Gallia Transalpina

José Horta Manzano

Você sabia?

Para os romanos, os territórios situados imediatamente fora do perímetro doméstico levavam o nome genérico de Gallia. Já os povos mais longínquos entravam na categoria depreciativa de bárbaros.

Naqueles tempos de poucas estradas e escassa comunicação, a denominação Gallia recobria um vasto território que ia das fronteiras do mundo germânico até a Península Ibérica passando pelas Ilhas Britânicas. Até a Itália do Norte cabia na classificação: era a Gallia Cisalpina.

Com o passar do tempo, a denominação foi-se restringindo ao que é hoje o território da França. Atualmente, gaulês é sinônimo de francês.

A gente costuma enxergar com nitidez os defeitos alheios e fazer vista grossa para os nossos. Os franceses adoram dizer que «les anglais ne font rien comme les autres», os ingleses fazem tudo diferente dos outros. Dizem isso sem se dar conta de que o mesmo lugar-comum lhes cai como uma luva.

Assembleia nacional francesa — a fachada

Assembleia nacional francesa — a fachada

Uma exótica particularidade gaulesa sempre foi o chamado cumul des mandats — a acumulação de mandatos eletivos. Diferentemente do Brasil, onde o candidato é obrigado a se desincompatibilizar (que palavrão!) antes do pleito, o postulante francês sempre dispensou essa formalidade.

Atualmente, sessenta por cento dos parlamentares — deputados e senadores — cumprem, ao mesmo tempo, um mandato executivo municipal ou regional. É como se, no Brasil, tivéssemos um deputado federal que fosse ao mesmo tempo prefeito de São Nicodemo do Brejo ou um senador que funcionasse também como vereador de Santa Sinfrônia do Mato Alto.

O que nos parece esdrúxulo, aos franceses sempre pareceu absolutamente natural. É o que chamam une spécificité française, realmente um caso específico. Não tenho a pretensão de conhecer o funcionamento de todos os regimes do planeta, mas tenho certeza de que hão de ser poucos os que admitem essa pluralidade de funções políticas exercidas pelo mesmo indivíduo.

Na União Europeia, em todo caso, nenhum outro país-membro prevê esse acúmulo de cargos. Faz anos que vozes se vinham levantando contra o que passou a ser encarado como aberração. Por outro lado, o argumento dos «acumuladores» era de que suas funções locais são excelentes para manter proximidade com o povo. Segundo eles, funciona como arma que os protege da tentação de pairar, deslumbrados e encastelados, acima do populacho.

Assembleia nacional francesa — o «hemicycle»

Assembleia nacional francesa — o «hémicycle»

Mas a lambança está vivendo suas últimas horas. Esta semana, o parlamento adotou, em votação final, a lei que proíbe o acúmulo de funções executivas locais — mormente a de prefeito — com um mandato de deputado ou de senador. A novidade passa a valer a partir das eleições de 2017. Até lá, fica tudo como está.

Era uma promessa de campanha do então candidato François Hollande. Dado que ele conta com maioria na assembleia, não foi difícil aprovar a novidade.

Fato digno de nota: alguns deputados da oposição votaram a favor da reforma. Sem mensalão, guiados por sua íntima convicção. Para nós, pouco afeitos a ser governados por gente honrada, é um espanto.

Frase do dia — 87

«Essas pessoas não foram julgadas pelo seu passado, mas por suas atitudes no presente. Foram julgadas, condenadas e presas. (…) Eu não participo e acho que não pode ser uma orientação partidária fazer isso»

Olívio Dutra (PT/RS), ex-governador do Rio Grande do Sul, ao se posicionar com relação às “vaquinhas” marquetadas por desenvoltos companheiros. In blog Rosane de Oliveira, alojado no jornal Zero Hora, 24 jan° 2014.

Tri ou penta, presidenta?

José Horta Manzano

Há fatos desagradáveis. Há acontecimentos inquietantes. Há casos surpreendentes. Há decisões assombrosas. Nossos governantes têm demonstrado nítida preferência por esta última categoria. As resoluções que emanam do Congresso e do próprio Executivo são muita vez espantosas. Assombrosas.

Afirmações fantasiosas costumam circular pela internet, com ênfase neste ou naquele ponto, conforme a cor política do autor do rumor. Na maior parte das vezes, correm informações truncadas, estropiadas, deformadas. Até falsas. Por isso, tenho o hábito de conferir a autenticidade dos dados antes de passá-los adiante.

Recebi hoje uma inacreditável informação. A enormidade era tamanha que, num primeiro momento, achei que era pura invenção. Assim mesmo, por desencargo de consciência, resolvi verificar. Tive de ler duas vezes: era verdadeira. De deixar de queixo caído. Explico.

Lei Geral da Copa, art° 37 e seguintes

Lei Geral da Copa, Art° 37 e seguintes

Está lá, pública e disponível, ao alcance de alguns cliques, mas poucos leram. É a Lei Geral da Copa, obra magistral assada em 2011 nos fornos obscuros de nosso bem-intencionado Congresso. E devidamente sancionada por dona Dilma naquele mesmo ano.

É documento longo e enfadonho de 114 artigos distribuídos por 152 páginas. Sou o primeiro a confessar que nunca a li por inteiro. Minha atenção foi hoje chamada para o Art° 37 e seguintes. Fui conferir. É verdade mesmo. A lei concede um prêmio de 100 mil reais(!) a cada um dos jogadores — titulares e reservas — da seleção brasileira de futebol que atuou na copa de 1958, na de 1962 e na de 1970.

E não é tudo. Cumulativamente, um «auxílio especial» (leia-se pensão vitalícia) é outorgada a esses mesmos atletas. Caso já façam jus a algum benefício, o generoso Estado brasileiro completará os ganhos do agraciado para que atinjam o valor máximo em vigor segundo a prática da Previdência Social.

Querem mais? Caso algum agraciado já tiver falecido, o prêmio de 100 mil reais será entregue a seus herdeiros. Mais ainda? Esse mimo estará isento de imposto de renda — entrará limpinho no bolso do veterano atleta ou de seus herdeiros. Mais um pouquinho? A pensão vitalícia é extensiva à esposa e aos filhos menores de cada jogador falecido.

Para coroar — não precisava nem dizer — essa largueza será custeada pelo Tesouro Nacional. Ou seja, pelo seu, pelo meu, pelo nosso dinheiro suado. Que tal?

Lei Geral da Copa - Art° 37 e seguintes

Lei Geral da Copa, Art° 37 e seguintes

Nossos governantes não costumam dar ponto sem nó. No entanto tenho dificuldade em descobrir o que se esconde por detrás desse estranho artigo de lei. Várias interrogações me vêm. Por enquanto, estão no ar, sem resposta. Dado o primarismo habitual naquelas esferas, o mais provável é que seja mais um ato míope de populismo rasteiro e irresponsável.

A montagem de uma seleção é trabalho de grupo. Por que razão somente as estrelas estão sendo agraciadas? E o resto da equipe? E os massagistas, os cararegadores de mala, os cozinheiros, os treinadores? Viúva de jogador ganha direito a pensão mas, ao treinador, nada. Que lhe parece?

O Brasil — todos sabemos disso — participou de todas as copas do mundo. O Artigo 37 dessa lei deixa claro que alguns merecem mais que outros. Por quê? Devemos entender que os demais são castigados por não terem feito direito a lição de casa?

O Brasil — e disso também sabemos todos — ganhou cinco vezes a copa do mundo. Por que, diabos, somente os que atuaram nas três primeiras ganham prêmio? E os outros?

Nenhum prêmio de consolação para os que perderam a copa de 1950 na reta de chegada — justamente os mais decepcionados. Nem para os de 1998. Por quê?

Há um tempo para tudo. Assim como iogurte tem prazo de vencimento e crimes prescrevem, prêmios e homenagens perdem seu alcance. Vencido o prazo, não fazem mais sentido.

Estes últimos anos, em nossas altas esferas, nota-se marcada tendência a ressuscitar episódios passados — selecionados segundo seu (deles) interesse. Assim como a exótica «anulação» da deposição de João Goulart atropela a lógica, o reconhecimento do mérito de jogadores que atuaram mais de 55 anos atrás não faz sentido. É tarde demais.

Ficam duas certezas:

Árbitro Crédito: Kopelnitsky, EUA

Mundo injusto
Crédito: Kopelnitsky, EUA

1) Está certa a sabedoria popular quando diz que é fácil dar esmola com o chapéu alheio. Usar o dinheiro do Tesouro Nacional — a caixa comum onde depositamos nossa poupança forçada — para mimar futebolistas em detrimento de atletas de outros esportes é escárnio. Nosso excelsos governantes, em ato de puro populismo, subestimam a inteligência dos brasileiros e dela zombam.

2) Aos olhos do governo, todos os atletas não são iguais. Alguns são mais iguais que outros. Futebolistas valem mais que praticantes de qualquer outro esporte. Selecionados para copa do mundo valem mais que outros futebolistas. Campeões do mundo valem mais que os que se esforçaram mas não tiveram sucesso. Campeões de 1958, 1962 e 1970 valem mais que campeões de 1994 e 2002.

Quero deixar aqui uma sugestão para dona Dilma. Para arrendondar o número de ministérios, que tal criar um quadragésimo: o Ministério da Igualdade entre Esportistas?

Afinal, o Brasil é tri ou penta, presidenta?

Frase do dia — 86

«Os estádios são obras relativamente simples. O governo fará todo empenho para fazer a Copa das Copas, isso inclui estádios, aeroportos, portos, tudo o que for necessário para que seja o país que receba todos aqueles que vão nos visitar.»

Resposta dada em 23 jan° 2014 por dona Dilma Rousseff, em visita à sede da Fifa, em Zurique, à pergunta insistente do enviado da Folha de São Paulo.
Quem estivesse chegando do planeta Marte poderia até imaginar que a tal Copa das Copas esteja programada para daqui a 5 ou 6 anos.
Quanto à fala da presidente, «Fazer empenho para fazer» é construção linguística assaz elegante, mas, convenhamos, pouco usual.

Raios que o partam

José Horta Manzano

Você sabia?

Os franceses costumam dizer que «on ne parle jamais des trains qui arrivent à l‘heure», ninguém fala dos trens que chegam no horário. É verdade. Os acontecimentos corriqueiros não costumam aparecer nas manchetes. Em compensação…

… em compensação, quando sobrevém uma desgraça ou uma catástrofe, a história muda de figura. Vai direto para a primeira página de todos os jornais. E também para a abertura de todos os informativos de rádio e tevê. Na falta de grandes desastres, qualquer fato fora do costumeiro também serve.

Faz uns dias, um raio acertou um dedo da estátua do Cristo Redentor, no alto do Corcovado. Estima-se que 32 milhões de raios atinjam o solo do planeta a cada ano. Isso dá quase 90 mil por dia. Assim mesmo, não é todos os dias que a natureza demonstra pontaria tão certeira. Bem na ponta do dedo!

Frequência de raios que atingem o solo (n° de ocorrências por km2 por dia) Crédito: Nasa.gov

Frequência de raios que atingem o solo (n° de ocorrências por km2 por dia)
Crédito: Nasa.gov    –    Clique no mapa para ampliar

Jornais online não deixaram de enriquecer sua galeria com fotos do raro acontecimento. Entre outras, aqui está a do Nouvel Observateur, de Paris. Com um certo humor, relatam que a gigantesca imagem acidentada teve de levar pontos de sutura.

É voz corrente que o Brasil é o país onde o maior número de raios atinge o solo. Deve ser verdade. Esse fenômeno elétrico é muito mais frequente em zonas equatoriais e tropicais do que no resto do globo. O Brasil está situado entre equador e trópico. Além disso, é dono de imenso território. Portanto, a afirmação faz sentido.

Imigrante não se engana

Janer Cristaldo (*)

Ano passado, me escrevia um leitor: “às vezes dá vontade de ir embora deste país. Afinal, Janer, se você pôde viver em Paris, Madri e Estocolmo, por que decidiu voltar para esta terra de apedeutas, comunistas, fanáticos, et caterva?”

Expus minhas razões. Saí para não voltar. Não fui expulso do Brasil. Saí e voltei pela porta da frente. O que me irritava era aquela imagem de país do carnaval e do futebol. Em Ponche Verde, narro, em tom de ficção, minha resposta ao policial que me ofereceu asilo na Suécia:

― Ah! Então o senhor quer asilo político?

― Oh não, jag ska tacka nej(1), como pode muito bem ver Herr Konstapel(2), nesse formulário peço apenas uma permissão de estada, agradeço a generosa oferta, que aliás é pertinente. Meu país vive uma ditadura, sei disso, os dias não são os melhores para quem pensa e escreve o que pensa. Mas antes de fugir de ditaduras, Herr Konstapel, estou fugindo do país todo, fujo exatamente daquilo que para vossos patrícios é sinônimo de charme e exotismo, fujo do carnaval e do futebol, do samba e da miséria, da indigência mental e da corrupção, quero tirar umas férias do subdesenvolvimento, viver em um território onde o homem sofre os problemas da condição humana e não os da condição animal. Muito antes de os militares tomarem o poder, min Herr(3), eu já não suportava os civis.

Imigração 3― Veja o senhor, meu povo morre de fome e todos sorriem felizes e desdentados quando um time de futebol bate outro, se bem que a coisa não é assim tão tétrica como a pinto, veja bem, lá também existe luxo, requinte, hotéis que talvez fizessem inveja aos de vosso rico país, mansões de sonho isoladas da miséria que as envolve por arames farpados, guardas e cães, há cronistas sociais que acendem charutos com notas de cem dólares e homens catando no lixo restos de podridão para comer. E não fujo só do Brasil, Sr. Policial Superdesenvolvido, fujo também de minha condição de jornalista, pertenço a uma classe que se pretende de esquerda e entorpece multidões com doses cavalares de… futebol.

― Em minha cidade ― não sei se o chateio com estes dados ― há questão de uma década um sociólogo calculou em trinta mil o número de prostitutas, só não sei se havia repertoriado em suas estatísticas meus colegas de ofício. Penso até mesmo que a profissional de calçada tem mais dignidade, ela aluga por instantes o corpo, mantendo o espírito livre, enquanto nós vendemos corpo, alma e opiniões, o mais livre dos jornalistas não é livre coisa alguma, o jornal pertence ao chefe, nossos pensamentos também, os mais nobres ele os joga na cesta de lixo, publica os lugares comuns humanísticos na página dos editoriais e posa de liberal. Sim, sei que isto não vem caso neste pedido de permissão de estada, bosätningstillstand como dizem os senhores, é que para expor minhas razões tenho de dar-lhe uma idéia do Brasil, pretensão aliás inviável, já que nem eu entendo aquele país.

Imigração 2Acabei voltando, apesar do carnaval, copa e miséria. Em primeiro lugar, havia uma mulher que me chamava poderosamente no Brasil. Ela valia mais, para mim, que a Europa toda. Há quem troque uma pessoa querida por um país. Eu não troco.

Em segundo, os suecos me queriam para trabalho de imigrante, o que meu orgulho me impedia. Não lavo pratos nem em minha casa, não iria lavar pratos para o Primeiro Mundo. Disputei uma vaga como jornalista na Sveriges Radio. Tinha dois cursos universitários, dois anos de trabalho em jornal. A vaga é minha, pensei.

Não era. Eu não era de esquerda. Se não conseguia trabalhar em profissão decente, melhor voltar. Considero que ganhar pouco no Brasil em um trabalho compatível com as próprias capacidades é bem melhor ― e mais digno ― do que fazer tarefa de imigrante no estrangeiro, mesmo ganhando mais. Há quem prefira ganhar mais. Não é meu caso.

Em terceiro, em país estrangeiro, você será sempre um cidadão de segunda categoria, ainda que viva melhor que no Brasil. Sempre que criticar o país ― e críticas, você sempre as terá ― poderá ouvir de bate-pronto: por que então você não volta para seu país?

Havia uma outra razão, e das mais estranhas. Era como se eu necessitasse, naquele país habitado por deusas, de um pouco de feiura e imperfeição. Saudades de uma negra gorda carregando um balaio na cabeça. Nem sempre são inteligíveis os ímpetos que acometem um ser humano.

(*) Janer Cristaldo Ferreira Moreira (1947-), escritor, romancista, ensaísta e tradutor gaúcho. Edita o site cristaldo.blogspot.com

Dicas minhas:
(1) Jag ska tacka nej = Não, obrigado
(2) Herr Konstapel = Senhor Agente (de polícia)
(3) Min Herr = Meu Senhor

A omelete e os ovos

José Horta Manzano

A alegria de uns…
Curvados e contritos, alguns grandes deste mundo estão à cabeceira da moribunda Síria. Tentam pôr-se de acordo para salvar o que ainda puder ser salvo.

Não é a primeira vez que se reúnem para esse mesmo fim, mas a gente sempre espera que seja a última. Torcemos todos para que se alcance um compromisso que garanta aos diferentes estratos do infeliz povo sírio uma convivência pacífica. Atritos e tensões sempre haverá, não nos enganemos. Mas tomara que cheguem a um acordo para, pelo menos, mitigar o conflito. Inshallah!

Se isso acontecer, os homens de boa-vontade se alegrarão. Na Síria e no resto do mundo.

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… e a irritação de outros
Não se faz omelete sem partir ovos ― dizem os portugueses. Para juntar um punhado de figurões, é preciso cautela e extrema vigilância.

Não por acaso, as autoridades suíças estão habituadas a acolher mandachuvas. A cidade de Genebra abriga, entre outros organismos, a sede europeia da ONU, a OIT (Organização Internacional do Trabalho), a OMM (Organização Meteorológica Mundial), a OMS (Organização Mundial da Saúde), a UIT (União Internacional das Telecomunicações), a UPU (União Postal Universal), o CICR (Comitê Internacional da Cruz Vermelha), a OMC (Organização Mundial do Comércio). E muitas outras menos conhecidas, sem contar as embaixadas, legações, consulados e missões permanentes.

Conferência Genebra II Crédito: AFP, Fabrice Coffrini

Conferência Genebra II
Crédito: AFP, Fabrice Coffrini

Gente importante vem e vai todos os dias, mas há dias mais especiais que outros. As reuniões da Conferência Genebra II, sobre o problema sírio, chamam a atenção do mundo inteiro. Portanto, todo cuidado é pouco para evitar atentados ou qualquer tipo de perturbação.

Apesar do nome, o encontro não se realiza em Genebra, mas em Montreux, pequena cidade turística à beira do Lago Leman, uma centena de quilômetros mais adiante. O pequeno burgo está em polvorosa. O Palace Hotel, palco das reuniões e lugar de hospedagem de várias comitivas, foi tomado de assalto. O tráfego está perturbado, as redondezas bloqueadas, ninguém pode se aproximar a menos de 100m do local. Parece praça de guerra.

Montreux Palace Hotel

Montreux Palace Hotel

Alguns comerciantes estão furiosos, porque simplesmente não terão movimento estes três dias. A farmácia, o salão de beleza, os pequenos comércios situados nas proximidades do hotel não têm chance nenhuma de ver entrar algum cliente. Estão até preparando um pedido de indenização à prefeitura.

Vamos torcer para que os frutos sejam bons: que a conferência seja um sucesso e que os comerciantes de Montreux recebam uma compensação pelo prejuízo. Não será fácil ― nem para estes, nem para aqueles.

Frase do dia — 85

«Pasmem: o Brasil está importando etanol dos Estados Unidos! O país que inventou o Proálcool, pátria dos veículos flex, o maior produtor mundial de cana-de-açúcar, anda de marcha à ré no combustível renovável.
(…)
Lula, em nome do populismo, destruiu uma das maiores invenções brasileiras. As importações de etanol de milho do Brasil configuram o maior fracasso mundial de uma política pública na área da energia renovável.»

Xico Graziano, agrônomo e antigo secretário da Agricultura e do Meio Ambiente (SP), in Estadão 21 jan° 2014.

Mais alto é o coqueiro…

José Horta Manzano

Quando as condições de vida melhoram, a gente tem tendência a esquecer rápido dos tempos em que batalhava para sobreviver. Uns mais, outros menos, todos nós temos esse pendor.

No tempo das vacas magras, países europeus passaram apertado. Na esteira de demografia galopante, de colheitas perdidas, de conflitos intermináveis, nem sempre tinham com que alimentar seus filhos. Foi quando as Américas receberam ― de bom grado ― imigrantes dos quatro cantos da Europa, na maioria gente desvalida, de pouco ou nenhum estudo, de escarsa formação profissional.

Coqueiro torto

Coqueiro torto

O tempo passou e o cenário se inverteu. Os países ibéricos, desde que descartaram seus respectivos ditadores, puderam aderir à União Europeia. Na garupa dessa junção, foram agraciados com investimentos, empréstimos sem obrigação de reembolso, dinheiro a rodo. De repente, se sentiram ricos e logo esqueceram os tempos de penúria quando tinham de exportar povo.

O novo status atraiu estrangeiros em busca de vida melhor. Surpreendentemente, esses novos imigrantes foram mal recebidos. A riqueza caída do céu havia transformado os povos recém-enriquecidos em novos-ricos de escassas qualidades e pesados defeitos. Conterrâneos nossos ― às vezes intelectuais que vinham para um curso ou uma conferência ― foram barrados como clandestinos, escorraçados e despachados de volta ao Brasil. Uma vileza.

A sabedoria popular diz que tudo o que sobe tem de descer um dia. A crise financeira fez que a bolha ibérica, sustentada principalmente pelo imobiliário, estourasse. O que era vidro se quebrou. O milagre se dissolveu e os novos-ricos voltaram a empobrecer. Hoje são eles que batem à nossa porta. E serão bem recebidos, que brasileiro não é gente rancorosa.

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A família de um dos condenados no processo do mensalão apelou para a caridade pública para ajudá-los a pagar a multa aplicada ao patriarca pelo STF. Organizaram uma vaquinha. Ninguém jamais saberá se houve doadores ou não. A esse respeito, guardo reserva ― fico com um pé atrás, como diz o outro. Tenho dificuldade em imaginar alguém enfiando a mão no bolso e tirando uma esmola para «ajudar» um figurão da política nacional.

Seja como for, vale o que já diziam os antigos: nada como sentir na carne a dor alheia. Enquanto viajava por cima da carne-seca, durante os 20 anos em que foi deputado federal, o mandachuva, que se saiba, não apresentou projeto de lei visando a mitigar o dia a dia dos encarcerados. Agora, que passou por lá, tomou consciência do problema e decidiu que o excedente recolhido na vaquinha será destinado a reformar estabelecimentos penitenciários.

Coqueiro alto Crédito: Baixaki

Coqueiro alto
Crédito: Baixaki

Por feliz coincidência, o valor arrecadado ultrapassa ― de bem pouquinho ― o montante exigido pela Justiça. Num gesto magnânimo, o condenado abriu mão desses trocados. Todos os jornais noticiaram. Palmas para ele.

Como se diz na França, «à quelque chose, malheur est bon». Não me ocorre um equivalente em nossa língua. Vale dizer que, pelo menos, as vicissitudes do medalhão terão servido para alguma coisa.

Frase do dia — 84

«As embalagens são pequenas, mas o preço é king size. Não são trufas raras, temperos exóticos ou produtos de alta tecnologia que podem assustar o consumidor, mas itens do dia a dia. Um cartucho de tinta de módicos 2ml para uma impressora HP em cores sai por R$ 25. Em princípio, nada demais. O assombro surge quando se calcula o preço da tinta por litro: R$ 12.500, montante suficiente para comprar mais de cem gramas de ouro ou dois bilhetes de ida e volta Rio-Paris, além de duas garrafas de champanhe Veuve Clicquot (adquiridas no Brasil), com direito a algumas comprinhas. Contrariando a lógica mercantil, o preço da tinta é de tal ordem que, com o valor de um litro, podem-se comprar 50 impressoras para a qual ela é feita.»

Clarice Spitz, in O Globo, 19 jan° 2014.

Buracos fascinantes

O globo conta com fenômenos insólitos, lugares encantadores, montanhas prodigiosamente elevadas. Há também buracos impressionantes. Aqui vai um apanhado de cinco dessas maravilhas.

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The Big Hole
Está situado em Kimberley, África do Sul. Com profundidade de 1097 metros, supõe-se que seja o maior buraco já escavado pela mão do homem. Cerca de 3 toneladas de diamantes foram extraídas do local. Exaurida, a mina está hoje desativada.The Big Hole, Kimberley

The Big Hole, Kimberley

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The Glory Hole
Fica na Represa Monticello (Califórnia, EUA). É o maior escoadouro do mundo. Engole 1400 m³ d’água por segundo.

The Glory Hole, Monticello, California

The Glory Hole, Monticello, California

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The Blue Hole
O Grande Buraco Azul localiza-se 80km ao largo da costa de Belize (antigamente Honduras Britânico), na América Central. Há outras formações de mesmo tipo no planeta, mas este é especialmente encantador.

The Blue Hole, Belize

The Blue Hole, Belize

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A cratera da Guatemala
Em 2007 esse buraco enorme se abriu espontaneamente. Até hoje, ninguém conseguiu dar uma explicação convincente. Doze casas e três pessoas foram tragadas no desastre.

Buraco Guatemala 1

A cratera da Guatemala

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O Buraco Preto
Situado em Brasília (Brasil), é um dos maiores buracos do mundo. Anualmente dá sumiço a bilhões de reais pagos com nossos impostos. Um sorvedouro digno de figurar no Guinness Book of Records.

The Black Hole, Brasília, Brazil

The Black Hole, Brasília, Brazil

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As entranhas

José Horta Manzano

Exatamente no dia de Natal, faz quase um mês, o Estadão publicou um artigo assinado pelo professor Zander Navarro, sociólogo e antigo docente da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

A data de publicação não foi a mais propícia. Acredito que muita gente possa ter deixado de ler. O texto, sintomático da atual realidade brasileira, não merece cair no esquecimento. É por isso que lhes dou hoje o endereço. O título é As entranhas do bolsismo. Transcrevo aqui um parágrafo:

Interligne vertical 12«Em Salvador, uma candidata a empregada doméstica foi entrevistada na casa da senhora contratante. Acertados o salário e os horários de trabalho, ela impôs uma inesperada exigência: não queria ter a Carteira de Trabalho assinada. Diante da surpresa, explicou que se for assim perderá o “auxílio-pesca” que recebe há quase dez anos. “Mas você é pescadora?” Ela riu e disse que nunca fez isso, mas em seu município de origem todos recebem o benefício federal, mesmo não sendo pescadores. Mora com o marido na capital, mas mantém o endereço anterior para continuar beneficiária. Pretendem se mudar para a cidade de Conde, pois lá ofereceriam adicionalmente uma cesta básica por mês.»

Pronto, o tom está dado. Clique aqui para ler o texto integral.

Frase do dia — 84

«Não deixa de ser paradoxal que o governo brasileiro, que vem respeitando há pelo menos 20 anos os cânones do capitalismo, precise deslocar-se a Davos para vencer resistências, ao passo que o Irã, cujo confronto com o Ocidente é o mais agudo de todos os países mais ou menos relevantes, se faz cortejar.»

Clóvis Rossi, colunista e membro do Conselho Editorial da Folha de São Paulo, 14 jan 2014.

O ninho vazio

Ruy Castro (*)

Uma amiga está triste porque sua filha se mudou para Nova York. Foi estudar na Universidade Columbia e não deve voltar tão cedo. O filho mais velho, também há pouco, foi trabalhar em outra cidade. Os dois moravam com ela. De repente, minha amiga ficou sozinha em casa. Está passando pela “síndrome do ninho vazio”, uma figura da psicologia para definir a depressão que se apossa de alguns pais –ou, quase sempre, mães– quando seus filhos vão à vida.

Passarinho 1

Lola & Lolita

Estava pensando nisso quando, pouco antes do Natal, percebi certos movimentos alados no terraço. Uma rolinha ia e vinha, com matinhos no bico, e pousava numa viga alta do caramanchão. Mesmo à distância, constatei que estava construindo um ninho. No Natal, o ninho ficou pronto. Ela sossegou e sentou-se nele pelos dias seguintes. Batizei-a de Lola, a Rola, e saboreei a expectativa de, em breve, ser avô.

Não entendo de passarinhos, mas calculei que, por sua circunspecção no ninho, Lola devia estar sentada sobre três ou quatro ovos –e, se assim fosse, merecia respeito pelo que lhe devia ter custado botá-los para fora. Mas Silvania, minha funcionária, aproveitou-se da temporária ausência de Lola –numa das poucas vezes em que ela saiu, certamente para ir às compras–, subiu a um banquinho, espiou o conteúdo do ninho e me informou de que eu era avô de um único ovo.

Bem, não sejamos soberbos, um já estava bom. Dias depois, constatamos que, em certos momentos, o rabo e a cabecinha para fora do ninho eram menores. O bebê nascera. Dei-lhe o nome de Lolita, a Rolita, e esperei que ela e sua mãe nos brindassem com algumas piruetas, mesmo desajeitadas, como parte do aprendizado aéreo de Lolita.

Que nada. Ontem, Lola, a Rola, e Lolita, a Rolita, foram embora bem cedo. E sem se despedir. Agora entendo a síndrome do ninho vazio.

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(*) Ruy Castro (1948-) é escritor e jornalista. O texto acima transcrito foi publicado pela Folha de São Paulo em 17 jan° 2014.

Frase do dia — 83

«A produção caiu, o crescimento do Produto Interno Bruto é pífio, as reservas diminuíram e os deficits explodem por todos os lados. Pesa no bolso do consumidor quando ele descobre que as liquidações pós-Natal são mentirosas, que as taxas de juros estão na estratosfera e que cada vez há mais mês no final do salário. Alguém precisa informar a verdade à presidente.»

André Gustavo Stumpf, in Correio Braziliense 18 jan° 2014

Um vice-ministro, por favor!

José Horta Manzano0-Sigismeno 1

Sigismeno, que ― apesar de suas limitações ― se esforça por aprender, entendeu para que serve um vice. Vice-presidente, vice-prefeito, vice-governador, essas coisas.

Meu amigo não está totalmente de acordo com esse instituto. Acha que podia ser importante no século XIX, quando a ausência do titular por motivo de viagem, por exemplo, podia se estender por meses. Na falta de telefone, rádio, satélite, fax, era importante que a autoridade do figurão ausente fosse incorporada por uma pessoa.

Já nos dias de hoje, Sigismeno acha que não faz mais sentido manter essa prática empoeirada. Um vice funciona alguns dias por ano, mas é remunerado como se trabalhasse em tempo integral. Tem direito a mordomias e, conforme o caso, goza de seu ócio num palácio sustentado por nosso dinheiro. Meu amigo acha que essa história de viver em palácio é coisa do «Ancien Régime», realidade que já foi ― ou já deveria ter sido ― varrida desde os tempos da Revolução Francesa.

O presidente sem vice

O presidente sem vice

Estes dias, Sigismeno ficou sabendo que um dos condenados do mensalão, um daqueles cujo destino para o xadrez já está irremediavelmente traçado, não pôde ainda ser preso em razão das férias do presidente do STF.

Meu amigo não entendeu bem a situação. Como é que é? Com que então, o vilarejo de Santo Epaminondas do Brejo tem vice-prefeito para substituir o titular quando se ausenta e… o STF não tem? A mais alta instância do Poder Judiciário nacional depende da presença física de uma só pessoa?

Sigismeno cogitou. E constatou que delegados de polícia não precisam de provas nem de sentença transitada em julgado para trancafiar suspeitos atrás das grades. Ao mesmo tempo, um indivíduo condenado definitivamente pela corte suprema não pode ser preso porque um figurão saiu de férias. Pode?

Não, não pode. Como de costume, tive de concordar com o Sigismeno.

Florilégio de humor ― 3

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by Amarildo Lima, desenhista capixaba

by Amarildo Lima, desenhista capixaba

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Made in China by Élcio Prado, desenhista paulista

Made in China
by Élcio Prado, desenhista paulista

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by René Hovivian, desenhista francês

by René Hovivian, desenhista francês

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By Pawel Kuczynski, desenhisa polonês

By Pawel Kuczynski, desenhisa polonês

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by Renado Luiz Campos Aroeira, desenhista carioca

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by Pawel Kuczynski, desenhista polonês

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É urgente! Temos o manual de instruções do sofá-cama? by Clive Collins, desenhista inglês

É urgente! Temos o manual de instruções do sofá-cama?
by Clive Collins, desenhista inglês

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Vamos montar uma ong?

José Horta Manzano

Fiquei sabendo que dona Marta, aquela senhora de ares arrogantes que um dia foi prefeita da cidade de São Paulo, foi condenada por haver cometido pecado de improbidade administrativa durante sua gestão. Eu disse condenada? Tudo é relativo. Agora chegou a hora do jus esperneandi, como costuma acontecer no Brasil. Recursos, medidas protelatórias, embargos infringentes, embargos postergantes, o diabo.

Os fatos ocorreram há já doze anos. Pode contar mais uns dez até que a decisão transite em julgado. Até lá, a antiga alcaide ― que completa 69 aninhos dentro de exatos dois meses ― já será anciã e fará jus à doçura que nossa lei devota aos velhinhos.

Mas deixe estar. Aquela cuja biografia já estava marcada pela ousadia vulgar e debochada do «relaxa e goza» acrescentou mais uma missanga a seu colar de impropriedades. A História se encarregará de guardar memória.

E o vento levou...

E o vento levou…

Seu crime? Ter contratado, sem licitação, os serviços de uma ong da qual era sócia fundadora. Por uma quantia próxima de 200 mil reais ― valores de 2004. Não precisa ser jurista para se dar conta da promiscuidade dessa trama.

Nessa mísera história, o que mais me perturba não é o fato de dona Marta ter patrocinado uma ação entre amigos. O que não consigo entender é que a lei permita ao Executivo contratar serviços de ongs contra remuneração. Pior que isso, mais abismado fico com o desprendimento, a desenvoltura e a despreocupação com que nossos governantes doam milhões do nosso dinheiro a organizações nebulosas, saídas não se sabe de onde, que brotam feito mato depois da chuva.

Organizações não governamentais, por definição, têm de estar desligadas e bem afastadas de governos. Que andem com suas próprias pernas e que vicejem por seus próprios meios. Irrigá-las com dinheiro público é porta escancarada a corrupção e a desvios. Um desatino.