Continha de fração

José Horta Manzano

Como acontece a cada quatro anos, a Copa do Mundo de Futebol traz alegrias, traz decepções, mas traz também um punhado de espantos, de situações embaraçosas ou cômicas.

Estava ouvindo um analista esportivo explicar que o Brasil entrava agora na segunda fase, colocado entre as 32 melhores seleções. Antes era fácil. Depois da fase de grupos, passava-se à fase do mata-mata, de eliminação direta, composta por 16 times. Dizíamos que eram as oitavas de final. Mas agora, com 32 seleções, como se chama?

O analista enrolou a língua na boca, torceu um pouco o nariz como quem não acredita no que vai dizer, e lançou: fase de 16 avos de final, é isso?

Pois sim, prezado analista, é isso mesmo. Vale dar uma repassada na lição de Dona Yolanda, lá no curso primário.

Até o 10, é fácil: usa-se o número ordinal.

  • 1/8 = um oitavo,
  • 3/9 = três nonos,
  • 4/10 = quatro décimos.

A partir do 11, é mais fácil ainda: usa-se o número cardinal com a partícula avos. Assim:

  • 1/11 = um onze avos,
  • 6/16 = seis dezeseis avos,
  • 3/25 = três vinte e cinco avos,
  • 4/50 = quatro cinquenta avos

e assim por diante. Passando por 1/100 = cem avos (que, na moeda, abreviamos em “centavos”).

Nesta Copa de 48 participantes, vamos ter a fase dos 16 avos de final. Para a próxima, se Dona Fifa decidir que é mais lucrativo (para ela) aumentar para 72 ou 96 nações, teremos a fase dos 32 avos de final.

De qualquer modo, o Brasil ganha todas, não é mesmo? Onde está o problema?

Burocracia

José Horta Manzano

É voz corrente que a burocracia brasileira é pesada. Carimbos, firmas reconhecidas, atestados, certificados e quejandos tornam ainda mais complicado o dia a dia do cidadão.Burocracia

Eu me pergunto, contudo, se esses entraves não seriam a essência, o espírito de nosso povo: desconfiado, minucioso, cheio de pormenores. Todo o mundo é considerado suspeito até que prove o contrário.

Ainda agora, estava lendo um artigo interessante de Bianca Pinto Lima publicado no Estadão deste 6 de março. A articulista lança um alerta aos que estão a ponto de declarar sua renda ao fisco. Lembra aos declarantes que certos erros primários e fáceis de evitar podem trazer consequências pra lá de desagradáveis.

Em seguida, o artigo discorre sobre limites, montantes admitidos, porcentagens, minúcias. Fiquei surpreso com um rigor detalhista ao qual não estou habituado.

by Serguêi Túnin, desenhista russo

by Serguêi Túnin, desenhista russo

Despesas com educação permitem abatimento de até 3’230,46 reais. Empregado doméstico dá ao patrão o direito de deduzir 1’078,08 reais de sua renda tributável. Cada dependente propicia franquia de 2’063,64 reais. Por que tamanha precisão? Por que 46 centavos aqui, 8 ali, 64 acolá?

Peço desculpa pela franqueza: muito mais do que exatidão, isso é burrice. Alguém já fez a conta dos minutos perdidos pelo declarante entre escrever e calcular os 8 centavos aqui e os 46 ali? Alguém já multiplicou esses minutos pelos milhões de declarações preenchidas a cada ano? Alguém já calculou o desperdício de tempo e de energia que isso acarreta ao País? Sem contar o risco de erro que, reforçado, acaba penalizando inocentes.

É simples remediar. Que se comece por desprezar os centavos nas declarações. Que se fixem montantes e deduções arredondadas. Nada de centavos. Se possível, que terminem em 10, 20, 30. Melhor ainda se terminarem em centenas redondas.

No nosso exemplo, os abatimentos ficariam assim:

Interligne vertical 10Educação = 3’200 reais
Empregado doméstico = 1’100 reais
Dependente = 2’100 reais

Não fica mais fácil? O que se perde aqui, ganha-se ali. Por que complicar? Um tijolinho cá, outro lá, um dia a casa fica pronta.

Deixo aqui a sugestão. Se algum de meus distintos leitores for um chegado do doutor Leão, que nos faça o obséquio de dar-lhe um toque. De leve, porque leão, como sabemos todos, é animal irracional.