Lixo eletrônico

José Horta Manzano

Chamada do Estadão, 2 dez° 2015

Chamada do Estadão, 2 dez° 2015

Fico na dúvida quanto às intenções do autor da chamada. Pode ter sido sensacionalismo, pode ter sido má-fé. No fundo, no fundo, opto pela preguiça. Bastava fazer as contas. E olhe que não é difícil. Veja só:

O Brasil abriga 35% da população da América Latina.

Os brasileiros produzem 36% do lixo eletrônico.

A lógica foi respeitada.

COP21 e as oportunidades perdidas

José Horta Manzano

A 21a edição da Conferência Internacional sobre o Clima tem lugar em Paris. Começa hoje e termina amanhã. O nome oficial – COP – é contração da expressão COnferência das Partes. Em princípio, todas as partes interessadas na evolução do clima estão representadas. No fundo, todos os países.

Cop 21A primeira COP realizou-se em 1992 no Rio de Janeiro. Collor de Mello, nosso mandatário de então, presidia. De lá pra cá, os coabitantes do planeta já se reuniram uma vintena de vezes para discutir sobre modificações climáticas. As esperanças são sempre enormes, mas os resultados costumam desapontar. É muito difícil pôr de acordo tanta gente. Dado que os interesses de determinados países colidem com os de outros, é difícil encontrar meio-termo.

Paris está em pé de guerra. Pudera: são 195 delegações nacionais, 147 delas encabeçadas pelo chefe de Estado. Essas delegações totalizam 25.000 componentes. Outras 25.000 pessoas – repórteres, fotógrafos, cinegrafistas, cientistas e gente do ramo – completam a lista de visitantes.

Cinquenta mil hóspedes assim, da noite pro dia, não é fácil de gerir. Ainda mais numa cidade que acaba de sofrer importantes atentados terroristas. Os parisienses foram incentivados a não sair de casa na segunda-feira. Quem puder, que tire um dia de férias. As autoridades pedem que só metam o nariz na rua aqueles que tiverem absoluta necessidade.

Internacional 1Por reunir dezenas de chefes de Estado, megaconferências costumam ser palco de reuniões paralelas, conversas de bastidores. Como se sabe, grandes decisões e bons acertos costumam ser alinhavados nesses encontros fora dos holofotes.

Dona Dilma, num esforço desesperado para comprir metas fiscais, tomou a constrangedora decisão de anular viagem ao Japão e ao Vietnã programada para a semana que entra. A COP21 favorece encontros bilaterais – desde que haja vontade de ambas as partes. Seria razoável supor que a presidente se preparasse a aproveitar a estada em Paris para trocar pontos de vista com os mandatários extremo-orientais que não poderá visitar.

Dilma Evo CorreaIsso era sem contar com a influência do inefável aspone Marco Aurélio «top-top» Garcia, personagem movido por lógica pessoal, diferente da nossa e frequentemente estranha aos interesses do Estado brasileiro. Entre 146 chefes de Estado, sabem os distintos leitores quais foram os escolhidos para um bate-papo neste domingo? Apenas quatro: a primeira-ministra da Noruega, um representante do Caribe, o presidente do Equador e… o presidente da Bolívia. Para nossa política externa, a conferência universal será tão proveitosa quanto uma reunião de condomínio.

Ir até Paris (com nosso dinheiro) para encontrar-se com Rafael Correa e Evo Morales, nossos vizinhos de parede? Francamente. Tendo à mão tanta gente de maior peso para os interesses brasileiros – grandes clientes, importantes fornecedores, fortes parceiros comerciais – por que deixar passar a ocasião? É de chorar.

Reação tardia ou intencional?

José Horta Manzano

«A presidente Dilma Rousseff vai editar um decreto de programação financeira com bloqueio de R$ 10,7 bilhões em despesas discricionárias como água, luz, fiscalização da Receita, da Polícia Federal a partir de 1º de dez°. A decisão segue a orientação do TCU e põe o governo em estado de calote.»

Tricher 1Acabo de citar matéria do Diário do Poder. Se for verdade – e tudo indica que é – está aí a evidência de que nosso Executivo sulca o Mar dos Sargaços, aquele atoleiro marinho que tanto assustou navegadores no século XVI. A água entorno está coalhada de algas traiçoeiras que perigam, a todo momento, se enroscar na hélice e paralisar a nave.

Teria o distinto leitor ideia do que sejam 11 bilhões de reais? Dificilmente. Tirando meia dúzia de terráqueos do tipo Bill Gates e Warren Buffett, essa quantia está fora de nosso referencial. A imagem mais aproximada é a de um quarto cheio de notas graúdas. Do chão ao teto.

Em vez de cortar na própria carne, como seria razoável, dona Dilma decidiu cortar em carne alheia. Não cogita dispensar funcionários supérfluos nem extinguir boquinhas tão apetitosas quanto inúteis. O corte será feito em despesas essenciais como água, luz e… Polícia Federal. É sintomático.

Tricher 2Embaixadas e representações brasileiras no exterior já foram avisadas que a torneira secou. Como todos sabem, dona Dilma, alérgica a relações exteriores, considera inútil toda despesa feita nesse ramo. A menos que se destine a ditaduras companheiras naturalmente.

Já a diminuição de verbas da Polícia Federal não é de natureza ideológica – o buraco é mais fundo. Dona Dilma há de supor que a supressão de verbas vá frear o ímpeto da PF. Os do andar de cima andam apavorados com a ideia de não mais serem os eternos vencedores do jogo de cartas marcadas ao qual se acostumaram estes últimos anos.

Não é só aqui

José Horta Manzano

Dizem que os brasileiros não botam muita fé nas autoridades. É compreensível, cada um tem suas razões: gato escaldado tem medo d’água fria. Tanto já nos mentiram, que a gente já anda precavido. O não imaginamos, no entanto, é que, em sociedades menos problemáticas, o mesmo sentimento esteja presente.

Na quarta-feira, a mídia planetária deu notícia do cerco que a nata da polícia francesa tinha feito a um imóvel da periferia de Paris onde, segundo informações confiáveis, se escondia o «cérebro» dos atentados da semana passada. (Boto «cérebro» entre aspas porque, por definição, quem assassina a esmo é descerebrado.)

Metralhadora 1Na quinta-feira, a mídia planetária repercutiu a confirmação oficial das autoridades francesas. O exame de ADN (=DNA) tinha dado o veredicto: o tal «cérebro» – o chefe do bando – estava realmente entre os que tinham sido pulverizados pela polícia. Todos festejaram, mas, no fundo, cada um guardou um pezinho atrás. Será verdade mesmo? Não estariam dizendo isso só pra tranquilizar o bom povo?

Nesta sexta-feira de manhã, os jornais falados abriram com grande manchete. Está realmente confirmado que o chefe do bando estava em Paris no momento dos atentados. A prova? O registro de uma das milhares de câmeras do metrô. Distingue-se claramente o indivíduo numa das imagens, tomada minutos após as primeiras deflagrações.

Desta vez, todos acreditaram. Jornalistas não se preocuparam em disfarçar o alívio que sentiam diante da comprovação de que as autoridades não haviam mentido.

Pra você ver, distinto leitor: não é só em Pindorama que a gente toma pronunciamentos oficiais com grande precaução.

O veto do voto

José Horta Manzano

Voto 1Fala-se muito, estes dias, em acoplar ao voto eletrônico uma espécie de recibo impresso, um comprovante. Aprova-se a lei, não se aprova. Veta-se a lei, não se veta. Derruba-se o veto, não se derruba. Depois de caminho longo, parece que a lei não sai e o recibo não vem.

Ainda que viesse a ser implantado, o comprovante impresso já viria com pecado original. Se ele mencionar o nome do candidato escolhido pelo eleitor, o segredo do voto estará irremediavelmente comprometido. Se não mencionar, não terá utilidade nenhuma em eventual controle da veracidade da apuração. Em resumo, não resolve o problema.

Urna 5Até os anos 70-80, a indústria brasileira contava com um escudo de proteção contra toda concorrência estrangeira. Naqueles tempos, era muito difícil conseguir licença para importar o que fosse. Quem quisesse trazer um produto de fora tinha de provar a absoluta inexistência de «similar» nacional. A significação de «similar» nunca foi bem definida. Ficava, o mais das vezes, a cargo do funcionário da Cacex, órgão do Banco do Brasil que cuidava do assunto.

Se a política de restrição de importação teve consequências positivas, teve também sua face sombria. Do lado positivo, a dificuldade em obter componentes e produtos estrangeiros desenvolveu capacidade industrial nacional que, sem isso, teria ficado adormecida. Do lado negativo, alguns ramos da indústria, na certeza de que nenhum concorrente estrangeiro viria perturbar-lhes o sossego, afrouxaram, deixaram de investir e pararam no tempo.

Urna 2A indústria eletrônica fazia parte destes últimos. Enquanto a fabricação de componentes fervilhava lá fora preparando a revolução informática que os PCs trariam, os fabricantes nacionais cochilavam tranquilos.

Com os anos 90, veio a liberação das importações e, consequentemente, o sucateamento do que se vinha fazendo no Brasil nesse campo. Pouco habituado à automação, o brasileiro recebeu as primeiras máquinas de votar com o fervor dos principiantes. Em poucas horas, chegava-se ao resultado final da apuração, quando o costume era esperar dias e dias! Foi argumento avassalador. Em poucos anos, as maquinetas se espalharam pelo país, numa prova evidente de modernidade.

urna 4O brasileiro de hoje está habituado ao manejo de engenhocas eletrônicas e sabe que o uso delas pode ser facilmente desvirtuado. Depois de descobrir tanta falcatrua nas altas esferas, é natural que fique com um pé atrás. Por que, raios, o Brasil é o único país a adotar esse sistema? Acaso somos mais ricos, mais espertos ou mais avançados que Alemanha, Japão, EUA, Suécia, França e os demais?

Na Suíça, país que conheço bem, vota-se geralmente por correspondência, semanas antes da data final. Quem não quiser gastar dinheiro com selo, pode depositar o envelope com o voto na caixa de cartas que fica na entrada da prefeitura de cada município. Os mais tradicionalistas vão pessoalmente até o local de votação no dia final, que é sempre um domingo. Podem depositar a cédula na urna até o meio-dia. Voto eletrônico? Jamais se ouviu falar disso por aqui.

O voto escrito no papel permite contagem, recontagem, verificação. Os próprios mesários do local de votação são encarregados da apuração. Fiscais de todos os partidos são bem-vindos para acompanhar. Tudo é feito às claras, sem risco de vírus, desvio, extravio ou transvio.

by Jacques Sardat (aka Cled'12), desenhista francês

by Jacques Sardat (aka Cled’12), desenhista francês

É difícil entender a razão pela qual o Brasil persiste em negar a realidade. Comprovadamente, voto em papel é mais seguro. Quem atravanca a reintrodução do voto em papel? Será o lobby dos fabricantes de maquinetas? Ou serão – Deus nos livre! – interesses inconfessáveis? Se algum distinto leitor souber, que se manifeste.

Nem tudo o que parece é

José Horta Manzano

Dilma Obama 3Quem tem acompanhado os passos erráticos da política externa brasileira destes últimos treze anos já se convenceu de que, definitivamente, o Brasil se divorciou dos EUA. O terceiro-mundismo tornou-se marca característica do atual governo.

A malfadada aproximação com Irã, Venezuela, Nicarágua reforçou a intenção de afirmar nossa «independência política». A abertura de embaixada na Coreia do Norte e na Guiné Equatorial – países cujo povo sobrevive há décadas sob ditadura tirânica – deu ao mundo sinal claro de que o Brasil era a nova locomotiva da diplomacia, o exemplo a ser seguido, o farol dos povos oprimidos.

Em matéria de política internacional, nossa atitude de confronto não levou a nada. Foi desperdício de tempo, esforço, dinheiro e prestígio. Como já dizia o outro, o Brasil é um anão dipolomático. Em briga de gigantes, anões não têm grande chance. Pior: no campo econômico, colhemos resultado desastroso.

Nos últimos dez anos, nossas exportações de manufaturados diminuíram. Em 2005, representavam 0,85% do comércio mundial. Em 2014, desceram a 0,61% das trocas globais, uma insignificância. Foi um tombo de quase 30%, que nos rebaixou à 32a. colocação. Nessas horas, ser amigo do peito de Venezuela, Irã, Coreia do Norte e Guiné Equatorial não é de grande ajuda.

Marinha 1No entanto, por debaixo do pano, sem que ninguém faça muito alarde, continuamos cooperando com o Grande Satã, sabia? Justamente no campo militar, quem diria. Não acredita? Pois é verdade. A informação vem da Revista Forças Armadas.

O Brasil está sediando atualmente, de 15 a 24 de novembro, manobras conjuntas que reúnem oito países americanos. Nos primeiros três dias, o adestramento militar se desenvolve na Ilha do Governador; em seguida, o exercício continua na Ilha da Marambaia. Além do Brasil, sete países participam: EUA, Canadá, Chile, Colômbia, México, Peru e Paraguai. Alguém notou a ausência absoluta de todo e qualquer resquício bolivariano?

Dilma Obama 2Pois assim é. Há o discurso para a plateia e a realidade da qual não se pode escapar. Na hora do vamos ver, a fanfarrice típica de alguns vizinhos folclóricos não serve pra nada. Nosso país teria tudo a ganhar se o Planalto, imitando a Marinha do Brasil, trocasse a ideologia pelo pragmatismo. Está na hora de virar a página do ressentimento e pular, de pés juntos, no século XXI.

Denúncia espontânea?

Chamada de O Globo, 12 nov° 2015

Chamada de O Globo, 12 nov° 2015

José Horta Manzano

Como reagirá o fisco brasileiro? Só o futuro dirá. Em outras plagas, “denúncia espontânea” só é aceita enquanto as autoridades não estão cientes da sonegação. A partir do momento em que todos – autoridades e distinto público – estão a par da evasão, babau: é tarde demais.

Não tem cabimento “denunciar” fato público e notório. Será que a sociedade brasileira vai engolir mais essa?

¡Me alegro!

José Horta Manzano

Lula caricatura 2Em 2002, não éramos muitos a descrer. A grande maioria tinha esperança de que o governo do recém-eleito presidente Luiz Inácio da Silva seria benéfico. Alguns meses antes, tinha sido publicada a Carta aos Brasileiros, documento no qual o então candidato renegava a parte ideológica do programa de seu partido e se comprometia a respeitar tratos em vigor.

Pessoalmente, não acreditei. Quando a esmola é muita, o santo desconfia – já dizia minha velha avó. A maioria dos eleitores, no entanto, deu ao candidato crédito de confiança e alçou-o ao Planalto.

Não demorou muito, espocou o escândalo do mensalão. Embora ninguém antecipasse, já estavam ali delineadas as primícias do caudaloso petrolão. E sabe Deus que revelações ainda estão por vir.

Em 2002, não éramos muitos a sentir cheiro de retrocesso. Do mensalão pra cá, o cortejo dos desapontados foi engrossando. Entre descrentes e decepcionados,  somos hoje 90% da população.

Chamada da Folha de São Paulo, 11 nov° 2015

Chamada da Folha de São Paulo, 11 nov° 2015

Com alívio, abrimos os braços para receber mais um membro no clube. Não é um cidadão qualquer. Embora costume alegar que não sabia de nada, o homem sabe das coisas: é o Luiz Inácio, o mesmo que já presidiu o Executivo.

Assinou ontem a carteirinha de sócio. Passeando pela Colômbia, declarou que, finalmente, também ele «sente cheiro de retrocesso». Não só no Brasil, mas em toda a América do Sul. Demorou!

Enfim, chegamos lá! Estamos todos de acordo. O retrocesso, que começou com a gestão de nosso guia na presidência, não só continuou como se acelera. Estamos regredindo cada vez mais rápido.

É bom que o antigo presidente se tenha dado conta. É reconhecimento tardio mas… antes tarde que nunca. ¡Me alegro! – como diriam os castelhanos.

É culpa do mensageiro

José Horta Manzano

Nos tempos de antigamente, o ofício de mensageiro era pra lá de perigoso. Depois de correr léguas carregando notícia que pudesse desagradar ao destinatário, corria o risco de ser trucidado.

Chamada da Revista Ceará

Chamada da Revista Ceará

Até alguns séculos atrás, embaixador também podia ser profissão de alto risco. Pelas mesmas razões. O emissário, tomado como personalização do soberano que representava, podia sofrer a ira do interlocutor. E pagar pelo que não tinha cometido.

Chamada de InfoMoney

Chamada de InfoMoney

Felizmente, essas práticas desapareceram no mundo moderno. Tirando humilhações públicas, como a que dona Dilma infligiu ao embaixador da Indonésia no começo deste ano(*), portadores de notícias não costumam mais ser alvo do furor dos desagradados. Em princípio. Por que ‘em princípio’?

Chamada de Último Segundo

Chamada de Último Segundo

Porque nem sempre funciona assim. Nossos poderosos, quando apanhados de calças curtas, dão-se a comportamento pouco digno. Em vez de se defender da acusação e de procurar provar a própria boa-fé, procuram metralhar… o mensageiro.

Chamada do Jornal do Brasil

Chamada do Jornal do Brasil

Cometem, assim, na prática, confissão pública. Quem não tem culpa faz o que pode para se defender e provar inocência. Desvela segredos bancários e telefônicos. Apresenta provas documentais e testemunhos idôneos.

Chamada de Zero Hora

Chamada de Zero Hora

No Brasil destes tempos estranhos, temos regredido muitos séculos. Poderosos não admitem ter cometido crimes ou deslizes e não suportam ser denunciados. A estratégia de defesa é sempre a mesma: depreciar o acusador e alegar que ele está mentindo.

Chamada do Estadão

Chamada do Estadão

Quando não funciona, exige-se que o testemunho seja invalidado. Se ainda esse expediente não funcionar, resta minimizar o crime e transformá-lo em simples «malfeito» – coisa que todo o mundo faz, não é mesmo?

Por ingenuidade ou por comodidade, o grande público acaba acreditando. E vamos em frente, que atrás vem gente.

Interligne 18h

(*) Consultar meu artigo A diplomacia do coice.

Gigantesca farsa

Não 1José Horta Manzano

Tudo é questão de hábito. Quem está no centro do palco é, por força dos fatos, personagem do drama sócio-político-econômico que se desenrola no Brasil atual. Assim, não se dá necessariamente conta do grotesco da situação. Para um observador de fora, a percepção é outra.

A escritora e jornalista Lamia Oualalou – autora do livro Brasil: História, Sociedade, Cultura – trabalha como correspondente de jornais franceses. É especializada em assuntos brasileiros e latino-americanos. Seu mais recente artigo, publicado esta semana no portal francês de informação Mediapart, leva o título «Le Brésil se transforme en gigantesque farce» – O Brasil vira farsa gigantesca.

Filme 2Num feliz cotejo, a autora relembra o filme de 1967 A Guide for the Married Man (Diário de um homem casado), dirigido por Gene Kelly. A recomendação subjacente na fita é endereçada a homem casado apanhado em flagrante delito de adultério. Sugere que ele negue a realidade, ainda que pareça absurdo.

Não 2Diante da esposa que o surpreende na cama com outra mulher, o protagonista segue o conselho: nega, nega, nega. Sua denegação da evidência é tão enfática e peremptória que consegue instilar dúvida na cabeça da esposa. Ela chega a imaginar que andou tendo alucinações.(*)

Filme 1Madame Oualalou revela a seus leitores que, no Brasil, a realidade ultrapassa a ficção. E conta a história do presidente da Câmara Federal, acusado de ter recebido 5 milhões de dólares como cota pessoal do roubo à Petrobrás. Explica que não se trata de acusação leviana, mas apoiada em documentação farta liberada pelo Ministério Público suíço. Fico imaginando a incredulidade dos leitores franceses quando a autora assevera que o acusado continua no posto mais alto do parlamento, firme na estratégia de negar, negar, negar.

Não 3A jornalista revela ainda outros capítulos da telenovela (em português no original) que transforma o Brasil, já há alguns meses, em farsa gigantesca. Relata a opinião da ministra da Agricultura, grande proprietária de terras, segundo a qual «a reforma agrária é inútil, pois não há mais latifúndios no Brasil».

Conta também o episódio pitoresco encenado na Câmara Municipal de Campinas (SP), cidade que sedia, por sinal, uma das grandes universidades do país. Explica que os vereadores votaram moção de censura a… Simone de Beauvoir! O qüiproquó deriva da menção feita no Enem de uma frase, considerada sexista, extraída do livro Le deuxième sexeO segundo sexo, obra emblemática da reverenciada Madame de Beauvoir.

Livro 3Para terminar, a correspondente informa que, de Paris, lhe perguntam se a crise econômica e política brasileira vai ser longa. Ela considera que, como se pode deduzir por essas historietas, não se trata de turbulência passageira. O que acontece no Brasil é bem mais grave do que se imagina.

(*) A cena memorável pode ser revisitada no youtube, neste excerto de um minuto e meio.

Novilíngua – 2

Chamada do Estadão, 7 nov° 2015

Chamada do Estadão, 7 nov° 2015

José Horta Manzano

Este blogueiro é do tempo em que árvores se plantavam. Aparentemente, hoje se instalam. Há de ser consequência do desmatamento desenfreado.

Árvore sem raiz

José Horta Manzano

Quanto mais profunda for a raiz, mais sólida e mais resistente será a árvore. Raiz profunda leva tempo pra crescer. Pede muito cuidado, muita rega e, sobretudo, muito tempo.

Num sentido figurado, a imagem da raiz profunda pode ser transposta às relações humanas. Uma única relação sólida e antiga vale mais que um conjunto de relacionamentos superficiais, efêmeros e de circunstância.

Arvore 4No jogo político, é virtualmente impossível escapar a alianças efêmeras: a cada eleição, fazem-se acertos de circunstância destinados a durar pouco tempo. A regra de ouro, a seguir escrupulosamente, é não se exceder. Nenhum excesso é benéfico. Todo exagero, mais dia menos dia, acaba cobrando a conta.

Ao assumir o posto máximo do Executivo, no já longínquo ano de 2003, nosso guia não tinha experiência administrativa. Um pouco por vaidade, um pouco por ambição, um pouco por mau aconselhamento, deixou-se tentar pelo excesso. Exagerou ao tecer a teia de alianças políticas. Deu prioridade ao número de “amigos” e de “aliados”. Teve a impressão de tricotar, assim, rede de proteção mais eficaz.

Chamada do Estadão, 6 nov° 2015

Chamada do Estadão, 6 nov° 2015

Deu de ombros à regra da raiz profunda, expediente que a sábia natureza já inventou há milhões de anos. Preferiu espalhar um emaranhado de radículas superficiais, desconexas, pouco profundas. A aparência era de solidez. No entanto…

O resultado não podia ser outro. Enquanto durou o bom tempo, a teia sustentou e nutriu a árvore. A mudança radical nas condições ‘atmosféricas’ escancarou a realidade: o labirinto de relações era superficial e carecia de coesão. Partidas e desconectadas, as raizinhas já não garantem sustentação à árvore.

O demiurgo, que muitos incensavam até pouco tempo atrás, periga vir abaixo por excesso de vento e escassez de apoio. E pensar que é justamente ele quem havia dito um dia que, quando deixasse a presidência, ia demonstrar que o mensalão nunca tinha existido e que o respectivo julgamento não passava de uma farsa. Houve quem acreditasse.

Chamada da Folha de São Paulo, 6 nov° 2015

Chamada da Folha de São Paulo, 6 nov° 2015

Aos poucos, passo a passo, nosso guia é obrigado a recuar. Já não bravateia sobre o mensalão. Muito menos sobre o petrolão. Concluiu pacto fugaz para tentar tirar seus rebentos de situação embaraçosa. Fez mais: ao declarar que não teme a prisão, admitiu implicitamente a possibilidade de passar uma temporada atrás das grades.

Está aí mais uma vez comprovado ensinamento mais antigo que a bíblia. Quem tem o poder e o dinheiro costuma atrair legiões de “amigos” e de “aliados”. Depois de apeado do poder, babau!

O preceito é velho como o mundo, mas cada um tem de aprender por si mesmo.

Morte digital

José Horta Manzano

Estes dias de Finados são propícios não apenas pra prestar homenagem aos que já se foram, mas também para refletir sobre o que resta de cada um quando deixa de ser inquilino deste vale de lágrimas.

Até não faz muito tempo, o caminho estava traçado: certidão de óbito, eventual anúncio no jornal, funeral, cemitério, partilha de bens e pronto. Requiescat in pace – que repouse em paz.

Anúncio 3Durante alguns anos, o desaparecido ainda costumava ser recordado, justamente por estes tempos de Finados, um pouco por obrigação. Passadas algumas décadas, nem mais isso. Era o esquecimento mesmo. Compreende-se: poucos conheceram os bisavós e quase ninguém chegou a ver seu trisavô.

Hoje em dia, a coisa está-se tornando mais complexa. Anúncio fúnebre e enterro já não bastam. A popularização da internet abriu caminho para uma eternidade aparente. Quando, depois de busca no google, se cai numa página qualquer, é impossível saber, de bate-pronto, se o autor ainda está entre nós ou se repousa sete palmos abaixo do solo.

Redes sociais, por recentes, não previram protocolo para o desaparecimento do titular de cada conta. Jovens adultos, os conceptores desses meios de comunicação não se deram conta de que todos passarão um dia.

Pouco a pouco, a realidade deixa o campo da filosofia e começa a mostrar-se como ela é. Contas-fantasma sobrevivem sem dono. Serviços automáticos alertam «amigos» e integrantes de «círculos» sobre aniversário de gente que já faleceu. Há casos folclóricos e outros bem mais sérios.

Portal do cemitério de Paraibuna - by Edna Rodrigues

Portal do cemitério de Paraibuna – by Edna Rodrigues

A cada dia, criam-se pequenos comércios virtuais, daqueles que carecem de localização física. Em caso de morte repentina do dono, como é que ficam os continuadores? A esposa, por exemplo, não terá sequer direito a recuperar a senha guardada pelo falecido no silêncio da tumba. Longa batalha judicial – com ramificações internacionais – estão à sua espera.

Computador 15Na França, a Secretaria de Estado para Assuntos Digitais está seriamente pensando em elaborar projeto para preencher essa lacuna. Trata-se de construir arcabouço legal para regulamentar a «morte digital». Contas Facebook, Youtube, Gmail & assemelhadas, que tenham sido abertas pela pessoa falecida – que fim as levará? O direito de acesso a elas deve fazer parte do inventário como um relógio ou um imóvel? Caso se trate de atividade comercial, a quem deve ser permitido acesso imediato para tratar das operações do dia a dia?

São essas as considerações que, queiramos ou não, têm de ser encaradas. Contas-fantasma não podem permanecer como os milhares de destroços de satélites artificiais inativos que, como entulho perdido, giram em torno do planeta e lá continuarão a vagar in æternum.

Jus sperneandis

José Horta Manzano

Chamada da Folha de São Paulo, 31 out° 2015

Chamada da Folha de São Paulo, 31 out° 2015

O distinto leitor já ouviu falar de “jus sperneandis”? Pois está aí um exemplo acabado.

João que chora, João que ri

José Horta Manzano

Fronteira 2O real – a moeda brasileira – vai mal, disso sabemos todos. Faz um ano que vem sofrendo acentuada desvalorização, fato que traz severas consequências. Enquanto angustia uns, a degringolada da moeda alegra outros.

Importadores e consumidores de produtos importados se descabelam. Pagam hoje, pela mesma mercadoria, 50% a mais do que um ano atrás.

Fronteira 4No Brasil, ainda que nem sempre percebamos, somos um bocado dependentes de artigos importados. Produtos agrícolas escapam a esse raciocínio, mas raros são os produtos industriais que se contentam de componentes unicamente nacionais. Em menor ou maior medida, integram insumos ou peças importadas. De um ano pra cá, com a queda de nossa moeda, tudo o que vem de fora ficou 50% mais caro, o que realimenta a inflação.

Os que vinham economizando, de olho naquela sonhada escapada ao exterior, murcharam. Convertidas em euros ou em dólares, suas economias minguaram. Do outro lado do espectro, boa parte dos três milhões de compatriotas estabelecidos fora da pátria remetem, todo mês, uns cobrinhos para ajudar a família. Tanto expatriados quanto familiares estão felizes: os mesmos dólares rendem muito mais reais.

Preços 1Em nova prova de que o crime compensa, mensaleiros e petroleiros – falo dos espoliadores que sugaram o fruto do trabalho de todos nós – estarão satisfeitos. Tirando a minoria que está na cadeia, os outros, que podem ser centenas ou até milhares, estão hoje mais ricos ainda. Convertidas em reais, fortunas bem guardadas no exterior cresceram.

Fronteira 3Mais prosaicamente, o comércio fronteiriço do sul do Brasil anda animado. A desvalorização do real diante da moeda de países hermanos esquentou o turismo de compras. Trata-se de movimento pendular, ora são os de cá que compram lá, ora o fluxo se inverte. Atualmente, são paraguaios, uruguaios e argentinos que levam vantagem fazendo compras no Brasil.

Segundo informa o jornal argentino Ámbito Financiero, vale a pena atravessar a fronteira para comprar desde laranja e cerveja até celular e ar condicionado. Contentes estão os que vivem pertinho do Brasil. Podem fazer as compras diárias de supermercado – com vantagem não desprezível – em nosso país.

É o Mercosul provando que é útil e eficiente. Exatamente como a «Pátria Educadora», poderoso instrumento que veio redimir nossa proverbial falta de cultura.

Moi non plus

José Horta Manzano

Chamada do Estadão, 28 out° 2015

Chamada do Estadão, 28 out° 2015

Quem foi que disse que nossa presidente não tem senso de humor?

O lado surpreendentemente cômico da situação faz lembrar a canção composta em 1967 pelo francês Serge Gainsbourg e cantada por ele mesmo em dueto com Brigitte Bardot.

O título era “Je t’aime. Moi non plus”“Eu te amo. Eu também não”.

Ocaso cruel

José Horta Manzano

Lula boné 1Tudo na vida tem um começo, um meio e um fim. Aquele que detecta o bom momento pra se lançar e, mais tarde, percebe que é hora de se afastar, dá mostra de inteligência, de contacto com a realidade e de simples bom senso.

Há quem carregue, embutido e de instinto, esse «timing», que os dicionários traduzem como sensibilidade para o momento propício de realizar ou de perceber a ocorrência de algo. Quem tem essa qualidade, tem. Quem não tem fica devendo.

Nosso guia, a quem muitos emprestam inteligência fora do comum – será? – não foi brindado pela natureza com esse dom. Seu decantado senso de oportunidade (ou de oportunismo, se preferirem) foi incapaz de detectar que, ao final do segundo mandato na presidência da República, tinha atingido o auge. Não se deu conta de que aquele era o momento ideal para recolher-se e sair de cena.

Chamada do Estadão, 25 nov° 2015

Chamada do Estadão, 25 nov° 2015

Rico, prestigiado, já beirando os setenta anos, deveria ter-se retirado. Teria conservado, intacto e para sempre, o fascínio que um dia havia despertado em meio Brasil. Uma palestra aqui, outra ali, talvez um livro de memórias ditado a um escriba de aluguel – essas teriam sido atividades condizentes com a aura que o circundava. É o que se espera de um ex-presidente.

Lula caricatura 2No entanto, um envaidecido Luiz Inacio acalentou a ilusão de onipotência e foi incapaz de se dar conta de que tudo o que sobe acaba caindo um dia. Tendo perdido o contacto com a realidade, pagou pra ver. E está vendo.

Para quem um dia andou de carruagem com a rainha da Inglaterra, há de ser terrível ter de viver recluso, longe do povo, fugindo de lugares públicos onde, certo como dois e dois são quatro, será vaiado. Restou-lhe enfiar um boné vermelho no cocuruto e deitar falação para plateias amestradas.

A confiar na mais recente pesquisa de opinião, nosso guia não tem esperança de voltar ao cargo maior. Se 55% não votariam nele de jeito nenhum, la messe est dite, como se diz na França: a missa acabou. Miserere nobis.

Ponte dos espiões

José Horta Manzano

Ponte 2Pense num filme de espionagem, daqueles que se passam na época da Guerra Fria. Numa manhã fria e brumosa, um espião americano, desmascarado em Moscou, ensaia os primeiros passos da travessia duma ponte sobre rio fronteiriço entre as duas Alemanhas. No mesmo momento, um espião soviético, capturado meses antes em Washington, faz o mesmo gesto em sentido contrário.

Avançam lentamente. Os caminhos se cruzam bem no meio da ponte. Sem se olhar nos olhos, cada qual continua reto até a margem oposta. «Pronto, elas por elas. Estamos quites» – suspiram aliviados os policiais e agentes que, armados até os dentes, tinham permanecido de cada lado da fronteira. Tudo correu bem. É o capítulo final de uma longa tratativa que se desenrolou nos bastidores, longe de toda publicidade.

Se o distinto leitor imagina que cenas como essa fazem parte de um passado poeirento e enterrado para sempre, convido-o a reconsiderar a questão. A imprensa italiana em peso afirma hoje que, sem a dramaticidade cinematográfica da travessia da ponte, nova troca de prisioneiros acaba de ocorrer.

Aeronave que transportou Pizzolato de SP a Brasília 23 out° 2015

Aeronave que transportou Pizzolato de SP a Brasília
23 out° 2015

A verdadeira história da extradição do mensaleiro Pizzolato, que acaba de chegar a Brasília para uma temporada na Papuda, é menos charmosa e bem menos jurídica do que se possa imaginar. Nosso mensaleiro interpreta o papel de um dos prisioneiros que atravessam a ponte. E quem é o outro?

Segundo a imprensa italiana, que deve ter seus fundamentos para afirmá-lo, a outra moeda da negociação chama-se Pasquale Scotti. É antigo membro da camorra (máfia napolitana), condenado à prisão perpétua por mais de 20 homicídios. Gente fina, como se vê. O bom moço estava no Brasil havia mais de 30 anos. Sob identidade falsa, vivia no Recife.

Ponte 1Foi capturado pela Polícia Federal em maio. Informada pela Interpol, a Itália logo pediu extradição do cidadão. O que se segue não foi publicado, mas pode ser imaginado. Autoridades italianas e brasileiras concluíram acordo na base do «eu te mando este, você me devolve aquele».

De fato, o STF autorizou a extradição de signor Scotti no dia 20 de outubro. Dois dias depois, a Itália entregou signor Pizzolato a agentes da PF brasileira. Baita coincidência, né não? Parece que a imprensa italiana sabe do que está falando.

Os detalhes da troca de prisioneiros estão na Agência Brasil (em português) e no jornal turinês La Repubblica (em italiano).

O legado da nossa miséria

Helio Gurovitz (*)

Machado de Assis 1Machado de Assis encerra Memórias Póstumas de Brás Cubas com um capítulo intitulado “Das Negativas”, em que o narrador elenca tudo aquilo que não fez na vida: não foi ministro, não foi califa, não vendeu seu emplasto, não conheceu o sucesso. Conclui com aquela frase que todos conhecemos de cor: “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria”. Em vez de proclamar sucessos, o narrador nem sequer lamentava seus fracassos. Machado foi irônico como só ele sabia ser.

Hoje em dia, estamos acostumados a ouvir negativas de outra natureza, como resultado da Operação Lava Jato e de seus desdobramentos.

Interligne vertical 16 3KeDa presidente Dilma Rousseff:
“Meu governo não está envolvido em corrupção”.

Do presidente da Câmara, Eduardo Cunha:
“Não tenho qualquer tipo de conta em qualquer lugar que não seja a conta que está declarada no meu imposto de renda”.

Do presidente do Senado, Renan Calheiros, sobre o lobista Fernando Baiano:
“Não há fato, não conheço a pessoa, nunca vi”.

Do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em depoimento ao Ministério Público Federal a respeito dos contratos firmados pelo BDNES:
“Jamais interferi”.

Do presidente do PT, Rui Falcão, a respeito das denúncias de dinheiro do petrolão na campanha eleitoral:
“O PT desmente a totalidade das ilações de que o partido teria recebido repasses financeiros da Petrobrás”.

Do presidente da Odebrecht, Marcelo Odebrecht:
“Podem investigar à vontade que não acharão nada sobre nós”.

Em alguns países, sobretudo na Ásia, políticos flagrados em escândalos de corrupção chegam até a cometer suicídio. Foi o caso do ministro da Agricultura do Japão, Toshikatsu Matsuoka, em 2007; do ex-presidente sul-coreano Roh Moo-hyun, em 2009; do deputado de Cingapura Teh Cheang Wan, em 1986; do almirante chinês Ma Faxiang, em 2014; e do teatral senador Budd Dwyer, da Pensilvânia, que se matou diante das câmaras em 1987.

Todos esses casos trágicos, presume-se, são resultado de algum conflito moral que a mente dos acusados foi incapaz de resolver. Por aqui, esse conflito – quando existe – costuma ser resolvido na base do cinismo mesmo.

(*) Helio Gurovitz é jornalista e colunista de O Globo. O trecho reproduzido é excerto de um artigo. Para ler na integralidade, clique aqui.