O prometido e o entregado

Vera Magalhães (*)

Enquanto engana um público cada vez mais reduzido com o figurino da vítima, Lula age como chefe de bando. Seus seguidores insuflaram a violência, ele zombou da Justiça, promoveu um showmissa em “memória” da mulher, se escondeu atrás de um biombo humano de políticos e militantes para não cumprir a ordem de se apresentar à Polícia Federal e mostrou, uma vez mais, que quer para si uma lei própria, uma justiça personalíssima e a vassalagem de um povo ao qual, tendo prometido igualdade de oportunidades, entregou Dilma Rousseff, a maior recessão da história e uma roubalheira generalizada incrustada em todo o aparelho estatal, em conluio com empresários amigos. Em troca de propina.

(*) Vera Magalhães é jornalista.

Supremo cansaço

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Lá pelos idos de 1957, o cineasta Sidney Lumet dirigiu aquela que é provavelmente uma de suas mais emblemáticas obras, o filme “12 Homens e uma Sentença”. Protagonizado pelo ator Henry Fonda, o filme gira em torno do julgamento de um jovem porto-riquenho acusado de ter assassinado o próprio pai.

Segundo as regras do tribunal nova-iorquino, o réu só poderia ser sentenciado à morte caso fosse unanimemente considerado culpado pelos 12 jurados, acima de qualquer dúvida razoável. No dia do julgamento, acontecia a partida final do campeonato nacional de beisebol e vários jurados queriam terminar rapidamente a discussão para poder voltar para casa a tempo de assistir aos lances finais. O dia havia sido insuportavelmente quente e, à noite, o desconforto se intensificara com uma chuva torrencial.

Em resumo, tudo conspirava a favor de um debate apressado e desatento entre os jurados. Um deles propõe logo de início que seja feita uma votação simbólica, sem apresentação de argumentos, apenas para conhecer a disposição de cada um para a condenação ou absolvição do réu. Contados os votos, surpresa geral: 11 jurados haviam dado o veredito de culpado e apenas 1 o de inocente. A tensão escala e a pressão sobre o único jurado dissidente cresce exponencialmente.

Henry Fonda
Caricaturado por Thierry Coquelet, artista francês

Este, resistindo com galhardia à irritação dos demais, afirma não ter certeza da inocência do réu, apenas muitas dúvidas quanto à sua culpabilidade. Começa, então, a questionar cada uma das provas e testemunhos apresentados. A cada novo argumento, reação explosiva de incompreensão dos pares e nova rodada de votação. O placar da segunda rodada é ainda mais surpreendente: 10 a 2; os subsequentes, mais e mais angustiantes: 9 a 3, 8 a 4, etc. O jurado que trocou de lado em cada votação apresenta, então, os motivos que o levaram a rever a convicção inicial de culpa. Tem início um debate tenso que se transforma em verdadeira sessão de psicoterapia, durante a qual começam a emergir, sem filtro social, valores, princípios e crenças pessoais. Estes, por sua vez, abrem terreno para a excomunhão angustiada de todos os preconceitos e limitações subjacentes.

Uma hora é o jurado que vive uma guerra particular, sem fronteiras, com o insubordinado filho adolescente. Outra, a do jurado que sente vergonha de ser portador de alto grau de miopia (e que a disfarça trocando os óculos por lentes de contato) que não ousa contraditar o testemunho de uma vizinha igualmente míope. Depois, é a vez de um velho conservador que confessa discriminar, odiar mesmo, os barulhentos jovens latino-americanos. Inútil tentar colocar em palavras o clímax emocional da sessão a partir de cada revelação. A nobreza e a pequenez da natureza humana ilustradas em todas as suas dimensões, o esplendor e o horror acabrunhante das paixões psíquicas de cada um.

Já tínhamos visto antes o filme a que assistimos, mais uma vez constrangidos, ontem. O dia havia sido igualmente exaustivo: as manifestações de rua, as fortes chuvas, o calor escaldante dentro e fora dos corpos humanos, a repercussão da entrevista dada na véspera pelo ministro Gilmar Mendes, a declaração polêmica do comandante do exército sentida como ameaça por muitos, a celebração dos 50 anos da morte de Martin Luther King. Um cardápio de peso literalmente.

Fernando Pessoa

Outra notícia, dada na véspera sem qualquer destaque, a da morte de Winnie Mandela, me fez relembrar uma frase que ela proferiu há mais de meio século, que me parece sintetizar com precisão os embates nada delicados que presenciamos ontem entre os 11 ministros do Supremo:

“Se na construção de um novo mundo for necessário repetir os erros do velho mundo, então não faz sentido criar o novo mundo”.

Antes mesmo de terminado o voto do quinto ou sexto ministro, fui invadida por uma sensação de cansaço exemplar, que beirava à desesperança. O torpor foi mais forte do que qualquer vontade de conhecer o placar final ou sua repercussão dentro e fora de nossas fronteiras. Desliguei a televisão e fui dormir, docemente embalada pelos versos de Fernando Pessoa:

“A sutileza das sensações inúteis, as paixões violentas por coisa nenhuma…. Tudo isso faz um cansaço, este cansaço, cansaço…. Um supremíssimo cansaço, íssimo, íssimo, íssimo cansaço”.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

O ocaso da narrativa de Lula

José Fucs (*)

Foram-se os tempos em que Lula, o PT e seus aliados à esquerda conduziam a opinião pública do País a seu bel-prazer. Lula pode até aparecer na frente nas pesquisas, mas, nesta altura, sem candidaturas definidas, nem a dele próprio, isso não quer dizer muita coisa. Hoje a população está muito bem informada sobre o tudo o que ele aprontou e o estrago que causou ao país.

Voto dos residentes no exterior
Eleições presidenciais 2014, segundo turno.
Infográfico de O Globo

Condenado em 2ª instância, Lula perdeu a aura faz tempo, embora relute em admitir isso em público. Os protestos que enfrenta por onde passa e os atos minguados promovidos pelo PT e seus satélites atestam o que qualquer observador minimamente atento pode constatar a olho nu.

A narrativa de Lula e do PT perdeu a hegemonia. Hoje, apesar de alguns lampejos, ela só entusiasma a tropa de choque do partido e a turma do “me engana que eu gosto”, além de um punhado de brasileiros que vivem no exterior e de simpatizantes infiltrados em órgãos internacionais.

(*) José Fucs, jornalista, exibe currículo opulento com passagem por órgãos tais como: Estadão, Folha de São Paulo, Exame, Gazeta Mercantil.

Nota deste blogueiro

Não contesto que haja «um punhado» de lulistas no exterior. Mas esse punhado já era minguado em 2014 e deve ter encolhido ainda mais nos dias atuais.

Registre-se que, no segundo turno das últimas eleições presidenciais, Dilma não chegou a 23%. Aécio, cujo lado sombrio ainda era desconhecido, ganhou de lavada, com 77%.

A caravana de Lula teve escolta policial

Elio Gáspari (*)

Nos primeiros dias de sua caravana pelo Rio Grande do Sul, Lula passou por algo que jamais lhe tinha acontecido. Em Bagé a estrada foi bloqueada e, de um guindaste, pendia um Pixuleco encarcerado. Em Santa Maria reuniram-se manifestantes para hostilizá-lo. Para chegar a São Borja, com escolta policial, teve que tomar uma estrada de terra porque a rodovia estava bloqueada. Em São Vicente do Sul um grafite dizia “Lula ladrão”.

O percurso do ex-presidente foi semelhante ao que ele fez em 1994, quando disputou a Presidência contra Fernando Henrique Cardoso e o real. Ele atravessou o Rio Grande do Sul num ônibus sem que houvesse um só incidente. Tinha a proteção discreta e suave de dois faz-tudo petistas. Um chamava-se Freud. O outro, Espinoza, media 2m02cm e pesava 112 quilos.

Lula chegava a uma cidade, às vezes reunia-se com fazendeiros ou empresários, ia para a praça e discursava. Em Rosário do Sul, desceu do palanque para entrevistar populares. Se o público não esquentava, dizia que lugar de político ladrão é a cadeia. Se fosse pouco, recorria a um infalível pedido de confisco dos bens do ex-presidente Fernando Collor. Esse era um tempo em que ele ainda falava “cidadões” (em Livramento), e o PT pedia nota fiscal de todas as suas despesas.

Mudaram Lula, o Brasil e seus adversários. O comissariado diz que os manifestantes hostis são uma “milícia fascista”, mas a partir de um certo momento a caravana foi protegida por uma patrulha do MST. Durante o consulado petista, o governo não patrocinou nenhum ato de violência, mas Lula chegou a ameaçar com o que seria o “exército do Stédile”, referindo-se a João Pedro, donatário do movimento dos sem-terra desde o século passado.

É de justiça lembrar que, em julho de 2003, um grupo de 15 militantes do PSTU foi protestar diante do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo contra uma visita do então ministro da Fazenda, Antonio Palocci, e a reforma da Previdência de Lula. Apanharam, e o técnico judiciário Antônio Carlos Correia acabou com o nariz quebrado. Acusou os “pit bulls petistas”. Palocci está na cadeia, e o PT lutou contra a reforma de Temer.

Lula e seus adversários mudaram para pior. O Brasil, quem sabe.

(*) Elio Gáspari é jornalista.

Campos no cerrado

Cláudio Humberto (*)

Hoje Brasília é cosmopolita, com todos os encantos de uma grande capital. Mas nos primeiros tempos era uma cidade árida, um canteiro de obras com pouca diversão, poucas crianças e poucos velhos.

Muitos se queixavam da falta de mar (e de ar, nos períodos de baixa umidade), da ausência de montanhas e de esquinas, de solidão e de tédio.

Um dia, perguntaram ao senador mineiro Milton Campos o que ele achava de Brasília:

‒ É um bocejo de 180 graus.

Ele não viveu para constatar a extraordinária transformação da cidade.

(*) Cláudio Humberto é jornalista. Publica coluna diária no Diário do Poder.

Amigos

Francisco de Paula Horta Manzano (*)

Foram tempos difíceis. Não fossem alguns amigos, nem sei bem que rumo, talvez até trágico, poderia ter tomado a vida do Neves, coitado.

E foi justamente nessa hora que o Neves pôde reconhecer o valor de seus amigos. Ao menos daqueles mais próximos, que não mediram esforços para contrariar a natureza e fazer com que a vida dele se tornasse um pouco melhor do que estava.

Aquilo, provavelmente, seria apenas uma fase ruim, afinal, a vida de todo o mundo é assim mesmo, feita de fases, com algumas marés boas e outras deprimentes.

Mas aqueles foram tempos difíceis mesmo. Primeiro a separação, com a mulher do Neves indo embora de casa. Em seguida, praticamente na mesma época, a perda do emprego. Era duro enfrentar a situação, quando a mulher e o patrão do Neves descobriram, ao mesmo tempo, que não precisavam mais dele. Pior do que isso, só se os dois (patrão e mulher) descobrissem que não precisavam mais do Neves e que ambos precisavam muito um do outro. Mas não foi esse o caso, dos males o menor. Apenas coincidiu de ambos dispensarem os bons serviços prestados pelo fiel Neves depois de tantos anos. Há quem diga que isso é destino, outros chamam de praga de urubu.

De qualquer forma, aconteceu desse jeitinho mesmo. O patrão do Neves achou que ele já não estava produzindo tanto quanto antes e disse-lhe simplesmente: “Foi um prazer tê-lo conhecido, tchau”. A mulher do Neves, quanto a ela, nem isso disse. Deu apenas um sonoro “tchau” e saiu pisando duro, com um ar de até-nunca-mais-se-Deus-quiser. Talvez ele também já não estivesse mais produzindo tanto quanto produzia antes ‒ isso ninguém nunca ficou sabendo ao certo…

O Neves chorou, sofreu, imaginou que nunca mais ia se recuperar, começou a achar que não servia mais pra nada, nem pra trabalhar e, pior que isso, nem pra ter uma mulher, aquelas coisas todas de baixo astral, dava dó, só vendo.

by Vasilis Akoinoglou, artista grego

Deixou de pagar o aluguel, com o qual já não tinha mais como arcar. Começou a beber. Só não foi parar na rua porque o Pacheco e sua mulher lhe deram uma mão e se ofereceram para recebê-lo em casa. Por uns tempos, é claro, só até que as coisas melhorassem. O Neves hesitou, não queria aceitar, mas diante das circunstâncias, como não lhe sobravam outras opções entre aceitar a ajuda ou eleger residência debaixo do Viaduto Santa Ifigênia ou sob um viaduto da Avenida Marginal (num programa de múltipla escolha), acabou aceitando o oferecimento do casal de amigos, frisando bem que era apenas temporário.

O casal Pacheco recebeu o Neves com visível prazer, muitas atenções e todos os cuidados que se têm quando se acolhe um bom amigo em casa. Ele parecia fazer parte da família. Muito amigos, realmente. Coisa bonita e rara de ver, aquilo.

No início, o Neves tentou relaxar um pouco depois do sufoco pelo qual andara passando; tratou de desligar e se refazer. O casal Pacheco sempre solícito, fazendo de tudo para tornar a hospedagem perfeita.

O Neves batalhou e, depois de algum tempo, conseguiu encontrar novo empreguinho. Não era tão bom quanto o anterior mas, àquela altura, ele não podia ser tão exigente. Aceitou aquele mesmo, afinal, era um recomeço.

A mulher do Pacheco, uma morena muito bonita, de olhos grandes, sorriso aberto e sincero, sempre agradando ao Neves em tudo o que estava a seu alcance, incentivando-o o mais que podia.

Passados o susto e o trauma dos primeiros tempos, a vida do Neves pareceu estar voltando ao normal. Aliás, mais ao normal do que se imaginava.

Aproveitava sempre seu tempo livre para conversar com a sra. Pacheco. Não podia deixar de admirar e sentir-se atraído pela beleza natural daquela mulher, digamos assim, tão boa de alma quanto de corpo também. Com todo o respeito, é claro.

by Vasilis Akoinoglou, artista grego

Era impossível olhar para aquela mulher sem se deleitar com imagem tão bonita ‒ uma mulher que devia ter sido feita num dia em que Deus, certamente de bom humor, decidira mostrar o que é capaz de fazer para alegrar os homens. Diante de mulher com perfume tão suave, voz tão delicada e gentil, sentimentos tão nobres, o Neves não conseguia evitar que lhe passasse pela pobre cabeça um desejo forte que vinha tímido, discreto, mas sincero, lá do fundo do seu ser. Mas que ele logo tratava de reprimir em nome do bom senso e do respeito ao amigo Pacheco.

Diariamente aquela mulher, com seu jeito tão natural e ao mesmo tempo sensual, provocava sonhos no Neves, sonhos estes inapelavelmente classificados como “impróprios para menores de 18 anos”.

O Neves começava a sentir-se mal com a situação. Francamente, não pegava bem ficar assim pensando em bobagens justamente com a mulher do amigo Pacheco. Afinal, era constrangedor que isso acontecesse justamente com o casal de amigos (por sinal bons e grandes amigos) que o haviam socorrido, acolhido e abrigado num momento tão delicado e difícil.

Ele já não pensava mais nela como a mulher do amigo. Já pensava nela apenas como mulher, sem o amigo.

Um dia o Neves disse para si mesmo: “‒ Eu só seria capaz de fazer uma coisa dessas se eu fosse mesmo um cara muito sem-vergonha, um canalha, que não tivesse caráter nem princípios. E se eu fosse, ainda por cima, totalmente irresponsável”.

Mas como nesta vida a gente vai vivendo e descobrindo coisas novas e surpreendentes a cada dia, meia hora mais tarde ele concluiu: “‒ É… Acho que eu sou tudo isso mesmo…”

(*) Francisco de Paula Horta Manzano (1951-2006), escritor, cronista e articulista.

Para o Juízo Universal

J.R.Guzzo (*)

O Supremo Tribunal Federal já deixou, há muito tempo, de ter alguma relação com o ato de prestar justiça a alguém. O que se pode esperar da conduta de sete ministros, entre os onze lá presentes, que foram nomeados por um ex-presidente condenado a doze anos de cadeia e uma ex-presidente que conseguiu ser deposta do cargo por mais de 70% dos votos do Congresso Nacional?

Outros três foram indicados, acredite quem quiser, por José Sarney, Fernando Collor e Michel Temer. Sobra um, nomeado por Fernando Henrique Cardoso – mas ele é Gilmar Mendes, justamente, ninguém menos que Gilmar Mendes.

Deixem do lado de fora qualquer esperança, portanto, todos os que passarem pela porta do STF em busca da proteção da lei. Quer dizer, todos não ‒ ao contrário ‒, o STF é o melhor lugar do mundo para você ir hoje em dia, caso seja delinquente cinco estrelas com recursos financeiros sem limites para contratar advogados milionários.

O STF, no fundo, é uma legítima história de superação. Por mais que tenha se degenerado ao longo do tempo, a corte número um da Justiça brasileira está conseguindo tornar-se pior a cada dia que passa e a cada decisão que toma.

Ninguém sabe onde os seus ocupantes pretendem chegar. Vão nomear o ex-presidente Lula para o cargo de Imperador Vitalício do Brasil? Vão dar indulgência plenária a todos os corruptos que conseguirem comprovar atos de ladroagem superiores a um milhão de reais? Vão criar a regra segundo a qual as sentenças de seus amigos, e os amigos dos amigos, só «transitam em julgado» depois de condenação no Dia do Juízo Universal?

(*) José Roberto Guzzo é jornalista e colunista.
O texto foi extraído de artigo publicado no site da revista Veja. Vale a pena continuar a leitura.

Espaço perdido

Carlos Brickmann (*)

Por falta de pagamento, o Brasil foi suspenso do ESO ‒ Observatório Europeu do Sul. O Brasil tinha pedido entrada no ESO no final de 2010, e o pedido foi aceito por unanimidade.

O acordo foi assinado em 2011 e aprovado no Congresso em maio de 2015. Mas pagamento, que é bom, não foi feito: participar do ESO custa algo como 270 milhões de euros, parcelados em dez anos (às cotações de hoje, a quantia chega perto de US$ 1 bilhão).

Mesmo antes de pagar, o Brasil tinha livre acesso a três observatórios astronômicos instalados no deserto do Chile, mantidos e administrados por países europeus, asiáticos, Canadá e EUA.

E por que não foi pago? O Governo não diz que temos reservas de quase 400 bilhões de dólares?

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

Crônica de (mais) uma morte anunciada

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Não precisa ser agente de um serviço de inteligência qualquer para descobrir quem matou a vereadora carioca e seu motorista. Tampouco é necessário ter lido os romances de Agatha Christie ou fazer parte de um departamento de investigações criminais para levantar pistas.

Também não é preciso ser psicólogo ou psiquiatra forense experimentado para ajudar a polícia a traçar o perfil mais que provável dos assassinos. De tão evidente, a verdade salta aos olhos, enrubesce a mais ingênua das criaturas, constrange até mesmo quem se imagina imune, acima das paixões humanas e acima do bem e do mal.

As autoridades federais, estaduais e municipais estão em rebuliço total, proferindo discursos inflamados contra o ato, qualificando-o como de extrema covardia e prometendo punição máxima aos envolvidos. A imprensa nacional e internacional não falam de outra coisa. Nas redes sociais já se articula um movimento para inserir em todas as páginas a chamada #Mariellepresente. Aqui e ali, grupos reais e virtuais começam a emergir das sombras para contraditar e ironizar a comoção geral. Numa espécie de defesa prévia contra a revelação ‒ que fatalmente virá ‒ de que os “bandidos” que perpetraram o crime fazem parte, na verdade, do grupo dos “mocinhos”, eles ensaiam tímidas ou escancaradas justificativas para o ato, como: ‘colheu o que plantou’, ‘ela defendia bandidos’, ‘era contra quem dá a vida para nos proteger’ ou ainda ‘ninguém se importou com o assassinato de uma policial negra numa UPP porque ela não era militante de esquerda’. O maniqueísmo político e ideológico reinstala-se com pompa e circunstância também nas ruas das grandes capitais.

Dizem que, numa guerra, a primeira vítima é sempre a verdade. Na guerra civil não declarada que sacode o país há quase uma década, de que lado ela está? Não importa. O grave é que, como sociedade, nos tornamos insensíveis à dor e ao sofrimento humano. Não é mais uma pessoa – com cheiro, cor, contornos físicos, textura de pele, sentimentos, ideias e vontades ‒ que morre. É só uma abstração moral.

Incorporamos de tal forma o raciocínio binário da tecnologia informática que agora só nos posicionamos e reagimos a categorias mentais: gente do bem x gente do mal, trabalhadores x vagabundos, pessoal de esquerda x pessoal de direita, militares x civis, terroristas x cidadãos, gays x héteros. Para cada uma, criamos uma lista pétrea de atributos morais positivos e negativos que define o caráter do grupo como um todo. Esquecemos de considerar que, se a premissa inicial do silogismo for falsa, a conclusão também o será. Talvez ainda mais angustiante: nem mesmo nos damos ao trabalho de pensar que essas categorias não são mutuamente excludentes.

Como sintetizou com brilhantismo a viúva do motorista da vereadora, neste momento o foco tem de estar na dor da tragédia humana, forçosamente maior do que qualquer revolta: “No fim das contas, é (só) mais um” a fazer parte desta estatística macabra. Assino embaixo.

O mal já foi banalizado, tornou-se rotina entre nós. Tudo já foi dito, todas as lágrimas derramadas, toda indignação manifestada, toda investigação prometida, e absolutamente nada mudou. Basta de clichês. A hora agora é de silêncio e introspecção. Temos de passar recibo do calo emocional que se criou no seio da sociedade civil, que nos impede de encarar sem anteparos nossa secular impotência diante da vilania de quem deveria zelar por nossa segurança e bem-estar.

Como lembrou Hannah Arendt, o mal nem sempre é fruto de uma mente perversa, cruel, doentia. É filho dileto da irreflexão, da incapacidade de fazer julgamento moral caso a caso. É seguir burocraticamente as ordens recebidas, realizar as tarefas pelas quais nos pagam, sem atentar para as consequências. É manter imutáveis certas crenças que alimentam e reproduzem a violência nossa de cada dia. É não se dar conta de que somos o único animal dotado de livre arbítrio e, portanto, aptos a fazer escolhas.

Afinal, que crenças são essas? Algumas me ocorrem neste momento, mas tenho a certeza de que, se refletirmos um pouco, a lista será bem maior:

• Acreditar que a força pode vencer a inteligência.

• Acreditar que o medo pode ser sustentáculo eterno da tirania.

• Acreditar que, calando bocas, calam-se também ideias e projetos de futuro.

• Acreditar que a rede de proteção comprada a peso de ouro pelos poderosos de plantão ou conquistada pela intimidação nunca vai quebrar o silêncio e se insurgir.

• Acreditar que se pode confiar cegamente nos próprios comparsas.

Termino com uma provocação, que é também um convite para reflexão. Como escreveu um dia um consultor organizacional americano, lembre-se sempre que: “Se você não faz parte da solução, então é parte do problema”.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

O tempo da delicadeza

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Há poucos dias uma amiga virtual postou um comentário em uma rede social que me deixou intrigada e reflexiva. Dizia ela que acreditava ter entrado em definitivo na terceira idade já que “qualquer coisinha” a comovia às lágrimas.

Foi o que bastou. Não consegui mais me concentrar em nenhum outro assunto desde então. Passei todo esse tempo me perguntando se ela era dotada de uma liberdade interna especial ou se havia também no meu caso uma correlação palpável entre envelhecimento e maior sensibilidade.

Explico. Sou uma exceção aberrante no que se refere à capacidade de chorar. Sou capaz, sim, de me emocionar – e muito até – diante de eventos trágicos ou excepcionalmente felizes, mas não consigo me abandonar por inteiro ao choro. No máximo, experimento um nó na garganta, rictos faciais, a voz se esganiça e uma ou outra lágrima furtiva aflora. Em segundos, porém, meu maxilar trava, a musculatura do peito se retesa, a garganta fecha tanto que fica difícil respirar e a dor faz com que o processo seja interrompido.

by Elodie de Poitiers, artista francesa

A única experiência de choro convulsivo espontâneo que guardo na lembrança aconteceu no meu primeiro dia de aula no jardim de infância. Minha mãe havia me deixado na porta do colégio e voltado apressada para casa para cuidar de meu irmão recém-nascido. A sensação de abandono, de ter sido alijada do ninho sem aviso prévio e entregue à sanha de um bando de totais desconhecidos foi tão forte que eu tive de ser levada para o ambulatório médico da escola, onde fiquei até que o cansaço tomasse conta de mim e eu adormecesse.

Depois disso, talvez por uma questão de sobrevivência, aprendi a evitar manifestações públicas ruidosas de tristeza, raiva ou alegria profunda. Quando não dá para controlar a emoção, permito-me apenas ficar com os olhos marejados, mas sempre em total silêncio e compostura.

Voltando ao tema da correlação entre envelhecimento e maior sensibilidade, não encontrei dentro de mim nenhuma evidência estatística que confirmasse a tese de minha amiga, nem no sentido de maior intensidade, nem no de maior frequência. Porém, alguma coisa me dizia que talvez fosse possível detectar uma diferença qualitativa entre o que nos comove na juventude e aquilo que nos leva às lágrimas na velhice.

Essa não é, evidentemente, uma constatação científica. Não entrevistei ninguém e não pesquisei bibliografia sobre o assunto. Depois de muito refletir e contando tão somente com o apoio de minhas vivências pessoais, consegui estabelecer algumas analogias com o processo físico de envelhecimento.

Da mesma forma como nossa pele torna-se a cada dia mais fina e translúcida, acredito que o sutil tecido que compõe a camada externa de nossa alma também se adelgaça. Sem precisarmos nos defender com tanto afinco das convenções sociais, deixamos que nossa condição anímica circunstancial aflore com mais facilidade. Com a alma mais mole ou mais transparente, como queiram, as emoções ficam literalmente mais à flor da pele.

by Claire Frelon, artista francesa

Mas, é importante observar, não é qualquer emoção que nos subjuga na velhice. Ao menos no meu caso pessoal, aquelas mais intensas e típicas da juventude, ligadas à adrenalina e ao cortisol, mais assustam do que comovem. Acredito que, com o passar dos anos, a musculatura estriada da alma, boa para enfrentar com galhardia os embates da paixão, vai aos poucos sendo substituída por musculatura lisa, que reage melhor aos momentos de ternura e está associada à secreção de endorfinas e serotoninas. Estar em meio à natureza, ver o dia amanhecer, observar crianças e animais brincando juntos em total harmonia, testemunhar um gesto de perdão ou um momento de superação são situações em que as emoções típicas da velhice são ativadas mais prontamente.

Falando nisso, acaba de me ocorrer que é possível que as criaturas longevas voltem emocionalmente a um estágio primitivo, animal mesmo, no que diz respeito aos modos não verbais de relacionamento. Como cães ou lobos, aprendemos a identificar com mais precisão a energia que emana das pessoas à nossa volta e passamos a emprestar menor importância às palavras e à razão. E, por assim ser, tornamo-nos mais hábeis para decifrar intenções e mais aptos a lidar com a fragilidade, a sutileza e a serenidade, que também habitam a alma humana.

Só posso torcer para que essas hipóteses ditadas por minha intuição estejam certas e que os leitores mais “entrados em anos” se identifiquem. Mas, atenção: ao formulá-las, entendi que elas se aplicam apenas às pessoas normais. Como diria Nelson Rodrigues, os canalhas também envelhecem…

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

A empresa

Francisco de Paula Horta Manzano (*)

Era uma empresa de porte médio, mas crescendo a cada dia. Muitos funcionários. Entre eles um chefe, o Januário, dono de um cargo de destaque e que supervisionava o trabalho de toda aquela gente que carregava a empresa nas costas.

Como tinha curso universitário, muito embora nunca tivesse defendido nenhuma tese, era tratado por doutor. Era, portanto, o Doutor Januário, muito prazer.

Era um homem que sempre tirava nota baixa em toda prova de humildade. Sem “por favor” nem “muito obrigado”. Ninguém lhe prestava favor algum, pois era sempre uma obrigação servi-lo. A ninguém agradecia, pois não precisa agradecer quando alguém não faz mais que a obrigação.

Mas onde será que andava o Macedinho? Já uma semana sem comparecer ao trabalho. Ninguém sabia dizer. Nenhuma notícia, nenhum telefonema, nenhum pedido de desculpa. Aquilo era demais, era só ligar ou mandar um recado por outra pessoa, sei lá. Mas não, ninguém sabia dele.

Na segunda-feira seguinte, lá apontou o Macedinho, sorridente, com o mesmo semblante calmo e sereno de sempre. Por onde passava, todos olhavam para ele como se fosse um homem-bomba em direção ao seu triste destino, coitado, prestes a explodir a qualquer instante. Ninguém ousava dirigir-lhe a palavra nem sequer aproximar-se dele. Subiu, sem ninguém lhe dizer nada, até o 3º andar do prédio, onde, depois de bater à porta anunciando sua chegada, entrou no gabinete do dr. Januário, que o recebeu não com cara de poucos amigos mas com cara de amigo nenhum amigo.

‒ Entre e feche a porta, sr. Macedo. Sente-se e vamos conversar. Vai ser rápido.

O Macedinho sentou-se numa das duas poltronas em frente à mesa do chefe. Não parecia preocupado, transmitia tranquilidade. Parecia feliz.

‒ Pois bem, sr. Macedo. Uma semana sem comparecer ao trabalho. Já vi algumas coisas acontecerem em minha vida, mas uma ousadia dessas é a primeira vez. Esqueceu que há um chefe aqui, que quem manda aqui sou eu, que todos têm a obrigação de dar satisfações? Ainda mais num caso destes! Uma semana!

‒ É… – ponderou em tom tranquilo o Macedinho.

‒ O que é que o senhor acha que eu devo fazer agora? Não, não me diga. Aposto que vai me contar uma história qualquer, de uma tia velhinha lá do interior que estava doente e coisa e tal. Esqueça, não vai colar. E também não estou a fim de ouvir bobagem.

‒ Claro, tem razão, bobagem… ‒ comentou impassível o funcionário.

‒ Já vi funcionários rebeldes, já vi muitos desleixados, mas o senhor me parece mais do que isso. É um grande idiota… Mas pode ser que seja só um retardado mental mesmo. Aliás, o senhor pode até escolher. Pode ser um idiota ou um retardado mental. Para mim, tanto faz, dá na mesma. Pode escolher.

Sem dar qualquer espaço para que o funcionário, ao menos, tentasse se explicar (ou optasse entre idiota e retardado), o chefe continuou:

‒ Olhe aqui, eu cheguei aonde estou depois de muitos anos batalhando e não por puro puxa-saquismo, como dizem esses seus colegas idiotas por aí. Por competência. E agora, mesmo com essa história que a gente já está sabendo, da venda da empresa, saiba que eu vou continuar aqui, neste mesmo lugar, tá ouvindo? Por competência no cargo.

Houve um pequeno intervalo de total e desconcertante silêncio, após o quê o chefe disse:

‒ Agora, se quiser, pode falar. Mas seja breve.

‒ Bom, dr. Januário, eu gostaria só de fazer duas perguntas. São fáceis de responder. Vai ser rápido.

‒ Pode fazer, mas rápido.

‒ Pois bem. O senhor ficou sabendo que o sorteio da mega-sena da semana passada teve só um ganhador para aquela fortuna toda de quase 30 milhões?

Nesse momento deu um clique na cabeça do chefe, que se ajeitou melhor na cadeira, descruzando as pernas para novamente cruzá-las do outro lado com ambas as mãos segurando os braços da poltrona e respirando um pouco mais profundamente.

‒ Muito bem. Primeira pergunta: adivinhe só quem foi esse sortudo ganhador? – perguntou o Macedinho abrindo um grande e muito malicioso sorriso no rosto, olhando fixamente nos olhos do chefe.

O dr. Januário não respondeu, talvez com medo da própria resposta. Ficou com o olhar paralisado, fixado no funcionário, a boca entreaberta.

‒ Segunda pergunta: adivinhe só quem foi que passou a semana toda em negociação e acabou comprando esta empresa?

(*) Francisco de Paula Horta Manzano (1951-2006), escritor, cronista e articulista.

Educação: a maior fraude do mundo

Moisés Naim (*)

«Brasil ha logrado mejorar las habilidades de los estudiantes de 15 años, pero al actual ritmo de avance les llevará 75 años alcanzar la puntuación promedio en matemáticas de los alumnos de los países ricos; en lectura, les llevará más de 260 años.

Corea del Sur era en 1950 un país devastado por la guerra y con altos índices de analfabetismo. Pero en solo 25 años logró crear un sistema educativo que produce algunos de los mejores estudiantes del mundo. Entre 1955 y 1975 Vietnam también sufrió un terrible conflicto. Hoy sus estudiantes de 15 años tienen el mismo rendimiento académico que los de Alemania. Sí se puede.»

«O Brasil conseguiu melhorar o nível dos estudantes de 15 anos. No entanto, a seguir no ritmo atual, somente em 75 anos eles atingirão a média das notas de matemática dos alunos de países ricos. Em leitura, vai levar mais de 260 anos.

Em 1950, a Coreia do Sul era um país devastado pela guerra e com altos índices de analfabetismo. Em apenas 25 anos, conseguiu criar um sistema educacional que produz alguns dos melhores estudantes do mundo. Entre 1955 e 1975, o Vietnã também sofreu conflito terrível. Hoje, seus alunos de 15 anos têm o mesmo rendimento acadêmico que os da Alemanha. Sim, é possível.»

Moisés Naím (1952-), escritor e analista político de nacionalidade venezuelana. Foi ministro do Comércio e da Indústria de seu país no final dos anos 1980, antes da era ‘bolivariana’. O texto integral está aqui (em castelhano).

Surgiu um Kennedy no Trumpistão

Elio Gáspari (*)

O partido Democrata designou o deputado Joseph Kennedy III para discursar na contradita à fala de Donald Trump na sessão de reabertura do Congresso americano. Ele falou durante 13 minutos e, quando terminou, o partido Democrata tinha uma nova estrela.

Com algum exagero, a cena foi comparada ao discurso de um senador pouco conhecido na convenção democrata de 2004. Chamava-se Barack Obama e tinha 43 anos. Quatro anos depois, foi eleito presidente dos Estados Unidos.

Joseph Kennedy III tem 37 anos, está no segundo mandato de deputado e é neto de Robert Kennedy, o senador assassinado em 1968, aos 43 anos, quando estava na bica para ser eleito presidente. Cinco anos antes, seu irmão John morrera em Dallas. (O mais velho da prole, Joseph, explodiu com seu avião durante a Segunda Guerra.)

O breve discurso de Kennedy o colocou na lista de notáveis do partido. Respondeu ao septuagenário Donald Trump com uma peça de perfeita oratória. Unificadora num país dividido, benevolente numa sociedade crispada, ele apontou para o futuro numa época de intransigências vindas do passado.

Condenou o muro que Trump quer construir na fronteira com o México com um toque da maestria retórica de Ronald Reagan em Berlim: “Minha geração vai derrubá-lo”. Surpreendeu, dirigindo-se aos imigrantes em espanhol: “Vamos a luchar por ustedes”. (Ele passou dois anos na República Dominicana fazendo trabalho voluntário.)

Foi um discurso de candidato a muito mais. Pela primeira vez, um Kennedy vai para a cabeceira da pista com chances de decolar. Seu pai foi um deputado medíocre, alguns de seus primos se meteram em escândalos. Com um currículo de primeira (diplomado pelas universidades de Stanford e Harvard), Joseph é abstêmio, casou-se com uma colega de faculdade e tem uma cabeleira normal, que lembra um pouco a do avô, nada a ver com a marquise laqueada de Trump.

(*) Elio Gáspari é jornalista.

É carnaval

Myrthes Suplicy Vieira (*)

E, porque é carnaval, tudo o mais fica suspenso, cai para segundo plano, perde interesse, é postergado. Não são só os pequenos comércios, os autônomos prestadores de serviços e os bancos que aproveitam o enlouquecimento coletivo para se permitir uma folga e fechar as portas. É também a mente humana que entra em estado de torpor e vai embotando aos poucos, sufocada pelo calor escaldante, embalada pelo frenético ritmo dançante e hipnotizada pelas imagens de luxo e esplendor.

Tudo se adapta ao clima festivo e se transforma. Os telejornais são encurtados, as notícias de política e economia passam a ocupar o terceiro ou quarto bloco da edição e as manchetes mais preocupantes dizem respeito ao carro de uma escola que se desgovernou durante o desfile, quebrou ou pegou fogo. Os sites e portais de notícia na internet não ficam atrás: milhares de fotos das celebridades instantâneas que desfilaram e uma profusão de enquetes e análises de especialistas sobre as chances de cada escola ser campeã.

Nas novelas, os personagens das tramas mais terríveis de traição, vingança e sexo também encontram alívio temporário em seu tormento, se fantasiam e caem na folia. A grade de programação das emissoras sofre contínuos ajustes para acomodar chamadas ao vivo. Até a previsão do tempo enfrenta sutis alterações: ao invés de destacar o perigo de deslizamentos e inundações em áreas de alta densidade populacional, o destaque fica com a temperatura e o risco de chuva no horário do desfile em todas as passarelas regionais do samba.

E como fica quem não gosta de carnaval? Ora, como já diz a canção, quem não gosta de samba bom sujeito não é, é ruim da cabeça ou doente do pé. Os incomodados que se mudem, dita a sabedoria popular. Por que não vão fazer um retiro espiritual em alguma zona de mata? Ah, não pode por causa do risco de febre amarela? Pois que se tranquem em alguma clínica e passem por uma sonoterapia até a quarta-feira de cinzas, ora bolas.

Pensando bem, justiça seja feita, esse forçar goela abaixo não é exclusividade do carnaval. Em terras brasileiras, o mesmo se aplica ao futebol e aos “reality-shows”. Mesmo que você não suporte nenhum dos dois, é bombardeado a cada segundo com toneladas de informações indesejadas sobre o desenrolar de cada novo lance.

Sofremos, como povo, da doença dos imperativos categóricos do consumo. Se você é brasileiro e não gosta de café, de cerveja, de feijoada, não é torcedor fanático de algum time de futebol nem de alguma escola de samba, não gosta de praia, de sol e de verão, não se deixa atrair por novelas nem pelos embates tempestuosos (ou picantes) dos participantes de algum “reality-show”, melhor dar início aos preparativos de mudança para outro país.

Excesso e repetição, esses são os lemas da marqueteira alma tupiniquim. Transbordamento e deboche, as únicas respostas possíveis do adestrado cidadão-consumidor-folião para se livrar da angústia que o oprime social e politicamente nos outros 361 dias do ano.

Não existe pecado do lado de baixo do Equador…

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Lula pode evitar a prisão asilando-se

Elio Gáspari (*)

“Nosso Guia” poderá achar que é melhor chorar no exílio do que em Curitiba

Lula vai preso? Quando? Existe uma outra possibilidade. Diante da prisão inevitável e próxima, Lula entra numa embaixada latino-americana, declara-se perseguido político e pede asilo diplomático. Não há nenhuma indicação de que ele pretenda fazer isso, mas a realidade ensina que esse caminho existe.

Pelo andar da carruagem, Lula será preso para cumprir a pena que lhe foi imposta pelo TRF-4. Está condenado a 12 anos de cadeia, e dois outros processos poderão render novas penas. Aos 72 anos, ralará alguns anos anos em regime fechado até sair para o semiaberto.

Como é melhor chorar no exterior do que rir na carceragem de Curitiba, Lula sabe que dispõe do caminho do asilo diplomático. Considerando-se perseguido político, conseguiria essa proteção em pelo menos duas embaixadas, a da Bolívia e a do Equador. Pedir proteção aos cubanos ou aos venezuelanos só serviria para queimar seu filme.

Para deixar o Brasil, Lula precisaria de um salvo-conduto do governo de Michel Temer. Bastariam algumas semanas de espera, esfriando o noticiário, e ele voaria. Uma vez instalado no país que lhe deu asilo, ele poderia viajar pelo mundo. Mesmo que voltem a lhe tomar o passaporte, isso seria uma irrelevância. Até 1976, João Goulart, asilado no Uruguai, viajava com passaporte paraguaio.

O asilo de Lula poderia agradar ao governo, pois, preso, ele seria defendido por uma constrangedora campanha internacional. (Guardadas as proporções, como aconteceu com o chefe comunista Luís Carlos Prestes entre 1936 e 1945.)

A vitimização de Lula perderia um pouco de dramaticidade, mas as cadeias ensinam que com o tempo a mobilização murcha, e a solidão da cela toma conta da cena.

A gambiarra tem um inconveniente. Ele só poderia voltar ao país nas asas de uma anistia.

(*) Elio Gáspari é jornalista.

Bilinguismo luso-brasileiro ‒ 2

Ruth Manus (*)

Sei que já escrevi sobre isso. Mas não tenho culpa, o assunto não se esgota. Vivendo em Portugal, não sei se haverá um dia em que não acharei graça nisso tudo. Já mencionei os correios que descobri serem “curraios”, o jet-ski que é mota d’água, o sorvete de baunilha que vira “gelado de bónilha” e o fatídico dia em que meu namorado pediu para botar o relógio pra despertar às 8h30 e eu podia jurar que ele estava pedindo para eu colocar o despertador para o Tim Maia.

Mas a saga continuou. Aqui, existe um canal de música chamado VH1, mas cujo nome eles pronunciam em inglês. Vi-eidge-uãn. Foi quando meu namorado disse: o “vi-eidge-uãn” está mesmo com boas músicas. Ocorre que minha cunhada se chama Joana. E se ele fosse dizer “vi a Joana” ele certamente diria “vi-ai-juãn”. Portanto, prontamente entendi que ele estava dizendo que tinha visto minha cunhada com boas músicas. E perguntei “onde?” e ele disse “na televisão”. E então perguntei “sua irmã ouve música na televisão?” e ele respondeu “ai-juãn?” e eu disse “sim, você não disse que ela está com boas músicas?” e ele rebateu “ai-juãn? Não o vi-eidge-uãn”. Enfim, não vale a pena continuar narrando os minutos que levamos até nos entender.

Algo semelhante aconteceu quando fomos conversar com empreiteiros para fazer a obra da nossa casa. Conhecemos três, um deles moçambicano. E também fomos ver alguns materiais para a cozinha. Chegando em casa, eu perguntei “qual foi o seu preferido?”, me referindo aos empreiteiros. E ele prontamente respondeu sobre o material da cozinha. Seu favorito era o “corian”, um revestimento branco para as bancadas. Obviamente, que eu entendi que “corian” era sua forma lusitana de dizer “coreano”. E disse “moçambicano você quer dizer, amor?” e ele respondeu “o que tem o moçambicano?” e eu disse “você falou que o moçambicano era coreano” e ele “eu disse isso? quando?” e eu “agora, seu louco”. Nessa situação levamos 3 meses para nos entender.

Numa outra ocasião, estava num evento em Lisboa e fiz uma pergunta qualquer a um senhor que trabalhava na produção. E ele me respondeu “isso eu não sei responder, a senhora deve perguntar aos Açores”. E eu repeti “aos Açores?” e ele disse “sim senhora”. Fiquei sem saber o que dizer. Encontrei um amigo português e disse, rindo, “ele me mandou perguntar aos Açores” e o amigo respondeu “e qual a graça? Vamos lá perguntar”. Eu perguntei, rindo mais, “você vai me levar até os Açores?” e ele disse “claro, eles estão ali”. E então eu vi os assessores. Assessores. Assssssores. Açores.

Quando acho que estou me habituando às verduras que eles ‒ estranhamente ‒ chamam de grelos, encontro uma amiga portuguesa depois do almoço e pergunto “onde você almoçou?”. Ela responde “num grl” e eu “oi?” “fomos a um grl”. Eu tento me situar e pergunto “foram comer grelos?” e ela “não! Um grrrrrllllll” e eu assustada “comeram grilos?????” e ela, quase me batendo, “GRLLLL, GRLLLL, FOMOS A UM GRLLLL DE CARNES!”. Ahhhh. Entendi. Um grill. Um grill de carnes, desculpe qualquer coisa.

Enfim. Eu sigo batalhando todo santo dia. E tento manter o humor acima de tudo. Outro dia, meu namorado estava fazendo uma carne de porco, abriu o forno e disse “acho que está fixe”. “Fixe” é legal em Portugal. E eu fiz o brilhante e espirituoso comentário “então deu errado porque era pra ter ficado pig e não fixe”. Ele não achou muita graça.

Comemos o pig fish, assistimos a Frozen pela nonagésima vez e minha enteada comeu bolachinhas com leite antes de dormir. Veio de pijama até mim, com o pacote vazio na mão e perguntou “Rú, onde eu deito?” e eu falei “ué querida, na sua cama”. Ela achou estranho e foi. Quando cheguei ao quarto, estava o pacote na cama, cheia de migalhas. Deitar. Deitar fora. Jogar fora. O pacote. Das bolachas. Saquei.

(*) Ruth Manus é advogada, escritora e colunista do Estadão.

Socialismo do século XXI

Gustavo Franco (*)

«Em 2017 o PIB venezuelano caiu 14%, depois de ter despencado 16,5% em 2016. A expectativa inicial é de 6% de queda este ano, totalizando mais de 50% de contração entre 2013 e 2018. Não há nada parecido com isso fora de países devastados por conflitos militares.

O que se passa na Venezuela é uma desgraça econômica sem precedente, totalmente autoinfligida, deixando muito claro que o tal “socialismo do século XXI” é uma das maiores e mais danosas vigarices econômicas que a humanidade jamais testemunhou.

É espantoso que existam defensores incondicionais de Nicolás Maduro, mas não incomum: há os que acreditam na inocência de Lula, na competência de Dilma e em abduções por extraterrestres.»

(*) Gustavo Franco, ex-presidente do Banco Central, em artigo de 28 jan° 2018.

Um fundo de verdade

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Refletindo sobre o julgamento de um ex-presidente em Porto Alegre, sobre a onda de moralismo que se espraia por todas as áreas do país e sobre o devido respeito às leis, cheguei à triste conclusão de que há, sim, um fundinho de verdade nas lamúrias da esquerda brasileira.

Antes de mais nada, #nuncaantesnahistóriadessepaís um chefe do Executivo viu-se forçado a depor coercitivamente, ser julgado formalmente por corrupção e lavagem de dinheiro e enfrentar a humilhação de ter seu passaporte apreendido após condenação unânime em segunda instância.

Sabemos todos, mesmo que não queiramos admitir, que praticamente todos os antecessores do infeliz personagem tiveram lá seus deslizes éticos, administrativos, financeiros e políticos, sem jamais terem sido levados às barras de um tribunal. Por que, então, só ele e agora que estamos a poucos meses de uma nova eleição presidencial? A condenação da #almamaispuradoplaneta terá sido reles consequência de ele ter se compadecido do infortúnio secular do lado menos favorecido da sociedade brasileira e ter-lhe propiciado mais educação, mais renda, mais empregos, mais direitos e menos desigualdade? Ou os tempos deveras são outros? Evoluímos como cidadãos combativos ou regredimos como massa de manobra de líderes populistas?

by Gilmar Fraga (1968-), caricaturista gaúcho

Depois, inútil negar, a tese mil vezes repetida dentro e fora de nossas fronteiras do #égolpe provou estar ao menos parcialmente correta. Desde a carta aberta do atual mandatário, queixando-se de sua irrelevância política no cargo de vice-presidente e prometendo ser um articulador mais competente para recolocar o Brasil nos trilhos, até os dias de hoje, a consciência crítica dos cidadãos tem sido abalada quase diariamente por sucessivas infrações à ética e à moralidade pública perpetradas por ministros, secretários de Estado, integrantes do partido governante, membros da base aliada e pelo próprio presidente. Por maiores que sejam as evidências, os indícios e as provas, nenhum deles foi afastado do cargo por decisão judicial ou teve de se defender em juízo. Inquietante, não é mesmo?

Se tudo o que fizemos em infinitas manifestações de rua foi trocar seis por meia dúzia, como desacreditar da existência de interesses inconfessos nas batalhas pelo impedimento da então presidente? Pense rápido: o que conta mais para a concretização de um futuro esplendoroso para o país, a competência ou o caráter? O olhar social ou o equilíbrio da economia? Envie sua resposta em vídeo para a principal emissora do país, tomando o cuidado de manter o celular na posição horizontal, deitado.

Ainda, quando vamos finalmente enfrentar a dolorosa realidade de que o sistema judiciário brasileiro é enviesado, inconsistente, lento e ideologicamente comprometido? Quem ignora que a expressiva maioria de suas decisões é tomada com base não no RG, mas no CIC? Quem não se apercebe do fato de que nem os magistrados da mais alta corte do país obedecem estritamente ao que reza o texto constitucional e atropelam muitas vezes a separação de poderes? Como deixar de lado as evidências de que são capazes de incluir em seus arrazoados argumentações que configuram, sem sombra de dúvida, #perseguiçãopolítica?

by Gilmar Fraga (1968-), caricaturista gaúcho

Aí estão para provar casos emblemáticos como o impedimento da posse do ex-presidente no cargo de secretário de governo por suspeita de desvio de finalidade e a passividade de vários juízes federais frente à escolha de uma deputada condenada por infrações trabalhistas graves para o cargo de ministra do Trabalho, ou a nomeação de um indivíduo com mais de 120 pontos em sua carteira de habilitação para o cargo de diretor do Detran de Minas Gerais.

Não, senhores, definitivamente não há como tapar o sol com uma peneira. O fato cabal, irrefutável, é que #semLulanãohádemocracia. Chega de mimimi de quem não tem coragem de analisar os fatos políticos com espírito de isenção.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Baú de memórias ‒ 6

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Mais uma experiência inacreditável que resgatei sem querer bem lá no fundo do meu baú de memórias. Como o último tema que abordei foi o do marketing, a lembrança veio por associação. Sei que pode parecer ficção, mas meus mais de 20 anos trabalhando como pesquisadora de mercado e de opinião pública estão repletos de fatos inusitados como o que vou relatar.

Eu estava envolvida na época com um levantamento qualitativo dos hábitos de consumo de uma marca de preservativo masculino. O fabricante desejava saber para que tipo de práticas sexuais ele era mais utilizado por cada segmento de público e qual o grau de satisfação dos usuários com o desempenho do produto em práticas não-convencionais.

Como o tema era para lá de delicado, optamos por realizar entrevistas em profundidade diretamente na residência dos respondentes ou em outro local em que eles se sentissem à vontade. Como também era difícil recrutar interessados em expor sua vida íntima para desconhecidos, decidimos trabalhar com base em indicações – ou seja, uma pessoa já entrevistada indicava amigos ou conhecidos que igualmente se dispusessem a falar sobre suas práticas e fantasias sexuais.

O público-alvo era extenso: casais heterossexuais tradicionais com e sem filhos, casais homoafetivos, profissionais do sexo, homens e mulheres, solteiros e divorciados, jovens e idosos. Não dá para resumir em poucas linhas as descobertas que fizemos em cada um desses segmentos. Só posso dizer que eu e meus colegas pesquisadores passamos por um bom período de muitas risadas e espantos.

Uma de minhas entrevistadas era uma mulher casada, fissurada em sexo anal. Como o marido se opunha intransigentemente à prática, ela viu-se forçada a “adotar” um amante mais jovem e mais liberal e com ele se encontrava regularmente. O caso nos interessava bastante, já que o preservativo tinha para ela dupla finalidade: evitar uma gravidez indesejada nas relações com o marido e proteger-se de doenças venéreas que evidenciassem uma possível traição. Além disso, para cada parceiro, os requisitos quanto ao desempenho do produto eram bastante distintos.

A entrevista foi longa e animada. Muito simpática e descolada, ela não opôs nenhuma resistência às perguntas mais invasivas e nem mesmo ao fato de a entrevista ser gravada. Quando terminou, agradeci a gentil acolhida e fiz questão de reassegurar-lhe que as informações cedidas jamais seriam divulgadas sem estrita permissão dela.

Cerca de um mês depois da entrevista, já envolvida com outros temas de pesquisa e sem me lembrar da conversa que com ela tinha tido, fui convidada para o casamento da filha de uma amiga de longa data. A igreja era pequena e estava lotada. Após a cerimônia, entrei na fila dos cumprimentos aos noivos. Minha amiga estava postada ao lado do casal, ajudando-os a recepcionar os convivas. Estrangeira e muito divertida, ela se preocupava em demonstrar intimidade com as regras de descontração dos brasileiros mesmo em eventos formais.

Quando chegou minha vez, ela me abraçou, comentou entusiasmada alguns detalhes da cerimônia e me pegou pelo braço, dizendo: “Vem comigo, quero lhe apresentar uma pessoa”. Acompanhei-a até um salão lateral da igreja, onde eram servidos champanhe e bolo. Várias pessoas conversavam animadamente de pé, numa rodinha. Minha amiga invadiu a roda me arrastando atrás e toda orgulhosa me apresentou a um casal: “Quero que você conheça fulana, minha melhor amiga desde que cheguei ao Brasil, e o marido dela”.

Quando ergui os olhos, não pude acreditar no que estava prestes a acontecer. Diante de mim, pálida e rígida como um cadáver, lá estava a mulher que eu havia entrevistado um mês antes. Tive apenas alguns segundos para me perguntar qual seria a melhor forma de evitar um constrangimento fatal para todos os circunstantes.

Paradoxalmente, foi o olhar de estarrecimento que ela me lançou que providenciou a pista de que eu precisava. A mensagem era clara: era preciso que eu comunicasse corporalmente, em absoluto silêncio, que ela não corria risco nenhum de ser desmascarada.

Num segundo, fez-se luz dentro de mim. Adotei uma cara de estudada paisagem, estendi a mão profissionalmente, esbocei um sorriso e disse com toda a serenidade que me foi possível: “Muito prazer!”

Pude acompanhar com os olhos cada um de seus músculos se distendendo e a respiração voltando ao normal. As cores logo voltaram a seu rosto e seu olhar agora era de gratidão. Ela sorriu de volta e se encarregou de me apresentar ao marido.

Deixei passar alguns segundos e escapuli à francesa, por uma porta lateral, dando graças mentalmente por ninguém ter se apercebido da saia justa. Nunca mais a vi, mas tenho a certeza de que, se eu precisar um dia de alguém que testemunhe a favor do meu profissionalismo ou da confiabilidade dos pesquisadores em geral, ela será a pessoa certa.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Marketing burro

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Dizem que uma pessoa satisfeita com o desempenho de um produto/serviço, marca ou fabricante conta para outras três os motivos de sua satisfação. A propaganda boca a boca acaba sendo uma das formas mais vitais de marketing para seu gestor já que, além de potencializar a atração do artigo sobre quem ainda não o experimentou, tem custo zero. Por seu lado, uma pessoa insatisfeita tende a pesar a mão ao explicar para outras dez as razões de sua decepção. Com essa simples atitude, a marca pode sofrer significativo abalo de imagem antes mesmo que outros potenciais usuários tenham acesso a ela. E, mais grave, para recuperar credibilidade, o gestor precisará encarar pesadíssimos investimentos em propaganda formal.

A função do marketing é a de despertar o desejo, não a de impor o consumo. Em alguns casos, como quando se pretende introduzir no mercado um produto, categoria, marca ou fabricante, ele pode se permitir ir um pouco mais longe, abordando de forma mais agressiva o potencial consumidor, no esforço de criar patamares de desejo. Só não pode, em nenhum caso, substituir-se à consciência crítica do público que pretende atingir.

Todo produto tem o que os especialistas chamam de “benefício único”, ou seja, um atributo que o diferencia de todos os demais da categoria. Pode ser alguma característica físico-química como cor, sabor, textura, tamanho, design. Pode ser um traço de distinção social associado à imagem de marca, algum critério de especialização técnica, seu preço ou até seu caráter de inovação revolucionária. Descobrir qual é esse benefício singular é tarefa da pesquisa de mercado.

Embora poucos saibam, os resultados da pesquisa nem sempre são seguidos ao pé da letra pelo fabricante. Por razões estratégicas, ele pode querer posicionar o produto em segmentos distintos dos que a pesquisa identificou. É movimento corporativo legítimo, ainda que comporte alguns riscos.

O que todo marqueteiro que se preza sabe é que, como diz o ditado, você pode levar um cavalo até à água, mas não pode forçá-lo a beber. É preciso detectar exatamente qual é o perfil mais provável de consumidor que se deixará sensibilizar pela promessa mercadológica e ir ampliando aos poucos a identificação e a mobilização para a compra.

Os problemas começam a aparecer quando o marketing avança sobre a privacidade do público, ignora a necessidade de identificar o segmento a ser abordado prioritariamente e acredita ser mais vantajoso repetir ad nauseam a mensagem publicitária para atrair o maior número possível de interessados. São as chamadas estratégias “de baciada”.

Primeiro foi a assim chamada mala direta. Para os mais jovens, que podem nem desconfiar o que isso significa, explico. Tratava-se de um simulacro de carta pessoal, impressa com uma fonte que mimetizava a escrita humana. Ficou tristemente famosa por numerosas gafes. Como era enviada aleatoriamente a um público extenso, podia acontecer de, por exemplo, um vegetariano receber um informe publicitário convidando-o a saber mais sobre os melhores cortes de carne bovina. Ou algo ainda pior, traumatizante mesmo para o infeliz destinatário, como a divulgação de brinquedos eróticos para um religioso.

Depois foi a vez das impertinentes chamadas de telemarketing. Todos devem se lembrar dos folclóricos atendentes de call center, que se esmeravam no uso de gerúndios. Não demorou para as reclamações aos órgãos de defesa dos direitos do consumidor se acumularem. Pressionada, a agência estatal de telecomunicações decidiu implantar um serviço gratuito de bloqueio de telefones para barrar ligações de telemarketing.

Àquela altura, ninguém poderia imaginar que sentiríamos saudades daquele tempo. Impedidos de dar continuidade à sanha de sedução grosseira, sob pena de multas pesadas, os marqueteiros de plantão criaram logo uma estratégia ainda mais perversa. As chamadas de telemarketing passaram a ser pré-gravadas, A mensagem publicitária acaba sendo acionada automaticamente ao se atender o telefone. Para tornar a coisa um pouco pior, se é que isso é possível, muitos famosos se renderam à inglória causa de emprestar sua credibilidade pessoal para reforçar o apelo do produto/marca. Tragédia anunciada: a grande maioria naufragou num oceano de indiferença e irritação.

A coisa não parou por aí, infelizmente. A estupidez humana não conhece limites, como Einstein nos ensinou. Logo o raio de ação dessa forma rasteira de marketing se estendeu para os meios eletrônicos. Hoje em dia não é nada incomum tropeçar em propagandas, aninhadas em sites e portais de notícias, que são acionadas involuntariamente ao se rolar a página para baixo.

Afinal, você pode estar se perguntando, essa forma invasiva de marketing funciona? A resposta é: se tudo o que o fabricante deseja é auferir lucro imediato, sim. Claro que a repetição da informação tem lá suas vantagens. O nome do produto/marca gruda como chiclete na mente do consumidor e, caso ele se veja envolvido num processo de escolha, num mercado do qual pouco sabe, a assinatura da marca pode ser decisiva para a tomada de decisão. A longo prazo, porém, essa forma preguiçosa e burra de marketing genérico destrói todas as chances de o fabricante vir a se afirmar como detentor de uma imagem de qualidade, seriedade e responsabilidade social.

Nada que diga respeito ao humano é definitivo, no entanto. Mesmo a contragosto, sou forçada a admitir: há quem goste de ser tratado como massa ou gado. Sei que a noção de direito à privacidade caiu em desuso há já algumas décadas. Quanto mais barulho e holofotes forem gerados pela comunicação mercadológica, maior o desejo das novas gerações de fazerem parte do “seleto” público-alvo.

O tempora, o mores…

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.