Quem tem telhado de vidro…

José Horta Manzano

Anos atrás, quando autoridades italianas indicaram à PF que um certo Signor Battisti, foragido da Justiça daquele país, se encontrava vivendo ilegalmente no Brasil, nossa polícia não perdeu tempo: surpreendeu o indivíduo no Rio de Janeiro e o conduziu algemado a Brasília. Naquele momento, ninguém sabia, mas a ação espetaculosa não era mais que a primeira página de uma interminável novela. A lenga-lenga, recheada de altos e baixos, durou vários anos, envolveu advogados, parlamentares, a PF, o Ministério da Justiça, o STF, a presidência da República. Ninguém pode afirmar que tenhamos chegado ao ponto final. Não é impossível que o epílogo ainda esteja por escrever.

Tarso Genro, governador do RS by Marco Aurélio, desenhista gaúcho

Tarso Genro, governador do RS
by Marco Aurélio, desenhista gaúcho

Saíram todos chamuscados daquele execrável episódio. O prisioneiro, depois de viver encarcerado durante anos, em meio a incertezas, está marcado para o resto da vida ― onde quer que vá, será reconhecido e olhado com certa reserva. O ministro da Justiça da época, ao conceder asilo ao foragido, foi forçado a alegar que desconfiava da Justiça italiana, numa atitude arrogante que pegou muito mal. O STF, que empurrou a decisão final para a presidência da República, desagradou a muita gente. A decisão do presidente da República ― tornada pública no apagar das luzes do mandato ― que confirmou o asilo ao estrangeiro ornou a novela com fecho de ouro. As autoridades italianas devem ter saído enfurecidas, o que é compreensível.

Os anos passaram e o mundo girou. O processo do mensalão está chegando ao fim e cada condenado executa a pirueta que lhe parece mais conveniente. Uns dizem que não têm nada que ver com a história, que estavam de passagem. Outros alegam que foram julgados pela imprensa ― como se o julgamento não tivesse sido público e transmitido ao vivo por rádios e tevês. Há até guerrilheiros que, embora tenham empunhado armas e participado de guerrilha na selva, hoje derramam lágrimas que destoam da bravura que outrora exibiam.

by Dalcio Machado, desenhista paulista

by Dalcio Machado, desenhista paulista

Um dos condenados, talvez mais realista que os demais, não acreditou em Papai Noel. Perspicaz, deu-se conta, bem antes dos outros, de que o desfecho poderia não ocorrer em meio a gargalhadas em volta de uma pizza. Preparou minuciosamente sua fuga do País. Não está claro se Signor Pizzolato solicitou emissão de seu passaporte italiano antes do escândalo do mensalão. Pouco importa. O que importa é que, aos olhos da Itália, ele é um cidadão do país peninsular igual a todos os outros. Todo Estado civilizado costuma zelar por seus súditos.

Algum tempo atrás, as autoridades judiciais brasileiras exigiram, como medida de precaução, que todos os réus da Ação Penal 470 consignassem seu passaporte. Signor Pizzolato fez mais que os outros: entregou dois, o brasileiro e o italiano. Fechadas, como de costume, sobre si mesmas e pouco afeitas a práticas internacionais, as autoridades de Brasília foram dormir tranquilas. Um homem sem passaporte não pode viajar, devem ter pensado.

Se o olhar de nossas sumidades fosse um pouco além de seu próprio umbigo, saberiam que um cidadão estrangeiro cujo passaporte tiver sido confiscado pode solicitar um novo, desde que não esteja sendo procurado pela polícia de seu próprio país. Era exatamente o caso de Signor Pizzolato. Bastou-lhe comparecer a um consulado italiano e requerer um novo passaporte.

Alberto Alpino, desenhista capixaba

by Alberto Alpino, desenhista capixaba

Imaginam muitos que o fujão tenha passado por peripécias semelhantes às do senador boliviano que viajou clandestinamente de La Paz até o Mato Grosso. Pois eu não vejo a coisa assim. Não tenho como provar, mas tudo me diz que, ao deixar definitivamente sua cobertura em Copacabana, o réu fugido já levava no bolso o documento que lhe permitiria viajar para onde quisesse. Atravessar a fronteira entre o Brasil e qualquer um de seus vizinhos é moleza. Em numerosas cidades de fronteira, no Rio Grande por exemplo, a divisa entre dois países é representada por uma avenida. Atravessada a rua, é fácil chegar a Buenos Aires, de onde partem diariamente voos para Roma e para Milão. Elementar, meu caro Watson.

Agora é que chega a hora de a porca torcer o rabinho. A malandragem demonstrada pelo Planalto no caso Battisti ainda é muito recente. Os personagens estão vivos e na ativa, todos se lembram. Esperar grande empenho por parte de Roma é ilusão. O fato de o Brasil dar guarida a um condenado por envolvimento em quatro assassinatos pegou muito, muito mal na Itália. Será praticamente impossível reaver o cidadão italiano Pizzolato, cuja ficha, em terra itálica, está limpa.

Os italianos, que residam na Itália ou no estrangeiro, estão inscritos no registro do município onde vivem ou ao qual estão ligados. Esse banco de dados leva o nome de anágrafe. As autoridades italianas sabem perfeitamente onde vive Signor Pizzolato. Daí a transmitir a informação às autoridades de Brasília são outros quinhentos. Quem tem telhado de vidro…

Assassinos diretos e indiretos

José Horta Manzano

Sigismeno é boa gente, mas meio bobão. Embora seja muito aplicado, atencioso e curioso, a compreensão de certas coisas lhe escapa. Para compensar, o que lhe falta de cultura sobra-lhe de boa vontade. É um tipo agradável.

SigismenoOntem ficou sabendo que os implicados nesse tal de processo do mensalão ainda têm muitas cartas na manga. Mesmo tendo sido condenados, não é tão cedo que irão ver o sol nascer quadrado. Se é que isso vai acontecer um dia.

Sigismeno não é erudito, mas tem boa memória. Lembrou-se de um fato horrível que se passou faz mais de dez anos, quando aquela moça loira de boa família mandou assassinar os pais com golpes de barra de ferro. Veio-lhe à cabeça também a tragédia ocorrida alguns anos depois com aquele casal que arremessou uma criança pela janela de um prédio.

Sigismeno ficou sabendo que, tanto num caso como no outro, os criminosos foram logo para a cadeia e lá cumpriram a pena que lhes foi imposta. Aliás, anos depois, nenhum deles está completamente quite com a Justiça.

O que o bobão tem dificuldade em entender é a razão pela qual os réus do mensalão, já condenados, continuam soltos, sorridentes, dando entrevistas aqui e ali, soltando bravatas, ameaçando o mundo de fim de mundo.

Ele faz uma contabilidade macabra. Na cabeça de um outro, seria um escândalo, mas a Sigismeno, homem simples, perdoam-se certas inconveniências.

Por um lado, ele considera que, embora tenham agido de modo escancarado e teatral, a moça loira e o casal tresloucado são responsáveis pela morte de três pessoas. Por outro lado, ele acha que o dinheiro roubado do povo pelos mensaleiros aumentou a desgraça ― e certamente causou a morte ― de milhares de cidadãos pobres e doentes que, por falta de verba, deixaram de ser atendidos pelo serviço público de saúde.

Para Sigismeno, são todos assassinos, direta ou indiretamente. É por isso que ele não consegue entender a diferença de tratamento reservado a uns e aos outros.

Esse Sigismeno tem cada uma…

Rapidinha 2

José Horta Manzano

Paciência tem limite. Até as autoridades suíças, conhecidas por sua serenidade, não são infinitamente elásticas. Chega um ponto em que a corda arrebenta.

Cansada de esperar por esclarecimentos que havia solicitado faz dois anos e meio a autoridades brasileiras, a Justiça helvética acaba de baixar os braços e desistir. Deu o caso Alstom por encerrado. A informação é da Folha de São Paulo deste 26 out° 2013.

O Brasil, neste caso, fez corpo mole e agiu como se a Suíça estivesse lhe fazendo um favor. Tratava-se exatamente do contrário: o maior interessado em recuperar fundos e em desmascarar culpados era ― ou deveria ter sido ― o país lesado.

Essa é mais uma pincelada no quadro. Com ela, a pintura vai-se tornando mais nítida e nosso País vai firmando a imagem que faz questão de mostrar ao mundo: a de uma república de banana. É pena.

Privilegiados da Justiça

José Horta Manzano

Justiça

Justiça

As últimas do STF nos chegam por via do Diário da Justiça. A mídia cuidou de fazer a devida tradução do juridiquês para o vernáculo. Ficamos oficialmente informados. Sabemos a quantas anda o julgamento do mensalão. Se entendi bem, excetuados os que foram condenados a penas mais severas, os acusados ainda podem apresentar novos embargos infringentes. Desconhecida do vulgo até algumas semanas atrás, essa locução entrou na linguagem do dia a dia. Trocada em miúdos, equivale à conhecida expressão entrar com recurso.

Sabemos todos que, em nosso país, figurões não são pessoas comuns. Aliás, um presidente da República um dia proferiu essa ousada afirmação ― e o fez com todas as letras. Portanto, entendemos todos que, caso deslizem, medalhões merecem tratamento especial. Não estão sujeitos a tribunais menores, de primeira ou segunda instância, que isso é para gente ordinária. Respondem diretamente ao tribunal maior. Questão de prestígio, ora vejam. Gente fina não se mistura com ralé.

Só que há um senão. Gente normal passa primeiro por um tribunal de primeira instância. Caso discorde do julgamento, tem a possibilidade de apelar para um tribunal superior, onde os juízes não são os mesmos. Caso ainda não esteja satisfeito, resta-lhe ainda uma derradeira possibilidade: o STF. É verdade que, para chegar lá, precisa ter fôlego, tempo e dinheiro. Mas a possibilidade existe.

Justiça

Justiça

No que concerne aos eleitos, o privilégio de passarem por cima dos tribunais menores e serem enviados diretamente diante dos ministros do supremo é faca de dois gumes. Entre julgamento inicial, recursos e embargos, terão direito, como qualquer mortal, a pelo menos três apreciações. Só que…

…só que essas avaliações serão feitas, em princípio, pelos mesmos juízes. O caso do mensalão é um pouco especial porque o fato de ele ter-se espichado anos e anos propiciou a saída de cena de ministros antigos e a chegada de novos juízes. Indo direto ao STF, os acusados têm várias chances de protestar sua inocência. Mas é grande o risco de serem rejulgados sempre pelos mesmos árbitros.

Ninguém gosta de se contradizer, é questão de imagem pública e de coerência. Acusados comuns têm três chances reais de ser julgados, dado que os julgadores serão a cada vez diferentes. Já os privilegiados perigam enfrentar todas as vezes a mesma comissão julgadora.

Justiça

Justiça

Até pouco tempo atrás, para que um político chegasse a ser julgado (e condenado) pelo STF, precisava no mínimo ter esquartejado alguém com motosserra. Os tempos estão mudando. Crimes de colarinho branco já não eludem tão facilmente a lei.

Quando de uma hipotética futura reforma do Poder Judiciário, esse duvidoso privilégio será certamente objeto de especial atenção. Não seria espantoso que fosse abolido e que medalhões decaídos passassem a iniciar sua peregrinação respondendo a um tribunal de primeira instância. Como qualquer outro cidadão.

Tribunais especiais aos quais somente uma casta de cidadãos têm direito destoam num país que se quer democrático. Na mesma linha, estão as condições carcerárias privilegiadas (prisão especial) ― concedidas com base num eventual diploma formal obtido outrora pelo condenado.

São resquícios de uma sociedade arcaica que a Constituição de 1988, por mais que seja dita cidadã, não conseguiu remover.

Ganhar sem trabalhar

José Horta Manzano

Certos acontecimentos parecem fora de esquadro. O julgamento do mensalão, por exemplo. Para quem está habituado com o Brasil e sua secular tradição de caviar para figurões e marmita para o populacho, a instauração da Ação Penal n° 470 foi um espanto. Não combina com a atuação que estamos acostumados a esperar da Justiça brasileira.

Mas o Brasil não detém o monopólio da esquisitice. Até a ordeira e bem-comportada Suíça é capaz de diabruras de deixar o mundo boquiaberto. É raro, mas acontece. Atualmente, está justamente ocorrendo algo nessa linha.

Em post de 9 de setembro ― É dia de votar! ―, já lhes falei sobre o instituto de iniciativa popular, que a legislação suíça oferece a seus cidadãos. É a possibilidade que tem qualquer um de apresentar um projeto de modificação da Constituição. Em resumo funciona conforme o esquema abaixo.

Interligne vertical 121) O cidadão (ou o comitê de cidadãos) que achar que a Constituição Federal deve ser modificada apresenta seu projeto ao governo. Tanto se pode pleitear a introdução de novo artigo constitucional quanto a modificação ou até a total supressão de um artigo existente.
2) Uma comissão governamental vai estatuir se, sob o aspecto jurídico, o projeto não periga ferir nenhum princípio constitucional. Se não for detectado nenhum empecilho, a comissão dará sua autorização para a coleta de assinaturas. E fixará o prazo para atingir o número necessário.
3) O comitê responsável pela iniciativa cuidará de colher as adesões dentro do prazo consentido. Se conseguir fazê-lo, levará os documentos à comissão governamental.
4) O governo, depois de conferir a validade de cada assinatura, fixará uma data para a votação popular.
5) O comitê interessado tem direito de fazer propaganda. À sua custa, naturalmente. Pode distribuir panfletos, colar cartazes, fazer comícios, anúncio na televisão, porta a porta, o que bem entender. Se os eleitores comprarem a ideia e derem apoio à iniciativa popular, a Constituição será modificada conforme o desejo expresso nas urnas.

Ontem, 3 de outubro de 2013, foram despositadas 126 mil assinaturas de cidadãos que querem que se realize uma consulta popular sobre um tema que não combina muito com este país. A iniciativa popular pede que se acrescente um artigo à Constituição Federal suíça. A redação do artigo pleiteado é bastante simples e se resume a três alíneas:

Interligne vertical 14Alínea 1) A Confederação cuidará de instaurar um salário de base incondicional.
Alínea 2) Esse salário de base deve permitir ao conjunto da população levar existência digna e participar da vida pública.
Alínea 3) A lei determinará o montante do salário de base e a origem dos recursos que o alimentarão.

Parece nada, não é? Mas é muito. Faz a bolsa família parecer brinquedo de criança ― ou piada de salão, como prefere «nosso» Delúbio. Se for aceito, o novo artigo constitucional instituirá uma espécie de bolsa individual, à qual todos os habitantes do território terão direito. Sem condições, o que significa que ricos e pobres, trabalhadores e desempregados, homens e mulheres, velhos e crianças, todos, absolutamente todos receberão um salário que lhes permita levar existência digna. Sem perder o direito ao salário que já recebem por suas atividades habituais. Espantoso, não é?

Moeda suíça de 5 centavos

Moeda suíça de 5 centavos

O comitê pró-iniciativa decidiu desferir um golpe de marketing para marcar o imaginário da população. Encomendou à Banque Nationale Suisse, o banco central do país, 8 milhões de moedinhas de 5 centavos suíços (=12 centavos de real), simbolizando os 8 milhões de habitantes do país. Convocou as câmeras de tevê para o evento. No momento de entregar as caixas com as assinaturas, fez despejar as moedas douradas bem em frente ao Palácio do Governo, em Berna. Parece que tomaram um empréstimo bancário para financiar os 400 mil francos necessários para a surpreendente operação. Para reembolsar o banco, contam com a generosidade dos simpatizantes.

A data da consulta popular ainda não foi fixada. Vai ser interessante acompanhar a evolução desse projeto fora do comum.

Interligne 18f

A televisão suíça imortalizou a derrama incomum de 8 milhões de moedinhas na Praça Federal. Para assistir ao vídeo de 1 minuto, clique aqui.

Os cavaleiros da esperança

José Horta Manzano

Costuma-se dizer que decisões de Justiça não se discutem. Cumprem-se.

Concordo com o princípio, que faz parte do pacto societário ao qual, queiramos ou não, temos de aderir. Para funcionar, todo agrupamento humano tem de estabelecer regras de comportamento, sem as quais sua viabilidade estará comprometida. E a Justiça está aí justamente para supervisionar o cumprimento dessas regras e para coibir eventuais transgressões.

Câmara Municipal do Rio de Janeiro Foto: Clarice Cudischevitch/AE

Câmara Municipal do Rio de Janeiro
Foto: Clarice Cudischevitch/AE

Fábio Grellet, na edição online do Estadão, nos informa que a Justiça do Rio de Janeiro negou provimento a um pedido de reintegração de posse apresentado pela Câmara Municipal do Rio, invadida por cidadãos irados. Um dos argumentos sobre os quais a magistratura apoiou seu arrazoado foi que «as Casas Legislativas são casas do povo».

É incontestável que a Câmara Municipal é casa «do povo». Nem por isso é a casa da mãe joana. Num mundo que se quer civilizado, há que respeitar normas de conduta. Da bagunça não pode nascer a luz.

Numa Casa Legislativa, a entrada é franqueada ao público interessado em assistir aos debates. Aplaudir ou vaiar são reações que já se situam no limite do admissível. O que se viu na Câmara do Rio ultrapassou esse limite.

A tribuna foi invadida e ocupada. Cartazes foram afixados. Gabinetes de vereadores foram vandalizados e o patrimônio público, degradado. Manifestação civilizada é uma coisa, agressão truculenta é outra, bem diferente.

Câmara Municipal do Rio de Janeiro Foto: Clarice Cudischevitch/AE

Câmara Municipal do Rio de Janeiro
Foto: Clarice Cudischevitch/AE

O cidadão parece não se dar conta de que tem nas mãos arma poderosíssima: seu voto. Tem a faca e o queijo, só lhe falta a vontade de comer. Se os vereadores estão lá, é porque foram escolhidos pela sociedade. Não são impostores. Se alguém errou ao votar e acabou escolhendo gente que não presta foi justamente a sociedade. É essa que tem de ser repreendida. Mais vale esclarecer a população que depredar a propriedade que é de todos.

Cabe a esses grupos que ora zelam pela moral e pelos bons costumes dedicar-se a tratar o mal pela raiz. Que usem as redes sociais para fazer circular listas de políticos ladrões, corruptos, indignos de representar o povo.

Uma vez fechadas as urnas e proclamados os eleitos, babau! Providências tomadas rio acima podem não satisfazer a sede de estrelismo desses paladinos da esperança versão beta. Mas são muito mais eficazes. Experimentem.

Interligne 34e

Lá, mas não cá

José Horta Manzano

Em junho de 2011, americanos atônitos descobrem que Anthony Weiner, deputado pelo Estado de Nova York, andava distribuindo fotos de suas partes íntimas a suas amantes. Mentira e escândalo sexual estão entre os comportamentos mais rejeitados nos EUA. O bravo deputado tinha transposto a linha vermelha. Foi impelido a renunciar ao mandato.

Em fevereiro de 2013, uma notícia embrulha o estômago dos alemães. Annette Schavan, Ministra da Educação acabava de perder seu título de doutora. De fato, apurações tinham revelado que sua tese de doutorado estava baseada em escritos pré-existentes, um escancarado plágio. Desenxabida, a ministra não teve outra solução senão abandonar o cargo.

Em novembro de 2012, um escândalo abala os Estados Unidos. Boquiaberta, a nação ficou sabendo que David Petraeus, o diretor da CIA(!), traía a esposa. Por aquelas bandas, certas virtudes ainda valem. O personagem tinha escamoteado uma delas. Não deu outra: teve de pedir demissão.

Em março de 2013, a polícia nacional francesa publica o resultado de um inquérito de 4 meses sobre Jerôme Cahuzac, Ministro do Orçamento. Pasmos, os franceses ficaram sabendo que Monsieur le Ministre havia fraudado a Receita. Era beneficiário de 600 mil euros depositados uma conta secreta no estrangeiro mas nunca declarados ao fisco francês. Não lhe restou outro caminho senão a renúncia ao cargo ministerial.

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Faz anos e anos que o Brasil inteiro está sabendo que Paulo Maluf tem problemas com a Justiça. Até uma (curta) temporada na cadeia já passaram, ele e o filho.

O homem é procurado por todas as polícias do mundo. Está na lista vermelha da Interpol. Caso cometa a imprudência de pôr um pé fora do território tupiniquim, será mui certamente preso e extraditado para os EUA. Para desencanto dele, terminaram-se os passeios despreocupados que fazia ― à custa do nosso dinheiro ― nos Champs-Elysées, na Via Veneto ou na King’s Road.Maluf

A Justiça de Jersey, ilha anglo-normanda onde nosso simpático personagem tinha encafurnado uma parte dos milhões roubados do povo, começou a devolver o butim diretamente à prefeitura de São Paulo. Em suaves prestações.

Como ensina a Constituição da República, todos os brasileiros são iguais. Alguns, no entanto, são ainda mais iguais que os outros. Um visionário presidente do País, aliás, confirmou essa incontornável realidade em declaração de junho de 2009, quando afirmou que seu companheiro José Sarney não podia ser tratado como pessoa comum.

Maluf tampouco jamais será tratado como pessoa comum. Pelo menos, enquanto permanecer no território nacional, que é vasto. Assim como se deu bem no tempo da ditadura, dá-se melhor ainda nos estranhos tempos atuais.

O mesmo presidente visionário ― hoje emérito ― que havia incensado Sarney foi outro dia pessoalmente levar sua homenagem a Maluf. Fazer uma visitinha de cortesia a um foragido da Justiça planetária não lhe pareceu indecente.

Afinal, Deus é brasileiro.

E o porteiro não foi preso!

José Horta Manzano
Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 6 abril 2013

Cada estado traz seu aporte à União. É a regra. Cada um entra com um óbulo condizente com sua população e suas posses. Há estados, no entanto, cuja contribuição tem sido relativamente mais importante que a de outros. Um deles é o Rio Grande do Sul.

Alguns fatos que marcaram a História do Brasil têm origem no estado sulino ou guardam alguma relação com ele. De lá nos veio Getúlio Vargas, fundador da única ditadura de um homem só que o País já conheceu. João Goulart, último presidente a ser apeado por golpe de estado, era gaúcho também. Durante a era militar, aquele que certamente foi o presidente mais esclarecido e mais equilibrado chamou-se Ernesto Geisel. Era gaúcho. O estado pampiano nos deu também Elis Regina, a cantora maior.

Ultimamente, a contribuição do Rio Grande tem incitado o Brasil a dar passos importantes no processo civilizatório. Com decisões ousadas, seus juízes foram os primeiros a equiparar uniões homossexuais a enlaces tradicionais. Suas resoluções podem ter causado algum frisson, mas provocaram as primeiras fissuras no gesso que emprisionava o melindroso assunto.

Faz dois meses, o Brasil e o mundo foram sacudidos por uma notícia pavorosa. O incêndio de uma boate de Santa Maria havia ceifado a vida de 250 jovens e arruinado a razão de existir de milhares de pais, irmãos, namoradas. Foi a tragédia mais mortífera dos últimos decênios. A mídia do mundo inteiro repercutiu a trágica informação.

Brasil

Escaldados com o desenrolar habitual da Justiça brasileira ― que à vezes lembra um jogo de dados viciados ― nenhum de nós esperava que as diligências jurídico-policiais dessem grande resultado. Em casos assim, sabe-se que a tática dos poderosos é: protelar, procrastinar, engavetar, entravar e torcer para que o povo esqueça. Na pior das hipóteses, prende-se o porteiro ou a mulher do café.

Surpreendentemente, não foi o que aconteceu. Era trágico demais, e os brios gaúchos não estavam dispostos a permitir que jeitinho e malemolência contaminassem o processo. Foram em frente.

O comandante regional do Corpo de Bombeiros foi afastado pelo governador em pessoa. Num primeiro momento, 28 pessoas foram responsabilizadas no inquérito. Entre elas, 19 agentes públicos, bombeiros, secretários. Até o prefeito municipal foi arrolado.

Como se costuma dizer, nada do que for feito trará de volta os que partiram no alvorecer de sua jornada terrena. Mas da desgraça surge a luz. O desastre de Santa Maria terá servido para confirmar, se ainda fosse preciso, que nosso País está mudando aceleradamente. E não só na área econômica, que, a computar-se o espaço desproporcional que ocupa na mídia, parece ser a única preocupação nacional.

Não são as leis nem os decretos que forjam a sociedade. Pelo contrário, é a sociedade que, por meio de seus representantes, faz que novas leis sejam votadas e que novos decretos sejam assinados. Leis, regras e regulamentos apenas formalizam o que já tiver sido sopesado e decidido pelo tecido social.

Dentro de 10 ou 20 anos, o Brasil será um país muito diferente do que conhecemos hoje. A troca de ideias e a interação intensa que internet propicia é indomável. Hoje em dia, tudo se sabe, boas e más notícias se alastram feito fogo de palha. Está cada dia mais difícil ocultar certos crimes e «malfeitos» que antes passavam ignorados.

O ultracomentado processo do mensalão ― e principalmente seu desfecho ― teria sido visto como obra de ficção apenas dez anos atrás. Seus atores jamais imaginaram, nem em pesadelo, que um dia pudessem ser julgados e condenados a anos de prisão. Caíram na armadilha que o progresso tecnológico lhes preparou.

O antigo juiz trabalhista conhecido como Lalau foi condenado, já faz alguns anos, a meio século de prisão em regime fechado. No entanto, a benevolência que costumamos conceder aos poderosos não lhe causou mais que um pequeno desconforto: teve de trocar férias permanentes em suntuoso apartamento de Miami por dias tranquilos em sua mansão paulista. A desculpa, acolhida pela Justiça, tinha sido a idade avançada do condenado, como se a culpa desbotasse com os anos. Como prova de que o olhar da sociedade está em processo acelerado de mudança, Lalau foi levado estes dias a uma penitenciária.

Está cada vez mais próximo o dia em que os pequeninos poderão exercer sua função sem recear inculpação automática em caso de problema no andar de cima.

Em Santa Maria, pelo que noticiaram os jornais, o porteiro da boate não foi preso. Nem a mulher do café.

Arrastão europeu

José Horta Manzano

Imaginamos todos que arrastão seja exclusividade tupiniquim, coisa nossa, exclusividade nacional. Pois vou mostrar ao distinto leitor e à graciosa leitora que estão enganados.

A antiga arte da pirataria atingiu seu apogeu lá pelos anos 1700. Falo daquela de cinema, de espadachins com tapa-olho preto, daquela que nos inspirava temor, respeito e até ― convenhamos ― uma certa admiração. Essa, feliz ou infelizmente, acabTGV 1ou.

Nos tempos áureos, piratas eram aqueles que agiam por conta própria, empresários autônomos, como diríamos hoje. Já corsários obravam a mando e por conta de terceiros. O mandatário tanto podia ser o rei da Inglaterra, como o da França ou o mandachuva de outro lugar qualquer.

Um ponto comum unia os atacantes: sabiam o que buscavam. Coisa pouca não lhes interessava. Arriscavam pesado, mas, sabiam escolher o alvo. Se conseguissem vencer a batalha, a recompensa era garantida e farta.

Os tempos passaram. Ouro e pedras preciosas já não são transportados por via marítima. Hoje vão por avião e seguem percurso ultraprotegido, com escolta de agentes de óculos escuros e fones de ouvido, tudo vigiado por câmeras e snipers. Piratear avião para roubar-lhe o conteúdo? Podia ficar bem em filmes dos anos 70. Hoje, nem pensar.

Já vão longe os tempos de Ronald Biggs e seu milionário assalto ao trem pagador. Já vão longe? Talvez nem tanto…

Jornais da França informam que, talvez por não contarem com nenhuma Iemanjá a festejar, uns 30 pequenos delinquentes juvenis escolheram o dia 2 de fevereiro para assaltar um trem. Não um trem qualquer, faça-me o favor: um trem-bala. Sim, senhor.

Os membros da quadrilha mirim promoveram uma vaquinha, mas ela não deve ter rendido o suficiente para comprar bilhetes para todos. Tomaram, então, a decisão de não embarcar no trem como passageiros, mas de obrigá-lo a parar nalgum ponto do percurso.Capitão Gancho

Não foi difícil. Conseguiram lanternas vermelhas, do tipo utilizado pelas estradas de ferro francesas para assinalar perigo grave logo à frente. Instalaram as luzes ao longo da linha. Os maquinistas têm instrução categórica de imobilizar a composição à vista dessas lanternas. É sinal de emergência extrema.

Parado o trem, assim que os responsáveis pela segurança se deram conta de que não se tratava de acidente, mas de um assalto, acionaram o dispositivo que tranca imediatamente todas as portas dos vagões de passageiros. Por mais que o bando tenha tentado forçá-las, não tiveram sucesso. A invasão do trem-bala foi assim evitada. A polícia veio em seguida e carregou boa parte dos frustrados atacantes ao distrito.

Quem quiser conferir, leia aqui, aqui ou aqui.

Qualquer semelhança com um arrastão tupiquim não é simples coincidência. As mesmas causas costumam engendrar as mesmas consequências. A população das periferias francesas é frequentemente constituída de gente pouco instruída, de origem estrangeira, rejeitada pelo resto da população. Alguns de seus membros, mais ingênuos ou menos escrupulosos, acreditam que a violência seja o caminho mais rápido para obter o TGV 2dinheiro que lhes falta. E para adquirir os objetos que cobiçam.

Hoje há menos piratas pelo mundo. Mas que não se acanhem os novos capitães gancho, sejam eles franceses ou somalis. Caso um dia, apanhados, consigam escapar, nosso País não costuma negar asilo a fugitivos de Justiça. Se tiverem sido condenados, a acolhida será ainda mais efusiva. E se o crime tiver sido de sangue, terão direito a tapete vermelho e, quem sabe, até a um empreguinho público, uma sinecura qualquer.

Já faz tempo que nossas ‘otoridades’ perderam o senso da honra e do ridículo.