Bochecha com bochecha

José Horta Manzano

Todos os brasileiros não-robotizados têm uma sensação de desconforto quando doutor Bolsonaro solta suas barbaridades. Elas são costumeiras, mas – que remédio? – a gente não se acostuma. Para nós que vivemos longe da pátria, então, o desconforto é maior; chega a ser vergonha. Quando alguém começa a falar do presidente do Brasil, a gente se mexe na cadeira e quer mais é que a conversa se desvie logo pra outro assunto. É muito chato ter de explicar o tempo como é que esse estropício chegou lá.

Quanto aos ministros, enquanto seus insultos não atingem personalidades do exterior, ninguém fala deles. Felizmente. Só entram para o noticiário quando algum, mais ousado ou com mais pressa de agradar ao chefe, agride um país estrangeiro ou um figurão internacional. Aí, de novo, a gente pode ir se preparando para uma sessão desculpa.

Estes dias foi a vez de senhor Guedes, ministro que gere os dinheiros da nação. Em videoconferência patrocinada por The Aspen Institute – uma célula de reflexão frequentada por investidores estrangeiros –, o auxiliar de Bolsonaro rodou a baiana. Ele falou em inglês. Procurei o vídeo em versão original, infelizmente só circula a versão semidublada, aquela em que a voz do locutor cobre a fala original. Portanto, tenho de botar fé na (má) tradução.

O ministro foi instado a dar explicações sobre a política ambiental do governo do qual participa. Em vez de responder, decidiu, malandro, imitar a manjada linha de defesa lulopetista: arreganhou os dentes e partiu para a agressão pra cima dos mensageiros – no caso, os jornalistas. Disse horrores. Esbravejou lembrando que os EUA já tinham matado seus índios e destruído suas florestas, portanto, que nos deixassem e paz pra matar os nossos e destruir as nossas. Classudo, não?

Cheek to cheek
by Romero Britto (1963-), artista pernambucano radicado nos EUA

Acusou os EUA de serem Estado escravagista e racista. Denunciou a política econômica daquele país por estar dançando «de rosto colado» com a China (a tradução, digna de um aplicativo de tradução automática, diz ‘bochecha com bochecha’, mas desconfio que o original fosse mesmo ‘cheek to cheek’). Num insuperável rasgo de elegância, disse que nem um brasileiro bêbado ousaria conduzir o sistema bancário como fizeram os EUA quando da crise bancária de 2008 – repare na classe! Numa passagem um tanto obscura, mencionou o Lula e disse que estaria dando «apertos de mão» a Obama porque havia corrupção e compra de pessoas no Brasil. Esse pedaço, confesso, não entendi.

Entender o que dizem auxiliares de Bolsonaro é tarefa árdua. Esse senhor Guedes não foge à regra. Petulante, rosna e atira insultos assim que um microfone lhe aparece. Se o objetivo era afastar investidores, o sucesso está garantido. Se era resgatar a confiança do empresariado internacional num governo aprumado, o tiro saiu pela culatra. Se era desviar a atenção da criminosa destruição da Amazônia, em cartaz atualmente, conseguiu o efeito contrário: todos se deram conta de que Guedes tentou fugir às respostas. Fugiu às respostas, mas seu chefe não fugirá às consequências.

Aqui na Europa, a conferência não foi divulgada. Melhor para nós, que não teremos de dar explicação. Tenho pena de nossos conterrâneos que vivem nos EUA – e são muitos. Desta vez, a canseira e a vergonha são para eles. Ânimo, patrícios!

Publicado também no site Chumbo Gordo.

4 pensamentos sobre “Bochecha com bochecha

  1. Não me julgo qualificada para a tarefa de traduzir simultaneamente as falas de Guedes, mas me parece que o que ele quis dizer era que o elogio de Obama a Lula (chamando-o de “o cara”) era precipitado ou inconsequente, já que os bons resultados econômicos do governo no período se deviam à benevolência com empresários corruptos e à compra da imprensa provavelmente.

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    • Ah, entendo! Deve ser isso mesmo. É que eu li apenas a transcrição, feita por um estagiário, da tradução que tinha sido obtida através de aplicativo tradutor automático – o que explica que algumas frases se tenham extraviado.

      Parabéns pela perspicácia!

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      • Quando precisar de uma tradução rápida das falas/pensamentos de Bolsonaro, não se acanhe de me pedir. Já vem com análise psicopatológica incluída, como: Lamentamos (por dever do marketing político do cargo e para aumentar minhas chances de reeleição, mas a contragosto pessoalmente, já que o coronavírus não matou ninguém da minha família e porque essas 100 mil mortes atrapalham a comprovação da eficácia da cloroquina) todas as mortes (pra ser honesto, nem todas; tem muito velho sugando todo o dinheiro da Previdência, além de uns esquerdinhas aí que eu já queria despachar há muito tempo), mas vamos tocar a vida (sem olhar para trás, sem assumir minhas responsabilidades, colocando a culpa nos governadores e prefeitos que não são tão machos quanto eu para mandar a turma voltar ao trabalho de qualquer jeito e para reabrir as escolas porque criança não pega essa gripezinha)

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