Conspiracionismo

José Horta Manzano

Tenho uma amiga que fazia anos que eu não via. Dia desses nos reencontramos. Conversa vai, conversa vem, depois dos patati e patatá, ela solta a pergunta:

– Você se vacinou?

– Vacinou? Contra o quê?

– Contra a covid.

– Ah, claro! Tomei as quatro doses assim que saíram na praça.

– Pois eu não me vacinei – me diz ela.

– Não? E por que não?

– Sou antivacina.

– Hã? Antivacina? Você está brincando, né?

– Brincando nada. Você não percebeu que essa história de covid é um grande engodo? Pra começar, essa epidemia não foi tão séria quanto a mídia quer nos fazer crer, foi bem mais suave. Não morreu tanta gente assim, só pessoas que já tinham doenças graves. Tanto a covid quanto a vacina fazem parte de uma grande conspiração para diminuir a população do planeta!

– Não posso imaginar que você acredita nessas teorias conspiracionistas.

– Veja bem: todos os que se vacinaram acabaram pegando a doença. Quer prova maior?

Estonteante, não? Em pleno 2023, quase quatro anos depois que a epidemia surgiu, tem gente negando que ela tenha existido. E garantindo que tudo não passou de uma tentativa de diminuir a população do planeta. Barbaridade!

Eu sabia que havia algumas bolhas de indivíduos conspiracionistas, mas não imaginei ter um espécime a meu redor.

E olhe que a amiga em questão não é uma pessoa atrasadona. Já está na idade madura, casou, teve filhos, descasou, viajou muito, morou em três ou quatro diferentes países, fala línguas, continua viajando duas ou três vezes por ano para passar uns tempos com uma filha que vive num país da Ásia Central, daqueles que terminam com “istão”.

Considerando esses antecedentes, percebo que ideias conspiracionistas podem germinar em qualquer um. Isso explica a quantidade de gente que segue ideias de extrema direita. Pensamentos estranhos podem ocorrer a gente normal, sem problemas, de boa formação cultural, com diploma no bolso e nome na praça.

Ignoro qual seja o mecanismo que leva a pessoa a negar a existência de fatos evidentes. Mas há muito negacionista por aí. Há quem afirme que as câmaras de gás dos campos de concentração nazistas jamais existiram. Há quem acredite que Getúlio Vargas não morreu em 1954. Há ainda quem jure que o acidente de carro que matou Juscelino Kubitschek em 1976 foi atentado.

Para qualquer fato real, sempre aparecerá quem o negue, ainda que se trate de evidência documentada, fotografada, gravada, comprovada, jurada e sacramentada. Daqui a algumas décadas, ainda é capaz de aparecer que acredite que a guerra na Ucrânia nunca existiu, que tudo não passou de escaramuças de fronteira, combates sem importância.

Zé Gotinha e a vacinação

José Horta Manzano

Desde a Antiguidade até meados do século passado, a poliomielite (paralisia infantil) fez muito estrago. Trata-se de doença infecciosa e contagiosa causada por um vírus específico aos humanos. Em suas formas mais benignas, deixa sequelas de deformação ou paralisia dos membros inferiores; suas formas mais agressivas podem até levar à morte do paciente.

Não se sabe ao certo por que razão, essa doença recrudesceu a partir da urbanização e da industrialização. Desde o início do século 20, surtos de poliomielite passaram a assombrar o mundo, principalmente as grandes cidades. A ciência se debruçou sobre o problema e passou a buscar uma imunização.

Nos anos 1950, as primeiras vacinas eficazes apareceram no mercado americano. Chegaram em boa hora pois, só no ano de 1955, a paralisia infantil tinha contagiado 60 mil crianças americanas. Logo no ano seguinte, teve início a primeira campanha de vacinação, com aplicação da vacina desenvolvida pela equipe do doutor Jonas Salk.

Estranhamente, a adesão popular foi mais baixa do que se esperava. Principalmente entre os meninos: apenas 0,6% deles espicharam o braço. Medo da picada? É bem capaz.

Foi quando o governo americano pensou num estratagema. O artista do momento era Elvis Presley, ídolo de todos os jovens, especialmente dos meninos. O cantor foi convidado a se apresentar no Ed Sullivan Show, popular programa de televisão da época. Um terço dos americanos largaram tudo pra assistir ao show. Quem é que havia de perder uma passagem na tevê de um Elvis na flor de seus 20 anos?

Só que o artista não tinha vindo para cantar, mas para tomar a vacina contra a pólio, ao vivo, diante do país boquiaberto. Sem luvas, como se fazia à época, um médico aplicou a injeção no galã. Seis meses depois, a adesão dos meninos à vacina subiu a 80%.

Em nossa terra, em questão de vacina, Bolsonaro refugou. Mas o Lula, que parece não ter tanto medo de picada, podia aproveitar a ideia. Reforçar o Zé Gotinha com ídolos da garotada (e das mães da garotada também). Elvis Presley já se foi, mas hoje temos um vasto leque de possibilidades. Há “influencers”, cantores, atores de novela, futebolistas.

A proteção da população contra doenças infecciosas passa pela vacina, quando há. É interesse de todos que a meninada cresça com saúde. Traz alegria e alivia os gastos com o SUS.

Burrice?

José Horta Manzano

Advertência
Este artigo foi escrito antes do pedido de desculpas feito no domingo pelo capitão.


 

Quando a burrice é demais, a gente desconfia que alguma coisa está errada.

Bolsonaro passou seus quatro anos de mandato escancarando sua ignorância e sua lentidão mental. Em certos momentos, sua lerdeza de raciocínio pareceu tão exagerada que muita gente acreditou que ele estivesse forçando a caricatura. Não estava. As revelações sobre sua trama de dar golpe de Estado para permanecer no poder provam o contrário: não havia intenção de parecer mais burro do que era; o que ele desejava ardentemente era tomar as rédeas do país à força.

Só que, como diria o outro, aquilo foi o “antes”, e agora estamos no “depois”.

Com parte da curriola atrás das grades e generais varridos do primeiro plano, a realidade aparece em sua crueza: golpe, não haverá. O ex-presidente poderá se considerar premiado se conseguir escapar à Papuda. Não há mais motivo para se fingir de bobo.

Ora, bem. A cinco dias de um julgamento crucial para ele, o capitão continua surpreendendo adeptos e detractores. Numa cerimônia partidária realizada em Jundiaí (SP), Bolsonaro declarou:

“Agora vocês vão cair pra trás. A vacina de RNA tem dióxido de grafeno, tá. Onde ele se acumula segundo a Pfizer que eu fui lá ver aquele trem lá, no testículo e no ovário. Eu li a bula.”

Esclarecimento
A vacina de RNA da Pfizer é uma das que estão sendo utilizadas no Brasil. Sua bula não menciona nenhum composto de grafeno.

Logo, a declaração é mentira cabeluda, daquelas de fazer o nariz crescer daqui até a esquina. Qual é a intenção do capitão? O julgamento da semana que vem tem por objeto aquele malfadado dia em que Bolsonaro convocou embaixadores do mundo todo para contar-lhes uma baciada de mentiras sobre o funcionamento das urnas brasileiras. Se o tribunal concordar com a tese de que o então presidente espalhou feiquiníus que causaram dano à imagem do país, a pena será a cassação de seus direitos políticos (não poderá votar nem ser eleito por 8 anos).

Sua burrice, por mais arraigada que seja, não o impede de perceber que está na corda bamba. Se ainda tem esperança de escapar à condenação, o mínimo a fazer seria não provocar os magistrados que vão julgá-lo.

Em vez disso, Bolsonaro deu mais um giro na morsa que lhe estrangula o futuro político. Por quê?

Tenho cá minha ideia. Talvez o capitão esteja se projetando nas eleições presidenciais de 2026. Talvez entenda que, com as correntes que arrasta, será quase impossível ser de novo eleito. Pra não passar vergonha, prefere que lhe cassem o direito de ser candidato desde já, assim permanecerá como eminência parda de seu partido, sem ter a obrigação de passar pelas urnas para demonstrar força.

Se for isso, até que não é má ideia. Vai continuar recebendo polpudo salário do partido (mais as aposentadorias que acumula), vai continuar residindo em palacete protegido e vigiado, vai continuar usufruindo as regalias de ser ex-presidente. E não precisará provar que é bom de voto. Não é um futuro de paxá?


Nova conclusão
No dia seguinte à declaração, Bolsonaro veio às redes pedir desculpas pelo que disse. Alegou que, sendo ele entusiasta do grafeno, acordou com um nó na cabeça. Acabou misturando algo de que gosta (o grafeno) com algo que odeia (a vacina). E deu no que deu.

Com a ressalva de o ex-presidente ter feito seu pronunciamento sob “efeito de medicamentos”, como já alegou no passado, a nova conclusão é inescapável: o homem é burro mesmo. De uma burrice profunda, congênita, paralisante e afligente.

Eu não imaginava que seu déficit de raciocínio chegasse a esse ponto, mas sinto que não tem jeito. O homem é de uma burrice irremediável.

O mundo está de olho

José Horta Manzano

Estes últimos anos, nosso país tem sofrido terremotos político-policiais um atrás do outro. São escândalos frequentes e variados que, frequentemente, envolvem figuras políticas de projeção.

Os quatro anos da gestão de Bolsonaro foram pródigos nessa matéria – o capitão nunca nos deixou na mão por falta de assunto. O nome do Brasil ecoou (e muito!) fora do país, e passeou pelas manchetes em letras constrangedoramente grandes.

No entanto, veja você como são as coisas, o escândalo dos falsos certificados de vacina bateram todos os recordes. Embora, à primeira vista, pareça um caso menor, a repercussão tem sido planetária. Acredito que, se tivesse surgido logo no começo do mandato do capitão, não tivesse alcançado as manchetes; mas tendo surgido agora, que o mundo inteiro já conhece bem o personagem, o caso está fazendo sucesso. Está bombando, como convém dizer neste mundo de narrativas.

Procurei, nos jornais estrangeiros, as notícias do caso dos certificados falsos. Fui colecionando, separados por língua. Contei-as: uma, duas, três, etc. Chegando a dezessete, cansei e parei. Confesso que nunca tinha encontrado antes relato de nossos dramas em vietnamita ou em romeno. Pois desta vez, encontrei.

Mostro, a seguir, uma resenha. Se o distinto leitor planeja viajar para a Hungria, a Turquia ou a Indonésia, aconselho a não dar muita bandeira (entenda “bandeira” no sentido que quiser). É pra não passar vergonha.

Alemão
Casa revistada atrás de dados do Corona

Inglês
Casa revistada enquanto Brasil investiga cartões de vacina falsos

Francês
Perquisição na casa de Bolsonaro, suspeito de falsificação de certificados vacinais

Italiano
Green pass falsos para contornar proibições anticovid: casa de Bolsonaro perquisicionada

Sueco
Residência de Bolsonaro revistada pela polícia

Español
Polícia faz buscas na casa do ex-presidente, numa investigação de sua vacinação contra a covid

Húngaro
Casa de Bolsonaro revistada e seu celular apreendido

Polonês
Bolsonaro falsificou registros de vacinação? Polícia prende colaboradores do ex-presidente

Indonésio
Polícia brasileira faz buscas na casa de Bolsonaro e detém assessor

Tcheco
A polícia fez buscas na casa do ex-presidente do Brasil, Bolsonaro. Eles estão investigando um fraude de vacinação contra a covid

Eslovaco
Polícia faz buscas na casa do ex-presidente brasileiro Bolsonaro por fraude na vacinação

Lituano
Polícia brasileira faz buscas na casa de Bolsonaro e apreende seu celular

Romeno
Investigação sobre falsas vacinas anti-COVID no Brasil/ A polícia faz buscas na casa do ex-presidente Jair Bolsonaro e confisca seu telefone celular

Vietnamita
Polícia brasileira revista casa do ex-presidente Bolsonaro

Turco
Operação contra o ex-presidente brasileiro Bolsonaro

Grego
Batida policial na residência de Bolsonaro – Prisão de dois assessores

Esloveno
Polícia faz buscas na casa de Bolsonaro em razão de certificado de vacinação contra a covid-19

Busca e apreensão

José Horta Manzano

Muito esquisita a “breaking news” desta manhã de quarta-feira. Numa operação de busca e apreensão levada a cabo logo cedinho pela Polícia Federal, o braço direito do então presidente Bolsonaro, um tenente-coronel do Exército, foi preso preventivamente (por tempo indefinido). Outros personagens foram também levados de camburão. A residência de Bolsonaro, num condomínio de luxo de Brasília, sofreu perquisição que terminou com seu telefone celular sendo apreendido.

Oficialmente, a operação foi lançada para desmascarar e botar atrás das grades uma quadrilha de falsificadores de documentos públicos. Mais de quinze pessoas são acusadas de envolvimento na produção de falsos atestados de vacinação contra a covid. Parte da quadrilha estaria homiziada no próprio Palácio do Planalto na época em que Seu Jair era o dono do pedaço.

Tudo isso me parece um tanto estranho. Com tantas acusações de crime grave pesando sobre os ombros do ex-presidente, a PF preferiu deflagrar essa operação para investigar um crime francamente menor. Fraude em documento público pode dar até 4 anos de cana, mas cumplicidade na morte de centenas de milhares de cidadãos no auge da pandemia pode resultar em pena bem mais pesada.

Por que isso agora? A oposição dirá que é perseguição contra o cândido ex-presidente, alma boa e pura incapaz de fazer mal a um pernilongo. É verdade que o capitão deixou atrás de si um rastro de inimigos, de gente a quem insultou gratuitamente e que hoje não o olham com simpatia. Mas deixou também um rastro de atos e gestos indecorosos e criminosos que ainda hão de persegui-lo por anos.


Num primeiro momento, me ocorrem algumas reflexões.

Quando a pandemia se alastrou e pegou feio, o que todos queriam era esticar o bracinho pra receber a vacina salvadora – incluindo extremistas zumbificados. Até um general palaciano foi acusado de se ter vacinado escondido. Portanto, não faz sentido uma quadrilha se formar dentro do Planalto para emitir certificados de vacinação falsos.

Certificados para quem? Quando Bolsonaro esteve em Nova York para discursar na ONU, fez questão de apregoar seu status de não vacinado. Todos se lembram daquela cena surreal em que o chefe do Estado brasileiro e seu entourage aparecem mordiscando um triângulo de pizza gordurosa, com as mãos, todos de pé numa calçada nova-iorquina. Tanto ele não tinha sido vacinado, que não pôde entrar no restaurante. E se orgulhou disso. Ele, portanto, não precisava de certificado falso.

Por que, então, a operação de hoje?

1) A primeira possibilidade seria investigar a fundo e demonstrar que, apesar de afirmar o contrário, Bolsonaro se vacinou, sim, contra a covid. Nesse caso, imagina-se que ele sairia desmoralizado desse episódio perante seus adeptos. Não me parece que provar que ele se vacinou fizesse algum efeito. Os que não apreciam o capitão, não estão nem aí para seu estatuto vacinal; já seus zumbificados adeptos, que vivem num universo paralelo, se agarrariam a um pretexto qualquer para não acreditar na história.

2) Outra possibilidade poderia ser jogar holofotes sobre a estada de Bolsonaro nos EUA do fim de dezembro 2022 até fim de março 2023. Na ida, entrou no país em avião oficial, na qualidade de chefe de Estado estrangeiro, personagem de quem não se costuma pedir documento. No entanto, dois dias depois, ao fim de seu mandato, deixou de ser chefe de Estado e passou à condição de turista. Tendo assim perdido as prerrogativas, transformou-se em simples mortal, como qualquer um de nós. Foi nesse momento que o capitão entrou para a clandestinidade. A lei americana exige que todo visitante estrangeiro esteja vacinado. Bolsonaro não estava e nada fez para regularizar a situação.

Será que a PF está sugerindo às autoridades americanas que convoquem o capitão para esclarecer o caso? Se ele desdenhar do processo americano, acabará sendo julgado à revelia e poderá pegar 10 anos de cadeia entrar na lista vermelha da Interpol, o que o condenará a não mais sair do Brasil e a passar os próximos anos por aqui à espera do camburão. Será esse o raciocínio da PF?

3) Uma terceira possibilidade tem a ver com o telefone do ex-presidente, que foi apreendido. E se o objetivo maior de toda essa operação fosse simplesmente arrancar o celular das mãos de Seu Jair e mandá-lo para análise? Ele deve conter informações crocantes e apimentadas, daquelas que não saem no jornal. Enquanto estão todos discutindo se Bolsonaro se vacinou ou deixou de se vacinar, a PF está escrutando as entranhas do telefone ex-presidencial.

E como é que fica isso tudo? Veremos. O tempo dirá.

Incoerência

José Horta Manzano

Coerência, em princípio, é artigo raro na sacola do homo politicus. Ainda assim, há casos leves e casos cabeludos. Nosso atual governo federal é especialmente pródigo em incoerências. O que diz o presidente não se escreve, porque amanhã ele pode perfeitamente ter mudado de ideia. E o pior é que, se for questionado, vai negar a mudança de posição, vai se mostrar ofendido e dar de costas, não sem antes agredir o repórter e mandá-lo calar a boca. Ou pior.


Pintinho costuma acompanhar a galinha


Ministros, assessores, aspones e apaniguados procuram mostrar serviço. Há os que se destacam nesse particular. Um deles é o atual ministro da Saúde, senhor Queiroga, discípulo exemplar.

Folha de São Paulo, 18 abr 2022

Ele deu ao mesmo tempo duas mensagens contraditórias. Por um lado, anunciou o fim da emergência sanitária de covid no país; por outro, pontificou que o novo calendário de vacinação só virá após “evidência científica”.

Ora, digo eu, algo está fora dos eixos. Se o novo calendário de vacinação segue a ciência – o que é compreensível e louvável – e só será implantado após confirmação científica, como é possível que a emergência sanitária de covid esteja sendo decretada sem evidência científica? Quem decidiu o dia e a hora? A participação da ciência nessa decisão não está clara.

Pau que dá em Chico costuma dar também em Francisco.


Se a decisão da vacinação passa pela anuência do corpo científico, a confirmação do fim da emergência também tem de passar


Ou será que essa história de “evidência científica” só vale pra protelar a vacinação e assim agradar ao chefe?

Vacina para crianças

José Horta Manzano

Para futuros turistas que se preparam pra visitar determinados países ou regiões, recomenda-se tomar (ou exige-se que tomem) vacina contra doenças como tifo, febre amarela, raiva, hepatite A, poliomielite.

Para crianças, independentemente de qualquer viagem turística, a vacinação é obrigatória ou recomendada para proteger contra bom número de doenças: difteria, tétano, coqueluche, varíola, polio, hepatite B, pneumococos, sarampo, caxumba, rubéola.

Como se sabe, a vacinação dos pequerruchos é coisa corriqueira, sabida e aceita por todos. Não há mãe que deixe de levar seu filho ao médico ou ao posto de saúde pra ser imunizado.

Os mais antigos se lembram de um tempo em que essa proteção simplesmente não existia. Dá impressão de que vivemos hoje num mundo abençoado. Há quem diga que não passa de impressão. Mas essa é uma outra discussão.

Fico abismado – e meus leitores habituais sabem disso – com essa gente que recusa a vacina anticovid. Na Europa, espantosamente, são muitos. É verdade que, no Brasil, são poucos. Felizmente.

Fico boquiaberto com certos cidadãos de miolo mole, em geral apoiadores do capitão, que combatem a liberação da vacina anticovid para crianças. Como é que pode? Levam o filho para tomar vacina contra difteria, tétano, coqueluche, varíola, polio, hepatite B, pneumococos, sarampo, caxumba, rubéola, mas, na hora da vacina contra a maior pandemia que castigou a Terra nos últimos séculos, se afinam. Expõem os próprios filhos – e o resto da família – só pra obedecer à mente doentia do capitão. Não pode ser gente normal.

E tem mais. Não se está impondo nenhuma obrigação de vacinar crianças. O que se propõe é a autorização de vacinar. Ao fim e ao cabo, só vacinará seu filho quem quiser.

Vamos ver como está a situação além-fronteiras. Dia 25 de novembro, a Agência do Medicamento Europeia (que corresponde a nossa Anvisa) autorizou a vacina para crianças na faixa de 5 a 11 anos. Desde então, a Dinamarca e a Áustria já organizaram a campanha de vacina para os pequeninos. Na Alemanha, que é um país federal, como o Brasil, Berlim e a Baviera (Munique) já entraram para o time.

A Hungria – dirigida por Viktor Orbán, colega extremo-direitista de Bolsonaro – vai lançar sua campanha para a vacinação dos 5-11 anos quarta-feira. Na Grécia, os pais de 20 mil pequerruchos já inscreveram os rebentos para a picada, que também começa a partir de quarta-feira.

A Espanha, que está na categoria dos bons alunos no quesito vacinação, também já abriu sua campanha para vacinar os 5-11 anos. Portugal já planificou a imunização dos pequenos: começa esta semana e vai até 13 de março, os de 11 anos primeiro, e pouco a pouco baixando até chegar aos de 5 anos.

A Itália, a Lituânia, a Letônia, a Estônia, a Polônia (dirigida por colegas de Bolsonaro), a Eslováquia, a Tchéquia e a Suíça vão dar partida na campanha de vacinação infantil contra a covid estes próximos dias.

Enquanto isso, no Brasil… nosso respeitado capitão subiu a serra quando ficou sabendo que a Anvisa tinha conferido à criançada o direito de também ser imunizada contra a pandemia. Prometeu publicar, para execração pública, o nome dos diretores e funcionários que autorizaram “essa barbaridade”. O ministro da Saúde Pública, um sabujo interesseiro, repetiu como papagaio o discurso do presidente.

Destoando da covardia que os propósitos absurdos e cruéis de Bolsonaro costumam suscitar, a Anvisa soltou uma nota dura, indignada, inflexível.

Ai, que saudades do tempo em que nossos governantes se empenhavam em amparar os brasileiros, não em os assassinar.

Assessoria indigente

José Horta Manzano

 


Pra que vamos criar problema?


 

O assunto já está na praça há três dias. Tenho de correr pra escrever antes que ele saia da mira. Com o capitão, os escândalos se sucedem, vertiginosos, cada novo episódio condenando o anterior ao esquecimento. A gente tem a impressão de estar sempre correndo atrás pra não perder o bonde.

Sábado passado, o Instituto PoderData publicou o resultado de sua pesquisa sobre a aceitação da vacina por parte dos brasileiros. A pergunta era se o entrevistado já tomou ou pretende tomar vacina contra o coronavírus. Dentre as 3.000 pessoas questionadas – em 489 municípios das 27 unidades federadas ––, somente 2% não souberam ou não quiseram responder à pergunta. As demais responderam afirmativamente. Trocado em miúdos, isso significa que somente 1 em cada 50 habitantes, com 16 anos ou mais, é contrário à vacina. O que se ouviu foi um quase unânime “SIM” nacional.

O povo brasileiro é o mais entusiasta, na América Latina, e quiçá no mundo, com relação à vacina. Dois porcento de ‘vacino-hesitantes’ é praticamente nada. Pode-se concluir que o brasileiro amou a vacina, se jogou em cima dela, abraçou-a, beijou-a, espichou o braço, levou a picada e saiu feliz, pedindo mais.

Dito isso, fica cada dia mais difícil entender o posicionamento do capitão. Não é que, no mesmo sábado em que saiu a pesquisa, ele afirmou ser contrário ao passaporte vacinal exigido de viajantes que chegam do estrangeiro? Soltou frase reveladora: “Pra que vamos criar problema?”

É que, na visão doentia de Bolsonaro, correr o risco de deixar entrar a nova variante mal conhecida do vírus não é problema. Para ele, o verdadeiro problema está em se assegurar que o viajante não está infectado. Pode?

E pensar que, desde que o ser humano vive em comunidade, a função primeira do chefe é justamente a de proteger o grupo. Desde a pré-história, o líder tem sido escolhido por ser capaz de transmitir segurança a seu povo. Bolsonaro prefere importar doença a “criar problema” para viajantes potencialmente infectados.

O capitão não conhece a História da Humanidade. Na escola, pouco aprendeu; durante a vida, nada acrescentou a seu parco capital intelectual. Não consegue se dar conta de que os líderes – bons ou maus – que o povo carregou um dia nos braços foram os que mostraram estar em sintonia com a população. Churchill, Stalin, Hitler, De Gaulle, Mussolini entram nessa conta. Evidentemente, Bolsonaro jamais será membro do clube. Nem dos bons, nem dos maus.

O capitão não perde ocasião pra escancarar sua falta de inteligência. Só dois porcento dos brasileiros rejeitam a vacina. Isso quer dizer que os 10% ou 15% que (ainda) apoiam o presidente já se vacinaram ou pretendem fazê-lo, ou seja, fazem parte do contingente que abraçou a vacina. Ao insistir em se posicionar contra vacina, contra vacinados e contra passaporte vacinal, ele está pisando o calo dos próprios devotos.

Será que ele não tem nenhum assessor menos tapado, capaz de orientá-lo? Parece que não.

A grande derrota de Bolsonaro

José Horta Manzano

Desde que a pandemia tomou conta do mundo, Bolsonaro não perdeu ocasião de desdenhar. Chamou-a de gripezinha. Assegurou que, com dois ou três comprimidos de cloroquina, a questão se resolvia. Zombou do povo que o elegeu ao nos tratar de maricas. Mandou que todos se juntassem e se esfregassem, que era pra pegarem a doença, eliminando, ao final, os mais frágeis – todo o mundo tem de morrer mesmo, não é? Antivax desde o primeiro momento, segurou quanto pôde a compra das vacinas. Tentou frear a produção do Butantan porque, politicamente, não lhe convinha.

Mas há uma justiça. O preço da vitória – 600 mil mortos – foi elevado, mas o Brasil acabou vencendo. Bolsonaro perdeu. Ele queria chegar à imunidade coletiva (ou “de rebanho”, expressão que ele prefere) sem aplicação de vacina. Na sua cabecinha tosca, a doença eliminaria os fracos e deixaria os robustos, num arremedo de eugenismo tropical.

Sua estratégia não deu certo. Na sua biografia, estarão para sempre gravados os mortos e o epíteto de genocida. E a vacina foi aplicada. Graças ao trabalho de governadores menos obtusos que o capitão e graças ao empenho de todo o pessoal da área de saúde, o Brasil já vacinou integralmente mais da metade de seus habitantes. Apesar da inépcia de um Pazuello, aquele que, em matéria de saúde pública, entrou sem saber e saiu sabendo menos ainda.

Segundo a contabilidade global de vacinação contra a covid-19, atualizada em 25 de novembro, o Brasil aparece em honrosa posição, com 60,4% da população completamente vacinada. Está até melhor que os EUA, que só vacinaram 59,1% dos habitantes. Estamos muito à frente de grandes países produtores de vacina como Rússia (38,1%) e Índia (30,6%).

À nossa frente, só aparecem uns poucos microestados e alguns países europeus. Portugal, com espantosos 86,6%, é o país europeu que mais vacinou. Bem à frente de potências como a Alemanha (68.2%), França (69,5%) e Reino Unido (68,8%).

Estes dias, foi anunciada a descoberta de uma nova variante, batizada de Ômicron, que surgiu na África do Sul. É cepa perigosíssima, altamente contagiosa, bem mais assustadora do que todas as que tinham aparecido até agora. Bolsas caíram, aeroportos se fecharam, a covid voltou a frequentar as manchetes.

Mas por que razão essas novas cepas surgem sempre em países populosos e pouco desenvolvidos? Tivemos a variante indiana Beta, a brasileira Gama, as sul-africanas Delta e, agora, Ômicron. A razão é simples: o vírus gosta de gente. Quanto mais gente houver, maior a possibilidade de ajuntamentos, de promiscuidade, de extenso contágio. O atraso na vacinação e o descaso na observação das medidas de contenção – álcool em gel, máscara, distanciação social – são fatores agravantes.

Dado que a taxa de vacinação completa ainda está baixa em alguns países populosos, a ameaça não desapareceu. Alguém já disse, com razão, que o planeta só estará protegido quando todos os cidadãos estiverem protegidos. Não adianta um país atingir 100% de plano vacinal, se os demais ainda estiverem gerando cepas resistentes às vacinas disponíveis. Com essas variantes agressivas, o mundo não está livre de voltar ao ponto de partida e ter de esperar por novas vacinas. E a começar a contar de novo os mortos.

Índia (30,6%), África do Sul (23,8%), Rússia (38,1%), Nigéria (1,7% !), Indonésia (34,0%), Paquistão (22,5%), Bangladesh (21,7%) são países populosíssimos, com plano vacinal em atraso. Constituem terreno fértil para a epidemia. Vamos torcer para que nenhuma cepa resistente se desenvolva lá enquanto o vírus ainda circula redondo.

Enquanto seu lobo não vem, alegremo-nos, irmãos! O Brasil venceu Bolsonaro. Apesar do atraso e da má-fé do capitão, a competência nacional em matéria de vacinação forçou a porteira e mostrou que o povo brasileiro é maior que a ignorância do presidente e que o oportunismo irresponsável do grupelho que o cerca.

Negacionismo improdutivo

José Horta Manzano

A fraqueza do Bolsonaro salta aos olhos. Faltando menos de seis meses para encerrar o prazo de se afiliar a um partido – condição indispensável para concorrer à eleição –, ele ainda não conseguiu encontrar nenhum que o acolha de olhos fechados e braços abertos. Nenhuma agremiação quer saber do capitão, com receio de que seu pé frio e sua imagem degradada contaminem o partido e causem dano aos demais candidatos. Tirando a turma do sim-senhor, ninguém quer ver seu nome associado ao do presidente. Se isso não é presidente fraco, o que será?

As origens de seu negacionismo são obscuras. Talvez nem Freud explique. Mas as consequências são sempre previsíveis. Funciona assim: dotado de raciocínio particularmente torto, o Bolsonaro se posiciona contra tudo o que o bom senso indica como bom para a população e, por consequência, para o Brasil. No sentido inverso, funciona também: ele será contrário a tudo o que for bom para o Brasil e, por consequência, para a população.

Basta surgir um fato novo, e a gente já sabe o que vai acontecer. Basta analisar: se for bom para a população, o capitão fatalmente será contra. E vice-versa. O exemplo maior foi o da vacina contra a covid-19.

Bolsonaro foi contra desde antes de ela ser lançada no mercado. Para ele, era questão de princípio: ser contra tudo o que possa melhorar as condições de vida e de saúde do povo que o elegeu. Ele não arreda pé dessa premissa.

O capitão não foi o único no planeta a ver a chegada da vacina com certa desconfiança. Será que não foi desenvolvida rápido demais? Todos viram que ela ficou pronta em tempo recorde. Será que funciona? Muitos duvidaram que funcionasse. No início, os questionamentos eram numerosos. Havia mais perguntas que respostas.

Só que as respostas foram chegando. Não se pode lutar contra os fatos. Com milhões de cidadãos vacinados em dezenas de países, e com a epidemia a ponto de ser controlada, não há mais como negar. Um a um, dirigentes desconfiados passaram a encarar a realidade. A vacina veio rápido, funcionava e era indispensável para frear o alastramento da epidemia.

O único que se recusou a aceitar os fatos foi nosso genial doutor Bolsonaro. Negou e continua negando. Não perde ocasião para repetir, com o orgulho dos ignorantes, que não está vacinado e que não tenciona vacinar-se.

Nestes meados de novembro, dirigentes de um bom punhado de países europeus (França, Áustria, Suíça, Alemanha, entre outros) procuram a melhor maneira de convencer sua população de que é necessário tomar vacina. Até Vladimir Putin, de costume tão reservado, foi à tevê implorar a seu povo que tomasse vacina.

Os governos estão propagandeando a imunização faz um ano. No entanto, uma quarta parte dos “vacináveis”, em média, se recusa a espichar o braço. E olhe que não foi por falta de incentivo. Desde que as vacinas foram lançadas, todos os governos têm feito campanhas intensas de convencimento da população. Talvez seja medo da agulha, mas nenhum “antivax” confessa.

Por seu lado, apesar de contar com o dirigente mais antivax do planeta – um bizarro capitão que não perde ocasião para desdenhar a ‘gotinha que salva’ –, o Brasil tornou-se um dos campeões mundiais da vacinação. Em vez das ruidosas passeatas de cidadãos refratários à imunização que se veem na Europa, temos mais é gente louca pra receber a segunda dose, a terceira, e quantas mais vierem.

Não é estranho o povo castigado pelo governo mais negacionista do mundo tornar-se campeão dos adeptos da vacina? No meu entender, é prova eloquente da fragilidade do Bolsonaro e do fracasso de sua imbecil teoria negacionista.

Xô, estropício terraplanista! Nem teu povo presta mais atenção às insanidades que proferes!

Devo ter perdido um capítulo

José Horta Manzano

Faz tempo que cogito sobre as razões que levam nosso impagável capitão ao negacionismo. Louco, a gente sabe que ele é; mas ninguém ainda o viu babando. Portanto, uma réstia de razão deve ter sobrado naquela cachola.

Posso entender a atitude dos que o seguem – comportam-se tipicamente como maria vai com as outras; quem age assim, simplesmente executa o que seu mestre mandar e pronto. Mas tenho dificuldade em captar o real objetivo de Bolsonaro. Afinal, seu mestre é ele mesmo! Ou não seria?

No começo da pandemia, muita gente (que hoje faz de conta que estava cochilando) também imaginou que a covid ia desaparecer tão rápido como chegou. Alguns, famosos, chegaram a dar entrevista afirmando que o Brasil chegaria a 2 mil mortos, não mais. Até aí, dá pra entender.

Acontece que tempo passou, mais tempo passou, muito tempo passou. Chegamos a 600 mil mortos, que não tem como esconder. Milhares e milhares de empresas fecharam. Milhões perderam o emprego. E o capitão continua negando a realidade!

Ainda outro dia, em “discurso” pronunciado na ONU, voltou a bater o pé ao receitar remédios perigosos para a saúde de quem já estiver doente de covid. Como se não bastasse, proclamou aos quatro ventos que ele, pessoalmente, não estava vacinado e que não tinha intenção de espichar o braço.

Portanto, além do medo da agulha, alguma razão há de haver. Só que essa razão me escapa. Se alguém tiver alguma ideia, mande cartas para a redação. Agradeço desde já.

Observação
Na mesma cartinha, se puder, me dê sua versão das razões que levaram (ainda levam?) a empresa de “saúde” Prevent Senior a tomar pacientes de covid como cobaias sem consentimento (nem do doente, nem da família). Por que razão administraram (ainda administram?) medicamentos nocivos à saúde? A intenção era acelerar a agonia dos infelizes que já estavam dando mais despesa que lucro, liberando assim o leito para o próximo coitado? E por que razão omitiram (ainda omitem?) o nome da covid ao estabelecer atestado de óbito?

Não mandem cartas demais, porque, neste país, a jurisprudência ensina que réus podem até ser inocentados por excesso de provas. Já aconteceu.

A história se repete

José Horta Manzano

O general João Baptista de Oliveira Figueiredo presidiu o Brasil durante exatos 6 anos, de 1979 a 1985. Foi o último presidente do período militar. Conhecido por seu falar franco, era um tipo sem papas na língua.

Apesar disso, que fique bem claro, não chegava nem perto da vulgaridade nem do linguajar chulo do capitão que ocupa hoje o mesmo cargo. Comparado a Bolsonaro, Figueiredo era um fidalgo. Não privei da intimidade do presidente, mas tenho certeza de que, na presença de dona Dulce, sua mulher, ele não soltava os palavrões que Bolsonaro solta diante de qualquer um, para um Brasil enojado ouvir.

Naquele começo da década de 1980, o regime já começava a amansar. A censura estava afrouxada. Os exilados retornavam. Não havia mais presos políticos. O sol começava a despontar no horizonte. Pois foi justamente nesse período cheio de promessas que o general sofreu um infarto.

Os brasileiros, habituados a tramas e golpes urdidos nos círculos do poder, ficaram ressabiados. Com um Figueiredo impossibilitado de presidir, como é que ficaria? Quem tomaria seu lugar? E a abertura democrática – continuaria ou não?

Bem ou mal, o presidente se recuperou do ataque. Mas não completamente. Naquela época, a medicina no Brasil estava defasada com relação a países mais adiantados. Ricos e poderosos, quando gravemente enfermos, procuravam ajuda médica no exterior.

Em 1983, dado que os problemas cardíacos do general continuavam incomodando, ele decidiu tratar-se nos EUA. Foi internado numa clínica de Cleveland, onde lhe implantaram duas pontes (nome que muitos aportuguesam para “bypass”, bem mais chique), uma de safena e outra de mamária. Depois da intervenção, com seu linguajar pouco aveludado, Figueiredo chegou a comentar que se sentia “como um peru de Natal, todo costurado”.

De lá pra cá, o Brasil avançou muito nas ciências médicas. Hoje em dia, é raro alguém procurar tratamento no exterior, seja para uma simples vacina, seja para cirurgias complexas. Em geral, os bons hospitais nacionais estão capacitados para atender a todos os casos.

Bem, nem todos os cidadãos seguem as mesmas regras. Há os que estão (ou imaginam estar) por cima da carne seca, como se diz. Quarenta anos depois dos problemas coronários de Figueiredo, a atual primeira-dama deu o ar de sua graça nesse palco iluminado.

Como todos ficaram sabendo, Madame Bolsonaro decidiu estender o braço para ser vacinada contra a covid justamente durante uma breve estada em Nova York. Por que razão fez isso? Por que repudiou a vacina daqui? É difícil saber.

Podia até ter guardado silêncio, que ninguém teria jamais descoberto. Mas o marido, linguarudo, dedurou numa entrevista. O que ele pretendia reafirmar é que ele, pessoalmente, não tinha tomado vacina, não estava tomando e não tinha a menor intenção de tomar. O nome da primeira-dama entrou na conversa assim como Pilatos entrou no Padre-Nosso: era pra ser uma citação dita “en passant”, mas foi o que marcou a fala.

O resumo da novela ficou feio, até para os padrões bolsonáricos. O presidente confessou, sem se dar conta, que não manda nem em casa. Não tem voz ativa. Embora continue remando contra a corrente e batendo o pé na sua estúpida convicção antivax, a mulher se vacinou. Os filhos também estenderam o braço para a picada anticovid. Isso prova que seus conselhos não são seguidos nem pela família, que dirá pelo resto da nação.

O bacana

Vai doer, doutor?

José Horta Manzano

A gente está habituado ao linguajar de meliante utilizado pelos membros da família Bolsonaro. ‘Habituado’ é maneira de dizer. Acho que quem tem ouvidos sensíveis e vive distante desses ambientes rasteiros não se acostuma nunca. É um susto a cada novo pronunciamento do clã.

Tem horas em que o palavreado que eles usam em público deixa o cabelo mais arrepiado que de costume. Foi o que aconteceu em 10 de março deste ano. Um dos bolsonarinhos, aquele que é deputado, irritado com a obrigação de portar máscara para proteger a si e aos outros, exprimiu-se no fino linguajar da família e ordenou à nação que “enfiasse a máscara no rabo”. Não se sabe se foi atendido.

Ao se deixar fotografar ontem no momento em que recebia vacina anticovid, surpreendeu a nação. Ninguém imaginava que o bacana fosse aparecer dando o braço a torcer – perdão! – dando o braço a vacinar. Provou que é macho e que não tem medo de agulha. Só um pouquinho.

Ainda por cima, mostrou que é homem de palavra: apareceu sem máscara. Só que a demonstração de coerência ficou pela metade. Por descuido ou por pudor, não instruiu o cinegrafista a filmá-lo de costas, de modo que não ficou confirmado se realmente enfiou a máscara no lugar que ele mesmo tinha sugerido à nação.

A atitude do bolsonarinho inspira nova cantiga de roda. Pra cantar depois que as crianças forem pr’a cama. Chama-se “Onde está a mascarinha?”

Ti-ra, ti-ra,
Tira a cuequinha
Não deve ficar brabo
Queremos ver seu rabo

Destruição de vacinas

José Horta Manzano

Na noite de segunda para terça desta semana, um vacinódromo situado perto de Toulouse (França) foi vandalizado. Foi ataque de tipo clássico, feito por desconhecidos no escurinho da noite. Resultou em vidros partidos, móveis destroçados, prateleiras reviradas, computadores quebrados e, o pior de tudo, 500 doses de vacina anticovid destruídas. Não foram roubadas: foram inutilizadas e deixadas no lugar.

Não é o primeiro ataque a centros de vacinação no país. No começo do mês, um escritório regional da Ordem dos Enfermeiros já havia sido vítima de vandalismo. Em julho, dois vacinódromos instalados em tendas de lona já haviam sido atacados, tendo um deles sido parcialmente incendiado.

Esses ataques são o braço violento dos protestos de rua que estão se tornando habituais no país: todos os sábados, há passeatas animadas e ruidosas nas principais cidades. Participam os “antivax”, aqueles que, por alguma razão, se recusam a receber a vacina.

O problema deles é que, não sendo vacinados, ficam excluídos de boa parte das interações sociais. Não têm direito ao pass sanitaire – a carteira vacinal”. Não tendo o “pass”, não podem entrar em bar, nem restaurante, nem cinema, nem museu, nem piscina pública. Em determinados empregos, como na área de saúde, não têm mais o direito de trabalhar. Daí o mau humor.

Vamos refletir. Caso o distinto leitor – que Deus o livre – tivesse de ser hospitalizado. Gostaria de ser cuidado por uma equipe de gente não vacinada? Médicos, enfermeiros, auxiliares de enfermagem e pessoal de limpeza? Todos expirando dentro do seu quarto os micróbios trazidos de fora?

Até certo ponto, aceito que alguns façam a escolha pessoal de não se vacinar contra a covid. Não entendo por que fazem isso, mas aceito que o façam por convicção pessoal. Levantar faixas de protesto e marchar nas avenidas aos sábados é uma coisa – pode até causar incompreensão, mas não agride nem machuca ninguém. Já vandalizar vacinódromo é coisa bem diferente e inadmissível. É a potencialização do egoísmo, da intolerância e da truculência. Faz lembrar a destruição de livros por parte daqueles que não apreciam determinada literatura. Dá frio na espinha.

A liberdade que o antivax reclama (de não se vacinar) é exatamente igual à do cidadão que deseja receber a vacina. Portanto, assim como o adepto da vacinação não obriga o antivax a estender o braço, o antivax não tem o direito de impedir a vacinação dos outros.

Além do quê, seja por que motivo for, destruir propriedade alheia é crime.

Observação
Acho divertido que os franceses tenham dado ao certificado vacinal o nome de “pass sanitaire”. É assim mesmo que escrevem: “pass”, com dois ss e sem o e final.

A forma “passe” existe em francês, como elemento de composição de inúmeras palavras: passe-partout (=chave mestra), passe-purée (=espremedor de batata), passe-temps (=passatempo), passe-passe (=passe de mágica). Mas “passe” sempre tem um e no final.

Sem e, é novidade. Devem ter feito isso pra parecer mais moderno, pra ficar mais próximo de um hipotético sanitary pass.

Imunização coletiva

José Horta Manzano

Ano e meio depois do estouro da pandemia de covid, começam a aparecer estudos de larga escala, baseados na observação da evolução de grande número de casos num longo período. Um deles acaba de ser publicado na Suíça.

No Brasil, a busca pela vacinação tem ocultado aquela parte da população que se recusa a estender o braço. Por certo há, em nosso país também, um certo número de ‘antivax’ obstinados – o maior deles sendo justamente o presidente da República. Mas a massa dos que correm atrás da vacina ainda tem gritado mais alto.

Nos países europeus em que a campanha de vacinação está mais adiantada, os ‘antivax’ já começam a sobressair. Há os que, apesar de um bilhão de humanos já terem sido vacinados, ainda declaram ter receio de ser ‘cobaias’. Há os que, emboram tomem alegremente vacina antimalárica quando viajam a um país africano, não querem saber da anticovídica. Há ainda os que simplesmente têm medo de injeção.

E há os piores, aqueles que são burros e egoístas ao mesmo tempo, e que esperam ser protegidos pelo resto da população. São como o capitão, que não perde ocasião de repetir que “será o último a ser vacinado”. Botam fé no conceito da imunização coletiva, ou “imunidade de rebanho”, como preferem. Em sua fantasia, imaginam que, assim que a maior parte dos habitantes estiver imunizada, os não vacinados vão acabar sendo “contaminados” pela vacina alheia, sem nem mesmo precisar estender o braço.

Estão iludidos. Não é assim que funciona. O estudo suíço comprova que as pessoas não vacinadas têm risco 80% maior de contrair a covid. Como exemplo, na região do país onde ele foi levado a cabo, nas 2 últimas semanas de julho foram declarados 1030 casos novos de covid. Dessas 1030 pessoas, só 9 haviam sido vacinadas – as 1021 restantes não tinham recebido nenhum imunizante. Em outros termos, de cada 100 novos infectados, 99 não tinham sido vacinados. Isso mostra também que os benefícios da vacinação da maioria não “contaminam” nem se propagam aos demais.

Constata-se que essas vacinas anticovid, embora recentes, têm eficácia excepcional. Mas fazer novena não basta: precisa estender o braço e receber a picada. As palavras do chefe da Brigada Científica Suíça Anticovid são categóricas:

“Se os que resistem a se vacinar estão contando com a imunização coletiva pra escapar, estão enganados. Mais cedo ou mais tarde, todos eles apanharão a covid.”

A Coreia e a vacina

by Stéphane ‘Kadran’ Maignan, desenhista francês

José Horta Manzano

Assim que a pandemia de covid começou a se alastrar, Kim Jong-un, o líder da Coreia do Norte, tomou decisão drástica: mandou fechar as fronteiras. Fechar as fronteiras é redundância de expressão, que o país já vive trancado feito cofre-forte.

A linha de demarcação entre as Coreias do Norte e do Sul é uma das zonas mais vigiadas do planeta, permanentemente fechada e impermeável. Quanto às demais fronteiras, somente uma ponte comunica o país com a Rússia e outra, com a China. O resto dos limites está em regiões montanhosas e pouco habitadas.

Em cumprimento da ordem, as fronteiras foram fechadas. E nada mais passou: nem vírus, nem gente, nem mercadorias. Desde que a vacina ficou pronta, a Rússia ofereceu o imunizante, em diferentes ocasiões, à Coreia do Norte. A oferta foi sempre recusada. (Essa recusa faz lembrar a atitude de nosso capitão, pois não?) Paranoico como todo autocrata, o coreano Kim (que morre de medo de ser envenenado) não quis nem ouvir falar.

Só que tem um problema. A Coreia do Norte está longe de ser autossuficiente em alimentos. Não sobrevive sem os víveres que compra no exterior, principalmente na vizinha China. Sem serem repostos, por causa do fechamento das fronteiras, os estoques estão minguando e a penúria alimentar ameaça se instalar.

Descomplexado, o ditador já mandou alertar a população que vá se preparando, porque tempos difíceis vêm aí. Na verdade, tudo indica que o país está prestes a atravessar um estado de fome igual ao dos anos 1990. Naquele período terrível, calcula-se que até 3,5 milhões de coreanos tenham morrido de fome. Isso equivale a 15% da população do país à época. É como se, de repente, a desnutrição levasse 30 milhões de brasileiros.

Os russos continuam insistindo na oferta de vacinas, mas o governo norte-coreano não quer saber. Prefere deixar morrer uma parte da população, mas recusa-se a dar o braço a torcer e a confessar que precisa de ajuda estrangeira.

A visão que o ditador Kim tem do próprio povo é semelhante à de nosso capitão. Para ambos, o povo é uma simples variável de ajuste. Se morrerem alguns milhões, não faz diferença para eles. Ambos rejeitam a imunização da população. As razões de cada um podem ser diferentes, mas o resultado é o mesmo.

No Brasil, temos sorte de nosso regime “aproveitadorial” não ter (ainda) virado ditatorial. Os aproveitadores de sempre continuam aproveitando para sugar impunemente o fruto do trabalho de todos. O caso norte-coreano deveria nos servir de exemplo do que pode acontecer a um povo entregue nas mãos de um psicopata.

No mesmo barco

Laboratório Labor Spiez, Suíça

José Horta Manzano

A pandemia desencadeada pelo atual coronavírus é um divisor de águas entre um passado em que cada um se virava sozinho e um futuro em que o combate a esse tipo de praga será obrigatoriamente coordenado em nível mundial.

O que vemos atualmente é um pandemônio dentro da pandemia. Em outras palavras, a ausência de gerenciamento global deu origem a um Deus nos acuda, em que todos saíram chamuscados – grandes e pequenos, ricos e pobres, previdentes e descuidados. O fruto da desorganização é amargo para todos.

Países que, ao surgir da pandemia, se encontravam sob governo populista acabaram sofrendo ainda mais que os outros – é o caso dos EUA e do Brasil, que pagaram preço altíssimo em vidas humanas. Mas até nações com tradição de disciplina tiveram problemas graves, como foi o caso da Bélgica e do Reino Unido.

O Uruguai, que é talvez o país mais civilizado da América do Sul, está, neste momento, na pior classificação entre os vizinhos. A atual onda epidêmica está comendo feio por lá. No mesmo balaio está o Japão, com ameaça cada dia mais presente de anulação dos Jogos Olímpicos.

Portanto, já se vê que governo democrático (não populista), disciplina e riqueza não são garantia suficiente de bons resultados no enfrentamento de pandemias. Quando cada um esperneia no próprio ritmo, sem se coordenar com os demais, joga-se esforço pelo ralo.

Nessa óptica, está na ordem do dia a criação de um tratado contra pandemias. A discussão está germinando na União Europeia e visa a que todos estejam mais bem preparados para a próxima praga. Que virá, isso é certeza.

A ideia é confiar a organização à OMS (Organização Mundial da Saúde), que, com seus 194 membros, congrega praticamente todos os países do planeta. Fabrico, atribuição e destino de doses excedentes de vacina, por exemplo, deveriam ser coordenadas por um organismo central em vez de ficar a cargo de cada nação individualmente.

A Suíça já se comprometeu solenemente a dar sua contribuição. Vai utilizar um laboratório ultrassofisticado e ultraprotegido já existente, instalado na cidade de Spiez (Cantão de Berna), especializado em manipular substâncias de alto risco. Nova ala será erguida para acolher um depósito mundial do coronavírus e de outros agentes patogênicos. E tudo pago com dinheiro dos contribuintes suíços, sem financiamento internacional. A OMS aplaudiu a iniciativa.

De qualquer maneira, enquanto a população do último país não estiver imunizada, o resto do planeta não estará protegido. Quanto mais tempo o vírus correr solto num determinado país, maior será o risco de surgirem variantes resistentes às vacinas. Pessoas circulam o tempo todo. Vírus não têm passaporte, zombam de fronteiras e não costumam abrir as malas na alfândega. Estamos todos no mesmo barco. É dar as mãos ou dar as mãos.

Inocular

José Horta Manzano

Assisti com estes olhos que a terra há de comer. Sou testemunha ocular da história!

Todo o mundo sabe que ocular tem a ver com olho. Pra confirmar, estão aí o oculista, o binóculo e os óculos. Ah! Já que falamos de óculos, atenção, juventude! É bom lembrar que óculos é substantivo plural. Assim, o artigo vai sempre para o plural: os óculos. O óculo (no singular) existe, mas é outra coisa: uma luneta de alcance, que serve para observar com um olho só. Mas vamos voltar ao assunto do dia.

Nesta hora em que todos procuram se vacinar, circula também outro termo aparentado: inocular. Que se saiba, ninguém jamais tomou vacina no olho. Qual é, então, a relação entre a inoculação e os olhos?

De origem antiga, a palavra descende de um latim tardio inoculare. Descreve uma técnica de enxerto de roseira, em que um broto é seccionado da planta-mãe e atado ao caule que vai receber o transplante. A operação serve para desenvolver novas variedades de rosas. O broto, que tem forma arredondada, lembra um olho, daí o nome da técnica.

No início dos anos 1800, começou a popularizar-se o princípio da vacina, novidade para a época. Consistia em injetar pequena quantidade do vírus da varíola para imunizar as pessoas. Para dar nome à nova técnica, a medicina tomou emprestado o verbo latino. Os ingleses, pioneiros nesse campo, passaram a utilizar o verbo to inoculate (= inocular), seguindo a imagem de introduzir um corpo estranho, exatamente como os jardineiros fazem com as roseiras. As outras línguas acompanharam o raciocício.

Fui inoculado? Não! O que é inoculado é a vacina, não a pessoa.

Fica assim:
O enfermeiro inocula a vacina e imuniza o paciente.
A vacina foi inoculada e o paciente ficou imunizado.

Quebra de patentes

José Horta Manzano

O assunto do dia na Europa é a perspectiva de quebra de patentes das vacinas contra a covid-19. Quebra de patentes? Dito assim, parece demanda de países do Terceiro Mundo. E é.

De fato, uma centena de nações terceiro-mundistas, que dependem integralmente das vacinas produzidas no estrangeiro, reclama que seja autorizada a quebra de patentes, o que permitirá que laboratórios de países menos importantes produzam os imunizantes sem ter de pagar royalties.

De ontem pra hoje, o que agitou o panorama é o fato de os EUA de Biden se declararem favoráveis ao abandono dos direitos sobre a propriedade intelectual no caso das vacinas contra a covid-19. Enquanto o reclamo vinha de países menores, ninguém dava grande importância. Agora, que os EUA tomaram partido na discussão, o assunto ganhou as manchetes.

Em princípio, não sou favorável à quebra de patentes – nem em matéria médica, nem em nenhuma outra. Atrás de cada registro de propriedade intelectual – que seja a fórmula de uma vacina ou a partitura de um sambinha de obscuro compositor – existe trabalho, estudo, investimento, dedicação. Não me parece justo que, ao final, se mande tudo pro espaço e se deixem os verdadeiros autores chupando o dedo ao relento.

Mas consigo entender Joe Biden, cuja posição vai certamente acabar sendo seguida por muitos países importantes. Vacina contra a covid-19 não é um sambinha despretensioso. Vista a emergência sanitária, ela ultrapassou as paredes dos laboratórios e passou a ser assunto planetário.

O raciocínio é simples. De pouco vai adiantar que o mundo desenvolvido vacine sua população se nada for feito pelos países que, por falta de dinheiro, deixam o povo ao deus-dará, sem vacina e sem futuro. Essas regiões pobres perigam transformar-se em celeiros de novas cepas, criadouros ideais onde o vírus vai se aclimatar e acelerar suas mutações.

A circulação internacional sendo hoje o que é, novas cepas vão continuar sendo importadas de países pobres e vão encontrar populações que, apesar de vacinadas, não estarão protegidas contra novas variantes. Estará assim aberto o caminho para a perpetuação de um vírus endêmico e cada vez mais difícil de erradicar.

Por mais que o assunto desagrade à indústria farmacêutica, a quebra de patentes de vacina anti-covid é, portanto, questão de sobrevivência da humanidade. Assim sendo, é difícil não estar de acordo.