Prevaricação grosseira
José Horta Manzano
O dicionário é claro ao indicar o campo semântico coberto pelo verbo prevaricar. Todas as accepções carregam valor negativo. As principais são:
- deixar de cumprir o dever por interesse ou má-fé
- cometer abuso de poder, provocando injustiças ou causando prejuízo ao Estado
- trair a confiança
Etimologicamente, prevaricar ‒ que nos chegou direto do latim prævaricare ‒ é composto de præ = antes e de varicari de varus = o que sai da linha reta, ou seja, torto. Alguns estudiosos enxergam parentesco com o termo curvo.
O ato cometido pelo plantonista do TRF4, que deu origem a tremenda balbúrdia institucional domingo passado, se enquadra perfeitamente em todas as accepções do verbo. Imbuído de indisfarçável má-fé, o magistrado desviou-se da linha reta, cometeu abuso de poder, traiu a confiança de que era depositário e causou prejuízo ao Estado. Se isso não for prevaricação, o que será?
O estagiário que redigiu a manchete se impressionou com o termo. Talvez por desconhecer-lhe o significado, tascou aspas em volta. É maneira de isolar o desconhecido, pra evitar ser por ele engolido. Palavra estranha pode até morder! Melhor tomar cuidado.
Falando sério, a procuradora-geral pede que o plantonista seja investigado por ter prevaricado. Sem aspas. Aquele que comete abuso de poder e causa dano ao Estado não tem perdão.
Quadrinhos ‒ 247
Pobre Mandela
José Horta Manzano
Não sei se a intelligentsia lulopetista tem dificuldade em entender os grandes movimentos da história ou se, como anunciava aquele humorista de décadas atrás, vieram ‘pra confundir e não pra explicar’.
Acho que a resposta é abrangente. Por um lado, não conhecem História. Por outro, confusos, acabam se atrapalhando na hora de explicar. Faz anos que tentam pendurar Lula da Silva na rabeira de ícones históricos. Já pelejaram pra emparelhar o demiurgo com Getúlio Vargas, com Gandhi e até ‒ vejam a ousadia ‒ com Jesus Cristo. Estão prontos pra tomar carona em qualquer veículo, desde que lhes pareça boa jogada de marketing.
Acaba de ser montada nova tentativa, canhestra como as anteriores. A patota procura agora associar a imagem do chefão encarcerado à do venerável Nelson Mandela ‒ um disparate.
A alta direção do Partido dos Trabalhadores marcou uma enésima manifestação de protesto para 18 de julho em Curitiba. Acontece que a data, que coincide com o centésimo aniversário de nascimento do grande Mandela, não foi escolhida ao acaso. A escolha reflete a intenção de colar a imagem do demiurgo à do personagem sul-africano.
Como Mandela, o Lula amargou o cárcere. Como Mandela, o Lula foi presidente do país. Só que, mequetrefe, a intelligentsia descuidou detalhe importante: no presente caso, a ordem dos fatores altera, sim, o produto.
A vida de Nelson Mandela seguiu curva ascendente. Saiu da luta clandestina, passou 27 anos(!) na prisão e terminou a carreira no posto máximo, reverenciado pelo povo e aplaudido pelo mundo todo. Ao aposentar-se, deixou um país pacificado.
Já a carreira de Lula da Silva foi descendente. Da vida sindical, foi propulsado ao mais alto cargo e, desde então, vem rolando ladeira abaixo. Condenado a 12 anos de cadeia em processo por corrupção, é réu em mais meia dúzia de casos e está encarcerado em Curitiba. É repelido pela maioria dos conterrâneos e olhado com desconfiança pelo resto do mundo. Deixou um país conflagrado. Sua carreira termina onde a de Mandela começou: no cárcere.
Se o primeiro subiu na vida, o segundo desceu. Portanto, a comparação é faceciosa e ilusória. Ao fim e ao cabo, fica a pergunta: não conhecem a História ou vieram pra confundir? Fico com a segunda opção.
Um por todos, todos por um
Myrthes Suplicy Vieira (*)
Minha mãe tinha razão: sou mesmo uma pessoa do contra. Talvez por ser canhota e me ver forçada a reinterpretar imagens em espelho, quase nunca resisto ao impulso de priorizar o lado do avesso na análise dos eventos externos e das emoções que eles despertam nas pessoas normais.
Com a Copa do Mundo de futebol, não foi diferente. Apesar de não ter acompanhado nenhum dos jogos por inteiro e não ser capaz de avaliar tecnicamente o desempenho de cada time, experimentei uma sensação de forte alívio quando o Brasil foi desclassificado e não se registraram reações em massa de fúria dos torcedores brasileiros. Pouquíssimas pessoas de que tenho notícia se deram ao trabalho de culpar o técnico ou a falta de garra de nossos jogadores. Ao contrário, todos os que criticavam a alienação do brasileiro médio ficaram sem interlocutor ao constatarem que a maioria absoluta dos torcedores abriu mão da tradicional passionalidade esportiva. Sinal de maturidade?
Acredito que sim. Ao longo de toda a competição, um fenômeno já vinha chamando minha atenção: todos os ídolos, individuais ou coletivos, mostraram ter pés de barro e foram caindo, um por um. E, assombrosamente, mesmo assim, não sobrou muito espaço para vergonha. O humilde reconhecimento da superioridade do adversário foi, para mim, a grande novidade e a mais agradável das surpresas desta Copa. Concluí que o tempo das seleções de um só homem havia acabado. Outro bem-vindo sinal de aprendizado e amadurecimento? Tomara que seja.
No mesmo sentido, quando, em junho de 2013, pipocaram as primeiras manifestações gigantes de rua, meu coração explodiu de felicidade. Depois de décadas de paralisia, senti que estávamos finalmente nos apropriando do destino do país. Pela primeira vez, reivindicávamos a soberania popular para determinar os rumos que as coisas deveriam tomar mesmo nos assuntos mais comezinhos da nação. Aprendíamos na prática que, sem povo, não há democracia.
A profunda cisão esquizofrênica que se seguiu não esmoreceu meu ânimo. Achava – e ainda acho – que esse era o preço a pagar por termos sido secularmente carneiros conduzidos por gulosos lobos a pastos secos e sem fontes de água. Inevitável que, na ausência de pastores confiáveis, o rebanho se dividisse e hesitasse em qual direção seguir. Tudo o que ansiávamos naquele momento era nos afastar das alcateias, ainda que não soubéssemos discernir de pronto quem era lobo em pele de cordeiro e quem era cordeiro em pele de lobo.
Reduzidos ao nosso tamanho original, estamos agora inexoravelmente nos debatendo com as contradições da pátria sem chuteiras. Nossas graves deformações políticas e judiciárias, assim como nossa falta de infraestrutura cidadã, já não podem ser disfarçadas com nenhum photoshop. A hora agora é a de assumir, para consumo interno e externo, que somos menos belos, menos cordiais e menos inventivos do que julgávamos ser. Um fantástico avanço para a alma nacional, já que a maturidade psicológica pressupõe o fim das ilusões de onipotência.
Sinto que o que está em jogo neste momento ‒ não só no Brasil, nem só na América Latina ‒ é uma quebra de paradigma. Do poder central forte, do sistema de dominação autocrática, estamos migrando para um processo de horizontalização de todas as decisões. Todas as hierarquias estão sendo abolidas, todas as lideranças estão sendo contestadas e todo voluntarismo estrebucha em agonia. O tecido social agora esgarça no sentido vertical porque ainda não havíamos nos dado conta de que era preciso reforçar as fibras horizontais. Com isso, acabamos perdendo flexibilidade nas articulações políticas, religiosas e sociais. Literalmente, dobrar os joelhos diante da autoridade ou cruzar os braços na eventualidade de um impasse passou a ser cada dia mais difícil.
Que tempos de muito choro e ranger de dentes ainda estarão pela frente, não há como duvidar. O que colocaremos no lugar das lideranças? Em quais pares poderemos depositar confiança? Se não há mais um líder de matilha inconteste, como lidaremos com o dissenso daqui por diante? Será que estamos fadados a descobrir mais uma vez que o homem é o lobo do homem?
Não tenho resposta para nenhuma dessas questões, mas não acredito no aprofundamento das lutas fratricidas. Quero acreditar que, por puro cansaço de esperar por um grande pai capaz de colocar todos os conflitos em pratos limpos, surgirá no horizonte algum sol de convivência respeitosa com a frustração.
Seja como for, aguardo esperançosa a emergência de novas utopias. O cooperativismo, minha utopia pessoal, é apenas uma das formas que encontrei de apostar na tese de que todo caos é criativo. Se ela se mostrar inviável e se as alternativas falharem, nem tudo estará perdido. Ecoando o pensamento de Eduardo Galeano, manifesto amorosamente a crença de que a função crítica de toda utopia é a de nos forçar a caminhar.
(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.
Perguntar não ofende ‒ 6
José Horta Manzano

Por que será que as instâncias superiores não põem em pauta o julgamento dos recursos do Lula? É a melhor maneira de dar um cala a boca a essa choradeira insuportável. Uma vez o processo transitado em julgado, não há volta possível. Que estão esperando? É passo importante para a pacificação nacional.
Molecagens de um plantonista
José Horta Manzano
Onde já se viu juiz plantonista determinar soltura do Lula? Que vergonha esse carnaval que ele armou, gente! O mundo sabe que nosso país não é o primeiro da classe em matéria de organização, mas assim também já é demais. O observador estrangeiro, que acredita na seriedade de determinações judiciais, continua se esforçando pra manter o Brasil no rol dos países sérios. Mas está difícil.
Essa palhaçada montada pelo plantonista de Porto Alegre fez a mídia internacional correr feito barata tonta atrás da verdade. Se no Brasil já estava difícil acompanhar o ritmo frenético de ordens e contraordens, imagine a perplexidade que invadiu as redações de França, Oropa e Mongólia.
No domingo, o jornal televisivo das 19h disse que o Lula ia ser solto. O boletim radiofônico das 20h desmentiu. O televisivo das 22h reiterou. O portal informativo na internet disse outra coisa. Em virtude desse diz-que diz, o Lula acabou sumindo do noticiário nesta manhã de segunda-feira. É que, por não entender bem o que está acontecendo, a mídia decidiu abster-se. Até pra bagunça tem limite.
É a imagem do Brasil que se vai deteriorando a cada dia. O pior é que, no frigir dos ovos, bufonadas rasteiras como essa não servem a ninguém. O condenado continua encarcerado. E o país confirma seu lugar no clube dos subdesenvolvidos. O faroeste é aqui.
Ressaca ‒ 2
José Horta Manzano
Apesar da queda da seleção brasileira, a Copa do Mundo não acabou. Ainda falta uma semana. O número de atores diminuiu, mas a festa continua assim mesmo.
Embarcada a equipe brasileira, começam a escapar algumas verdades pouco comentadas antes. Li estes dias que a obesa delegação de nosso país era composta por nada menos que 150 pessoas. Uma coisa que eu não sabia: jogadores da seleção têm direito a trazer amigos e familiares ‒ a viúva é rica e generosa. Os cartolas-mores se encarregam da logística, compreendendo alojamento e transporte.
Tempos atrás, meu trabalho incluiu viagens com longa permanência no exterior. Como é natural, nunca foi permitido levar parentes nem amigos, que não era hora de farra. O bom senso indica que trabalho é trabalho, e férias são férias. Não se deve confundir.
É provável que a leviandade com que os dirigentes futebolísticos brasileiros encaram competições internacionais explique a negligência dos jogadores quando atuam no gramado. Os jovens se amoldam ao espírito da casa. Além disso, a carga afetiva causada pela presença da família há de contribuir para a instabilidade emocional da meninada. Pode até estar na raiz dos ataques de choro convulso a cada derrota.
Como contraponto, tenho um exemplo edificante. Herr Andreas Granqvist, 33 aninhos, é o capitão da seleção sueca de futebol. Entre dois jogos desta Copa de 2018, tornou-se papai. Diante de fato tão importante, a direção da seleção concedeu-lhe o direito a um bate-volta até a Suécia pra conhecer o rebento. Pois imaginem que a recém-parida esposa foi taxativa: «Nem pensar numa coisa dessas! Faça seu trabalho até o fim, depois você volta». Obediente, o capitão continuou na Rússia até seu time ser despachado pra casa.
Assombroso, não é mesmo?
Ressaca
José Horta Manzano
Este sábado com cara de Quarta-Feira de Cinzas é propício para algumas reflexões futebolísticas despretensiosas.
Azedou
A copa, que era pra ser de champanhe, virou cálice de amargura. Quem provou, desaprovou.
João que chora, João que ri
Tristeza de uns, alegria de outros: os franceses estão rindo à toa por terem escapado de enfrentar o Brasil. Caíram com a Bélgica. Não sei se fizeram bom negócio. Há controvérsia.
Quem muito espera…
Quem fixa meta muito elevada está mais sujeito a se desapontar. Em geral, países põem objetivos mais modestos: chegar às oitavas ou chegar às quartas de final, por exemplo. Quando chegam lá, ficam supercontentes. Já o Brasil mira sempre ao primeiro lugar, sem alternativa possível. Eis por que se decepciona. Não é fácil chegar lá ‒ acontece uma vez a cada 20 ou 30 anos, e olhe lá! Além do mais, nosso país não detém o monopólio do bem jogar.
Soberba
Todos os comentaristas brasileiros se puseram a tentar descobrir onde é que o Brasil errou. Este aponta a falha de tal jogador, aquele reclama da arbitragem, um outro acusa o selecionador. A mim, parece que o problema é exatamente esse egocentrismo que cega.
Todos raciocinam como se a seleção brasileira fosse o centro do universo e que todas as demais equipes gravitassem em órbita longínqua e excêntrica. O bom senso informa que não é assim. Se a seleção do Brasil tem seus méritos, as demais também os têm.
O Brasil jogou bem, não há que dizer. Se perdeu, não é porque tenha jogado mal: é porque a Bélgica jogou muito melhor. O time de vermelho estava num patamar mais elevado, foi mais realista e mais eficaz. Deixou de lado dribles espetaculares ‒ e desastrosos ‒ para ir direto ao essencial. É menos artístico, mas funciona. A nós, está faltando humildade pra reconhecer essa realidade. Repito: nosso país não detém o monopólio do bem jogar.
Palco iluminado
Jogadores vão a campo pra jogar, não pra dar espetáculo teatral. O drama tem de estar centrado na bola que rola. Sem bola, acabou o show. É patético assistir, depois de uma derrota, ao choro convulsivo de marmanjos com pés de barro. Pega mal pra caramba. Tinham mais é que sair rapidinho do gramado e ir chorar no vestiário. Está faltando compostura.
De luxo
Vejo aqueles espectadores decepcionados, chorando pelas arquibancadas, morrendo de pena dos jogadores. E conjecturo que talvez tenham feito prestação pra comprar a passagem para a Rússia. Quem sabe ainda vão passar alguns meses de aperto até quitar o carnê. Enquanto voltam para o hotel, enxugam uma derradeira lágrima e afivelam as malas, os pobres meninos que choravam em campo já terão embarcado num jatinho privê de volta para fazer a festa na mansão de Londres ou de Paris. Ou de Mallorca, que ninguém é de ferro.
Escolha seu candidato
José Horta Manzano
Você sabia?
Não sei se o distinto leitor já sabia. Quanto a mim, acabo de descobrir. Um apanhado de mais de vinte cabeças pensantes (e trabalhantes) se reuniu para dar uma mão ao eleitor brasileiro. Criaram um site ‒ politicos.org.br ‒ que avalia a atuação de senadores e deputados federais da legislatura atual.
Fazia tempo que eu matutava sobre o assunto. Como faço pra ficar por dentro da atuação de cada parlamentar? Entre senadores e deputados, são quase 600! Quando a gente só pode contar com o google, fica complicado, pra não dizer impossível.
O pessoal desse novo site faz o trabalho e entrega o prato pronto. Pra chegar à classificação final, levam em conta, entre outros pontos: a assiduidade de cada parlamentar, os gastos que faz por conta da viúva, os processos judiciais em que é réu, o voto que deu a cada lei, sua formação acadêmica, a frequência com que trocou de partido. Outros atos significativos de cada parlamentar podem também ser considerados.
Pontos positivos (ou negativos) são atribuídos. Na classificação atual, o parlamentar mais bem avaliado é doutor Lobbe Neto, deputado federal pelo PSDB/SP. Ele atinge a respeitável marca de 590 pontos. Na outra extremidade, o lanterninha é doutor Celso Jacob, deputado federal pelo MDB/RJ, autor da proeza de baixar a 1086 pontos negativos.
O site fornece ainda os dados pessoais de todos os parlamentares, incluindo data de nascimento, n° de CPF, formação acadêmica, endereço eletrônico. A classificação por quantidade de processos vai desde os que não respondem a nenhum até os que se encontram esmagados sob um calhamaço de acusações.
Com insistência, recomendo ao leitor que consulte o site antes de decidir. Ponha lá o nome de seu candidato e veja se o doutor (ou a doutora) merece realmente seu voto. Ah! E não se esqueça de espalhar a boa-nova. Vale a pena.
Redundância de expressão
Outras máximas ― 43
Quadrinhos ‒ 246
15 dúvidas e 15 respostas
Dad Squarisi (*)
Depende
O filho puxou o pai? Puxou ao pai?
Puxar alguém é atrair para si, mover:
Puxou o filho antes da passagem do trem.
Puxou-o com delicadeza.
Puxar a alguém é parecer-se, ter semelhança com:
O filho puxou ao pai; a filha, à mãe.
Os dois
Esporte e desporto convivem em harmonia:
Rafa e João são esportistas.
Rafa e João são desportistas.
Professor de Deus
Quem tem mania de grandeza é megalômano. Ou megalomaníaco. O dicionário abona as duas palavras. A segunda é mais usada. Melhor.
Limite
Bênção ou benção? Tanto faz. Mas o plural muda. De bênção é bênçãos. De benção, benções.
Alô!
Atender o telefone? Atender ao telefone? As duas regências cumprem a função de dizer alô:
Atendi o telefone.
Atendi ao telefone.
Com ou sem s?
O dicionário registra Olimpíada e Olimpíadas com o mesmo significado. Com qual delas você fica?
Sem questionamentos
Caixa dois ou caixa 2 – a língua dá nota 10 para as duas. Não está nem aí pra Justiça.
Escurão
Apagão e blecaute fazem estragos. Apagam a luz, descongelam o freezer e deixam os noveleiros a ver navios. Valha-nos, Deus!
Sãos e salvos
Aterrissar e aterrizar dão alegria aos que tremem só de pensar em avião. Os dois verbos significam pousar em terra.
Dois times
Que dia é hoje? Há duas respostas.
Uma: Hoje são 5 de julho.
A outra: Hoje é (dia) 5 de julho.
A maioria dos gramáticos prefere tratar os dias como as horas: São 14h. São 14 de outubro. Olho vivo, moçada! Preferir não é impor.
Sem diferença
Ter de estudar? Ter que estudar? Modernamente as duas formas são sinônimas:
Tenho de sair às 2h.
Tenho que sair às 2h.
Ah!
Saudade ou saudades. Ciúme ou ciúmes. Sentimento dispensa o plural. Mas, se usar o s, tudo bem. A língua não liga. O incomodado que reclame.
Acertar ou acertar
Cota na universidade? Ou quota? Tanto faz. Errar é impossível.
Decida
Alcoólatra e alcoólico são sinônimos. Alcoólico é preferível por ser politicamente correto.
Mesma equipe
O personagem ou a personagem? Não faz diferença: o personagem Emília, a personagem Emília; o personagem Pedrinho, a personagem Pedrinho.

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em Linguística e mestrado em Teoria da Literatura. Edita o Blog da Dad.
Um pouco d’arte ― 107
O STF de novo
José Horta Manzano
Diga-se o que se quiser dizer, não há como abafar a verdade: o STF desviou da órbita. Feito sputnik desgovernado, já não cumpre a missão para a qual foi concebido e, ainda por cima, ameaça espatifar em cima de nossa cabeça.
Nosso castigado país vive um clima de salve-nos Deus misericordioso. Lula da Silva rosnando de um lado, Jair Bolsonaro grunhindo de outro, candidatos à Presidência fazendo cara de vestais, o Congresso letárgico, a Presidência paralisada, o exército à espreita. E o STF, que deveria ser a sedes sapientiæ ‒ a morada da sabedoria, desajuizado.
É uma atrás da outra. Nem o torpor que trava o país durante a Copa fecha a fábrica de insanidades em que a Corte Maior se transformou. A mais recente proeza foi obra de doutor Toffoli. Mandou arrancar a tornozeleira de doutor José Dirceu, notório ‘guerreiro do povo brasileiro’.
Longe de ser superficial, a crise do STF é mal de raiz. Imunes a todo ataque, Suas Excelências pintam e bordam. Sabedores de que nenhum mal lhes acontecerá e de que ninguém os tira do emprego, se esparramam, se assoberbam, torcem a verdade e manipulam a lei para que se adapte ao desideratum de cada um.
O caso da tornozeleira do guerreiro do povo é edificante. Antes de ser nomeado para o STF, doutor Toffoli, que era advogado do PT, trabalhou justamente como subordinado de doutor José Dirceu, quando este era Ministro-chefe da Casa Civil. O bom senso exige que, com essa passagem no currículo, o magistrado seja considerado impedido de atuar em processos em que o antigo chefe estiver envolvido.
Pois Sua Excelência, atropelando o bom senso, dá uma banana para o povo que paga seu salário e continua votando numa boa, como se a conversa não fosse com ele. Os brasileiros de bons princípios se veem impotentes e sentem muita raiva. Ninguém gosta de ser vítima de zombaria nem de ver sua dignidade usurpada. O pior é que doutor Toffoli não está sozinho: há colegas dele que debocham do povo com o mesmo despudor.
Essa safadeza atrevida, vinda justo daqueles que deveriam garantir a decência nacional, pode acabar mal, muito mal. Ri melhor quem ri por último, é verdade. Mas não é impossível que, ao final, choremos todos.
Frase do dia — 367
Prefixo a usar com moderação
José Horta Manzano
O prefixo neo nos chega, por via latina, do grego νέος (néos). É raiz amplamente difusa nas línguas da família indo-europeia, do sânscrito ao português, passando pelo russo новый (novii), pelo alemão neu e pelo inglês new.
Em nossa língua, é tradicionalmente anteposto a um substantivo ou a um adjetivo para conferir-lhe conotação de novo ou novidade. Serve também para indicar renascimento, revivescência, atualização de fato antigo.
Temos, por exemplo: neozelandês (da Nova Zelândia), neonato (que acaba de nascer), neochegado (recém-chegado), neoconverso (recém-convertido), neofóbico (que teme o que é novo).
No entanto, é bom tomar cuidado com o uso desse prefixo. O conselho vale especialmente para quem tenciona respeitar a linguagem dita politicamente correta, tão em voga.
É que, com muita frequência, o prefixo neo introduz nuance pejorativa, daquelas que a gente pronuncia com um muxoxo. Vão aqui alguns exemplos.
A ortodoxia econômica é descrita, por seus opositores, como neoliberalismo econômico.
Os que não apreciam particularmente os evangélicos preferem chamá-los neopentecostais.
Neonazista, neostalinista, neofascista, neomaoísta é como se costuma designar todo adepto de grupelhos extremistas, daqueles que se enraízam em façanhas que trouxeram pandemônio e conduziram a humanidade à beira do abismo. O prefixo reforça o desdém de quem o pronuncia.
Neocolonial, neopoesia, neorrepública, neonacionalismo, neocapitalismo, neopopulismo – formas dicionarizadas – carregam, todas elas, um perfume de menosprezo. Convém ter isso em mente na hora de inserir o prefixo neo. Pode dar recado de desdém.
Gato comeu ‒ 2
Justiça pra quem pode
José Horta Manzano
Levantamento do Estadão mostra que a tropa de advogados de Lula da Silva já interpôs, só no processo do triplex do Guarujá, 78 recursos com vista a obter algum favor especial para o cliente. Anulação pura e simples da condenação, soltura ou até prisão domiciliar ‒ qualquer coisa serve. Setenta e oito apelações, minha gente!
Não conheço país civilizado onde tal enxurrada de floreios seja permitida. O que se vê pelo mundo é a possibilidade que todo condenado tem de fazer uma apelação. Assim mesmo, ele deve pensar bem antes de dar o passo, porque a Justiça não aprecia contradizer-se. A menos que haja falha gritante no primeiro processo, cortes de apelação tendem a confirmar sentença. Novo recurso ‒ o segundo ‒ só se faz em casos especialíssimos, quando o advogado está absolutamente convencido de que as duas primeiras instâncias falharam e de que a corte superior fará desabrochar a verdade.
Resumindo: em países normais, não costuma haver brecha pra mais de dois recursos. Mas o Brasil não é um país normal. País que leva Lula e Dilma à presidência, francamente, não é como os demais. Interpor setenta e oito recursos… passa batido.

Corte de Apelação do Distrito Federal
Casa na Rua do Passeio (RJ) que abrigou a corte suprema na virada do séc. 19 para o séc. 20
No enrosco judicial em que Lula da Silva se encontra, a primeira pergunta é se os 30 anos de luta sindical do condenado, complementados por 13 anos de governo petista, conseguiram garantir a todos os brasileiros esse sofisticado grau de assessoria jurídica em caso de necessidade. Em outras palavras: uma vez condenado, terá o ladrão de galinhas condições de entupir a Justiça com 78 recursos?
A resposta é um rotundo não. Conclui-se que a era petista, com Lula da Silva na cabeça, foi incapaz de propiciar aos mais humildes isonomia de tratamento jurídico. Apesar de se ter apresentado como ‘socialista’ e ‘do povo’, fracassou. Chicanas judiciais continuam a ser apanágio de ricos.
Agora vem a segunda pergunta. Dado que Lula da Silva se apresenta como cidadão de classe média que não se valeu do cargo para enriquecer, quem estará pagando os honorários dessa baciada de causídicos? Trabalham todos por amizade?
A resposta a esta última pergunta dificilmente será dada ao distinto público. Cada um está livre pra dar curso à própria imaginação.
















