Quem viver, verá

José Horta Manzano

O marco simbólico dos 100 dias que faltam para a «Copa das copas» (*) acaba de ser transposto. A ocasião foi propícia para um balancete. O resultado parece não ter sido brilhante.Estadio 1

O site LanceNet, especializado em futebol e, marginalmente, em outros esportes, andou verificando matérias publicadas por jornais europeus. Não são lá muito lisonjeiras.

Numa certa altura, o site diz:
Interligne vertical 14«O britânico The Times trouxe uma entrevista com Jérôme Valcke em que o secretário-geral da Fifa fala da preocupação da entidade em relação à organização da Copa. O diário cita o caos na sede do próximo Mundial e diz que esta pode ser a pior Copa do Mundo.»

Eta coisa desagradável de ler, não?

E tem mais:
Interligne vertical 14«Outros empecilhos para o Mundial citados pelo jornal são a queda de apoio ao evento por parte dos brasileiros e a possível revolta popular à época do torneio, além da distância física entre as 12 sedes brasileiras. A publicação diz que os cerca de 3,6 milhões de torcedores esperados para a Copa sofrerão para chegar aos jogos por terem de trafegar “desde a Floresta Amazônica até a dominada pelo crime São Paulo”.»

São Paulo dominada pelo crime! Vejam, senhores, a imagem que estamos transmitindo do Brasil que, um dia, foi habitado por um povo cordial.

Li outro dia uma frase maldosa, daquelas que não deixam de ter sua dose de verdade. Na montagem fotográfica, nossa sorridente presidente aparece em primeiro plano. Como pano de fundo, a maquete de todos os luxuosos estádios que ― imagina-se ― estarão prontos para o campeonato mundial. No rodapé da charge, a frase que choca: «Se seu filho adoecer, leve-o a um dos estádios da Copa». Para não chocar mais, renuncio a reproduzir aqui a ilustração.

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(*) «Copa das copas»

A expressão não é minha. Foi bolada ao molho do informal Ministério do Marketing, a mais preciosa entre as numerosas pastas que assessoram a presidência do Brasil. Resta esperar que não entre para a História como expressão de mau agouro. Há precedentes.

Prestes a fazer sua primeira (e última) travessia do Atlântico, o ultrassofisticado Titanic foi saudado como «the unsinkable ship», o navio insubmersível. Sabemos como terminou.

No início da Guerra do Golfo (1990), Saddam Hussein deu ao conflito o epíteto de «Mother of Battles», mãe de todas as batalhas. Sabemos como terminou.

Melhor parar por aqui. Sai, azar!

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Quem quiser ler o artigo de LanceNet na íntegra clique aqui.

Cabo de guerra

José Horta Manzano

Michelle Bachelet presidente eleita do Chile

Michelle Bachelet
presidente eleita do Chile

Michelle Bachelet, presidente eleita do Chile, tomará posse de seu cargo na semana que entra. Aproveitando o embalo, os ministros de Relações Exteriores sul-americanos vão-se reunir para debater os atuais problemas venezuelanos.

Em passado longínquo, era imprescindível que figurões se reunissem para discutir. Na ausência de telefone e de internet, mensagens tinham de ser encaminhadas por escrito. Entre proposições e contraproposições, podiam passar-se meses, anos até.

Essas cúpulas de hoje em dia são encenadas mais pra inglês ver. Na era da videoconferência, decisões são tomadas nos bastidores e dispensam encontros físicos. O resultado mais notável dessas reuniões de medalhões são fotos de grupo que farão as manchetes de todos os jornais.

Grosso modo, o Brasil ocupa metade do território do subcontinente, reúne metade de sua população e responde por metade de seu PIB. Assim como a posição da Alemanha é predominante nas cúpulas europeias, é natural que o peso do Brasil oriente os debates e a conclusão final de todo concertamento regional.

Nada indica, infelizmente, que desse encontro chileno alguma novidade boa possa sair. Por quê? Simplesmente porque nossa alta cúpula se debate em lutas intestinas que a paralisam.

A máquina governamental brasileira aloja ideólogos que, por afinidade, preconizam o alinhamento automático com governos autoritários. Sejam eles de direita, de esquerda, de cima, de baixo, pouco importa. O atual regime venezuelano, autoritário e semidemocrático, encaixa-se perfeitamente no molde.

Por outro lado, nossa abundante equipe de governo abriga também gente menos ingênua, menos cabeça-dura, menos ressentida, mais realista. Há, certo, medalhões que já entenderam que a exacerbação do populismo e do autoritarismo, à moda bolivariana, é caminho certo para o desastre.

Na ausência de um presidente respeitado, daqueles cuja palavra não se discute, os habitués do Planalto travam uma interminável partida de cabo de guerra. Falo daquela brincadeira em que uma corda grossa é puxada por duas equipes, uma de cada lado. O mais das vezes, a corda fica imobilizada, sem se mover para lado nenhum.

Palácio do Itamaraty e seu espelho d'água

Palácio do Itamaraty e seu espelho d’água

A prova maior foi dada dias atrás por nosso chanceler, Luiz Alberto Figueiredo, em entrevista concedida a Eliane Cantanhêde, da Folha de São Paulo. A jornalista, íntima da política brasileira, foi direto ao que interessava e pisou onde doía.

O resultado foi constrangedor. Descobrimos um ministro de Relações Exteriores ― diplomata de carreira! ― acabrunhado, envergonhado. Tentou escapulir aos questionamentos, fugir à realidade. Dourou pílulas, divagou, esquivou-se, esgueirou-se, resvalou. O homem é mais «escorregoso» que sabão de lavadeira. É daqueles que falam e falam para, no final, não dizer nada. Um horror.

Tudo isso faz sentido. O desmonte da imagem externa do Brasil caminha pari passu com o desmantelamento das instituições. Essa hesitação entre servir a Deus ou a Mamon deixa a impressão de um país em estado de liquefação.

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A quem não leu, recomendo uma vista d’olhos à entrevista do chanceler. É edificante. Clique aqui.

Que vexame!

José Horta Manzano

«Enquanto não recebermos o salário em dia, não retomaremos o atendimento», disseram os funcionários do Consulado-Geral do Brasil em Paris enquanto fechavam as portas.

Atendimento restrito a emergências

Atendimento restrito a emergências
devido à falta de pagamento dos auxiliares locais

Quem nos traz a notícia é Roberta Namour, correspondente em Paris do site 247.

Como se não bastassem os desacertos de nossa diplomacia, os compatriotas do exterior são largados ao deus-dará. De barriga cheia, nossas autoridades se esquecem de que o mundo não se resume às mordomias palacianas de Brasília.

Deveriam ter sempre em mente que:

Interligne vertical 91. Todo trabalho merece salário.

2. Há três milhões de brasileiros no exterior.

3. Os bilhões de dólares enviados mensalmente ao Brasil pelos expatriados não são dinheiro especulativo. São fundos injetados definitivamente na economia nacional, sem contrapartida.

4. Os brasileiros do exterior votam para presidente da República.

Crédito: 247.com.br

Crédito: 247.com.br

Fica desbeiçada a imagem de Brasil grande que nossa atual administração gostaria de ressuscitar. O país mostra que continua com pés de barro. Deixar de pagar seus funcionários não é sinal de grandeza. Muito pelo contrário.

Burocracia

José Horta Manzano

É voz corrente que a burocracia brasileira é pesada. Carimbos, firmas reconhecidas, atestados, certificados e quejandos tornam ainda mais complicado o dia a dia do cidadão.Burocracia

Eu me pergunto, contudo, se esses entraves não seriam a essência, o espírito de nosso povo: desconfiado, minucioso, cheio de pormenores. Todo o mundo é considerado suspeito até que prove o contrário.

Ainda agora, estava lendo um artigo interessante de Bianca Pinto Lima publicado no Estadão deste 6 de março. A articulista lança um alerta aos que estão a ponto de declarar sua renda ao fisco. Lembra aos declarantes que certos erros primários e fáceis de evitar podem trazer consequências pra lá de desagradáveis.

Em seguida, o artigo discorre sobre limites, montantes admitidos, porcentagens, minúcias. Fiquei surpreso com um rigor detalhista ao qual não estou habituado.

by Serguêi Túnin, desenhista russo

by Serguêi Túnin, desenhista russo

Despesas com educação permitem abatimento de até 3’230,46 reais. Empregado doméstico dá ao patrão o direito de deduzir 1’078,08 reais de sua renda tributável. Cada dependente propicia franquia de 2’063,64 reais. Por que tamanha precisão? Por que 46 centavos aqui, 8 ali, 64 acolá?

Peço desculpa pela franqueza: muito mais do que exatidão, isso é burrice. Alguém já fez a conta dos minutos perdidos pelo declarante entre escrever e calcular os 8 centavos aqui e os 46 ali? Alguém já multiplicou esses minutos pelos milhões de declarações preenchidas a cada ano? Alguém já calculou o desperdício de tempo e de energia que isso acarreta ao País? Sem contar o risco de erro que, reforçado, acaba penalizando inocentes.

É simples remediar. Que se comece por desprezar os centavos nas declarações. Que se fixem montantes e deduções arredondadas. Nada de centavos. Se possível, que terminem em 10, 20, 30. Melhor ainda se terminarem em centenas redondas.

No nosso exemplo, os abatimentos ficariam assim:

Interligne vertical 10Educação = 3’200 reais
Empregado doméstico = 1’100 reais
Dependente = 2’100 reais

Não fica mais fácil? O que se perde aqui, ganha-se ali. Por que complicar? Um tijolinho cá, outro lá, um dia a casa fica pronta.

Deixo aqui a sugestão. Se algum de meus distintos leitores for um chegado do doutor Leão, que nos faça o obséquio de dar-lhe um toque. De leve, porque leão, como sabemos todos, é animal irracional.

Frase do dia — 115

«Tendo a acreditar, como dizem alguns inconformados com as decisões da última semana, que no STF de hoje nem mesmo a denúncia do Ministério Público contra os mensaleiros seria aceita.»

Marcelo Coelho, em sua coluna da Folha de São Paulo, 5 mar 2014.

Rapidinha 20

José Horta Manzano

Com a voz embargada

Pai, o que são embargos infringentes?

― É o seguinte, meu filho: imagine que nossa casa seja um tribunal e que, quando alguém erra, é julgado pelo voto de todos. Um dia, por exemplo, o papai comete um deslize e é apanhado traindo sua mãe com uma prostituta. Eu passarei por julgamento.

Sua mãe, a mãe dela, o pai dela, sua irmã mais velha, você e seu irmão mais velho votam pela minha condenação. Meu pai, minha mãe, a Lelé e a Mimi, nossas gatinhas, votam pela minha absolvição.

― Tá, pai, mas aí você terá sido condenado por 6 a 4, não?

Fonte: Colunacontraponto

Fonte: Colunacontraponto

― Sim. Mas é aí que entram os embargos infringentes, filho. Como eu recebi quatro votos a favor da absolvição, tenho direito a novo julgamento.

― Mas pai, no novo julgamento todos vão votar do mesmo jeito!

― Não se eu tiver trocado a sua mãe, o pai dela e a mãe dela, sua irmã mais velha, você e o seu irmão mais velho por 6 prostitutas da minha confiança, pagas para me inocentar!

Historinha entreouvida por aí.

Rapidinha 19

José Horta Manzano

Internet & Copa

Em regiões do mundo mais civilizadas que a nossa, a expressão «conflito fundiário» é desconhecida. Aqui e ali pode aparecer alguma briga de vizinho do tipo «Ele roubou um metro do meu terreno, seu juiz!». Não vai muito mais longe.

Antena 3Na Tupiniquínia, forasteiros europeus, africanos, médio-orientais e asiáticos ainda estão se batendo contra os que haviam chegado antes deles. Em outros termos: ainda estamos brigando com índio por causa de terra.

Leio hoje reportagem de Anne Warth, publicada no Estadão de 5 mar 2014. Enquanto a «Copa das copas» custará 30 bilhões(!) de reais, o artigo informa que a tecnologia 2G ainda é preponderante na internet brasileira.

Certos países ― poucos, é verdade ― têm a sorte de contar com dirigentes bem-intencionados e previdentes. Não é, infelizmente, nosso caso.

Não precisa ser doutor em futurologia para entender que o bom desempenho da rede nacional de internet é fator pra lá de importante para o avanço do País. Mais valia ter investido todos esses bilhões no desenvolvimento de tecnologia do que em construção de estádios.

Cena pré-diluviana

Cena pré-diluviana

As consequências ― memento Conselheiro Acácio! ― vêm sempre depois. Algumas semanas depois de os dirigentes da Fifa e de nossa República terem recebido a vaia final no Maracanã, a «Copa das copas» já terá sido esquecida. E os desafortunados tupiniquins terão de trabalhar por alguns decênios para tapar, com seus impostos, o rombo causado ao Tesouro Nacional pela insensatez de um punhado de mandarins deslumbrados, apalermados e interesseiros.

E a internet? A tecnologia 5G já está apontando na esquina. Previsões realistas dão como certa sua introdução nos próximos 5 ou 6 anos. Enquanto isso, a maioria dos brasileiros ainda engatinha com seu pré-diluviano 2G.

E as tarifas? As nossas estão entre as mais elevadas do planeta. É o preço a pagar para ter acesso ao Primeiro Mundo, ora pois!

Alô? Está lá?

Frase do dia — 114

«Foi-se o tempo em que os idealistas se candidatavam [a postos eletivos] com o desejo de ajudar o povo na busca de caminho decente (…). Hoje essa qualidade de gente é minoria. Os gananciosos, egoístas, injustos e irresponsáveis assumiram a direção de nosso destino ― em arriscada jornada.»

Vera Brant, in Correio Braziliense, 3 mar 2014.

Rapidinha 17

José Horta Manzano

Flagrante

Não sou jurista. Mas tenho sensibilidade suficientemente aguçada para perceber quando um texto legal é vítima de desvirtuamento. A alcoolemia pode ser detectada de forma simples e instantânea com o uso do bafômetro ― um nome, aliás, divertido e bastante pertinente.

Etilômetro, o popular bafômetro

Etilômetro, o popular bafômetro

Com base no preceito legal de que nenhum cidadão pode ser obrigado a produzir prova contra si mesmo, convencionou-se que o teste não pode ser imposto ao cidadão. Este tem de dar seu acordo explícito. O que se viu no caso do futebolista (e deputado!) Romário foi exatamente nessa linha.

Por estas bandas aqui, a coisa não funciona exatamente assim. Caso um motorista se recuse a soprar no canudo, será conduzido incontinenti ao posto policial mais próximo para que lhe seja retirada uma amostra de sangue. À força, se necessário. Segurança pública não rima com cumplicidade de dissimulação de delito. O interesse da sociedade passa à frente de eventuais comodidades pessoais.

Levando ao extremo o atual entendimento, um suspeito de assassinato por arma de fogo poderia recusar que se lhe examinassem as mãos à procura de resíduos de pólvora. Colher sinais de pólvora nas mãos do suspeito ou recolher seu bafo de onça são procedimentos que, a ver meu, fazem parte da panóplia de todas as forças policiais do mundo. Nenhum cidadão deveria poder se esquivar.

Rapidinha 16

José Horta Manzano

Gente fina pela metade

Saiu no jornal que Romário, o jogador de futebol, foi apanhado numa batida policial. Não consentiu em soprar no bafômetro. Esse tipo de atitude equivale a confissão de culpa. Quem cala, consente. Amargou multa de quase 2 mil reais e está proibido de dirigir veículo automóvel por um ano.

Romário

Romário

Concordo que ninguém é perfeito, todos temos um lado sombrio. Mas esses eleitos deviam tomar mais cuidado que um zé qualquer. Todos aplaudiram quando o antigo profissional do gramado ousou desancar cartolas da Fifa e do comitê que organiza a «Copa das copas».

Desvios de conduta podem até ser tolerados em não-famosos. No entanto, aqueles que chegam aos píncaros da simpatia popular têm de ser mais zelosos. Um escorregão desses pode destruir uma reputação. Eleitor consciente não aprecia ser traído. Memento Demóstenes! ― falo do político goiano, não do estadista ateniense.

Gente fina tem de ser fina por inteiro e o tempo todo.

Frase do dia — 113

«Fico feliz com as suas palavras de incentivo. Seria como se o Federer me encorajasse a jogar tênis, como se o Bill Gates me estimulasse a programar computadores ou como se o Lula me incitasse a roubar 100 milhões do tesouro nacional.»

Resposta risonha e franca dada por um jovem amigo a quem eu havia dirigido algumas palavras de incentivo. A parte final da metáfora me fez sentir o nec plus ultra da parada. Um elogio e tanto!

Frase do dia — 112

«Na política externa, mesmo que a reforma do Conselho de Segurança da ONU andasse, qual a contribuição efetiva do Brasil à segurança internacional se, no próprio território, 50 mil homicídios/ano superam a destruição de vida nos conflitos do Afeganistão, do Iraque e do Sudão?»

Marcos Troyjo, economista e cientista social, em sua coluna in Folha de São Paulo, 28 fev° 2014.

Rito de passagem

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 1° março 2014

O senso comum enxerga a evolução como um percurso contínuo, retilíneo e, em princípio, ascendente. A tecnologia, os indivíduos, as ideias, os conceitos progridem. Países e civilizações também. Mas as coisas nem sempre são simples. O mais das vezes, o caminho é lento, as pedras são muitas, há altos e baixos, retrocessos e avanços. Há momentos em que precisa recuar para melhor saltar.

Desenvolvimento não costuma fluir em reta ascendente ― está mais para escadaria que para rampa. Desde tempos imemoriais, os humanos intuíram que a evolução se dá por patamares. Estabeleceram ritos de passagem. Tradições religiosas e leis seculares definem o momento em que o indivíduo é considerado apto a galgar mais um degrau.

Na impossibilidade de aferir o grau de desenvolvimento de cada fiel, o legado judaico-cristão fixou uma idade a partir da qual é permitido passar a estágio superior. A lei retomou essa mesma noção de avanço por patamares. Estabeleceu-se que certas idades são mais significativas que outras. É o caso dos 7 anos, dos 14, dos 18, dos 21. A cada um desses degraus, corresponde o abandono de um estágio e o acesso a um grau mais elevado.

Mas toda mudança implica um momento de transição. Em alguns casos, a passagem ao novo estatuto é rápida, fluida, indolor, imperceptível. Já em outros, a metamorfose é lenta, hesitante, penosa. Isso tanto vale para indivíduos quanto para sociedades, países e civilizações.

Os gregos antigos valeram-se do radical «kríno» para referir-se a essas fases agudas em que é preciso retroceder para avançar melhor. Da raiz grega, herdamos um vocábulo já quase gasto de tanto uso: a crise.

Embora se atribua hoje um sentido negativo a esse termo, a crise, no sentido originário, é o momento que separa duas maneiras de ser ― uma antiga e uma nova. Quando uma pessoa ou uma instituição passa por uma crise, temos tendência a prestar mais atenção aos sintomas do que ao horizonte novo que se está descortinando. É postura compreensível, mas pouco perspicaz.

Psicólogos estão familiarizados com a crise da adolescência. Astrólogos conhecem os solavancos que o returno de Saturno causa a quem passa pela crise de seus 28-29 anos. No entanto, quando um país inteiro atravessa um momento de crise, temos mais dificuldade em analisá-la racionalmente. Conceda-se o desconto: crises de adolescência e eventos estelares são mais frequentes que transformações nacionais.

Acredito que nós, brasileiros, andamos exagerando no pessimismo. Anda muito difundida a percepção de que a ladeira que estamos descendo nos conduzirá a uma inevitável catástrofe. Não é um sentimento produtivo.

Depois da tempestade, vem a bonança

Depois da tempestade, vem a bonança

É verdade que os tempos atuais são estranhos. É verdade que a violência se tornou tão banal que já deixou de ser notícia ― só aparece no jornal se o falecido tiver sido pessoa importante, se não, nem nota de rodapé vai merecer. É verdade que a corrupção, que levava vidinha recatada e discreta desde 1500, passou a se exibir, despudorada, como se instituição nacional fosse.

É verdade que não é mais necessário ser doutor em Ciências Políticas para se dar conta de que a governança anda errática, que promessas não se cumprem, que se aplicam emplastros em perna de pau. É verdade que protestos de rua se avolumam, cada vez mais descontrolados. É verdade que barbáries que nenhum filme de horror ousaria imaginar ocorrem dentro de cadeias. É verdade que autoridades de alta patente se desafiam, com gestos vulgares, diante de câmeras de tevê ― e que tudo fica por isso mesmo.

É assustador? Sem dúvida. A percepção de caos tem-se acentuado? Tem. É sinal do fim dos tempos? Depende.

Se, por «fim dos tempos», nos referimos ao fim de uma era, a resposta é afirmativa. Mas temos de aguentar mais um pouco, que não chegamos ao fim da ladeira. Para erguer um futuro mais civilizado, há que esconjurar o passado e consumi-lo até a última gota. Nosso país está atravessando, aos trancos, uma crise. Fazemos mal em passar nosso tempo a nos lamuriar. Mais vale olhar para a frente e preparar um futuro menos nevoento.

Se já atingimos o paroxismo? Se já tocamos o fundo do poço? Ninguém sabe. Talvez ainda falte um bocado, pouco importa. Sobre os erros do passado, constrói-se a sabedoria do futuro. Vamos dar aos acontecimentos a relevância que eles têm. O importante não é a crise atual ― dela sairemos qualquer dia destes. Fundamental é entender que este rito de passagem nos está fazendo subir um degrau na escala da civilização. Ânimo, minha gente!

O país onde a vida é mais cara

José Horta Manzano

Caixa registradora 1Segunda-feira passada, por ocasião da abertura da primeira loja da firma Apple na América Latina, o conceituado jornal Le Monde publicou um longo artigo sobre o custo de vida no Brasil. O título já diz muito: «Brésil, le pays où la vie est plus chère» ― Brasil, o país onde a vida é mais cara.

Nicolas Bourcier, o articulista, faz comparação entre o custo de alguns bens no Brasil e no exterior. Diz que um iPhone 5S versão 16 Go, o atual objeto de desejo, sai por 2799 reais, equivalentes a 868 euros. O mesmo artigo custa 634 euros na China e apenas 472 nos EUA.

Por que a diferença? Impostos? Custo de importação? Qual nada! Nenhum argumento se mantém diante de disparidade de preço tão escancarada. É pura esperteza de quem comercializa o produto. Sabem que, pouco importa o preço, os clientes farão fila, se necessário, para comprá-lo. Por que, então, não aproveitar? É um caso típico de abuso de ingenuidade.

O artigo aponta outras distorções. Diz que o Brasil está entre os 10 maiores mercados de smartphones, com cerca de 50 milhões de usuários que pagam tarifas elevadas. Segundo a UIT (União Internacional das Telecomunicações), o custo de uma chamada, que chega a atingir 0,54 euro por minuto, está entre os mais elevados do mundo. No Brasil, a console Xbox (Microsoft) se vende mais caro que em qualquer outro país.

Carros e eletrodomésticos custam pelo menos 50% mais do que na maioria dos outros países. Para pequenos objetos de uso diário, como aparelhos de barbear e brinquedos, a diferença é às vezes maior ainda.

A agência de viagens virtual TripAdvisor indica que 24 horas em São Paulo ou no Rio de Janeiro custam mais que uma noite em Londres ou em Zurique. Sem falar no período da «Copa das copas» evidentemente.

The Economist, respeitada publicação britânica que bolou o divertido índice BigMac, posiciona o sanduíche brasileiro no alto de sua escala de preços, apenas precedido pela Noruega e pela Suíça.Caixa registradora 2

O articulista dá outros exemplos de aberrante disparidade entre preços e salários tupiniquins. Na origem dessas deformidades, Bourcier menciona o «custo Brasil» ― noção que, inexistente na Europa, tem de ser explicada. Aponta ainda as promessas nunca cumpridas de reformas estruturais. Fala do peso sufocante da fiscalidade direta e, principalmente, indireta.

A corrupção não passa despercebida ― como poderia?

O fecho do artigo é a lembrança de que, em 2010, Steve Jobs se havia recusado a abrir uma loja no Rio. A razão alegada, à época, era a política fiscal, julgada «excessiva». Hoje, a loja Apple está de portas escancaradas. Os impostos não mudaram, mas os preços, enormemente.

Para ler o original (em francês), clique aqui.

Mudança climática?

José Horta Manzano

Você sabia?

A Suíça conheceu seu terceiro inverno mais quente dos últimos 150 anos. Somente o inverno de 2006/2007 e o de 1989/90 foram mais suaves que este que se termina.

Em Genebra, tirando um curto instante na manhã de 29 de janeiro, não nevou este inverno. Em Neuchâtel, outra cidade suíça, não caiu nem um floco. As cercanias da cidade de Basileia não conheceram nenhum episódio de geada sobre o leito das estradas ― fenômeno perigoso, que pode provocar derrapagens. Fazia 150 anos que isso não acontecia.

Lago de Lungern, Cantão de Obwald Paisagem habitual no inverno Crédito: Walter Ming-Isaak

Lago de Lungern, Cantão de Obwald
Paisagem habitual no inverno
Crédito: Walter Ming-Isaak

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Lago de Lungern, Cantão Obwald 23 janeiro 2014 Crédito: Sigi Tischler, Keystone

Lago de Lungern, Cantão Obwald
Foto de 23 janeiro 2014
Crédito: Sigi Tischler, Keystone

Enquanto isso, leio que o Sul e o Sudeste brasileiro sofreram longas semanas sob calor sevilhano e secura namíbica.

Deve ser efeito da mudança climática que estamos atravessando.

O «escândalo» das camisetas

José Horta Manzano

Nosso governo acaba de escorregar numa imensa casca de banana. Talvez tenha sido o «politicamente correto» aplicado com exagerado rigor.

No entanto, pensando mais a fundo, pode-se até imaginar que tenha sido manobra de marketing para redirecionar holofotes. Quanto mais eles estiverem voltados para assuntos sem importância, menos risco haverá de focalizarem descalabros governamentais.

Falo das camisetas postas à venda por uma grande firma internacional de artigos esportivos, camisetas essas que o Planalto, num surto de pudicícia, considerou ofensivas.

O presente caso, como tantos outros, é daqueles que, quanto mais se mexe, mais fedem. Se nosso governo tivesse mantido seu sangue frio, as camisetas ― de estampa mais idiota que ofensiva ― teriam passado despercebidas.

No entanto, os peritos em comunicação que assessoram o governo viram lá uma excelente oportunidade para desviar, durante o tempo que for possível, o foco das atenções.

Camiseta da discórdia

Camiseta da discórdia – clique para ler artigo

A fórmula é simples. Dá-se ao mundo conhecimento do assunto. O casto governo brasileiro e sua pudibunda presidente mostram-se escandalizados e profundamente ofendidos. Em seguida, os comentários planetários vão-se dividir entre os que apoiam a indignação do Brasil e os que não lhe dão importância. Enquanto se engalfinham os prós e os contras, o Planalto goza de uns dois ou três dias de alívio. Os problemas maiores continuam existindo, mas a vergonha da vez é atirada sobre terceiros. A pressão se arrefece.

O estratagema deu certo. Os jornais falados da rádio francesa de informação 24 horas por dia abriram o noticiário desta quinta-feira com a notícia da indignação de dona Dilma. Mencionaram até um vago ministério de defesa dos desprotegidos, algo assim. De dar dó no coração.

Essa manobra põe o Planalto na situação de vítima. Convenhamos, é sempre posição simpática. Melhor ser mártir que ser apontado como autoritário, repressor, intervencionista.

by Alberto Correia de Alpino F° desenhista capixaba

by Alberto Correia de Alpino F°
desenhista capixaba

Só tem uma coisa: esqueceram de combinar com os russos. Adidas, a multinacional de origem alemã que fabrica as maliciosas camisetas, ganhou publicidade planetária sem desembolsar um centavo.

Os dirigentes da portentosa empresa bem que podiam usar o fruto dessa alavancada em suas vendas para mostrar agradecimento ao governo brasileiro. Vaquinhas para prisioneiros e doações a partidos estão na moda. Custam pouco e podem trazer bom retorno.

Quem bebe soviete não repete

Fernão Lara Mesquita (*)

Segundo dona Dilma, «Os casos da Venezuela e da Ucrânia são absolutamente díspares».

GrapetteSem dúvida nenhuma.

A Venezuela quer sair de qualquer jeito de onde a Ucrânia já esteve e a Ucrânia não quer voltar de jeito nenhum para onde a Venezuela está, nem por todas as «conquistas sociais» do bolivarianismo que fazem a nossa presidente continuar hesitando no meio do tiroteio e dos corpos caindo. Conquistas multiplicadas por mil.

Vamos esperar que ela não dê uma de Vladimir Putin escondendo o Yanucovitch dos venezuelanos quando o povo de lá se livrar dele.

(*) Fernão Lara Mesquita é jornalista. Edita o site http://vespeiro.com/

Palmas pra ela

José Horta Manzano

«(…) Vocês podem tentar criar qualquer conflito ou qualquer barulho ou ruído entre mim e o presidente Lula, que vocês não vão conseguir.»

Dilma Rousseff, por ocasião da entrevista coletiva concedida em Bruxelas dia 24 fev° 2014.

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Entre mim e ele? Concordo que soa muito estranho, mas assim é.

Bandeira Brasil UEQuanto ao mais, com sua habitual falta de tacto, Dona Dilma misturou estações. Confundiu Cúpula UE-Brasil ― reunião de elevado nível ― com debate na OMC, onde não costumam discursar chefes de Estado. Soltou os cachorros no lugar inadequado e na hora indevida. Chorou pitangas para auditório que esperava outra coisa.

Chegado o momento da coletiva, a plateia de repórteres já temia o pior. Todos já se perguntavam se a presidente usaria martelo, marreta ou britadeira para acariciar a língua portuguesa.

Para surpresa geral, ela encaçapou a bola sete. Ninguém esperava, sejamos honestos. É raríssimo ouvir seja quem for dizer «entre mim e ele». Pois está corretíssimo, acreditem. É uma questão de coerência gramatical.

As preposições pedem pronome na forma oblíqua. Vejam só:

Interligne vertical 12Dirigiu-se a mim.
Chegou antes de mim.
Veio até mim.
Testemunhou contra mim,
Não espere nada de mim.
Causou forte impressão em mim.
Para mim, não vale nada.
Manteve o respeito perante mim.
Por mim, está tudo bem.
sem mim, que fico por aqui.
Discutiam sobre mim.

Por que, diabos, somente a preposição «entre» escaparia à regra geral? Pois não escapa, ensina a norma culta. Entre mim e ele, sim, senhor. Quer mais inusitado ainda? Veja só: entre ele e mim. Gramaticalmente correto, sim, senhora.

Voltando à fala da presidente, há um ditado francês que diz que une fois n’est pas coutume ― um raro acerto aqui ou ali não significa que ela acerte sempre.

Desta vez, acertou. Pela singularidade do ato, sugiro uma salva de palmas pra ela. Clap, clap.

Razão dá-se a quem tem. Mas… que ninguém se engane. O malho não se aposentou. Está apenas de férias e pode voltar a qualquer momento.Interligne 18c

Se você ainda duvidar da redenção presidencial, comprove aqui:
O Globo
Jornal do Brasil
Valor Econômico
Folha de São Paulo