Morrer pela Groenlândia

Nuuk, capital da Groenlândia

José Horta Manzano

Ao pé das montanhas geladas da Groenlândia estão para ser delineados parâmetros para o convívio das nações neste 21° século. A depender do que aconteça nas próximas semanas e meses, o futuro da humanidade dará um tímido passo adiante ou regredirá dois séculos e sacramentará a vigência da lei do mais forte.

Passado o pesadelo da Segunda Guerra Mundial, a quase totalidade dos países se reuniram na recém-criada ONU para pôr ordem no tabuleiro e fixar regras que evitassem conflitos e guerras. Essas regras nem sempre foram respeitadas, mas permaneceram, por décadas, como balizas de como as coisas deveriam ser.

De lá pra cá, a integridade e a soberania nacional nem sempre foram respeitadas.

Em 1950, a China, por ordem de Mao, invadiu o Tibet que, após longo período de distúrbios, acabou anexado pelo invasor e se tornou parte integrante da República Popular.

Em 1979, foi a União Soviética a invadir o Afeganistão; Moscou só mandou retirar suas tropas depois de 9 anos de ocupação.

Os Estados Unidos, por seu lado, mantiveram a tradição de invadir ou intervir, por curtos períodos, em numerosos países; tirando a guerra do Vietnã, que durou doze anos, as outras intervenções foram mais breves, da Coreia à Líbia.

Ao ameaçar tomar posse da Groenlândia, Donald Trump eleva a novo patamar o desrespeito à soberania de países estrangeiros. A Otan, tratado de defesa mútua ligando EUA, Canadá e quase todos os países europeus, estipula que o ataque armado a um dos países signatários será considerado um ataque a todos os outros, que, por seu lado, se comprometem a defender o atacado.

O tratado não prevê a invasão de um país membro por tropas de outro país membro. Caso os EUA de Trump cumpram sua ameaça de tomar a Groenlândia pela força, não faz sentido pensar num confronto EUA x todos os demais países membros. Primeiro, por uma questão ética e segundo, porque a força militar americana é superior à de todos os signatários da Otan reunidos. Os europeus não estão dispostos a mandar sua juventude ao campo de batalha morrer pela Groenlândia.

A Dinamarca é a proprietária daquela imensidão gelada. Por mais que seja civilizada e rica, a Dinamarca é um país pequenino, do tamanho do estado do Rio de Janeiro, com 6 milhões de habitantes. Imagino que, se a proprietária da Groenlândia fosse o Reino Unido ou a França, países mais fortes que possuem a arma nuclear, Trump pensaria duas vezes antes de ameaçar tomar o território à força.

Estes dias, há muito movimento em torno do assunto. Um detalhe absurdo é de se notar: oito países da Otan estão mandando tropas para defender a Groenlândia de um ataque americano: Alemanha, Reino Unido, França, Suécia, Noruega, Finlândia, Holanda e Estônia. A Europa se defendendo de ataque militar americano! É surreal. São tropas reduzidas, de valor simbólico, mas demonstram a disposição dos europeus de não permitirem que Washington leve um pedaço de seu território.

Trump, que tem em mãos a força bruta, é imprevisível. Se ele decidir que quer porque quer levar a Groenlândia, ninguém poderá detê-lo. Se isso ocorrer, a conquista de território alheio pela força estará, daqui pra diante, autorizada.

Só nos resta apreciar a movimentação e torcer para que o pior não aconteça.

Venezuela: donas de casa e aposentados

José Horta Manzano

Os atos de certos políticos são às vezes difíceis de entender. A gente lê a noticia, coça a cabeça, reflete um pouco, relê um parágrafo, e continua sem perceber a intenção por trás do gesto. O que é que está por trás? Nem sempre é claro.

Já faz meses que Donald Trump vem ameaçando a Venezuela. E não é só ameaça verbal, chegou a deslocar uma frota de três navios de guerra abarrotados de sofisticado material, transportando um contingente de 4.000 fuzileiros navais.

Uma armada desse calibre tem potencial de mandar a capital do país a nocaute em três tempos. Mas, se fosse pra mandar Caracas pelos ares, não precisava despachar uma flotilha. O exército americano tem condições de fazer isso a partir de suas bases, sem deslocar ninguém. Mas então, por que a presença dos militares no Mar das Caraíbas (Caribe)?

É aí que fica difícil entender Trump e seu movimento ostensivo de tropas. Ele acusa Nicolás Maduro de chefiar um narcotráfico sofisticado, cujo principal objetivo é contrabandear cocaína para os Estados Unidos. Outros, antes de Trump, já descreveram esse cenário com detalhes. Dada a concordância de numerosas fontes, é possível acreditar que seja assim mesmo, o que coloca os altos coturnos do governo venezuelano no topo de uma rede narcomafiosa.

Ainda assim, não vejo bem o que é que navios de guerra podem fazer para desbaratar esse sistema. Aniquilar um sistema mafioso com tiros de canhâo? Não parece sensato. Nem eficaz. Por que os navios, então?

Só vejo uma hipótese. Seria nosso amigo Trump trabalhando para mostrar que está atento ao seu “quintal” e cuidando bem dele. “Quintal dos USA” é qualificativo dado outro dia por um de seus assessores à América Latina. Quem cuida bem de seu rebanho e aí mantém paz e concórdia merece o Nobel da Paz. (Deve ser o que ele pensa.) Cada um tem direito a suas ilusões.

Agora, comovente mesmo é a ideia de um previdente Maduro que, sabendo que Caracas não será mandada pelos ares por tiros de canhão, arrebanha assim mesmo seu povo num movimento caseiro de defesa nacional. Tal um Hitler nos derradeiros dias da Segunda Guerra, quando os canhões soviéticos já ribombavam nos arrabaldes de Berlim, Maduro alista “donas de casa, aposentados e servidores” para formar um escudo humano, com cidadãos prontos a morrer pela pátria.

A foto que ilustra este artigo nos mostra alguns convocados recebendo as instruções para manejo de bazucas. Não vejo donas de casa, certamente virão mais tarde. Estão todos devidamente uniformizados. (Diferentemente do Brasil, em que patriotas costumam se vestir de bandeira, os de lá trajam vermelho vivo, uniforme decerto providenciado pelo poder.)

Num eventual combate na selva, a cor não serve como camuflagem, mas também não se pode pensar em tudo. De todo modo, Maduro sabe que combate na selva, não haverá. Trump não é besta de expor sua tropa e registrar baixas. Bastaria um marine morto, um só, para sua popularidade ir pro beleléu.

Se tem certeza de que guerra não haverá, por que razão Maduro faz essa mise-en-scène? Há de ser para contentar seu povo, para mostrar a todos que o pai da nação está de olho, ciente da ameaça do “Imperio” e preocupado com ela. Pra confirmar que patriotas de uniforme rubro estão dispostos a arriscar a vida para defender a pátria. Não é bonito?

E assim vamos indo. Para os movimentos de ambos, Trump e Maduro, não há razões claras. Só razões ocultas.

De toda maneira, ambos sabem que não é desbaratando uma rede de traficantes que se elimina o narcotráfico. O fim do tráfico só virá no dia em que não houver mais demanda, quando ninguém mais pedir sua dose diária de estupefaciente (palavra hoje em desuso, mas ainda sugestiva).

Enquanto esse dia não chegar, derrube-se uma rede, outra brotará no dia seguinte.

Mr. Fico

Folha, 11 dez° 2024

José Horta Manzano

Resistente, o primeiro-ministro eslovaco certamente é. O homem escapou com vida de um atentado a tiros, ocorrido durante um comício, ocasião em que foi atingido por nada menos que 5 projéteis. Tem corpo fechado, como se costuma dizer.

Chama-se Fico (Robert Fico), sobrenome predestinado, daqueles que chegam é não arredam mais pé. Note-se que a gracinha não faz sentido além de nossas fronteiras. A pronúncia original não é Fico, mas Fitso.

Ovelha negra entre seus pares europeus, Senhor Fico é russófilo e, por coerência, americanófobo (ou antiamericano, que dá no mesmo). Atravessou o Atlântico com sua comitiva para prestar homenagem ao presidente do Brasil, que também se posiciona no mesmo quadrante do tabuleiro, entre os que simpatizam com Moscou e detestam Washington.

Fico, que se encontra em Brasília neste momento, nasceu e cresceu num país comunista, à sombra de Moscou. Muitos descreveriam mais tarde esse período como pesado e opressivo – não deve ser o caso de Robert Fico. Suas convicções traduzem até uma mal disfarçada nostalgia. Talvez as aulas obrigatórias de língua e cultura russas que recebeu na infância lhe tenham aberto horizontes fascinantes e desconhecidos por nós outros.

O primeiro-ministro eslovaco joga no mesmo time de Viktor Orbán, seu colega húngaro. Vivem agarrados na União Europeia como chupins, estendendo a mão para a substancial ajuda econômica que recebem, mas recusando-se a participar do esforço comum decidido pela maioria.

Em entrevista à Folha, Robert Fico fez comentários indignos de um chefe de governo, com palavras que ele não ousaria pronunciar na Europa. Disse que o Ocidente arrastou a Ucrânia para a guerra – afirmação encharcada de desonestidade intelectual.

O 24 de fevereiro de 2022 é uma data ainda fresca na memória. Acho que, naquele dia, até as redes sociais noticiaram a invasão da Ucrânia por zilhões de tanques de guerra russos, aviões bombardeiros, drones e centenas de milhares de soldados. Todos os que acompanharam aquelas primeiras semanas se lembram de como os soldados ucranianos, sozinhos e bem antes da chegada das primeiras armas ocidentais, botaram os russos pra correr e salvaram a capital de seu país.

Algumas semanas depois, a Europa e os EUA começaram a entregar armas mais modernas que permitissem aos invadidos frear o avanço dos invasores. O resto é uma história que continua sendo escrita. Afirmar que o Ocidente arrastou a Ucrânia para a guerra é distorcer a realidade para adaptá-la a seus próprios interesses. Truque indigno de um primeiro-ministro.

Robert Fico veio ao Brasil, em viagem oficial, para se encontrar com Lula. Sabe-se lá o que o visitante tinha pela cabeça, mas era até capaz de estar animado em criar uma “rede de amigos de Moscou”. Deve ter imaginado receber boa acolhida de Luiz Inácio.

Só que o destino às vezes prega boas peças. No meio da viagem, enquanto cochilava no avião, Lula foi operado às pressas. Não caiu sob as balas de um matador, mas o resultado é o mesmo: está nocaute por um bom tempo.

Fico não fica, retorna a seu país, ainda que desenxabido. Pode ser que volte um dia.

Telefone de parede

José Horta Manzano

Minha avó contava que, lá pelos anos 1930, o povo desconfiava de telefone. Desconfiar não é o termo exato – ninguém via utilidade naquele aparelho esquisito, preto, de baquelite(*), com fios saindo daqui e dali. Pra ser instalado, a parede tinha de ser furada e estragada. E depois… pra falar com quem? Ninguém tinha telefone. E, mesmo que tivesse, era esquisito conversar sem ver a cara do interlocutor. O único caso que se assemelhava era quando a gente ia contar os pecados, ajoelhado no confessionário, situação em que o penitente não enxerga a cara do padre. Mas aí já é outra coisa, um preceito religioso. Não se compara.

Naquele tempo, operadora se chamava companhia telefônica. Havia várias, muito mais do que hoje. Algumas delas praticavam marketing agressivo. Propunham-se a instalar gratuitamente um aparelho na casa do freguês e lá deixá-lo por um período de experiência de uns três meses, absolutamente de graça. Caso o cliente desejasse, podia, ao final do período, tornar-se assinante. Se não quisesse, a companhia vinha recolher o aparelho. O buraco na parede ficava.

Com o passar das décadas, o telefone cresceu em importância. Popularizou-se. Vulgarizou-se. Vinte anos atrás, dispensou o fio e começou a entrar no bolso do cidadão. Ainda assim, continuava a funcionar como aparelho destinado a assegurar conversa vocal entre duas pessoas.

De uns dez anos pra cá, o progresso tecnológico despejou maravilhas sobre o telefone de bolso. Hoje, ele ainda fala, mas também escreve, faz contas, dá a previsão do tempo, permite a leitura do jornal, paga compra no supermercado. Deixa recado sonoro – sem incomodar a vizinha, como era antigamente! Serve para envio de bilhetes escritos em estilo telegráfico, dispensando o uso do velho telegrama! E ainda tira fotos descartáveis, daquelas que a gente vê uma vez e depois esquece. Exerce até as funções de diário íntimo. É o cofre-forte que encerra os tim-tins e os porquês da vida do cidadão. Um espanto!

Só que, diferentemente do antigo telefone de parede, o telefoninho de bolso é perigoso. Com o antigo, o único risco era que se desprendesse da parede e caísse no pé de alguém, probabilidade bastante remota. Nunca ouvi falar de acidente assim. Com o telefone atual, são outros quinhentos.

Já li revelações sobre um sistema de piratagem fabuloso, caro mas ideal para quem está interessado em espionar adversários, inimigos ou desafetos. Instala-se a arapongagem à distância, sem necessidade de mandar um email envenenado. Esse é o sistema sofisticado, mas há outros, mais baratos, mais difíceis de instalar, mas tão eficientes quanto. Tome cuidado, que ninguém está ao abrigo de uma violação de privacidade.

Razão tinha minha avó, de desconfiar do telefone.

(*) A baquelite, inventada no fim do século 19, é a primeira matéria plástica que apareceu no comércio. É o ancestral de todos os plásticos que povoam (e contaminam) nosso mundo atual.

Observe que, até os anos 1950, a gente ainda se referia a esse produto com o cerimonioso nome de «matéria plástica». Foi com o passar dos anos que a convivência diária e a proliferação de novos produtos favoreceram a intimidade e permitiram o encurtamento da expressão. A ‘matéria’ se perdeu e só sobrou a ‘plástica’. Que, aliás, mudou de gênero – virou ‘plástico’. Plástico pode, portanto, ser considerado palavra transgênero. Será?

Brasil invadido

José Horta Manzano

O site britânico Statista publica bons mapas históricos. Num artigo de 2021, informa, com indisfarçado ufanismo very British, que, entre os quase 200 países do globo, somente 22 nunca foram invadidos pela Grã-Bretanha. Acompanha um mapa-múndi com os continentes recobertos de azul-marinho (os países invadidos pelos ingleses) e umas manchas de cor cinza, aqui e ali, indicando aqueles que nunca foram invadidos. (Veja ilustração.)

Pensei que, se eles afirmam isso, deve ser verdade. Mas não me lembrava de ter ouvido falar de invasão de ingleses em Pindorama. A única ocasião em que, assim por dizer, britânicos puseram os pés em terras nossas com o fim de tomar posse delas aconteceu na passagem do século XIX para o século XX.

Como sabemos, as Ilhas da Trindade e Martim Vaz hoje fazem parte do estado do Espírito Santo. Mas nem sempre foi assim. Até os anos 1890, nenhum país havia se preocupado em tomar posse do arquipélago. Desabitadas e inóspitas, as ilhas eram terra de ninguém.

Foi quando, em 1893, um sujeito bastante original, de nacionalidade americana, desembarcou em Trindade e fez saber ao mundo que ele era o dono do pedaço. Aquela minúscula ilha havia de se tornar ‘ditadura militar’ submetida a seu comando pessoal. O nome do novo país seria Principado de Trinidad (sic) e ele, o dono, seria conhecido como James I, Príncipe de Trinidad.

A declaração ecoou em Londres e no Rio de Janeiro e soou alarme vermelho. De fato, os britânicos, no auge de seu poder marítimo, entendiam que o local era ideal para instalar uma estação telegráfica. Quanto ao Brasil, considerava que Trindade era parte integrante do território nacional desde a época do descobrimento.

Os britânicos foram os primeiros a acudir ao arquipélago. Com o pretexto de estudos de astronomia, desembarcaram e detiveram o “príncipe”. A partir daí, começou a disputa entre a Inglaterra e o Brasil pela posse das ilhas. A questão não levou muito tempo para se resolver, dado que o interesse inglês não era particularmente forte. Ao final de tratativas diplomáticas, o arquipélago foi atribuído ao Brasil.

Esse é o único episódio em que o olho gordo dos ingleses “invadiu” território nacional. Não me ocorre outra ocasião. Se algum leitor souber de outra invasão britânica, me avise por favor.

Bom, o mapa está aí para a apreciação de vosmicês. Não sou o autor da ideia nem do grafismo. Estou vendendo o peixe pelo mesmo preço que paguei.

Brazil: too big to fail

Brazil: too big to fail

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense de 25 março 2023

Nos anos 1980, firmou-se a expressão “too big to fail” – grande demais para falir. A frase lembra que certas empresas, em razão de seu porte, não devem ser abandonadas quando enfrentam tempos difíceis. Grandes bancos são expostos a esse risco. Quando a situação de um deles periclita, o governo costuma socorrer rápido, para acalmar o mercado e evitar contaminação sistêmica.

A débâcle do Crédit Suisse, semana passada, é exemplo de um banco “too big to fail”. Fosse abandonado na tempestade, o segundo estabelecimento bancário suíço teria falido em poucos dias por não ser capaz de estancar a sangria de depósitos que se avolumava desde a semana anterior. O governo suíço pressionou o maior banco do país a encampar o concorrente em apuros. Sem isso, estaria armado o cenário de uma crise planetária como a de 2008.

Países não são empresas. Um país que deixa de pagar suas dívidas torna-se inadimplente mas não irá à falência. Por mais que ele esteja no vermelho, sua infraestrutura, suas riquezas naturais e seu povo não vão desaparecer. Portanto, seu ativo excederá sempre seu passivo.

Curiosamente, o verbo inglês “to fail” tanto significa “falir” como “falhar”. É aí que ouso um jogo de palavras complicado em inglês mas cristalino em nossa língua: Um país nunca será grande demais para “falir”, mas pode ser grande demais para “falhar” (‘too big to fail’ em ambos os casos). O Brasil se enquadra nessa afirmação, por ser grande e importante demais para se permitir falhar em suas obrigações perante o conjunto das nações. Sob pena de perder importância, o Brasil tem de garantir seu lugar no tabuleiro mundial.

Nestes últimos 20 anos, entra governo, sai governo, nossa diplomacia não parece entusiasmada para ver o Brasil assumir o lugar que lhe cabe no seio das nações. O antigo presidente Bolsonaro ousou elevar ao posto de ministro de Relações Exteriores um personagem isolacionista, que se alegrou em relegar nosso país ao papel de pária. Nos governos petistas, política externa se resumia a bravatas e a calotes a organismos internacionais, justamente àqueles em que almejamos assumir cadeira permanente. Ignoraram o velho adágio: “Não há bônus sem ônus”.

Não se refaz a História, mas nunca é tarde pra corrigir a rota. O mundo que se desenhou com o desmoronamento da União Soviética pareceu, num primeiro momento, apontar para um universo unipolar, com uma única superpotência. A fulgurante ascensão da China e a invasão da Ucrânia, entre outros fatores, deram o sinal do fim do recreio. Nosso país, que não é uma república de bananas, tem de entender que a brincadeira acabou. Foi-se o tempo em que se podia propor resolver conflitos internacionais com um simples jogo de futebol. A orquestra agora toca pra valer, e é bom não perder o compasso.

Faz um ano que a Rússia invadiu a Ucrânia, impondo uma guerra de conquista territorial a uma Europa que pensava haver esconjurado a guerra. A União Europeia, que é uma das três maiores potências comerciais do mundo, foi profundamente transformada por essa guerra. A aparição de um inimigo comum despertou a solidariedade e empurrou países neutros para a Otan, uma aliança militar. Gastos militares explodiram, até em países antes pacifistas. Fluxos do comércio internacional estão dramaticamente modificados pelas sanções.

Essa realidade não pode ser minimizada por nosso governo. Nossa “doutrina de não intervenção” tem de ser mais que política de fachada. Se nos abstemos de intervir em assuntos internos de outro país, a coerência nos obriga a condenar toda intervenção de um país em outro – mormente quando for invasão militar. Toda barbaridade tem de ser repelida com veemência.

Nosso governo tem feito movimentos erráticos e contraditórios. Mas nosso país conta. Não podemos fazer como se não tivéssemos nada a ver com o peixe. Que Putin não vale um saco de fertilizante, é ponto pacífico. O que o mundo espera de nós é uma posição civilizada de clara rejeição à agressão russa, que já matou centenas de milhares de inocentes, mandou 8 milhões para o exílio e continua destruindo o país. A retirada das tropas russas é pré-requisito para qualquer início de diálogo.

Nosso país não é um grotão. Nossa força econômica, nossa massa populacional e nossa tradição humanista nos autorizam a soltar a voz para condenar todo crime contra a Humanidade. É o que o mundo espera de nós, e não podemos falhar: “Brasil is too big to fail”.

Perdel mané

PERDEL MANÉ

José Horta Manzano

Muitos comparam a depredação de prédios públicos ocorrida ontem em Brasília com os acontecimentos de 6 de janeiro de 2021, quando arruaceiros, agindo sob a égide de Trump, invadiram e devastaram o Capitólio de Washington. Estão errados.

Os pontos comuns entre os dois quebra-quebras são dois. Em primeiro lugar, não foram atos fortuitos nem espontâneos, mas orquestrados e dirigidos. Em segundo lugar, foram ambos montados “em defesa” de um ex-presidente que, embora derrotado nas urnas, se debatia para voltar ao poder. As semelhanças terminam aqui.

O ataque ao Capitólio tinha um objetivo definido. A ideia era impedir que o Congresso, reunido naquele momento, certificasse a eleição do presidente Biden. Já a agressão ao centro do Poderes de nossa capital federal não teve pretexto. Foi barbárie em seu estado puro, organizada por mentes malignas e executada por mercenários broncos.

Ninguém me convencerá de que os integrantes daquela turba – que já chegaram com paus, marretas e bombas de tinta spray – eram cidadãos tranquilos que estavam passeando com a família na Praça dos Três Poderes quando, de repente, largaram mulher e filhos e correram pra arrebentar o palácio mais próximo. Não. São mercenários a soldo de gente poderosa, que tem interesse em ver o circo pegar fogo.

Aos investigadores, resta perguntar “Cui bono?” – a quem interessa o crime. Com tantas pistas e tantas testemunhas, não há de ser difícil descobrir.

Aos planejadores, resta o exemplo de como não se deve agir. É verdade que as autoridades que cuidam da Segurança Pública atravessam um momento delicado, em que os titulares antigos já se foram, e os novos ainda estão em fase de instalação. Que se instalem rapidamente e que se organizem.

Os ataques de ontem fornecem um caminhão de informações preciosas. Que sejam utilizadas para evitar que tais ataques se repitam.

O espinho do estagiário

José Horta Manzano

A popularização da internet, estas últimas décadas, tem atrapalhado um bocado a vida de estagiário de jornal. Nos tempos antigos, ele cumpria horário igual ao dos jornalistas e seu trabalho podia contar sempre com a supervisão de um profissional experiente. Hoje mudou.

Se antes o jornal era atualizado uma vez por dia, a atual publicação online exige atualização contínua. Cabe frequentemente ao estagiário ficar de plantão à noite, visto que a vida não pára só porque o sol se pôs. As agências internacionais continuam inundando a redação com seus despachos.

No caso de hoje, a tarefa era bolar título para notícia um tanto complexa. Como se sabe, na imprensa, título bom é título que cabe [no espaço concedido]. Só que às vezes fica difícil resumir uma história em poucas palavras.

Trata-se da história de um conterrâneo condenado nos EUA por ter participado daquela espantosa invasão do Capitólio de Washington. Além de dar esse informe, era bom que o título desse uma pista sobre a pena imposta ao condenado: multa de 100 dólares acrescida de 100 horas de prestação de serviços comunitários – tudo isso submetido a um período probatório de um ano. Em outros termos, o brasileiro vai ter de pagar a multa, prestar o serviço comunitário e, sobretudo, andar na linha por um ano inteirinho. Durante esse período, qualquer escorregão é sinônimo de prisão imediata. E aí, só Deus sabe quando é que ele vai deixar o cárcere.

Como resumir tudo isso em algumas palavras? Na certa sem ter um colega mais experiente por perto, nosso estagiário se virou como pôde. Saiu assim:

Chamada da Folha de São Paulo

Agora diga-me, distinto leitor: por acaso já se viu alguém ser condenado a liberdade, fosse ela condicional? Condenado a liberdade? Ficou pra lá de esquisito.

O que está feito está feito. Cada cabeça pensa diferente. Dependesse de mim, não teria mencionado a liberdade, mas a pena, que me parece a informação mais importante. Teria dito, em linguagem telegráfica, que o infeliz foi condenado a pagar multa e a prestar 100h de serviços comunitários.

Curioso, fui ler a reportagem. Achei esquisita a história do condenado. Imaginei que se tratasse de um jovem idealista. Qual nada! O brasileiro é um senhor de 53 anos que está nos EUA há apenas 5 anos, desde 2016. No ano de 2018, dois anos depois de chegar, recebeu o status de… asilado político(!). Alegou ser perseguido quando trabalhava na Prefeitura de Curitiba.

Fazendo as contas, infere-se que a alegada perseguição se deu nos tempos do lulopetismo. Em 2018, quando o aceitaram como asilado, o governo já havia mudado. Se perseguição tinha realmente havido antes, não havia mais. Tudo indica que as autoridades que cuidam da concessão de asilo nos EUA não checaram bem a evolução da situação política no país do requerente. Isso sem contar que, se tivesse realmente sido perseguido em Curitiba, podia ter simplesmente mudado de cidade.

Não conheço a lei americana, mas sei que, nos países que conheço (no Brasil inclusive), cidadão estrangeiro está proibido de participar de manifestação política. No caso de um asilado, pior ainda. Esse imbróglio está complicadíssimo e difícil de entender.

Bem, que ninguém atire pedra no estagiário do jornal. Uma história assim rocambolesca não caberia no título, evidentemente.

Neologismo

José Horta Manzano

“Trumptruppen”

Neologismo surgido na imprensa italiana em janeiro passado, logo em seguida ao assalto que os apoiadores incondicionais do presidente em fim de mandato deram ao Capitólio de Washington.

A formação da palavra é deliciosamente híbrida. O primeiro elemento (Trump), evidentemente, é o sobrenome do presidente americano. Já a segunda parte (truppen) não vem da língua inglesa, tampouco da italiana. Vem do alemão. Truppen é o plural de Truppe, que significa tropa.

Portanto, “Trumptruppen” dá nome àquela horda de gente fina que tomou de assalto o Congresso dos EUA em 6 de janeiro passado. São as tropas de Trump. Essa repetição de “tr” torna o som da expressão cortante como rajada de metralhadora. Combina com Trump, um personagem pesadão.

Além de provocar uma onomatopeia estimulante, o alemão Truppen soa mais belicoso que o inglês troops.

O sonho de nosso capitão tupiniquim é incentivar a criação de um similar nacional que possa repetir, em Brasília, a façanha da tropa original americana. Não será fácil.

Forjados pelo clima rude e pelo vento cortante das grandes pradarias, os integrantes das “Trumptruppen” são aguerridos. Já nossos devotos, moldados pelo mormaço tropical, são menos convictos que os originais.

Não precisa ter bola de cristal. Pode-se apostar que não veremos nunca as “Bolsonarotruppen” em ação.

Decoro

José Horta Manzano

Nos tempos em que os povos viviam em estado de guerra permanente, era natural que o melhor guerreiro se tornasse chefe. De Júlio César, os romanos esperavam que vencesse batalhas e conquistasse territórios – o que de fato ele fez.

Dois milênios mais tarde, Benito Mussolini e Adolf Hitler ainda seguiam na mesma linha. Tinham a guerra no ADN (=DNA) e só pensavam naquilo. O primeiro anexou a Líbia e a Etiópia; o segundo assenhoreou-se da Europa quase inteira. Fizeram ambos o que deles se esperava. O comportamento de ambos coincidia com o anseio do povo. Combinava com o Zeitgeist, o espírito do tempo.

Os tempos hoje são outros. No mundo civilizado do qual imaginamos fazer parte, guerra de conquista saiu de moda. No Brasil, tirando algum devoto fanatizado, ninguém teme invasão chinesa, americana ou russa. Nem muito menos argentina, preocupação permanente de certos generais cinquenta anos atrás.

Hoje vivemos um tempo de contração, de interiorização. Nosso almejo e nossas esperanças estão voltados para dentro. Nosso sonho é alcançar uma igualdade social finlandesa, com padrão cultural francês, grau de segurança escandinavo e nível econômico americano. Quem é que não gostaria?

O valor simbólico do presidente da República equivale ao dos reis de antigamente – aqueles que eram escolhidos porque mais fortes que os demais e mais ágeis nas artes da guerra. Nossos reis de hoje têm de estar capacitados a conduzir nosso povo em direção aos padrões finlandeses, franceses, escandinavos e americanos.

Por seu valor simbólico, o presidente deveria estar assentado num degrau acima dos demais. Em países adiantados, é o que costuma ocorrer. Em países adiantados, eu disse. Por desgraça, não é nosso caso. A desigualdade social vertiginosa que perpassa nossa sociedade faz que o presidente será tanto mais apreciado quanto mais dinheiro distribua à massa de eleitores.

Quanto ao resto, se tem qualidades ou não, pouco importa. Ele está liberado para fazer o que bem entender: roubar, mentir, transgredir, agredir, regredir, tanto faz. Tudo lhe será perdoado desde que a torneirinha de onde pingam os caraminguás continue aberta.

Só isso explica que o atual inquilino do Planalto se tenha permitido, quando da live de ontem, pronunciar grosserias que nunca, jamais, em tempo algum, se ouviram da boca de um presidente do Brasil. Fico até incomodado de reproduzir aqui as palavras do doutor. Se o distinto leitor já ficou sabendo, tudo bem. Se não, boto aqui abaixo a frase presidencial. Só que, para não chocar nem envergonhar ninguém, escrevo de cabeça pra baixo. Assim, só lê quem quiser.

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Pra quem estiver lendo no telefone, é só virar o aparelho. Pra quem estiver à frente de um computador, é mais complicado. Gire o monitor ou torça o pescoço. Se não conseguir, não tem importância, não estará perdendo grande coisa. Não passa de uma ousadia a mais daquele que não tem categoria para ocupar o lugar onde está.

Nota etimológica
Decoro vem do latim decórum – aquilo que convém, que combina bem. É derivação do verbo decére, convir. Denota conveniência de atos ou de coisas, atributos do homem honrado. Esse verbo também deu decente.

Sinônimos mais ou menos próximos de decoro são: decência, honradez, dignidade, compostura, equilíbrio, vergonha, reserva, resguardo, recato, integridade, nobreza, brio, probidade, respeitabilidade, lisura, retidão, seriedade, moralidade. A lista não é exaustiva.

Agora responda sinceramente: se a frase pronunciada pelo presidente na live de 8 de outubro de 2020 não é quebra de decoro, o que será?

Avaliando o avaliador

Ruy Castro (*)

Até outro dia, sapateiros eram sapateiros, mecânicos eram mecânicos, cientistas eram cientistas. Um mecânico não ia além da sola, um cientista não trocava rebimbocas e um sapateiro não dividia o átomo. Um advogado não se passava por médico, um químico não dava uma de padre e um jogador de futebol não escrevia “Hamlet”. E nenhum deles precisava aprender o ofício de um engenheiro eletrônico. Hoje, todo mundo precisa ser engenheiro eletrônico.

Dei-me conta disso quando ouvi falar que o Telegram de Sergio Moro e Deltan Dallagnol tinha sido invadido e pessoas estavam lendo suas mensagens. Logo imaginei um espião embuçado abrindo os telegramas entre os dois, talvez aproximando-os do vapor para derreter a cola, copiando seus conteúdos e os lambendo para colar de novo. E até me espantei de alguém ainda se comunicar por telegramas. Para minha surpresa, fui informado de que o Telegram era um “serviço de mensagens instantâneas criptografadas fim a fim no modo client-to-client ou client-to-server, baseadas na nuvem”.

Eu disse “Ah, bom!” e, vexado por minha ignorância, perguntei como acontecera. Responderam-me que uma invasão dessas se dá quando o usuário é induzido a fazer um reset de senhas e recebe um arquivo Office ou um app comprometido.

Assustado, quis saber como evitar isto e me disseram que, ao baixar um app, é preciso ativar o aplicativo dentro desta página da web após avaliar a descrição do aplicativo associado à nota de avaliação e considerar a quantidade de downloads efetivos e os comentários dados por estes usuários. Simples.

Ou seja, o cidadão comum está sendo obrigado a achar soluções para problemas que não criou, é isso? Estou fora. Nos últimos cem anos, tenho ganhado a vida lendo, fazendo perguntas e escrevendo. Se, em breve, isso não bastar, vou para a lavoura, feliz da vida.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. Seus artigos são publicados em numerosos veículos.

Seres fictícios

Eduardo Affonso (*)

“Pela invasão do meu celular e pelas mensagens enviadas, imaginei que se tratasse de alguma armadilha montada por meus adversários políticos. Por isso, apesar de ser jornalista e por estar apta a produzir matérias com sigilo de fonte, repassei ao invasor do meu celular o contato do reconhecido e renomado jornalista investigativo Glenn Greenwald.”
(Manuela D’Ávila, ex-deputada pelo PCdoB e ex-candidata a vice-presidente da República).

Eu também sou assim.
Quando meu telefone é invadido, eu repasso ao invasor o contato de algum reconhecido e renomado jornalista investigativo, em vez de avisar à polícia e à operadora.

(*) Eduardo Affonso é arquiteto, colunista do jornal O Globo e blogueiro. A sequência do artigo está aqui.

O telefone

José Horta Manzano

Minha avó contava que, lá pelos anos 1930, o povo desconfiava de telefone. Desconfiar não é o termo exato – ninguém via utilidade naquele aparelho esquisito, preto, de baquelite(*), com fios saindo daqui e dali. Pra ser instalado, a parede tinha de ser furada e estragada. E depois… pra falar com quem? Ninguém tinha telefone. E, mesmo que tivesse, era esquisito conversar sem ver a cara do interlocutor. O único caso que se assemelhava era quando a gente ia contar os pecados, ajoelhado no confessionário, situação em que o penitente não enxerga a cara do padre. Mas aí já é outra coisa, um preceito religioso. Não se compara.

Naquele tempo, operadora se chamava companhia telefônica. Havia várias, muito mais do que hoje. Algumas delas praticavam marketing agressivo. Propunham-se a instalar gratuitamente um aparelho na casa do freguês e lá deixá-lo por um período de experiência de uns três meses, absolutamente de graça. Caso o cliente desejasse, podia, ao final do período, tornar-se assinante. Se não quisesse, a companhia vinha recolher o aparelho. O buraco na parede ficava.

Com o passar das décadas, o telefone cresceu em importância. Popularizou-se. Vulgarizou-se. Vinte anos atrás, dispensou o fio e começou a entrar no bolso do cidadão. Ainda assim, continuava a funcionar como aparelho destinado a assegurar conversa vocal entre duas pessoas.

De uns dez anos pra cá, o progresso tecnológico despejou maravilhas sobre o telefone de bolso. Hoje, ele ainda fala, mas também escreve, faz contas, dá a previsão do tempo, permite a leitura do jornal, paga compra no supermercado. Exerce até as funções de diário íntimo. É o cofre-forte que encerra os tim-tins e os porquês da vida do cidadão. Um espanto!

Estes dias, o Brasil anda boquiaberto com a façanha de improváveis piratas de Araraquara. Eles nos ensinam que invadir telefone, o cofre-forte que encerra os tim-tins e os porquês da vida de cada cidadão, é fácil como roubar pirulito de criança. Eles arrombaram o baú de milhares de graúdos da República. Aos assaltados, restam os olhos pra chorar. E – espero – dinheiro no bolso pra contratar um bom advogado que os defenda quando o telefone invadido começar a desvelar eventuais ‘malfeitos’ que ali estavam armazenados.

É engraçado observar que todos cometemos ‘malfeitos’. Escondemos os nossos, mas adoramos quando os dos outros são expostos à luz dos holofotes.

Razão tinha minha avó de desconfiar do telefone.

(*) Baquelite é a primeira matéria plástica que apareceu no comércio. É o ancestral de todos os plásticos que povoam nosso mundo atual.

Observe que, nas primeiras décadas, a gente ainda se referia a esse produto com o respeitoso nome de «matéria plástica». Foi com o passar dos anos que a convivência diária trouxe intimidade e permitiu o encurtamento da expressão. A ‘matéria’ se perdeu e só sobrou a ‘plástica’. Que, aliás, mudou de gênero – virou ‘plástico’. Plástico pode, portanto, ser considerado palavra transgênero.

A vitória tem muitos pais

José Horta Manzano

A vitória tem muitos pais, mas a derrota é órfã. Dois dias atrás, um prédio de mais de vinte andares no centro de São Paulo pegou fogo e ruiu. Faz algum tempo, passeando pelo street view, eu já tinha reparado no prédio. Naquele momento, o que me chamou a atenção foi a pichação, uma impressionante algaraviada que subia pela lateral envidraçada, do primeiro ao último andar. Na época, fiquei perplexo. Como é possível alguém se introduzir num edifício ‒ visivelmente de escritórios ‒ pra pintar a fachada de cima a baixo?

Agora entendi. Faz anos que o prédio estava invadido por gente desvalida cujos ganhos não são suficientes pra pagar habitação decente. Pelo que li, os habitantes moravam em barracos de madeira armados nos andares, sem água e sem esgoto.

O distinto leitor e eu não sabíamos disso. Ainda que soubéssemos, pouco teríamos podido fazer. Mas há autoridades que sabiam e ‒ cúmulo dos horrores ‒ havia gente que se aproveitava da situação pra extorquir dinheiro daqueles miseráveis. Exatamente como faz a máfia siciliana, cobravam de cada família um «direito de passagem», um aluguel mensal, como se fossem donos do imóvel.

Edifício que se incendiou e ruiu
Foto: SaoPauloAntiga.com.br

Uma vez desmoronado o edifício, começaram a aparecer os podres. O governador conhecia a situação, mas nada podia fazer porque não era de sua alçada. A União, proprietária do imóvel, queria mais é que aquela gente fosse embora. A prefeitura da cidade ficou condoída com o que aconteceu, mas não era a dona do prédio, logo…

Por sua vez, os ditos «movimentos sociais» ‒ que, dizem as más línguas, estão por detrás da extorsão sobre o magro pecúlio dos moradores ‒ eximem-se de toda responsabilidade e acusam prefeitura, governo do Estado e União, todos no mesmo saco.

Em resumo: nenhuma autoridade nem nenhum “movimento social” é responsável. Por exclusão, conclui-se que culpados são os próprios moradores. Vindos de longe, chacoalhados pela vida, tolhidos pela ignorância, explorados por máfias e, pra coroar, acusados de destruir um prédio. Ah, como é fácil acusar quem não pode se defender!

No dia seguinte ao do incêndio, a prefeitura deu a conhecer que o prédio abrigava 130 famílias. E não é tudo: a cidade conta com cerca de 70 outros edifícios invadidos, loteados por famílias necessitadas e, mui provavelmente, controlados por máfias exploradoras da miséria. Dado que nenhuma autoridade é capaz de oferecer solução digna a esses infelizes, a perpetuação da miséria está garantida. E vamos em frente, que a Copa é nossa!

A Muralha da China e o Rio São Francisco

José Horta Manzano

A Muralha da China, também conhecida como Grande Muralha, é um conjunto de fortificações erigido pelos chineses para prevenir invasão de guerreiros vindos do norte. Era método eficaz na época em que foi concebido. Atualmente, Mr. Trump promete levantar um muro para proteger-se dos perigosos mexicanos. Conclui-se que o dirigente americano raciocina como se vivesse dois milênios atrás.

O muro da China não é um só nem se resume a faixa continua. Abrange uma série de construções lineares aparentemente desparelhadas. Uma rápida olhada no mapa deixa a impressão de que as obras foram planejadas por bêbados ‒ as linhas partem em todos os sentidos. A explicação é simples: as obras se estenderam por mais de 20 séculos, período durante o qual muita coisa aconteceu. Dinastias se sucederam, inimigos externos novos apareceram, mentalidades mudaram, necessidades evoluíram.

Grande Muralha da China
crédito: commons.wikimedia.org

Para sorte dos chineses, a intenção dos conceptores da muralha não era de se promover pessoalmente. Estavam sinceramente preocupados com a defesa do país. Pouco importava quanto tempo demorasse a construção, desde que o objetivo fosse alcançado. Não posso garantir, mas imagino que a inauguração de cada etapa não tenha dado lugar a festa com banda de música e discursos eleitorais.

Em nosso país, as coisas funcionam de outra maneira. Grandes obras têm de caber no período de um governo ou, no máximo, no período em que um grupo politico estiver no governo. Não passa pela cabeça de nenhum homem público brasileiro dar início a uma obra e deixar que seja concluída por seu sucessor. Afinal, a leviandade e a desonestidade de propósitos são parte integrante da política nacional.

Semana passada, doutor Temer & comitiva inauguraram um trecho da dita “transposição”(1) do Rio São Francisco. Não se esqueceram de convocar fotógrafos e cinegrafistas para garantir repercussão. Foi a conta. Nosso Guia ‒ sim, exatamente aquele que é hoje réu em cinco processos criminais ‒ farejou excelente ocasião para tentar reerguer a imagem decaída. Deixou passar uns dias, reuniu outras figuras de quilate semelhante ao seu, chamou a imprensa e reinaugurou exatamente o mesmo trecho.

Rio São Francisco
Lago da Hidroelétrica de Xingó

Mais uma vez, mostrou ignorância e ressentimento. Por mais que passem os anos, o demiurgo não consegue entender a sutileza da democracia, toda feita de movimentos oscilatórios. Como num desses relógios antigos, não se pode deter o pêndulo, sob risco de bloquear o mecanismo. Em princípio, homem público não deveria agir para a própria glória, mas para o bem do povo que o elegeu. Assim como o Lula se beneficiou da estabilidade político-econômica e de outras benesses herdadas do predecessor, o presidente atual entrega obras iniciadas na gestão anterior. É da vida.

A não-aceitação desse princípio elementar é grotesca. Ok, pedir honestidade a Nosso Guia é pedir muito, sabemos disso. No entanto, se coerente fosse, ele e sua turma deveriam dar a cara a tapa a cada vez que saem estatísticas de desemprego, de estouro orçamentário, de escândalo de rapina. Se pretende assumir a paternidade do legado do lulopetismo, que assuma tudo: o melhor e o pior. Ficar com o filé e empurrar o osso pra debaixo do tapete não vale. Se não estiver disposto a assumir erros e acertos, que saia de cena e nos deixe em paz.

(1) me pronunciei sobre a impropriedade da palavra «transposição», quando aplicada às obras do Rio São Francisco. Transpor é tirar de um lugar e levar para outro. Não é o caso. Mais vale dizer partição, bipartição, tripartição, subdivisão, partilha. Há outras expressões à escolha do freguês.

L’Escalade

José Horta Manzano

Você sabia?

Os heróis perpetuados pela história nem sempre merecem a glória que se lhes atribui. A própria existência de alguns deles é incerta. Isso tanto vale para o Brasil quanto para o resto do mundo. Não temos prova cabal de que personagens como Anhanguera, Zumbi dos Palmares, Caramuru e Moema tenham existido. Até de Tiradentes, herói maior, não sobrou um escrito sequer, o que faz desconfiar que o homem não tenha passado de «laranja» de um grupo de românticos e espertos intelectuais.

O nome do Rio Amazonas faz alusão a mulheres guerreiras da mitologia grega. Foi assim nomeado porque os primeiros visitantes europeus garantiram ter dado de cara com ferozes mulheres que, montadas a cavalo, combatiam. Sabemos hoje que, antes da chegada dos colonizadores, não havia cavalo nas Américas. Portanto, a história das lutadoras não passa de, digamos, «realidade aumentada».

Genebra nos anos 1600

A cidade fortificada de Genebra nos anos 1600

Este fim de semana, Genebra celebra uma de suas datas mais importantes. Pelo fim da Idade Média, a transição entre o regime feudal e o aparecimento do Estado-nação foi lenta e coalhada de vaivéns complicados. Entraram em jogo ambições pessoais, conflitos religiosos, rivalidades seculares, interesses estratégicos. Mal comparando, a atual situação da Síria e do Médio Oriente lembra o cenário político dos anos 1500 e 1600: num tabuleiro de povos de línguas e religiões diversas, tecia-se um jogo de alianças e de hostilidades entre poderosos. A marca da época era a instabilidade. Traições eram comuns. Todos temiam todos.

Logo que sobreveio a reforma protestante, a cidade de Genebra ‒ uma cidade-Estado ‒ se tornou bastião do calvinismo, um ramo do cristianismo reformado. Vítimas de perseguição religiosa afluíram de outras partes da Europa. Embora protestante, a cidade se encontrava cercada por populações de fé católica. Para complicar a situação, passava por ali a estrada que ligava o ducado da Saboia e o reino da França. Dominar Genebra era importante.

escalade-1Os saboianos, apoiados num batalhão de mercenários, prepararam um ataque noturno para tomar a cidade. O plano era mandar um punhado de homens escalar as muralhas de 7m de altura e penetrar no interior do vilarejo. De dentro, abririam o portão principal para permitir a entrada do batalhão que surpreenderia e dominaria os habitantes.

O assalto foi marcado para a noite de 11 para 12 dez° 1602. Valendo-se da escuridão e da negligência dos vigias, algumas dezenas de invasores conseguiram encostar escadas de madeira e penetrar na cidadezinha. Uma vez detectada, a presença dos invasores pôs em movimento a população. Uns correram aos templos para tocar os sinos em sinal de alerta, outros se atracaram aos assaltantes ou lançaram sobre eles variados objetos. Até mulheres deram contribuição para defender o vilarejo.

escalade-3É aí que uma certa Dame Royaume (Madame Catherine Cheynel, casada com Pierre Royaume) cometeu façanha que salvou a cidade. Conta a lenda que estava preparando uma sopa de legumes num imenso caldeirão. Ao avistar um invasor, não teve dúvidas: lançou, sobre o infeliz, o caldeirão com sopa e tudo. Salvou os concidadãos. A invasão acabou sendo repelida e Genebra pôde viver alguns anos de tranquilidade.

Quanto a mim, tenho cá minhas dúvidas. Parece-me surpreendente que, meia-noite passada, uma mulher estivesse cozinhando. Não era comum à época, como ainda não é hoje. Seja com for, o caldeirão de «Dame Royaume» ‒ também dita «Mère Royaume» ‒ tornou-se símbolo da proeza genebrina de 400 anos atrás.

escalade-2Todos os anos, desfiles em trajes de época, maratona para não-profissionais e diversas manifestações se desenrolam nos dias que precedem a festa conhecida como «L’Escalade» ‒ A Escalada. Até o governo federal participa das festividades.

Crianças (e adultos) recebem um caldeirão de chocolate recheado de bombons de marzipã. O ponto alto da festa é o momento de quebrar o caldeirão. Dependendo do tamanho, pode-se dar um murro ou até usar um martelo. Em seguida, comem-se os estilhaços de chocolate e devoram-se os bombons.

Rondò alla turca

José Horta Manzano

No que tange à adesão da Turquia à União Europeia, faz décadas que os europeus divergem. Parte dos políticos veria com bons olhos a entrada de novo membro enquanto outros ficam horripilados só de ouvir falar. É aquele tipo de assunto que não deixa ninguém indiferente.

Turquia 5As motivações dos que gostariam de admitir a Turquia são variadas. Do ponto de vista comercial, seus quase 80 milhões de habitantes formam um mercado não desprezível. Alguns imaginam que o contacto da Turquia com uma Europa teoricamente mais avançada seria benéfico para o país: agiria como alavanca para o progresso do novo membro. Há ainda quem acredite que uma Turquia ancorada à UE agiria como escudo protetor, expandindo as fronteiras exteriores da União até as portas do Oriente Médio.

Os que não querem nem ouvir falar do assunto também têm seus argumentos. Alegam que um contingente de 80 milhões de muçulmanos desequilibraria uma Europa tradicionalmente cristã. Há os que teimam no fator geográfico: a Turquia simplesmente não faz parte do continente. Muitos temem uma «invasão» de trabalhadores que, abandonando um país menos avançado, se distribuiriam pela UE e causariam «dumping» salarial e desemprego.

Turquia 4Já faz tempo que notei que todo europeu guarda dois pavores ancestrais e irracionais: medo do lobo e medo do turco. Muitos nunca viram um turco e a maioria só conhece lobo de fotografia. São histórias que vêm de longe. O lobo, predador por natureza, foi temido desde sempre. Sua presença ameaçava pastores, rebanhos e vilarejos. Quanto ao turco, a expansão do Império Otomano no fim da Idade Média assustou muita gente. O último cerco de Viena, embora tenha acontecido há 300 anos, deixou marcas ainda sensíveis.

Para ilustrar, vamos lembrar que ainda é corrente, na Itália, a exclamação «Mamma, li turchi!» ‒ «Mãe, os turcos!». A forma dialetal dá ainda mais sabor à expressão. É pedido de socorro proferido em situações de susto, de medo, de estupor, naqueles momentos de apuro em que não se sabe o que fazer. Usa-se às vezes para assustar crianças. A imagem do turco funciona, nesse caso, como nosso bicho-papão.

Turquia 6É cedo demais pra analisar e comentar o golpe de Estado desfechado ontem por segmentos do exército turco. As notícias ainda são desencontradas, confusas, fragmentárias. Uma certeza, no entanto, pode-se ter desde já: uma eventual adesão da Turquia à União Europeia acaba de cair fora da ordem do dia. Não voltará à pauta pelos próximos dez anos. No mínimo.

Diferentemente de nosso folclórico Mercosul, a UE leva a sério a cláusula democrática. Países instáveis e sujeitos a golpes autoritários não têm chance de fazer parte do clube.

Observação
«Rondò alla turca» (Rondó à moda turca), título deste artigo, é o nome original da Marcha Turca, que todo estudante de piano conhece. É o fecho da Sonata em Lá Maior, catálogo Köchel 331, de Wolfgang Amadeus Mozart. Está no youtube ‒ aqui.

Pró-memória urgente

Carlos Maurício Mantiqueira

Aos que creem na vitória do bem contra o mal, eis aqui o manual.

Lembre aos políticos que eles também podem ser vítimas:

Interligne vertical 11ade uma queda – pior que a de viaduto feito às pressas;

de falta de socorro médico porque não há hospitais de qualidade;

de bala perdida no meio de um arrastão;

de depredação, sem aviso prévio, do local onde se encontram;

de sede provocada pela falta de planejamento das autoridades medíocres que permitiram a transformação de rios em esgotos a céu aberto.

Lembre aos juízes que eles também podem ser vítimas de assaltos, de invasões e de violências – incluindo outros arbítrios praticados pelo Estado. Se continuarem julgando contra a letra da Lei, eles deixarão a seus descendentes uma terra de ninguém, zona liberada ao apetite do poderoso de então.

Lembre aos jovens:

Interligne vertical 11aque um dia ficarão velhos;

que, se emigrarem, serão sempre estrangeiros em terra onde não têm raízes;

que tatuagem não sai;

que o álcool e as drogas os ajudam a morrer mais cedo.

Lembre aos banqueiros que são apenas parasitas: lucram emprestando, a juros altos e taxas absurdas, o dinheiro dos outros – não o deles.

Lembrem-se todos: os mais opulentos, corruptos e ladrões servirão de pasto a regimes justos, idealistas, não corrompíveis, que façam respeitar a autoridade.

Os cavaleiros da esperança

José Horta Manzano

Costuma-se dizer que decisões de Justiça não se discutem. Cumprem-se.

Concordo com o princípio, que faz parte do pacto societário ao qual, queiramos ou não, temos de aderir. Para funcionar, todo agrupamento humano tem de estabelecer regras de comportamento, sem as quais sua viabilidade estará comprometida. E a Justiça está aí justamente para supervisionar o cumprimento dessas regras e para coibir eventuais transgressões.

Câmara Municipal do Rio de Janeiro Foto: Clarice Cudischevitch/AE

Câmara Municipal do Rio de Janeiro
Foto: Clarice Cudischevitch/AE

Fábio Grellet, na edição online do Estadão, nos informa que a Justiça do Rio de Janeiro negou provimento a um pedido de reintegração de posse apresentado pela Câmara Municipal do Rio, invadida por cidadãos irados. Um dos argumentos sobre os quais a magistratura apoiou seu arrazoado foi que «as Casas Legislativas são casas do povo».

É incontestável que a Câmara Municipal é casa «do povo». Nem por isso é a casa da mãe joana. Num mundo que se quer civilizado, há que respeitar normas de conduta. Da bagunça não pode nascer a luz.

Numa Casa Legislativa, a entrada é franqueada ao público interessado em assistir aos debates. Aplaudir ou vaiar são reações que já se situam no limite do admissível. O que se viu na Câmara do Rio ultrapassou esse limite.

A tribuna foi invadida e ocupada. Cartazes foram afixados. Gabinetes de vereadores foram vandalizados e o patrimônio público, degradado. Manifestação civilizada é uma coisa, agressão truculenta é outra, bem diferente.

Câmara Municipal do Rio de Janeiro Foto: Clarice Cudischevitch/AE

Câmara Municipal do Rio de Janeiro
Foto: Clarice Cudischevitch/AE

O cidadão parece não se dar conta de que tem nas mãos arma poderosíssima: seu voto. Tem a faca e o queijo, só lhe falta a vontade de comer. Se os vereadores estão lá, é porque foram escolhidos pela sociedade. Não são impostores. Se alguém errou ao votar e acabou escolhendo gente que não presta foi justamente a sociedade. É essa que tem de ser repreendida. Mais vale esclarecer a população que depredar a propriedade que é de todos.

Cabe a esses grupos que ora zelam pela moral e pelos bons costumes dedicar-se a tratar o mal pela raiz. Que usem as redes sociais para fazer circular listas de políticos ladrões, corruptos, indignos de representar o povo.

Uma vez fechadas as urnas e proclamados os eleitos, babau! Providências tomadas rio acima podem não satisfazer a sede de estrelismo desses paladinos da esperança versão beta. Mas são muito mais eficazes. Experimentem.

Interligne 34e