suas contradições, seus vaivéns ‒ sabe que nove anos é prazo tipo Papai Noel: só acredita quem quiser. Nossa Ferrovia Norte-Sul, um percurso bem mais modesto cuja construção começou trinta anos atrás, ainda está longe de ser terminada.

Se ‒ e insisto no se ‒ a construção dessa ‘bioceânica’ for realmente contratada, dificilmente o distinto leitor verá a estrada concluída.

Planeta Trump

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Ouvindo as notícias de que o presidente eleito dos Estados Unidos pretende renegar a adesão ao Tratado do Clima (argumentando que o conceito de aquecimento global não passa de embuste dos chineses), suspender pagamentos a organismos internacionais de pesquisa sobre o tema e investir todo o dinheiro apenas na preservação do meio ambiente americano, tive um insight.

Já sei o que Mr. Trump pode fazer para implementar essa e todas as demais propostas polêmicas da campanha sem incomodar outros países: mudar-se de mala e cuia para um novo planeta, levando consigo todos os concidadãos que apostam na viabilidade de suas ideias políticas, econômicas, sociais e ambientais.

trump-6Soube que cientistas descobriram recentemente um planeta que fica a apenas 33 anos-luz da Terra, ao qual deram o nome de Super Terra, dada a semelhança com nosso amado planeta. Pareceu-me de imediato o lugar ideal para alojar o reino desse líder visionário. Dadas as extraordinárias dimensões do novo planeta, não haveria problema para nele acomodar boa parte da população dos Estados Unidos e de vários outros países aliados – como ingleses que aderiram ao Brexit, russos simpáticos à invasão da Ucrânia, franceses apoiadores do clã Le Pen, etc.

Evidentemente, o planeta seria rebatizado de Planeta Trump para concretizar o sonho do idealizador: deixar de ser apenas o presidente de uma potência ocidental e se tornar dono do mundo. Já pensei até nos critérios de triagem de imigrantes terráqueos. Para lá seriam enviados exclusivamente:

•   Cidadãos americanos natos, desde que comprovada sua origem ‘wasp’ [isto é, descendentes de anglo-saxões brancos e protestantes]. Europeus provenientes de países ricos poderiam eventualmente se candidatar numa segunda fase, bastando apenas comprovar situação financeira estável e pertencimento aos estratos sociais superiores em seus respectivos países. Africanos e “latinos” teriam suas candidaturas automaticamente descartadas em função das premissas acima.

planeta-2•   Basicamente homens em idade produtiva. Mulheres só seriam aceitas caso aceitassem dedicar-se exclusivamente à procriação e/ou ao entretenimento masculino. Crianças seriam acolhidas somente em caráter temporário e, quando atingissem a maioridade legal, deveriam jurar fidelidade irrestrita ao fundador do novo mundo. Todo e qualquer cidadão trumpês seria automaticamente reenviado à Terra ou solto no espaço quando atingisse a idade da aposentadoria.

•   Profissionais dispostos a ocupar, sempre que necessário, cargos braçais e outros ofícios sem qualificação como: vendedores, atendentes e operadores de telemarketing, postos que eram anteriormente destinados a imigrantes ilegais.

•   Fiéis de várias denominações cristãs. Os adeptos de filosofias religiosas orientais seriam sabatinados para investigar a viabilidade de convivência pacífica com a doutrina oficial. Em nenhuma hipótese, seriam aceitos seguidores da fé islâmica.

•   Heterossexuais assumidos que jurassem preferir a morte ao engajamento em práticas homossexuais de qualquer espécie e que aplicassem rigidamente as mesmas regras a seus descendentes.

planeta-1•   Pessoas que declarassem apoiar, incentivar e valorizar o aumento do poderio bélico do Planeta Trump e que não objetassem a seu direito de conquistar militarmente outros planetas.

•   Civis defensores do direito de posse irrestrita de armas para defesa pessoal e militares submissos ao poder central do novo império.

Concluídas com sucesso as primeiras etapas de colonização do novo planeta, novas regras poderiam ser agregadas e as anteriores, revistas. Em princípio, seriam declaradas como prioridades:

•   Explorar ao máximo os recursos naturais do novo planeta, sem restrições, já que não haveria opositores a exigir satisfação nem questionamentos quanto a um futuro sustentável. Se necessário, outros planetas poderiam vir a ser utilizados em substituição, sempre que algum problema ambiental assim o exigisse.

•   Enquadrar os empreendimentos comerciais, em especial os da área de entretenimento, como os cassinos, como fontes vitais de progresso e bem-estar social.

•   Desconsiderar as exigências de atendimento público de saúde, uma vez que trabalhadores sem as condições físicas ideais poderão ser substituídos com vantagem por robôs.

planeta-3Finalmente, a medida estratégica mais relevante a ser implementada: caso o líder máximo do trumpismo viesse a adoecer ou falecer durante o processo de ocupação do novo mundo, seus descendentes assumiriam automaticamente o comando. Qualquer pessoa que se opusesse à perpetuação da família Trump no poder seria enviada a campo de trabalho e condenada a escutar para sempre os discursos originais de Melania Trump.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Pensando bem – 12

José Horta Manzano

0-Pensando bem

A cada dia que passa,
Que chova, vente ou sol faça,
A gente sabe que tem
Um movimento dos sem.

Tem quem se diga sem-terra,
Tem quem se diga sem-casa,
Tem quem se diga sem-teto.
A gritaria atanaza
E o povo todo se atrasa

Mas basta pensar um pouco:
Não precisa ficar rouco.
Só quem grita é que se ferra.
Pensando, a gente não erra.

Deixando os considerandos
E chegando aos finalmentes,
Convém esquecer os bandos,
Que é pra não ficar dementes.

O que falta não é terra
Não adianta abrir berreiro.
Refletindo, não se erra.
O que eu digo é verdadeiro.
O que falta não é teto:
O que falta é dinheiro.

Deodoro, o arrependido

Marco Antonio Villa (*)

Sou um soldado, um velho soldado. Aprendi em casa com os meus pais que os interesses do Brasil estão sempre em primeiro lugar. Perdi três irmãos na guerra do Paraguai: Hipólito e Afonso, que morreram na batalha de Curupaiti, e Eduardo, que tombou em Itororó ‒ todos no mesmo ano.

Minha querida mãe, dona Rosa, ao receber a notícia da morte dos filhos, só quis saber se tinham morrido com honra. Fiquei cinco anos na guerra. E voltei com mais dois irmãos que lá lutaram. Gosto de brincar dizendo que devo a minha carreira ao [ditador paraguaio] Solano López.

Quando vejo o que acontece no Brasil, dá um desânimo… Uma vez disse que gostaria de pegar os ministros e levá-los à praça pública para que o povo os julgasse. E em seguida iria ao Parlamento e exporia as razões do meu gesto. Vejam que não há nada mais antipolítico do que isso. Mas sou assim.

Sou militar e não compartilho a forma como os políticos tratam o governo. Não gosto da forma como os partidos agem. Já fui presidente e não entendo nada de confabulações ou acordos políticos. Na verdade, não é que não entendo, é que os acordos geralmente envolvem transações que meu espírito de militar repugna.

marechal-deodoro-2Vocês sabem que até cheguei a fechar o Congresso Nacional ‒ a bem da verdade, não fui o único, e muita gente pensa nisso até hoje. Queriam votar uma lei sobre crimes de responsabilidade para me atingir. Logo eu, que moro na mesma casa há anos, não tenho filhos e nunca fui acusado de nenhum delito no trato da coisa pública.

Lembro até de um quadro que me foi ofertado. Dias depois vieram cobrar um favor e recordaram do presente. Imediatamente paguei o quadro, porém fiz questão que o finório assinasse um recibo.

Mas eu estava falando do Congresso. Foi reaberto duas semanas depois pelo Floriano [Peixoto]. Antes, renunciei à presidência. Deixei claras minhas razões: «Assino a carta de alforria do derradeiro escravo do Brasil».

Certamente, alguém deve estar perguntando por que quero novamente ser presidente. Bem, peço desculpas por ficar lembrando a toda hora o que fiz, mas há muito tempo disse que República, no Brasil, é desgraça completa.

(*) Marco Antônio Villa é historiador e comentarista político. O texto reproduzido é parte de artigo publicado há dez anos. A íntegra está aqui.

Viva a República?

José Horta Manzano

Qual é a diferença entre religião e seita? Religião é uma seita que deu certo. Parece cínico, mas assim é. Tome o cristianismo, por exemplo. Dois mil anos atrás, não passava de seita ‒ uma dissensão do judaísmo ‒ cujos fiéis eram obrigados a praticar às escondidas. O tempo passou, o número de fiéis cresceu e o reconhecimento público acabou por chegar. A consagração da seita veio quando o imperador romano Constantino a impôs como religião oficial de Estado. Pronto: o estatuto de religião estava adquirido.

D. Pedro II óleo de Delfim da Câmara (1834-1916)

D. Pedro II
óleo de Delfim da Câmara (1834-1916)

No calendário oficial brasileiro, comemora-se hoje o que se convencionou chamar de Proclamação da República, ou seja, a substituição do regime monárquico pelo republicano. Na escola, nos ensinam que, assim como quem não quer nada, um chefe militar chamado Manuel Deodoro da Fonseca, num dia em que se tinha levantado adoentado e de mau humor, dirigiu-se ao Paço Imperial e intimou ao imperador que descesse do trono porque a monarquia estava extinta.

Não passava de quartelada, descarado imbróglio oportunista apimentado com ignorância, desavenças pessoais, vinganças políticas e mal-entendidos. Dado que o imperador, homem pacífico e de bom senso, se recusou a acionar a tropa para defender o trono, o golpe militar deu certo. Nem os mentores imaginavam que a transição pudesse ser tão tranquila.

Embora tenha sido tramado em segredo por um punhado de conspiradores sem nenhuma participação popular, o estratagema foi bem-sucedido. Tanto o chefe de Estado quanto o governo inteiro foram derrubados à força, sem processo, sem impeachment, sem plebiscito. Como deu certo, comemora-se.

Primeiro (e único) número do Boletim da Republica Brasileira celebrando o 1° anno da luz (?)

Primeiro (e único) número do Boletim da Republica Brasileira
celebrando o 1° anno da luz (?)

No entanto, que se saiba, o novo regime não resolveu nenhum problema do país. Pelo contrário, o desaparecimento de um chefe de Estado permanente, garantido e de pouca influência no dia a dia da nação só fez aumentar a instabilidade. Eliminada a âncora, o barco balouça, aderna e ameaça soçobrar.

É certo que um descendente de Dom Pedro II ‒ engessado por uma Constituição e dotado de poder meramente representativo ‒ na chefia do Estado teria sido melhor que um Lula ou uma Dilma. Aliás, esses dois trágicos personagens da história recente deixam patente que nossa República, apesar da insistência dos livros de História, francamente não deu certo. É golpe que se prolonga há 127 anos. É religião que não chegou lá: continua no estágio de seita. Desde 1889, tentam nos vender a imagem de que nosso regime republicano é melhor que o monárquico. Continuo desconfiando que não é bem assim.

A roca, o fuso e a liberação condicional

José Horta Manzano

«Na prática, a teoria é outra» é máxima que se comprova a cada santo dia. É sempre fácil dizer «eu faço, eu aconteço, eu arrebento». Chegada a hora do vamos ver, a coisa costuma mudar.

Nossa lei penal estipula penas severas de privação de liberdade. A pena capital, o degredo, a perda da nacionalidade, os trabalhos forçados e os castigos físicos, hoje inconcebíveis, são considerados medievais no mundo civilizado. Assim mesmo, comparado à legislação de outros países, nosso Código Penal tem a mão pesada. Essa é a teoria.

codigo-penal-1Na hora do vamos ver, porém, nossa prática se afasta um bocado do espírito do legislador. Tornozeleira eletrônica, delação premiada, prisão domiciliar, indulto de fim de ano, saída temporária, folga no Dia dos Pais, folga no Dia das Mães ‒ todos esses expedientes suavizam a aplicação da pena. A mão do legislador já perde muito do peso inicial.

O mais perturbador é o abuso da prática de encurtar a pena. Um criminoso, ao ser condenado a pesada pena de 12 anos de prisão, já vai fazendo as contas: se nenhuma catástrofe acontecer, dentro de 2 anos estará livre, leve e solto. De fato, é generalizado o entendimento de que, cumprido 1/6 da pena nominal, a prisão em regime semiaberto pode ser solicitada. Para entender a extensão da pena de prisão no Brasil, um estudioso estrangeiro tem de percorrer o Código Penal com a calculadora na mão. Precisa dividir a pena por seis para encontrar o tempo de encarceramento efetivo. Essa discrepância entre teoria e prática lança discrédito sobre todo o sistema.

Suíça: concessão de liberdade condicional

Suíça: concessão de liberdade condicional

Em outras terras, não funciona assim. Na Suíça, na França e em grande parte dos países europeus, o condenado tem de cumprir pelo menos 2/3 da pena em regime fechado sem sonhar em deixar a prisão ‒ esse é ponto pacífico. Somente a partir daí, pode pleitear liberação condicional. O juiz de aplicação de penas aprecia caso a caso e é soberano para conceder ou não o benefício.

Estes dias, a televisão suíça mostrou uma disparidade de apreciação entre juízes de diferentes regiões do país. Cumpridos os 2/3 da pena, todo prisioneiro costuma pedir liberação condicional. A Justiça da parte oriental do país (germanofalante), mais condescendente, costuma deferir 83% dos pedidos. Já no oeste (francofalante), apenas 57% dos condenados são autorizados a progredir para o regime semiaberto ‒ os demais continuam atrás das grades.

A roca

A roca

Razões diversas explicam essa disparidade, desde fatores culturais até o fato de determinadas regiões se encontrarem mais próximas das fronteiras e assim mais expostas a criminosos «de passagem». Conceder semiliberdade a não-residentes equivale a soltá-los na natureza e deixar que cruzem a fronteira para não mais voltar.

O que impressiona na maneira brasileira de aplicar a lei é o divórcio entre pena nominal e prisão efetiva. Temos visto gente fina que, condenada a longos anos de prisão no âmbito da Operação Lava a Jato, é autorizada a voltar pra casa imediatamente como prêmio por ter delatado cúmplices. Outro fato que não deixa de surpreender é o daquela moça que, ainda que condenada por ter mandado matar pai e mãe, tenha tido direito a liberdade temporária no… Dia das Mães.

Fuso de roca

O fuso

Cada terra com seu uso, cada roca com seu fuso. Mas há fusos que picam mais que outros.

O Toblerone adaptado

José Horta Manzano

Você sabia?

Curiosamente, o pai do Toblerone não chegou a ver nascer o filho. Jean Tobler (1830-1905), nascido Johan Jakob Tobler, confeiteiro de profissão, abriu uma chocolataria em Berna, Suíça em 1867. Nos primeiros anos, Herr Tobler preparava seus confeitos com chocolate bruto comprado fora. Lentamente, conforme os negócios foram progredindo, veio a ideia de produzir seu próprio chocolate a partir de cacau importado. A fábrica Tobler foi inaugurada em 1899, fruto da associação entre o confeiteiro, seu filho Theodor e o sobrinho Emil Baumann. Mas o Toblerone ainda não havia sido inventado.

toblerone-6Após a morte do patriarca, os negócios da chocolataria continuaram. Por ocasião de uma viagem ao sul da França em 1908, Theodor Tobler provou o que os franceses chamam nougat, conhecido como torrone na Itália e turrón na Espanha. É um puxa-puxa à base de amêndoa, pasta de amêndoa e mel. Encantado, trouxe uma amostra para o primo experimentar. Foi amor à primeira vista.

Tiveram logo a ideia de acrescentar chocolate à receita pra ver no que dava. O resultado foi além de toda expectativa: de-li-ci-o-so. Veio aí a sacada de mestre. Em vez de apresentar a novidade em formato tradicional, escolheram moldá-la como barra comprida, com perfil alternando altos e baixos, de maneira a não encarecer demasiadamente o produto e a torná-lo mais fácil de partir em pedaços. É o primeiro chocolate em barra de que se tem notícia.

toblerone-5A fama do novo produto cresceu lentamente. A partir dos anos 60, com a fábrica já comandada pela terceira geração, novidades começaram a ser introduzidas. Veio primeiro o Toblerone amargo, em seguida o branco, o recheado, o de formato miniatura. Hoje, há mais de uma dezena de variedades, umas com isto, outras com aquilo.

Ao atingir certa massa crítica, toda empresa tende a ser passada adiante. Raras são as firmas colossais que permanecem sob controle familiar. A Tobler não escapou. Faz alguns anos, foi vendida a uma gigantesca multinacional americana. No entanto, ninguém mexe em time que está ganhando. Embora exportadas em mais de cem países, as barras continuam a ser fabricadas em Berna. Os novos donos compreenderam a importância que o carimbo «Made in Switzerland» acrescenta à imagem do produto.

toblerone-7Estas últimas semanas, o Toblerone voltou às manchetes no Reino Unido. A decisão de abandonar a União Europeia teve, como consequência imediata, forte desvalorização da libra esterlina. Tudo o que é importado ‒ como o chocolate Tobler ‒ ficou mais caro. Para contornar o problema, o fabricante passou a produzir, especialmente para o mercado britânico, um formato modificado. Cada barra contém menos chocolate, mas o preço antigo permanece. Os ingleses não apreciaram a mudança, mas… que fazer?

suisse-27-bern

Brasão de Berna

A origem do nome
Toblerone é resultado da junção do sobrenome Tobler com o final da palavra italiana torrone.

toblerone-4O urso
O símbolo de Berna é o urso, cujo nome em alemão é bär (pronúncia: bér). O logotipo do Toblerone mostra a imagem estilizada do monte Matterhorn (= Cervin ou Cervino). Escondido no claro-escuro do desenho, percebe-se um urso. Além disso, as cinco letras que formam o nome Berne estão incluídas na palavra Toblerone ‒ na ordem correta. Estão lá para lembrar ao consumidor a origem do produto.

Atirando no escuro

José Horta Manzano

Umas profissões são arriscadas; outras, mais tranquilas. Um policial, um acróbata, um alpinista, um repórter de guerra correm perigo maior do que um contador, um agrimensor, um pizzaiolo ou um técnico em informática.

Assim mesmo, arriscada ou não, toda profissão pode dar a quem a exerce momentos de júbilo ou de frustração grande. Tomemos, por exemplo, a advocacia penal. Pode ser fonte de alegria e satisfação para o profissional quando o veredicto é favorável a seu cliente. Caso contrário, traz decepção, chateação e aflição.

escrita-7O ofício de articulista e o de analista ‒ falo desses que escrevem artigos para a grande mídia ‒ pode às vezes dar motivo a desapontamento. Quando algum acontecimento se está inexoravelmente aproximando, artigos costumam ser escritos antecipadamente. À medida que personalidades conhecidas vão envelhecendo, necrológios já vão sendo preparados. Dormem na gaveta das redações. (Hoje é mais adequado dizer que ficam armazenados em pastas de computador, mas dá no mesmo.) Assim que chega a notícia do falecimento, não precisa correr à Wikipédia à cata de pormenores da vida e do instinto do distinto extinto. Basta acrescentar algumas linhas ao esboço para dar o fecho. Não é cinismo, que a vida é assim mesmo.

Passadas as eleições americanas, pelas quais todo o planeta se interessou, chegou o tempo das análises. Todas as previsões e palpites davam como certo o final. Seria o relato da história, da glória e da vitória de Hillary Clinton. É de imaginar que, previdente, a maioria dos comentaristas já houvesse preparado artigos, às vezes com semanas de antecedência. Estavam os papéis prontos para publicação quando… paf! Contra todos os prognósticos, venceu Trump.

escrita-6Fico imaginando as resmas de papel atiradas ao lixo. Tiveram todos de costurar à pressa artigo novinho. Saíram no encalço do vencedor pra relembrar excesso, progresso e sucesso do inconfundível, irascível e imprevisível bilionário. As rimas são propositais, tanto o personagem é ativo, permissivo e agressivo.

Pensando bem, é mais cômodo escrever elogio fúnebre. A personalidade, seja ela quem for, acaba morrendo um dia, é certeza. Agora basta aos que escreveram sobre Mrs. Clinton guardar o material numa pasta. Um dia, é garantido que vai servir.

Frase do dia — 321

«Surpreendentemente, não houve nota oficial depois dos encontros de Michel Temer com o imperador Akihiro e com o primeiro-ministro Shinzo Abe, em Tóquio. O secretário-geral do Itamaraty, Marcos Galvão, descobriu na última hora que o texto acordado entre os dois países continha uma casca de banana: o apoio aos japoneses na disputa pelo Mar da China. Isso criaria sérios problemas com os chineses, maiores parceiros comerciais do Brasil. A nota foi parar no lixo.»

Eliane Cantanhêde, em sua coluna do Estadão, 11 nov° 2016.

O comandado

José Horta Manzano

Por mais que a seleção brasileira de futebol conte com estrelas de renome planetário, quem seleciona e convoca jogadores é o técnico. Cabe a ele, pelo menos em princípio, orientar a equipe, formular a estratégia de cada partida, incentivar a turma.

O técnico, sobre o qual pesa enorme responsabilidade, se esforça para exercer comando sobre a Seleção.

Chamada do Estadão, 11 nov° 2016

Chamada do Estadão, 11 nov° 2016

Como todos os demais jornais, o Estadão publicou artigo sobre o clássico Brasil x Argentina, disputado ontem no Mineirão. No entanto, o subtítulo desorienta o leitor. Dá recado trocado. Diz o contrário do que tencionava dizer.

De fato, informa que o festejado técnico está sendo comandado pela equipe. Estranha situação. Levada a sério, a frase conta que quem dá as ordens é a Seleção e que o orientador está sob seu comando. Trocaram os pés pelas mãos.

Deveria estar escrito que o «técnico emplaca cinco vitórias no comando». Pelo menos, é o que se imagina.

O onze de novembro

José Horta Manzano

Você sabia?

Hoje, 11 de novembro, comemora-se o armistício que pôs fim à carnificina que os franceses conhecem como «la Grande Guerre». Falo da Primeira Guerra Mundial, que durou de 1914 a 1918 e deixou 9 milhões de mortos e 8 milhões de inválidos. Dá uma média de seis mil mortos por dia ou 250 por hora.

Esses números não levam em conta 8 milhões de cavalos ‒ utilizados então como animais de guerra ‒ dos quais 1 milhão morreu, numa média de setecentos a cada dia.

Passados noventa e oito anos, não sobra mais nenhum dos antigos combatentes. Os últimos sobreviventes já se foram alguns anos atrás, todos com idade em torno dos 110. Acabou-se a guerra, foram-se os combatentes, não sobra quase nenhuma testemunha daquele tempo. Mas o perigo continua.

Obus da guerra 1914-1918 não-explodido

Obus da guerra 1914-1918 não-explodido

Calcula-se que 15 milhões de toneladas de projéteis (bombas, obus, granadas, foguetes, balas) tenham sido lançados durante os quatro anos de conflito. Boa parte dessa munição não explodiu. Fala-se em 15% de material não-deflagrado, parafernália que continua lá, enterrada a alguns metros ou a poucos centímetros da superfície.

No norte da França, na região onde se travaram batalhas importantes, agricultores e operários da construção ainda encontram, a cada ano, mil toneladas de explosivos que deram chabu. O perigo que essa munição representa é considerável. Explosão espontânea por ocasião de incêndio florestal ou de grande calor pode ocorrer. Risco de vazamento tóxico devido à corrosão do material é importante. O lençol freático periga ser contaminado.

Como pode o distinto leitor constatar, perigos permanecem latentes, como recordação sinistra de uma guerra absurda que terminou cem anos atrás. Aliás, toda guerra é absurda.

Quando os netos de nossos netos forem velhinhos, a humanidade ainda estará sob risco de ser vítima da munição que está sendo atirada hoje nalgum dos numerosos campos de batalha do planeta.

Bala perdida mata na hora. Bomba enterrada pode explodir o neto de quem a mandou lançar.

Tempo de chutar todos os baldes

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Para meu supremo desgosto, pareço ter me transformado em uma espécie de Mãe Dinah de segunda classe. Ultimamente tenho tido visões catastróficas às dezenas, pressentimentos esdrúxulos e premonições que me enchem de pavor ainda que nem sempre se concretizem. Quando minhas previsões pessimistas falham, não sinto pudor em alegar que o mal foi desviado graças a meu poder espiritual. Em última instância, culpo minha própria incapacidade de decodificar de maneira correta as mensagens recebidas de meus guias.

Ainda ontem tive um pesadelo que me deixou abalada o dia todo. Nele, encontrava na rua o marido de uma amiga. Ele estava de pé, descontraído, parado em frente a um ponto de ônibus, visivelmente mais magro. Recentemente, essa amiga tinha me confidenciado que ele estava muito doente e havia se mostrado abatida com as frágeis perspectivas de solução do quadro médico. Embora eu e ele tenhamos conversado poucas vezes e somente sobre temas do cotidiano, no meu sonho ele parecia feliz por me reencontrar e mostrava-se confortável na minha presença, como se fossemos velhos amigos. Olhando para sua figura serena e percebendo a luz que emanava de seu rosto sorridente, perguntei como tinha evoluído seu quadro de saúde. Ele me olhou confiante e respondeu: “Ah, muito bem! Alcancei tudo o que eu queria”.

freud-1Ao acordar, me perguntei se o sonho podia ser interpretado como sinal de bons presságios ou se tudo não passava de uma forma de ele me usar como mensageira de seu último desejo de tranquilizar o coração da companheira. Passei o dia tentando espantar as nuvens sombrias da segunda alternativa, sem sucesso. Me intrigava a sensação de coração apertado diante de uma situação que não me dizia respeito diretamente, envolvendo pessoas com quem não tenho muita intimidade.

Recorri a Freud na tentativa de descortinar as motivações inconscientes que estavam em jogo. Se, como dizia o velho Sigmund, os sonhos são a realização distorcida de um desejo, quem ou o que eu estava querendo matar? A opressão masculina, a fé nos milagres, a desconfiança da capacidade humana de amorosidade duradoura ou, quem sabe, o poder da intuição feminina? Seja como for, nenhuma das interpretações possíveis me convenceu. Apelei ao plano espiritual. Acendi uma vela e rezei pedindo iluminação.

Também não resolveu. Embora me sentisse um pouco mais tranquila, fui me deitar ainda abrigando no peito a sensação de impotência para alterar os rumos de qualquer coisa, fosse o de minha vida ou o de qualquer outro destino. A última coisa que ouvi antes de fechar os olhos foi o relato da apuração dos votos da eleição presidencial em alguns Estados americanos.

Por volta das quatro horas da madrugada, despertei num pulo, com o coração batendo apressado e angustiado. A primeiríssima ideia que cruzou meu cérebro foi: Donald Trump ganhou as eleições! O pensamento me encheu de pavor: tinha o gosto de pesadelo inaceitável, era como estar vivendo os minutos que antecedem a declaração da Terceira Guerra Mundial. Em segundos, percorri mentalmente as reações inflamadas dos líderes dos países mais influentes do globo. Cenas de guerra, terrorismo, destruição ambiental, caos econômico, intolerância religiosa, milhões de pessoas protestando nas ruas, tudo veio à tona de forma devastadora.

cama-1Ainda tentei me confortar, dizendo para mim mesma que imaginar toda essa catástrofe podia ser mera decorrência de uma crise de hipoglicemia. Para quem nunca passou pela experiência, explico: quando falta glicose na corrente sanguínea, o cérebro chama para si os últimos resíduos na tentativa desesperada de preservar a si mesmo. As consequências são apavorantes: taquicardia, tremores incontroláveis por todo o corpo, suor frio e sensação de morte iminente.

Levantei, fui à cozinha, tomei água e comi tudo que pudesse rapidamente se transformar em açúcar. Não adiantou. Arrepios continuavam a percorrer minha coluna e a sensação de desamparo não me deixou. Voltei para a cama e me encolhi, agarrada às cobertas, como se elas fossem uma espécie de tábua de salvação. Demorei a retomar o sono e, para espantar a angústia, fiz mais uma vez um pedido silencioso aos santos para não ter de passar por essa provação.

Ao acordar, liguei ansiosa o computador. A imagem que tomava toda a tela de um homem sorridente de topete prescindia de explicações: o desastre estava consumado. Passado o sobressalto, uma luz brilhou no fundo do meu cérebro: as cartas estavam todas na mesa havia muito tempo ‒ como é que eu não havia percebido antes? Minhas experiências paranormais não eram profecias, representavam apenas minha recusa em apostar na minha própria sensibilidade. O recrudescimento do conservadorismo em todo o mundo, a irritação generalizada com os movimentos de imigração em massa e com os efeitos danosos da globalização, o Brexit, a turbulência no Mercosul, a descrença na democracia representativa, o desprezo por tudo que é sinônimo de racionalidade, bom senso e politicamente correto.

Milagrosamente, tudo entrou nos eixos e eu me acalmei. Percebi que de nada serve ficar exorcizando o que acontece fora de mim. A esperança, se é que existe, é ser capaz de mudar o que está dentro. Pode ser que os quatro cavaleiros do Apocalipse já estejam, sim, em marcha, mas não só no mundo externo. Eles fincam suas esporas no lombo da animalidade que habita o coração de cada um e que secularmente temos nos recusado a admitir.

"Ālea iacta est" ‒ frase que Julio Cesar teria lançado ao cruzar o Rio Rubicão

“Alea iacta est” ‒ “A sorte está lançada” :   Julio César ao cruzar o Rio Rubicão

Vivemos a era das “selfies” emocionais, para o bem e para o mal. Só estamos focados em nossos próprios umbigos e repetimos com orgulho diante do espelho: meu desejo é soberano, minha visão de mundo tem de prevalecer, que se danem os que pensam diferente de mim, cansei de me deixar arrastar pelas preferências da maioria.

Já é hora de todos os profetas colocarem suas barbas de molho. O futuro é definitivamente imprevisível, a ação humana não tem o poder de alterar o que está escrito nas estrelas. Alea jacta est. Maktub.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Uns que choram

José Horta Manzano

A queda do Muro de Berlim e o esfacelamento da União Soviética provocaram uma onda de choque que varreu todo o leste europeu. Durante os anos que se seguiram, os países satélites da URSS sentiram que era chegado o momento de reaver a independência perdida no epílogo da Segunda Guerra.

Chamada da mídia eslovena, 9 nov° 2016

Chamada da mídia eslovena, 9 nov° 2016

Um a um, foram todos retomando a soberania que havia sido posta de molho durante mais de quarenta anos. A Iugoslávia, embora não sendo propriamente um «satélite», foi palco de processo mais traumático que os demais. Guerras fratricidas ensanguentaram a região durante anos. Ao final, a federação explodiu e deu lugar a meia dúzia de pequenos países independentes.

Entre eles, está a Eslovênia. Apesar do território exíguo e da população diminuta ‒ ou talvez por causa disso ‒, separou-se mais tranquilamente que os vizinhos. Quando, por plebiscito, os eslovenos optaram pela independência, o poder central iugoslavo fez menção de invadir o novo Estado. Mas o conflito durou pouco. Em poucos dias, sob pressão da Comunidade Europeia, um tratado selou a separação e pôs fim às hostilidades.

Chamada da mídia eslovena, 9 nov° 2016

Chamada da mídia eslovena, 9 nov° 2016

O território esloveno é pouco menor que o de Sergipe. A população do país não passa de dois milhões de pessoas. Assim mesmo, o PIB por habitante é quase o dobro do brasileiro. O país é tranquilo, com paisagens muito bonitas, um daqueles lugares de que pouco se fala, onde raramente acontece algo importante.

Estes dias, enquanto eventual eleição de Donald Trump assustava muita gente, as expectativas na Eslovênia divergiam do resto do mundo. A razão é peculiar: a eslovena Melania Trump (nascida Melanija Knavs) será a nova primeira-dama americana pelos próximos quatro anos. A ex-modelo está casada há onze anos com o presidente eleito.

Chamada da mídia eslovena, 9 nov° 2016

Chamada da mídia eslovena, 9 nov° 2016

Ao falar de Trump, a mídia eslovena nunca perde a ocasião de dirigir os holofotes para Melania. Se os cidadãos do pequeno país pudessem ter votado, Trump teria sido eleito por maioria staliniana se não por unanimidade.

Uns que choram, outros que riem. E vamos em frente.