Deram o golpe

José Horta Manzano

Petrobras 3Mal-aconselhada como de costume, dona Dilma declarou que «a oposição usa o caso Petrobrás para dar golpe».

Como é que é? Goste ou não, a presidente terá de engolir a verdade: o verdadeiro «golpe» já foi dado – e bem dado! – por seus íntegros companheiros. Saquearam a maior empresa do país, patrimônio e orgulho de toda a nação.

A Petrobrás vale hoje um décimo do que valia poucos anos atrás. Somos a zombaria do mundo inteiro, que nos enxerga cada vez mais nitidamente como legítimos integrantes do Terceiro Mundo.

E tudo isso aconteceu à vista de dona Dilma. Não nos esqueçamos de que, antes de ocupar o trono presidencial, a senhora Rousseff foi titular do Ministério de Minas e Energia, da Casa Civil e, para coroar, presidente do conselho de administração da Petrobrás.

A presidente não precisa se mostrar tão irritada. Pode suspender essa encenação que já não impressiona ninguém. Truque antigo perde a graça.

Um país com medo de ser feliz

Plácido Fernandes Vieira (*)

Enluminure V 1olta e meia sou tentado a concordar com De Gaulle ou com quem quer que tenha dito que o Brasil não é um país sério. Nos Estados Unidos, uma escuta telefônica clandestina instalada no comitê de um rival político levou à renúncia o então presidente Richard Nixon. Agora, pense aí: e se flagrassem em vídeo, nos EUA ou na Europa, um deputado do partido governista confessando que uma empresa pública foi usada para fazer campanha de um presidente à reeleição? Imagine o tamanho do escândalo e as consequências.

No Brasil, caro leitor, a questão é tratada com escárnio pelos donos do poder. Veja o caso de Minas Gerais. Um deputado estadual do PT foi filmado se vangloriando do uso dos Correios na campanha de Dilma e de Pimentel. Mesmo diante das imagens incontestáveis da fraude, sabe como a presidente da República reagiu ao ser indagada sobre o flagrante? «Vocês são jornalistas. Vocês acreditam nisso?» Ou seja: ela está sugerindo que, em vez de se ater ao que o vídeo revela, os jornalistas não acreditem no que veem mas somente no que ela diz.

Pior é constatar que, diante da prova e da versão oficial, há jornalistas que se desmoralizam a ponto de optar pelo engodo chapa-branca. Na hora de escrever os textos, entre as imagens do que de fato ocorreu e o bla-bla-blá palaciano, eles se comportam bovinamente «neutros», dando ao «desmentido» até mais peso do que à verdade. Ou seja: se, nos EUA ou na Europa, uma bobagem como essa poderia derrubar um governo, aqui o escândalo lhe dá força e o leva à reeleição.

Dilma e LulaEscandaliza-me o fato de que a corrupção hoje no país seja tratada como uma virtude. O caso da quadrilha que roubava a Petrobrás para distribuir entre aliados do governo Dilma e Lula é clássico. Quanto mais se descobrem fatos cabeludos da maracutaia, mais crescem as chances de a presidente se reeleger no 1º turno.

As pessoas parecem ignorar que os R$ 10 bilhões desviados dos cofres públicos na Operação Lava-Jato – conforme estimativa da PF – poderiam estar sendo investidos em educação e saúde com «padrão Fifa», como cobraram os manifestantes de junho 2013. Mas o que vemos é cada vez mais dinheiro no poço da corrupção. É como se o brasileiro, de tão desencantado, tivesse medo de voltar a sonhar em ser feliz. Preferisse ser enganado a sonhar com a possibilidade de um país mais digno e mais justo para todos.

(*) Plácido Fernandes Vieira é articulista do Correio Braziliense. Este artigo foi publicado em 4 out° 2014.

Direto ao ponto

Miguel Pellicciari

Só para deixar bem claro: quem nomeia diretores da Petrobrás é o sócio majoritário, ou seja, o governo federal, cujo presidente na época de Paulo Roberto Costa era o Lula. Quem endossa a nomeação é o conselho de administração, cuja presidente era Dilma Rousseff.

Portanto, o senhor Paulo Roberto Costa sabia muito bem qual seria sua missão na empresa.

Agora, o que mais intriga é ver o maior interessado nisso ― o pessoal do PSDB ― não explicar direitinho a coisa aos eleitores nem mostrar a fila de caminhões aguardando para ter acesso a nossos portos, comparada ao moderníssimo porto feito pelo PT em Cuba.

Citação extraída de comentário de leitor do Estadão, 19 set° 2014.

De eufemismos e distorções

José Horta Manzano

Petrobras 3Crise
Por que se fala em «crise na Petrobras» quando o que houve foi pilhagem da Petrobrás? Covenhamos, a crise não é na petroleira, atinge todo o andar de cima da ultraestratificada sociedade brasileira. Aliás, além de dona Dilma, quem garante que a pilhagem terminou?

Interligne 28aDiferenciado
Por que será que «diferenciado» substituiu diferente? Há de ser para marcar uma diferença ainda maior.
Os delinquentes que assaltaram ontem o cardeal-arcebispo do Rio pediram desculpas ao prelado. Mas cometeram o crime assim mesmo. Terão dado a Sua Eminência um tratamento… «diferenciado»? Será isso mesmo?

Interligne 28aViolência
Por que razão todos nós nos limitamos a apontar a atual «onda de violência» quando, na verdade, se trata de onda de crime?

Interligne 28aManif 9Ativismo
Por que chamamos «ativistas» os energúmenos que provocam baderna em praça pública? Arruaceiros é o que são.

Interligne 28aPerformance
Por que, diabos, usamos a expressão «performance» ― bizarro híbrido anglofrancês ― quando nosso velho desempenho dá o mesmo recado?

Interligne 28aRanking
Por que usar «ranking» em substituição à tradicional classificação? Ranking é filhote da mesma raiz ‘reg’ que desembocou em rei, regulamento, régua e regra. Ranking traz embutida a ideia de fila indiana, de ordenamento militar. Classificação tem mais classe.

Interligne 28aFacção
Os agrupamentos de facínoras que povoam prisões e ruas não merecem o sofisticado título de «facção». É nobre demais. Que se os chame por nome mais adequado: bando, quadrilha, gangue.

Interligne 28aCom certeza
Em português, assim como em numerosas outras línguas, usa-se a locução «com certeza» justamente em situações em que não se tem muita certeza. O uso tradicional costumava ser:
«Onde estará Joãozinho? Já é tarde, e ainda não chegou.»
«Ah, com certeza ficou trabalhando até mais tarde.»

O sentido da expressão tem-se invertido estes últimos tempos. Passou a designar exatamente aquilo que é certo, seguro, garantido. Por exemplo:
«Então, você vai ao comício do palhaço Itaparica?»
«Com certeza! Não perco uma fala daquele candidato.»

Interligne 28aComunidadeComunidade
Comunidade sempre foi um conceito vago, abrangente, pau para toda obra. O que se costuma definir como palavra-ônibus. Costumava ser usada como termo complementar. Uma vez que já se sabia do que se estava falando, comunidade podia substituir o substantivo principal para quebrar a monotonia. De uns tempos pra cá, comunidade assumiu valor absoluto. É usada sem maiores detalhes, tornando a comunicação imprecisa.

Se alguém lhe disser: «Lá, na minha comunidade, somos todos gente fina.», você vai entender que todos são gente boa, mas ficará sem saber que espécie de comunidade é. Melhor será refrear-se de ceder ao modismo. Vamos guardar o nome específico de cada comunidade. Favela, associação, cortiço, bairro, povoado, cadeia, seita, clube, vila, quilombo, grêmio são comunidades. Mas cada um desses nomes encerra realidade diferente. Vamos dar nome aos bois?

Fuite orchestrée

José Horta Manzano0-Sigismeno 1

Dei de cara com Sigismeno hoje, logo de manhã. Nem bom-dia me deu. Foi direto ao ponto.

Segredo 5«Que bela fuite orchestrée, hein?»

«Fuite orchestrée, Sigismeno? Você agora deu pra falar francês?»

«Ora, você sabe muito bem o que é isso. É um vazamento arquitetado e controlado, uma variante da conhecida arte de entregar os anéis para salvar os dedos.»

«De que vazamento você está falando, Sigismeno?» ― provoquei.

«Sabe que você às vezes me irrita? O Brasil inteiro não fala de outra coisa, e lá vem você dando uma de ingênuo. Estou falando do vazamento de segredos sobre as traquinagens de que a nossa Petrobrás tem sido vítima. E não foi vazamento de petróleo, não…»

«Ah, aquele caso do prisioneiro que resolveu dedurar metade dos políticos brasileiros pra escapar da seringa?»

«Esse mesmo. Coisa de bandido de segunda classe, já se vê.»

«De segunda? Alguém que tramou tanta negociata? Por que você diz isso?»

Segredo 3«De segunda, sim, senhor. Bandido que se preza não sai por aí delatando comparsa. Entre delinquentes de verdade, malfeitor que denuncia cúmplice não costuma continuar vivo muito tempo. A bandidagem tem seu código de honra, sabia? Pode parecer estranho para nós, mas costuma ser mais respeitado que a maltratada Constituição desta nossa República.»

«Mas a história da fuite orchestrée, Sigismeno, que é que você quis dizer com isso?»

«Pois é o seguinte. Os do andar de cima, quase todos envolvidos nessa trambicagem, levaram susto e tomaram medo pânico quando o político encarcerado se propôs a soltar a língua.»

«É compreensível, Sigismeno. Quem não deve não teme. Já esse pessoal…»

«Pois é. Quando o homem começou a abrir o bico, os comparsas devem ter criado um COC, quero dizer, um Centro de Operação de Crise. Precisava decidir que caminho seguir pra salvar o que ainda pudesse ser salvo.»

«É, Sigismeno, faz sentido. Como são muita gente, convém tomar atitude concertada pra evitar sair cada um correndo pra um lado diferente.»

Segredo 6«Essa gente, sabe como é, passa por cima de regras, instituições, rituais. Não devem ter tido dificuldade pra ter acesso à transcrição da confissão já feita pelo prisioneiro. Deram-se logo conta de que era veneno puro. Pior: mais cedo ou mais tarde, ia chegar ao conhecimento do público. Alguma atitude tinha de ser tomada pra diminuir o impacto.»

«Impacto, impacto… Ô, Sigismeno, como é que se amortece impacto dessa magnitude, homem?»

«Escolhendo o momento mais propício, meu caro. Analise comigo. Estamos a um mês das eleições. Se deixassem o processo seguir seu caminho, era bem capaz de as revelações aparecerem na reta final, uma semana antes do dia de votar. Já imaginou a catástrofe?»

«É, seria demolidor.»

«Pois então. Foi por isso que organizaram essa fuite orchestrée, esse vazamento planejado. Já que tinha de vir à luz, que viesse imediatamente. Pelo menos, sobrava tempo pra apagar o incêndio e acalmar ânimos antes do dia do voto, entende?»

«Mas não teria sido melhor abafar os ‘malfeitos’?»

by Cláudio Spritzer, desenhista gaúcho

by Cláudio Spritzer, desenhista gaúcho

«Não ia dar. O assalto é colossal. Tem muita gente sabendo. A meu ver, tomaram a atitude adequada. Rasgaram e drenaram o furúnculo antes que a infecção se alastrasse. Foi coisa feita no capricho.»

«Assim mesmo, Sigismeno, não vão evitar que o monumental roubo respingue negativamente na reeleição da atual presidente.»

«Vai respingar, não resta dúvida. Mas os danos serão menores do que se a revelação tivesse ocorrido nas vésperas do pleito. Para você e para mim, roubo é roubo. Não são algumas semanas ou alguns meses que vão nos fazer mudar de ideia. Mas a massa dos votantes é mais volúvel, funciona de outro modo.»

Segredo 4«Nossa, Sigismeno, então você acha que nem uma rapina de bilhões ― do nosso dinheiro! ― vai alterar a percepção que o povo brasileiro tem do andar de cima?»

«Pode até contribuir, mas não vai convencer todo o mundo. Ao contrário, muitos sentem inveja dos que estão se lambuzando com dinheiro alheio.»

«Seja como for, os repórteres que descobriram o cambalacho fizeram bom jornalismo, você não acha, Sigismeno?»

«Sem dúvida. Mas foram, digamos assim, ‘ajudados’…»

Asfaltada pela corrupção

José Horta Manzano

O mais recente número da prestigiosa revista britânica Financial Times traz reportagem analítica sobre os escândalos na Petrobras ― que há tempos já ressoam nos mercados internacionais. O artigo é explícito e bastante didático. Dou-lhes os dois primeiros parágrafos. Primeiro, no original:

Interligne vertical 14Tarred by corruption

After years of allegedly secret dealings, the men at the centre of what is potentially Brazil’s biggest corruption case made a careless mistake.

In May 2013, convicted black market money dealer Alberto Youssef bought through third parties a luxury car for his friend and alleged accomplice, Paulo Roberto Costa, a former executive at state-oil company Petrobras. (…)

Petrobras 8E agora, em nossa língua:

Interligne vertical 14Asfaltada pela corrupção

Após anos de hipotéticas relações secretas, os pivôs daquele que é provavelmente o maior escândalo de corrupção no Brasil cometeram um pecado por negligência.

Em maio 2013, o doleiro condenado Alberto Youssef deu de presente, por meio de laranjas, um carro de luxo a seu amigo e presumido cúmplice Paulo Roberto Costa, antigo dirigente da estatal de petróleo Petrobras. (…)

Quem se interessar pelo resto do texto, vai encontrá-lo aqui. Está em inglês, é verdade, mas as traduções maquinais de nosso amigo gúgol dão boa pista da sequência.

Interligne 18h

Só para completar o cenário, segue abaixo o quadro estatístico que mostra o desempenho da Petrobrás nos últimos cinco anos em comparação com a média mundial das empresas de petróleo e gás. Os valores do dia 1° out° 2010 são tomados como índice 100.

Petrobras 7

Gotejando

Eliane Cantanhêde (*)

Censura 2Depois de o Planalto enviar um funcionário a um seminário de internet em Cuba, tudo é possível. Cuba é o último lugar do mundo para fazer curso de internet… a não ser de guerrilha digital.

Por essas e outras, é irritante, mas não surpreendente, a informação da Folha e do Globo de que a rede do Planalto é usada para adocicar perfis de aliados, azedar dos adversários e plantar calúnias contra jornalistas críticos. A operação, além de indecente e possivelmente criminosa, é também de uma burrice gritante.

Miriam Leitão e Carlos Alberto Sardenberg, afora serem queridos amigos, são dois dos mais premiados jornalistas do país. Logo, o ataque não foi só aos dois, mas a uma categoria inteira e a uma cidadania que exige liberdade de expressão e de crítica.

Censura 1Do ponto de vista político, é péssimo para Dilma Rousseff, mas é sobretudo um desastre para o PT, que já enfrenta alta rejeição, candidatos assustados e atritos de toda sorte.

Segundo o marqueteiro João Santana, eleições trabalham o imaginário popular. Pois o uso da sede da Presidência para golpes rasteiros só “vai gotejando” uma imagem ruim do PT, como diz Gilberto Carvalho.

Auto de fé

Auto de fé

A hora é de falar de Mais Médicos, Minha Casa, Pronatec, não de o Planalto fazer jogo sujo que remete a mensalão, aloprados e manipulação da CPI. E também à estrela vermelha de dona Marisa no Alvorada, ao passeio da cadelinha em carro oficial, ao emprego da nora para não fazer nada no Sesi e ao contrato milionário do filho ― o Ronaldinho ― por baixo do pano.

A confusão entre público e privado corresponde às boquinhas e ao aparelhamento de Petrobras, Eletrobras, Banco do Brasil. Em nome de “uma causa” ― a dos poderosos e da elite de plantão. Os outros? Os outros são “contra os pobres”.

Se cabeças rolaram no Santander por avaliações de mercado, o que ocorrerá no Planalto por ações que nada têm a ver com o interesse público, o Estado e a nação?

(*) Eliane Cantenhêde, jornalista, é colunista da Folha de São Paulo

Combinando com os russos

José Horta Manzano0-Sigismeno 1

Fazia tempo que o Sigismeno não aparecia. Eu estava até com saudades. Veio logo me perguntando o que era CPI. Respondi que, pelo que sei, é o nome dado a um comitê de parlamentares reunidos para investigar alguma disfunção no trato da coisa pública.

Ele quis conhecer mais detalhes. Tive de confessar minha ignorância. «Pelo que imagino» ― disse eu ―, «um grupo de deputados ou senadores de elevada reputação e notória honradez é encarregado de descobrir os comos e os porquês de alguma anomalia. Mais, não sei.»

Sigismeno me contou que uma importante revista semanal tinha publicado reportagem sobre um escândalo ligado a uma dessas tais CPIs. Parece que os inquiridos já vão depor sabendo de antemão quais serão as perguntas do comitê.

«Ah, é, Sigismeno?. Mas isso é trapaça» ― retruquei. «Se os que serão interpelados já conhecem as perguntas, podem combinar as respostas para evitar contradições.»

«Pois é» ― acrescentou ele ―, «a coisa é tão primária que a gente sente que está sendo feito de bobo. As comissões são constituídas de parlamentares de diversas siglas. Parte dos componentes gostaria de descobrir certas verdades, enquanto outros prefeririam que essas verdades continuassem encobertas.»

«Isso me parece normal, Sigismeno. Se todos estivessem de acordo, não havia necessidade de CPI. Condenava-se logo e pronto.»

«Não, não, não! A solução não é por aí. Afinal, o tempo dos processos de Stalin acabou!» ― exaltou-se meu amigo. «O problema está em impedir que investigados fiquem a par das perguntas que serão feitas.»

«E qual seria a solução, Sigismeno?»

«Ora, é simples» ― concluiu meu amigo. «Basta estabelecer que a CPI apenas fixa os temas a serem abordados. A formulação das perguntas fica a cargo de cada um dos componentes do comitê. Ninguém fica a par do teor das questões até a hora H, até o momento em que o parlamentar interpela o depoente. O efeito pode até ser cômico.»

«Cômico?» ― perguntei. «Como assim?»

E Segismeno, olhar matreiro: «Ora, meu amigo, a hipótese mais razoável é que os inquiridos já estarão a par das perguntas a serem formuladas por seus amigos políticos, não é?»

«Parece-me plausível, Sigismeno.»

«Pois então. A essas perguntas, as respostas virão imediatas, fluentes, concordantes, preparadas, sem falhas. Já as perguntas dos adversários vão deixar os investigados em saia justa. As respostas visão gaguejadas, enroladas, atrapalhadas. Haverá contradições. Vai ficar evidente que uma parte da explicação foi alinhavada com antecedência. Ao fim e ao cabo, a opinião pública vai saber descartar o joio e guardar o trigo.»

Pois é. Sigismeno não é muito culto, mas costuma mostrar que tem bom senso.

Apuração rigorosa

José Horta Manzano

Dia 3 de agosto, deu no dh.be ― portal multimídia belga:

«La présidente du Brésil promet une enquête “rigoureuse” sur Petrobras»

«A presidente do Brasil promete apuração “rigorosa” do caso Petrobrás»

Lingua 1Meus distintos e cultos leitores terão certamente notado que o “rigoureuse” vem entre aspas. No original!

Que significa isso? Que até na Bélgica já entenderam que o significado de “apuração rigorosa” é muito relativo. Não é o mesmo cá e lá. Como dizia minha avó, “cria fama e deita-te na cama”.

Frase do dia — 165

«Vale Prêmio Nobel derrubar ao mesmo tempo o valor de bolsa da Petrobrás, aniquilar as chances do etanol e ainda encalacrar as empresas de energia elétrica.»

Fernando Henrique Cardoso, antigo presidente da República, ao resumir em meia dúzia de palavras o desempenho econômico do governo federal atual. In Estadão, 3 ago 2014.

Frase do dia — 141

«Por que o governo, que manda exumar cadáveres enterrados há mais de 40 anos, empenha sua força no Congresso para manter sob sete palmos de terra verdades atuais, como o arrombamento dos cofres da Petrobrás?»

José Nêumanne Pinto, jornalista, poeta e escritor, in Estadão de 21 maio 2014.

As causas e os efeitos

José Horta Manzano

O site internet do Christian Science Monitor, de Boston, publica um artigo bastante didático intitulado How Brazil’s oil boom went bust ― Como o boom petrolífero do Brasil enguiçou.

Segundo a matéria, a produção brasileira de petróleo ― insignificante nos anos oitenta ― cresceu continuamente durante trinta anos até atingir 2.7 milhões de barris por dia em 2010.

Petrobras 3Nos primeiros anos deste século, com a descoberta de imensas reservas na camada pré-sal, tudo indicava que a extração cresceria vertiginosamente e que o país se encaminhava para destino inexorável de superpotência petroleira.

Lá por 2010, no entanto, algo aconteceu. Estes últimos quatro anos, a extração estagnou. A produção de 2013 foi a mesma de três anos antes. Qual a razão?

O Christian Science atribui o desempenho pífio da Petrobras à má gestão da companhia. Menciona os escândalos, a lavagem de dinheiro, as propinas, a prisão de um diretor. Ah, esse mundo moderno onde tudo se sabe…

Depois de considerações técnicas e financeiras, o jornal cita uma fala em que a presidente de nossa República deixou claro que enxerga o país como uma grande Venezuela: «A Petrobras é maior que nós todos. Ela é tão grande quanto o Brasil».

O artigo termina vaticinando: «O destino [de Dilma Rousseff], tanto quanto o do país, depende do desempenho da maior companhia do Brasil».

Poderiam também ter dito que a Petrobras é a cara do Brasil: os males que afligem a gigantesca companhia são os mesmos que atormentam o País.

É sabido que as mesmas causas costumam engendrar os mesmos efeitos. A Petrobras andou pra trás, perdeu credibilidade e valor de mercado. O País vai pelo mesmo caminho.

Foi sem querer

José Horta Manzano0-Sigismeno 1

Sigismeno tem acompanhado com grande atenção a tragicomédia que envolve a Petrobras e sua refinaria de Pasadena. É verdade que certos detalhes lhe escapam à compreensão ― por exemplo, já me dei conta de que ele não entendeu exatamente o significado da expressão inglesa “put option”.

Ontem de tarde, em pleno domingo de Páscoa, lá veio ele com mais uma de suas filosofias. Mal chegou, foi logo argumentando:

― Não entendo por que é que essa gente, em vez de se perder em considerandos, não vai direto aos finalmentes.

― Como é que é, Sigismeno? Essa gente quem?

― Estou falando da Petrobras. Essa história de dona Dilma ter assinado sem ler.

― Ah, entendi. Você fala da compra daquela refinaria americana. Bom, antes de mais nada, convenhamos, o fato de uma companhia brasileira ter comprado empresa americana é motivo de orgulho, né não? Coisa impensável trinta ou quarenta anos atrás.

― Olhe, em matéria de orgulho, preferia ficar sabendo que o Brasil subiu na classificação Pisa.

― Ok, ok, Sigismeno. Melhor virar a página, que não vale a pena discutir por tão pouco. De que considerandos você estava falando?

Petrobras 2006: os mandachuvas Lula, Dilma, Gabrielli e o diretor atualmente encarcerado. Foto Ed.Ferreira/Estadão

Petrobras 2006: os mandachuvas Lula, Dilma, Gabrielli e o diretor atualmente encarcerado.
Foto Ed.Ferreira/Estadão

― Pois veja só. Mais de um bilhão de dólares ― do nosso dinheiro! ― foram atirados pela janela, não foram?

― É o que dizem. Justamente, uma Comissão Parlamentar de Inquérito está sendo montada para averiguar. Cabe a ela estabelecer a verdade.

― Pois é com isso que não concordo ― atalhou Sigismeno.

― Não quer que a verdade seja apurada, Sigismeno?

― Não é isso. Não acredito que CPI resolva. Função de parlamentar não é investigar, é legislar. Além do que, o Congresso é constituído de facções, confrarias, grupos de interesse. Cada um puxa a brasa pra sua sardinha. Uns fazem força pra acelerar, enquanto outros tentam bloquear. Não é o lugar adequado, não é tribunal.

― E qual seria a solução? Não vá me dizer que tem de chamar a polícia.

― A polícia? Não, não é o caso. Quem tem de agir é a Justiça.

― A Justiça? Mas por quê?

― Porque há forte suspeita de crime, ora. Enquanto o País inteiro está entretido a cogitar se o relatório que dona Dilma diz ter recebido era ou não omisso, estamos passando ao largo do que é realmente importante.

― E, segundo você, o que é importante, Sigismeno?

― Ora, meu caro, vejo que até você está-se deixando engabelar. Você está seguindo o rebanho sem parar pra pensar.

― Agradeço pelas gentis palavras, Sigismeno. Continuo sem saber o que é importante.

― Explico. Imaginemos que você esteja procurando comprar um carro usado. Digamos que o valor de mercado da marca e do modelo que você quer seja por volta de 25 mil reais.

― Você anda lendo meus pensamentos. Estou justamente atrás de uma boa ocasião.

― Não é disso que estamos falando agora. Se você continuar me interrompendo, não vamos chegar ao final.

― Tá bom, não fique chateado. Continue com a história do carro usado.

Petrobras 5― Pois é, digamos que você encontra um veículo dentro dos parâmetros que você tinha fixado: marca, modelo, ano de fabricação, quilometragem, cor da carroceria, número de portas. Só que, em vez de 25 mil, estão pedindo 250 mil reais. Você faz o cheque?

― Peraí, posso ser bonzinho, mas não sou completamente tapado. É claro que não vou pagar preço de carro de luxo por um calhambeque!

Estes não pagaram um bilhão. Investiram do próprio bolso.

Estes não pagaram um bilhão.
Investiram do próprio bolso.

― Pois é aí que eu queria chegar. Qualquer espírito medianamente informado entende que, quando os dirigentes da Petrobras aprovaram a compra de uma refinaria por valor dez vezes superior ao de mercado, alguma coisa muitíssimo estranha estava acontecendo. A tal cláusula que obrigava a petroleira brasileira a dobrar o investimento é secundária.

― Secundária? Não estou de acordo, Sigismeno. É justamente aí que está o nó. É exatamente nesse ponto que entra em cena a então presidente do conselho de administração da empresa ― nossa atual presidente da República.

― Cáspite! Você está tão contaminado pela propaganda oficial que não consegue mais enxergar com seus olhos! Pense um pouco. O caso do relatório «falho», se é que relatório existiu, passa por cima do principal. Com ou sem relatório, o preço da transação era conhecido por todos. Dona Dilma pode não ter ideia do valor de uma refinaria, mas a empresa cujo conselho de administração ela presidia certamente ainda contava com gente capaz de avaliar. Por que é que não o fizeram?

Petrobras 3― Sei lá eu, Sigismeno.

― Pois eu sei. Foi tudo de caso pensado. Não é possível acreditar que jogaram fora nosso dinheiro por terem sucumbido ao encanto dos olhos do antigo proprietário da refinaria. É muito dinheiro. Nalgum lugar foi parar.

― É difícil acreditar.

― Era. Era difícil. O inimaginável tem virado rotina no Brasil de hoje.

― Não deixa de ter razão, Sigismeno. Mas por que não deixar que a CPI faça seu trabalho?

― Porque não vai dar em nada, já lhe disse. Alguma entidade de peso ― OAB, partido político, grupo de congressistas ― teria de apresentar denúncia diretamente à Justiça. Em terras mais civilizadas, isso já teria sido feito. Quem desvia um bilhão de dólares de um povo carente de cuidados básicos não pode safar-se com um «desculpe, foi sem querer».

Afanador de galinhas

Sylo Costa (*)

Cícero, na primeira Catilinária contra a corrupção de seus contemporâneos, exclamou: ó, tempora, ó, mores! O mesmo podemos dizer do nosso Brasil de hoje: gente pobre, se comete um deslize furtando uma galinha ou um galo, é para comer, nunca para formar aviário. Já alguns sem-vergonha e ladrões roubam é Petrobras. Outros, remediados e ricos, políticos e velhacos, afanam tudo, principalmente dinheiro público, fazendo fortunas. Ó, tempos, ó, costumes!

Galinha 2Imagine esta situação, caro leitor: Afanásio Maximiniano Guimarães afanou um galo e uma galinha do galinheiro de Raimundo das Graças Miranda. A Defensoria Pública requereu ao Tribunal de Justiça de Minas Gerais a extinção do processo, uma vez que o acusado devolvera os animais (presumo que o dito cujo tenha sido condenado na 1ª instância).

Se o perigoso assaltante de galinhas tivesse tido tempo para devorar os bichos, certamente que a defesa apelaria para o chamado furto famélico, situação em que se subtrai algo para comer e não morrer de fome.

Ou não, porque os políticos de Brasília e aqueles que comem quietos, como mensaleiros e fanáticos interessados na Petrobras e outras fontes luminosas como Copa e Olimpíadas, já desmoralizaram esse tipo de crime e, provavelmente, já pensaram em todas as maneiras de como sair incólume dessas aventuras, depois das ditas efemérides.

Mas, voltando ao tema do furto de galinhas, presumo eu que existiu outro pedido da defesa, em caráter liminar, quanto à aplicação do princípio da insignificância, e o assunto foi parar no Supremo.

O ministro relator, Luiz Fux, ao analisar o caso, decidiu aguardar o julgamento do mérito do pedido para depois decidir a questão em definitivo. É…, um país cujos principais juízes se preocupam na mais alta Corte com galos e galinhas e não conhecem de Renans e Roses, escondidos que vivem debaixo dos caracóis dos seus cabelos e perucas, não podem ter mesmo tempo para mandar prender ladrões de casaca que abundam e que agem abertamente para desmoralizar nossas instituições e quebrar, no sentido de arrebentar, nosso país.

Galinha 1Não sei quem foi o iluminado que um dia descobriu o termo “hediondo” e, achando-o bonito, resolveu enquadrar tudo quanto é desgraça nesse título para substituir nosso Código Penal, fazendo até furto de galinha ser crime hediondo. Ladrão de galinhas não pode ser o mesmo que ladrão de Petrobras.

A lei não pode ser oito ou 80. Quer dizer que eu, que sou apenas um cidadão comum, se furtar uma galinha para comer serei julgado por crime hediondo e terei julgamento igual a esses ladrões sócios de doleiros? Furto é uma coisa, roubo é outra.

Ó, quer saber? Eu e muita gente só vamos esperar a primeira parada desse trem brasileiro. Ainda que não tenha chegado a lugar algum, quero descer e só subirei de volta quando desratizarem o ambiente pátrio.

(*) Sylo Costa é colunista do jornal O Tempo, de Belo Horizonte.

Com unhas e dentes

José Horta Manzano

Reportagem do Estadão deste 8 de abril informa que, para o Lula, o governo precisa defender a Petrobras «com unhas e dentes».

Não precisava nem dizer. Ninguém vai ser louco de maltratar a galinha dos ovos de ouro. Ou não?

Rapidinha 24

José Horta Manzano

«Houve um verdadeiro tsunami contra o governo e, mesmo assim, ela continua liderando»(*)

Fragmento de pronunciamento do senhor Falcão, presidente do Partido do Trabalhadores

Rui FalcaoO referido senhor faz alusão à enxurrada de escândalos referentes à Petrobras, que desvelam a inabilidade e a desenvoltura da atual presidente da República no trato da coisa pública.

Na mais benigna das hipóteses, bilhões de dólares do povo brasileiro foram engordar o patrimônio de um enigmático barão belga.

Numa conjectura maliciosa ouvida outro dia num elevador, o dito barão teria sido utilizado apenas como ponto de passagem do dinheiro ― uma espécie de laranja. Destino final da bolada? Cada um é livre de imaginar o que melhor lhe aprouver.

Em vez de lamentar o alheamento de seus concidadãos, senhor Falcão festeja o fato de boa parte deles não estar em condições de entender o presente capítulo do drama nacional.

É surpreendente constatar que um medalhão desse quilate se orgulhe de ser sustentado pela ingenuidade da massa ignara.

Tomar apoio na simplicidade alheia é coisa feia. Fosse eu, teria vergonha.

Como diz o outro: deixa estar, jacaré, que um dia a lagoa há de secar. Nada é eterno.

Interligne 18b

(*) «Ela continua liderando» alude à posição ocupada por dona Dilma na corrida presidencial.

Empurrando a culpa

José Horta Manzano

Lado A
Dois anos atrás, François Hollande ganhou de Nicolas Sarkozy e foi eleito presidente da França. O sistema político francês ― a meio caminho entre o presidencialismo e o parlamentarismo ― dá grande poder ao presidente, mas impõe que ele nomeie um primeiro-ministro, que, por sua vez, deverá receber o voto de confiança da assembleia. É cargo que funciona como fusível: está na linha de frente para receber choques. Quando queima, é substituído.

Jean-Marc Ayrault

Jean-Marc Ayrault

Ao ser eleito, Hollande concedeu o posto de primeiro-ministro a um amigo de muitos anos, Monsieur Ayrault. Mas os tempos são difíceis, com estagnação econômica e taxa de desemprego nas alturas. Indústrias abandonam o território para se instalar em país de mão de obra barata. Como resultado, a popularidade de Hollande baixou a níveis jamais registrados para um presidente.

Faz poucos dias ― como lhes contei em post de 27 de março ― realizaram-se eleições para prefeito em todos os municípios do país. O povo não perdeu a ocasião de mostrar seu descontentamento: o partido do presidente levou uma surra nas urnas. Os socialistas perderam a prefeitura de dezenas de cidades importantes.

Em países civilizados, certas regras do jogo democrático, embora apenas consensuais e não escritas, costumam ser respeitadas. Quando um figurão não tem mais o apoio popular, melhor dizer adeus e ir-se embora. Foi o que fez Monsieur Ayrault, o primeiro-ministro. Fechadas as urnas, contados os votos e constatada a lavada, convocou a imprensa. Em breve discurso diante das câmeras, assumiu pessoalmente a inteira responsabilidade pelo insucesso. Dia seguinte, apresentou sua demissão ao presidente da República. E se foi.

Lado B
Estamos todos assistindo, estes dias, a espetáculo consternante proporcionado por dona Dilma. Diante da evidência de que houve «irregularidades» ― para usar palavra gentil ― nos negócios da Petrobras nos EUA durante sua gestão, vem ela com a versão 2.0 do conhecido «eu não sabia de nada».

Petrobras 3Não contente de confessar sua ignorância sobre o que se passava na empresa que estava sob sua guarda, vai mais longe: desce à baixaria de acusar um subordinado. «A culpa é daquele ali, ó! Eu sou boazinha, gentil, reta e proba ― jamais faria uma coisa dessas. Assinei sem ler! Fui traída!»

Para uma antiga revolucionária, que se vangloriou de jamais ter denunciado um companheiro, nem sob tortura, cai mal. Para quem ocupa o cargo maior da República, cai pior ainda. Um pouco de dignidade não lhe faria mal.

Não se exige a verdade integral, mesmo porque talvez nem ela a conheça. Que dê a desculpa que lhe parecer mais conveniente, mas que, pelo menos, não entregue o companheiro. Coisa feia.

Francamente, não se fazem mais revolucionários ― nem revolucionárias ― como antigamente.

Frase do dia — 123

«O Instituto Lula desmentiu que o ex-presidente tenha dito que a presidente Dilma Rousseff deu “um tiro no pé” ao dizer que aprovara a compra da refinaria nos EUA baseada em relatório “técnica e juridicamente falho”. De fato, não foi essa a frase. A expressão usada por Lula foi “tiro na cabeça”

Dora Kramer, em sua coluna no Estadão de 25 março 2014.

Frase do dia — 111

«A Petrobrás enfrenta uma perda de produtividade cada vez maior na Bacia de Campos, que responde por quase 80% da produção de petróleo do País. Na média, a estatal tem tirado um barril de água para cada barril de petróleo extraído. (…) O motivo seria o pouco investimento em novos poços, declínio natural e má gestão dos reservatórios, segundo fontes e geólogos.»

Sabrina Valle, em artigo no Estadão de 23 fev° 2014.