Extremamente medíocre

José Horta Manzano

A todo momento se ouve comentar que tal coisa ou tal pessoa é «extremamente medíocre». Verdade ou não? No entanto, considerando a filiação da palavra medíocre, a expressão não faz sentido.

Em latim, o termo já era usado com a mesma forma (mediòcris), talvez sem a carga pejorativa que lhe atribuímos. Designava simplesmente quem ou aquele que estava no meio, entre os extremos, entre o muito e o pouco, o bom e o mau, o pequeno e o grande.

A origem é medius (=o meio). Do que está no meio, diz-se medíocre. Nas demais línguas que utilizam a mesma raiz, o termo não é pejorativo como em português. Na pior das hipóteses, a carga pejorativa é leve, nunca pesada como em nossa língua.

by Joe Di Chiarro, desenhista americano

Resumindo, se algo está no meio, está longe dos extremos. Chamar a essa posição “extremamente medíocre” tem ares de contrassenso. A palavra medíocre dispensa qualificativos. Algo (ou alguém) é medíocre; não precisa acrescentar nada. Significa que não é bom nem ruim.

Em rigor, a máxima latina ‘virtus in medio’ (= a virtude está no meio) poderia ser traduzida por ‘a virtude é medíocre’. Estou brincando, distinto leitor. É melhor não traduzir assim. Havia de pegar mal à beça…

Pegar mal? Sei não. Com o copioso e persistente exemplo que nos vem atualmente do andar de cima, vamos acabar nos convencendo de que a mediocridade virou virtude.

Curiosidade 1
Tanto em latim quanto nas línguas da Europa ocidental (francês, alemão, italiano, inglês, espanhol, sueco) a palavra é paroxítona, com acento no ó (mediócre/mediôker). Em nossa língua, a tônica pulou uma sílaba pra trás. Sem dúvida, ficou com jeitão mais culto.

Curiosidade 2
Na liturgia católica, a depender do momento do ofício, há três graus de curvatura do tronco na hora de prestar vênia: a pequena reverência, a média e a profunda. Em italiano, a reverência média se diz “inchino mediocre” (=inclinação medíocre). Sem um pingo de sentido pejorativo.

Prefixo a usar com moderação

José Horta Manzano

O prefixo neo nos chega, por via latina, do grego νέος (néos). É raiz amplamente difusa nas línguas da família indo-europeia, do sânscrito ao português, passando pelo russo новый (novii), pelo alemão neu e pelo inglês new.

Em nossa língua, é tradicionalmente anteposto a um substantivo ou a um adjetivo para conferir-lhe conotação de novo ou novidade. Serve também para indicar renascimento, revivescência, atualização de fato antigo.

Temos, por exemplo: neozelandês (da Nova Zelândia), neonato (que acaba de nascer), neochegado (recém-chegado), neoconverso (recém-convertido), neofóbico (que teme o que é novo).

Neos

No entanto, é bom tomar cuidado com o uso desse prefixo. O conselho vale especialmente para quem tenciona respeitar a linguagem dita politicamente correta, tão em voga.

É que, com muita frequência, o prefixo neo introduz nuance pejorativa, daquelas que a gente pronuncia com um muxoxo. Vão aqui alguns exemplos.

A ortodoxia econômica é descrita, por seus opositores, como neoliberalismo econômico.

Os que não apreciam particularmente os evangélicos preferem chamá-los neopentecostais.

Neonazista, neostalinista, neofascista, neomaoísta é como se costuma designar todo adepto de grupelhos extremistas, daqueles que se enraízam em façanhas que trouxeram pandemônio e conduziram a humanidade à beira do abismo. O prefixo reforça o desdém de quem o pronuncia.

Neocolonial, neopoesia, neorrepública, neonacionalismo, neocapitalismo, neopopulismo – formas dicionarizadas – carregam, todas elas, um perfume de menosprezo. Convém ter isso em mente na hora de inserir o prefixo neo. Pode dar recado de desdém.