Complemento ao post anterior

José Horta Manzano

Em sua coluna do jornal O Globo de 12 fev° 2022, a jornalista Bela Megale relata o que ouviu de funcionários do Itamaraty:

“[…] um dos principais focos da viagem é discutir uma cooperação de tecnologia militar entre os governos brasileiro e russo e que, por isso, a comitiva será formada majoritariamente por militares”.

O bom senso ensina que espionagem, em nível de Estado, é tecnologia militar. Logo…

Esse esclarecimento vem reforçar a ideia que expus no post A razão da visita de Bolsonaro.

A razão da visita de Bolsonaro

José Horta Manzano

Parece que está esclarecida a disparidade de dimensões entre, de um lado, a mesinha de chá que punha Putin a meio metro de distância do argentino Fernández, e, de outro, a mesona de mármore que mantinha 6 metros de distância entre o russo e o francês Macron.

Segundo o próprio Kremlin, a razão é sanitária. Visto que Emmanuel Macron se recusou a passar pelos testes de detecção de covid exigidos pelo hospedeiro, este impôs distância física entre os dois. Vladímir Putin afasta todo risco a sua excelsa pessoa. Ameaçar vizinho de bombardeio pode (veja a Ucrânia), mas respirar bafo de colega não testado não pode.

Bolsonaro está de partida para Moscou. Agora, que as redes sociais já começam a estranhar a insistência do capitão em fazer essa viagem justo agora, quando o mundo faz novena pra evitar uma guerra na região, está começando a ficar realmente esquisito.

O presidente não é conhecido por ser homem corajoso. No dia a dia, vive transferindo as próprias culpas a terceiros e, quando obrigado a aparecer em público, vem regularmente escorado atrás de uma legião de seguranças. Se ele se expõe a atravessar uma região em conflito e passar uns dias nos gelos russos, com o risco de ser alvejado por um míssil, alguma razão muito forte haverá. Qual será?

Nem o Kremlin nem o Planalto vão confirmar. Resta conjecturar. Não custa nada, vamos lá.

O distinto leitor já há de ter ouvido falar em Pegasus, um spyware israelense de excepcional desempenho, capaz de se infiltrar em qualquer telefone celular e realizar tarefas de roubo de dados e monitoramento de voz. Meses atrás, fiquei sabendo que um dos bolsonarinhos, aquele que é deputado federal, estava interessadíssimo em adquirir a tecnologia. O objetivo evidente era espionar adversários, desafetos, ministros do STF, parlamentares da oposição, líderes de associações, ONGs e quetais. Talvez tenha sido essa uma das razões da viagem que uma alentada comitiva do Planalto fez a Tel Aviv meses atrás. O motivo declarado era buscar um spray nasal contra a covid, mas essa alegação podia ser mera cobertura.

Por mais que apreciem o clã Bolsonaro, os israelenses não são bobos. Sabem que, dentro em breve, serão todos varridos para a lata de lixo da história. Em resumo: não vão se comprometer vendendo tecnologia tão sensível a gente tão pouco estável – e nada confiável. Acredito que o negócio tenha dado chabu.

Por trás da visita “de cortesia” a Putin, o capitão pode estar com alguma ideia desse tipo. Embora a Rússia não tenha nunca admitido, o mundo ficou sabendo da insidiosa interferência de Moscou quando da corrida presidencial americana que elegeu Donald Trump. Interferência, se houve, foi muito benfeita. Tanto que, até hoje, todos desconfiam, mas ninguém foi capaz de comprovar.

Essa poderia ser a razão que está levando o capitão a procurar comprar ajuda russa para lhe dar uma mãozinha na tentativa de reeleição. Comprar ajuda russa com nosso dinheiro, saliente-se. Diante de uma reeleição quase impossível, ele há de estar apelando para todos os santos.

Depois de ter orgulhosamente anunciado ao mundo todo que não estava vacinado e que não pretendia vacinar-se, Bolsonaro está agora em situação delicada. Putin foge da covid como da peste. Para se aproximar dele, todo convidado tem de passar por meia dúzia de testes consecutivos, ainda que esteja vacinado. Como é que as coisas vão se desenrolar?

Macron, que está vacinado com três doses, recusou-se a passar pelos testes. Receia que seu ADN seja coletado pelo Kremlin para fazer sabe-se lá o quê. Como vai reagir Bolsonaro? Vai passar pela humilhação dos testes? Acho que será obrigado, se não Putin não o receberá nem com mesa de 6 metros. E quanto à ajuda que está buscando, vai conseguir? Teremos interferência russa nas eleições de outubro?

Tenho cá minha ideia. Não é porque Bolsonaro voou até Moscou que ele será agraciado com ajuda russa para reeleger-se. Acho que Putin, que pode não ser grande amigo da democracia mas bobo não é, vai recusar. Não vejo que interesse ele teria em ter o capitão por mais quatro anos no Planalto. Mais interessante para Moscou é ter em Brasília um amigo da Venezuela, que é atualmente afilhada da Rússia.

E o distinto leitor sabe qual dos candidatos à Presidência do Brasil é o mais próximo de Caracas, pois não?

Monark e Caloi

José Horta Manzano


Na minha adolescência, duas marcas de bicicleta disputavam o mercado brasileiro: a Monark e a Caloi.


A Monark, mais prestigiosa, era de origem sueca. Nos primeiros anos, era importada. Mais tarde, os veículos passaram a ser fabricados no Brasil. No ano de 1956, a matriz sueca contava com 2500 funcionários, enquanto a filial brasileira já dava emprego a 1000 pessoas, o que mostra a importância da marca no Brasil. Alguns anos mais tarde, a Monark brasileira gritou seu “Independência ou Morte” e passou a seguir caminho próprio. Hoje, as duas versões coexistem: tanto a Monark sueca quanto a brasileira continuam fabricando bicicletas.

Caloi era a outra marca de bicicleta. Seus primeiros anos foram semelhantes aos da concorrente. O imigrante italiano Luigi Caloi começou importando bicicletas italianas. Um negócio cômodo, que não dava dor de cabeça nem exigia grande investimento. Mas chegou a Segunda Guerra, e a fonte secou. Dedicada integralmente à indústria bélica, a Itália parou de exportar bicicletas. Para continuar vendendo, Signor Caloi foi obrigado a montar, às carreiras, uma fábrica nacional. Assim nasceu a Caloi genuinamente tupiniquim.

Agora, vamos à hora da saudade. Durante toda a infância e a adolescência, minha preferida – hoje se diria meu “sonho de consumo” – foi uma Monark. Papai Noel andava meio apertado naquele tempo. A bicicleta só chegou aos 16 anos, quando o sonho já tinha evaporado. Décadas mais tarde, por um desses acasos que a vida nos reserva, cheguei a conhecer a viúva do fundador da fábrica, uma senhora magrinha e já bem velhinha. Todo o mundo a chamava de Dona Caloi. Fim da hora da saudade.

Dia desses, um retardado com nome de bicicleta apoiou, numa laive na internet, a criação de um partido nazista. Acho que não preciso dar aqui detalhes, que o Brasil inteiro ficou sabendo da história. Se faltasse uma prova, está aí a demonstração que os ditos “influenciadores” (que pretensão!) do povão não passam de ignorantes. Os seguidores agem como bando de cegos guiado por caolho.

Com a petulância que só a ignorância lhe permite, o rapaz sustentou sua tese, mostrando desconhecer a História. Na sua cabecinha vazia, nazismo é uma doutrina como qualquer outra. Não é. O nazismo tem um defeito de nascença, que o torna incompatível com o mundo civilizado. Preto no branco, seu programa afirma o objetivo de promover a superioridade da “raça” ariana (em cujos cânones, aliás – cabelos loiros e olhos azuis – o tal influenciador parece não se encaixar). Paralelamente, essa malfadada doutrina põe como objetivo exterminar fisicamente judeus, ciganos, homossexuais e todos aqueles que se opuserem a ela.

Essas diretivas já estavam, aliás, explicitadas no livro Mein Kampf (Meu Combate), que Adolf Hitler escreveu em 1925. Orientais, pretos e índios não são mencionados simplesmente porque, quando a doutrina foi elaborada, não estavam presentes em número significativo em solo europeu. Nazismo é ideologia que, já na cartilha do partido, prega o genocídio – postura proibida por nossa Constituição.

Portanto, que um infeliz “influenciador” não concorde com os termos de nossa Constituição, é problema interno dele. Pode gostar ou deixar de gostar, assim como gosta de costela de porco e detesta sorvete. Pode até comentar numa rodinha de amigos na intimidade de seu chatô. Só não tem o direito de propagar suas ideias em praça pública, comportamento agravado, aliás, pelo fato de ser “influenciador”.

Em matéria de conselhos tortos, quanto maior for a audiência, maior será a culpa de quem os dá. Em nosso país, toda pregação contra os preceitos da Constituição é crime. As queixas-crime que tramitam contra o capitão o demonstram.

Bolsonaro não teve outra opção se não repudiar a fala do rapaz com nome de bicicleta. Só que, mesmo sendo menos “influenciador” que o rapaz ignorante, mostrou ser tão (ou mais) ignorante que ele. Aproveitando o embalo, repudiou também o comunismo, sua obsessão, alegando ser “doutrina que prega o antissemitismo”(sic).

Como é que é? O comunismo prega o antissemitismo? ¡Vaya ignorancia!, como diriam os espanhóis. Quanta ignorância! O capitão precisa urgentemente ler duas linhas sobre o assunto. Vale até a Wikipédia, que, pra ele, já está de bom tamanho. É pra não soltar tanta asneira em público. Acaba pegando mal.

E se alguns daqueles dez ou doze porcento de eleitores que (ainda) o apoiam forem menos ignorantes que ele e souberem que a doutrina comunista, teorizada pelo judeu Karl Marx, não prega o antissemitismo? Vão corar de vergonha? Ou a devoção ao mito do “mito” vai sobrepujar?

The lottery

José Horta Manzano

Faz alguns anos, o prêmio acumulado da Loteria Nacional Britânica estava pelas alturas. O ganho máximo seria de quase 58 milhões de libras, o que equivale atualmente a mais de 400 milhões de reais. O país estava em frenesi, os cidadãos fazendo fila, cada um querendo fazer sua fezinha. Uma loucura.

Um jornal publicou então um artigo desmancha-prazeres. De modo sádico, calculou que as chances de um apostador acertar na cabeça era de 1 em 45 milhões. Já começa a dar desânimo, mas o artigo não parou por aí. Comparou a probabilidade de ganhar o grande prêmio com a chance de sobrevirem outros acontecimentos raríssimos. Por exemplo.

  • Um cidadão tem maior probabilidade de ser atingido por uma peça desprendida de um avião (1 em 10 milhões) do que de acertar todos os números.
  • O risco de um canhoto sofrer um acidente fatal por ter utilizado mal um aparelho concebido para destros é de 1 em 4,4 milhões.
  • Ser atingido por um meteoro é muitíssimo mais provável do que ganhar na loteria: 1 probabilidade em 700 mil.
  • Ser eletrocutado por um raio e morrer é quatro vezes mais provável que acertar o prêmio grande (1 em 10 milhões).
  • Esta é pior: qualquer um de nós tem mais risco de morrer de infecção bacteriana do que ganhar na loteria (1 em 1 milhão).
  • Dar à luz quadrigêmeos idênticos também é mais provável do que acertar todas as dezenas (1 em 13 milhões).

Parece que até a chance de ganhar o Oscar é maior do que tirar a sorte grande. Só que, para chegar lá, é aconselhado estrelar primeiro um filme.

Línguas lusófonas

Chamada da Folha de São Paulo, 9 fev° 2022

José Horta Manzano

A Europa abriga grandes famílias linguísticas. Há as línguas latinas, as germânicas, as eslavas. As latinas também podem ser chamadas neolatinas, romances ou românicas.

Com toda sinceridade, é a primeira vez que ouço falar em “línguas lusófonas”. Suponho que a língua portuguesa entre nessa curiosa categoria. Quais seriam as outras? Ou será que o jornal já dá de barato que o português e o brasileiro são línguas diferentes?

Em tempo
O adjetivo lusófono define o indivíduo que fala português. A língua propriamente dita, não se deve dizer que é “lusófona”, mas lusa.

Bolsonaro visita o tsar de todas as Rússias

José Horta Manzano

Não é a primeira vez que falo deste assunto, que me deixa bastante inquieto. Tenho a impressão de que a imprensa brasileira tem passado ao largo do desastre que está se preparando. Parecem todos mais preocupados com a ‘jequiata’ que Bolsonaro planeja do que com a ‘burrata’ que está prestes a cometer.

Imagine o distinto leitor que o Dalai Lama fizesse uma visita ao Principado de Mônaco. Ou que o papa Francisco desse um pulinho a Andorra. Um conversaria com o príncipe, o outro se encontraria com o chefe do governo. Conversariam amenidades, trocariam presentes, dariam passeio em carro aberto, escutariam coral de crianças agitando bandeirinhas. E pronto. Terminado o passeio, cada um voltaria pra casa. E a Terra não pararia de girar.

Fim de semana que vem, Bolsonaro embarca para uma visitinha dita ‘de cortesia’ à Rússia. Não é fácil explicar a razão pela qual os personagens mais vistosos a acompanhar o presidente – além dos intérpretes, evidentemente – serão Mário Frias, secretário de Cultura, e o “capitão Cultura”, um senhor que fiscaliza a Lei Rouanet. Vão aprender como montar uma companhia de dançarinos cossacos? Como de costume, a comitiva presidencial deverá ser rechonchuda, com dezenas de autoridades, convidados, xeretas e penetras.

Alguém precisa urgentemente contar ao capitão que a Rússia não é Mônaco nem Andorra. Uma visita desse quilate não passa despercebida. Tem significados, nem sempre aparentes, aos quais ele não parece estar dando a devida importância.

Pra começar, Jair Bolsonaro e Vladímir Putin não hão de ter grande coisa a conversar. O capitão não deve entender lhufas de política interna russa. Nunca deve ter ouvido falar no mundialmente conhecido Alexei Navalny, oponente e atual prisioneiro político, que foi vítima de tentativa de assassinato da qual escapou penosamente depois de meses de tratamento na Alemanha. Novichok, o veneno de que foi vítima, não se compra na farmácia da esquina. É substância desenvolvida pela indústria militar russa. Donde se conclui que a ordem de eliminá-lo partiu do chefe de Estado. Gente fina.

Menos ainda deve nosso capitão entender do problema entre a Rússia e a vizinha Ucrânia. Com boa vontade, admito que já tenha ouvido falar da União Soviética, que finou 30 anos atrás. Mas não deve estar a par da importância que a Ucrânia representa para os russos, considerada por estes o berço da civilização nacional. Não deve ter a menor ideia de que, nas fronteiras russas, se prepara um afrontamento entre Rússia e Otan. (Estou supondo que saiba o que é a Otan, mas não tenho muita certeza.)

Essa visitinha presidencial me lembra aquela que o Lula fez, acompanhado de alentada comitiva, ao Oriente Médio. Tinha na cabeça uma ideia ambiciosa e genial: resolver a questão palestina, nada menos que isso. Imaginou que, com um jogo de futebol entre os adversários, tudo se resolveria. Santa ingenuidade! Deu tudo errado e ele teve de voltar com o rabo entre as pernas, quase escorraçado como inhambu em festa de jacu. Humilhação total. Nunca mais se falou no assunto.

Lula, o messias de Garanhuns, tinha a pretensão de salvar o mundo, mas faltava-lhe instrução e capacidade. Bolsonaro apesar de ser Messias de nome, é bobão. O momento é de quase-guerra entre Rússia e Ucrânia. Se não for para tratar de apaziguar os ânimos, o momento é péssimo pra qualquer visita, seja ela de cortesia ou de negócios. Quem não for lá pra ajudar só vai atrapalhar.

A visita de Bolsonaro a Putin (a versão 2.0 do tsar de todas as Rússias) não trará nada de bom para nosso país. Vejamos por quê:

• Uma viagem dessas implica logística complexa e custa os olhos da cara. Se não tiver um objetivo útil para o Brasil, é dinheiro jogado fora.

• A Rússia, que já é cliente dos frigoríficos brasileiros, não vai comprar nem um bife a mais.

• A Ucrânia, país que contribuiu para a formação do Brasil com mais imigrantes que a Rússia, vai ficar muito desagradada. Por que Bolsonaro visita Moscou, mas ignora Kiev? Não é inteligente indispor-se com um mercado de quase 45 milhões de consumidores.

• A União Europeia, que tem envidado esforços para garantir a paz na região, vai se sentir contrariada. Não convém indispor-se com a UE assim, sem nada, sem motivo válido, num momento de tanta tensão.

Os EUA já rogaram a Bolsonaro que desista da viagem. Nosso aliado tradicional são os Estados Unidos, não a Rússia. Isto aqui não é a Venezuela – Bolsonaro está confuso.

Já que ele bate o pé, me resta dar-lhe um conselho de bom samaritano.

Capitão, procure não repetir o vexame de Nova York, quando vosmicê e seus badalos se deixaram fotografar comendo pizza na calçada. E com as mãos! É verdade que, de quem come farofa com as mãos, tudo se pode esperar.

Mas olhe que em Moscou faz muito frio nesta época do ano. Quem, como vosmicê, está a caminho dos 70 anos e passou recentemente por meia dúzia de cirurgias devia evitar apanhar resfriado. Pode dar complicação. Se acontecer, não são seus seguranças nem o Centrão que vão acudir.

A sala de visitas de Putin

José Horta Manzano

Em diversos países da Europa, o uso comercial da expressão “saldos” é protegida. Isso quer dizer que toda venda de saldos é regulamentada. A palavra não pode ser usada por qualquer comerciante, pra vender qualquer tipo de mercadoria, a qualquer preço, em qualquer época do ano. Só pode ser usada durante a época fixada pelas autoridades que regulam o comércio. Nem antes, nem depois. Isso lhe agrega valor. A época dos saldos é aguardada ansiosamente.

O período dos saldos é especialmente apreciado por comerciantes de roupas. E por seus clientes, naturalmente. É que o comércio de peças de vestuário, além de sazonal, é sujeito às variações da moda. Os saldos são autorizados durante algumas semanas em janeiro (para liquidar o estoque encalhado de roupas de inverno) e, de novo, em julho (para o vestuário de verão).

Conforme o país, as vendas especiais duram de 3 a 4 semanas, às vezes até mais. Os primeiros dias têm o efeito de uma sexta-feira negra (em português: black Friday). Antes da abertura das lojas, já tem gente encostada à porta. Comerciantes que não trabalham com vestuário também aproveitam o embalo pra fazer caixa, vendendo alguns de seus artigos a preço de pechincha.

Quinta-feira passada, Señor Alberto Fernández, presidente da Argentina, esteve de visita a Vladímir Putin, em Moscou. Na foto, entre os dois dirigentes, aparece uma mesinha dessas que se usam pra pousar uma xícara de chá e, se der, pra ajeitar um pratinho (pequeno) para o bolo. Na mesinha que separava os dois, de tão minúscula, acho que nem bolo ia caber.

Terminada a visita, chegou o fim de semana. Vladímir Putin, que não tem o hábito de ir à feira comer frango com farofa, deve ter inventado outro programa. A agenda do dirigente russo não confirma, mas é possível que ele tenha aproveitado a folga pra dar uma espiada nos saldos de alguma loja de móveis. Não conheço os costumes locais, mas pode ser que os saldos de Moscou se estendam até fevereiro.

O fato é que, na segunda-feira 7, Monsieur Emmanuel Macron veio visitá-lo. A exígua mesinha de chá tinha desaparecido. Não se sabe onde foi comprada nem quanto custou a mesa ao redor da qual se sentaram Macron e Putin, mas, convenhamos, ela é im-pres-sio-nan-te!

Daqui a alguns dias, será a vez de nosso capitão fazer sua peregrinaçãozinha nas neves moscovitas. Vamos ver qual das duas mesas sairá na foto. A mini de chá ou a XXL dos saldos? A conferir.

Em tempo
Quem lê jornais em vez de ficar mergulhado na bolha sabe que a Rússia e a Ucrânia estão em pé de guerra. Putin encostou na fronteira com a Ucrânia um contingente militar de assustar. Fotos de satélite avaliam que cem mil homens estão ali, à espera da ordem de atacar. Um tiro de chumbinho na hora errada pode ser suficiente pra assustar todo o mundo e desencadear uma carnificina.

Macron, que bobo não é, entendeu a fragilidade da situação. Numa hora dessas, visitar um e ignorar o outro significa automaticamente que se tomou partido na briga. É exatamente o que Macron, a França e a Europa querem evitar. Nesta terça-feira, terminada a visita a Moscou, o presidente francês está em Kiev para uma conversa com o presidente ucraniano, Zelensky – que, por coincidência, também é Vladimir (ou Volodímir, como dizem eles). Se o encontro vai evitar a guerra, só o futuro dirá. Mas, pelo menos, Macron guardará o mérito de haver tentado.

Nosso capitão, que bobo é, vai se meter onde não foi chamado. O infeliz não consegue entender o frágil e o delicado da situação. Com os dois a ponto de se morderem mutuamente a orelha, lá vai o paspalhão visitar um dos contendores, ignorando o outro. Em linguagem diplomática, que é entendida por todos os governos do planeta, essa visita significa alinhamento com um dos beligerantes. Uma imensa estupidez para um Brasil que não tem nada a ver com aquele peixe. Não temos nada a ganhar com essa demonstração explícita de preferência por um dos lados.

A visita unilateral de Bolsonaro vai acrescentar agressão gratuita e desnecessária a mais um povo. O gesto será somado à longa lista das afrontas que já fizeram, ele e seu clã, aos EUA, à França, à Itália, à Alemanha, à Noruega, à Argentina, ao Chile, ao Peru. E, naturalmente, à China, vítima preferencial de suas ofensas de babaca boca-suja.

Ucrânia, seja bem-vinda ao clube! Sinta-se honrada! Amigo do capitão bom sujeito não é.

Brasil extraviado

José Horta Manzano

Saudades do tempo em que o Brasil atraía imigrantes em busca de recomeçar a vida num país pacífico e de futuro.

Saudades do tempo em que a simples menção do nome “Brasil” evocava imagens de gente feliz, sorridente, acolhedora, alegre, prestativa, solidária, dançante.

Saudades do tempo em que o mundo nos olhava com respeito e uma ponta de inveja.

O Brasil se extraviou. Os novos tempos são anunciados diariamente, ao mundo todo, em todas as línguas. Aqui está o exemplo mais recente.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

In the subway

José Horta Manzano

Um estudo levado a cabo anos atrás por biólogos da Universidade do Colorado constatou que o ar que se respira nos labirintos subterrâneos do metrô nova-iorquino não é lá essas coisas. Imagino que a conclusão possa ser estendida a todos os sistemas de metrô do planeta.

Apesar da ventilação forçada e dos filtros, cerca de 15% das amostras de ar colhidas nas plataformas é constituída de… pele.

Os cientistas decidiram investigar mais a fundo para conhecer a proveniência exata dessa pelanca toda. Descobriram que a maior parte provinha da cabeça e da sola dos sapatos dos viajantes. Além disso, uns 12% da pele provinha de outras zonas do corpo: do umbigo, do ouvido, das axilas e do bum-bum.

Bon voyage! Have a nice trip!

Muro da USP

José Horta Manzano

“O Brasil tornou-se um purgatório” – diz um amigo meu. Não tenho como contradizê-lo. Crimes e delitos (que alguns preferem chamar ‘malfeitos’) se tornaram tão corriqueiros, que a gente passa reto, sem se dar conta, como se a vida fosse assim mesmo.

Alguns anos atrás, foi construído um belíssimo muro de painéis de vidro transparente para substituir o antigo muro de concreto que separava a Universidade de São Paulo do mundo exterior. Segundo palavras do próprio reitor, a intenção era “integrar a USP na paisagem urbana”. A substituição do antigo pelo novo faria o efeito da derrubada de um simbólico “Muro de Berlim”.

O primeiro trecho, inaugurado há quatro anos, isolava a raia olímpica da ultramovimentada e superbarulhenta autoestrada urbana (dita marginal), que margeia o Rio Pinheiros. Feito parcialmente com doações, deve ter custado caro. Mas ficou bonito que só.

Bonito até demais aos olhos cavernosos dos neandertais que se multiplicam entre nós e que aceitamos que circulem soltos e que convivam com a parte civilizada da sociedade. Nem bem inaugurado esse primeiro trecho, o vandalismo gratuito mostrou sua face primitiva.

Um dia, um dos painéis amanheceu estilhaçado. Noutro dia, foi um segundo. A ação foi sempre noturna, que a covardia não permite fazer esse tipo de coisa à luz do sol. A derrubada continuou dia após dia, diante da inação complacente e quase cúmplice de todos. Não sobrou nada.

Nenhuma ação preventiva foi tomada pelas forças policiais, que são, afinal de contas, as autoridades encarregadas de defender a população e o bem público. Em terra de bandido, quem é que liga pra um vidro quebrado, não é mesmo?

Sob essa luz, dá pra entender a chamada da Folha, que aparece na entrada deste artigo. O jornalista, em tom de reclamação, constata que “os vidros continuam quebrados após 4 anos da inauguração”.

Num país normal, antes de pensar em consertar (ou em refazer inteiramente o trabalho, como é o caso), a população se preocuparia em descobrir quem cometeu esse crime contra o patrimônio de todos. Crime ou “malfeito”, como preferirem.

De fato, enquanto os autores estiverem correndo soltos por aí, será perda de tempo, de esforço e de dinheiro refazer o trabalho destruído. Antes, é preciso identificar e tirar de circulação os causadores do estrago; só depois é que se pode pensar em reconstruir.

Como era

O problema é que a selvageria se instalou de modo tão enraizado em nossas mentes, que já ninguém se dá conta da enormidade de uma ocorrência como a destruição voluntária desse muro. Fatos assim são admitidos e digeridos como se fossem parte integrante de nosso atual estágio de civilização. Não são. Isso é obra de criminosos. A desigualdade social e a carestia não levam hordas de famintos a levantar de madrugada pra destruir paredes de vidro. Não paga a pena. Saquear um supermercado daria mais futuro.

Além de estarmos nos acostumando com a baixaria onipresente (obrigado, capitão!), estamos banalizando e aceitando o crime. Isso é perigoso e pode terminar mal.

Salve-se quem puder

José Horta Manzano

Quando este blogueiro ainda frequentava as carteiras da escola, em mil novecentos e antigamente, havia muitos estrangeiros no Brasil. Era gente vinda de muitos horizontes. Me lembro que a imensa maioria de meus colegas era composta por descendentes de estrangeiros chegados recentemente. Brasileiros quatrocentões, havia poucos.

Entre os colegas, havia filhos e netos de imigrantes. Cheguei até a ter um colega de ginásio, de quem tenho notícias até hoje, que tinha nascido no exterior, fato menos corriqueiro. Havia sírio-libaneses, judeus da Europa oriental, portugueses, italianos, alemães, suíços, franceses, japoneses. Muitos eram perfeitamente bilíngues; na escola, falavam como todos nós, mas em casa falavam outra língua. Vindo de família monoglota, sempre achei isso fabuloso.

As origens eram diversas, mas um ponto era comum a todos. Ninguém emigra pra fazer turismo. Se uma família decide vender o que tem, abandonar as raízes, fazer as malas e dar um salto num país desconhecido, do outro lado do oceano, é por estar sendo impelida por razões muito poderosas. O mais das vezes, os imigrantes vinham por não enxergar futuro na terra natal ou por estarem arruinados depois de perder tudo em guerras e perseguições.

Com o passar das décadas, as cicatrizes da Segunda Guerra foram se fechando na Europa, nosso maior fornecedor de imigrantes. A partir do fim dos anos 1970, o fluxo praticamente se extinguiu. A Europa enricou e o fluxo se inverteu: de fornecedora de imigrantes, ela passou a receptora.

O problema é que, nos últimos anos, o volume de africanos que procuram chegar à Europa tem sido tão importante, que os governos decidiram restringir-lhes a entrada. Os candidatos mais temerários tentam forçar a porta. De canoa, a pé, escondidos em caçamba de caminhão, dentro de contêiner – os meios mais arriscados são utilizados. Uns conseguem chegar, outros são repelidos. Sem contar os que perecem no caminho.

Não conheço a história dessa refugiada congolesa que aparece na chamada da Folha de São Paulo que pus na entrada do artigo. Congoleses costumavam se refugiar na Bélgica (a antiga potência colonial) ou eventualmente na França. É possível que acolhida tenha sido negada a essa senhora, daí estar entre nós.

A frase que a mulher pronunciou dá uma tristeza infinita. “Não quero que meus filhos cresçam no Brasil” é uma das declarações mais terríveis que já ouvi sobre meu país. O pior é que a refugiada não é a única a pensar assim. A frase está na mente de muito brasileiro nascido e criado na pátria: “Não quero que meus filhos cresçam no Brasil”.

Por que isso ocorre? Onde é que erramos? O Brasil é feito por nós, minha gente! Nenhum dos que fazem as leis, dos que se sentam na cadeira presidencial, dos que dirigem municípios e estados é extraterrestre, descido de um disco voador. Todos foram escolhidos por nós.

Os dois personagens que dominam a cena de nossas próximas eleições presidenciais não são desconhecidos. Ambos já governaram o país. Portanto, a desculpa de 2018, quando um então quase desconhecido Bolsonaro foi eleito, não vale mais. Desta vez, sabemos com quem estamos tratando.

Sabemos que o país tem andado pra trás nos últimos 20 anos. As perspectivas de avanço de nosso processo civilizatório, o futuro decente ansiado pelos antigos imigrantes, foi pro beleléu.

Corrupção, roubalheira, migalhas jogadas aos pobres foi o que se viu com o lulopetismo. Além da violência crescente. Corrupção, baixaria, descaso com a população é o que se vê com Bolsonaro. Além da violência crescente. Por que é que os brasileiros insistem em dar seu voto de confiança a um desses dois estropícios? Nesta altura do campeonato, ninguém pode alegar desconhecê-los.

Se o brasileiro insistir nesse erro, não só os imigrantes recentes vão querer dar o fora. Os descendentes de imigrantes antigos vão seguir o mesmo caminho, esvaziando o país do que ele tem de melhor e deixando os que ficarem à mercê de milícias e braços do crime organizado.

Entre o cachaceiro e o farofeiro, cabe a você escolher.

Com açúcar, com afeto e com fixações

José Horta Manzano

Antes de começar, faço questão de deixar claro que vejo no artista Francisco Buarque de Hollanda um dos grandes da música brasileira. Com o devido respeito ao gênero de cada um e à época em que exerceram sua arte, considero que Chico ocupa lugar de honra no mesmo patamar em que estão Francisco Mignone, Heitor Villa-Lobos, Oswaldo Gagliano (Vadico), Ary Barroso, Baden Powell, Tom Jobim e mais três ou quatro. Não é coisa pouca.

Mas ninguém é perfeito. Artistas, principalmente, devem ser julgados por suas qualidades, não por seus defeitos. Se alguns dos que citei bebiam demais, eram mulherengos ou chegaram a tomar ideias musicais “emprestadas” de terceiros, que importância tem isso em sua arte? Os eflúvios do álcool, as estrepolias de alcova ou até a inspiração colhida em obra alheia passam. O que fica, ao final, é a arte de cada um. Os personagens que citei, cada um em seu estilo, ainda estarão na crista da onda daqui a séculos.

Num documentário lançado recentemente, Chico Buarque fez um pronunciamento pra lá de polêmico, quase uma provocação. Ao referir-se ao extraordinário “Com açúcar, com afeto”, uma das maravilhas da MPB, samba composto por ele há 55 anos, disse:

“Na verdade, a primeira música que fiz na primeira pessoa foi pra Nara [Leão]. Ela me pediu uma música ‘daquelas’, ela me encomendou essa música. Ela falou ‘Eu quero agora uma música de mulher sofredora’. E deu exemplos de canções do Assis Valente, Ary Barroso, aqueles sambas da antiga, onde os maridos saíam para a gandaia e as mulheres ficavam em casa sofrendo, tipo “Amélia”, aquela coisa. Ela encomendou, e eu fiz (…) É justo, as feministas têm razão, vou sempre dar razão às feministas, mas elas precisam compreender que naquela época não existia, não passava pela cabeça da gente que isso era uma opressão, que a mulher não precisa ser tratada assim. Elas têm razão. Eu não vou cantar ‘Com açúcar e com afeto’ mais e, se a Nara estivesse aqui, ela não cantaria, certamente.”

Pra quem teve preguiça de ler na íntegra a citação, fica aqui o essencial da fala do artista: “É justo, as feministas têm razão, vou sempre dar razão às feministas”.

Essa declaração comporta um trecho assaz constrangedor, em que Chico, um tanto ingenuamente, empresta intenções a Nara Leão, falecida há mais de três décadas. Diz que, se viva fosse, ela certamente não cantaria “Com açúcar, com afeto”. Acho sempre arriscado pôr palavras na boca dos mortos ou intenções na cabeça deles. No limite, ele poderia ter dito que achava, que imaginava, que acreditava. Mas ele disse que “certamente” ela não cantaria. Uma temeridade. Ninguém pode fazer afirmação desse quilate, passados mais de trinta anos do desaparecimento da pessoa.

Por minha parte, acho que Nara não abandonaria um dos tesouros do cancioneiro nacional que, examinado com lupa, não reforça preconceito nenhum, limitando-se a descrever com sobriedade o dia a dia de um casal que viveu faz meio século, uma vida como milhões de outras. Com alguma insatisfação mas também com ternura. E sem violência. Mas no fundo, ninguém – nem Chico, nem eu – pode ter certeza sobre a decisão que Nara tomaria.

Mas o que mais me impactou foi outra frase. Foi a que pus em negrito. Chico diz, com todas as letras, que “as feministas têm razão” e que vai “sempre dar razão a elas”. Ele não se restringe a este caso. Ele diz sempre. Tirando ditadores e líderes autoproclamados e autoincensados, que costumam ter um parafuso a menos e, por isso, se acham infalíveis, ninguém na face da Terra tem sempre razão. Ninguém.

Devo confessar que fiquei um tanto chocado com a fala do imenso artista. A forma como ele lança essa afirmação é tão natural, que a gente se dá conta de que ele acredita no que está dizendo. Acha realmente que as feministas têm sempre razão.

Apesar do abalo, para mim, Chico continua exatamente no mesmo pedestal em que sempre o alcei. Continua a fazer companhia a Ary, a Mignone, ao Tom e aos demais. Sua frase sobre as feministas até que serviu pra jogar alguma luz sobre seu posicionamento político destas últimas décadas.

Incomodado e perseguido durante a ditadura dos militares, é compreensível que tenha guardado ressentimento. Se apoiou o Lula e o petismo, é porque via nesse movimento a antítese ao regime que lhe havia atazanado a existência. Ele não foi o único a escolher a mesma via pelos mesmos exatos motivos.

Quando foram desvelados o mensalão e, sobretudo, o petrolão, grande maioria dos que haviam visto no lulopetismo, um dia, o polo oposto e o antídoto à ditadura desembarcaram da carruagem, que idealismo tem limite. Chico continuou no comboio.

O imenso poeta e compositor, aliás, não se limitou a apoiar o personagem do ex-metalúrgico. Foi fervente defensor de sua sucessora, a inominável doutora, aquela que, em matéria de prejuízos causados ao povo brasileiro, só perde para o atual ocupante do Planalto.

Evidentemente, posso estar enganado, já que ninguém tem sempre razão. Mas me ficou a forte impressão de que Chico Buarque é daquele tipo de pessoa que, quando abraça uma pessoa ou uma causa, agarra-se a ela com unhas e dentes. Sua dedicação é total; sua fidelidade, canina; seu apego, acrítico. Ele parece incapaz de reconhecer que as vias do coração não devem ser incondicionais. Mais que isso, parece incapaz de admitir que pessoas podem até, às vezes, não ter razão.

Hora das promessas

Carlos Brickmann (*)

Para se candidatar a governar São Paulo, os bolsonaristas não estão preocupados com Tarcísio Freitas, aquele ministro que continua procurando o estado no mapa: têm certeza de que ele, ouvindo especialistas como Carla Zambelli e estudando um pouco, logo estará inteirado dos problemas de São Paulo.

Para alguém como Tarcísio, que conseguiu ser alto funcionário de Dilma e ministro de Bolsonaro, não é difícil.

E certamente mudará o nome do Aeroporto de Campinas, para não homenagear adversários. Viracopos, onde já se viu? Melhor algo mais bolsonarista, tipo Espalhafarofa.
(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

A moda do “fake” se alastra até a China

José Horta Manzano

Parece que a moda que nos obriga a conviver com uma realidade paralela já chegou até a China. Alguém já imaginou organizar os Jogos Olímpicos de Inverno na região de Garanhuns (PE)? Parece coisa de maluco, não é? Pois deve haver no mundo muito mais malucos do que se imagina. E alguns ocupam cargos de importância planetária. Antes dos finalmentes, vamos aos considerandos.

No Brasil, Olimpíada de Inverno não tem repercussão, o que é compreensível. Pra quem não sabe, ela ocorre de quatro em quatro anos, intercalada com os Jogos de Verão, que já tiveram lugar no Rio de Janeiro e que ficaram na história do país pelo “legado” que deixaram.

A China foi designada para abrigar a edição invernal deste ano, que começa no fim de semana que vem. Até aí, nada de espantoso. O clima do país, em princípio, é compatível com os requisitos dos esportes de gelo e neve. Na região escolhida – Pequim e seus arredores – faz um frio congelante no inverno. Em janeiro, a temperatura oscila entre 7°C abaixo de zero de noite e 3° abaixo de zero no momento mais “quente” do dia. É pra pinguim nenhum botar defeito.

Só que tem um probleminha: não neva. Embora muito morador dos trópicos acredite que basta fazer um frio do cão pra cair neve, não é bem assim. Neve é precipitação, exatamente como chuva. Pra nevar, é preciso que haja nuvens e umidade. Com céu claro e sem nuvens dia e noite, não tem como nevar.

Assim, escolher organizar os Jogos de Inverno em Pequim equivale a escolher organizá-los em Garanhuns. Ambas as cidades têm morros por perto, onde pistas de esqui podem ser facilmente desenhadas. Estádio olímpico, é fácil construir, principalmente com dinheiro público. Propaganda, é fácil fazer. Povo entusiasta, é sempre fácil encontrar. Só que cada uma das sedes tem seu problema. Enquanto Garanhuns não tem frio suficiente pra aguentar a parada, Pequim não tem neve. Como contornar o problema?

Estamos entrando nos Jogos Olímpicos de Inverno mais antiecológicos da história. Primeiro, o leitor precisa saber que, na falta eventual de neve, as pistas de esqui podem ser atapetadas com neve artificial. Não, não se trata de neve de cinema, com floquinhos de plástico. A neve artificial é produzida por canhões de neve, enormes tubos que cospem no ar, geralmente à noite, quando todos dormem, água sob alta pressão. Ao entrar em contacto com o ar muito frio, as gotículas de água vaporizada se tranformam instantaneamente em flocos de neve.

Todas as pistas de esqui do mundo dispõem de dezenas desses dispositivos. Servem para completar o tapete de neve nas pistas, quando já está bastante achatado pela passagem dos esquiadores e quando o tempo anda claro, sem precipitações. Só servem para suprir uma certa porcentagem do cobertor branco.

O problema é que em Pequim, região semidesértica situada junto à poeirenta aridez que recobre a China central e ocidental, toda a neve das pistas será artificial. Todinha. Tudo 100% artificial. A paisagem das colinas onde estão as pistas está sui-generis: faixas brancas que serpenteiam em meio a montes escuros e totalmente desprovidos de neve. Bem pouco natural. (Confira a imagem na entrada do artigo.)

Evidentemente, os canhões espirram água e são movidos a combustível fóssil. Pra começar, precisa levar água até lá em cima, o que consome uma enormidade de energia. Em seguida, o funcionamento de centenas deles durante duas semanas, numa região já altamente poluída, só vai fazer aumentar o grau de poluição que os pequineses terão de respirar. Atenção: respirar sem reclamar, como costuma ser na China. Todos estão convidados a aplaudir. E ai de quem der um pio!

Fica agora uma dúvida ingrata. A escolha do Catar para a Copa do Mundo foi obra dos conchavos e da notória corrupção da Fifa. Onde já se viu jogar futebol no deserto, num país sem nenhuma tradição esportista, onde não se joga nem futebol de várzea (mesmo porque não há várzea)?

Será que o COI (Comitê Olímpico Internacional), que cuida das Olimpíadas, sofre do mesmo mal?

A escolha da data

José Horta Manzano

Em outras ocasiões já devo ter falado da birra que tenho contra essa moda de acrescentar um zero à esquerda dos algarismos. (Para quem já se esqueceu, lembro que algarismo é o que hoje convém chamar de dígito.)

Acho muita graça quando leio (ou até ouço) “dia 01”, “guichê 03”, “elevador n° 02”. Tem gente que, obedecendo à curiosa mania, leva o costume para dentro de casa e acaba numerando membros da família, fala em “filho 01”, “filho 02” e por aí vai. A mim, parece um bocado simplório.

Até algumas décadas atrás, todo o mundo, rico ou pobre, costumava ter apelido. Lembro que todos os irmãos de minha avó (eram 12, fora ela) tinham apelido. Parecia até obrigatório. No entanto, gente numerada dentro da família, confesso que nunca tinha visto antes da chegada do clã que dá as cartas no Planalto.

Adivinho qual possa ter sido a origem do modismo de acrescentar um zero à esquerda de números pequenos. No tempo em que o cheque era um meio chique de pagamento – usado somente em ocasiões especiais, quando o montante era considerável –, o cidadão que o emitia procurava se precaver contra falsificações que pudessem aumentar o valor do documento.

Assim, no campo onde a quantia aparecia por extenso, usava-se grafar “hum mil cruzeiros”, por exemplo. Ou então, punha-se um traço horizontal grudado ao início da quantia. Assim: “–––––Quatrocentos milréis”. Já no campo onde aparecia o montante em cifra, alguns introduziam um zero entre o traço horizontal e o valor. Assim, para quatrocentos milréis, ficava: “––––0400$000”. Se alguém tiver explicação melhor para a origem do modismo atual, mande cartinha para a Redação.

Escolher data de morte é difícil. A gente pode até ter um forte desejo de morrer dia tal, mas é complicado ter controle sobre o assunto. Escolher data de nascimento de um(a) filho(a) é, até certo ponto, possível. Mas o período não é extensível ao infinito. Pode-se adiantar ou atrasar alguns dias, não mais.

Tem uma data que, salvo emergência, dá pra marcar: é a data de casamento. É verdade que casório anda meio fora de moda, mas ainda há muita gente que faz questão de seguir essa “tradição burguesa”, como diriam os barbudinhos dos anos 1980. Há quem escolha pelo horóscopo; outros querem que caia num sábado, que é pra poder receber um máximo de amigos (e de presentes).

Há datas especiais, muito procuradas. Este mês, temos duas excelentes. Uma delas é amanhã: 2 de fevereiro. Reparem como fica original: 2.2.22. É um charme, diga a verdade. A próxima será daqui a dez dias. É mais forte ainda: 22.2.22. Não sei como anda o agendamento de casamento no Brasil, mas na Europa em geral – e na Suíça em particular –, já está difícil encontrar vaga nesses dias. Em Zurique, por exemplo, o dia 22 está completamente tomado. Não adianta insistir, que não vai adiantar. Dia 23, se o cavalheiro concordar…

Quem perder esta oportunidade vai ter outra daqui a onze anos. Será em 3.3.33. Perdida essa, só onze anos depois, em 4.4.44. E assim por diante, até o fim do século. Só que, se esperar muito, o distinto leitor periga ter de levar os netos pra assistirem ao casamento dos avós. Hoje em dia, fica meio fora de esquadro. Daqui até lá, quem sabe, pode ser que já ninguém ligue. Pode até ser que ninguém mais se case.

Genocida, não!

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 29 janeiro 2022

A validade de um estudo científico só é autenticada depois de ele ter sido avaliado e abonado por um conjunto de reconhecidos cientistas da mesma área. É o que os ingleses chamam ‘peer review’.

Costuma-se traduzir essa expressão como ‘revisão por pares’, ‘revisão paritária’ ou até, um tanto desajeitadamente, ‘arbitragem’. A tradução flutuante vem do fato de não ser comum, entre nós, designar de “pares” os que exercem a mesma função ou os que pertencem à mesma categoria. Assim, qualquer tradução literal periga sair meio manca. Mas, pela atual tendência de integração de conceitos estrangeiros a nossa língua, a solução já foi encontrada: mantém-se a expressão inglesa, com casca e tudo.

A organização MedRxiv, cujo estranho nome se deve pronunciar “med-archive” (‘arquivo médico’) é um repositório online de preprints da área médica, clínica e de saúde. Preprint, como o nome sugere, é a publicação prévia de artigo científico ainda não validado pelos pares.

Agora vamos aos fatos. Alguns dias antes do fim de dezembro 2021, uma dezena de cientistas brasileiros assinaram, sob forma de preprint, um alentado estudo sobre a correlação entre vacinação, hospitalização e morte de maiores de 60 anos. A primeira constatação, como se imaginava, é de que a taxa de óbitos decresce à medida que a vacinação se generaliza.

Em seguida, os signatários do estudo valeram-se de fórmulas complicadas demais para serem descritas por não-iniciados como este escriba. O que interessa são as conclusões. E elas são comprometedoras para o governo brasileiro. O incrustado negacionismo gerado pela ignorância presidencial custou caro ao país. Em vidas humanas.

O estudo estima que milhares de idosos brasileiros foram salvos pela vacinação: um total de 75 mil, só no ano de 2021. Não fosse a vacina, esse contingente já não estaria mais entre nós. Essa é a parte decente da história. Em paralelo, há um lado bem mais sombrio.

Todos se lembram dos esforços envidados pelo capitão para frustrar – ou, pelo menos, retardar – a compra de vacinas anticovid. Baseados em análise dos dados e em cálculos atuariais, os cientistas chegam à conclusão de que, se a vacinação tivesse começado 8 semanas antes, 48 mil mortes poderiam ter sido evitadas. Quarenta e oito mil mortes! Para efeito de comparação, essa hecatombe equivale à queda de 185 Boeings modelo 767 lotados, com 260 passageiros cada um, sem nenhum sobrevivente pra contar a história. Ou 4.800 desastres como o de Capitólio (MG), que ocupou as manchetes com suas 10 vítimas – um Capitólio por dia, durante 40 meses sem parar. Estamos falando apenas das mortes evitadas.

Muitos chamam Bolsonaro de genocida. Estão errados. Genocídio é palavra relativamente recente, criada nos anos 40 e oficializada por convenção da ONU de 1948. A definição é rigorosa: exterminação sistemática de um grupo humano por motivos de raça, língua, nacionalidade ou religião. É, portanto, limpeza étnica – um ato extremado levado a cabo por motivos religiosos ou por loucura.

Os atos de Bolsonaro não correspondem à definição. Sabe-se que ele não gosta de pobre, mas a negação da pandemia não causou morte só de pobres. Sabe-se que ele tem medo de “comunista”, mas o atraso na compra das vacinas não mandou só “comunistas” pro cemitério. Sabe-se que ele é misógino, mas a louvação da cloroquina não matou só mulheres.

Bolsonaro tem alguns parafusos soltos. Sua loucura é apimentada por ignorância, poltronice e preguiça – condimentos explosivos, mas que não chegam a configurar um genocida que se preze. Genocidas verdadeiros, não houve tantos assim. O século XX conheceu alguns dos grandes, tais como Hitler (Alemanha), Pol Pot (Cambodja) e Stalin (URSS). Há outros menos conhecidos. Por mais que tenha feito, nosso capitão não entra nessa categoria.

Genocídio requer método e planejamento, conceitos que não frequentam o universo mental de Bolsonaro. Ele não passa de um ser perturbado, atrasado, sem instrução, paranoico, que chegou à Presidência numa esquina da história que não se repetirá. Está mais pra patacão que pra genocida.

Os nomes da Alemanha

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José Horta Manzano

Você sabia?

Na maioria dos casos, quando o nome de um país é “traduzido” em outras línguas, faz-se apenas uma adaptação gráfica e fonética para ficar em conformidade com o espírito da língua em questão.

No nosso caso, veja como fica o nome Brasil numa vintena de idiomas.

Inglês:      Brazil
Tcheco:      Brazílie
Esloveno:    Brazilija
Dinamarquês: Brasilien
Holandês:    Brazilië
Estoniano:   Brasiilia
Finlandês:   Brasilia
Francês:     Brésil
Lituano:     Brazilija
Russo:       Бразилия (Brazilia)
Alemão:      Brasilien
Grego:       Βραζιλία (Brasilía)
Eslovaco:    Brazília
Húngaro:     Brazília
Búlgaro:     Бразилия (Brazilia)
Italiano:    Brasile
Letão:       Brazīlija
Polonês:     Brazylia
Romeno:      Brazilia
Espanhol:    Brasil
Sueco:       Brasilien
Turco:       Brezilya

Como se vê, percorrem-se todas as notas, mas a base é uma só. Com quase todos os países funciona assim, adapta-se o nome original e pronto. No entanto há uma notável exceção: a Alemanha. Esse país é um caso à parte.

Diferentemente da maioria das nações europeias, a Alemanha não existia como país unificado até os anos 1870. Mas os povos que habitavam o território eram conhecidos desde a Antiguidade. Assim sendo, os vizinhos (tanto os mais próximos quanto os mais distantes) não esperaram até o século 19 para dar nome ao país que é hoje a Alemanha. Nas variadas línguas europeias, a região sempre teve um nome.

É que dois milênios atrás, tribos germânicas se espalharam pelo território europeu, num período de expansão conhecido como o das invasões bárbaras. O nome da tribo que entrou em contacto com cada região da Europa acabou por se estender ao nome do que seria a futura Alemanha unificada. Vamos explicar por alguns exemplos.

Os povos da Europa ocidental entraram em contacto com os Alamanes, uma das tribos germânicas. É por isso que deram o nome de Alemanha à região de onde provinham os invasores. Com pequenas adaptações, o nome permanece nas línguas da Europa ocidental (Alemanha, Alemania, Allemagne) e até na Turquia e na África do Norte (Almanya).

Os povos do Mar Báltico oriental conheceram os Saxões, outra tribo germânica. Até hoje, em finlandês e em estoniano (que, diga-se, são línguas irmãs), o nome da Alemanha é Saksa ou Saksamaa (=país dos Saxões).

Os povos da Escandinávia e os das regiões vizinhas à atual Alemanha acabaram adotando o nome que os alemães dão ao próprio país: Deutschland. Com adaptação fonética e gráfica, ficou Duitsland (Holanda), Tyskland (Escandinávia) e Tütschland (Suíça).

Já quem invadiu a região da atual Letônia e da Lituânia, muitos séculos atrás, foram os Valagodos (ou Vagotos), outra tribo germânica. Na língua desses dois países bálticos, a Alemanha, mesmo antes de se constituir como Estado unificado, já era chamada de Vacija (letão) e Voketija (lituaniano).

O nome da Alemanha nos países eslavos (Niemcy em polonês e Nemecko em eslovaco, por exemplo) tem origem curiosa. Provém de uma antiga raiz protoeslava que significa “mudo”. Não é que os povos bárbaros fossem mudos, mas simplesmente não falavam a língua local. Daí terem recebido esse cognome que perdura até os dias atuais.

No total, o mundo pode escolher entre 6 bases etimológicas para nomear a Alemanha – um recorde mundial. O mapa estampado acima é bastante esclarecedor. Cada cor corresponde a uma base etimológica.

Como se vê, além de ser nação rica, a Alemanha conta com rico repertório de nomes.

Acento, pra que te quero?

José Horta Manzano

Estadão
“As ações e omissões do governo Bolsonaro em apenas tres anos, particularmente nos dois ultimos, demandarão novos parametros de analise dos historiadores no futuro. Afinal, não ha mal maior ja infligido ao Pais pelo poder publico do que as mortes de milhares de pessoas em decorrencia da covid-19 que poderiam ter sido evitadas caso a desidia, o egoismo, a falta de compaixão e a incompetencia administrativa não fossem as marcas da atuação do governo federal no enfrentamento da crise sanitaria.”

Folha
“Do governo Jair Bolsonaro não se pode esperar nada senão tumulto e desinformação, como mostra a escandalosa nota tecnica produzida pelo Ministerio da Mulher, da Familia e dos Direitos Humanos. Como se o despauterio fosse pouco, o ministerio ainda incentiva que o Disque 100, canal governamental de denuncias de violações dos direitos humanos, seja usado por aqueles que não se vacinam para relatar “discriminações” sofridas —o que alem de deturpar o serviço pode vir a sobrecarrega-lo.”

Globo
“Era de esperar que, apos os obstaculos iniciais, muitos deles criados pelo proprio presidente Jair Bolsonaro e pelo ministro da Saude, Marcelo Queiroga, a vacinação infantil no pais avançasse sem maiores sobressaltos. Mas não. Em algumas cidades, pais que levam os filhos aos postos de saude são surpreendidos com exigencias descabidas, como a obrigatoriedade de assinar um termo de consentimento, medida que contraria as normas do Ministerio da Saude e funciona como um desestimulo à vacinação.”

Os trechos acima foram extraídos de editoriais dos três principais jornais do país. O distinto leitor há de ter sentido que algo estava estranho. Pois foi de propósito. Eliminei todos os acentos, tanto os agudos (‘) quanto os circunflexos (^). O til ficou porque não é acento, é sinal gráfico que indica nasalização (e que pode coexistir com acento tônico, como na palavra ‘bênção’). O acento grave também ficou porque não indica sílaba tônica, mas a junção de dois aa, uma crase.

Agora vem a pergunta: alguém sentiu alguma dificuldade na leitura? Engasgou nalguma palavra, não entendeu um trecho, ficou na dúvida sobre algum significado? Acredito que não.

Costumo comparar nossa língua e sua multidão de acentos com outras que não têm nenhum. Como é que pode? Como é que um inglês ou um alemão se viram sem esses sinaizinhos? E os italianos que, afinal, têm uma língua latina, bastante próxima da nossa? Eles só usam o acento grave para indicar palavras oxítonas, mais nada.

Acho que, na próxima reforma ortográfica (que não deve demorar, visto que elas são tão frequentes entre nós), os sábios deveriam refletir sobre isso. Dá pra eliminar, fácil, 19 em cada 20 acentos agudos e circunflexos. Sem prejuízo da leitura ou da compreensão.

Antes da reforma de 1943, a norma brasileira da língua impunha pouquíssimos acentos. Se os antigos conseguiam se virar, por que é que nós, os modernos, somos obrigados a nos perder nessa selva de acentos – na maioria, desnecessários?

O terremoto

Correio Paulistano, sabbado 28 jan° 1922

José Horta Manzano

Você sabia?

No Brasil de antigamente, parece que a vida escorria mais lenta. Há razões objetivas para isso.

  • O clima era mais ameno. Não fazia calor como hoje. Basta conferir os registros meteorológicos.
  • As distâncias eram menores – refiro-me às que se percorriam habitualmente, de casa ao trabalho e vice-versa.
  • Havia menos gente. (Basta dar uma olhada na Wikipedia pra se inteirar do desenfreado crescimento populacional de vilas e cidades.)

Há também razões subjetivas.

  • Sem internet e sem telefone celular, o indivíduo não sentia a afobação de ter de estar ligado e antenado o tempo todo. A vida corria mais ‘relax’.
  • Sem a torrente de informação que nos invade atualmente, havia espaço para uns minutos de prosa com um conhecido, quando de encontro casual – sempre havia alguma novidade a contar (ou a ficar sabendo).

Este blogueiro tem especial prazer em dar uma espiada em jornais antigos. Uma leitura atenta da imprensa nos ensina muito sobre os costumes de cada época.

Este 28 de janeiro, faz exatamente 100 anos que os jornais comentaram o incrível acontecimento: a terra tremeu numa vasta região compreendendo grande parte do estado de São Paulo, o Rio de Janeiro e o sul de Minas. O raríssimo fenômeno acordou a população às 3h50 da madrugada do dia 27 de janeiro de 1922.

A linguagem pitoresca da época acrescenta uma nota poética aos acontecimentos. No Correio Paulistano, o subtítulo já informa que “A cidade despertou sobresaltada (sic)”. E continua: “o phenomeno foi observado em quasi todo o Estado de S. Paulo, em Minas e no Rio de Janeiro”. Em seguida, vem a notícia. Começa assim:

“Hontem, ás 3 horas e 50 minutos, S. Paulo presenciou um terremoto. Os que, por dever de officio ou inveterados habitos de noctivago, estavam acordados áquella hora tiveram opportunidade de assistir a um espectaculo bem raro e bem difficil de ser apreciado tão cedo neste privilegiado torrão da nossa terra immunizado pelas suas condições geologicas e geographicas contra todas as calamidades sismicas, tão frequentes em outros paises.”

Com um linguajar assim, o desabamento de alguns telhados fica até simpático. O sismo não deixou vítimas mortais, com exceção de um cidadão que, na linguagem da época, “morreu de susto”. (Há de ter tido o que hoje se descreveria como infarto ou parada cardíaca.)

Houve um outro cidadão que, assonado e assustado, achou que gatunos estivessem assaltando a casa. Catou a a garrucha e saiu atirando a esmo.

O presidente do estado, hoje chamado governador, tomou o estrondo por estampidos de arma de fogo, e imaginou que tivesse estourado uma revolução. É que revoluções eram corriqueiras à época. Os revoltosos atiravam de verdade e costumavam visar o palácio do governo. Hoje revoluções não passam de papo de internet. Quando os ‘revoltosos’ miram um prédio oficial, não é mais o palácio do governo, mas o STF. E as armas são fogos de artifício. Francamente, não se fazem mais revoluções como antigamente.

Um senhor, bastante assombrado, relatou ao repórter do Correio Paulistano que, sempre que morria alguma pessoa na família, ele recebia aviso de um espírito. Tendo sentido o tremendo abalo, saiu correndo de madrugada em direção ao telegrapho para pedir notícias dos seus.

Os boatos mais estapafúrdios correram pela capital paulista. Que haviam desabado casas e igrejas, que estátuas haviam despencado de fachadas, que havia mortos nos baixios do bairro do Brás. Nada disso se confirmou.

De manhã bem cedo, assim que o dia clareou, viram-se famílias inteiras a passear pela Rua Direita, felizes de constatar que as casas continuavam de pé e que não tinha ocorrido nenhuma catástrofe.

Consta que o último terremoto de que se tinha notícia havia ocorrido nos anos 1500, nos tempos do Padre Anchieta. Se o intervalo entre dois sismos for de 400 anos, não temos nada a temer. Daqui até o próximo, os tataranetos de nossos tataranetos já terão deixado este vale de lágrimas.

BREAKING NEWS: Deus não é mais brasileiro!

Myrthes Suplicy Vieira (*)


O Altíssimo convocou uma cadeia de rádio e televisão de urgência para um pronunciamento bombástico, retransmitido por todas as plataformas de streaming.

Com o rosto tenso e a voz embargada, começou dizendo:


“Quero informar que estou abrindo mão em definitivo do título de cidadão brasileiro. Como sabem todos, tenho o dom da ubiquidade e, portanto, posso assumir todas as nacionalidades ao mesmo tempo. Agrada-me que as pessoas me tratem como um dos seus, uma vez que isso sinaliza que habito seus corações. No entanto, não me parece mais adequado que um determinado povo queira sequestrar para sempre minha identidade só para si.

Aceitei a contragosto por muito tempo a falácia de que sou brasileiro. Na época, pareceu-me simpática a homenagem que me prestavam, já que minha mãe também é considerada nativa desse país miscigenado e gigante e foi inclusive aclamada sua padroeira. Além disso, queria deixar claro na ocasião que não é preciso demonstrar a sisudez e a formalidade dos povos do Velho Continente para ter acesso a mim. A descontração, a alegria e a espontaneidade típicas da cultura brasileira me cativavam e, confesso, me davam também a oportunidade de expandir meu domínio sobre todo o continente americano. Era, portanto, não só uma questão familiar mas também estratégica para minha igreja.

Parecia-me ainda uma justa retribuição por todos os privilégios que concedi ao Brasil. Dotei a terra brasiliense de múltiplos recursos naturais. Os brasileiros puderam contar sempre com uma abundância de água, terras férteis, sol o ano inteiro, ausência de cataclismos e vulcões. Os mais belos cenários naturais do mundo eu os plantei aqui. Permiti que a maior floresta tropical da terra aqui florescesse. Adornei estas terras com uma das floras e faunas mais exuberantes, coloridas e belas do mundo. Para habitar esse paraíso terrestre, escolhi um povo multifacetado, herdeiro dos melhores traços de caráter de três etnias fundamentais: brancos, índios e negros.

Imaginava que a harmonia entre o homem e a natureza nesse pedaço de chão tão generoso fosse durar para sempre, assim como a integração e a colaboração de todas as raças. Mas o que fizeram com tantos dotes? Escravizaram índios e negros, alijaram os mais pobres do usufruto dos bens derivados de seu próprio trabalho, destruíram todos os biomas escavando a terra para dela extrair ouro, pedras preciosas e minerais, como se não houvesse amanhã. Envenenaram os rios para acumular fortunas e, no processo, mataram de sede e de fome as populações ribeirinhas. Deixaram-se levar pela crença de que a destruição do patrimônio natural, humano e cultural em nome do progresso era prerrogativa dos seus governantes e de sua elite empresarial. Acreditaram que o bolo da economia só pode ser dividido depois de ter crescido e, por isso, não aprenderam a compartilhar. Não satisfeitos, zombaram de todos os seus vizinhos sul-americanos que enfrentavam uma história de escassez e de revoluções sangrentas.

Mais grave, imaginaram que minha ira diante de tanta insensibilidade e desumanidade seria aplacada se construíssem templos revestidos de ouro para minha adoração. Que tipo de ser abominavelmente vaidoso seria eu para deter meu braço de justiça em troca de luxo fútil? Alardearam que estou no comando de todas as operações que interferem na vida do homem e, blasfêmia, insinuaram que até mesmo eventuais desastres naturais, períodos de fome e seca, de crise política, degradação moral e desalento espiritual faziam parte de minha vontade soberana, caracterizando-os como forma de punição aos homens maus. Ora, mau seria eu se permitisse que o castigo fosse generalizado e atingisse quem não tem como se defender da cupidez dos homens poderosos que só querem perpetuar a injustiça social e a desigualdade.

Jamais me imiscuí em seus assuntos políticos, até porque cansei de dizer que meu reino não é deste mundo. Embora alguns de meus representantes na terra tenham por vezes tentado me associar a esta ou aquela força político-ideológica, nunca tomei partido nas disputas humanas por poder. Eu lhes concedi livre arbítrio justamente para que pudessem determinar o melhor rumo para suas vidas e para o da nação. E, muitas vezes, vocês escolheram seus líderes com base na miopia do rancor e do ressentimento pessoal, não na razão. Quando se deram conta de que haviam se colocado voluntariamente nas mãos de tiranos impiedosos, imploraram pela minha interferência e eu nada fiz. Esqueceram do comando bíblico: faze tua parte e eu te ajudarei.

Para minha suprema tristeza, seus dois últimos mandatários declararam terem sido escolhidos por mim. Inominável absurdo! Elegem inconscientemente o Anticristo de plantão e ainda me culpam? Repito: A Deus o que é de Deus, e a César o que é de César. Assumam responsabilidade por suas escolhas equivocadas de uma vez por todas. Pelo amor de Deus (no caso, eu mesmo), cresçam, amadureçam. Tenho mais o que fazer do que ficar cuidando de picuinhas humanas.

Tolerei por séculos esse estado de coisas, acreditando que as demonstrações de fé inabalável em mim e de resiliência da gente humilde brasileira bastariam para instaurar novos tempos de comunhão entre o povo e seus dirigentes. Mas o país do futuro promissor também não aconteceu nesse sentido. Ultimamente as coisas atingiram um patamar paroxístico que não posso mais tolerar. O ódio entre irmãos nunca esteve tão forte, a desigualdade nunca pareceu tão irreversível e a insensibilidade social de seus dirigentes jamais se mostrou tão despudorada. E tudo isso acontecendo ao mesmo tempo em que seus líderes políticos proclamam que o Brasil está acima de tudo e eu estou acima de todos. Será mesmo?

Como isso é possível se tudo o que fazem é repetir como um disco quebrado meu nome e o de meu filho Jesus, aceitando, ao mesmo tempo conviver com o mais dramático quadro de desamor ao próximo de que se tem notícia? Como fiz questão de deixar registrado na Bíblia no começo dos séculos, meu nome não pode ser pronunciado em vão. Entendam em definitivo que a salvação nunca vem de fora, que palavras e ações têm de coincidir para que as coisas mudem para melhor.

Compreensivelmente, não posso mais acobertar tanto desatino. Ontem, quando soube que seu ministro da Saúde – aquele mesmo que já foi até comparado a Herodes por precisar de um “número significativo” de mortes de crianças para tomar alguma ação prática de defesa de suas vidas – disse ter se inspirado na minha sagrada família para desenvolver um novo programa de saúde familiar, entendi que não há mais esperança de tudo mudar. A hipocrisia e o cinismo venceram. Mesmo sabendo e repetindo todos os dias que a verdade liberta, seus dirigentes optaram explicitamente pela desfaçatez, pelo perjúrio, pela ignomínia.

Se vocês dizem conhecer minha vontade e ainda acreditam que ela deve prevalecer, saibam que eu já não acredito na sua capacidade de superação do egoísmo, nem em seu amor por mim. Vocês decidiram livremente pelo pior dos caminhos e devem, portanto, percorrê-lo até o fim, sem mim.

Em bom português: Cansei, pra mim já deu. Fui, vazei. Hasta la vista, babies…”

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.