Trompe-l’œil ‒ 6

José Horta Manzano

O japonês Akiyoshi Kitaoka (1961-) é professor de Psicologia no College of Letters da Universidade Ritsumeikan, em Kyoto (Japão). Há décadas vem-se especializando no estudo da percepção visual e de ilusões de óptica. Seus trabalhos demonstram que é possível «trapacear» com a visão humana, em especial a visão periférica.

Como se sabe, nossa visão bruta está longe de ser perfeita. As imagens que captamos precisam ser processadas pelo cérebro para fazerem sentido. Ao manipular as informações de que o cérebro necessita para interpretar o quadro, os desenhos do cientista conseguem dar um «nó nos miolos». Acabamos enxergando movimento em imagens estáticas.

Quando se passeiam os olhos pela imagem, as pétalas parecem girar embora estejam perfeitamente estáticas.
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Ao passear os olhos pela imagem, tem-se a impressão de que os corações pulsam.
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O quadrado no centro da folha impressa parece ter relevo e estar destacado do fundo. É ilusão.
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Esta é excelente, basta ampliar a imagem. As rodas parecem girar. Impressionante.
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Nota
Trompe-l’œil (literalmente ‘engana o olho’) é a expressão francesa para ilusão de óptica.

Quem diz o que quer

José Horta Manzano

Tem gente que não aprende. Lula da Silva, considerado por alguns como dotado de superior inteligência e de fino faro político, não me parece tão esperto assim. Entra nessa categoria daqueles que têm certeza de que já nasceram sabendo tudo e que, portanto, não precisam aprender mais nada. Nem os quase quatorze meses passados na cadeia foram suficientes pra livrá-lo do torpor e pra afinar-lhe a astúcia.

A prudência é qualidade supimpa. Quanto mais um indivíduo se encontra em situação delicada, mais deve medir o alcance dos próprios atos e gestos. Não convém destratar aqueles de quem se pode vir a precisar no futuro. Atropelar essa regra é tolice pura.

Chico Buarque – que é amigo do peito de Lula da Silva, batalhou contra a destituição de Dilma e defendeu a fracassada candidatura de Haddad à Presidência – foi agraciado com o Prêmio Camões. Nada mais justo, que o moço é verdadeiro ourives da língua pátria. Concorde-se ou não com suas posições políticas, há que reconhecer sua excelência no trato das palavras.

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Lula da Silva resolveu escrever uma cartinha ao amigo Chico. Não satisfeito em apenas dar-lhe os parabéns, aproveitou a carta aberta pra alfinetar a rede Globo de rádio e televisão. Contou ter ficado muito feliz porque «a Globo teve que colocar você no ar em horário nobre, pela primeira vez vi sua cara na Globo (sic)».

Magnânimo, o conglomerado carioca de mídia teve a clemência de responder. Retrucou que, nos últimos nove anos, Chico Buarque já apareceu 28 vezes no horário nobre da televisão. O Lula, que, em matéria de tevê, já confessou interessar-se unicamente por novela, certamente perdeu as aparições do amigo. Quem diz o que quer acaba ouvindo o que não quer.

Não é inteligente alfinetar a maior empresa de televisão do país. Quem tem esperança de um dia voltar à política não deveria fazer isso. Não digo que o demiurgo devesse ter-se prostrado diante da emissora – bastava ter mantido recato. O silêncio, que não pede esforço nenhum, nessas horas vale ouro.

Desde que o velho Tancredo saiu de cena, a política brasileira tem sentido muita falta de um presidente sagaz. Perspicácia é artigo que há décadas anda em falta no Planalto.

Dirceu e Cunha juntos

José Horta Manzano

Saiu estes dias a inacreditável notícia de que os arquiconhecidos grão-criminosos José Dirceu e Eduardo Cunha compartilham a mesma cela no Complexo Médico-Penal de Curitiba. E não é tudo. Instalados mesmo espaço, estão ainda João Vaccari (ex-tesoureiro do PT) e o ex-senador Gim Argello. Três outros presos menos midiáticos completam o septeto. A turma é do barulho, como se dizia antigamente.

Com esse povo, todo cuidado é pouco. São daqueles que, quando vêm vindo na calçada, a gente atravessa a rua rapidinho. Vale também segurar firme a carteira. Coisa do outro mundo! É absolutamente inconcebível trancafiar uma turminha dessas no mesmo espaço. Aquilo é uma verdadeira universidade do crime de colarinho branco! Imaginem as informações que se podem trocar, as dicas que se podem fornecer, o planejamento de golpes futuros, as maldades que se podem tramar.

Eu só entenderia que essa quadrilha fosse encarcerada na mesma cela se câmeras e microfones fossem instalados para ajudar a PF a recolher informações preciosas que pudessem levar ao esclarecimento de crimes que ninguém desconfia tenham sido cometidos. Fora isso, deixá-los juntos é inconsciência. Equivale a deixar conviver no mesmo cômodo o Marcola, o Fernandinho Beira-Mar, o Compensa e o ‘G’ Carnaúba.

Tanto estes últimos quanto os que citei anteriormente são chefes de organizações criminosas. Por que é que uns têm de ser apartados enquanto os outros podem seguir em convivência íntima? Manter bandidos desse jaez juntos é a melhor maneira de deixá-los recompor uma organização criminal pra ninguém botar defeito.

Formar

José Horta Manzano

Forma é voz amplamente difundida nas línguas latinas. Com pequenas diferenças de grafia, aparece em todas elas. Em nossa língua, é responsável por centenas de palavras derivadas. Entre muitas outras, temos: formal, formoso, formulário, formação, formalidade, formatura, reforma, informe, transformação, uniforme, deformação, conformidade. E muitas mais.

Essa raiz nos legou boa coleção de verbos: enformar (botar na fôrma), informar, reformar, uniformizar, conformar, pré-formar, deformar, transformar, disformar. Sem contar, naturalmente, com o mais simples deles, que é formar.

O verbo formar é sempre transitivo ou pronominal. Há um único caso, bastante raro, em que é usado com valor intransitivo. É quando indica alinhar, enfileirar, dispor em certa ordem: o batalhão formou para homenagear o visitante ilustre. O uso intransitivo raramente estravasa da área militar.

Chamada d’O Globo, 17 maio 2019

A esse propósito, um cartaz revelador foi levantado por um manifestante quando dos protestos estudantis de alguns dias atrás. Está reproduzido acima destas letras. Diz lá: «Eu formei, tu formaste, mas eles não formarão se a universidade parar». O rapaz que segura o papel mostra semblante bastante convicto da justeza do próprio protesto. Pelo uso da primeira pessoa (‘eu formei’), deduz-se que ele ostenta na parede de casa um diploma universitário.

Pois é, pode até ser que nosso protestatário tenha obtido o diploma, mas fica claro que faltou a algumas aulas de Português. É de crer que o cartaz não se esteja referindo a formação de fila, mas a formação universitária. Nesse caso, o verbo formar não pode ser usado intransitivamente. No sentido de terminar o curso e diplomar-se, o verbo é reflexivo: eu me formei, tu te formaste, eles se formarão.

Parece simples pra quem sabe. Pra quem não sabe, é mistério insondável. Quando foi mesmo que a obtenção de diploma se divorciou da vontade de aprender pra se tornar um fim em si? Quando foi mesmo que formação deixou de significar construção intelectual para ser só sinônimo de diploma pendurado na parede? Algumas peças da engrenagem se perderam pelo caminho, e a máquina parou de funcionar.

O patinete e o capacete

José Horta Manzano

Uma jovem carioca resolveu dar uma volta de patinete, desses de aluguel. Era a primeira vez que subia naquela geringonça. Meio insegura, bobeou, bambeou, bamboleou e se esborrachou no chão. Caiu feio. Quebrou dois dentes e ficou dias de beiço inchado. A aventura deixou-a com uma raiva danada. «– Como é que permitem não só chegar perto, mas subir num veículo tão perigoso?» Fosse a moça uma cidadã comum, a conversa teria morrido ali, assim que tivesse passado a raiva. Acontece que ela é deputada estadual, uma eleita do povo.

Assim sendo, deixou-se levar pela onda legislatória que assola o país e teve a ideia de regulamentar, por conta própria, o uso de patinete no seu estado. Pra bem legislar, nada melhor que criar gargalos e entraves. A parlamentar arquitetou as normas que lhe pareceram indispensáveis e apresentou projeto de lei tornando obrigatório o uso de capacete pra passear de patinete. No entanto, a lei imaginada pela moça contém um detalhe curioso: no caso de veículo de aluguel, caberá ao proprietário fornecer o equipamento. Assim, na prática, patinete de aluguel terá de ser alugado com capacete. Os dois juntos.

No Rio de Janeiro, os empresários do ramo estão inquietos. Se a proposição da deputada passar, o negócio de alugar patinete pode se tornar inviável. De fato, como fazer para acoplar um capacete a cada veículo sem risco de furto? Não parece, mas o investimento, desproporcional ao valor do negócio, periga inviabilizar a operação. Além disso, um perigo está embutido. Dado que o projeto de lei não detalha as características técnicas do equipamento, quem impede o dono do negócio de fornecer capacetes de baixa resistência ou até de papelão?

Acredito, sim, que patinete pode ser perigoso. Não só para o patinetista, mas principalmente para incautos pedestres que lhe possam surgir pelo caminho. Acredito, sim, que o capacete obrigatório é medida de bom senso. O que me incomoda no projeto da deputada é a obrigatoriedade feita ao dono do equipamento. Por que raios caberia a ele – e não ao usuário – tomar essa precaução?

Sabe-se que, em caso de acidente com esse tipo de veículo, muita fratura exposta poderia ser evitada com o simples uso de protetores de perna, tipo botas altas de cano duro. Caberia, porventura, ao fornecedor do patinete deixar botas à disposição do usuário?

Sabe-se também que tomar chuva fria com o corpo transpirado é perigoso e pode causar resfriado, gripe e pneumonia. Caberia, porventura, ao fornecedor do patinete deixar guarda-chuvas à disposição do usuário?

Convenhamos, minha gente: há limite pra tudo. Espero que os parlamentares do Rio se abstenham de aprovar a proposta. Em princípio, cada um tem de cuidar da própria segurança. Não é boa prática empurrar sistematicamente a terceiros a obrigação de nos proteger.

Artigos em falta

José Horta Manzano

Nos tempos do lulopetismo, ficou evidente a falta de simancol de Lula da Silva e de quase todos os que lhe gravitavam em torno. A sem-cerimônia daquela gente era constrangedora. Apesar disso, dada a gravidade do que fizeram no terreno criminal, passaram à história como promotores do maior assalto ao Estado. Os louros obtidos com esse crime ofuscam o primitivismo do desajeitado comportamento social. Ninguém mais se recorda do lado pesadão de todos eles. Serão para sempre lembrados pela desenvoltura ao meter a mão na marmelada.

O advento de doutor Bolsonaro trouxe variação aos padrões. Roubalheiras não foram, até o momento, descobertas. (Esperamos que assim continue.) Já do lado do comportamento no dia a dia, ai, ai, ai! A falta de simancol dos lulopetistas é fichinha. O prato do dia agora é a gritante falta de vergonha na cara. Quando, lá fora, o mundo fica sabendo, nós é que passamos a nos sentir constrangidos. E como!

A Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos tomou a peculiar decisão de conceder o prêmio de personalidade do ano a doutor Bolsonaro. Digo peculiar porque me lembra o prêmio Nobel da Paz oferecido a Barack Obama logo no início do mandato. O mundo, naquela época, ficou um tanto embasbacado: «–Mas… se o homem ainda não teve tempo de mostrar serviço, por que é que lhe estão dando esse prêmio adiantado?»

Agora volta a mesma pergunta. Por que é que dão prêmio de personalidade do ano a um presidente em início de mandato, que ainda não fez praticamente nada além de tuitar indecências e banalidades? Pouco importa – o prêmio foi concedido. Agora é tratar de ir buscá-lo. É aí que começa a constrangedora via crucis, que termina com inacreditável falta de vergonha na cara.

Em lugar de guardar discrição na escolha do salão onde promover a festa, os organizadores deixaram vazar cada passo da busca. Como resultado, o mundo ficou sabendo que a presença de doutor Bolsonaro não era bem-vinda em nada menos que três salões nova-iorquinos. De quebra, o prefeito daquela metrópole tascou em nosso presidente o epíteto de «dangerous human being – ser humano perigoso». Um desplante. Perigoso ou não, qualquer ser humano medianamente dotado de brios teria virado a página e enterrado o projeto. Perdeu, mano!

Quá! É não conhecer o presidente do Brasil. Tinhoso, é daqueles que, expulsos pela porta, retornam pela janela. Mostrou que não é somente simancol que lhe falta, mas vergonha na cara. Acionou o Itamaraty para encontrar lugar que se dignasse de o acolher. Descobriram um local em Dallas. Doutor Bolsonaro deve fazer a viagem estes dias. O prefeito da cidade já avisou que não comparecerá à cerimônia, numa mostra de que o sentimento antibolsonarista é difuso e não se restringe a um excitado prefeito de Nova York.

Não sei o que o distinto leitor pensa disso tudo. Fosse comigo, eu não iria. Quando um homem chega ao ponto de ter de mendigar acolhida, não faz jus ao título de personalidade do ano. Ou não? Faltou vergonha na cara.

Meio porcento

José Horta Manzano

«Alguns dos números apurados pela CNM: só 0,5% das cidades brasileiras com mais de 300 mil habitantes incentiva a substituição das frotas de ônibus atuais por carros elétricos.»

Extraí esse texto de notícia dada hoje pelo Estadão. Como raramente compro pelo valor de face, fui verificar. Queria saber quantos municípios de mais de 300 mil moradores há no Brasil. São 89, número considerável.

Agora vem o nó. A notícia fala em 0,5% deles. Quanto dá 0,5% de 89? Dá 0,45. Portanto, nem meia cidade incentiva o uso de ônibus elétricos. Sente o absurdo?

Pra publicar bobagens assim, é melhor não dar números. Mais vale dizer que menos de meio município aderiu à prática ecológica. Ninguém vai entender, mas que importância tem?

Proficiência

José Horta Manzano

Vez por outra, topamos com alguma imprecisão de tradução na mídia brasileira. O texto original é mal transcrito, e a gente acaba não entendendo. É compreensível que isso aconteça, tão parco é nosso conhecimento de línguas estrangeiras. É pena, porque essa pobreza cultural acaba por estreitar o horizonte de todos, mas assim são as coisas. A gente imagina que, em outras terras, seja bem diferente. Em geral é – mas nem sempre.

É verdade que, na Holanda e na Dinamarca, são todos praticamente bilíngues. São pequenos países de língua praticamente desconhecida além-fronteira, onde o aprendizado de inglês é incentivado desde a escola elementar. O exemplo dos mais velhos, que praticam essa língua com habilidade, dá ânimo aos pequenos. E o círculo virtuoso se perpetua.

Mas nem todo estrangeiro é holandês ou dinamarquês. Alguns povos, mais recalcitrantes, são conhecidos pela aversão que sentem pelo aprendizado de línguas estrangeiras. Entre eles, destacam-se os franceses. Saudosos, talvez, do tempo em que a língua de Molière pairava acima das demais em prestígio e difusão internacional, resistem a estudar idiomas. Nesse terreno, são duros de molejo.

Acabo de topar com um magnífico exemplo da imperícia francesa com línguas estrangeiras. Le Petit Journal é um portal voltado para expatriados franceses. Gratuito, é financiado pelos anunciantes. Acolhe colaboração de franceses residentes no mundo inteiro. Na sequência da entrevista concedida por Lula da Silva estes dias, publicaram artigo assinado que leva título inquietante: «L’interview de Lula censurée par les médias brésiliens? – A entrevista de Lula censurada pela mídia brasileira?».

Le Petit Journal

No corpo do artigo, a dúvida do título se torna certeza. Afirmam, com todas as letras, que sim, a entrevista de nosso guia foi boicotada pelos outros veículos brasileiros. Incrédulo, tive de ler até o fim pra entender a trapalhada. A confusão baseia-se num tuíte da jornalista da Folha que entrevistou o Lula. Mônica Bergamo tuitou: «A entrevista de Lula (…) foi um ROMBO na censura no Brasil (…)». E a articulista francesa traduziu: «A entrevista de Lula (…) foi alvo da censura brasileira (…)». A autora do texto afirma ainda que a mídia brasileira não tratou do assunto e que a entrevista só foi mencionada em sites alternativos. Pra você ver aonde pode levar a pobreza de conhecimento de línguas.

Em conclusão, a moça leu o tuíte, não entendeu mas achou que devia ser o que não era pra ser mas que achava que era, resolveu seguir adiante assim mesmo, publicou o que não devia, seus leitores ficaram meio sem entender, e… viva São João!

Nesta era de fake news propositais, precisa acrescentar nova categoria: as fake news por imperícia. Assim caminha a humanidade.

Se quiser conferir, clique aqui.

Silêncio é poesia

José Horta Manzano

Logo que começaram a pipocar as mensagens de simpatia de líderes do mundo inteiro abalados com o incêndio de Notre-Dame de Paris, senti uma certa inquietação: que faria doutor Bolsonaro? Será que ia se calar fingindo que era poste? Será que ia mandar mensagem? E, se mandasse, que barbaridade perigava escrever no bilhete?

Aliviado, descubro que o pior não aconteceu. A mensagem do presidente foi sóbria, digna, exatamente como se espera de personagem equilibrado. Não estivesse assinada de próprio punho, eu nem acreditaria que tivesse sido escrita por ele mesmo.

Já Mr. Trump, ai, ai, ai. Que bordoada! O homem se permitiu dar conselho aos bombeiros de Paris, imagine só! Enquanto as chamas consumiam o edifício, sugeriu que fossem despachados aviões-cisterna, daqueles que se usam para combater incêndio florestal. E que despejassem toneladas d’água sobre a catedral.

Condescendentes, os bombeiros de Paris responderam delicadamente que não era uma boa ideia, pois o peso da água perigava destruir o que restava do monumento além de matar pedestres. Muito acertadamente, as normas proíbem o uso de aviões-cisterna em meio urbano. Desta vez, doutor Bolsonaro livrou-se do ridículo.

Em boca fechada não entra mosca, minha gente. Donald Trump calado é um trovador. Se subsiste uma duvidazinha quanto à autoria da mensagem de doutor Bolsonaro, não há que hesitar pra designar o autor do bilhete de Mr. Trump: é ele mesmo.

Missionário no exterior

José Horta Manzano

Sem intenção de afrontar a notória abertura de espírito do culto ministro Ernesto Araújo, pergunto-me em que medida o passaporte diplomático que ele concedeu ao casal Edir Macedo Bezerra pode ajudar o eclesiástico a “desempenhar de maneira mais eficiente suas atividades em prol das comunidades brasileiras no exterior”.

Que tem o passaporte a ver com atividades episcopais do titular? Um doce pra quem puder informar. Cartas para a redação, por favor.

Nota da redação postada em 17 abr 2019
Um juiz federal do Rio de Janeiro confortou este blogueiro no entendimento de que não tem cabimento conceder passaporte diplomático a um eclesiástico sob pretexto de que costuma partir para viagens missionárias. Em sábio juridiquês, o magistrado deu despacho cassando o documento.

Aguardemos o próximo capítulo. Num país extremamente judiciarizado como o nosso, nunca se sabe. Batalhas judiciais são intermináveis, principalmente para quem tem (muito) dinheiro. É voz corrente que donos de igrejas neopentecostais vivem em abastança.

O saco e o xixi

José Horta Manzano

Vinte e oito anos é a duração de um ciclo bem conhecido dos astrólogos. É aproximadamente o tempo que Saturno leva pra dar uma volta ao Sol.

Dia 3 de abril de 1991, uma manifestação de protesto deixou Fernando Collor de Mello, então presidente da República, muito avexado. O doutor explodiu e berrou a quem o quis ouvir : «Eu tenho aquilo roxo!». Não ousou dar nome ao «aquilo», mas todos entenderam. A frase ficou na história da República como um dos (hoje frequentes) exemplos de mau gosto e de vulgaridade presidencial.

Ninguém imaginava, naquela altura, que uma cachoeira de baixezas estaria por se instalar na fala de presidentes. E de ‘presidentas’. Nenhum dos sucessores, no entanto, teve a ideia de se valer de expressões situadas abaixo da cintura.

Vinte e oito anos e dois dias se passaram, mas Saturno não costuma falhar. Doutor Bolsonaro acaba de nos brindar com um fabuloso «vale a pena ouvir de novo». Ainda que menos viril e mais pueril, a reprise de 1991 é boa. Tanto quanto a precedente, a metáfora de doutor Bolsonaro ronda o campo da escatologia, tema não necessariamente benfazejo para presidentes.

Um ano e pouco depois de clamar a própria virilidade, doutor Collor de Mello estava no chão, destituído nos conformes, metaforicamente emasculado. Doutor Bolsonaro que se cuide. Confissões públicas muito próximas do piupiu do declarante não são bom caminho.

De esquerda ou de direita?

José Horta Manzano

O Oriente Médio é prova de fogo pra qualquer aventureiro. É uma corda estendida à altura do tornozelo, pronta a jogar ao chão qualquer político forasteiro que ouse arriscar-se a tomar posição ou simplesmente emitir opinião sobre as desavenças locais. Não há como escapar: se se agrada a um lado, desagrada-se ao outro. O melhor mesmo é ser cortês com todos e evitar tomar partido. Em público, pelo menos.

Nesse particular, dois dos mais recentes presidentes de nossa República foram particularmente infelizes. Com jeitão presunçoso de quem diz «deixa, que o papai aqui resolve», Lula da Silva causou um estrago na imagem de relativa neutralidade que o Brasil mantinha até então em assuntos médio-orientais. Ao tentar resolver, à valentona, o conflito milenar, trocou os pés pelas mãos e foi expulso do ringue. Tendo forçado a porta da frente, acabou atirado pela janela dos fundos. E não resolveu nadinha.

Vai, agora, doutor Bolsonaro… e repete a dose. Sua intervenção foi menos presunçosa que a do antecessor, é verdade, mas deixou patente sua constrangedora ingenuidade e sua absoluta falta de traquejo em assuntos internacionais. Tendo em linha de mira o naco neopentecostal de seu eleitorado, houve por bem tomar abertamente partido por um dos contendores no conflito da região. Naturalmente, despertou a ira do outro litigante, que, por acaso, é um dos principais clientes do agronegócio brasileiro. Uma temeridade.

Uma desgraça não costuma vir sozinha. Doutor Araújo, aquele que usa barba de djihadista e exerce as funções de ministro das Relações Exteriores, declarou a repórteres que o nazismo era um movimento de esquerda. Dado que o moço já tem pronunciado babozeiras, os jornalistas correram pra doutor Bolsonaro pra perguntar-lhe o que achava da declaração. Decepcionou-se quem esperava ver o chefe dando um puxão de orelhas no pupilo desgarrado.

O presidente mostrou que seu raciocínio lógico continua estacionado ao nível da escola primária. Lembrou a todos que o partido nazista se chamava Partido Nacional Socialista, pois não? «Portanto, se era socialista, era de esquerda.» Elementar, meu caro Watson! Ai, ai, ai, que vergonha, minha gente! Se o Lula tinha escancarado ao mundo a ousadia dos ingênuos, doutor Bolsonaro acrescentou nova nuance: a firmeza de convicção que só aos ignorantes é permitida.

Não preciso dizer que, se a mídia internacional tinha deixado passar a declaração do ministro barbudo, deitou e rolou em cima da cândida confirmação do presidente. Deu em todos os jornais. Se estivesse faltando comprovação, ela aqui está: a ignorância não é de esquerda nem de direita ‒ é universal.

O tamanho e o formato das bandeiras

José Horta Manzano

Você sabia?

A gente costuma achar que todas as bandeiras nacionais são retangulares e de formato idêntico. Pois a realidade não é exatamente essa. O formato e as proporções das bandeiras são bastante variados. Há uma trintena de diferentes formatos oficiais. Cada país ou território tem regras específicas para confecção e apresentação de seu estandarte. Nossa bandeira nacional, quanto a ela, segue as (rigorosas e precisas) normas ditadas pelo Decreto-lei n° 4.545, assinado por Getúlio Vargas.

De cada quatro bandeiras, três seguem as proporções mais utilizadas: 1:2 ou 2:3. No primeiro caso, o comprimento da bandeira mede o dobro da altura. No segundo, o comprimento corresponde a uma vez e meia a altura.

Alguns pendões escapam a essas medidas mais difundidas. Entre eles, como se podia esperar, o nosso. Aproxima-se muito do padrão 2:3, embora o comprimento não chegue a uma altura e meia. As proporções da bandeira brasileira são de 7:10, o que dá uma razão não de 1,5, mas de 1,429. Apenas duas nações seguem esse padrão: o Brasil e a pequenina Andorra.

Na prática, no entanto, como pouca gente anda pela rua com uma régua no bolso a medir bandeiras, não se costuma dar muita atenção a essas minúcias. Certas ocasiões exigem que dezenas de lábaros sejam expostos: conferências internacionais, por exemplo. Para essas horas, está tacitamente combinado que todas sejam confeccionadas no formato 2:3. A uniformização evita que bandeiras mais longas acabem ocultando as mais curtas. Ninguém reclama.

Eu disse ninguém? Não é bem assim. Durante quase meio século, a Suíça negou-se a aderir à ONU, criada logo após a Segunda Guerra. O povo considerava que o estatuto de neutralidade do país era incompatível com a afiliação a uma organização supranacional.

O tempo passou, a guerra foi ficando pra trás, o Muro de Berlim caiu, a antiga geração foi desaparecendo, até que chegou um dia em que, por meio de plebiscito, os suíços finalmente aprovaram a entrada do país na ONU. Foi em 2002. Logicamente, um mastro foi acrescentado à fachada da organização internacional. Na hora de confeccionar a bandeira suíça, no entanto, um problema apareceu.

ONU ‒ Sede europeia, Genebra

Entre todos os Estados e territórios do planeta, somente dois têm bandeira quadrada. Um deles é o Vaticano ‒ que não é membro da ONU ‒ e o outro é justamente a Suíça. O cerimonial da ONU insistiu para que os suíços «espichassem» sua bandeira e a tornassem retangular. Pequenino mas cabeçudo, o país resistiu. «Nossa bandeira sempre foi quadrada e assim permanecerá.» A ONU preferiu não insistir.

Se o distinto leitor calhar de passar um dia diante da ONU, dê uma olhada. Lá está a bandeira vermelha de cruz branca. Quadradinha.

Artigo publicado originalmente em jan° 2017.

A raiva do sultão

José Horta Manzano

Decisão brusca ditada pelo humor ou pelo capricho de uma alta personalidade pode, às vezes, mudar o curso da história e determinar se o futuro da nação será de progresso ou de trevas.

A decisão tomada pelo rei de Portugal ao tempo do Marquês de Pombal de expulsar os jesuítas do Brasil contribuiu para condenar a colônia a cento e cinquenta anos de escuridão. Os jesuítas eram a ordem mais chegada à instrução básica de brancos e índios. Dado que seu banimento não foi seguido de medidas de incentivo à escolarização da população, o país permaneceu mergulhado na ignorância e viu crescer sua população de analfabetos. Isso durou até quando, já no século 20, a escola gratuita e obrigatória começou a se generalizar.

Vou contar-lhes outro caso, escorregão que causou um desastre cujas consequências se sentem até hoje, passados mais de quatro séculos. A virada do século 16 para o 17 assinalou o auge da expansão territorial e cultural dos turcos, que formavam, à época, o império otomano. Constantinopla, a capital, estava situada no cruzamento das rotas terrestres e marítimas que ligavam o Atlântico à Mongólia e à China. Ponto de passagem incontornável, era importante centro de comércio e de difusão da cultura.

Àquela altura, a Europa já contava com diversos observatórios astronômicos. Dois dentre eles, no entanto, sobressaíam. Eram o de Uranienborg (Dinamarca), onde oficiava o astrônomo dinamarquês Tycho Brahe, e o de Constantinopla, cuidado pelo otomano Taqi al-Din. No ano de 1577, um cometa muito luminoso atravessou o céu. Os dois estudiosos puderam observá-lo com atenção ‒ Tycho Brahe em Uranienborg e Taqi al-Din em Constantinopla. Quis o acaso que o cometa surgisse no primeiro dia do Ramadã, o mês sagrado dos muçulmanos. Inquieto com o resultado da próxima guerra, o sultão turco quis saber se o cometa prenunciava boas novas ou desgraça.

Taqi al-Din constatou que o astro apontava na direção da Pérsia. Ademais, havia surgido na constelação de Sagitário (símbolo do flecheiro turco) e terminaria na de Aquário (símbolo da paz). A conclusão parecia evidente e o astrônomo não se furtou: predisse que o sultão podia seguir em frente sossegado, que a campanha militar seria coroada de sucesso. Não foi o que aconteceu. A guerra foi um desastre. Furioso, o sultão jogou a culpa no astrônomo e, ato contínuo, mandou que o observatório fosse destruído.

Enquanto isso, no observatório dinamarquês, Tycho Brahe aproveitou a passagem do cometa para adquirir conhecimentos. Registrou, por exemplo, que a cabeleira do corpo celeste se projetava sempre do lado oposto ao Sol. Os estudos de Brahe contribuiriam significativamente para o avanço da ciência na Europa. Já a destruição do observatório otomano travou o desenvolvimento da Turquia no campo científico. Foi preciso esperar pelo século 20 e pela chegada de Kemal Atatürk, herói que modernizou o país, para a Turquia começar timidamente a destravar o caminho do conhecimento. O país havia conhecido quatro séculos de estagnação.

Com informações de Manuel de León, El País.

Bando de cagão

José Horta Manzano

Tinha previsto algum escrito mais ameno pra este domingo. Mas certas notícias deixam de olho arregalado e pedem reação imediata. Não dá pra deixar esfriar.

É de conhecimento de todos que doutor Bolsonaro está de viagem pra Washington para visitar Mister Trump. Até aí, nada de extraordinário. Com as facilidades atuais de transporte, encontros entre chefes de Estado se multiplicam, o que só pode ajudar. O problema, desta vez, é que um dos primeiros-filhos viajou um dia antes pra participar de encontro com duas personalidades. Um deles é senhor Olavo de Carvalho, apresentado como seu guru. O outro é nada menos que Steve Bannon, sulfuroso personagem, um dos maiores desafetos de Donald Trump. Mister Bannon é figurinha carimbada da extrema-direita internacional, ligado a personagens racistas e supremacistas como a francesa Marine Le Pen e o holandês Geert Wilders.

Todos sabem que o clã Bolsonaro age e trabalha em uníssono. Na hora do vamos ver, o presidente tende sistematicamente a tomar o partido dos filhos contra todos os que se situarem ao exterior da família. Já aconteceu até com o superministro Moro, humilhado e obrigado a voltar atrás numa decisão que havia tomado, pra satisfazer ao capricho de um dos bolsonarinhos. Portanto, a presença do primeiro-filho na homenagem prestada a Mr. Bannon equivale à presença do próprio presidente.

Aproveitar da visita a Trump pra se encontrar com um de seus declarados inimigos é descortesia, pra dizer o mínimo. É atitude desajeitada, fruto da falta de traquejo social e político que caracteriza o clã que nos dirige. É um passo que nada agrega de bom. Pior que isso, lança uma sombra sobre a visita presidencial. Seria como se um chefe de Estado estrangeiro, em visita a doutor Bolsonaro, decidisse visitar antes Lula da Silva na cadeia. É tapa na cara que pega mal pra caramba.

Nos EUA com Steve Bannon.
A foto é sugestiva. Para o caso de o governo não vingar, a porta de saída já está preparada lá no fundo.

Nem Mr. Trump ‒ que ninguém acusaria de ser moderado ‒ guardou muito tempo Steve Bannon em seu entourage. Por que raios o clã Bolsonaro faz questão de adotar figura que o próprio ídolo deles já descartou? A pergunta complementar é: por que é que fazem isso em público e à luz do dia?

Agora vamos falar do estranho título deste artigo. Não é de mim, é citação naturalmente. Quem me conhece sabe que sou avesso a palavras de calão. Não fazem o estilo da casa. Citei, no título, uma frase elegante proferida pelo guru do clã Bolsonaro. Falo de senhor Olavo de Carvalho, descrito ora como professor, ora como filósofo, escritor ou pensador. Referindo-se à suposta inação de doutor Bolsonaro quando atingido por críticas, ele disse textualmente: «Ele não reage porque aquele bando de milico que o cerca é tudo um bando de cagão, que tem medo da mídia». Que distinção, não é mesmo?

Fico imaginando um linguajar desse jaez na boca de ilustres filósofos que antecederam senhor Carvalho. De Santo Agostinho a Leibniz, de Descartes a Schopenhauer, não dá pra cogitar algum deles tratando uma classe inteira de cidadãos de «bando de cagão». Em público! Isso está mais pra bêbado boca-suja em conversa de botequim depois das dez da noite.

Na entrevista concedida a jornalistas, o guru foi mais longe e deu diagnóstico taxativo. Disse que, a continuar do jeito que vai, esse governo não dura mais que seis meses. Se realmente o governo for pro espaço, senhor Olavo de Carvalho terá dado contribuição consistente para tal desfecho.

As pérolas de doutor Araújo

José Horta Manzano

Cronista que tem doutor Ernesto Araújo no Itamaraty nunca está desamparado. Nosso chanceler se encarrega de preencher a paisagem com pérolas diárias. Seu antecessor mais marcante foi doutor Celso Amorim, o chanceler do Lula, um dos principais responsáveis pela marginalização do Brasil que, sob sua batuta, se afastou do circuito dos países cuja voz é respeitada internacionalmente.

Confesso que, quando o chanceler do Lula saiu de cena, senti um misto de alívio e de apreensão. O alívio vinha do fato de não ser possível imaginar pior desempenho à frente do Itamaraty. A apreensão vinha do sentimento de que aquela folclórica criatura fosse insubstituível. Havia o receio de que, depois dele, não haveria mais do que falar.

O desempenho de doutor Araújo tem causado frustração e consolo. Frustração porque ele nos ensinou que, por mais que a atuação de alguém deixe a desejar, seu sucessor pode ser ainda pior. E consolo porque, pelo menos, temos matéria diária a comentar.

by Renato Luiz Campos Aroeira, desenhista carioca

Segunda-feira desta semana, doutor Araújo discursou para alunos do Instituto Rio Branco. Discorrendo sobre o comércio exterior brasileiro nas últimas décadas, seguiu raciocínio primário e linear. Disse que a opção de integração com a América Latina, a Europa e o Brics foi equivocada. O doutor se esquece de que, na hora de vender seu peixe, o produtor não escolhe cliente, mas vende àqueles que estiverem dispostos a comprar. Se o Brasil vende soja e minério de ferro à China é porque ela compra e paga o preço. Não há aí nem um suspiro de ideologia.

Continuando na mesma linha de comparar o incomparável, o chanceler lembrou que o Brasil foi o país de mais forte crescimento quando seu principal parceiro eram os EUA. E que, desde que passou a vender à China, estagnou. O argumento é falacioso. O comércio exterior é apenas um dos elementos da economia. Se atrelar a economia nacional à dos EUA levasse a progresso fulgurante, o México ‒ cuja economia está visceralmente ligada à do vizinho do norte, que lhe absorve majoritariamente as exportações ‒ seria a economia mais florescente do planeta. A realidade não é bem essa.

Os óculos de doutor Araújo o fazem enxergar ideologia até em transações comerciais. Dependesse dele, é possível que toda exportação para a China e para a Europa fosse barrada. Felizmente o mundo é bem mais vasto do que as lentes do chanceler permitem ver. Por sorte não compete ao ministro das Relações Exteriores determinar quem pode e quem não pode comprar produtos brasileiros. Assim, nossa pauta de exportação continuará a vender a quem estiver interessado em comprar. E a pagar.

Paranoias presidenciais

José Horta Manzano

Estes dias, doutor Bolsonaro botou as manguinhas de fora. Falou muito e… acabou dizendo alguma coisa. O mais impactante foi quando confessou dormir com arma de fogo ao lado da cama, pronto a enfrentar assombração e assaltante. Encafifado com os serviços de segurança palacianos, comporta-se como todos os que se sentem perseguidos.

Todo governante autoritário tem esse traço de personalidade: mania de perseguição. Paranoia, se preferirem. Nosso presidente ainda não teve tempo de imprimir rumo autoritário a sua gestão. Talvez nunca tenha a ocasião de fazê-lo, o que será melhor pra todos. Assim mesmo, o costume do revólver na cabeceira é revelador. Só falta contratar um provador de comida ‒ aquele que experimenta a refeição que lhe será servida, só pra ter certeza de que não está envenenada.

Além desse pronunciamento, doutor Bolsonaro deu outro, profundo e importante para o futuro do país. Referiu-se a embaixadores do Brasil lotados em postos importantes no exterior. Já se sabia que nosso presidente não é grande admirador da diplomacia. Ficamos agora sabendo que, além de não ser admirador, ele pouco entende do ramo. Não parece ter ideia precisa da função dos que representam o Estado brasileiro no exterior.

Embaixada do Brasil em Bridgetown, Barbados
(país insular caribenho de 278 mil habitantes)

O presidente declarou não estar satisfeito com a atuação de vários desses profissionais porque não estariam defendendo com eficiência a reputação do chefe de Estado. Ele se queixa da péssima imagem de que goza no exterior e considera que compete aos diplomatas limparem a má fama. O presidente não se dá conta de que o pessoal diplomático tem mais que fazer do que louvar a figura do chefe. Tampouco se dá conta de que é ele próprio o único responsável pela péssima reputação de que goza no exterior. Não se deve atribuir a terceiros a culpa por nossos erros.

O presidente tem a intenção de afastar uma dúzia de embaixadores importantes e botar, no lugar deles, um grupo de profissionais (que ele julga) afinados com o pensamento do governo atual, mais aptos a apagar incêndios ateados pelo próprio chefe.

Melhor faria o presidente se prevenisse em vez de remediar. No lugar de chamar bombeiros, seria mais simples evitar acender o fogaréu. Mas ‒ que fazer? ‒ há gente que ataca os problemas pelo lado errado.

Warum einfach? ‒ 2

José Horta Manzano

Conhece a história daquele sujeito que, tendo encontrado a esposa no sofá da sala com o amante, quebrou o sofá? Pois é, coisas assim também ocorrem na vida real.

Em 2008, numa Venezuela que ainda funcionava, señor Hugo Chávez mandava e desmandava. Num Brasil pré-Lava a Jato, muita gente ainda aplaudia o Lula, então aboletado no Planalto. No intuito de tirar os EUA do dia a dia da América do Sul, os dois mandachuvas concretizaram um velho sonho do pessoal da ala situada mais à esquerda: implantaram a Unasul. A organização, irmã-gêmea da OEA (Organização dos Estados Americanos), congrega todos os países independentes da América do Sul continental. Com uma característica significativa: exclui os Estados Unidos.

Mas o mundo gira e, de lá pra cá, muita coisa mudou. Pra começar, não se tem notícia de que algum benefício gerado pela nova organização possa justificar os gastos de seu orçamento. No palco político, Chávez morreu, a Venezuela foi pro buraco, o Lula mudou-se para a cadeia, a argentina Cristina Kirchner está a um passo da penitenciária, o equatoriano Rafael Correia foi apeado do trono. A base ideológica de sustentação da Unasul entrou em colapso.

No Brasil, na sequência da eleição, um dos filhos do presidente ‒ aquele que é deputado federal ‒ deve presidir a Comissão de Relações Exteriores da Câmara. A ambição do jovem é brilhar no campo internacional. Vai fazer tabelinha com doutor Araújo, ministro da área.

Doutor Eduardo Bolsonaro é aquele que passeou nos EUA levando, enfiado na cabeça, um boné com os dizeres «Trump 2020» ‒ coisa fina. Doutor Araújo é aquele que sonha em transformar nosso país em trepadeira parasita, daquelas que grudam no tronco da árvore maior e sobrevivem sugando-lhe gotas de seiva. (A árvore, o distinto leitor entendeu, são os EUA.) Com os dois à frente de nossa diplomacia, estamos bem arranjados.

O primeiro-filho vai valer-se da força que lhe dá a Comissão de Relações Exteriores para bombardear a Unasul. Pelo que tem declarado, vai agir como o sujeito que quebrou o sofá. Está convencido de que a organização criada por Chávez e pelo Lula é um ninho de perigosos esquerdistas. Pra pôr remédio, não lhe passou pela cabeça recalibrar a contratação e redistribuir as tarefas do pessoal. Prefere desmontar a organização, mandar todos embora, fazer tábula rasa. Em seguida, será erguida nova organização, segundo moldes idênticos aos da atual. Só que, desta vez, sem esquerdistas.

Warum einfach wenn es auch kompliziert geht?
Por que fazer simples, se complicado também funciona?
Máxima alemã

Aceita um passaporte?

José Horta Manzano

Se o distinto leitor faz parte dos ingênuos que acreditavam que passaporte diplomático é expedido unicamente para diplomatas em missão no exterior, perca as ilusões. Entre os detentores de passaporte diplomático ou oficial, diplomatas são pequena minoria. Na realidade, toda a casta do andar de cima tem direito garantido a receber um desses dois documentos. São milhares de pessoas, que não necessariamente viajam a serviço do país.

Entre outros cidadãos, podem solicitar passaporte diplomático ou oficial os que se enquadrem nas seguintes categorias:

  • Presidente, vice-presidente e governadores
  • Senadores e deputados federais
  • Ministros do STF, do TSJ e do TCU
  • Servidores da administração direta em missão oficial
  • Servidores de todas as autarquias federais e estaduais, ainda que não estejam em missão oficial

Se, aos servidores, adicionarmos mulher e filhos, são muitos milhares de privilegiados.

Um mortal comum tem de pagar mais de 250 reais pelo passaporte normal. Já o documento diplomático que, pela importância simbólica, deveria custar mais caro, sai de graça para o titular. Pagamos nós.

Em se tratando de funcionário não diplomático, o passaporte deveria ser válido pelo tempo que durará a missão. Se, por exemplo, um grupo de deputados viaja à China por dez dias, cada parlamentar deveria receber passaporte válido para a China e por dez dias. Na prática, no entanto, não funciona assim. Os documentos são expedidos com validade de 2 ou até 4 anos, independentemente da duração da missão. Ora vejam!

Tirando diplomatas de carreira, que deixam o país com a família e partem para longas missões, os demais não levam necessariamente familiares. Se decidem levar a família a tiracolo para um giro turístico, isso deveria ser problema deles. Mas nossa administração é generosa. Passaportes diplomáticos ou oficiais válidos por anos são concedidos a granel: ao titular, à esposa, aos filhos e a eventuais dependentes.

Ah, que perca as ilusões também quem tinha esperança de que a chegada de novos parlamentares estreantes fosse pôr freio a esses desequilíbios dignos de outras eras. O Globo informa que, só durante o mês de fevereiro, atendendo à solicitação de Suas Excelências, a Câmara Federal concedeu 78 passaportes diplomáticos a parlamentares mais 77 aos respectivos cônjuges e filhos.

Antes da eleição, é fácil pregar a moralização de práticas tortas. Na hora agá, a conversa muda. Nas trevas dos velhos vícios, ainda não se enxerga luz no fim do túnel.

PS
Passaporte oficial e diplomático não trazem grande vantagem ao titular. Em princípio, permitem furar fila, só que esse costume de dar carteirada é desconhecido em terras mais civilizadas. O que esses passaportes especiais fazem, no fundo, é afagar o ego do detentor. O bobão se sente importante como um potentado africano.

Intolerância religiosa

José Horta Manzano

Num rabicho de Carnaval, à falta de notícia mais importante, a imprensa dá conta da grita que se levantou na Câmara Federal contra os Gaviões da Fiel. Por meio de seus líderes, a bancada evangélica fez saber sua indignação com o tema escolhido por aquela escola para animar o desfile este ano. A letra, com alusões a Jesus e a Satanás, chocou. Não entendi bem o que foi que incomodou, se as referências feitas a Jesus ou as que foram feitas a Satanás. Quem sabe o que arranhou mesmo o pudor de suas excelências foi a convivência dos dois personagens no mesmo ritmo.

Talvez fosse importante recordar aos parlamentares ofendidos que a base da filosofia de toda igreja é exatamente a dualidade entre o bem o mal. Todas as religiões, seitas e outros movimentos espirituais se propõem a propagar a melhor receita para resolver o embate entre esses dois polos. Os Gaviões não inventaram a pólvora. O bem e o mal convivem na vida nossa de cada dia. Ver seus símbolos assim, confrontados, não deveria ser matéria pra chocar ninguém.

O episódio, que ainda pode dar pano pra mangas e gerar até processo, é comprovação eloquente de que vivemos uma época de diluição de valores. A Polícia de Costumes está nas ruas, tesoura em punho, censurando o que entende e principalmente o que não entende. Hoje em dia, dependendo da pinta do galã, um assobio pode ser enquadrado como assédio sexual. Sons de samba-enredo ecoam até no Congresso Nacional – e geram manifestação de iracundos deputados. É um mundo de ponta-cabeça. Não se conhece mais o valor de cada mercadoria. Banana está sendo comprada por preço de caviar.

Que saudades dos tempos em que Carnaval era apenas Carnaval. Que saudades dos tempos em que se dava a cada fato apenas a importância que tem. Ao acusar os foliões de “intolerância religiosa”, a bancada evangélica não se dá conta do papel ridículo. Estão a inverter conceitos. Os intolerantes são justamente os senhores deputados! Os carnavalescos podem ser tratados de levianos, de irreverentes, até de apóstatas, mas não de intolerantes. As acusações estão invertidas.

Saudades dos tempos em que se podia berrar Alá-la-ô sem que ninguém se sentisse incomodado. Saudades dos tempos em que uma marchinha podia explicar à moça casadoira que se havia enganado de endereço, e que seria melhor bater à porta de Santo Antônio. Saudades dos tempos em que irreverência carnavalesca ficava por isso mesmo, e tudo bem. Será que essa página despreocupada foi virada para sempre? Será que o Brasil ingênuo se transformou numa gigantesca seita?