O bom-moço

Mr. Ben John na saída do tribunal

José Horta Manzano

A notícia saiu no Lincolnshire Live, um veículo regional da mídia inglesa. Nas terras da rainha, aprecia-se o bom humor, mas não se brinca com coisa séria.

Ben John, de 21 anos, é aluno de criminologia na Universidade de Leicester. Desde que completou 18 anos, passou a viver um tanto solitário, trancado em casa e mergulhado na internet. Deu de frequentar sites de extrema-direita, daqueles da pesada, que pregam supremacia da raça branca, antissemitismo, homofobia e xenofobia (ódio contra os estrangeiros). Chegou até a publicar nas redes um manifesto que mostra sua clara adesão a essas ideias.

Como se sabe, hoje em dia, atividades privadas e públicas andam enlaçadas, entremescladas, fusionadas. Não se sabe bem onde termina o que é íntimo e onde começa o que pode ser compartilhado. A cumplicidade das redes sociais contribui para apimentar o caldo. Do que se diz ou faz, nada mais fica em segredo, nada mais passa em branco.

A Inglaterra conta com institutos oficiais encarregados de prevenir atos violentos. O fato é que eles notaram a movimentação do rapaz e começaram a monitorá-lo. Não demoraram a descobrir que o envolvimento dele com esses grupos violentos está se intensificando. Nos últimos meses, Ben John superlotou o disco rígido de seu computador com cerca de 70 mil documentos de apoio e elogio ao regime nazista, de defesa do supremacismo branco e de divulgação do antissemitismo. Descobriu-se também que ele detinha informações importantes para fabricar explosivos caseiros que poderiam ser usados em atentado terrorista.

Como eu disse logo na entrada deste artigo, os britânicos não deixam barato esse tipo de coisa. O rapaz foi detido e seu caso foi a julgamento. Pelo conjunto de infrações e delitos, ele arriscava ser condenado a até 15 anos de prisão fechada. Talvez levando em conta a pouca idade do acusado, o juiz teve a mão leve.

Na Inglaterra, o simples fato de estar de posse de material que poderia servir para ato terrorista é passível de punição. Cabeça baixa, Ben John teve de escutar um longo sermão do magistrado. Entre outras reprimendas, ficou sabendo que a ideologia de extrema-direita é considerada uma ameaça à segurança nacional, e que o material que ele possuía, todo relacionado com essas ideias, é “repulsivo aos olhos de qualquer ser normal”. Teve de prometer solenemente deixar de ler documentos daquela natureza.

E não ficou por aí. Ben John foi condenado a dois anos de cadeia. A pena, no entanto, fica temporariamente suspensa, a depender de seu comportamento. Caso não cumpra o que prometeu ao juiz, vai para o cárcere imediatamente e passa para o regime fechado, onde permanecerá até o último dia. Terminados esses dois anos, terá ainda de se submeter a um ano de controle judiciário, período durante o qual terá obrigação de se apresentar à polícia periodicamente. Não termina por aí. A partir de agora e até 2026 (um período de 5 anos), deverá permitir que sua atividade na internet seja monitorada.

E mais dois detalhezinhos de sua condenação. O primeiro é a exigência de cumprir um programa de 30 dias de desintoxicação psicológica especialmente concebido para extremistas. O segundo é a obrigação de ler os grandes clássicos da literatura inglesa. (Yes! Obrigado a ler livros! Já imaginou essa pena entre nós?) O juiz já lhe deu uma primeira lista com os livros obrigatórios. E avisou que o rapaz será convocado três vezes por ano para ser interrogado e demonstrar que realmente leu os livros propostos (e não só o resumo da Wikipédia). Se você pensou em teste de múltipla escolha, esqueça. Não é isso.

Bem diferente do sistema brasileiro, não é mesmo? Pois achei a ideia excelente. Para introduzi-la entre nós teria de ser adaptada, visto que nem todos estão em condições de entender o que leem. Assim mesmo, o princípio deveria ser aplicado aos complotistas tupiniquins, aqueles que tramam contra a segurança da nação. Em terra tupiniquim, não se costuma fazer isso com bombas, como na Inglaterra, mas com manifestações pedindo o desmonte das instituições democráticas. É a mesma coisa, se não pior.

O Estado e a Igreja na Suíça

José Horta Manzano

Ontem postei o artigo Casamento para todos, em que exponho um problema que fatalmente vai surgir assim que for instituído na Suíça o casamento para pessoas do mesmo sexo.

Uma fiel leitora me pergunta como é possível essa interação com a religião, visto que a Suíça é oficialmente um Estado laico.

A resposta é que, na Suíça, as relações Igreja/Estado são complexas e obedecem a uma lógica particular, às vezes desconcertante. Para usar um termo da moda, trata-se de uma relação “não-binária”.

É uma particularidade nacional, talvez única no mundo. Para quem se interessar pelo assunto, encontrei no site Migraweb um bom texto, claro e conciso. Traduzi e adaptei. Está disponível aqui sob forma de arquivo pdf.

Casamento para todos

José Horta Manzano

Faz alguns meses, as Câmaras Federais da Suíça aprovaram uma lei que oficializa o chamado “casamento para todos”. Antes da lei, só parelhas heterossexuais podiam se casar de papel passado. Homossexuais só tinham direito a um simulacro de casamento, um ato simplificado feito em cartório, que não dava os mesmos direitos nem impunha os mesmos deveres que um casamento hétero. Era só pra inglês ver.

É bom explicar que, neste país, só vale o que está na lei. Não é como no Brasil, país onde juiz tem amplitude de movimentos para tomar decisões conforme suas convicções, às vezes no limite da legalidade. Aqui, toda decisão judicial tem de ter base legal bem firme. Invocar a jurisprudência é bastante incomum, justamente porque a lei costuma ser seguida à risca.

Em conformidade com a tendência de nosso tempo, os parlamentares entenderam que todos os casais homossexuais que decidirem juntar os trapos oficialmente terão direito a serem amparados pela lei: mesmos direitos que um casal tradicional. E deveres idênticos, naturalmente.

Para gente esclarecida, dizer isso parece uma evidência. Mas o diabo é que nem toda a gente é esclarecida. Há sempre aqueles que se mostram reticentes a toda mudança na sociedade, gente que tem muito medo, que acredita que uma lei como essa é porta aberta para a iminente dissolução da família, para o reconhecimento da poligamia, para a aceitação da pedofilia e sabe-se lá quantos horrores mais.

O sistema suíço de democracia direta permite que um partido ou um grupo de cidadãos conteste uma lei já votada. Para tanto, é preciso coletar um determinado número de assinaturas dentro de um determinado prazo. Os oponentes à lei do “casamento para todos” lançaram uma iniciativa nesse sentido e conseguiram preencher os requisitos.

Em casos assim, a palavra final será dada pelo povo – é o que se chama aqui democracia direta. Está marcado o plebiscito para 26 de setembro.  Os eleitores terão de dizer se aceitam ou se rejeitam a lei votada pelo Parlamento. Segundo as sondagens, os opositores vão ficar frustrados. A população tende a referendar, por ampla maioria, o que decidiram deputados e senadores. Só que tem um senão.

Conceituados juristas foram consultados sobre a questão religiosa. Se essa lei for confirmada pelo voto popular, como é que as Igrejas terão de encarar o casamento homossexual? Terão liberdade de recusar estender o sacramento aos gays, ou serão obrigadas a abençoar os casais não convencionais da mesma maneira (e como o mesmo rito) dos casais héteros?

Dizem os que entendem de lei que sim, sacerdotes, pastores e outros oficiantes terão de se dobrar ao que diz o artigo do código civil que dá a todos os cidadãos os mesmos direitos e os mesmos deveres. Se todos os cidadãos têm os mesmos direitos e se todos os casais têm direito a se casar, é natural que os oficiantes religiosos sejam obrigados a celebrar as uniões homossexuais, gostem ou não. Se se recusarem, poderão ser sancionados penalmente.

É possível que surjam situações interessantes. Aguardemos os próximos capítulos.

Roubo de areia

Praia Rosa, Sardenha

José Horta Manzano

Me lembro que, de criança, a gente gostava de procurar conchinha na areia da praia. Naquela época, encontrava-se muita concha quebrada. Havia também daqueles caramujos grandes que a gente encostava no ouvido pra ouvir o ruído do mar. Faz tempo que não vou à praia, mas imagino que as crianças de hoje continuem praticando o mesmo esporte.

Conchinha, a gente levava pra casa. Quanto à areia, não me lembro de ter visto alguém levar nem um punhadinho de lembrança pra casa. Dizendo assim, até parece coisa de maluco: com tanta concha pra catar e tanto artesanato pra comprar, quem é que vai ter o mau gosto de botar areia na bagagem de volta?

Pois há lugares do mundo em que isso se faz. As praias cinematográficas da ilha da Sardenha (Itália) são vítimas dos aficionados desse estranho esporte. E não é de hoje. Já faz décadas que forasteiros enchem garrafas, baldes e sacos de plástico com areia e carregam pra casa. Nem sempre se conhece a finalidade do roubo. Há quem faça comércio. Parece até que há anúncios na internet de gente oferecendo 1kg de areia da Sardenha contra 1kg de areia das Bahamas, coisas desse tipo. Não posso garantir, porque nunca comprei.

Tanto fizeram, que o governo provincial resolveu legislar pra dar um basta. Já nos anos 1990, a pequena Praia Rosa (na região de Budelli, Sardenha) foi declarada zona de proteção ambiental, e as visitas, proibidas. É que, se bobeassem, a areia sumiria em pouco tempo. Essa praia tem uma particularidade: a cor rosada de sua areia. Ela é conferida por um microorganismo cor-de-rosa que vive dentro das conchinhas. Com o passar do tempo, os moluscos morrem, as conchas se partem em mil fragmentos que acabam chegando à areia da praia dando-lhe a cor característica. Que se saiba, esse fenômeno não ocorre em outros lugares.

Atualmente, só se pode ver a Praia Rosa de longe, em excursões a bordo de pequenas embarcações controladas e vigiadas. Elas têm permissão de se aproximar a, no máximo, 70m do litoral, mas ninguém pode desembarcar, nem a nado. Na pequena ilha, ninguém entra; lá só mora o vigia do parque natural.

Assim mesmo, turistas desavisados (ou que se fazem de bobos) continuam levando areia de outras praias sardas. É impossível saber a quantidade exata, mas se calcula que toneladas e toneladas são roubadas todos os anos e transportadas para toda a Europa. As bagagens que passam pelo aeroporto são fiscalizadas, mas a maior parte dos turistas vêm de veículos tipo motorhome, trailer ou camping car. Esses escapam quase sempre, dada a impossibilidade de inspecionar cada recanto de cada veículo.

Assim mesmo, não é aconselhável arriscar. Para quem for apanhado em flagrante, o castigo é pesado: multa que varia entre 500 e 3.000 euros (R$ 30 mil a R$ 190.000), dependendo da gravidade e do volume do roubo. A penalidade tem de ser paga imediatamente, por cartão de crédito. Se não houver fundos, veículos e passageiros serão retidos até resolução do problema.

The hole

José Horta Manzano

Primeiro, abro um parêntese. Aquilo que hoje se conhece como droga era chamado de entorpecente algumas décadas atrás. Droga era produto preparado por droguistas e vendido em drogaria, dentro de total legalidade. Cem anos atrás, quando a oferta de remédios de laboratório não era ampla como hoje, era costume o médico “dar a receita”, isto é, escrever num papel os ingredientes e o modo de preparar o medicamento. (Aliás, é por isso que se chama até hoje receita, exatamente como receita de bolo.)

Entregava-se à farmácia o papelzinho, fazia-se a encomenda e um droguista se encarregava de aviar a receita. Salvo caso de emergência, ficava pronta no dia seguinte. Repare que na polícia, até hoje, o departamento que cuida de heroína, cocaína, crac e outros bichos é o Setor de Entorpecentes, nunca um hipotético Setor de Drogas. Vamos fechar o parêntese.

No mundo todo, a todo momento, tem gente se esquivando da própria responsabilidade. É o policial que, após despachar o bandido para o outro mundo, explica que o fora-da-lei atirou primeiro e que ele, policial, só revidou em legítima defesa. É o estuprador que explica que só fez o que fez porque a moça, que era um demônio de saias, atiçou seus baixos instintos e deixou-o impossibilitado de resistir. É o aluno que, apanhado em flagrante quando ‘colava’ a prova do coleguinha da frente, informa que só fez isso porque, tendo o colega se ausentado pra fazer pipi e deixado o papel à vista, foi impossível desviar o olhar. Tratou-se de “cola involuntária”.

Estes dias, as manchetes da França deram, com destaque, a notícia de um adolescente de 14 anos que foi assassinado com uma rajada de metralhadora Kalachnikov. A investigação demonstrou que o jovem estava cumprindo sua missão de vigiar um ponto de venda de droga, à entrada de um conjunto habitacional da periferia de Marselha. Numa briga de gangues, dois desconhecidos encapuzados chegaram de moto, o infeliz acabou levando o tiro, enquanto o resto do bando escapou. E os assassinos fugiram na mesma moto em que tinham vindo.

Dia seguinte, o comentário do prefeito de Marselha foi lapidar. Lamentou-se ele de que “nesta cidade, compra-se uma metralhadora Kalachnikov com a mesma facilidade com que se compra um pãozinho de padaria”. (O “pãozinho de padaria” é invenção minha; no original, é un petit pain au chocolat – um pãozinho de chocolate”, especialidade ultrapopular, apreciada por grandes e pequenos. Mas o efeito é o mesmo.)

Taí um desavergonhado exemplo de alguém que procura se desvencilhar da própria culpa. Em Marselha, como em qualquer lugar do mundo, os pontos de droga são pra lá de conhecidos das autoridades municipais. Se continuam funcionando, é porque têm permissão tácita para fazê-lo.

Quanto ao acerto de contas entre gangues rivais, a culpada não é a Kalachnikov, a arma do crime. O problema não vem da facilidade de aquisição da metralhadora preferida por 11 de cada 10 terroristas. Se fosse difícil comprá-la, qualquer outra arma teria servido: arco e flecha, coquetel Molotov, foice, tacape ou até um modesto bodoque. Se o adolescente morreu, a culpa certamente não é da arma.

The hole is further down (o buraco é mais embaixo).

Destruição de vacinas

José Horta Manzano

Na noite de segunda para terça desta semana, um vacinódromo situado perto de Toulouse (França) foi vandalizado. Foi ataque de tipo clássico, feito por desconhecidos no escurinho da noite. Resultou em vidros partidos, móveis destroçados, prateleiras reviradas, computadores quebrados e, o pior de tudo, 500 doses de vacina anticovid destruídas. Não foram roubadas: foram inutilizadas e deixadas no lugar.

Não é o primeiro ataque a centros de vacinação no país. No começo do mês, um escritório regional da Ordem dos Enfermeiros já havia sido vítima de vandalismo. Em julho, dois vacinódromos instalados em tendas de lona já haviam sido atacados, tendo um deles sido parcialmente incendiado.

Esses ataques são o braço violento dos protestos de rua que estão se tornando habituais no país: todos os sábados, há passeatas animadas e ruidosas nas principais cidades. Participam os “antivax”, aqueles que, por alguma razão, se recusam a receber a vacina.

O problema deles é que, não sendo vacinados, ficam excluídos de boa parte das interações sociais. Não têm direito ao pass sanitaire – a carteira vacinal”. Não tendo o “pass”, não podem entrar em bar, nem restaurante, nem cinema, nem museu, nem piscina pública. Em determinados empregos, como na área de saúde, não têm mais o direito de trabalhar. Daí o mau humor.

Vamos refletir. Caso o distinto leitor – que Deus o livre – tivesse de ser hospitalizado. Gostaria de ser cuidado por uma equipe de gente não vacinada? Médicos, enfermeiros, auxiliares de enfermagem e pessoal de limpeza? Todos expirando dentro do seu quarto os micróbios trazidos de fora?

Até certo ponto, aceito que alguns façam a escolha pessoal de não se vacinar contra a covid. Não entendo por que fazem isso, mas aceito que o façam por convicção pessoal. Levantar faixas de protesto e marchar nas avenidas aos sábados é uma coisa – pode até causar incompreensão, mas não agride nem machuca ninguém. Já vandalizar vacinódromo é coisa bem diferente e inadmissível. É a potencialização do egoísmo, da intolerância e da truculência. Faz lembrar a destruição de livros por parte daqueles que não apreciam determinada literatura. Dá frio na espinha.

A liberdade que o antivax reclama (de não se vacinar) é exatamente igual à do cidadão que deseja receber a vacina. Portanto, assim como o adepto da vacinação não obriga o antivax a estender o braço, o antivax não tem o direito de impedir a vacinação dos outros.

Além do quê, seja por que motivo for, destruir propriedade alheia é crime.

Observação
Acho divertido que os franceses tenham dado ao certificado vacinal o nome de “pass sanitaire”. É assim mesmo que escrevem: “pass”, com dois ss e sem o e final.

A forma “passe” existe em francês, como elemento de composição de inúmeras palavras: passe-partout (=chave mestra), passe-purée (=espremedor de batata), passe-temps (=passatempo), passe-passe (=passe de mágica). Mas “passe” sempre tem um e no final.

Sem e, é novidade. Devem ter feito isso pra parecer mais moderno, pra ficar mais próximo de um hipotético sanitary pass.

Talibã

José Horta Manzano

Nestes dias em que o mundo se surpreendeu com a queda ultrarrápida do governo afegão diante dos talibãs, todos procuram culpados. Como é possível que o país tenha caído com tanta facilidade?

Análise é o que não falta. Há quem aponte a falta de preparação do exército afegão. Há quem diga que as tropas legalistas não eram em número suficiente diante dos revoltosos. Há ainda quem acredite que o exército nacional, além de mal preparado pelos americanos, estava mal equipado.

É possível que todas essas críticas sejam apropriadas – é difícil fazer afirmação definitiva. No entanto, elas ignoram um problema de raiz, que, a meu ver, está na origem dos males atuais: o Afeganistão não é um país. Pelo menos, não é o que costumamos entender como um estado-nação.

Aquela região é um mosaico de etnias, que falam línguas contrastadas e que, muitas vezes, professam religiões antagônicas. As línguas do grupo iraniano são majoritárias (baluche, aimaque, hazara, tadjique, pachtu), mas extensas regiões do país falam línguas do grupo túrcico (turcomeno, uzbeque, quirguiz, todas aparentadas ao turco). Há ainda línguas minoritárias, classificadas fora desses troncos principais. Dê uma olhada no mapa etnolinguístico que reproduzi logo na entrada do post.

Essa diversidade de falares impede a intercompreensão. Em outros termos: ninguém o que diz um habitante de outra região. Para se entenderem, teriam de eleger uma língua comum – uma lingua franca –, objetivo impossível para um povo de poucas letras. Só essa particularidade, de não se entenderem, já é barreira intransponível para a formação de um país.

Imagine o distinto leitor o drama que seria não poder dialogar com os nativos de um Estado vizinho ao seu. Como é que se há de governar uma tal colcha de retalhos? Só se consegue pela força, com mão de ferro. Foi o que fizeram as forças de ocupação durante 20 anos e é exatamente o que os novos donos da região – os talibãs – se preparam a fazer.

Assim mesmo, é bom ter em mente que esse tipo de mosaico transformado em Estado é fonte permanente de tensões. Até países altamente civilizados, como a Bélgica, por exemplo, assistem a confrontos periódicos entre as comunidades que o compõem. No Afeganistão, é certeza: os talibãs nunca poderão se mostrar “bonzinhos” nem afrouxar o regime, sob pena de o país se desagregar.

Taliban? Talibã? Taleban? Talebã?
Tenho visto na imprensa todas essas grafias e ainda mais algumas. Como escrever certo? Vamos começar pelo começo.

Talibã é palavra afegã inspirada no termo árabe taleb, que quer dizer estudante. No começo, a palavra designava os estudantes de teologia que, nos anos 1990, tomaram conta do país. Radicais, impetuosos e despreparados para governar, fizeram um desastre. Foram contidos pelas forças de ocupação de uma coalizão encabeçada pelos EUA e coadjuvada por países europeus. Só que a presença estrangeira não resolveu os conflitos seculares. Mal os ocupantes começaram a se retirar, tudo está voltando ao que sempre foi.

Agora, que sabemos de onde vem a palavra talibã, como aportuguesar a grafia? Dado que quem faz a língua é o falante, as coisas vão se acomodar com o tempo. Por enquanto, é muito cedo. Cada jornalista escreve como imagina ser correto. Eu escreveria assim, como pronunciamos nós: talibã. Com inicial minúscula e ã no final, que é nossa maneira de aportuguesar (Irã, Omã, Amsterdã).

Em nenhum caso eu poria inicial maiúscula. Assim como democracia, monarquia, fascismo, getulismo e janismo levam inicial minúscula, talibã também deve levar. Eu evitaria o coletivo “o Talibã”. Melhor falar no “regime talibã” ou, no limite, “regime dos talibãs”.

Mas isso é o que este escriba acha. É possível que o uso imponha outras normas. Se assim for, seguiremos o cortejo.

Trilha com sabor de chocolate

José Horta Manzano

Você sabia?

Os suíços sentem muito orgulho por seu país não ter sido invadido por tropas alemãs nem italianas na Segunda Guerra Mundial. É realmente surpreendente que a pequena Suíça não tenha sido engolida, com casca e tudo, pelos exércitos do Eixo. Afinal, excluindo um minúsculo trecho que a separa do Principado do Liechtenstein, a Suíça estava completamente cercada por nações em guerra. Tinha (ainda tem) fronteira com a Alemanha, a Itália, a França (ocupada pela Alemanha) e a Áustria (anexada à Alemanha). No país helvético, muita gente atribui essa não intervenção à força de dissuasão representada pelo poderio militar suíço.

Bunker disfarçado de chalé de madeira

Há quem sorria ao ouvir essa explicação. Seja como for, tanto Berlim quanto Roma sabiam que seria bastante complicado dominar e ocupar um território montanhoso como este. Sabiam também que os suíços estavam muito bem armados e equipados, além de serem conhecidos como combatentes aguerridos.

Toblerone de verdade

Hitler e Mussolini devem ter feito a conta duas vezes. Chegaram à conclusão de que não valia a pena perder tempo, dinheiro, esforço e vidas humanas para conquistar um território pouco industrializado e totalmente desprovido de riqueza mineral. De qualquer maneira, não saberemos nunca o que realmente passou pela cabeça dos dois ditadores.

Linha dos toblerones

Linha dos toblerones

Eu acrescentaria mais uma razão. Numa Europa conflagrada, interessava a todos respeitar a neutralidade de um pequeno território, situado bem no centro geográfico do conflito. Era um lugar seguro, de onde não se receava que viesse nenhuma ameaça. Mais que isso, era um lugar onde todos podiam guardar, na confiança, seus dinheiros, seus ouros, suas obras de arte e suas joias. Mais ainda: um lugar superconveniente para eventuais encontros secretos e confabulações discretas e confidenciais. Todas essas razões hão de ter contribuído para que o país fosse poupado.

Isso hoje faz parte da História. Como diz o outro, «Depois que aconteceu, qualquer um é profeta; difícil mesmo é adivinhar o futuro». Naqueles anos 1930, um bafo de guerra soprava no continente, embora ninguém soubesse de que lado nem com que força viria a tempestade. As autoridades suíças não podiam cruzar os braços e apenas torcer para que o país não fosse invadido. Todos tinham de estar prontos para repelir tropas inimigas.

Linha dos toblerones, hoje utilizada para caminhadas a pé

A inteligência militar planejou um complexo sistema de defesa. Naqueles tempos, a referência mais próxima era a Primeira Guerra (1914-1918), durante a qual os ataques se faziam por via terrestre, com tanques e blindados. Foi pensando nisso que bolaram o sistema defensivo suíço, basicamente terrestre àquela época. Incluía numerosos pontos, alguns dos quais são hoje conhecidos do grande público, enquanto outros ficarão secretos para sempre. Talvez seja melhor assim.

Todas as pontes do país estavam minadas. Ao menor sinal, as vias de comunicação seriam interrompidas, o que dificultaria tremendamente o avanço de tropas inimigas. A região de Genebra, fronteiriça com a França, trazia um problema espinhoso para os militares. Por ser constituída de terrenos planos e pela ausência de rios, foi considerada indefensável. Tomou-se a decisão tática de dar a cidade como perdida e implantar o sistema de defesa uns 30km mais para o interior do país.

Villa Rose Fortaleza disfarçada de casa de campo

Villa Rose
Fortaleza disfarçada de casa de campo

Construíram-se fortalezas com aparência de pacíficas casas de campo. Foram levantados bunkers com aspecto externo de inofensivos chalés de madeira. Instalaram-se discretos postos de observação em pontos mais elevados ― naqueles tempos não havia street view nem espionagem por satélite. Para completar, uma verdadeira obra de arte defensiva foi construída, uma versão helvética da muralha da China. Ficou conhecida popularmente como Ligne des toblerones, a linha dos toblerones.

O que era e por que lhe deram esse nome?
Era – e ainda é – uma linha de 10km de blocos de concreto que impossibilitam a passagem de tanques de guerra. São quase 3000 blocos monstruosos de 9 toneladas cada um. Têm forma peculiar de tetraedro que lembra um pedaço de chocolate Toblerone, daí o apelido.

Villa Rose Janela com cortina falsa

Detalhe da Villa Rose: janela com cortina falsa

Não se tem notícia de que nenhum tanque tenha jamais tentado superar o obstáculo. A guerra acabou faz muito tempo. A Suíça não foi invadida. Mas os toblerones continuam lá até hoje. Quem é que vai arrastar aqueles imensos blocos? E o que fazer com eles depois? Assim, foram deixados onde estavam e, aos poucos, acabaram se tornando atração turística. Uma trilha própria para caminhadas a pé serpenteia por quilômetros, dentro da floresta, ao longo da barreira de concreto. É conhecida hoje como o Sentier des Toblerones, a Trilha dos Toblerones.

Taí uma obra militar que soube envelhecer. Em escrupuloso respeito ao espírito atual, não foi atirada a um lixão mas acabou reciclada.

Publicado originalmente em 28 nov° 2013.

15 de agosto

José Horta Manzano

Em alguns países de tradição católica, 15 de agosto é dia feriado. Festeja-se a Assunção(*) – a subida ao céu de Maria. Segundo a tradição, a mãe de Jesus não teria realmente morrido, como um mortal qualquer. Chegada ao final de seu percurso terreno, apenas fechou os olhos por um momento para, em seguida, reabri-los e ser levada, de corpo e alma, ao reencontro familiar: Pai, Mãe e Filho.

Em Portugal, descreve-se esse momento como “Dormição de Maria”. Sempre achei curioso os alemães utilizarem a palavra viagem para descrever a Assunção: Mariä Himmelfahrt – A viagem ao céu de Maria”. Enquanto costumamos dizer, mais poeticamente, “subida aos céus”, o alemão é mais realista. Talvez seja implicância minha, mas a palavra viagem traz lembranças bastante físicas que quebram o encanto e o mistério do fenômeno.

Ao sentir que, em pleno século 20, estava ficando complicado fazer o povo acreditar candidamente nessa narrativa, o papa Pio XII resolveu utilizar a mão pesada. Numa bula de 1950, impôs a Assunção de Maria como dogma de fé, ou seja, verdade indiscutível, daquelas que o fiel tem de aceitar sem protestar.

Pelo ensinamento da Igreja, o destino de todos os fiéis, no final, será o mesmo de Maria. Ela simboliza esse futuro comum a todos. A diferença é que ela foi pela via expressa; quanto aos outros, cada qual vai seguir o próprio caminho, que pode ser mais (ou menos) pedregoso. Bom, tem aqueles que vão parar no inferno, mas essa já é uma outra história, que fica para uma outra vez.

Em Portugal, o 15 de agosto é feriado nacional. Quanto aos vizinhos espanhóis, têm tantas festas municipais e regionais, que o dia praticamente pode ser visto como feriado nacional. No Brasil, talvez já tenha sido dia de festa nos tempos de antigamente, mas não encontrei menção. Atualmente, apenas alguns municípios, como Belo Horizonte e Fortaleza, festejam esse dia.

Na Itália, a data é uma das mais marcantes do calendário. Tem até nome especial: chama-se Ferragosto, uma corruptela da locução latina “Feriae Augusti – o Repouso de Augusto”. Oficializada pelo imperador Augusto na base de antiquíssimas festividades, a data marcava o início do período de descanso que se seguia ao fim da parte mais pesada do trabalho nos campos. Os arados (e os animais de carga que os puxavam) podiam repousar.

Hoje em dia, o arado não é mais puxado por animais, mas a tradição festiva continua, reforçada pelo fato de o 15 de agosto cair no meio das férias de verão, no período mais quente do ano, em que multidões aproveitam o feriado para tirar alguns dias de descanso.

Em toda a península, aeroportos e estações de estrada de ferro ficam apinhados – em modo covid, naturalmente. Na era pré-internet, muita gente mandava cartão de Bom Ferragosto, assim como quem deseja Feliz Natal. Há quem continue firme na tradição, só que hoje vai por uótisápi. O simbolismo religioso do feriado passou para segundo plano.

Essa tradição de deslocamento populacional foi inaugurada e intensificada durante o período fascista, nos anos 1920 e 1930, com a criação das “excursões populares” incentivadas pelo governo central. Como ainda ninguém tinha tido a ideia de dar prêmios ao povão do tipo bolsa família, foi a maneira bolada pelos dirigentes da ditadura de proporcionar panem et circenses – pão e [jogos] circenses” ao povão.

Ignaros e distantes dessas chatices históricas, nossos atuais dirigentes, que parecem todos ter fugido da escola, descuidaram essa prática milenar de adubar o povo. Em vez de pão, entregam inflação. Em vez de jogos circenses, distribuem bofetadas e insultos diários. Desventurado Brasil!

(*) Apesar da vaga semelhança fonética com “ascensor”, o termo assunção não tem a ver com elevador. Pertence a outra família. Deriva do verbo latino assumere, cujo sentido primeiro é tomar para si, presumir, escolher. Assim, a assunção de Maria é a declaração de que a eleita é ela.

Consumir, assumir, presumir e assunto são membros da família. Presunto também é, só que, em nossa língua, o danadinho tomou outro caminho. Em vez de “presunto assassino”, temos de dizer “presumido assassino”. Presunto, como todos sabem, é outra coisa.

Essas palavras que tropeçam e saem da linha são o sal e a pimenta das línguas.

Quanto recebe um medalhado olímpico?

José Horta Manzano

Você sabia?

Faz só uma semana que se encerraram os Jogos Olímpicos de Tóquio, mas parece que faz um tempão. É que eventos marcantes arrebatam a atenção no momento em que ocorrem mas, assim que acabam, desaparecem da memória cansada.

Estive colecionando dados sobre o prêmio em dinheiro que cada comitê nacional destinou a seus campeões. Não foi fácil. Tive de catar um aqui, outro ali, que cada um fala do seu sem se preocupar muito com os demais.

As conclusões são interessantes, inesperadas e, às vezes, surpreendentes. Os montantes dados pelos países a seus atletas variam muito. Vão desde Singapura e Taiwan – generosíssimos – até países extremamente sovinas como a Grã-Bretanha e a Suécia.

Um singapuriano ou um taiwanês medalhado com ouro ganhou um amortecedor confortável para o resto de seus dias: voltou para casa com 3.800.000 reais no bolso. Além disso, os taiwaneses, ainda que não tenham conseguido o pódio mas tenham chegado, por exemplo, em 7° ou 8° lugar na prova final, foram premiados em dinheiro.

Para Singapura, a vistosa política até que saiu em conta, visto que o país não conseguiu nenhuma medalha. Já para o comitê taiwanês, a conta saiu salgada: seus atletas ganharam 12 medalhas, sendo 2 de ouro.

Nos esportes individuais, o Brasil pagou 250 mil reais a cada atleta dourado, 150 mil aos prateados e 100 mil aos de bronze. Os prêmios oferecidos por nosso país se encaixam na média dos vizinhos latino-americanos. Para o ouro, a Colômbia dá 300 mil reais, o Peru oferece 316 mil, o Chile presenteia com 289 mil. Mais generosa que o Brasil, a Bolívia propõe 262.500 reais a todo boliviano que chegue ao ouro; assim mesmo, nunca obtiveram nenhuma medalha.

Os comitês olímpicos de Hong Kong e da Indonésia também tiveram de levar a mão ao bolso pra pagar os prêmios prometidos. A Indonésia tinha oferecido 1.800.000 reais por ouro; seus atletas levaram um total de 5 medalhas, sendo uma de ouro. O mesmo aconteceu com Hong Kong. Um feliz vencedor “dourou” e embolsou a fabulosa soma de 3.400.000 reais por sua medalha; outros 5 colegas receberam prêmios menores com suas pratas e seus bronzes.

O paupérrimo Bangladesh propôs um megaprêmio de quase 1.600.000 reais por medalha dourada e um pouco menos para as prateadas e bronzeadas. Mas o risco de empobrecer era pequeno, visto nunca ter ganhado medalha antes. E não foi desta vez que ganhou.

A Estônia, país de espírito previdente, não dá prêmio tipo mega-sena. Talvez para evitar que o jovem, de cabeça avoada, jogue o dinheiro pela janela, faz proposta diferente. Os campeões passam a receber imediatamente uma pensão anual vitalícia de 4.600 euros, que será complementada por uma ajuda especial assim que chegarem aos 65 anos, a idade da aposentadoria.

A Polônia segue caminho semelhante, com um acréscimo generoso. Seus atletas dourados recebem, logo de cara, um prêmio de 310 mil reais. Bem mais tarde, quando chegarem ao 40° ano de vida, passarão a receber uma renda livre de impostos equivalente a 60% do salário médio nacional. Todos os meses, até o fim da vida! Atenção: não é o salário mínimo, mas o salário médio do país. Nada mal, não?

No fim da lista, estão os países de espírito pão-duro, aqueles que julgam que os atletas, treinados e financiados durante anos com o dinheiro dos contribuintes, não fazem mais que a obrigação quando vencem competições. Os jovens estarão assim devolvendo uma parte do que receberam. Sem dúvida, é uma maneira de enxergar o funcionamento da sociedade. Bem diferente da nossa criação, que nos faz acreditar que tudo nos é devido.

Entre os que não dão nenhum prêmio a seus vencedores, estão a Grã-Bretanha (65 medalhas), a Nova Zelândia (20 medalhas), a Suécia (9 medalhas), a Noruega e a Croácia (8 medalhas cada uma). Como se vê pelo número de medalhas recebidas pelos que ficaram chupando dedo, não é o vil metal que move essa juventude corajosa. O importante é competir.

Observação
Os montantes mencionados são resultado da conversão aproximada dos valores originais, expressos em moeda local.

Sem luz no fim do túnel

Guadelupe, joia francesa do Caribe

José Horta Manzano

Do antigo império colonial francês, sobraram alguns retalhos, coisa pouca perto do que havia antes. Nas Américas, o maior território é a quase despovoada Guiana Francesa, nossa vizinha de parede, lindeira com o Amapá. Interessa a Paris sobretudo por abrigar um centro de lançamento de foguetes.

Junto à costa do Canadá, sobrou ainda um minúsculo arquipélago – Saint Pierre et Miquelon –, batido pelos ventos, lambido por ondas violentas e habitado por menos de 6 mil almas, quase exclusivamente pescadores.

Mas a verdadeira joia são a Martinica, Guadelupe e Saint Martin, pequenos grupos de ilhas situadas nas verdes águas do Caribe, um paraíso muito apreciado por hordas de turistas que vêm especialmente da metrópole comer siri e tostar ao sol. Saint Martin é uma ilha minúscula, que a França compartilha com a Holanda.

Já Guadelupe e a Martinica são maiorzinhas e inteiramente francesas. Todos esses resquícios do antigo império perderam, há tempos, o estatuto colonial. Fazem oficialmente parte do território nacional, com deveres e direitos idênticos aos dos territórios metropolitanos, exatamente como Paris ou Marselha.

A pandemia de covid-19 está mais ou menos controlada na Europa. Digo “mais ou menos” porque, com essas novas variantes, focos ressurgem aqui e ali a toda hora. No entanto, nos territórios franceses do Caribe a coisa está bem pior. A situação está pra lá de feia. Guadelupe e Martinica, que, levando em conta os turistas, perfazem um total de quase um milhão de pessoas, estão pulando miudinho.

Os hospitais estão abarrotados. Acabo de ouvir no rádio o testemunho de médicos de hospital que confessam que, a cada nova entrada de paciente, estão tendo de fazer terrível triagem e decidir quem tem mais chance de sobreviver e quem tem menos. Exatamente como aconteceu em Manaus, estão faltando bombonas de oxigênio.

Quem tiver mais chance de sobreviver, vai receber alguma assistência; quanto aos demais, serão entregues à própria sorte. Hoje de manhã, no principal hospital de Guadelupe, já havia 17 pacientes de covid, todos em estado gravíssimo, acomodados em macas nos corredores, sem oxigênio e sem assistência respiratória. Por falta de alternativa.

Atenção: não estamos falando do Bangladesh, mas da França! O responsável por essa situação infernal é a nova cepa de covid, a variante Delta, que pegou firme por lá. As autoridades da Martinica determinaram que os turistas abandonem a ilha o mais rápido possível. O toque de recolher, que já estava em vigor nas duas ilhas, foi ampliado. Agora é proibido sair de casa entre as 19h e as 5h da manhã. Mesmo fora desse horário, ninguém tem o direito de se deslocar num raio mais amplo que 5km em volta de sua residência.

Não me cabe dar conselho às autoridades sanitárias brasileiras. Afinal, esses funcionários são pagos para isso e supõe-se que estejam mais capacitados que eu. Mas a meus distintos leitores, que são todos gente fina, insisto: continuem a respeitar os gestos que salvam. São os mesmos que todos já conhecemos.

  • Fora de casa, use máscara, até (e principalmente) no elevador.
  • Cumprimente de longe, sem beijinhos e apertos de mão.
  • Evite, sempre que possível, lugares apinhados
  • Se puder fazer suas compras fora do horário de maior afluência, melhor será.
  • Não se preocupe se o álcool em gel resseca as mãos: use e abuse.
  • Quando chegar da rua, procure lavar cuidadosamente as mãos, o rosto, os óculos e, se possível, o cabelo.

No fundo, é questão de bom senso. A epidemia ainda não se foi. A variante Delta é da pesada, capaz de fazer estrago grande. Ninguém pode ainda garantir que a vacina seja eficaz contra essa cepa.

Se você sobreviveu até aqui, pra que facilitar? Güenta mais um pouquinho!

Variante Lota

José Horta Manzano

Faz uma semana, postei um artigo sobre as novas (e perigosas) variantes de covid-19 que têm aparecido com assustadora frequência. Expliquei que, no começo, cada uma tinha sido batizada com o nome do lugar ou do país onde tinha sido identificada pela primeira vez. Assim, tivemos a variante britânica, a brasileira ou de Manaus, a indiana, a sul-africana.

Só que a OMS – Organização Mundial da Saúde achou que não era boa ideia deixar que novas cepas recebessem nome de lugar ou de país. Esse costume podia acabar estigmatizando regiões inteiras do planeta e, como consequência extrema, podia até levar à não-notificação de novas variantes, de medo de que o nome do país ficasse malvisto.

Ficou então decidido atribuir uma letra grega a cada nova cepa. A antiga britânica virou Alfa; a sul-africana passou a chamar-se Beta; a de Manaus tornou-se Gama; a indiana, a mais perigosa até o momento, é hoje conhecida como variante Delta.

Contei também que outras variantes menos virulentas, das quais pouco se ouve falar, já estavam catalogadas, todas com letras gregas. Já se conhecem a Épsilon, a Zeta, a Eta, a Teta, a Iota, a Kappa e até a Lambda.

Certas matrizes de artes gráficas (popularmente conhecidas como fontes) têm a incômoda característica de usar exatamente o mesmo símbolo para o I maiúsculo e para o L minúsculo. As fontes da família Arial, amplamente utilizadas, têm essa peculiaridade. Veja só: ao deparar o símbolo l, não se pode afirmar de cara, sem examinar o contexto, se se trata de i maiúsculo ou de ele minúsculo.

É o que deve ter acontecido como o funcionário que redigiu um artigo provavelmente traduzido do inglês e publicado n’O Globo. Tanto a manchete quanto o corpo do artigo falam de uma certa variante “Lota”. Se vê que não leram meu post. Ou, se leram, não prestaram atenção. Lota não é letra grega, portanto, não pode ser nome de variante de covid-19. O nome da nova cepa é Iota, com I inicial.

Iota, variante surgida nos EUA, recebeu por nome a nona letra do alfabeto grego, ancestral de nosso jota. Por enquanto, as letras gregas ainda estão dando pro gasto. O problema vai se complicar quando for identificada a variante Ômega, última letra do alfabeto. Depois dela, como é que fica?

Observação
No caso da manchete do jornal, deve ter havido um primeiro escriba a grafar Lota, com L inicial. Na sequência, dúzias de veículos simplesmente copiaram a informação, ipsis litteris, sem tirar nem pôr, com erro e tudo, sem que ninguém se preocupasse em conferir.

É sinal dos tempos. É exatamente assim que se propagam as notícias falsas: com multidões repetindo o que ouviram, sem que nenhum cristão pare um instante pra refletir se a ave-maria é legítima.

Imunização coletiva

José Horta Manzano

Ano e meio depois do estouro da pandemia de covid, começam a aparecer estudos de larga escala, baseados na observação da evolução de grande número de casos num longo período. Um deles acaba de ser publicado na Suíça.

No Brasil, a busca pela vacinação tem ocultado aquela parte da população que se recusa a estender o braço. Por certo há, em nosso país também, um certo número de ‘antivax’ obstinados – o maior deles sendo justamente o presidente da República. Mas a massa dos que correm atrás da vacina ainda tem gritado mais alto.

Nos países europeus em que a campanha de vacinação está mais adiantada, os ‘antivax’ já começam a sobressair. Há os que, apesar de um bilhão de humanos já terem sido vacinados, ainda declaram ter receio de ser ‘cobaias’. Há os que, emboram tomem alegremente vacina antimalárica quando viajam a um país africano, não querem saber da anticovídica. Há ainda os que simplesmente têm medo de injeção.

E há os piores, aqueles que são burros e egoístas ao mesmo tempo, e que esperam ser protegidos pelo resto da população. São como o capitão, que não perde ocasião de repetir que “será o último a ser vacinado”. Botam fé no conceito da imunização coletiva, ou “imunidade de rebanho”, como preferem. Em sua fantasia, imaginam que, assim que a maior parte dos habitantes estiver imunizada, os não vacinados vão acabar sendo “contaminados” pela vacina alheia, sem nem mesmo precisar estender o braço.

Estão iludidos. Não é assim que funciona. O estudo suíço comprova que as pessoas não vacinadas têm risco 80% maior de contrair a covid. Como exemplo, na região do país onde ele foi levado a cabo, nas 2 últimas semanas de julho foram declarados 1030 casos novos de covid. Dessas 1030 pessoas, só 9 haviam sido vacinadas – as 1021 restantes não tinham recebido nenhum imunizante. Em outros termos, de cada 100 novos infectados, 99 não tinham sido vacinados. Isso mostra também que os benefícios da vacinação da maioria não “contaminam” nem se propagam aos demais.

Constata-se que essas vacinas anticovid, embora recentes, têm eficácia excepcional. Mas fazer novena não basta: precisa estender o braço e receber a picada. As palavras do chefe da Brigada Científica Suíça Anticovid são categóricas:

“Se os que resistem a se vacinar estão contando com a imunização coletiva pra escapar, estão enganados. Mais cedo ou mais tarde, todos eles apanharão a covid.”

Alfa, Beta, Gama, Delta

José Horta Manzano

Antes de começar, um preâmbulo. Palavras como mutação, mutante, mutatório, mutabilidade estão no dicionário. Até mutacionista, mutacismo, mutável e mutança estão lá. São substantivos e adjetivos. Mas o principal, que é o verbo, não aparece. Qual é a qualidade do que é mutatório? E do que é mutável? E daquilo que sofre mutação? Falta o verbo.

Não vejo por que razão não se usaria o verbo mutar. Ainda mais nestes tempos de pandemia, em que o vírus evolui constantemente, o verbo anda fazendo muita falta. Dizem que é o falante que faz a língua, pois não? Então vamos nos apropriar do verbo mutar antes que algum aventureiro lance mão.

Uma das características de todo vírus é mutar constantemente. Desde que surgiu a primeira cepa do Sars-Cov-2 (o nome oficial do vírus da covid), já foram registrados milhares de mutações. Felizmente a quase totalidade delas não provoca alterações fundamentais na composição do vírus, nem diminui a eficácia das vacinas.

Vez por outra, porém, uma mutação gera uma cepa mais perigosa. Logo que surgiram, as primeiras ficaram conhecidas pelo nome do país ou da região onde tinham sido detectadas. Tivemos a variante britânica, a brasileira, a indiana, a sul-africana.

Para evitar a estigmatização do local de descoberta, a OMS decidiu atribuir a essas variantes uma letra do alfabeto grego. De fato, apontar sistematicamente o nome do lugar ou do país poderia até inibir a notificação de novas cepas. Ninguém quer ver o nome de seu país associado a um inimigo mortal da humanidade.

A OMS classifica as mutações pelo critério de periculosidade. Atualmente, quatro variantes estão na lista das mais preocupantes: Alfa, Beta, Gama e Delta. Alfa é a antiga variante britânica. Beta foi detectada na África do Sul; Gama costumava ser conhecida como variante de Manaus ou do Brasil; Delta é a variante indiana – atualmente a mais inquietante.

A maior preocupação das autoridades sanitárias mundiais é que o vírus mute mais uma vez e dê origem a uma variedade resistente à vacinação. Já pensou? Teria de começar tudo de novo: desenvolvimento de nova vacina, testes, aprovação pelas Anvisas do mundo todo, plano de vacinação, máscaras, distanciação social, confinamento. Tudo de novo. Cruz-credo!

Daí a insistência para que cada indivíduo mantenha comportamento prudente e responsável, com vistas a limitar o risco de alastramento da doença. Quanto menos o vírus circular, tanto menor será o risco de aparecer alguma cepa perigosa. Será melhor para todos nós.

Já foram detectadas outras variantes, felizmente menos virulentas. Todas têm nomes do alfabeto grego: Épsilon (EUA), Zeta (Brasil), Eta (diversos lugares), Teta (Filipinas), Iota (EUA), Kappa (Índia), Lambda (Peru). Espera-se que os vírus resultantes dessas variantes não mutem de novo para criar cepas ainda mais perigosas. Todo cuidado é pouco, que nada é garantido.

Uma preocupação colateral se refere ao alfabeto grego. Só faltam 13 letras para o Ômega, a última letra. Se chegarmos lá (o que ninguém espera), como é que fica? Por favor, cartas para a OMS, Avenue Appia 20, Genebra.

A visita da duquesa

José Horta Manzano

Beatrix Amelie Ehrengard Eilika von Storch, duquesa de Oldenburg, é uma mulher política alemã. Nascida em 1971, tem sólida formação jurídica adquirida nas Universidades de Heidelberg (Alemanha) e de Lausanne (Suíça). Foi eleita deputada junto ao Parlamento Europeu em 2014 num grupo conservador. Três anos mais tarde, tendo sido eleita para o parlamento alemão, renunciou ao mandato europeu. A essa altura, já estava afiliada a novo partido.

Fundado em 2013, o novo partido da duquesa se chama AfD (=Alternativa para a Alemanha). O agrupamento segue um ideário rigoroso, que inclui: descrença na União Europeia, ultranacionalismo alemão, populismo de direita, negacionismo climático, oposição à imigração, anti-islamismo, antifeminismo. Propagam a saída da Alemanha da UE, a expulsão dos estrangeiros, a perseguição aos muçulmanos, a abolição de políticas feministas. Como se vê, os afiliados são gente fina.

A duquesa, que segue linha mais dura que a do partido, vai mais longe. Costuma ser descrita como “reacionária descomplexada”, homofóbica, violentamente contrária a tudo o que não for alemão. É o protótipo da xenófoba caricatural. É vista como anti-islamista militante, desejosa de “empreender uma cruzada contra o Islã”.

Como se não bastasse, Frau von Storch é visceral e agressivamente contrária à contracepção, ao aborto voluntário e ao casamento homossexual. A distinta senhora não esconde o fato de ter “chorado de alegria” assim que foi anunciado o Brexit. No seu raciocínio, era o prenúncio do desmanche da Europa unida.

Como se pode imaginar, já se declarou contrária à presença de jogadores não-descendentes de pura estirpe alemã na seleção nacional de futebol. Traduzindo em miúdos, fica assim: pretos, árabes e descendentes de estrangeiros… fora!

Pelo lado materno, é neta do conde Schwerin von Krosigk (1887-1977), jurista e homem político, que foi ministro das Finanças da Alemanha durante todo o período nazista. Com a derrota da Alemanha, o conde foi acusado de crimes de guerra, julgado em 1949 e condenado a 10 anos de cadeia. Dois anos mais tarde, no bojo de uma anistia, foi liberado.

Resumi o percurso de vida do avô só pra constar. Acredito que ninguém deva pagar pelos crimes de um outro, ainda que seja seu avô. Além do mais, o homem foi julgado e pagou a pena.

Contei a historinha de Frau Storch só pra dar ao distinto leitor umas pinceladas sobre a personalidade da deputada alemã que um sorridente capitão recebeu outro dia em palácio – fora da agenda, registre-se. Nosso presidente, conhecemos. Agora que temos melhor ideia de quem é a convidada, o encontro dos dois me faz pensar num abraço de afogados.

Chacoalhada na Alemanha em razão de seu extremismo, a duquesa precisava aparecer numa foto com o presidente de um país grande. Pouco importa que fosse Bolsonaro; quem está na situação dela não escolhe.

Chacoalhado no Brasil pelo conjunto de sua obra e visto pelo mundo como um pestilento do qual ninguém quer passar perto, o capitão precisava aparecer numa foto com uma personalidade estrangeira. Pouco importa que fosse uma duquesa extremista; quem está na situação dele não escolhe.

Ambos se equivalem. O marketing está de bom tamanho. Como dizia minha avó, “Pra quem é, goiabada basta”.

Briga de bandido

José Horta Manzano

Não sou especialista em política africana, mas sei que, perto do que acontece em alguns daqueles países, nossos trambiques nacionais ficam parecendo troca de figurinhas entre garotos batendo bafo. Será que alguém ainda bate bafo? Será que ainda existem cromos e figurinhas? Será que alguém ainda coleciona estampas e preenche álbuns?

Estive lendo n’O Observador, jornal português, um artigo abracadabrante sobre os caminhos da corrupção nas altas esferas da política angolana. Angola é uma das antigas colônias de Lisboa na África, daí o interesse lusitano pelo que lá ocorre.

Pra dizer a verdade, não entendi (nem procurei entender) o enredo de cabo a rabo. Trata-se de um monstruoso escândalo de corrupção, com dezenas de pessoas envolvidas entre portugueses, espanhóis e angolanos. Os montantes que passaram de mão em mão não fazem feio diante do que vimos na Lava a Jato. (Alguém se lembra da operação enterrada por Bolsonaro?)

Dezenas de milhões pra cá, outras dezenas pra lá, umas migalhas de 200 mil dólares pra um certo Manuel, 150 mil para um tal de Mangueira, 100 mil para o Gomes. Ministros, ministros sem pasta mas exercendo ‘de facto’, assessores que “mandavam mais que ministro”, ex-ministros aparecendo na folha de pagamentos de empresa fornecedora de serviços ao Estado angolano.

As investigações, que já se arrastam por mais de 7 anos, ainda não chegaram ao fim. Os crimes incluídos no balaio são de corrupção, fraude,  falsificação de documentos, organização criminosa (=formação de quadrilha) e branqueamento de capitais (=lavagem de dinheiro). Como se vê, em matéria de trambique, não temos mais nada a ensinar a eles. Já sabem tudo.

Recentemente, Bolsonaro enviou o vice-presidente a Luanda para tentar aliviar a barra da Igreja Universal de Edir Macedo, que anda com a imagem manchada por lá. Aliás, foi reprovado ao capitão ter mandado um político oficial, em viagem oficial paga pelos cofres públicos, pra resolver o problema particular de uma seita amiga. Até agora, não houve consequências. É possível que tudo fique por isso mesmo.

A tal Igreja amiga de Bolsonaro anda bem enrolada em Angola. Seus dirigentes são acusados de traquinagens como roubo, extorsão de fundos, adultério, atentado contra menores de idade, sonegação. Não é coisa pouca. Uma centena de membros graduados da igreja (pastores), todos brasileiros, já foram expulsos do país.

Choque de ministros
É permitido crer que ministros corruptos do governo angolano possam ter entrado em choque frontal com ministros corruptos da seita brasileira.  Talvez o problema seja a invasão de território. Fiquei imaginando que a implantação da seita de Macedo em Angola deve ter sido como se uma tropa do Comando Vermelho (CV, do Rio de Janeiro) elegesse residência em território do Primeiro Comando da Capital (PCC, de São Paulo). Não ia ficar por isso mesmo.

Mateus, a brasa, a sardinha e o pirão

José Horta Manzano

Não dá pra escapar: todo ser humano acredita ser o centro do universo. Por mais que regras de boa educação ensinem que não é bem assim, não tem jeito: é da natureza humana.

Para reiterar essa convicção, toda língua tem uma coleção de expressões e frases feitas. Ao dizer que fulano “Puxou a brasa pra sua sardinha”, estamos confirmando que fulano – que se vê como centro do mundo – tomou posse do que ele acredita que lhe é de pleno direito.

Se alguém, depois de haver narrado um fato qualquer, soltar um comentário do tipo “Mateus, primeiro os teus”, estará lendo a mesma partitura. O mesmo vale para aquele que disser “Se a farinha é pouca, meu pirão primeiro”. São variações em torno do mesmo tema. “Quem parte, reparte e não fica com a melhor parte, ou é bobo, ou não tem arte” é outro exemplar da coleção. Há mais.

No passado, já devo ter escrito sobre o mapa-múndi chinês. Mas vale a pena voltar ao assunto, que continua interessante.

Quem já viu um planisfério de estilo chinês há de ter se surpreendido. Não falo de um mapa fabricado na China para ser vendido por aqui; falo de um confeccionado na China para uso interno.

Um bom exemplo é o que aparece na ilustração logo mais acima. É o pano de fundo que se vê nos comunicados do Ministério de Assuntos Exteriores da China.

À primeira vista, mesmo um distraído repara: o mapa não está configurado do jeito que costumamos ver. O Oceano Atlântico, que a gente costuma ver no centro do planisfério, tem um triste fim: é partido em dois e relegado a cada uma das extremidades. Mais um pouquinho e transborda – aberração de dar calafrios a qualquer terraplanista. Os oceanos Índico e Pacífico estão mais para o meio e, centrado mesmo, o que aparece é o território chinês. Não é por nada que, em chinês, o nome do país se traduz por “Estado central” ou “Império do Meio”.

Como os demais habitantes do planeta, o chinês também se enxerga no centro do mundo. Pensando bem, eles estão certos. Como certos estão todos os outros. Por que é que eles desenhariam seu país na extremidade do globo? Na minha já longa existência, tirando uma única exceção, nunca ouvi falar de um dirigente que menosprezasse o próprio povo a ponto de mandá-lo pra escanteio (não só no mapa).

A exceção, o distinto leitor já adivinhou, é Jair Bolsonaro, um impressionante entreguista. A pandemia de covid revelou um dirigente dotado de evidente psicopatia, carregado de antipatia pelo povo brasileiro e desprovido de empatia pelos que contavam com ele. Só não entregou o Brasil como colônia para os EUA porque não deu tempo. O governo de Trump acabou antes. E não há de faltar muito para o do capitão acabar também.الله أكبر (Deus é grande, em árabe).

Pior que aqui

José Horta Manzano

Todos nós, os não-devotos, nos escandalizamos com a conduta que Jair Bolsonaro imprimiu a seu governo nos piores momentos da crise sanitária. Temos a impressão de que a maldade do capitão é impossível de ser superada. Desgraçadamente, como diz o outro, nada é tão ruim que não possa ser piorado. Há quem esteja fazendo pior que nosso presidente.

O distinto leitor há de se lembrar com horror da crise de oxigênio em Manaus, quando doentes morriam sufocados enquanto nosso presidente sonegava oxigênio, entregava cloroquina e aparecia nas redes arremedando a asfixia dos moribundos. Pois saiba que a ditadura militar da Birmânia (país que em inglês se chama hoje Myanmar) está superando a crueldade do capitão.

A Birmânia é daqueles países que nunca (ou quase nunca) souberam o que significa democracia. Em 2011, saíram de meio século de ditadura militar. Chegou a normalização, com eleições, como convém a todo país civilizado. Mas durou pouco. Dez anos mais tarde, em fevereiro deste ano, veio novo golpe militar. Seguiu-se novo mergulho nas trevas.

A variante Delta do covid-19 está se alastrando firme e fazendo estrago por lá. Como resposta, o governo ditatorial acaba de proibir a venda de balões de oxigênio às clínicas privadas, assim como a cidadãos comuns. A pena para quem desobedecer é a prisão imediata. Enquanto isso, soldados estão encarregados de confiscar todos os cilindros que encontrarem, visto que a posse deles se tornou “ilegal”. O oxigênio recolhido vai servir para acudir militares e seus familiares doentes de covid.

Apesar de estarem habituados a sobreviver sob ditadura militar, os birmaneses nunca haviam visto uma legislação que evidenciasse tanto a diferença entre a casta dos militares e o resto do povo. Os fardados e seus familiares têm todos os direitos, enquanto o povão é abandonado à própria sorte. Já faz meses que os cidadãos comuns saem em passeata para mostrar insatisfação, mas o regime continua firme e forte. Afinal, são os militares que têm os tanques e as armas.

Outro dia, populares faziam fila em frente a uma fábrica de oxigênio na capital do país. Sob o pretexto de que se tratava de comércio ilegal, chefes militares deram ordem de atirar contra o povão. Com balas de verdade! Ainda não se tem notícia do número de mortos.

É pena que os devotos do capitão não tenham acesso a esse tipo de notícia. Falo dos fanáticos renitentes, aqueles que vivem dentro de uma bolha e que concordam com tudo o que seu mestre diz e faz. Se soubessem que estão sendo usados como massa de manobra e que um dia, no futuro, poderiam até ser metralhados numa fila “ilegal” qualquer, dariam um passo atrás. Mas… a Birmânia é tão longe, não é?

A Coreia e a vacina

by Stéphane ‘Kadran’ Maignan, desenhista francês

José Horta Manzano

Assim que a pandemia de covid começou a se alastrar, Kim Jong-un, o líder da Coreia do Norte, tomou decisão drástica: mandou fechar as fronteiras. Fechar as fronteiras é redundância de expressão, que o país já vive trancado feito cofre-forte.

A linha de demarcação entre as Coreias do Norte e do Sul é uma das zonas mais vigiadas do planeta, permanentemente fechada e impermeável. Quanto às demais fronteiras, somente uma ponte comunica o país com a Rússia e outra, com a China. O resto dos limites está em regiões montanhosas e pouco habitadas.

Em cumprimento da ordem, as fronteiras foram fechadas. E nada mais passou: nem vírus, nem gente, nem mercadorias. Desde que a vacina ficou pronta, a Rússia ofereceu o imunizante, em diferentes ocasiões, à Coreia do Norte. A oferta foi sempre recusada. (Essa recusa faz lembrar a atitude de nosso capitão, pois não?) Paranoico como todo autocrata, o coreano Kim (que morre de medo de ser envenenado) não quis nem ouvir falar.

Só que tem um problema. A Coreia do Norte está longe de ser autossuficiente em alimentos. Não sobrevive sem os víveres que compra no exterior, principalmente na vizinha China. Sem serem repostos, por causa do fechamento das fronteiras, os estoques estão minguando e a penúria alimentar ameaça se instalar.

Descomplexado, o ditador já mandou alertar a população que vá se preparando, porque tempos difíceis vêm aí. Na verdade, tudo indica que o país está prestes a atravessar um estado de fome igual ao dos anos 1990. Naquele período terrível, calcula-se que até 3,5 milhões de coreanos tenham morrido de fome. Isso equivale a 15% da população do país à época. É como se, de repente, a desnutrição levasse 30 milhões de brasileiros.

Os russos continuam insistindo na oferta de vacinas, mas o governo norte-coreano não quer saber. Prefere deixar morrer uma parte da população, mas recusa-se a dar o braço a torcer e a confessar que precisa de ajuda estrangeira.

A visão que o ditador Kim tem do próprio povo é semelhante à de nosso capitão. Para ambos, o povo é uma simples variável de ajuste. Se morrerem alguns milhões, não faz diferença para eles. Ambos rejeitam a imunização da população. As razões de cada um podem ser diferentes, mas o resultado é o mesmo.

No Brasil, temos sorte de nosso regime “aproveitadorial” não ter (ainda) virado ditatorial. Os aproveitadores de sempre continuam aproveitando para sugar impunemente o fruto do trabalho de todos. O caso norte-coreano deveria nos servir de exemplo do que pode acontecer a um povo entregue nas mãos de um psicopata.

Brazilian lives matter

VIDAS BRASILEIRAS CONTAM

 

José Horta Manzano

Quando se fala em populações que passam fome, nós, os bem alimentados, costumamos imaginar que isso só ocorre em terras distantes – Etiópia, Sudão do Sul, Eritreia – lugares que a gente só conhece de ver no mapa.

Temos dificuldade em admitir que nosso país abriga legiões de malnutridos. Não estou a falar dos que sofrem as consequências de eventual catástrofe; falo dos famintos crônicos, pessoas com quem cruzamos na rua, que vivem nas mesmas cidades que nós, gente que carrega uma chaga invisível que temos grande dificuldade em reconhecer. São um mundaréu de gente que ninguém vê.

Ainda que pareça exagero, a verdade é que o Brasil é um país onde a fome é crônica. Sempre foi assim, e continua. Os dirigentes lulopetistas, mais preocupados em meter a mão nos cofres da República, demoraram mais de 13 anos no andar de cima, mas não resolveram o problema. Bolsonaro, mais preocupado em comprar apoio (com nosso dinheiro) para perpetuar-se no poder e assim escapar de futuros processos, não está nem aí para o drama dos que têm fome dia após dia. A pandemia, por seu lado, só fez piorar o quadro.

Nós nos recusamos a enxergar, mas os estrangeiros veem. A artista americana Beyoncé acaba de lançar uma campanha de assistência às famílias brasileiras que passam fome. Dá muita vergonha ver nosso país na situação dos que têm de estender a mão pra poder sobreviver. Exatamente como os paupérrimos Sudão e Eritreia – é assim que somos vistos.

No entanto, dinheiro há. O que não há (nem nunca houve) é o desejo sincero de resolver o problema da pobreza no Brasil. Se outros países que já foram pobres lograram eliminar a miséria, por que não conseguimos nós?

Em 1970, nosso PIB per capita era de US$ 450, ou seja, 60% maior que o da pobre Coreia do Sul, com seus US$ 280. Passaram-se 50 anos. O Brasil descobriu petróleo, se livrou do regime militar, mandou até um astronauta passear (de carona) no espaço. A população mais que dobrou de tamanho. E o país não deslanchou. Em 2018, nosso PIB per capita foi de US$ 9.080. Por seu lado, com investimento maciço na Instrução Pública, a Coreia conseguiu, no mesmo ano, um PIB de US$ 32.730, ou seja, quase 4 vezes o do Brasil.

Faço votos para que a campanha de dona Beyoncé traga algum alívio às barrigas que roncam em nossa terra porque, se depender de nossos eleitos, vão continuar roncando.