Crônica de (mais) uma morte anunciada

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Não precisa ser agente de um serviço de inteligência qualquer para descobrir quem matou a vereadora carioca e seu motorista. Tampouco é necessário ter lido os romances de Agatha Christie ou fazer parte de um departamento de investigações criminais para levantar pistas.

Também não é preciso ser psicólogo ou psiquiatra forense experimentado para ajudar a polícia a traçar o perfil mais que provável dos assassinos. De tão evidente, a verdade salta aos olhos, enrubesce a mais ingênua das criaturas, constrange até mesmo quem se imagina imune, acima das paixões humanas e acima do bem e do mal.

As autoridades federais, estaduais e municipais estão em rebuliço total, proferindo discursos inflamados contra o ato, qualificando-o como de extrema covardia e prometendo punição máxima aos envolvidos. A imprensa nacional e internacional não falam de outra coisa. Nas redes sociais já se articula um movimento para inserir em todas as páginas a chamada #Mariellepresente. Aqui e ali, grupos reais e virtuais começam a emergir das sombras para contraditar e ironizar a comoção geral. Numa espécie de defesa prévia contra a revelação ‒ que fatalmente virá ‒ de que os “bandidos” que perpetraram o crime fazem parte, na verdade, do grupo dos “mocinhos”, eles ensaiam tímidas ou escancaradas justificativas para o ato, como: ‘colheu o que plantou’, ‘ela defendia bandidos’, ‘era contra quem dá a vida para nos proteger’ ou ainda ‘ninguém se importou com o assassinato de uma policial negra numa UPP porque ela não era militante de esquerda’. O maniqueísmo político e ideológico reinstala-se com pompa e circunstância também nas ruas das grandes capitais.

Dizem que, numa guerra, a primeira vítima é sempre a verdade. Na guerra civil não declarada que sacode o país há quase uma década, de que lado ela está? Não importa. O grave é que, como sociedade, nos tornamos insensíveis à dor e ao sofrimento humano. Não é mais uma pessoa – com cheiro, cor, contornos físicos, textura de pele, sentimentos, ideias e vontades ‒ que morre. É só uma abstração moral.

Incorporamos de tal forma o raciocínio binário da tecnologia informática que agora só nos posicionamos e reagimos a categorias mentais: gente do bem x gente do mal, trabalhadores x vagabundos, pessoal de esquerda x pessoal de direita, militares x civis, terroristas x cidadãos, gays x héteros. Para cada uma, criamos uma lista pétrea de atributos morais positivos e negativos que define o caráter do grupo como um todo. Esquecemos de considerar que, se a premissa inicial do silogismo for falsa, a conclusão também o será. Talvez ainda mais angustiante: nem mesmo nos damos ao trabalho de pensar que essas categorias não são mutuamente excludentes.

Como sintetizou com brilhantismo a viúva do motorista da vereadora, neste momento o foco tem de estar na dor da tragédia humana, forçosamente maior do que qualquer revolta: “No fim das contas, é (só) mais um” a fazer parte desta estatística macabra. Assino embaixo.

O mal já foi banalizado, tornou-se rotina entre nós. Tudo já foi dito, todas as lágrimas derramadas, toda indignação manifestada, toda investigação prometida, e absolutamente nada mudou. Basta de clichês. A hora agora é de silêncio e introspecção. Temos de passar recibo do calo emocional que se criou no seio da sociedade civil, que nos impede de encarar sem anteparos nossa secular impotência diante da vilania de quem deveria zelar por nossa segurança e bem-estar.

Como lembrou Hannah Arendt, o mal nem sempre é fruto de uma mente perversa, cruel, doentia. É filho dileto da irreflexão, da incapacidade de fazer julgamento moral caso a caso. É seguir burocraticamente as ordens recebidas, realizar as tarefas pelas quais nos pagam, sem atentar para as consequências. É manter imutáveis certas crenças que alimentam e reproduzem a violência nossa de cada dia. É não se dar conta de que somos o único animal dotado de livre arbítrio e, portanto, aptos a fazer escolhas.

Afinal, que crenças são essas? Algumas me ocorrem neste momento, mas tenho a certeza de que, se refletirmos um pouco, a lista será bem maior:

• Acreditar que a força pode vencer a inteligência.

• Acreditar que o medo pode ser sustentáculo eterno da tirania.

• Acreditar que, calando bocas, calam-se também ideias e projetos de futuro.

• Acreditar que a rede de proteção comprada a peso de ouro pelos poderosos de plantão ou conquistada pela intimidação nunca vai quebrar o silêncio e se insurgir.

• Acreditar que se pode confiar cegamente nos próprios comparsas.

Termino com uma provocação, que é também um convite para reflexão. Como escreveu um dia um consultor organizacional americano, lembre-se sempre que: “Se você não faz parte da solução, então é parte do problema”.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

2 pensamentos sobre “Crônica de (mais) uma morte anunciada

  1. Com tristeza e pesar concordo que nosso país mergulhou na banalidade do mal e em lugar do silêncio respeitoso e sentido optou pela briga rastaquera de torcida. Nossa tarefa urgente é reencontrar nosso rumo na diversidade e multiculturalismo que somos.

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  2. Pingback: Crônica de (mais) uma morte anunciada | Caetano de Campos

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