A empresa

Francisco de Paula Horta Manzano (*)

Era uma empresa de porte médio, mas crescendo a cada dia. Muitos funcionários. Entre eles um chefe, o Januário, dono de um cargo de destaque e que supervisionava o trabalho de toda aquela gente que carregava a empresa nas costas.

Como tinha curso universitário, muito embora nunca tivesse defendido nenhuma tese, era tratado por doutor. Era, portanto, o Doutor Januário, muito prazer.

Era um homem que sempre tirava nota baixa em toda prova de humildade. Sem “por favor” nem “muito obrigado”. Ninguém lhe prestava favor algum, pois era sempre uma obrigação servi-lo. A ninguém agradecia, pois não precisa agradecer quando alguém não faz mais que a obrigação.

Mas onde será que andava o Macedinho? Já uma semana sem comparecer ao trabalho. Ninguém sabia dizer. Nenhuma notícia, nenhum telefonema, nenhum pedido de desculpa. Aquilo era demais, era só ligar ou mandar um recado por outra pessoa, sei lá. Mas não, ninguém sabia dele.

Na segunda-feira seguinte, lá apontou o Macedinho, sorridente, com o mesmo semblante calmo e sereno de sempre. Por onde passava, todos olhavam para ele como se fosse um homem-bomba em direção ao seu triste destino, coitado, prestes a explodir a qualquer instante. Ninguém ousava dirigir-lhe a palavra nem sequer aproximar-se dele. Subiu, sem ninguém lhe dizer nada, até o 3º andar do prédio, onde, depois de bater à porta anunciando sua chegada, entrou no gabinete do dr. Januário, que o recebeu não com cara de poucos amigos mas com cara de amigo nenhum amigo.

‒ Entre e feche a porta, sr. Macedo. Sente-se e vamos conversar. Vai ser rápido.

O Macedinho sentou-se numa das duas poltronas em frente à mesa do chefe. Não parecia preocupado, transmitia tranquilidade. Parecia feliz.

‒ Pois bem, sr. Macedo. Uma semana sem comparecer ao trabalho. Já vi algumas coisas acontecerem em minha vida, mas uma ousadia dessas é a primeira vez. Esqueceu que há um chefe aqui, que quem manda aqui sou eu, que todos têm a obrigação de dar satisfações? Ainda mais num caso destes! Uma semana!

‒ É… – ponderou em tom tranquilo o Macedinho.

‒ O que é que o senhor acha que eu devo fazer agora? Não, não me diga. Aposto que vai me contar uma história qualquer, de uma tia velhinha lá do interior que estava doente e coisa e tal. Esqueça, não vai colar. E também não estou a fim de ouvir bobagem.

‒ Claro, tem razão, bobagem… ‒ comentou impassível o funcionário.

‒ Já vi funcionários rebeldes, já vi muitos desleixados, mas o senhor me parece mais do que isso. É um grande idiota… Mas pode ser que seja só um retardado mental mesmo. Aliás, o senhor pode até escolher. Pode ser um idiota ou um retardado mental. Para mim, tanto faz, dá na mesma. Pode escolher.

Sem dar qualquer espaço para que o funcionário, ao menos, tentasse se explicar (ou optasse entre idiota e retardado), o chefe continuou:

‒ Olhe aqui, eu cheguei aonde estou depois de muitos anos batalhando e não por puro puxa-saquismo, como dizem esses seus colegas idiotas por aí. Por competência. E agora, mesmo com essa história que a gente já está sabendo, da venda da empresa, saiba que eu vou continuar aqui, neste mesmo lugar, tá ouvindo? Por competência no cargo.

Houve um pequeno intervalo de total e desconcertante silêncio, após o quê o chefe disse:

‒ Agora, se quiser, pode falar. Mas seja breve.

‒ Bom, dr. Januário, eu gostaria só de fazer duas perguntas. São fáceis de responder. Vai ser rápido.

‒ Pode fazer, mas rápido.

‒ Pois bem. O senhor ficou sabendo que o sorteio da mega-sena da semana passada teve só um ganhador para aquela fortuna toda de quase 30 milhões?

Nesse momento deu um clique na cabeça do chefe, que se ajeitou melhor na cadeira, descruzando as pernas para novamente cruzá-las do outro lado com ambas as mãos segurando os braços da poltrona e respirando um pouco mais profundamente.

‒ Muito bem. Primeira pergunta: adivinhe só quem foi esse sortudo ganhador? – perguntou o Macedinho abrindo um grande e muito malicioso sorriso no rosto, olhando fixamente nos olhos do chefe.

O dr. Januário não respondeu, talvez com medo da própria resposta. Ficou com o olhar paralisado, fixado no funcionário, a boca entreaberta.

‒ Segunda pergunta: adivinhe só quem foi que passou a semana toda em negociação e acabou comprando esta empresa?

(*) Francisco de Paula Horta Manzano (1951-2006), escritor, cronista e articulista.

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