Campos no cerrado

Cláudio Humberto (*)

Hoje Brasília é cosmopolita, com todos os encantos de uma grande capital. Mas nos primeiros tempos era uma cidade árida, um canteiro de obras com pouca diversão, poucas crianças e poucos velhos.

Muitos se queixavam da falta de mar (e de ar, nos períodos de baixa umidade), da ausência de montanhas e de esquinas, de solidão e de tédio.

Um dia, perguntaram ao senador mineiro Milton Campos o que ele achava de Brasília:

‒ É um bocejo de 180 graus.

Ele não viveu para constatar a extraordinária transformação da cidade.

(*) Cláudio Humberto é jornalista. Publica coluna diária no Diário do Poder.

Presidentes de antigamente

Venceslau Brás fez uma das mais completas e jovens vidas públicas do País: vereador, prefeito, deputado estadual, secretário de Estado, deputado federal, líder de governo, ministro, vice-presidente e, afinal, presidente da República. E tudo isso antes da idade de 50 anos.

Era mineiro de Itajubá, onde nasceu em 1868 e faleceu em 1966, aos 98 anos.

Presidiu a República de 1914 a 1918. Ao deixar o cargo, com 50 anos de idade, voltou à sua Itajubá, de onde nunca mais saiu. Passava os dias lendo e pescando.

Em 1946, o PSD mineiro precisava de um nome forte e acima das lutas internas para enfrentar Milton Campos, candidato da UDN ao governo. Foram buscar o velho Venceslau em Itajubá, ele aceitou. O partido reuniu-se em convenção numa sexta-feira 13 para homologar.

Benedicto Valladares, receoso de perder a liderança de Minas se o ex-presidente voltasse à ativa, lançou na última hora o nome de Bias Fortes e derrotou Venceslau. O episódio ficou nos anais da política mineira como “a noite da traição”.

Carlos Luz, Mello Vianna e outros, indignados, romperam com Benedicto e com o PSD. Apoiaram Milton Campos e o brigadeiro Eduardo Gomes, e derrotaram Bias Fortes. Milton Campos ganhou. Venceslau continuou lendo e pescando em Itajubá.

Acidente circulacao 2Anos mais tarde, já velhinho, Venceslau continuava dirigindo seu carrinho pela cidade. Um dia, bateu no carro de uns estudantes. Saltou, entregou-lhes um cartão para irem receber as despesas do conserto. O cartão dizia: “Venceslau Brás”.

Os estudantes leram, perguntaram: ― Que número?

Não era rua, era o próprio. A mais longa aposentadoria política do pais.

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Colhido nos alfarrábios do jornalista Sebastião Nery
http://www.sebastiaonery.com.br/