A invasão de Ceuta

Bandeira de Ceuta
Credit: Ulaidh, CC BY-SA 4.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=3951546

José Horta Manzano

Ceuta é um exclave da Espanha, um pequeno território situado no norte do continente africano, espremido entre o Marrocos e o mar. É parte integrante da nação espanhola, embora não se possa chegar lá por terra a partir do território espanhol. A única ligação entre Ceuta e o território nacional é feita por barco, a partir do porto de Algeciras, numa travessia de aproximadamente uma hora.

Ceuta é também o nome da cidade que ocupa o exclave. Tem cerca de 85.000 habitantes. O território já era ocupado desde a Antiguidade. Depois da invasão da Espanha pelos conquistadores árabes, foi passando de mão em mão, ao sabor da ascensão e queda de pequenos emirados e califados. Expulsos os mouros, portugueses se apossaram de Ceuta em nome da coroa.

O Tratado de Tordesilhas – aquele que dividia o globo entre Espanha e Portugal – reconhecia Ceuta como território português. Como aprendemos na escola, devido a um problema de sucessão, o reino de Portugal foi absorvido pelo reino de Castela, numa união que durou de 1580 a 1640. Ao final desse jejum forçado, quando Portugal se livrou da Espanha e recobrou a independência, Ceuta ficou no meio do caminho e não acompanhou o movimento.

Portugal, naquela altura entretido com suas colônias americanas, não fez questão de lutar por Ceuta. Assim, desde 1640, o exclave pertence à coroa espanhola. Como lembrança do tempo dos portugueses, a bandeira de Ceuta traz até hoje, encravado no centro, o brasão de Portugal, com seus característicos 5 escudos azuis.

A impressionante “invasão” de Ceuta, sexta-feira passada, por dezenas de milhares de jovens marroquinos é resultado dramático de um mal-entendido. Em princípios de julho, o Tribunal Supremo espanhol emitiu o que chamaríamos de “súmula vinculante”. Sacramentou o entendimento de que não se pode rechaçar imediatamente o migrante que chegar ao território espanhol a nado ou de barco.

Numa leitura equivocada, jovens marroquinos imaginaram que isso significava “porteira livre”, ou seja, quem chegar será recebido. Pelas redes sociais, convocaram uma espécie de Festa da Selma ao molho do Marrocos, com o propósito de chegarem todos juntos a Ceuta, a porta de entrada do “eldorado” europeu.

Faltou combinar com o exército espanhol, a polícia e a população da cidade. Alguns dos adolescentes levaram duas horas na travessia, outros nadaram quatro horas. Dado que muitos nem sabiam nadar direito, a taxa de mortalidade foi cruel: deixou uma centena de cadáveres pelo caminho.

Ainda que, por hipótese, quisessem acolher todos os recém-chegados, os ceutenses não teriam condições de fazê-lo. Contagem por alto informa que os chegantes daquele dia equivaliam à totalidade da população da cidade. Como é fácil imaginar, uma cidade pequena não tem condições de ver dobrar seu número de habitantes da noite para o dia.

Desenxabidos e com fome, os jovens marroquinos deram marcha à ré a partir da manhã seguinte. Entenderam que não ia dar pra permanecer. Fica para uma próxima tentativa. Foram-se todos.

Ao assistirem às imagens da chegada dos migrantes, dirigentes europeus se assanharam, principalmente os de direita e extrema-direita. Com estardalhaço, a italiana Giorgia Meloni anunciou o fechamento da fronteira italiana para os viajantes provenientes da Espanha, com exceção dos europeus. Como se fosse possível verificar um por um.

É que as dramáticas imagens provenientes de Ceuta correspondem exatamente ao medo que a extrema-direita europeia instila em seus adeptos: o medo de uma invasão de morenos não cristãos, que viria eliminar a civilização cristã e implantar uma versão bárbara e primitiva do islamismo.

Toda corrente de extrema-direita, seja ela liderada por Trump, Bolsonaro, Meloni ou qualquer outro, se alimenta do medo de um inimigo comum, de preferência externo. Hitler havia dado aos judeus e ciganos o título de inimigos da nação. Trump elegeu os latino-americanos. Os Bolsonaros, na falta de estrangeiros para incriminar, veem inimigo em qualquer um que não pense como eles.

No fundo, quem devia se envergonhar da invasão de migrantes marroquinos é o próprio rei do Marrocos, Maomé VI (Mohammed VI). Cabe a ele fazer o necessário para dar instrução profissionalizante aos jovens do país e ensinar-lhes pelo menos a língua inglesa. Preparar sua juventude para um futuro melhor é tarefa dele, não de dirigentes estrangeiros.

Somos todos migrantes

Eduardo Affonso (*)

Existimos porque o Homo sapiens deixou a África e ganhou o mundo. Não havia, então, postos de fronteira, fossos, muros, passaportes. O ser humano circulava como ainda hoje fazem as outras espécies. Seguia adiante porque via um horizonte, e uma alternativa além dele.

Chegamos a novos continentes, movidos pelas mesmas esperanças com que hoje milhares de refugiados se lançam ao Mediterrâneo, cruzam a selva, atravessam rios e desertos: para sobreviver, escapar à dor, reconstruir a vida.

Fugimos – toda migração é fuga – das cheias e da escassez, do fogo e do frio, da falta de perspectivas, da intolerância.

E, ainda assim, migrantes congênitos, demos de inventar barreiras, fronteiras e privilégios. De nos julgar senhores de uma terra prometida por nós a nós mesmos. Uma terra que acreditamos nossa apenas por havermos migrado antes dos que querem migrar agora. Ou – pior – depois de haver expulsado (ou exterminado) os que aqui estavam antes de chegarmos.

(Minha bisavó atravessou o Atlântico, grávida, num navio. Os sobrenomes que carrego no sangue – Raposo, Medeiros, Magalhães, Souza, Silva, Costa, Coelho, Carvalho, Lopes, Faria, Vianna, Leal, Jacó – contam a história de muitos adeuses, embarques, chegadas, recomeços.)

Quantos de nós não pensaram em refazer a vida num país mais decente, para escapar à crise sem fim engendrada pela cleptocracia a que estivemos submetidos por mais de uma década ou pelos necromilicianos de agora? Como não nos solidarizarmos com os que se cansaram de viver à míngua sob o “socialismo do século XXI” e se arriscam em balsas pelo Caribe ou a pé através da Amazônia? Os que tentam escapar do fundamentalismo dos talibãs ou querem deixar de ser reféns da miséria atávica do Haiti?

Volta e meia uma imagem traduz essa tragédia. O pequeno sírio-curdo Aylan, de bruços e já sem vida numa praia da Turquia. O contêiner repleto de cadáveres de chineses, abandonado na Inglaterra. O bebê passado de mão em mão até a cerca de arame farpado do aeroporto de Cabul. O agente de fronteira dos Estados Unidos – branco, a cavalo – tentando capturar o homem negro que entrara ilegalmente no Texas. E há as manchetes que nos deixam sem palavras: “Brasileira morre de fome e sede na travessia da fronteira entre México e EUA”.

Ela se chamava Lenilda. Era técnica em enfermagem. Saíra de Vale do Paraíso, Rondônia. Deixou um país construído por estrangeiros (99,5% dos brasileiros descendem de imigrantes) e decidiu seguir para onde os descendentes de estrangeiros correspondem a 98,5% da população. Ficou – como Aylan, como milhares – pelo caminho.

O imigrante traz sua força de trabalho e gera riqueza cultural e material. Acolhê-lo é um caso típico de altruísmo recíproco, um processo de cooperação em que todos saem ganhando. A alternativa à imigração não é impor obstáculos, mas investir em melhores condições de vida em seus países de origem – seja o Haiti, a Síria, a Venezuela, o Brasil. Jamais a humilhação, o abandono.

Somos todos descendentes do primeiro africano que migrou. Somos todos aquele bebê afegão, aquele haitiano que foge do homem a cavalo. Somos todos Lenilda. Todos, sem exceção.

(*) Eduardo Affonso é arquiteto, colunista do jornal O Globo e blogueiro.

Planeta Trump

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Ouvindo as notícias de que o presidente eleito dos Estados Unidos pretende renegar a adesão ao Tratado do Clima (argumentando que o conceito de aquecimento global não passa de embuste dos chineses), suspender pagamentos a organismos internacionais de pesquisa sobre o tema e investir todo o dinheiro apenas na preservação do meio ambiente americano, tive um insight.

Já sei o que Mr. Trump pode fazer para implementar essa e todas as demais propostas polêmicas da campanha sem incomodar outros países: mudar-se de mala e cuia para um novo planeta, levando consigo todos os concidadãos que apostam na viabilidade de suas ideias políticas, econômicas, sociais e ambientais.

trump-6Soube que cientistas descobriram recentemente um planeta que fica a apenas 33 anos-luz da Terra, ao qual deram o nome de Super Terra, dada a semelhança com nosso amado planeta. Pareceu-me de imediato o lugar ideal para alojar o reino desse líder visionário. Dadas as extraordinárias dimensões do novo planeta, não haveria problema para nele acomodar boa parte da população dos Estados Unidos e de vários outros países aliados – como ingleses que aderiram ao Brexit, russos simpáticos à invasão da Ucrânia, franceses apoiadores do clã Le Pen, etc.

Evidentemente, o planeta seria rebatizado de Planeta Trump para concretizar o sonho do idealizador: deixar de ser apenas o presidente de uma potência ocidental e se tornar dono do mundo. Já pensei até nos critérios de triagem de imigrantes terráqueos. Para lá seriam enviados exclusivamente:

•   Cidadãos americanos natos, desde que comprovada sua origem ‘wasp’ [isto é, descendentes de anglo-saxões brancos e protestantes]. Europeus provenientes de países ricos poderiam eventualmente se candidatar numa segunda fase, bastando apenas comprovar situação financeira estável e pertencimento aos estratos sociais superiores em seus respectivos países. Africanos e “latinos” teriam suas candidaturas automaticamente descartadas em função das premissas acima.

planeta-2•   Basicamente homens em idade produtiva. Mulheres só seriam aceitas caso aceitassem dedicar-se exclusivamente à procriação e/ou ao entretenimento masculino. Crianças seriam acolhidas somente em caráter temporário e, quando atingissem a maioridade legal, deveriam jurar fidelidade irrestrita ao fundador do novo mundo. Todo e qualquer cidadão trumpês seria automaticamente reenviado à Terra ou solto no espaço quando atingisse a idade da aposentadoria.

•   Profissionais dispostos a ocupar, sempre que necessário, cargos braçais e outros ofícios sem qualificação como: vendedores, atendentes e operadores de telemarketing, postos que eram anteriormente destinados a imigrantes ilegais.

•   Fiéis de várias denominações cristãs. Os adeptos de filosofias religiosas orientais seriam sabatinados para investigar a viabilidade de convivência pacífica com a doutrina oficial. Em nenhuma hipótese, seriam aceitos seguidores da fé islâmica.

•   Heterossexuais assumidos que jurassem preferir a morte ao engajamento em práticas homossexuais de qualquer espécie e que aplicassem rigidamente as mesmas regras a seus descendentes.

planeta-1•   Pessoas que declarassem apoiar, incentivar e valorizar o aumento do poderio bélico do Planeta Trump e que não objetassem a seu direito de conquistar militarmente outros planetas.

•   Civis defensores do direito de posse irrestrita de armas para defesa pessoal e militares submissos ao poder central do novo império.

Concluídas com sucesso as primeiras etapas de colonização do novo planeta, novas regras poderiam ser agregadas e as anteriores, revistas. Em princípio, seriam declaradas como prioridades:

•   Explorar ao máximo os recursos naturais do novo planeta, sem restrições, já que não haveria opositores a exigir satisfação nem questionamentos quanto a um futuro sustentável. Se necessário, outros planetas poderiam vir a ser utilizados em substituição, sempre que algum problema ambiental assim o exigisse.

•   Enquadrar os empreendimentos comerciais, em especial os da área de entretenimento, como os cassinos, como fontes vitais de progresso e bem-estar social.

•   Desconsiderar as exigências de atendimento público de saúde, uma vez que trabalhadores sem as condições físicas ideais poderão ser substituídos com vantagem por robôs.

planeta-3Finalmente, a medida estratégica mais relevante a ser implementada: caso o líder máximo do trumpismo viesse a adoecer ou falecer durante o processo de ocupação do novo mundo, seus descendentes assumiriam automaticamente o comando. Qualquer pessoa que se opusesse à perpetuação da família Trump no poder seria enviada a campo de trabalho e condenada a escutar para sempre os discursos originais de Melania Trump.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.