Monarquia britânica

by Barry Blitt (1958-), artista americano-canadense

José Horta Manzano

Dá pra imaginar passear por Salvador e encontrar as baianas de acarajé vestidas de blusa florida, bermudão de jeans e boné na cabeça? De tristeza, o acarajé perderia o gosto. Sentada ou de pé, a vendedora de petiscos típicos faz parte da paisagem da Bahia. E tem de estar paramentada de branco imaculado, da cabeça aos pés, com saia rodada e tudo o que manda o figurino. Ela é peça importante do patrimônio imaterial de Salvador, uma riqueza que não se exprime em reais mas que atrai dólares para a cidade.

Tente imaginar agora uma Grã-Bretanha sem monarquia. Suponhamos que, dia destes, o povo decida, em plebiscito, dar adeus ao rei e adotar regime republicano. Desapareceriam a família real, as cerimônias, a pompa e as circunstâncias, e entraria em cena um presidente da República decorativo, de poderes limitadíssimos. O Reino Unido passaria a chamar-se República Unida – nome que assenta mal, dado que a união do país estaria ainda mais ameaçada que hoje.

Além da estranheza do novo nome, outros problemas surgiriam. Por falta de assunto, os famosos tablóides ingleses que se nutrem das fofocas da família real iriam à falência, deixando funcionários desempregados e leitores desapontados.

A monarquia é tão importante para o Reino Unido como a baiana de acarajé é necessária para a Bahia. Talvez ainda mais importante. Se não, vejamos.

Ao comentar a coroação do rei Carlos (=Charles), o venerável jornal The Times, publicado em Londres há quase 250 anos, notou que a cerimônia foi modificada para ser mais inclusiva, mas ainda assim “os rituais antiquados da coroação são um lembrete de como – em uma sociedade secular, multiétnica e digital – a coroa é fundamentalmente um anacronismo”.

Tomando o termo anacronismo em sua acepção primeira (erro de cronologia), o jornal tem razão. Os ritos que envolvem a coroação de um monarca britânico não combinam com esta era de inteligência artificial. Por seu lado, esse “anacronismo” faz na população britânica o efeito que as novelas fazem no povo do Brasil. A monarquia, com seus ritos, seu formalismo, seus encantos e suas maldades é aquele mundo de sonhos que encanta qualquer cristão. Fatos e gestos da família real equivalem à trama tecida pelos personagens de uma boa novela das nove.

É verdade que um espetáculo como a coroação de Carlos III não sai barato. É o povo britânico que vai pagar o custo estimado entre 50 milhões e 100 milhões de libras (320 milhões a 630 milhões de reais). Fora eventos excepcionais, os gastos anuais com a monarquia são estimados entre 60 milhões e 100 milhões de libras (380 milhões e 630 milhões de reais).

Mas toda medalha tem dois lados. Os custos têm de ser analisados e comparados aos ganhos. Além de ser marca registrada da nação, a monarquia representa para o país mais benefícios do que despesas.

Estima-se que um evento como a coroação do rei leve ao país um lucro em torno de 1,4 bi de libras (8,8 bi de reais). Isso inclui ganhos com turismo, hotelaria, restaurantes, pedágio, combustível, transportes, moda, souvenirs, comércio em geral, relações públicas. Os direitos televisivos são um ítem importante nesse cálculo.

Só para efeito de comparação, estima-se que o casamento do príncipe Harry com Meghan Märkle, celebrado em 2018, tenha trazido ao país um benefício total de 1,05 bilhões de libras (6,6 bilhões de reais).

Bem bobos seriam os britânicos se destituíssem o rei e abolissem a monarquia. A ilha deles, além perder boa parte da graça, estaria desperdiçando importante fonte de renda.

Se o telefone bater

José Horta Manzano

Pra enxergar melhor, amplie a imagem estampada acima. O instantâneo foi batido em maio de 2020, no auge da primeira onda de covid.

O então presidente aparece no centro da imagem. Ao redor, um batalhão de seguranças, reconhecíveis pelos óculos escuros estilo anos 60 e pelo fone de ouvido.

Um personagem de óculos pendurados na camiseta carrega uma pasta preta. Dado que não parecem dirigir-se a nenhuma reunião de trabalho, pode-se supor que a pasta pertença ao presidente. Talvez contenha alguma importante minuta, se é que me faço entender.

O presidente pela mão leva a criança, sua filha.

Na extrema esquerda, aparece o ajudante de ordens, o então major Mauro Cid, hoje na prisão. Marquei com flecha os três telefones celulares que se adivinham na imagem: um na mão direita do assessor, mais um em cada bolso da calça dele.

O presidente não parece levar nenhum telefone, fato inabitual em pessoa sabidamente ligada a esse meio de comunicação.

Esse fato invulgar nos leva a desconfiar que um dos aparelhos que o ajudante de ordens leva no bolso pertença ao chefe. Talvez até os dois celulares.

É possível que essa promiscuidade telefônica tenha despertado a curiosidade da PF que, acertadamente, confiscou os aparelhos de cada um dos dois, chefe e assessor, ao mesmo tempo.

Parece que o aparelho de Bolsonaro estava mudo, tudo apagado e nada mais. Mas o(s) do faz-tudo do chefe estava(m) recheado(s) de informações importantes, que vão pingando aos poucos.

Espremendo bem, inda vai acabar saindo o rascunho da minuta do golpe.

O mundo está de olho

José Horta Manzano

Estes últimos anos, nosso país tem sofrido terremotos político-policiais um atrás do outro. São escândalos frequentes e variados que, frequentemente, envolvem figuras políticas de projeção.

Os quatro anos da gestão de Bolsonaro foram pródigos nessa matéria – o capitão nunca nos deixou na mão por falta de assunto. O nome do Brasil ecoou (e muito!) fora do país, e passeou pelas manchetes em letras constrangedoramente grandes.

No entanto, veja você como são as coisas, o escândalo dos falsos certificados de vacina bateram todos os recordes. Embora, à primeira vista, pareça um caso menor, a repercussão tem sido planetária. Acredito que, se tivesse surgido logo no começo do mandato do capitão, não tivesse alcançado as manchetes; mas tendo surgido agora, que o mundo inteiro já conhece bem o personagem, o caso está fazendo sucesso. Está bombando, como convém dizer neste mundo de narrativas.

Procurei, nos jornais estrangeiros, as notícias do caso dos certificados falsos. Fui colecionando, separados por língua. Contei-as: uma, duas, três, etc. Chegando a dezessete, cansei e parei. Confesso que nunca tinha encontrado antes relato de nossos dramas em vietnamita ou em romeno. Pois desta vez, encontrei.

Mostro, a seguir, uma resenha. Se o distinto leitor planeja viajar para a Hungria, a Turquia ou a Indonésia, aconselho a não dar muita bandeira (entenda “bandeira” no sentido que quiser). É pra não passar vergonha.

Alemão
Casa revistada atrás de dados do Corona

Inglês
Casa revistada enquanto Brasil investiga cartões de vacina falsos

Francês
Perquisição na casa de Bolsonaro, suspeito de falsificação de certificados vacinais

Italiano
Green pass falsos para contornar proibições anticovid: casa de Bolsonaro perquisicionada

Sueco
Residência de Bolsonaro revistada pela polícia

Español
Polícia faz buscas na casa do ex-presidente, numa investigação de sua vacinação contra a covid

Húngaro
Casa de Bolsonaro revistada e seu celular apreendido

Polonês
Bolsonaro falsificou registros de vacinação? Polícia prende colaboradores do ex-presidente

Indonésio
Polícia brasileira faz buscas na casa de Bolsonaro e detém assessor

Tcheco
A polícia fez buscas na casa do ex-presidente do Brasil, Bolsonaro. Eles estão investigando um fraude de vacinação contra a covid

Eslovaco
Polícia faz buscas na casa do ex-presidente brasileiro Bolsonaro por fraude na vacinação

Lituano
Polícia brasileira faz buscas na casa de Bolsonaro e apreende seu celular

Romeno
Investigação sobre falsas vacinas anti-COVID no Brasil/ A polícia faz buscas na casa do ex-presidente Jair Bolsonaro e confisca seu telefone celular

Vietnamita
Polícia brasileira revista casa do ex-presidente Bolsonaro

Turco
Operação contra o ex-presidente brasileiro Bolsonaro

Grego
Batida policial na residência de Bolsonaro – Prisão de dois assessores

Esloveno
Polícia faz buscas na casa de Bolsonaro em razão de certificado de vacinação contra a covid-19

Busca e apreensão

José Horta Manzano

Muito esquisita a “breaking news” desta manhã de quarta-feira. Numa operação de busca e apreensão levada a cabo logo cedinho pela Polícia Federal, o braço direito do então presidente Bolsonaro, um tenente-coronel do Exército, foi preso preventivamente (por tempo indefinido). Outros personagens foram também levados de camburão. A residência de Bolsonaro, num condomínio de luxo de Brasília, sofreu perquisição que terminou com seu telefone celular sendo apreendido.

Oficialmente, a operação foi lançada para desmascarar e botar atrás das grades uma quadrilha de falsificadores de documentos públicos. Mais de quinze pessoas são acusadas de envolvimento na produção de falsos atestados de vacinação contra a covid. Parte da quadrilha estaria homiziada no próprio Palácio do Planalto na época em que Seu Jair era o dono do pedaço.

Tudo isso me parece um tanto estranho. Com tantas acusações de crime grave pesando sobre os ombros do ex-presidente, a PF preferiu deflagrar essa operação para investigar um crime francamente menor. Fraude em documento público pode dar até 4 anos de cana, mas cumplicidade na morte de centenas de milhares de cidadãos no auge da pandemia pode resultar em pena bem mais pesada.

Por que isso agora? A oposição dirá que é perseguição contra o cândido ex-presidente, alma boa e pura incapaz de fazer mal a um pernilongo. É verdade que o capitão deixou atrás de si um rastro de inimigos, de gente a quem insultou gratuitamente e que hoje não o olham com simpatia. Mas deixou também um rastro de atos e gestos indecorosos e criminosos que ainda hão de persegui-lo por anos.


Num primeiro momento, me ocorrem algumas reflexões.

Quando a pandemia se alastrou e pegou feio, o que todos queriam era esticar o bracinho pra receber a vacina salvadora – incluindo extremistas zumbificados. Até um general palaciano foi acusado de se ter vacinado escondido. Portanto, não faz sentido uma quadrilha se formar dentro do Planalto para emitir certificados de vacinação falsos.

Certificados para quem? Quando Bolsonaro esteve em Nova York para discursar na ONU, fez questão de apregoar seu status de não vacinado. Todos se lembram daquela cena surreal em que o chefe do Estado brasileiro e seu entourage aparecem mordiscando um triângulo de pizza gordurosa, com as mãos, todos de pé numa calçada nova-iorquina. Tanto ele não tinha sido vacinado, que não pôde entrar no restaurante. E se orgulhou disso. Ele, portanto, não precisava de certificado falso.

Por que, então, a operação de hoje?

1) A primeira possibilidade seria investigar a fundo e demonstrar que, apesar de afirmar o contrário, Bolsonaro se vacinou, sim, contra a covid. Nesse caso, imagina-se que ele sairia desmoralizado desse episódio perante seus adeptos. Não me parece que provar que ele se vacinou fizesse algum efeito. Os que não apreciam o capitão, não estão nem aí para seu estatuto vacinal; já seus zumbificados adeptos, que vivem num universo paralelo, se agarrariam a um pretexto qualquer para não acreditar na história.

2) Outra possibilidade poderia ser jogar holofotes sobre a estada de Bolsonaro nos EUA do fim de dezembro 2022 até fim de março 2023. Na ida, entrou no país em avião oficial, na qualidade de chefe de Estado estrangeiro, personagem de quem não se costuma pedir documento. No entanto, dois dias depois, ao fim de seu mandato, deixou de ser chefe de Estado e passou à condição de turista. Tendo assim perdido as prerrogativas, transformou-se em simples mortal, como qualquer um de nós. Foi nesse momento que o capitão entrou para a clandestinidade. A lei americana exige que todo visitante estrangeiro esteja vacinado. Bolsonaro não estava e nada fez para regularizar a situação.

Será que a PF está sugerindo às autoridades americanas que convoquem o capitão para esclarecer o caso? Se ele desdenhar do processo americano, acabará sendo julgado à revelia e poderá pegar 10 anos de cadeia entrar na lista vermelha da Interpol, o que o condenará a não mais sair do Brasil e a passar os próximos anos por aqui à espera do camburão. Será esse o raciocínio da PF?

3) Uma terceira possibilidade tem a ver com o telefone do ex-presidente, que foi apreendido. E se o objetivo maior de toda essa operação fosse simplesmente arrancar o celular das mãos de Seu Jair e mandá-lo para análise? Ele deve conter informações crocantes e apimentadas, daquelas que não saem no jornal. Enquanto estão todos discutindo se Bolsonaro se vacinou ou deixou de se vacinar, a PF está escrutando as entranhas do telefone ex-presidencial.

E como é que fica isso tudo? Veremos. O tempo dirá.

O mundo encolheu

José Horta Manzano

Algumas semanas atrás, em 18 de março, o Tribunal Penal International (ICC, International Criminal Court), sediado na Haia (Holanda), lançou um mandado internacional de captura contra o cidadão Vladímir Putin, ditador da Rússia.

Ele é acusado de crime de guerra por haver deportado ilegalmente crianças ucranianas para a Rússia. Assim que a notícia chegou a Moscou, o Kremlin manifestou seu desdém e alegou que “a Rússia não reconhece esse tribunal, portanto o mandado de captura não tem validade”.

O chato é que, ainda que a Rússia tenha imediatamente abandonado o tratado, renegando a própria assinatura, a ordem de captura continua válida no território de todos os países membros.

Em verde: países membros

E eles são muitos. A ilustração mostra em verde os países que assinaram e ratificaram o tratado. Repare que o Canadá e a América Latina quase inteira são estados membros (só escapam os EUA e as ditaduras). Europa idem. Boa parte dos países africanos segue na mesma linha. Japão, Austrália, Nova Zelândia e Mongólia fecham a fila dos membros.

O jornal digital Kyiv Post, bastião das liberdades da Ucrânia publicado em inglês, acompanha com interesse tudo o que se publica sobre a Rússia e especialmente o ditador Putin. No número deste 1° de maio, estampa a manchete “A África do Sul faz um alerta: Putin poderia ser detido em caso de visita”.

Em seguida, vem a explicação. É que uma cúpula dos membros do Brics está prevista para agosto, a desenrolar-se em Durban, África do Sul. Lula provavelmente comparecerá. Mas com antecedência, o governo sul-africano já avisou que, caso compareça à cúpula, Vladímir Putin poderá ser preso.

O primeiro-ministro da província de Southern Cape mostrou-se aborrecido com a decisão do governo sul-africano de convidar Putin apesar do mandado de prisão. Mas afirmou que, assim que o ditador russo desembarcasse do avião, cumpriria a lei: daria ordem à polícia local para prendê-lo e guardá-lo em custódia à espera de extradição em direção à Holanda.

Putin que se cuide. Na Rússia, ele manda. Fora do país, está na lista de criminosos procurados.

Que coisa, não? Nem bandido do andar de cima consegue mais se esconder. O mundo parece que encolheu.

O capital de simpatia de Luiz Inácio

Visite a Rússia
Antes que Putin visite você

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense de 29 abril 2023

Não há que reclamar. Em certos aspectos, o passar do tempo tem sido benéfico a Luiz Inácio da Silva. Aquela barba escura e aquele cabelo farto dos jovens anos branquearam e rarearam, conferindo-lhe aspecto de um Papai Noel bonachão ao qual só falta o roupão vermelho. A natural fragilidade de um homem de quase 80 anos enternece os olhares, induz ao respeito e refreia a agressividade de todo interlocutor. O fato de ter-se casado em idade madura com uma senhora jovem e sorridente passa a impressão de estar de bem com a vida, o que é muito positivo.

No entanto, esses fatos são cosméticos: modificam a aparência sem bulir na essência. No fundo, Lula não mudou nem um tico. Continua empacado em algum ponto do século passado, num tempo em que era de bom tom execrar os Estados Unidos e tudo que orbitasse em torno do “grande irmão”.

De lá pra cá, o mundo mudou muito. A União Soviética desapareceu. O urso siberiano já não encarna o “perigo comunista”. Putin, o líder que se senta hoje no trono que um dia foi de Stalin, alarma o planeta, sim, mas não pelo comunismo. Decidido a restaurar o império tsarista, invadiu a Ucrânia numa guerra de conquista territorial. Com palavras agressivas, em que a ameaça de guerra nuclear é insinuada com insistência, o susto agora é outro: as falas de Putin anunciam o Armagedom.

Refestelado nas poltronas macias do Planalto ou do avião presidencial, a milhares de milhas do palco das atrocidades que Putin está provocando, nosso presidente não está em condições de sensibilizar-se com a tragédia que abala a Europa e angustia o mundo. Dificilmente um brasileiro comum será capaz de apontar a Ucrânia num mapa-múndi. Um Lula atarantado com o acúmulo de problemas internos não há de ter tempo para se informar sobre um drama que não o afeta. Esse fato, aliado a falhas de sua assessoria, está criando a dificuldade que Luiz Inácio tem de se inteirar dos comos e porquês desse conflito alucinante que já matou meio milhão, aleijou outro tanto e deslocou 10 milhões de ucranianos.

Para meio bilhão de europeus, a importância do que está acontecendo na Ucrânia é de outra magnitude. Berlim, a capital da Alemanha, está a apenas 800 km de Lviv (Ucrânia). Zurique (Suíça) está mais perto de Kiev (Ucrânia) do que São Paulo está de Brasília. Mesmo Portugal, que é o país europeu mais distante da Ucrânia, não está tão longe assim: a distância entre Lisboa e Lviv é menor que a distância entre Belém e Florianópolis. É essa proximidade trágica que alimenta o temor dos europeus. Foi ela que deu um solavanco nos princípios de defesa do continente. Países antes despreocupados acordaram para o novo perigo vindo do Leste. Suécia e Finlândia aderiram à Otan. Alemanha dobrou seu orçamento militar. Todos os demais países aumentaram suas despesas com defesa. Todos cederam parte de seu arsenal à Ucrânia para ajudar a conter a agressão russa. Os europeus sabem que, se o urso siberiano não for detido agora, eles podem bem ser as próximas vítimas.

É, até certo ponto, compreensível que nosso presidente não consiga se compenetrar da premência de ajudar a infeliz Ucrânia a enxotar os russos de seu território. Assim mesmo, é bizarro que sua veia socialista e universalista não lhe tenha despertado compaixão para com a sorte das vítimas do surreal ataque conduzido pelo autocrata de Moscou.

Prefiro acreditar que Luiz Inácio esteja mal informado do que se passa nessa Europa que acreditava ter atingido a paz permanente. Prefiro supor que, ao dizer que “quando um não quer, dois não brigam”, Lula estivesse apenas distraído da gravidade de suas palavras. Reduziu a agressão russa a uma briga de moleques de rua.

Lula guarda o trauma das vaias que recebeu no Maracanã, na abertura dos Jogos Panamericanos de 2007. Desde então, tem evitado situações em que possa ser alvo de manifestação de desapreço. Os protestos que enfrentou na Assembleia Portuguesa esta semana devem tê-lo feito refletir.

É bom que ele se emende e nunca mais volte a tratar o meio milhão de mortos da guerra na Ucrânia como variável de ajuste. O que está dito, está dito. Com algumas frases infelizes, Lula minou o imenso capital de simpatia de que gozava na Europa. Antes de recobrá-lo, ainda há de ouvir muito protesto. Daqui por diante, é bom refletir antes de falar. O próximo escorregão pode ser fatal para o resto de apreço que a Europa ainda lhe dedica.

A gravata

José Horta Manzano

Madame Da Silva esteve na Europa para uma vilegiatura de 5 dias em Portugal, mais um dia de lambuja na Espanha. Enquanto o marido tratava com gente séria e soltava alguma bobagem (mas só de vez em quando), Madame não tinha muito que fazer.

Um dia, levantou da cama decidida. Convocou um batalhão de seguranças e dirigiu-se a uma franquia da rede Ermenegildo Zegna, aquela loja de adereços masculinos que marca presença nos bons centros comerciais (=shopping centers) ao redor do planeta.

Lá encantou-se por um modelito de gravata rajada azul e branco – uma graça! Não ficou claro se Madame perguntou o preço. Mandou embalar e voltou para o hotel com a compra debaixo do braço.

Jornalistas curiosos foram atrás de informações. E descobriram que o mimo adquirido por Madame custou a bagatela de 195 euros (cerca de R$ 1.100).

Ok, concordo que cada um gasta seu dinheiro como quer. Se Madame Da Silva não se importa de investir um patrimônio numa gravatinha de grife, o problema devia ser dela, não nosso.

Só que tem uma coisa. Se o distinto leitor entrar numa boutique Zegna e comprar uma gravata de mais de mil reais, a notícia não vai sair nos jornais. Agora, quando se é a primeira-dama do Brasil, é diferente. Todo gesto, toda palavra, todo ato é escrutado, analisado, pesado, medido e… publicado. Assim como o presidente deveria tomar mais cuidado com suas declarações, a primeira-dama deveria prestar mais atenção a certos gastos ostentatórios.

Em primeiro lugar, há o perigo de muita gente pensar que a compra foi debitada no cartão corporativo, ou seja, que o gasto foi pra conta do povão. Essa ideia é evidentemente falsa. Mas pega mal.

Em seguida, tem o alcance do gesto. Madame Da Silva, que é socióloga, está sem dúvida sabendo que 33 milhões de conterrâneos passam fome. Esse contingente foi confirmado por seu marido em fala recente. Convenhamos: quem compartilha com o marido o topo da escala de poder não deveria dar demonstração pública de esbanjar dinheiro num país em que um em cada sete habitantes sofre cronicamente o flagelo da fome. Pega muito mal.

De uma próxima vez, não custa encarregar um assessor de ir até a loja e trazer a caixinha. A hipocrisia será a mesma, mas ninguém vai ficar sabendo.

De quem é a Crimeia?

José Horta Manzano

Acabo de assistir à coletiva de imprensa que Lula e Pedro Sánchez, o chefe do governo espanhol, deram na saída de uma conversa a portas fechadas. Em virtude do pouco tempo disponível, só foram permitidas duas perguntas, uma de uma jornalista brasileira e uma de um jornalista espanhol.

Ambas as perguntas foram múltiplas, com três ou quatro subperguntas embutidas, mas o tema principal das duas foi o mesmo: a guerra na Ucrânia. Está confirmado que as declarações contraditórias que nosso presidente tem dado nos últimos tempos retumbaram na Europa.

Uma das perguntas deixou Lula em saia apertadíssima. À queima-roupa ouviu: “Na sua opinião, presidente, a Crimeia e o Donbas pertencem a que país?”. Luiz Inácio engasgou. Disse que não tinha entendido a pergunta. O repórter repetiu pausadamente. O presidente do Brasil continuou reclamando que não havia entendido.

O chefe do governo espanhol se meteu na conversa, e Lula teve de entregar os pontos. Admitiu que tinha entendido. Mas logo se esquivou alegando que não cabia a ele responder a essa pergunta. Não lhe compete decidir quem é o dono da Crimeia e do Donbas. Espichou um pouco mais o raciocínio, mas acabou mudando de assunto.

Lula está gravemente enganado. Sua resposta está longe da realidade. Ao escapar por essa portinha estreita, ele mostrou que seus conhecimentos não lhe permitem meter-se em política internacional sem dar vexame.

Só para recordar, a Ucrânia era uma república integrante da União Soviética. Com o desmonte da URSS, o país tornou-se independente em 1991. Em dezembro daquele ano, o Brasil reconheceu a Ucrânia como país independente dentro de fronteiras soberanas e universalmente reconhecidas. O território incluía a Crimeia e a bacia do Rio Don, o Donbas. O próprio Lula visitou Kiev em 2009, como presidente do Brasil, quando o país estava inteiro e ninguém discutia a propriedade do território.

O fato de a Rússia ter invadido a Crimeia em 2014 e parte do Donbas em 2022 não altera o tabuleiro: essas duas regiões continuam fazendo parte integrante da Ucrânia. Portanto, a resposta que se esperava de Luiz Inácio era que, até que eventual novo tratado modificando fronteiras internacionais venha a ser assinado e reconhecido pelo mundo todo, o território ucraniano inclui, sim, a Crimeia e o Donbas.

Se um líder estrangeiro, indagado sobre quem é o dono do Acre, desse uma resposta à la Lula – “não cabe a mim decidir a que país pertence o Acre” –, causaria fúria em Brasília e indignação no resto do mundo. E com razão, pois não?

Escapar à pergunta, como fez Lula da Silva, é levar água ao moinho de Putin. Somente o ditador da Rússia põe em dúvida o que ficou acertado e sacramentado 30 anos atrás. Lula mostra que continua mal preparado para enfrentar as consequências de suas falas desastradas.

Que se prepare para as próximas vezes, que virão certamente.

Olhos para não ver

by M. C. Escher (1898-1972), artista holandês

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Certa vez tive um sonho muito estranho e simbólico, que minha terapeuta chegou a definir como “esquizofrênico”. Ele foi assunto de muitas sessões e passou por várias interpretações que nunca me satisfizeram. O desconforto que senti então me acompanha até os dias de hoje.

Eu estava diante de um muro muito alto, com um grande pórtico central, onde se podia ler a inscrição “Escola de Não Ver”. Curiosa, resolvi escalar o muro para tentar descobrir que tipo de aprendizagem se desenrolava lá dentro. Encarapitada no alto do pórtico, pude ver que se tratava de um enorme pátio de palácio chinês, parecido com o do filme O Último Imperador. Ocupando boa parte do espaço estavam perfilados vários batalhões animais, separados por espécie, em treinamento. Havia um batalhão de galinhas, outro de cavalos, e assim por diante.

Ao comando de início do treinamento, cada batalhão se envolvia na tarefa de destruir partes do corpo de seus colegas de espécie. Estranhamente, não havia fúria no ar, apenas o procedimento burocrático, metódico e persistente de garantir a destruição macabra dos restos de iguais. As galinhas bicavam as partes do corpo de outras galinhas. Os cavalos pisoteavam as de outros cavalos. Eu acompanhava estupefata os movimentos de cada batalhão sem conseguir atinar com o propósito daquilo tudo. Se já estavam mortos e esquartejados, para que se dar ao trabalho de estraçalhar o que restou deles? Não fazia sentido.

De repente, me dei conta de que não havia ali um batalhão humano. Por que eles estavam ausentes se a destruição insana de indivíduos da mesma espécie é característica dos animais ditos racionais? Nunca soube de instinto de aniquilação dos corpos de semelhantes entre os animais de espécies filogeneticamente inferiores, mas estava farta de testemunhar esses atos de barbárie entre seres humanos. A coisa fazia menos sentido ainda. Fosse como fosse, a proposta da Escola de Não Ver parecia estar sendo efetivamente cumprida.

Ao fundo do pátio, era possível ainda ver escadas que produziam a ilusão de ótica de movimento ao mesmo tempo ascendente e descendente, como as ilustradas pelo artista gráfico Escher. Ou seja, elas não davam em lugar nenhum, voltava-se sempre ao ponto de partida. Era impossível sair do pátio e escapar da sorte daqueles batalhões.

A coisa toda só começou a fazer sentido quando, muitos anos mais tarde, me deparei com uma frase do próprio Escher pouco antes de morrer: “Deus não pode existir sem o mal e, desde que se aceite a ideia da existência de Deus, tem-se de aceitar também a do mal. É uma questão de equilíbrio. Essa dualidade é minha vida”.

O tema da presença simultânea do bem e do mal na estrutura psíquica humana também sempre me instigou. Da psicanálise à antroposofia, uma constatação: não queremos ver nosso lado sombrio, nos recusamos a entrar em contato com nossas pulsões de morte, com o desejo de extermínio do outro. Achamos mais fácil dividir a humanidade entre pessoas de bem e do mal. E o que isso tem a ver com a visão? Vou tentar explicar.

Dos pelos menos 5 sentidos que herdamos ao nascer – digo ‘pelo menos’ porque já há várias teorias científicas propondo a existência de cerca de 9 sentidos na espécie humana – a visão desde logo adquire um caráter crucial, tão importante para nossa interação bem-sucedida com a sociedade como o faro para os animais. É através dela que nos conectamos com a realidade exterior desde os primeiros minutos de nossa existência. Por razões ainda não muito bem explicadas, ao longo da vida a visão vai ganhando um caráter autoritário, quase ditatorial, podendo minimizar ou até mesmo eliminar por completo as percepções oriundas de outros órgãos dos sentidos. Se uma visão lhe agrada, você pode deixar em segundo plano o cheiro, o gosto, o tato e o som que a acompanham e que podem eventualmente lhe desagradar.

Na faculdade, fazíamos uma experiência para demonstrar como isso funciona: apresentava-se a uma pessoa dois objetos de madeira, um cubo grande (mas oco) e uma bola muito pequena (mas sólida), e, depois de colocados um em cada uma de suas mãos, pedia-se que ela estimasse qual dos dois era o mais pesado. A resposta unânime era a de que o cubo era o mais pesado. Pedíamos então que a pessoa fechasse os olhos e repetíamos a avaliação sensorial. A resposta que se seguia era sempre a de que a bola era mais pesada. Ao abrir os olhos novamente, as pessoas costumavam se surpreender com a incompreensível disparidade de suas avaliações.

Outro dado que indica o absolutismo da visão é o de que ela desfruta de credibilidade instantânea, ao contrário do que tende a acontecer com outros sentidos. A linguagem cotidiana expressa isso de maneira exemplar: “Ninguém me contou, eu vi com meus próprios olhos”. Nessa equação, raras vezes entram em discussão os fenômenos de ilusão de ótica ou de distorções provocadas pelo ângulo de visão. Quando, no entanto, a informação vem pelo ouvido, pelo nariz, pelo paladar ou pelo tato, ainda há espaço para dúvida: posso não ter escutado direito, posso ter sido traída pelas circunstâncias ou por experiências anteriores.

Um enorme fator complicador dessa tendência no século 21 é que a tecnologia se concentrou quase exclusivamente no desenvolvimento de novas telas, reforçando dessa forma o caráter impositivo da visão. O aparecimento de aparelhos de realidade aumentada serviu para colocar ainda mais fogo num ambiente já inflamado. Técnicas avançadas de manipulação de imagens ampliaram absurdamente o poder da persuasão visual.

Com o advento da pandemia de covid, a imersão desenfreada no mundo virtual das imagens parece ter levado as pessoas a um estado paroxístico de insensibilidade – e de desumanização -, talvez em função do desuso de outras fontes sensoriais de experiência. Se você não pode sentir o calor do toque das mãos ou do corpo de outras pessoas num abraço, não consegue sentir o cheiro do sangue quando o outro é esfaqueado ou baleado, nem ouvir seus gritos de horror, tudo se transforma numa experiência inconsequente, característica dos jogos eletrônicos.

A coisa é tão grave que cheguei a formular para mim mesma o conceito de ‘nova forma de cisão esquizofrênica’ para explicar o fenômeno. Já não conseguimos distinguir a realidade ‘real’ da realidade virtual. Somos induzidos a experimentar novas situações pelo simples prazer da experiência, por mais extremas que elas sejam. O problema é que as imagens não têm substância nem ética incorporada. Cabe a cada um atrelar significados a elas e entender como as consequências se encaixam na sua escala pessoal de valores.

Piorando ainda mais esse estado de coisas, sempre foi muito difícil para a maioria apoiar-se naquilo que os espiritualistas chamam de “olhos da alma” para ampliar as oportunidades de autoconhecimento. A visão, assim como os demais órgãos dos sentidos humanos, é voltada para a exterocepção, isto é, para fora, mas é de pouca valia para visualizarmos o que temos por dentro. Olhar para dentro e encarar a frio quem somos de fato quando não há outros olhos por perto é algo que costuma causar pânico, dado o risco de destruição de nossas ilusões mais caras e de muitas de nossas crenças mais arraigadas.

Como diria Fernando Pessoa, “para que serve uma sensação se há uma razão exterior para ela?”

Avatares não olham para dentro, não é mesmo?

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Para um 22 de abril

Descobrimento do Brasil
by Oscar Pereira da Silva (1867-1939)

José Horta Manzano

Você sabia?

 


Insegurança é componente importante do espírito brasileiro.

Vivemos num persistente estado de insegurança de raiz.


 

A desonestidade e a criminalidade onipresentes geram insegurança e transformam o honesto cidadão em refém da violência de criminosos.

Na política, fica a impressão de que os do andar de cima, embora podres, conseguem sempre escapar dos raios da justiça.

Para os do andar de baixo, a insegurança jurídica é proverbial. Vai-se dormir à noite sem ter certeza de que, no dia seguinte, leis e regulamentos ainda serão os mesmos.

Essas incertezas não vêm de hoje. Marcam a história do país desde o dia em que foi lavrada sua “certidão de nascimento”. Falo da carta de Pero Vaz de Caminha, bordada com arte e carinho pelo escriba da esquadra de Cabral.

A missiva é cristalina ao datar a descoberta – ou o achamento, como prefiram – da terra tropical. Diz ela: “nos 21 dias de abril (…) topamos alguns sinais de terra, os quais eram muita quantidade de ervas compridas, a que os mareantes chamam botelho”. No dia seguinte, foi avistado um «monte mui alto e redondo», além de serras e de terra chã com grandes arvoredos. Pronto, o Brasil estava achado. E era 22 de abril.

Acontece que essa carta, devidamente guardada nalgum escaninho da burocracia lusa, sumiu durante 300 anos e acabou esquecida. Só viria a ressurgir no século XIX. Enquanto isso, o Brasil já se havia declarado independente da metrópole. Logo após a independência, na complexa organização do novo país, foi buscada uma data de descobrimento. Na falta de informação segura, foi designado o dia 3 de maio. E por quê?

A insegurança gerada pela ausência de provas documentais fez supor que o primeiro nome dado à terra – Vera Cruz – viesse do dia que a Igreja consagra à celebração da verdadeira cruz, justamente o 3 de maio.

Em 1889, ao fixar os feriados oficiais da nova república, o governo provisório manteve a comemoração da chegada dos primeiros europeus em 3 de maio. Por essa altura, a carta de Pero Vaz já havia reaparecido – portanto, já se sabia que a verdadeira data não era aquela. Assim mesmo, por comodidade, deu-se preferência a manter a celebração no dia de Vera Cruz. Como o dia de Tiradentes, 21 de abril, já era dia de festa, não convinha fixar dois feriados seguidos.

Não foi senão durante a ditadura de Getúlio Vargas que a História se rendeu oficialmente à evidência: estava-se comemorando no dia errado. Resolveram corrigir. De uma tacada, vieram duas modificações: o descobrimento passou a ser celebrado dia 22 de abril e, ao mesmo tempo, deixou de ser dia feriado.

Quando eu era criança, meus pais me diziam que o Brasil tinha sido descoberto em 3 de maio e eu não entendia por que, na escola, me ensinavam data diferente. A insegurança sobre as datas só se desfez muitos anos depois, quando eu descobri que meus pais estavam apenas me transmitindo o que haviam aprendido nos tempos de grupo escolar.

O distinto leitor há de convir que, numa terra que já começou com provas documentais desaparecendo de circulação, não espanta que a insegurança continue sobressaindo. Fazer sumir provas tornou-se esporte nacional. Antes, eram documentos que desapareciam; hoje em dia, são as fitas das câmeras do Palácio do Planalto.

Francamente, continuamos a viver na terra do “eu não sabia de nada”.

Primeiro teste

Chamada Estadão 20 abr 2023

José Horta Manzano

O foguete do bilionário decola direitinho mas, poucos minutos adiante, explode bonito. E o jornal ainda diz que ele “passa” por primeiro teste.

Não sei o que você acha. Quanto a mim, eu diria que ele “não passou” pelo primeiro teste. Foi reprovado.

Se o autor da chamada fizer questão de manter a formulação da frase, que diga que o foguete “enfrenta” primeiro teste. Diante de um fracasso, acho inadequado dizer que o foguete “passou”.

PS
Talvez o insucesso do lançamento seja resultado do olho gordo de milhões de usuários do Twitter, furiosos com o bilionário trapalhão que está destruindo seu brinquedinho e complicando a vida alheia. Hoje ele deve ter perdido uns bons milhões. Tanta miséria na Terra, e esse indivíduo queimando dinheiro para satisfazer a própria vaidade. Gente fina, não deve ser.

De trás pra diante

José Horta Manzano

Os fatos da vida costumam fluir numa direção dada. Em princípio, as coisas evoluem do começo em direção ao fim, não ao contrário.

Me lembro de um filme engraçado – O curioso caso de Benjamin Button –, estrelado por Brad Pitt e Kate Blanchett, lançado no Brasil em 2009. Contava a história de um indivíduo que nascia velhinho e, conforme passavam os anos, ia aos poucos rejuvenescendo até morrer sob a forma de um recém-nascido. Uma vida de trás pra diante, em suma.

No cinema, pode tudo. Na vida real, é mais usual os fatos fluírem do começo em direção ao fim.

O percurso das palavras não escapa a essa lógica. Diferentemente do que muita gente imagina, não são os dicionários que inventam ou dão vida a palavras novas. O caminho é exatamente inverso: é só depois de surgirem e de se popularizarem que as palavras entram para o dicionário. O “pai dos burros” não faz mais que registrar expressões e termos já consagrados pela fala popular.

Pois tem gente que acha que é possível inverter a lógica. Em vez de seguir o caminho habitual uso popular → dicionário, tentam arrevesar para dicionário → uso popular.

Explico melhor. Fiquei sabendo de uma campanha lançada por SporTV e Pelé Foundation. A intenção é pressionar os dicionários a registrarem Pelé como palavra comum (substantivo e adjetivo). Sem-cerimônias, os autores da petição dão até as acepções que gostariam de ver registradas:

1. Maior que todos os outros.
2. Referência de grandeza.
3. Inigualável.
4. Sinônimo de excelência.
5. Único.

E enumeram as razões que embasam a escolha de Pelé:

1. Maior de todos
2. É considerado o maior brasileiro de todos os tempos
3. Uma lenda e recordista de gols e títulos
4. Foi responsável por parar uma guerra na África
5. Possui títulos e medalhas além do futebol

Que Pelé foi um grande jogador, quiçá o melhor do mundo, ninguém discute. Que marcou gols e ganhou títulos e medalhas, me parece natural, visto que jogava como atacante. Agora, que tenha sido “o maior brasileiro de todos os tempos”, eu diria que a concorrência é rude. Com tantos heróis e heroínas que povoam nossa história, pode ser que haja alguma controvérsia.

Mas o mais curioso nessa campanha é tentarem inverter a ordem natural das coisas. Não é comum a gente consultar o dicionário para, só em seguida, começar a usar uma palavra nova. É o contrário que costuma acontecer. Assim, me pergunto qual seria a utilidade de um verbete Pelé (pelé, na verdade).

No dia em que o termo entrar de verdade na linguagem corrente, pode deixar: dicionaristas hão de introduzi-lo na próxima edição. Não precisa nem de abaixo-assinado.

As falas do Lula viajante

Journal de Montréal
“A propaganda nauseante e escandalosa do Brasil”

José Horta Manzano

É sabido que chefes de Estado ou de governo, quando viajam para fora do país, correm risco de fazer pronunciamentos embaraçantes. Já aconteceu com o papa, o presidente da França, o presidente dos EUA, o primeiro-ministro da Itália. Ninguém consegue explicar as razões desse fenômeno curioso. Talvez seja porque os líderes se sentem mais à vontade, sem a pressão da mídia do país natal.

Em sua recente viagem à China com passagem pelo Oriente Médio, Lula mostrou que a regra continua válida – ele também deu declarações controversas. No Brasil, país em que Lula foi eleito sobretudo para afastar Bolsonaro, suas falas estranhas não ecoaram dramaticamente. Pelo menos, Lula não destratou soberanos nem fez comício em dia de enterro.

Ele tratou de Rússia, Ucrânia, China, G20 e G7, temas que não frequentam o dia a dia do brasileiro. Ucrânia e os países visitados por Lula nos parecem distantes, exóticos, do outro lado do mundo, fora da realidade brasileira. G7 e G20, então, são noções abstratas, que não reverberam em nossa mente.

No entanto, em lugares do mundo em que a invasão da Ucrânia pelos russos é vista como ameaça global, as falas de Luiz Inácio repercutiram. Lula é personagem conhecido e admirado por muita gente. Suas declarações, que no Brasil passaram quase batidas, representam um golpe em seu prestígio internacional.

Os comentários que tenho lido e ouvido vão neste sentido: “Puxa, eu tinha grande simpatia por Lula, mas fiquei chocado com o que ele disse sobre a guerra. Ele caiu muito na minha estima!”.

O editorial do jornal suíço Le Temps desta segunda-feira relembra que a eleição de Lula foi um alívio para os que torciam pela democracia no Brasil. Conta ainda que, em Pequim, nosso presidente defendeu a ideia de um “clube da paz”, conceito que parece razoável. Menos razoável, no entanto, é apontar o dedo para a Europa e os EUA, acusando-os de “alimentar a guerra”. Essa tirada assustou. A tijolada final chegou quando Lula garantiu que “compartilha a visão de mundo de Xi Jinping”.

Li também um artigo no canadense Journal de Montréal, desta mesma segunda-feira. Esse é mais categórico.

“O presidente brasileiro acaba de fazer declarações ultrajantes sobre a guerra na Ucrânia. Para ele, a responsabilidade pela guerra recai sobre a Ucrânia e a Rússia. Ele também acusa a Europa e os Estados Unidos de não fazerem nada para impedir a guerra. Cereja em cima do bolo, ele propõe a mediação do Brasil, junto com a China e os Emirados Árabes Unidos. Há um limite para tomar as pessoas por imbecis.”

E continua:

“Dizer que a Europa e os Estados Unidos não estão fazendo nada para parar a guerra é ecoar a propaganda russa, que gostaria que a Ucrânia deixasse de receber armas para ser conquistada mais rapidamente.”

E termina, veemente:

“Sugerir que ditaduras como as da China e dos Emirados Árabes sirvam de árbitro para um povo que busca liberdade e democracia é cínico e repugnante.”

Como se pode ver, as falas de Luiz Inácio viajando podem parecer blá-blá-blá no Brasil, mas no exterior o efeito é devastador. É pena que ele não consiga fechar a boca. Calado, poderia até tomar as mesmas iniciativas sem levantar esse auê internacional.

Geopolítica segundo Lula

José Horta Manzano

Geopolítica, francamente, não é o forte de Luiz Inácio. Ele tem razão quando percebe que o caminho para transformar o Brasil de país grande em grande país passa obrigatoriamente pelo reconhecimento que as grandes nações nos dedicam. Seu diagnóstico é acertado; o problema é como chegar lá.

Uma forte agenda de encontros com dirigentes estrangeiros, tanto no exterior quanto em Brasília, é um bom passo. Nesse particular, Lula está se saindo bem. Já esteve na Argentina, em Portugal, nos EUA, na China, nos Emirados. Cada aperto de mão é mais um caco recolado nas relações que o presidente anterior tinha estilhaçado. Ponto para Lula, que está no caminho certo.

O presidente quer mostrar que o Brasil já está grandinho e maduro para sentar-se à mesa dos grandes e participar da governança mundial, com carteitinha de membro permanente do Conselho de Segurança da ONU. A ideia é excelente. De fato, se for atendida, essa reivindicação só poderá melhorar a visibilidade do Brasil.

O que importa é mostrar que amadurecemos e que nos tornamos um país sério e responsável. Nesse ponto, a visceral detestação que Lula guarda para com os EUA lhe está sendo má conselheira. As caneladas públicas que tem dado em Tio Sam ao longo dessa viagem à China indicam que ele está levando perigosamente o Brasil a uma troca de idolatrias: abandona-se a antiga veneração a Washington e dá-se início à adoração à China. Nesse ponto, Lula está exagerando sem necessidade.

Assinar acordos e protocolos com o gigante asiático é importante. O Brasil não pode ignorar seu principal parceiro comercial. Só que as caneladas nos EUA sobram. Não havia razão para dizer que “Ninguém vai proibir o Brasil de aprimorar sua relação com a China”. Ficou esquisito. Pareceu brado de independência de país oprimido ou desabafo de adolescente: “Agora ninguém manda mais em mim!”. É o tipo de recado inútil, uma flechada em Washington sem nenhum benefício para nós.

Lula gostaria que fosse aceita sua proposta de formar um “clube da paz” para intermediar o fim da guerra da Ucrânia. Quem é que não aplaude a ideia? Só que falar é fácil, pôr o projeto em prática é que são elas. Mas uma coisa é certa: se o Brasil pretende sentar entre os dois beligerantes para tentar apaziguá-los, o melhor será manter atitude e comportamento neutro, sem demonstrar simpatia nem antipatia por nenhum dos lados. Não é o que Lula tem feito.

Apesar de convidado pessoal e publicamente por Volodímir Zelenski para visitar a Ucrânia, Lula não marcou prazo para respirar os ares de Kiev. No entanto, está recebendo em Brasília, esta semana, o inarredável Serguêi Lavrôv, chanceler russo há mais de 20 anos.

Luiz Inácio já disse que atacar a Ucrânia foi um “erro histórico de Putin”, declaração que não deve ter caído bem no ouvido do ditador russo. Chegou a tratar Putin de “presidente”, enquanto reservou um desdenhoso “o Zelenski” para o presidente ucraniano – desenvoltura que não deve ter sido apreciada “pelo” Zelenski. Na mesma frase, afirmou que ambos os lados são culpados pela guerra, opinião que deve ter desagradado a ambos.

Em suma, quem é que vai aceitar um intermediário que, antes mesmo do início das tratativas, já andou dando cotovelada nos dois adversários?

A viagem de Lavrôv
Na viagem que faz às Américas esta semana, o inoxidável Serguêi Lavrôv, ministro das Relações Exteriores de Putin, visita não somente o Brasil, mas também: Venezuela, Cuba e Nicarágua. O Brasil de Lula se presta à jogada de Moscou para humilhar os EUA.

G7
Lula desdenhou o G7, um clube sem importância a seus olhos. Na mesma frase, reverenciou o G20, esse sim, clube respeitável. Esse é o tipo de observação sem propósito, que não ajuda ninguém mas que pode trazer dissabores. Os integrantes do G7 hão de ter apreciado. Luiz Inácio deveria se abster de cuspir no prato do qual amanhã pode ter de comer.

Huawei
Luiz Inácio fez questão de visitar Huawei, gigante chinesa que fabrica equipamento de telecomunicação. Por receio de serem espionados em benefício de Pequim, meia dúzia de países desenvolvidos – entre os quais os EUA, a Inglaterra, o Canadá e a Itália – já baniram compras dessa firma. Outras nações pensam em aderir ao boicote. Tirando a faceta bravateira, não vejo razão para justificar a visita de Lula a essa firma. É recomendável ser prudente antes de fazer negócio com eles.

Ingratidão
Quanto ao descaso que vem demonstrando pelos EUA, Lula está pecando por ingratidão. Joe Biden, o sorridente velhinho que preside os States, foi o primeiro dirigente estrangeiro a cumprimentar efusivamente Lula pela vitória de outubro, puxando assim a fila de dezenas de cumprimentos internacionais. Nem que fosse só por isso, nosso presidente poderia ter evitado dar cutucões inúteis nos EUA.

Dá pra entender?

Cacalo Kfouri (*)

Espalhadores de notícias mentirosas fizeram uma montagem como se a informação estivesse no portal g1. Divulgaram que Lula havia cancelado a anistia aos devedores do Fies.

Por que alguém há de se informar a respeito do que é publicado no g1 a não ser no próprio portal?

A explicação pode estar aqui:

 

(*) Cacalo Kfouri é jornalista.

O tapete vermelho

José Horta Manzano

O sistema de governo chinês – fechado, autoritário, repressivo, implacável – há de ser oprimente para os cidadãos do país, tanto para gente comum quanto para os graduados do regime, que temem a todo momento cair em desgraça. Para o brasileiro, é inimaginável viver sob um regime assim. Nem nos tempos mais duros de nossa ditadura, o rolo compressor do governo militar chegou a esmagar a população com o rigor e o método com que a ditadura do partido único faz com os chineses.

Assim mesmo, toda moeda tem duas faces. Apesar do hermetismo das decisões da cúpula dirigente chinesa, o planejamento do futuro do país continua em marcha. Com dança de cadeiras ou sem elas, os dirigentes seguem rigorosamente a política de Estado traçada para as próximas décadas. Estabelecido a longo prazo e cumprido com precisão metódica, é esse planejamento que permitiu à China, nos últimos 30 anos, galgar posições em numerosas áreas.

Lula está na China, acompanhado por caudalosa comitiva (que lotou dois Airbus). À sua chegada, o tapete vermelho não foi estendido só na pista: subiu as escadas até a porta do Aerolula. Esse afago é reservado aos grandes visitantes.

Analistas estrangeiros enxergam a visita de Lula como uma jogada de mestre no tabuleiro mundial, com o objetivo de valorizar o Brasil na disputa entre a China e os EUA. Pode até ser. Primeiro, precisa ver se Lula entendeu isso ou se está só sendo traído por seu antiamericanismo.

Estamos diante de um caso curioso. Não acredito que nosso presidente morra de amores por Pequim. Durante seus dois primeiros mandatos, Lula mostrou que, em matéria de política internacional, seu interesse se concentra na América Latina. Fora das Américas, o mundo lhe parece longínquo e de parco interesse. É minha análise pessoal.

A birra do ex-metalúrgico é com os Estados Unidos. Desde a juventude, Lula encasquetou que sua missão era tentar se opor à potência e à interferência dos americanos (de olhos azuis, lembra?), tanto em nossas vizinhanças quanto no resto do planeta. O mundo mudou muito nesse meio século, mas Lula persiste.

Presidente de novo, Lula retomou a cartilha antiga. Começou afirmando que, na invasão da Ucrânia pelos russos, os dois lados eram culpados. Curiosa acusação para alguém que pretende ser o mediador do conflito. Na pressa de mostrar a língua aos EUA, acabou desagradando a russos e ucranianos.

Pequim dispõe de bons analistas de geopolítica. A cúpula do país entendeu que nosso país é uma peça importante no xadrez mundial, e que convém afagar e conquistar como aliado. Por seu lado, Luiz Inácio também entendeu que a ascensão da China no panorama internacional desbancou qualquer pretendente ao pódio. Nem Rússia, nem Índia, nem Europa. Os dois grandes são agora os Estados Unidos e a China.

Para os dirigentes chineses, conquistar o Brasil não é tarefa inatingível. Um tapete vermelho bem fofo e uma recepção sorridente e calorosa fazem milagres – não precisa nem colar de diamantes. Quanto a Lula, entendeu que Pequim será excelente aliado em sua cruzada antiamericanista.

Temos, assim, o casamento da fome com a vontade de comer. Eu te ajudo, você me ajuda. Não é uma beleza, este mundo?

Convencer as pessoas

José Horta Manzano

Em nosso sistema político, o presidente da República encarna simbolicamente o povo brasileiro. Quando ele viaja de visita ao presidente chinês, por exemplo, é como se todos os brasileiros estivessem homenageando Xi Jinping.

Por ser incapaz de entender essa dimensão do poder, o capitão passou anos ofendendo duro dirigentes estrangeiros. Cada invectiva que lançou contra a França, a China e os outros foi captada como se o autor do insulto fosse o povo brasileiro. Daí a repercussão planetária.

Nesse aspecto, Lula é mais comedido. Nestes primeiros 3 meses de governo, não fez declaração pública insultante. Houve um dia em que se soltou numa entrevista entre camaradas. Mostrou rancor contra o ex-juiz Moro. Por causa disso, apanhou tanto que deve ter se emendado. Espera-se que continue bem comportado.

Além de procurar manter a decência esperada de um presidente, Lula retomou uma prática desdenhada por seu predecessor. Inteirado das catastróficas inundações no Maranhão, exerceu seu dever de solidariedade e sobrevoou a área. Foi como se o Brasil inteiro tivesse acorrido para demonstrar compaixão.

Só que… ninguém é perfeito. O Lula operário ficou no passado, não atravessou o milênio. Luiz Inácio, que nasceu e cresceu paupérrimo, está há mais de duas décadas acostumado ao bem-bom. Tirando os meses que passou em cela de luxo em Curitiba, tem levado vida de rei, morando em palácio e cercado de serviçais. A persistência dessa existência afastada do povo tem seu lado perverso: vai desconectando o indivíduo da realidade.


“Precisamos convencer as pessoas que não é possível construir uma casa num lugar que a gente sabe que vai dar enchente”


Essa foi a reflexão de nosso presidente ao sobrevoar a zona alagada. Em sua lógica, ‘alguém’ tem de aconselhar cada sinistrado a abandonar sua casa e se virar para construir em outro local. O Lula ativista de outrora, aquele que puxava greve e arregaçava as mangas por seus companheiros parece morto e enterrado. Desconectou.

O Maranhão é um estado de poucos recursos. Perder a casa (ou estar a ponto de perdê-la) é um drama terrível em qualquer lugar. No Maranhão, então, pode ser ainda mais catastrófico. O raciocínio de Lula me fez lembrar a frase atribuída a Marie-Antoinette, rainha da França, quando viu uma multidão pedindo pão. “Não têm pão? Pois que comam brioches!”. Talvez por não ter entendido o mundo que a cercava, a coitada acabou guilhotinada.

Por certo, Lula não arrisca o mesmo destino. Mas parece não mais entender o mundo dos mais humildes, justamente aqueles que garantiram sua vitória. “Essas pessoas” não precisam “ser convencidas” de que vivem num lugar perigoso, cercado de ravinas (voçorocas) e à mercê do próximo alagamento. Convencidas, já estão. E, se pudessem, já teriam ido pra outro lugar.

É que querer nem sempre é poder. O que se espera do presidente do Brasil, homem de poder, é que apresente um esboço de solução ao problema. As pirambeiras que cercam certas localidades são impressionantes. Há gente morando à beira do precipício – ao pé da letra.

Esses cidadãos não têm de ser convencidos, pois conhecem o perigo. Aquelas casas têm de ser interditadas e os habitantes provisoriamente realojados em local seguro. Em seguida, o poder público terá de indenizá-los e encontrar uma solução para construir casas novas em lugar “que a gente sabe que não vai dar enchente”. Bem longe dos despenhadeiros.

“Convencer as pessoas” é muito bom. Dar a mão a quem precisa é melhor.