O a em perigo

Ruy Castro (*)

Enluminure A 1Há meses, ao ouvir dizer que a Polícia Federal deflagrara a Operação Lava Jato, pensei que se referisse a um esquema ilegal de lavagem de aviões. Com esse nome, fazia sentido ― imagine a quantidade de jatos no país, todos precisando ser lavados depois de horas de voo acumulando gosma na fuselagem. Se você costuma lavar o seu carro aos sábados, imagine lavar um avião. Alguma empresa especializada devia estar superfaturando o kaol, a flanela ou o sabão.

Quando me disseram que se tratava de investigação para desmontar um baita esquema de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, sonegação fiscal, participação no mercado clandestino de câmbio, desvio de recursos públicos, destruição de provas, corrupção de agentes federais e recebimento de propinas e comisões de até 50%, envolvendo um doleiro com extensas relações no meio político e um importante diretor da Petrobras, tudo isso movimentando mais de 10 bilhões de reais ― caí das nuvens. Que, por sinal, é de onde os jatos costumam cair.

Enluminure B 1Se fosse menos distraído, eu teria ligado a expressão “lava jato” às oficinas assim chamadas, dedicadas a lavar, não jatos, mas carros ― e que, se fossem administradas por pessoas mais ciosas da língua portuguesa, deveriam chamar-se “lava a jato”. Ou seja, rapidinho. Há até uma peremptória regra de gramática a respeito ― que, pelo visto, nós, da imprensa, decidimos ignorar. Daí essa investida dos diversos órgãos saneadores ter-se tornado a Operação Lava Jato. Sem o a.

Temo que isso faça parte de uma conspiração nacional contra o emprego do a. Não se diz mais daqui a três meses, “mas daqui três meses”. Nem comecei a fazer, mas “comecei fazer”. Nem voltamos a apresentar, mas “voltamos apresentar”. Já reparou? Cuidado. Primeiro, eles apagam o a. Se deixarmos, apagarão o b.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista da Folha de São Paulo.

As causas e os efeitos

José Horta Manzano

O site internet do Christian Science Monitor, de Boston, publica um artigo bastante didático intitulado How Brazil’s oil boom went bust ― Como o boom petrolífero do Brasil enguiçou.

Segundo a matéria, a produção brasileira de petróleo ― insignificante nos anos oitenta ― cresceu continuamente durante trinta anos até atingir 2.7 milhões de barris por dia em 2010.

Petrobras 3Nos primeiros anos deste século, com a descoberta de imensas reservas na camada pré-sal, tudo indicava que a extração cresceria vertiginosamente e que o país se encaminhava para destino inexorável de superpotência petroleira.

Lá por 2010, no entanto, algo aconteceu. Estes últimos quatro anos, a extração estagnou. A produção de 2013 foi a mesma de três anos antes. Qual a razão?

O Christian Science atribui o desempenho pífio da Petrobras à má gestão da companhia. Menciona os escândalos, a lavagem de dinheiro, as propinas, a prisão de um diretor. Ah, esse mundo moderno onde tudo se sabe…

Depois de considerações técnicas e financeiras, o jornal cita uma fala em que a presidente de nossa República deixou claro que enxerga o país como uma grande Venezuela: «A Petrobras é maior que nós todos. Ela é tão grande quanto o Brasil».

O artigo termina vaticinando: «O destino [de Dilma Rousseff], tanto quanto o do país, depende do desempenho da maior companhia do Brasil».

Poderiam também ter dito que a Petrobras é a cara do Brasil: os males que afligem a gigantesca companhia são os mesmos que atormentam o País.

É sabido que as mesmas causas costumam engendrar os mesmos efeitos. A Petrobras andou pra trás, perdeu credibilidade e valor de mercado. O País vai pelo mesmo caminho.