O general e a gravata

José Horta Manzano

Curioso para conhecer Pazuello, o ex-ministro que eu nunca tinha tido oportunidade de ver nem de ouvir, fui dar uma espiada em seu depoimento de ontem na CPI. Devo admitir que fiquei um tanto decepcionado. Depois de tudo o que já li sobre ele, imaginava dar de cara com um General Trovão, um Figueiredo dos tempos atuais, um líder do tipo “deixa comigo, que eu mato e arrebento”. Em vez disso, o homem está mais pra Zangado, um dos anões que rodeavam a Branca de Neve, aquele que nunca sorria. Parece um Zangado falante, mas sempre de maus bofes.

Na foto tirada durante o depoimento, o general aparece de olhos fortemente avermelhados. Fica a nítida impressão de ele não ter dormido na noite anterior – o que poderia explicar o quase-desmaio que sofreu à tarde. É difícil imaginar que ele tenha passado a noite se agitando num baile funk, mas é concebível que tenha ficado acordado até altas horas recapitulando as respostas que lhe tinham sido aconselhadas pelos media trainers contratados pelo Planalto. Pode ser também que, nervoso, tenha simplesmente perdido o sono.

Fiquei surpreso com a inabilidade dos senadores para conduzir o interrogatório. O próprio interrogado parecia mais bem preparado que eles, quando deveria ser exatamente o contrário. Os inquiridores é que tinham de surpreender o convocado com perguntas inesperadas, incisivas e inescapáveis. Em vez disso, notei certa displicência entre os parlamentares, como se estivessem surpresos pelo fato de o general dar respostas firmes sem tropeçar. É verdade que senador não está necessariamente formado para a função de promotor público, mas a CPI tem como se fazer assessorar por especialistas trabalhando em tempo real. Se não o fez, foi porque não quis.

Fiquei encantado com a gravata do general. Não me esqueço de quando esse modelo foi apresentado ao mundo. Foi em Copenhague (Dinamarca), em outubro de 2009, no dia em que o Comitê Olímpico Internacional anunciou que atribuía ao Rio de Janeiro a organização das Olimpíadas 2016. Representando o Brasil, um grupo eufórico estava presente. Quando souberam do resultado, soltaram gritos e deram pulos de contentamento. Na época, a gente imaginou que fosse por patriotismo. Usavam todos esse modelo de gravata.

Como modelo, até que ela não é feia, com as cores da bandeira. Só que os primeiros usuários, além de não serem modelos de desfile de moda, tampouco eram o que se pode chamar de modelo de virtude. Os figurões mais proeminentes estão na foto acima, todos devidamente engravatados com o mesmo modelito do general. Vamos ver quem são. Da esquerda para a direita.

Eduardo Paes
Atual prefeito do Rio, é o único em atividade neste momento. Não chegou a ser preso, mas a lista das acusações de corrupção que o perseguem é longa como um dia sem comer.

Sergio Cabral
Foi governador do Rio. Condenado por corrupção e outros crimes, não só passou pela casa prisão, como ainda está lá. Condenado a mais de 200 anos de privação de liberdade, ainda deve permanecer encarcerado por algum tempo.

Carlos Arthur Nuzman
Era o presidente do Comitê Olímpico Brasileiro à época. Acusado de corrupção, passou pela casa prisão em 2017.

Lula da Silva
Foi presidente do Brasil. Condenado por corrupção e outros crimes, passou pela casa prisão, onde purgou mais de ano e meio.

Orlando Silva
Dos retratados, este parece ser o mais maneiro. Foi ministro do Esporte. Teve problemas com a justiça por ter comido uma tapioca de R$ 8,30 e posto na conta da Viúva. Visto que é arraia miúda demais, não passou pela casa prisão.

Não conheço o sexto cavalheiro.

Tendo em vista a folha corrida dos primeiros portadores da gravata verde-amarela, vale indagar que motivo levou o general a enrolar essa gravata de corruptos em torno do pescoço ontem. Algumas suposições:

• Ele não assistiu à cerimônia de 2009, portanto não sabe que os que lançaram a moda são personagens pouco recomendáveis, pra dizer o mínimo.

• Imaginando que ia acabar preso, já veio paramentado para seguir os passos dos que o precederam.

• A coisa é o que parece: sabe-se lá por que, vestiu a gravata em homenagem à bandidagem.

• Distraído, saiu de casa de camisa aberta, como quem se prepara para um passeio num shopping de Manaus. Foi Bolsonaro que, ao vê-lo descamisado, emprestou sua gravata de estimação.

Pode ser alguma dessas razões. Ou nenhuma das anteriores. O distinto leitor o que acha?

A pátria amada e a macacada

José Horta Manzano

Por ocasião do depoimento do general Pazuello(*), que deve ser dado daqui a dois dias (se, até lá, ninguém levantar alguma questão de embargos infringentes), me vem à mente uma traquinagem de meu tempo de estudante.

Lá se vão muitas décadas, quando os generais ainda nem haviam instalado a ditadura, a gente se sentia livre de fazer troça com todo o mundo, inclusive com os militares. Ainda bem que deu tempo, porque, logo em seguida, os tanques sairiam às ruas e brincadeiras desse tipo seriam tiradas de circulação por 20 anos.

Talvez o distinto leitor conheça a Canção do Exército – no youtube aqui. É aquela que começa assim: “Nós somos da pátria a guarda, fiéis soldados por ela amados”. Pois é, uma das características do adolescente é a irreverência. Minha geração não escapou, como nenhuma escapa.

Aprendemos a cantar esse hino, não me lembro por que razão. Terá sido dado pelo professor Caldeira, de Canto Orfeônico. O que sei é que fizemos uma paródia e estropiamos a letra. No pedaço em que diz:

Porém se a pátria amada
for um dia ultrajada,
lutaremos sem temor.

A gente cantava:

Porém se a pátria amada
precisar da macacada,
ó meu Deus, que maçada!

Bom, essa era a letra light, cantada quando havia crianças na sala. Na (nossa) versão original heavy, as palavras eram um pouco mais encorpadas:

Porém se a pátria amada
precisar da macacada,
puxa a cerda, que caçada!

No último verso, escrevi sons que lembram as palavras originais; cada um que use a imaginação pra descobrir o que está por trás da tarja preta.

Na época, cantar assim era uma ousadia; hoje, principalmente depois que o bolsonarismo espalhou pelo país seus modos rasteiros, ninguém mais se choca por tão pouco. No entanto, por mais que nosso presidente baixe o nível, não consigo acompanhar. Continuo me comportando como se houvesse permanentemente senhoras na sala. Não é na minha idade que vou começar a soltar palavrão por aí. Talquei?

Como eu dizia lá no começo, o comportamento do general Pazuello me fez lembrar a paródia dos ginasianos dos anos 1960. Ao tentar se esconder pra não ter de revelar seus “malfeitos”, o ex-ministro prova ter no ombro muita estrela pra pouca valentia. Sua conduta combina com nossos versinhos:

Porém se a pátria amada
precisar da macacada,
puxa a cerda, que caçada!

Se Pazuello estivesse no lugar do general Eisenhower, aquele que comandou o exército americano na Europa durante a Segunda Guerra, teria se escondido, e hoje estaríamos todos falando alemão. (Que é, sem dúvida, uma bela língua, mas o problema não é esse.)

(*) Para conhecer a origem e o significado do sobrenome do general, leia o artigo que escrevi em março último.

Vagabundo

El vagabundo
by Mónica Caruncho Fontela, artista espanhola

José Horta Manzano

No andar de cima, os convivas – todos copiosamente sustentados com nosso dinheiro – continuam a encenação. A incessante troca de casais é de rigor. Inimigos de anteontem, que tinham justamente feito as pazes ontem, tornam a apontar-se mutuamente os estilingues. Amigos desde a infância, duas excelências hoje se viram a cara. Outras duas, que não se falavam havia anos, hoje surgem de braço dado. E o povão vibra sem se dar conta de que a intenção era justamente esta: divertir a galeria, nada mais.

Tem a CPI da Covid (ou “da Cloroquina”, como receiam os devotos do capitão). Lá também, o alvoroço segue firme. Talvez eu não devesse dizer “lá também”, mas “lá principalmente”. Ora, é a vitrine maior, o horário nobre daquele palco de hipocrisia! Excelência que se preze tem o dever de se agitar na hora e no lugar certo.

Entre as encenações da semana, um distinto parlamentar botou pedra um pouco maior no estilingue, apontou para um colega e mandou: “Vagabundo!”. Ao que o atingido, com impressionante presença de espírito, respondeu de pronto: “Vagabundo é você!”. Diálogo edificante, foi uma finura que só.

É inadequado duas excelências usarem pedras tão grandes para lapidar-se mutuamente. Acho até que o calibre das pedrinhas devia ser fixado por lei. A partir de tal e tal diâmetro, não pode, porque fica feio e baixa o nível.

Vagus e bundus
Deixando de lado as ironias, vamos aos fatos. Vagabundo – de onde vem esse bicho? Pois a palavra já existia em latim (vagabundus). É composta de vagus (errante, sem destino) e de bundus (que tem propensão a).

A raiz do primeiro elemento aparece em numerosas palavras nossas: vagar e vaguear (ir sem destino), divagar (soltar o pensamento), vagante, extravagante, vago (impreciso), noctívago (que passeia à noite sem destino preciso).

O segundo elemento (bundo) também reaparece em palavras como nauseabundo, meditabundo, moribundo. Há muitas outras, mas, no Brasil, tendemos a evitar essa terminação por sua semelhança com bunda, palavra que, no meu tempo, convinha evitar quando havia senhoras na sala.

Por último, é interessante notar que o termo vagabundo, se está presente nas demais línguas latinas, não tem o mesmo peso em cada uma delas. Em português, chamar alguém de vagabundo é ofensa na certa. Significa que esse alguém é desocupado, gandaieiro, preguiçoso, vadio. A palavra tem sentido fortemente pejorativo.

Em italiano, embora não seja propriamente um elogio, vagabondo também não é ofensa pesada. Para ofender mesmo, precisaria dizer: “vagabondaccio”. Tirando essa variante pejorativa, a palavra é muito usada no sentido figurado: “pensieri vagabondi” = pensamentos vagabundos (ou seja, que vagueiam).

Em francês, a palavra vagabond não faz parte das pedradas que se possam dar em alguém. O verbo vagabonder (=vagabundear) é até simpático; pode servir para descrever, por exemplo, um fim de semana que alguém passou sem fazer nada, só passeando.

Até alguns anos atrás, a rádio suíça tinha um programa chamado “L’humeur vagabonde” = O humor vagabundo. Era um programa interessante, de uma hora de duração. Como o título indica, não havia um tema fixo. A cada semana, falava-se de um assunto diferente, a biografia de alguém, uma viagem a um lugar interessante, um acontecimento histórico.

Se fossem passar essa emissão no Brasil, teriam de modificar o título. Vagabundo, francamente, não dá. É expressão privativa de certas excelências.

O rasgado e o esgarçado

by Anne ‘Adene’ Derenne (1983-), desenhista francesa

 

José Horta Manzano

Parece maldição. Faz 20 anos que, na hora da eleição presidencial, a gente é obrigado a votar contra. Já vai longe o tempo em que cada um saía de casa, votava no candidato de sua preferência e voltava tranquilamente pra esperar a apuração, sempre torcendo pra seu preferido. Mesmo sabendo que ele tinha pouca chance, votava-se nele assim mesmo. Se outro ganhasse, a gente não gostava, mas acabava se conformando. Que remédio?

Desde que o lulopetismo se agarrou ao poder, muitos de nós deixaram de escolher candidato e passaram a votar contra. São já cinco eleições presidenciais em que não se dá mais o voto ao candidato preferido, mas vota-se contra. Contra quem? Contra aquele que não se quer de jeito nenhum. No meu caso, contra o lulopetismo, nos últimos anos.

Dois anos atrás, quando houve a troca da guarda e entrou esse que está aí, muita gente pensou que, doravante, tudo passasse a ser melhor. Que horror, minha gente!

Este governo não governa. Passa metade do tempo assaltando o erário e roubando nosso dinheiro para comprar parlamentares, militares, magistrados e emissoras de tevê. E passa a outra metade do tempo estudando como se esquivar das escabrosas revelações quotidianas e das acusações diárias de crimes.

Do jeito que vão as coisas – e a pesquisa Datafolha confirma – no ano que vem teremos um problemão. A menos que surja um candidato forte e crie uma terceira via, a final será entre o genocida e o cachaceiro.

Pra escolher entre um e outro nem precisava eleição – cara ou coroa era a mesma coisa.

Venda de sentença

José Horta Manzano

A PF solicitou ao STF que abra inquérito para apurar a veracidade das alegações de Sérgio Cabral. O antigo governador do Rio, condenado a mais de 340 anos de cadeia e atualmente preso, fez acordo de colaboração premiada. Entre outras revelações, acusa o ministro Dias Toffoli, do STF, de ter recebido R$ 4 milhões para dar sentença favorável a dois prefeitos, em processos no TSE.

Não convém prejulgar. É prudente desconfiar das palavras de um indivíduo condenado a tantos anos de calabouço. A soma das penas que lhe foram impostas é de fazer inveja a muito capo mafioso. Até Madoff, aquele estelionatário americano que ludibriou meio mundo e lhes extorquiu bilhões, recebeu pena mais suave: “apenas” 180 anos.

No entanto… costuma-se dizer que “onde tem fumaça, tem fogo”. E se a denúncia de Cabral for verdadeira? Acho que não saberemos nunca. Não acredito que a investigação de eventuais “malfeitos” de Toffoli prospere. Na hierarquia da República, ministro do STF detém cargo elevado demais pra ser incomodado. Assim mesmo, vale conjecturar – sai de graça e não faz mal a ninguém.

Em termos simples, Toffoli está sendo acusado de venda de sentença, talvez o pior crime que um magistrado possa cometer. Ao tirar vantagem do cargo público para mercadejar veredicto, o juiz comete um crime execrável. A venda de sentença é a perversão da razão de ser do Poder Judiciário. Dessa forma, não ganha o processo quem tem razão, mas quem paga mais. É ato de traição à toga. É ato de agressão ao povo que lhe paga o ordenado. É ato de corrupção daninho, que estremece todo o edifício das instituições.

Talvez o distinto leitor se lembre da Operação Anaconda, desencadeada quase 20 anos atrás. Ela desbaratou uma quadrilha de venda de sentenças que envolvia um juiz federal, agentes, delegados, advogados, doleiros. Uma eficiente organização criminosa. O juiz federal, Rocha Mattos, passou na cadeia 8 dos 12 anos a que foi condenado. Recentemente, já liberado, recebeu nova condenação, desta feita a 17 anos de prisão por lavagem de dinheiro e evasão de divisas. Entrou com recurso e aguarda em liberdade.

Na minha opinião pessoal, acho que, se a acusação de Sérgio Cabral for confirmada – digo bem: se for confirmada –, Dias Toffoli mereceria seguir o caminho do juiz da Anaconda e ser condenado a um bom período atrás das grades. Mas, sinceramente, não acredito que essa história prospere. Os que haveriam de julgá-lo vão se assustar. Afinal, muita gente do andar de cima tem o rabo preso. Não convém puxar o fio da meada.

Perdigotos e comorbidades

O Globo, 10 maio 2021

José Horta Manzano

É interessante observar como certas palavras dormem um sono de décadas no aconchego dos dicionários para um dia, de repente, despertar e entrar de supetão na linguagem do quotidiano.

De criança, aprendi o significado de perdigoto. Eu tinha um tio muito aplicado, daquelas pessoas que gostam de usar a palavra mais adequada a cada caso. Me ensinou que gente que “fala cuspindo” solta perdigotos. De lá pra cá, acho que nunca mais ouvi alguém pronunciar essa palavra. Mas ela ficou num cantinho da memória esses anos todos.

É bem mais recente o dia em que fui apresentado à palavra comorbidade. Fora de períodos de pandemia, ela está frequentemente ligada à saúde de quem já tem idade – ou que já “dobrou o Cabo da Boa Esperança”, como se dizia antigamente. Conheci essa palavra em francês. Por aqui se diz comorbidité, com uma sílaba extra depois do “bi”, numa excelente ilustração daquela pergunta: por que fazer simples, se complicado também funciona?

Curioso, resolvi fazer uma pesquisa sobre o uso da palavra comorbidade nos últimos cem anos. A Folha de SP oferece um bom instrumento para esse tipo de busca. Quando se está atrás de uma palavra, de um fato, de um nome, pode-se perscrutar todas as edições do jornal da fundação até hoje.

Fiquei sabendo que, de 1921 até 1992 (71 anos), não há nenhuma menção a essa palavra. Nada, niente, zerinho. Entre 1993 e 2019, talvez porque o jornal tenha começado a tratar temas mais especializados, ela aparece 50 vezes. Agora, nos nove meses que vão de janeiro a setembro de 2020, ano da pandemia, comorbidade foi mencionada 223 vezes. Não pesquisei perdigoto, mas imagino que o resultado deva ser equivalente.

Fiquei comovido com a história desse ator que morreu de covid aos 42 anos. Não o conhecia, não é do meu tempo. Mas percebo, pela torrente de reações, que devia ser muito apreciado. Certamente era talentoso.

Seu drama devia servir de alerta a nossa juventude que, talvez obedecendo ao temerário incentivo do capitão, desdenha os cuidados básicos para evitar apanhar o vírus. O caso Paulo Gustavo prova que um indivíduo jovem, enérgico, saudável e sem comorbidades pode contrair uma forma severa de covid, cuja evolução o levará ao túmulo.

Sabemos todos que a sociedade brasileira flutua num oceano de desigualdades. Mas poucos são os doentes que têm o privilégio de ser atendidos num hospital de primeira linha. Como é que funciona lá nos cafundós?

Tenho certeza de que há imensa subnotificação de casos de covid. Deve haver um batalhão de jovens que apanharam a doença e estão morrendo em casa, sem atendimento, sem entrar nas estatísticas. Dado que o que está longe dos olhos está longe do coração, não saberemos nunca quantos terão vivido esse drama.

Meu jovem leitor, não durma no ponto! O país não precisa de heróis anônimos, precisa do potencial de que você dispõe. Fique esperto e.. fique vivo!

Vamos torcer para que tanto comorbidade quanto perdigoto voltem logo para o agasalho dos dicionários. E que de lá não escapem tão cedo.

Apavorado

José Horta Manzano

“– A CPI é um vexame, só se fala em cloroquina!”, exclamou o capitão.

“Queria que falasse de quê?”, perguntamos nós, “do aumento da população de jacarés no Pantanal?”

A Comissão foi instalada exatamente para avaliar os estragos cometidos por Sua Excelência desde o início da pandemia. É natural que fale de cloroquina. Ao final dos trabalhos, o capitão ainda periga tomar um processo por charlatanismo e exercício ilegal da medicina.

Lição de distributivismo

Sede da OMS, Genebra (Suíça)

José Horta Manzano

Vamos imaginar uma situação. É um bocado irreal, mas serve para ilustrar o que quero dizer. Digamos que o distinto leitor, ao caminhar no centro da cidade, topa com um grupo de pessoas maltrapilhas, adultos e crianças. Dois homens, que parecem liderar o grupo, estendem a mão. Faz sol, o dia está bonito, você se levantou feliz e de bem com o mundo. Por isso, se dispõe a ajudar. Vasculha a carteira e tira de lá uma nota de 5 reais (ou 10, ou 20, ou 50 – dependendo do nível de generosidade do leitor).

Você estende a nota em direção aos dois, movimenta levemente o braço de um lado para o outro e diz: “Isto é para os dois; não tenho trocado, mas fica metade pra cada um”. Neste ponto, em vez de agradecer, um dos homens retruca: “Ei, moço (ou moça, se for o caso), metade pra cada um não está certo! O companheiro aqui tem dois filhos e eu tenho três. Mereço mais.”

Quem achou que a situação é absurda acertou. Ela é. Pra início de conversa, nos dias atuais, seria imprudente parar na rua diante de um grupo de cidadãos desconhecidos e, ainda por cima, remexer na carteira (ou na bolsa). Porém, há mais importante que isso: as regras básicas da civilidade ensinam que não cabe ao suplicante dar instruções ao socorrista sobre a repartição do auxílio.

Pois esse princípio elementar acaba de ser violado por um ministro de Bolsonaro. Foi na semana passada. Durante coletiva de imprensa organizada pela OMS (Organização Mundial da Saúde), doutor Queiroga, ministro da Saúde do Brasil, lançou um apelo. Falando de vacina anticovid, implorou a todos os países que tivessem doses sobrando que compartilhassem lotes com o Brasil.

Até aí, tudo bem. Pedir, todo o mundo pode. O enrosco vem agora. Petulante, o doutor aproveitou os holofotes para dar instruções aos hipotéticos doadores. Em verdadeira lição sobre distributivismo, acrescentou que “o acesso ao imunizante deve ser proporcional à gravidade da emergência sanitária”. Com isso, quis dizer que o Brasil merece receber mais que os demais, visto que nossa situação é mais embolada.

Tenho dois reparos. Primeiro, como já disse antes, não cabe ao suplicante dar instruções ao socorrista sobre a repartição do auxílio. Esse tipo de arrogância pega mal pra caramba.

Segundo, não se pode esquecer que o governo Bolsonaro – ao qual o ministro serve – não tem perdido ocasião, desde que a pandemia se instalou, para desancar a OMS, difundir notícias falsas sobre ela, acusá-la de ser partidária e de estar a serviço da China. O capitão imitou o comportamento de Donald Trump, seu ídolo, nesse desvario. Só que, agora que Trump se foi, Bolsonaro ficou no mato sem cachorro tendo de implorar à pérfida OMS umas sobras de vacina. Um vexame.

Não tivessem nossos dirigentes sido tão estúpidos e pretensiosos, o planeta inteiro estaria socorrendo o Brasil espontaneamente, como um punhado de países mais civilizados estão fazendo com a Índia. Não precisaria nem pedir, e muito menos ensinar aos socorristas como distribuir as doações.

Pátria voluntária

José Horta Manzano

Em excelente reportagem publicada estes dias, o Estadão esclarece que, desde que foi criado dois anos atrás, o programa “Pátria Voluntária” – coordenado pela senhora Michelle Bolsonaro – já distribuiu 27 mil cestas básicas e 38,5 mil kg de alimentos. Tendo em vista as profundas carências de nossa população, o balanço é meritório.

Só que… o quadro não é tão cor-de-rosa como parece. O programa de assistência da primeira-dama gasta muito mais com propaganda do que com doações. De fato, R$ 9,3 milhões foram utilizados para divulgar o programa, enquanto os assistidos tiveram de se contentar com R$ 5,9 milhões. Note-se que a propaganda não é feita com dinheiro de doações, mas com verba pública – dinheiro saído do bolso do distinto leitor. E do meu.

Para efeito de comparação, é interessante notar que, no mesmo período, uma única ONG, a Ação da Cidadania, doou um volume 50 vezes maior. Só de março de 2020 até agora, foram 14 milhões de quilos de alimentos, que beneficiaram 1,5 milhão de famílias.

Fica a desagradável impressão que o objetivo principal do programa da primeira-dama é a promoção do clã presidencial. O esquema é simples: o dinheiro arrecadado com doações vai para a compra de alimentos, enquanto a portentosa verba de propaganda é garantida com nosso dinheiro. No final, fica assim: nós pagamos, o clã aparece bem na foto e os pobres recebem umas migalhas.

Lembra-se daquele ministro esquisito que, aboletado no Itamaraty, aporrinhou nossas relações exteriores durante dois anos? Ele declarava orgulhar-se de o Brasil (dele) ser um pária internacional, lembra? Ao ver a notícia do programa assistencial de Madame Bolsonaro, li o título com mais rapidez do que meus velhos olhos conseguem acompanhar. Na pressa, tive a nítida impressão de que estava escrito “Pária Voluntária”.

Acho que foi ilusão de óptica. Ou não.

Soropango da vingança

José Horta Manzano

Para reavivar memórias de infância.

Se meu jovem leitor está ainda na casa dos vinte ou trinta anos, o que vou dizer agora parece vindo direto do planeta Marte: nos anos 1950, as crianças do Brasil brincavam na rua. Yes! Na rua, pé no chão, em cima dos paralelepípedos! Nas pequenas e até nas grandes cidades! Era um tempo em que ninguém era obrigado a fugir de bandido nem de bala perdida. Para os brasileirinhos de hoje, deve até parecer invenção da mídia intriguenta.

Naquele tempo sem televisão e sem videogame, os maiorzinhos jogavam pelada, enquanto os pequeninos brincavam de roda. Meninos e meninas misturados, que a sexualização da pequena infância ainda não estava em voga.

No hit parade, figurava o Soropango da vingança, uma cantiga importante. Como em todos esses cantos populares tradicionais, todo o mundo conhecia a mesma melodia, mas havia inúmeras versões da letra – cada família tinha a sua. As palavras eram misteriosas, desconexas, sem pé nem cabeça, mas ninguém ligava muito pra isso. O importante era que letra e música se encaixassem. Com a repetição, a cantiga acabava se fixando na memória. A prova de que repetir é bom pra decorar está aqui: passadas tantas décadas, a gente se lembra de tudo, de cabo a rabo.

A letra que aprendi com minha turminha era assim:

Soropango da vingança
Toda a gente passa lá

A costureira faz assim,
Faz assim também assim;

A passadeira faz assim,
Faz assim também assim;

A lavadeira faz assim,
Faz assim também assim.

E aí desfilavam todos os ofícios que a criançada conhecia – e que pudessem ser mimados.

Há quem diga que Soropango da vingança era calcada sobre a antiquíssima cantiga francesa Sur le pont d’Avignon (Na Ponte de Avignon). É verdade que, depois de passar pelo filtro da língua popular, “sur le pont” pode bem ter virado “soropango”, assim como “d’Avignon” é bem capaz de ter  se tornado “da vingança”. É verdade também que o espírito da cançoneta é o mesmo. Tanto a francesa medieval quanto a nossa colonial mimam os gestos de pessoas ou de artesãos.

No entanto, em desagravo à musicalidade de nossa alma cabocla, frise-se que a melodia de nosso “Soropango” é bem diferente da francesa. Faz até parecer que o criador da cantiga brasileira pescou a ideia no original e criou melodia própria. Em todo caso, nossa versão é bem mais melodiosa que a original.

Sur le pont d’Avignon
Encontrei a versão francesa no youtube. Está aqui

Soropango
No youtube, não achei nosso Soropango. Que não seja por isso: fiz uma gravação caseira da melodia que me ficou na memória. Está aqui.

Curiosidade
Um vilarejo da Costa do Marfim leva o nome de Sorobango. Imagino tratar-se de pura coincidência fonética.

O que se leva desta vida

Dr. Oswaldo Cruz e a vacina
charge de Arthur ‘Bambino’ Lucas (?-1929), desenhista carioca

 

José Horta Manzano

No começo do século 20, surtos frequentes de varíola assolavam o Rio de Janeiro. Embora a vacina antivariólica tivesse sido criada cem anos antes, o governo nunca havia organizado nenhuma campanha de imunização em massa. Em 1904, a Saúde Pública instituiu a vacinação obrigatória contra a varíola, fato que acendeu o estopim de uma rebelião popular que ficou conhecida como Revolta da Vacina.

É interessante notar que não foram as estatísticas de doentes que ficaram na história, mas a Revolta da Vacina. A varíola causou certamente mais sofrimento e perdas humanas do que a revolta, mas a história guardou o fato mais espetaculoso, aquele que botou mais medo que a doença.

Neste começo de século 21, os humanos estão tendo de encarar assalto de doença nova: a covid-19. Dado que o mal é recente demais, no ano passado ainda não havia nem vacina pronta pra ser usada.  Dezenas de laboratórios trabalharam com afinco e, para surpresa de todos, vários deles conseguiram oferecer imunizantes, menos de um ano depois da notificação do primeiro caso. Uma façanha!

O mundo se jogou em cima dessas novas vacinas. Israel, por exemplo, foi ainda mais rápido que os outros; contratou, recebeu, aplicou antes dos demais. Hoje está com quase todos os habitantes vacinados.

O Brasil de Bolsonaro desviou da rota do bom senso e seguiu em direção oposta. O presidente fez (e continua fazendo) campanha contra a vacinação. Sem se dar conta do mal que já causou e que continua a causar, não perde ocasião pra mostrar animosidade contra tudo o que possa limitar o alastramento da epidemia: máscaras, confinamento, distanciação social e, naturalmente, vacinas. Esta não presta porque é chinesa; aquela não compro porque não me ofereceram; aqueloutra nem pensar porque te transforma em jacaré. No fundo, a gente fica desconfiado que, na verdade, ele deve ter medo de injeção.

É difícil prever, especialmente o futuro – como diz o outro. Mas fazer previsões a longuíssimo prazo é moleza e não compromete; de qualquer maneira, quando chegar o tempo previsto, nenhum de nós vai mais estar aqui pra conferir. Então, vamos lá.

Daqui a cem anos, quando tivermos virado pó, os livros de história vão mencionar o turbulento período 2020-2021. Creio que o comportamento de Bolsonaro vai ser mais comentado do que a epidemia em si. A passagem do tempo vai escancarar cada vez mais a responsabilidade do doutor.

Assim como falamos hoje da Revolta da Vacina de 1904 mas esquecemos de contar as vítimas da varíola, nossos descendentes crucificarão Bolsonaro como o responsável pela ausência da vacina que teria estancado o morticínio.

Ele será um Joaquim Silvério dos Reis do século 21, o homem que traiu a confiança que nele haviam depositado os cidadãos. A história das nações está recheada de mitos que simbolizam tanto episódios gloriosos, quanto momentos execráveis. Bolsonaro vai entrar para a galeria de “mitos” brasileiros, a representar o papel de traidor dos ideais da nação. Será o símbolo de tudo o que o Brasil não quer.

Sina

José Horta Manzano

Internet e redes sociais têm seu lado bom. Se assim não fosse, não teriam conquistado tantos adeptos. A informação instantânea (que hoje convém dizer “em tempo real”) é bom exemplo dos benefícios.

Nos tempos de antigamente, um meio muito utilizado de transmitir informação era o “telefone sem fio” ou “boca a boca”. Não era sofisticado, mas tinha sua graça. Logo após ter se inteirado de uma notícia, a gente corria pra informar algum conhecido.

– Você soube da novidade?

– Não. O que é que foi?

Neste ponto, o bom da coisa era contar o que tinha ocorrido e parar pra observar a cara de espanto do interlocutor. Era uma sensação impagável.

– Noooossa! Não diga!

– Digo, sim. E digo mais.

E aqui se acrescentava algum comentário pessoal. Como se sabe, quem conta um conto aumenta um ponto.

E assim seguia. Terminada a conversa, cada um seguia seu caminho pra continuar a espalhar a notícia.

Diálogos assim, hoje, são mais raros. Com o celular sempre no bolso, (quase) todos ficam sabendo de (quase) tudo ao mesmo momento. Não tem mais graça perguntar “– Soube da novidade?”. Normalmente, a resposta será “– Soube, sim.”

Nem tudo, porém, é cor-de-rosa. Há gente que exagera na dose e tem nas redes sociais seu único canal de informação. Não é o caso do distinto leitor, naturalmente, visto que chegou a este blogue caminhando com as próprias pernas. Está ficando cada vez mais raro ver gente que usa as próprias pernas para andar; muitos por aí andam caminhando com as pernas alheias. Parece cômodo, mas pode ser nocivo a longo prazo. Massa cinzenta pouco utilizada acaba se atrofiando.

Essa dedicação exclusiva e em tempo integral às redes pode causar distorções em certos momentos. Em política, na hora de escolher candidato para eleição majoritária (presidente, governador, prefeito), esse hábito trabalha contra o eleitor, visto que limita sua liberdade de escolha.

A frequentação permanente das redes acaba por fagocitar outros canais de comunicação que costumavam ser usados entre candidatos e eleitores. Debates, por exemplo, em que cada pretendente tem ocasião de expor as próprias ideias, estão em processo de rápida perda de importância.

Esse estreitamento dos canais de informação dificulta o aparecimento e a ascensão de novos candidatos, enquanto favorece a reeleição dos nomes mais conhecidos. Para as presidenciais de 2022, o quadro se delineia cada dia com maior nitidez.

Um terceiro candidato, fora do binômio Lula x Bolsonaro, tem pouca chance de se fortalecer eleitoralmente. Esses dois personagens são tão conhecidos, que um terceiro será naturalmente menos popular do que eles. E terá menos espaço nas redes, o que limitará suas chances de sucesso.

Salvo acontecimento extraordinário, os dois nomes que o país inteiro conhece – o do ex-presidente (e ex-presidiário), e o do atual presidente (e futuro presidiário?) – têm todas as chances de aparecer na cédula do segundo turno.

Eta carma pesado, o nosso!

A ignorância faz estragos

José Horta Manzano

“É preciso justa remuneração pelos serviços ambientais prestados por nossos biomas.”

Jair Bolsonaro, em discurso na Cúpula do Clima 2021

É verdade que ninguém presta muita atenção ao que se diz em reuniões espetaculosas como a Cúpula do Clima destes dias. Convidar líderes de 40 países é muita coisa. As palavras que cada um possa ter pronunciado se perdem na algaravia. Quando o 23° termina de falar, todos já esqueceram o que o 14° tinha dito. Cada um analisa o que o dirigente do próprio país declarou, sem se ater ao que possam ter declarado os demais.

O interesse geral está no pronunciamento daquela meia dúzia de líderes que realmente contam: EUA, China, Rússia, França, Alemanha – pouco mais ou menos. O resto é o resto. Assim mesmo, as palavras ali pronunciadas vão permanecer nos anais para todo o sempre. Sempre há quem vá se referir a elas em negociações futuras. Por isso, convém ser comedido e pensar muito antes de discursar. Antes de abrir a boca, é bom ter certeza da exatidão do que se vai afirmar. Infelizmente, a afligente ignorância que atinge nossos dirigentes costuma pregar peças no presidente de turno.

Soprada por sabe-se lá qual ministro iluminado, uma frase enigmática sobressaía do discurso de Bolsonaro. É a que cito no cabeçalho deste artigo. Trocando a ideia em miúdos e utilizando o fino vocabulário do clã que nos governa, fica assim: “Não me encham o saco, senão ainda vou acabar apresentando a conta; vocês, que são ricos, têm de me pagar por lhes fornecer o ar que respiram”. Uma finura que só.

Passando por cima da demonstração pública de mesquinhez e da evidente demonstração de que o Brasil está na defensiva, a ideia comporta grave erro de raiz. Certamente não haverá consequências, visto que ninguém leva Bolsonaro a sério, mas o engano está lá, registrado para sempre nos arquivos implacáveis da internet.

A turma palaciana deve ter achado o máximo entrar com mais essa ameaça. Devem ter-se sentido superinteligentes. Não sabem que são de uma pobreza intelectual deplorável. Se não estivessem brigados com a ciência, bem que podiam ter perguntado a alguém que entende do riscado, mas acredito que não deva ter sobrado nenhum cientista sério nas cercanias desse governo.

O problema é que a ameaça de Bolsonaro não tem base na realidade. Diferentemente do que creem os áulicos do Planalto, “pulmão da Terra” não são as florestas, mas os oceanos. Se o planeta dependesse unicamente da vegetação para regenerar o ar que respiramos, faz tempo que a vida estaria extinta. Não estaríamos aqui sorrindo das bobagens que o presidente pronuncia.

O oceano abriga bilhões de toneladas de pequeninos seres invisíveis a olho nu: é o plâncton, formado por organismos microscópicos. Eles representam mais de 95% da biomassa marinha e são compostos por vírus, larvas de peixe, bactérias, microalgas, minúsculos crustáceos. A porção vegetal desse batalhão invisível – o fitoplâncton – responde pela maior parte da regeneração da atmosfera. No ciclo do oxigênio, não seria correto dizer que o papel das florestas não conta, mas o dos oceanos é infinitamente mais importante.

Se tivessem sabido disso antes de bolar o discurso do presidente, os sábios do Planalto talvez tivessem tido o cuidado de verificar quem são os donos dos maiores nacos de oceano, ou seja, aqueles que mais contribuem para a regeneração da atmosfera. Os sábios talvez não estejam a par, mas os almirantes da Marinha certamente sabem que os países com saída para o mar dispõem de uma ZEE (Zona Econômica Exclusiva) de 200 milhas de extensão. Trata-se da zona marítima sobre a qual esses países têm direito exclusivo de exploração mineral e comercial – o que inclui a pesca e a exploração petrolífera. É a porção de mar que, de certo modo, pertence a cada país.

Por razões históricas que não vêm ao caso agora, certos países dispõem, além do território principal, de ilhas e arquipélagos ao redor do planeta. Acontece que a regra das 200 milhas também se aplica a cada uma dessas ilhas, o que resulta num quadro inesperado. O país que possui a maior área marítima é a França, dona de 11,6 milhões de km2 de Zona Econômica Exclusiva. Coladinhos, vêm os EUA, com 11,4 milhões de km2. Seguem-se a Austrália, a Rússia e o Reino Unido. O Brasil, que tem poucos arquipélagos de alto-mar, aparece na 10ª posição, com 3,8 milhões de km2 – um terço da área de cada um dos dois campeões.

Assim sendo, pela régua de um ingênuo Bolsonaro, que ousou falar em “remuneração pelos serviços ambientais prestados”, quem estaria no direito de apresentar a conta ao mundo não é o Brasil, mas a França e os EUA, países que aparecem quase empatados na primeira colocação.

Mas não o farão, porque têm bom senso. Bolsonaro tampouco o fará porque dinheiro a ele, assim, de mão beijada, ninguém vai dar.

Estratagemas

Rei Balduíno

José Horta Manzano

No dia 3 de abril de 1990, pouco antes da meia-noite, os ministros do governo belga se encontraram para uma reunião de crise. Após uns minutos de deliberação, constataram que o rei estava “impossibilitado de reinar”.

No dia seguinte, a decisão foi publicada em edição especial do jornal oficial do país, o que permitiu ao primeiro-ministro e aos demais ministros tomar as rédeas do governo e assumir as funções do monarca.

O rei Balduíno estava em perfeito gozo de sua saúde física e mental. Como é possível, então, que tenha sido julgado “impossibilitado de reinar”? Para entender, é preciso voltar no tempo. Uma semana antes, depois de anos e anos de hesitação, o parlamento tinha aprovado uma lei de descriminalização do aborto voluntário. Para a entrada em vigor, só faltava a sanção do monarca.

O problema é que o rei Balduíno, católico fervoroso, se recusava a promulgar a lei. Afirmou que não assinaria o documento nem se o papa lhe pedisse. Não queria que seu nome ficasse para sempre ligado a uma lei cujo teor colidia frontalmente com suas convicções. Diante do impasse, constitucionalistas encontraram uma saída – um tanto ousada e fora de esquadro, é verdade, mas servia pra contornar o problema.

Assim que a real interdição foi publicada no órgão oficial, os ministros, agora únicos responsáveis, assinaram e promulgaram a lei. No dia seguinte, o ministério se reuniu novamente. A ordem do dia era uma só: discussão sobre a interdição do rei. Após rápida deliberação, a interdição foi anulada e Balduíno foi de novo julgado “apto a reinar”. No dia seguinte, a boa notícia foi sacramentada pelo diário oficial e o monarca recuperou o trono.

No Brasil, faz uns dias, situação análoga estava se desenhando. Os deputados federais haviam votado um orçamento que desrespeitava as leis vigentes. Suas Excelências, cujo único interesse parece ser permanecer no poder para todo o sempre, sabiam o que faziam ao votar a peça. Mas deixaram o abacaxi para o presidente descascar.

Bolsonaro sabia que, se sancionasse o orçamento como foi votado na Câmara, estaria cometendo crime de responsabilidade, o que poderia levar à abertura de processo de impeachment. Se não o sancionasse, entraria em choque frontal com Suas Excelências que, em represália, poderiam até abrir… um processo de impeachment – há dúzias cochilando na gaveta da Mesa Diretora.

Foi quando surgiu a ideia de uma malandragem salvadora. (Afinal, nesta altura do campeonato, não é um trambique a mais que vai arruinar de vez o currículo do presidente.) Bolsonaro embarcaria num avião com destino ao exterior, para uma viagem de um ou dois dias. Por seu lado, Mourão, o vice-presidente, também deixaria o país. Assim, a via estaria livre para o presidente da Câmara, que é o nome seguinte na linha de sucessão, assumir a Presidência. Ele sancionaria a lei do orçamento, e pronto: Bolsonaro escaparia ao risco de destituição.

O cenário parecia bem desenhado. Quando chegou a hora dos finalmentes, veio a pergunta: “Muito bem, e Bolsonaro viaja para onde?”. Foi aí que caiu a ficha.

Os estrategos do Planalto foram obrigados a encarar a realidade: nenhum país está disposto a receber Bolsonaro. Nem vizinhos próximos, nem os mais distantes, nem Europa, nem Estados Unidos. À África, ele tem medo de ir. Viajar à Polônia, país que talvez o recebesse, fica complicado, porque a distância é muito grande.

Não, minha gente, não deu. E a ideia foi abandonada.

Chapéu na mão

José Horta Manzano

Em 2019, assim que assumiu a Presidência, Bolsonaro se indispôs com meio mundo. Nas relações exteriores, brigou com vizinhos e com todos os países amigos – com exceção dos EUA de Trump.

Aconselhado pelos luminares que o cercam, o capitão cuspiu em cima das doações milionárias da Alemanha e da Noruega, destinadas à preservação da Amazônia brasileira. Ofendido, deu a entender que o Brasil tinha como ponto de honra a manutenção da própria soberania. O recado passado ao mundo foi o de que não precisávamos nem desejávamos dinheiro de ninguém. Éramos crescidinhos e suficientemente fortes para cuidar de nosso território nós mesmos, sem interferência nem participação externa.

Para esta semana, Joe Biden convocou uma cúpula sobre o clima, com a participação de 40 líderes planetários. Bolsonaro está sendo esperado. Em contradição total com a arrogância de dois anos atrás, nosso “mito” fará uma apresentação humilde e indigente. Anunciou que pretende entrar de chapéu na mão, pedindo esmola. Deverá apresentar a chantagem que o Planalto preparou para confrontar o resto do mundo: ou me dão 10 bilhões de dólares por ano, ou a Amazônia brasileira vai continuar minguando até desaparecer. Se assim procederem, nossas autoridades vão transmitir a imagem de um Brasil empobrecido mas sempre vigarista. Como todas as iniciativas do governo atual, esta também é fruto de burrice entranhada. É impressionante como falta inteligência àquele pessoal.

Por certo não estão se dando conta de que a proposta é confissão pública e definitiva de impotência. A chantagem tupiniquim vai escancarar a realidade e dar razão aos que sugerem a internacionalização da floresta tropical. De ora em diante, todos saberão que, sem ajuda externa, o Brasil não tem condições de cuidar do próprio território.

Fica mais uma vez comprovado que os repentes de patriotismo bolsonárico não passam de patriotadas para a galeria. Na hora do vamos ver, é rabo entre as pernas e pires na mão.

Tratamento precoce

“Kit covid”

José Horta Manzano

Não posso saber qual era a intenção das autoridades que conceberam o “kit covid”. Não está claro, pelo menos para mim, se a intenção era curar ou prevenir a doença – se os remédios são curativos ou preventivos.

Não foi boa ideia dar ao coquetel de remédios o nome de “tratamento precoce”. Pra começar, precoce é palavra um tanto ambígua, visto que seu significado pode variar dependendo do contexto. Além disso, o termo não pertence à língua de todos os dias, ou seja, muita gente simplesmente não sabe o que significa.

No meu entendimento, para que a expressão “tratamento precoce” faça sentido, é preciso que o paciente já esteja doente, isto é, que já tenha contraído o vírus. Não se trata alguém que ainda não está doente.

Admitindo que a intenção dos criadores fosse tratar os doentes em estágio precoce, é preciso constatar que muitos estão entendendo que o famigerado “kit covid” é um preventivo, isto é, uma espécie de imunizante que se toma para não ficar doente.

Agora dá pra entender por que há tantos infelizes sofrendo as consequências de ter tomado os medicamentos do “kit”. Elas podem ser violentas. Há quem passe a sofrer insuficiência hepática, renal ou cardíaca. Há quem entre para a fila dos transplantes. Há muitos que infelizmente não resistem e acabam falecendo.

Entre os que sofrem essas consequências, deve haver muitos que, sem haver contraído covid, ingeriram os medicamentos do “kit” como preventivo. É trágico imaginar que, pensando escapar de um mal, recebam o terrível abraço de outra doença que os acompanhará até o túmulo.

Ontem, dia 18, o jornal O Globo publicou artigo esclarecedor que conta a pressão que autoridades vêm exercendo sobre o corpo médico lotado em hospitais por todo o país. O texto em pdf está aqui à disposição do distinto leitor.

Lula livre

José Horta Manzano

De médico e de louco, todos temos um pouco. De estridente e de rouco, todo STF tem um pouco. Nosso tribunal maior é uma caixinha de surpresas. No caso do Lula, depois de uns dez anos de processo e um ano e meio de cadeia, resolvem que não valeu. Tudo volta à estaca zero. Um vício processual insanável acaba de ser descoberto. Tchau e desculpe qualquer coisa aí.

Para o Lula, até que a conta saiu barata. Se analisarmos o conjunto da obra, se somarmos todo o prejuízo que ele e sua turma deram ao Brasil, se pusermos na balança os bilhões roubados e a falta que esse dinheiro fez para o povo, chegaremos à conclusão de que, com um ano e meio de xilindró, a travessura saiu em conta. Eu disse xilindró? Engano! Aposentos de luxo com sala de visitas e suite, isso sim.

Falando nisso, quem deve estar cada dia mais apavorado de terminar seus dias encarcerado é o Bolsonaro. Ele já deve ter percebido que, assim que sair da Presidência, um camburão o espera. Ok, vamos tirar o exagero. Não vai direto dar um passeio de viatura, mas enfrentará uma enxurrada de processos, isso é certeza. Ele sabe que o dia da prestação de contas está chegando. Eis por que sonha com um golpe militar que o mantenha no trono. Quanta ilusão…

Lula e Bolsonaro são irmãos xifópagos. Um não existiria sem o outro. Sem Lula, não teria havido Bolsonaro. E agora, do jeito que vão as coisas, o ex-militar vai ceder o lugar ao ex-sindicalista. Cada um deles só sobrevive politicamente em função do outro. Em teoria, se Bolsonaro saísse de cena agora – digamos que renunciasse, se aposentasse e se mudasse para as Bahamas –, as chances presidenciais do Lula cairiam vertiginosamente. Sobraria aquele núcleo duro de devotos que não passam de um terço do eleitorado.

Vai ser dramático apertar os botões da urna na próxima eleição. No primeiro turno, ainda há opção, porque sempre aparece uma renca de candidatos. Já no segundo, se a dupla for Lula e Bolsonaro, ai Jesus! Vamos ter de escolher entre a peste e a cólera. Será um dilema no verdadeiro significado da palavra: uma escolha entre duas opções ruins.

Mas algo me diz que o cenário vai se desanuviar antes do fim do mandato do capitão. Em vez de camburão, uma ambulância é que vai entrar qualquer dia destes pela porta dos fundos do Planalto. Dela vão descer quatro enfermeiros carregando sedativos e uma camisa de força pra embarcar o psicopata.

Farol

José Horta Manzano

Certas imagens que nos vêm à cabeça são irreprimíveis, impossível afastá-las. Ultimamente, tenho enxergado Bolsonaro como um farol de ponta-cabeça.

Como todos sabem, farol é um instrumento de sinalização luminosa, implantado em lugar alto e próximo à costa, que atua como ponto fixo de referência para orientar a navegação.

Pois eu vejo nosso presidente como farol virado de cabeça para baixo. Em vez de orientar as naves que buscam a luz, serve de guia e de polo de atração para criaturas das profundezas, aquelas que se movem nas trevas e lá pretendem continuar.

De fato, parece que esse homem só atrai coisa ruim. Nosso presidente justifica o dito “dize-me com quem andas, e dir-te-ei quem és”. Os que andam com ele boa coisa não são.

E vice-versa: aqueles que Bolsonaro rejeita já contam com um ponto a favor. Não conheço esse senador a quem ele ontem, com sua proverbial elegância, chamou de ‘bosta’; mas deve tratar-se de um bom rapaz. Pode até ter seus defeitos, mas não cometeu o pecado maior: não se vendeu ao capitão.

Lula não tem emenda

Lula pede desculpas aos italianos: “Sobre Battista, errei”  –   La Repubblica, Turim

José Horta Manzano

Todos devem se lembrar do maior vexame internacional que Lula da Silva impôs ao Brasil. Foi quando, no último dia de seu mandato (31 de dez° de 2010), se recusou a entregar o terrorista Cesare Battisti à Itália. A surpreendente decisão contrariava o STF, atropelava o bom senso e envenenava as relações entre os dois países. A insinuação de que a Itália não tinha sabido julgar o homicida foi recebida, por lá, como afronta, um tapa na cara.

Mas ninguém perde por esperar. O dia do acerto de contas sempre acaba chegando. E chegou para ambos. Por ironia do destino, acabaram os dois atrás das grades. Lula, por ano e meio; Battisti, para o resto de seus dias.

Em março de 2019, já preso na Itália, o terrorista respondeu a um interrogatório. Depois de 40 anos de negativa obstinada, confessou todos os assassinatos pelos quais tinha sido condenado. Assumiu ainda os disparos nas pernas de outras vítimas ‒ método típico dos terroristas dos anos de chumbo na Itália. Admitiu ainda ter participado de uma baciada de assaltos.

A confissão pôs nosso guia em posição desconfortável. Como sustentar agora a tese de que o terrorista era inocente, nada mais que um perseguido político? Lula, na época, estava numa masmorra de Curitiba. Posteriormente, apesar de seu costume de proferir ‘quase verdades’, não houve jeito. Teve de reconhecer que estava errado, mas fez durar o suspense: disse que, se fosse necessário, pediria desculpas.

O momento chegou. Faz uns dias, foi entrevistado pelo segundo canal da RAI (Radiotelevisão italiana). Realmente pediu desculpas aos italianos. Só que a maneira como apresentou o assunto anulou o que tinha acabado de dizer. Deu com uma mão e tirou com a outra.

Para justificar o asilo concedido, Lula confessou que estava enganado sobre Battisti. Acreditava que fosse inocente. Até aí, está no limite do aceitável. Em seguida, admitiu só ter se convencido quando o homem, já preso na Itália, assinou a confissão diante de um juiz.

Ficou claro que, se esperou até ouvir a confissão da boca do próprio Battisti, é porque acredita mais na palavra do encarcerado do que no veredicto da justiça italiana. Portanto, apesar do pedido de desculpas, segue ofendendo a justiça daquele país, ao considerar que o que vale mesmo é a palavra do terrorista.

Dos relatos que li na imprensa italiana, nenhum se ateve a esse ponto. Acho que, tão embevecidos estão com as sempre sábias palavras de nosso ‘pai dos pobres’, que se esquecem de analisar o que ele diz. Este blogueiro, que nunca esteve embevecido pelo personagem, não deixou escapar.

Promete mas não entrega

José Horta Manzano

Bolsonaro declarou ontem que ”resolve o problema do vírus em poucos minutos”. Falou assim, mas não deu a receita tim-tim por tim-tim, o que deixa uma leve suspeita de que não passe de (mais uma) bravata.

O presidente limitou-se a declarar que o que falta é dinheiro. Como de costume, aproveitou para ser grosseiro e acusar a imprensa de misteriosas malversações, ao revelar que o dinheiro que ‘governos anteriores’ pagavam aos grandes jornais do país não era para a imprensa, mas para ‘outras coisas’. Não explicitou que ‘outras coisas’ seriam.

Se o problema de combate ao vírus fosse simplesmente questão de dinheiro, países ricos já estariam livres da praga. É verdade que, sem dinheiro, um país está condenado a conviver com a desgraça por muitos anos. Não é o caso de nosso país. Nos altos círculos da República, dinheiro parece brotar em árvores. Aos bilhões.

Dinheiro, há. Acontece que ele, por espantosa incompetência, está sendo mal utilizado. Com gastos em cloroquina, com material esquecido em armazéns do exército, com investimento em desinformação, não há dinheiro que chegue. Quantas vacinas, seringas, agulhas, respiradores poderiam ter sido comprados com os bilhões – de nosso dinheiro! – que Bolsonaro usou pra cooptar o Centrão?

Como se vê, nosso presidente continua discursando para seus devotos. Ele e os que o aplaudem não sobreviviriam em outro ambiente que não fosse de ódio e revolta o tempo todo. É assim que essa gente funciona. Já faz tempo que Bolsonaro percebeu isso. Daí a insistência em insuflar os maus instintos de quem os tiver.